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quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Recordando João Nogueira


No primeiro ano do Projeto Pixinguinha, em 1977, uma aula de samba com João Nogueira e Cartola

Ele se definiu como “sambista de calçada”: não era do morro, não foi forjado pela tradição das escolas de samba e tampouco era da zona sul carioca, com o berço de classe média.

João Batista Nogueira Júnior – ou, simplesmente João Nogueira – cantava o que via nas ruas suburbanas do Rio de Janeiro, a boemia dos botequins, a malandragem, as histórias cariocas e também os sentimentos humanos com a musicalidade inata dos grandes sambistas, influenciado pelo som de Wilson Batista, Geraldo Pereira e Noel Rosa.

Neste ano, completam-se 17 anos da morte do intérprete e compositor. Ele partiu no dia 5 de junho de 2000, aos 58 anos, vítima de um enfarte. Seu legado conta com uma rica discografia de 18 discos-solo e outras participações em lançamentos coletivos e mais de 300 composições – a maioria gravada por ele mesmo, mas também interpretadas por nomes como Clara Nunes, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Beth Carvalho, Alcione e outros. João Nogueira deixou quatro filhos, sendo um deles seu herdeiro musical: Diogo Nogueira.

João Nogueira nasceu no dia 12 de novembro de 1941, e cresceu no meio do samba e do choro: seu pai, com quem compartilhou o nome, era violonista e chegou a tocar com Noel Rosa. A casa da família, no Méier, zona norte da capital fluminense, era frequentada por Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Donga e João da Baiana. João Nogueira deu seus primeiros acordes no violão para acompanhar o pai, que morreu precocemente, quando o sambista tinha apenas dez anos.


A ausência do pai levou João a trabalhar como vitrinista, vendedor e bancário. Mas nunca se afastou da música: desde os 15 anos, João compunha sambas para os blocos de carnaval do bairro. O sucesso veio no início da década de 70: o primeiro álbum, que levou seu nome, foi lançado em 1972. Mas só em 1974, quando lançou o segundo disco, “E Lá Vou Eu”, trazendo os sucessos “Batendo na porta”, uma ode à escola de seu coração, a Portela, e “Sonho de bamba”, composta junto com o grande parceiro Paulo César Guimarães, o som de João Nogueira explodiu.

Além de enfileirar clássicos como “Poder da Criação”, “As Forças da Natureza”, “Espelho”, “Nó na Madeira”, “Mineira”, “Súplica”, “Eu sei Portela”, João Nogueira marcou posição na defesa dos artistas nacionais e pela valorização do samba.

O Clube do Samba, criado por ele, Alcione, Martinho da Vila e Beth Carvalho em 1979, teve a sua casa, no Méier, como primeiro endereço. O nome do movimento batizou, inclusive, um dos discos de João. Por ali passaram sambistas de várias gerações, compositores das escolas de samba e intérpretes. O bloco de carnaval do Clube do Samba também foi lançado, levando, todos os anos, para a Avenida Rio Branco a tradição do ritmo e as canções dos velhos carnavais.

João Nogueira foi mais que um compositor e letrista refinado: ele era também um cantor marcante, de voz grave e aveludada. Inovador, fazia interpretações recheadas de carioquismo, malícia e ritmo. Parte dos críticos consideram João Nogueira como o melhor intérprete de Noel Rosa.

Boêmio inveterado, flamenguista de coração e apaixonado pela Portela, João costumava dizer que em suas composições homenageava as coisas simples da vida, que são a matéria prima dos grandes sambas.

Neste especial do programa Samba na Gamboa, exibido pela TV Brasil, Diogo Nogueira homenageia seu pai, cantando os grandes sucessos de João Nogueira.

Os convidados são Paulo César Feital, amigo e parceiro de João, e Gisa Nogueira, irmã do sambista e compositora. Curta:

terça-feira, janeiro 31, 2017

Uma Noite Vermelho e Branco no GRES Andanças de Ciganos


Nesta sexta-feira, 3, a partir das 21 horas, na quadra do GRES Andanças de Ciganos, a simpática escola de samba da Cachoeirinha realiza a sua aguardada “Uma Noite Vermelho e Branco”, com a participação especial de Quinho do Salgueiro, Rebeca Pinheiro (mulata de ouro do carnaval carioca) e Cris Alves (musa da bateria do GRES Acadêmicos de Salgueiro).

Entre as atrações locais vão estar presentes a Bateria Show da Grande Família, a Bateria Vai ou Racha do Andanças de Ciganos e as Rainhas do Carnaval amazonense Rayssa Santos (2016) e Mayla Jéssica (2014). As Ciganas Glamurosas também vão mostrar uma coreografia especial. As mesas estão sendo vendidas a R$ 100 e o ingresso individual, R$ 10, pelo telefone 99202-7605. A quadra dos Ciganos fica na Rua Borba, entre as ruas Parintins e Tefé, na Cachoeirinha.

“Arrepiiiiiia, Salgueiro. Pimba, pimba! Ai que lindo, que lindo!” Quem nunca cantou junto de Quinho esse grito de guerra, dos mais conhecidos da Sapucaí? Pois é. Em 2015, ninguém cantou. Dono de um carisma particular, o cantor saiu da cena carnavalesca como num passe de mágica.

Após abandonar o carro de som da vermelho e branco para se candidatar à presidência da escola em 2014 – e, posteriormente, ter sua chapa impugnada –, o intérprete ficou sem microfone nas mãos para o desfile do Grupo Especial.


Quase três anos depois de sua frustrada busca pelo poder maior da “Academia do Samba”, o puxador admite que sua empreitada política foi um erro.

– Minha candidatura à presidência do Salgueiro foi um devaneio. Nunca mais vou tentar isso. Eu sou cantor, sempre fui, e se hoje eu sou o Quinho, devo ao samba. Não fiquei satisfeito como aconteceu, meu nome é sinônimo de alegria, quero manter sempre assim – confessa Quinho, que por 20 carnavais guiou os sambas do Salgueiro na Avenida.

Em outubro do ano passado, o Salgueiro fez uma grande festa para a escolha do samba enredo do carnaval de 2017. A presidente Regina Celi, chorando copiosamente e muito emocionada, anunciou o samba de Marcelo Motta como o grande vencedor.

A agremiação recebeu várias personalidades do mundo do samba, mas uma delas chamou a atenção de todos. Sempre irreverente, o intérprete Quinho passou quase toda a noite chupando pirulito e falou sobre um possível retorno para a escola:

– Estou com uma saudade imensa dessa escola que me projetou, que me tornou campeão por duas vezes, com sambas inesquecíveis e a presidente Regina Celi mais uma vez provou que é uma mãezona e está me recebendo aqui de braços abertos.

Perguntado sobre o fato de estar chupando um prosaico pirulito, ele explicou:

– Estou numa fase zen. Comigo tudo sempre foi muito intenso, quando fumava charuto, que sempre gostei muito, fumava bastante, quando bebia meu uísque gostava de beber bem, mas agora estou numa fase de beber uma água, uma coisa mais zen e estou curtindo um pirulito.

É essa nova fase zen do grande intérprete que os manauaras vão poder conferir na próxima sexta feira, na quadra do GRES Andanças de Ciganos. Todo mundo lá.

O conselheiro come...


Por João Ubaldo Ribeiro

Quando eu era estudante em Salvador, tinha sempre um colega ou professor especialista em histórias sobre Ruy Barbosa, a maior parte delas com certeza inventada. Não pode ser verdadeira, por exemplo, a anedota segundo a qual ele chegou a Londres e publicou um anúncio no Times: “Ensina-se inglês aos ingleses”. Também não boto muita fé em que ele se distraía arrolando dezenas de sinônimos para “chicote” ou “prostituta”, embora até hoje existam muitos conterrâneos meus que se aborrecem com quem desmente essas e outras alegações.

Mas há histórias sobre ele em que acredito. Uma delas, aliás, nem o tem como protagonista, mas, sim, sua mulher. Dizem que, procurado para dar um parecer ou realizar um trabalho qualquer, Ruy Barbosa, como acontece com muitos intelectuais, não costumava puxar o assunto do pagamento. E contam que, depois de ver o marido explorado com frequência, a mulher dele chamava o visitante para uma conversinha, na saída. Perguntava se tinham acertado alguma remuneração e, como a resposta era quase sempre negativa, ela, delicadamente, pedia ao visitante que voltasse e combinasse um pagamento.

– O conselheiro come... – explicava ela.

Pois é, o conselheiro comia. E eu, apesar de não ser nem conselheiro nem Águia de Haia, também como. Mas creio que há muita gente que acha que escritores, de modo geral, não comem, nem precisam de dinheiro para nada.

Como tudo mais, deve ser culpa da imprensa, que costuma falar em escritores de best-sellers internacionais, os quais ganham dois milhões de dólares por mês, papam nove entre cada dez estrelas de cinema e têm vastas coleções de carros e relógios de luxo.


A verdade, ai de nós, é que a maior parte dos escritores, não só aqui como no mundo todo, tem que se virar de várias formas para conseguir viver modestamente.

Acho que foi o Paulo Francis que se queixou, já faz algum tempo, do volume de trabalho de graça que aqui esperam dele. Agora me queixo eu. O Brasil, me parece, é campeão nesse tipo de prática. As pessoas esperam que o escritor trabalhe de graça o tempo todo e ficam grandemente ofendidas quando ele se recusa.

Há poucos dias, um grupo de estudantes universitários passou para mim a tarefa que lhes tinha sido incumbida pelo seu professor de literatura brasileira e, como eu não concordei em fazer o trabalho por eles, ficaram aborrecidíssimos e só faltaram xingar toda a minha árvore genealógica. Para não falar que, mesmo que eu quisesse fazer o trabalho, não saberia responder a perguntas do tipo “como caracterizar sua inserção no contexto da literatura brasileira pós-moderna”.

As encomendas de trabalhos escolares aparecem mais ou menos a cada mês. Já originais de livros para meu exame chegam todos os dias. A impressão que tenho é que a maior parte dos autores deseja que eu largue tudo o que estiver fazendo, leia sofregamente os originais, adore tudo, escreva um prefácio arrebatado e edite o livro – após o que ele passará a ganhar dois milhões de dólares por mês, a papar nove em cada dez estrelas de cinema e, enfim, viver essa vidinha de escritor.


E, na verdade, a pessoa não quer uma opinião sincera, como sempre alega. Quer, o que, aliás, é natural, receber a confirmação de seu talento. Mas, se eu fosse ler todos os originais que me surgem, não faria outra coisa na vida. Além disso, tenho muito pudor de dar opinião sobre o trabalho alheio, não me acho qualificado. E fico sem graça e me sentindo culpado porque não posso ler os originais. Não é justo, pois não posso mesmo, mas é o que acontece.

Entrevista é outro trabalho de lascar. Parece-me que a entrevista devia ser destinada a obter informações que ainda não tenham sido tornadas públicas. Por exemplo, todo mundo que já ouviu falar de mim sabe que eu sou baiano e moro no Rio. Contudo, a esmagadora maioria dos entrevistadores começa perguntando onde nasci e se ainda moro em Itaparica. Uma repórter iniciou sua entrevista perguntando se eu era escritor.

As perguntas são invariavelmente as mesmas e podiam ser respondidas com uma olhada nos arquivos do jornal ou revista, mas eu tenho de dar a entrevista e, novamente, trabalhar de graça. Não aguento mais contar que livros publiquei, que gosto de escrever de manhã, que aprendi inglês quando era menino, que nasci em Itaparica e passei a infância em Sergipe etc. etc. etc.

No caso da televisão costuma ser pior. Todo mundo que trabalha em televisão, aqui neste país onde ela é das coisas mais importantes que existem, se acha o máximo porque trabalha na televisão. A síndrome de Bozó, do Chico Anysio, assume várias formas. Os seguranças tratam a gente como lixo, devendo dar-se por felicíssima por ter a chance de aparecer na tevê. Para trabalhar de graça, a gente tem de comparecer ao estúdio, identificar-se, botar crachá, ficar esperando e obedecer ordens estranhas, tais como não olhar para a pessoas com quem se está falando, mas para a câmera.


Uma vez me fecharam num cubículo durante um tempo interminável e aí, amedrontado, fugi. De vez em quando, alguém fica indignado porque uso óculos e dá reflexo, ou porque sou careca e também dá reflexo, quase me obrigando a pedir desculpas por existir.

O interessante é que, se o camarada é amigo do dono do armazém ou da quitanda, não lhe ocorre pedir para fazer a feira da semana de graça. Afinal, trata-se de um negócio, sobrevive-se daquilo. O escritor e o jornalista também sobrevivem de seu trabalho, mas parece que ninguém acredita nisso. Volta e meia sou levado a crer, pelo jeito imperioso com que frequentemente me intimam a trabalhar de graça, que acham que recebo um estipêndio do governo para exercer essas funções.

Quando, certa feita, aceitei pagamento para escrever e assinar um anúncio, caíram de pau em cima de mim e dos outros que toparam o mesmo serviço, como se tivéssemos vendido nossas santas e puras almas ao diabo. Sei que talvez fizesse muito melhor figura de escritor se vivesse bebum, esmolambado e tomando uns trocados emprestados aqui e ali. Mas, infelizmente, me falta vocação, devo ser um falso escritor, nem milionário nem miserável.

domingo, janeiro 29, 2017

T5 Jamaica bate o Vila Mamão e conquista o Peladão Brahma diante de 27 mil pessoas


Por Camila Leonel

Com inteligência e habilidade, o T5 Jamaica, da Compensa, conquistou o Peladão Brahma ao vencer o Vila Mamão por 3 a 1, gols de Sid, Brauli e Rafael. Claudinho descontou para o Vila Mamão. A partida final foi prestigiada por mais de 27 mil pessoas, em uma inquestionável sucesso de público.

Como não poderia deixar de ser, o título foi muito comemorado pelos jogadores e comissão técnica do T5. "Estou há dois anos no time, perdemos uma final e agora ganhamos. Então foi uma grande felicidade hoje, na Arena, com tanta gente assistindo, uma maravilha. O Peladão é tudo aqui para o futebol do Amazonas", destacou o jogador Raílton 'Gatinho', do T5 Jamaica.

Para o treinador do time campeão, o título foi fruto de um trabalho longo. "Estamos treinando há sete meses, coisa que nem time profissional faz. Só nós que estamos no dia a dia com o time e sabemos o que é preciso fazer para ser campeão. E hoje conseguimos", disse Evanilson Ferreira.

Do lado do Vila Mamão, a resignação com o resultado. "O time deles estava com mais vontade do que a gente, e foi o vencedor", desabafou Daniel, o treinador do vice-campeão.

O jogo

Movimentação não faltou no primeiro tempo da final da categoria principal entre Vila Mamão e T5 Jamaica. O primeiro a colocar fogo no jogo foi o Vila Mamão com Pedrinho saindo em velocidade pelo meio do campo no primeiro minuto de jogo. Parado com falta, Claudinho cobrou, mas a bomba foi defendida pelo goleiro Ian, do T5 Jamaica. Aos três minutos, novamente Claudinei chegou soltando uma bomba em direção ao gol adversário, mas o goleiro defendeu novamente.

Mesmo com um começo mais intenso do Vila Mamão, quem abriu o placar foi o T5 Jamaica. Maik, ao cobrar falta, rolou a bola para Thiaguinho tocar em Sid. O camisa oito  de fora da área chutou um balaço de primeira e a bola parou no fundo da rede. T5 1 a 0.

Atrás no placar, o Vila Mamão se lançou ao ataque. Com a forte marcação do T5, o jeito era apostar em jogadas individuais. Aos 12 minutos, Iran fez bela jogada individual e mandou para o gol, mas Ian salvou o T5 mais uma vez.
Outro lance de perigo aconteceu aos 24 minutos, com Irla chutando colocado de fora da área. A bola entraria no ângulo se não fosse a bela defesa de Ian.

No segundo tempo, o ritmo de jogo diminuiu, as equipes mais cautelosas evitavam dar muitos espaços para os adversários. Isso durou até os 10 minutos quando o T5 começou a crescer no jogo e pressionar. E a pressão resultou em gol. Com 13 minutos do segundo tempo, Michael cruzou da direita para Brauli cabecear no segundo pau. O goleiro do Vila Mamão até tocou na bola, mas ela já havia ultrapassado a linha do gol. T5 2 a 0.

Com a vantagem no placar, o T5 Jamaica passou a administrar o jogo. O Vila Mamão até tentava esboçar uma reação como aos 27 minutos após jogada de Claudinho para Paulinho, mas faltou alguém para concluir a jogada. O T5 jogando no contra ataque quase amplia primeiro com Thiaguinho e depois com Rafael, mas o goleiro evitou  os gols.

Aos 33 minutos o juiz marcou pênalti para o Vila Mamão. Claudinho bateu e descontou. Dois minutos depois quem foi derrubado na área foi o jogador do T5 Jamaica. Pênalti. Rafael cobrou e fez para o delírio da torcida que já gritava é campeão.  O placar seguiu inalterado até o fim, restando apenas a festa para toda a torcida da Compensa

sábado, janeiro 28, 2017

“Tem dinheiro. Se não roubar, dá pra brincar”, é tema da 31ª Banda da Bica


A Banda Independente da Confraria do Armando (BICA) completa 31 anos e deve realizar a tradicional festa de carnaval no dia 18 de fevereiro. O bloco desce a rua 10 de Julho, no Centro Histórico de Manaus, a partir das 15h até 00h. A expectativa de público é de 70 mil pessoas.

Com o tema “Tem dinheiro. Se não roubar, dá pra brincar” – inspirado em um bordão que ficou conhecido nas eleições para Prefeito de Manaus de 2016, a banda traz a tradicional crítica à situação política do país. “A banda da BICA sempre faz crítica do cenário político”, comentou uma das organizadoras e dona do bar, Ana Cláudia.

Diversas apresentações devem animar os milhares de foliões. Segundo a organização, devem se apresentar na BICA, a bateria da escola de samba Reino Unido da Liberdade, o bloco do Cauxi Eletrizado, a Orquestra Manaus Frevo e a Banda do Adal, trazendo as tradicionais marchinhas de carnaval.


Os ensaios (esquentas) irão começar no dia 2 de fevereiro, e devem continuar nos dias 9 e 16 do mesmo mês.

Recentemente homenageado com o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas, o Bar do Armando foi fundado na década de 1970 pelo português Armando Dias Soares, que chegou a Manaus em 1953 e morreu em abril de 2012, aos 77 anos.

“É uma banda muito importante da cidade de Manaus que tem como característica manter as marchinhas de Carnaval. E outra tradição é que é uma banda segura, as pessoas vão confiantes de que vão brincar, e tem sido assim durante os 30 anos", afirmou a filha do Armando Soares, Ana Cláudia.

Conheça abaixo as duas primeiras marchinhas da BICA que já estão tocando nas rádios:



Marchinhas: tradição ou preconceito?


Por Guilherme Franco

Muito antes dos sambas-enredo das escolas de samba e dos trios elétricos fazerem sucesso, quem animava os foliões eram as marchinhas de carnaval. Alegres e fáceis de aprender, elas exprimem espírito das festas de rua ao mesmo tempo que fazem crônicas breves de seu tempo, se incorporando à cultura musical do país.

O auge da marchinha coincide com o auge do rádio, entre as décadas de 1930 e 1960, antes que a televisão começasse gradualmente a ocupar espaço na criação de modas e tendências associadas à música. Desde as primeiras composições, na década de 1920, as estrofes eram cheias de duplo sentido, deboches e em alguns casos, preconceitos.

A historiadora Rosa Araújo, juntamente com o jornalista Sérgio Cabral, fez uma pesquisa na qual ouviram mais de 1.300 composições entre as décadas de 1920 e 1970 para criarem o espetáculo teatral “Sassaricando: e o Rio inventou a marchinha”. Como verdadeiras crônicas do cotidiano da época, as marchinhas abordavam praticamente todos os assuntos: comportamento, vida doméstica, família, economia, clima, serviços urbanos, história do Brasil, entre outros.

De acordo com ela, não havia temática proibida à época quando o assunto eram as marchinhas de carnaval, o que valia era a criatividade e a brincadeira. As canções eram como cartuns, uma maneira rápida e vívida de cristalizar um aspecto engraçado ou paradoxal de uma situação qualquer.

“Elas faziam a crônica dos temas cotidianos com sarcasmo e bom humor, de tudo que atrai a atenção do povo. Não havia preocupação com questões político-sociais. No carnaval tudo é festa e alegria, pois são dias em que o Brasil está de perna para o ar”, explica.

Segundo a historiadora, as sátiras estavam adaptadas ao contexto político do momento. “Naquele período ninguém tinha noção do politicamente correto, o feminismo estava nascendo e o racismo era velado. No entanto, as pessoas sabiam que existiam esses preconceitos, mas foram noções que se desenvolveram com mais clareza no século XXI”.

Rosa Araújo entende que as marchinhas de carnaval ainda vão animar por muitos anos os foliões. “Elas são eternas, um patrimônio nacional. Serão sempre bem-vindas, pois retratam a história do Brasil”, crê.

Entre as marchinhas mais conhecidas com viés preconceituoso estão “Cabeleira do Zezé“— em que a homofobia está presente ao se perguntar se o “Zezé” é “transviado” e mandando cortar seus cabelos — e “Maria Sapatão” — em que se confunde identidade de gênero e orientação sexual. No caso da marchinha “O Teu Cabelo Não Nega”, música da década de 30, o verso “Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata eu quero o teu amor” é ilustrativo de um racismo nada implícito.

Para a militante feminista e autora do blogue “Que Nega é Essa?”, Aline Ramos, o fato das letras terem sido criadas num contexto político diferente do atual não significa que elas eram aceitas pelos grupos minoritários. “A diferença está na maneira em que essas pessoas se organizavam para reivindicar seus direitos e apontar o preconceito. Precisamos encarar as marchinhas como dispositivos culturais com forte poder de mensagem. E se essa mensagem violenta um grupo social de algum modo, ela deve ser revista”, opina. “Homofobia, racismo, transfobia e machismo matam do mesmo modo que matavam no passado”, completa.

Aline aponta os novos blocos de rua como um fator que pode ganhar força e se diferenciar das letras compostas nas últimas décadas. “Atualmente, esses blocos não possuem um apelo popular grande, mas são manifestações que estão surgindo de grupos que não estão satisfeitos com o que está estabelecido. Imagina que legal estar no bloco das negas empoderadas em vez do bloco da nega maluca?”, conclui.

quinta-feira, janeiro 26, 2017

Uma explicação medianamente desnecessária


Em maio de 2011, ou seja, dez anos depois de ter lançado com sucesso um livro contando a gênese da música eletrônica (“Funk, a música que bate”, duas edições esgotadas, de 3 mil exemplares cada uma), resolvi fazer um post ironizando a baixa aceitação do gênero aqui na taba.

Para minha surpresa, dezenas de idiotas de plantão não entenderam o espírito da coisa e começaram a me espinafrar por meio de comentários preconceituosos, sem eira nem beira.

Além de me chamarem de gordo, feio e pobre (qualidades morais que nunca neguei!) e de morar no meio de índios (da tribo dos Papacus, sempre é bom lembrar...), começaram a achar que sou um “inguinorante” musical.

Porra, para um moleque que era DJ com 17 anos e ouvia Kraftwerk desde os quinze, isso soou como uma infâmia.


No início, achei divertido – e publicava os comentários. Com o tempo, virou um pé no saco – e comecei simplesmente a informar ao blogger que aquilo era spam. Foda-se.

Sim, porque a maioria dos comentários era assinada por um tal de “anônimo”. E de anônimo, já basta minha conta numerada na Suíça.

Confesso que não sei lidar com idiotas de plantão – sequer sei como eles vêm parar aqui no meu mocó, já que faço de tudo para mantê-los afastados.

Desconfio – sem poder provar – que é gente acostumada a transitar com desenvoltura na cracolândia virtual das chamadas redes sociais (facebook, whatsapp, google +, instagram, et caterva), em que o xingamento é publicado em tempo real.


Aqui no blogger, entretanto, o buraco é mais embaixo. Os comentários, negativos ou não, aguardam o moderador do blog para serem publicados.

E, como qualquer sujeito hedonista que adora compartilhar informações, eu publico ou não.

Dito isso, vamos entrar em um acordo: quem ficar puto com as minhas postagens, que guarde suas críticas bem escondidinhas no olho do cu e me esqueça completamente, já que não dependo de seus “likes” para ser feliz.

Sem contar que também não quero ser responsável pela sua frustração intelectual de retornar ao post diariamente e constatar que sua “crítica maravilhosa” não foi publicada.

Perca tempo com isso não, mainha... Vá dar duas horas de cu com o relógio parado, painho... Procurem o que fazer ali na esquina, mas me deixem em paz, please!

Existem 580 milhões de blogs na internet. Encontrem um pra chamar de seu, mas me errem, carálio!...

Now, quem tem senso de humor e sabe separar o joio do trigo, vai continuar sendo bem-vindo ao mocó. É para eles que continuo escrevendo. Simples assim.

Aviso aos meus queridos navegantes!

Eu, Iran e Marlon no primeiro esquenta da Banda da Caxuxa

Fiquei quatro meses sem aparecer aqui no mocó por que estava envolvido em uma série de projetos. O maior deles, em importância, era ressuscitar o site Candiru, o único portal de humor da cidade (os outros também são de humor, mas se acham sérios...). 

Por enquanto, a experiência está sendo bem-sucedida. Se quiserem conferir, acessem aqui.

Entre os demais projetos estava publicar dois novos livros ainda este ano, um sobre os 60 anos do Festival Folclórico do Amazonas e outro sobre os 35 anos do Carnaval de Educandos, além de copidescar um inédito (todo manuscrito) livro de crônicas do meu dileto amigo Moacir Andrade, falecido abruptamente no ano passado.

O livro sobre o festival já está em fase de revisão, o do carnaval está andando e o do Moacir Andrade ainda está nos primeiros passos porque muitas vezes tenho que adivinhar o que sua caligrafia octogenária estava querendo dizer. Choses.

Por enquanto, é isso. O New York Times informará.

Ah, e que 2017 seja pior do que 2018, mas infinitamente melhor do que 2016.

Vila Mamão é o representante da Zona Sul na final do Peladão


Depois de trinta anos de espera, o Vila Mamão F.C., de São Francisco, vai disputar sua primeira final no maior campeonato de futebol do planeta, segundo o jornal londrino The Guardian, que teve mais de 500 clubes na disputa desse ano. O jogo será realizado neste sábado, na Arena da Amazônia, a partir das 15h. O adversário da Vila Mamão será o T5 Jamaica, da Compensa, campeão do ano passado.

No último sábado, 21, o campo do Clube da Petrobrás ficou pequeno quando Vila Mamão F.C e Liga do Aleixo/Náutico Clube disputaram a semifinal que daria a vaga ao primeiro finalista da categoria principal. Empurrado pelos gritos e cantos da torcida, o Vila Mamão acabou superando o adversário por 2 a 0 e garantindo a inédita passagem à grande final do Peladão.

“É um sonho de infância. Graças a Deus nós chegamos nessa final, devido à união de toda a comunidade da Vila Mamão. O time tem mais de 30 anos de Peladão e hoje tá fazendo história”, resumiu o treinador da equipe, Daniel Ricardo.

Sem perder a humildade, o Vila Mamão F. C. está cada vez mais confiante de erguer o título de campeão e coroar uma temporada de superação do time. “A união do grupo é o diferencial. Começamos mal nas primeiras rodadas do Peladão, os dois primeiros jogos foram empate devido ao time não se conhecer. Tivemos várias divergências de vaidade, mas no final o time se uniu e estamos indo pra decisão com o coração no bico da chuteira”, diz Edlúcio, um dos cartolas do clube.


Emily Moisa e Renata Penha (finalistas) e a nova rainha do Peladão, Thais Bergamini, vão participar da festa na Arena da Amazônia

Conhecido pela beleza de suas candidatas – Kelly Taline, Bruna Dayane, Camila Vieira, Paloma Albuquerque, Rossicléa Castilho, Luana Batista, Ana Paula e Luana Silva, entre outras, que sempre ficaram entre as 18 finalistas do concurso de Rainha do Peladão –, o Vila Mamão F. C. agora quer ficar conhecido pelo seu bom futebol. Por enquanto, a equipe contabiliza nove vitórias e apenas dois empates.

Na 1ª Fase, o Vila Mamão empatou com o Amigos do Beco (1x1) e com o Jardim Brasil (0x0), e derrotou o Locomotiva (5x0) e o Amigos do Roger (4x0). Na 2ª fase, foram quatro vitórias seguidas: 2x1 no Sete Quedas, 5x0 no Inefável, 2x1 no Unidos do Bueiro e 1x0 no Treze de Maio. Nas oitavas de final, o Vila Mamão fez 1x0 no Núcleo 5. Nas quartas de final, 3x0 no Caça Barca. Na semifinal, 2x0 no Liga do Aleixo/Náutico Clube.

Entre os destaques do time estão o goleiro De Leon (que já defendeu dois pênaltis), Parintins (ex-São Raimundo), Claudinho (ex-São Raimundo), Iran, Serginho (ex-campeão do Peladão pelo Alvorada) e Rossi (ex-capitão de equipe do Compensão). Entre os torcedores fanáticos estão Ivancy Wilkens (ex-campeão amazonense de jiu-jitsu) e Áureo Petita (primeiro craque do Peladão pelo Murrinhas do Egito, em 1974).

Hegemonia da Zona Sul


Nesses 43 anos, a taça de campeão do Peladão foi conquistada apenas duas vezes por times do interior do Estado (Furacão, em 1985, e Entram, em 1993 – ambos de Manacapuru). Nas outras 41 edições, o título de melhor equipe de pelada ficou em Manaus, e desse total, o grito de “é campeão!” foi ouvido 21 vezes nos bairros da Zona Sul.

A Zona Sul não abriga somente o maior número de títulos. É de lá também o time mais vitorioso da história do Peladão. A máquina de levantar troféus do maior campeonato de pelada do mundo atende pelo nome de Arsenal. A equipe da Colônia Oliveira Machado já foi campeã seis vezes. E em cinco edições bateu na trave, ficando com o vice-campeonato. Uma delas foi em 2012.

Se o Vila Mamão conquistar esse título inédito vai se juntar a uma pequena galeria onde já se encontram Arsenal, Estrela (Praça 14, um título), Estalo (Santa Luzia, dois títulos), Arranca Toco (Educandos, um título), Tuna Luso (Praça 14, três títulos), Zaire (Cachoeirinha, um título), Transmiro (Praça 14, um título), Janjão Gouvea (Praça 14, um título), Park Club (Cachoeirinha, um título), União da Ilha (Manaus Moderna, dois títulos), Alternativa (Petrópolis, um título) e Martins Vical (Adrianópolis, um título). O bicho vai pegar.

quinta-feira, setembro 29, 2016

Os 10 melhores produtos das Organizações Tabajara


1. BARANGABA TABAJARA – O campeão do ranking é um produto que transforma o pior jaburu do Universo na maior gata do mundo – tudo isso com apenas uma gota! O segredo? Dá uma olhadinha na fórmula do elixir... Para agradar os paladares mais exigentes, o produto está disponível nos sabores “mocréia”, “tribufu” e “cão chupando manga”.

2. CASA DA MULHER GOSTOSA CARENTE – Não é propriamente um produto, mas uma tocante obra assistencial que sensibilizou nosso júri. Todo ano, a instituição recebe de corpo e alma – principalmente corpo – as gostosas mais carentes do Brasil. E você pensando que as Organizações Tabajara não tinham preocupação social...

3. PERSONAL PINTOVISION – Sabe aquele seu amigo horizontalmente avantajado que não consegue ver o “documento” por causa da pança? O Personal Pintovision é o presente ideal para contornar esse drama. Dois retrovisores acoplados à zona do agrião dão uma visão privilegiada do dito-cujo. É o preferido do Bussunda: “Eu até usaria, mas não preciso por causa do tamanho avantajado do meu bilau!”

4. CAMAPULTA TABAJARA – É o antídoto perfeito para evitar a ressaca da Barangaba. Já pensou se você toma o goró milagroso, mas o efeito acaba e você acorda do lado do maior jaburu? Essa invenção joga o problema pra longe – literalmente – e ainda dá direito a uma fronha para você tapar a cara da mocréia e partir sossegadão pro abraço.

5. VÍDEO “COMO GANHAR MULHERES SENDO FEIO, BURRO, POBRE E SEM CARRO” – Para a Tabajara, a arte da conquista é uma ciência, baseada em técnicas como a autopiedade coativa (que inclui frases como “Dá para mim, pelo amor de Deus!”) e a pentelhação repetitiva de alto impacto (cuja ênfase é lascar petelecos na orelha da gostosa até ela dar para você). Nós aqui da redação não precisamos disso (somos lindos!), mas resolvemos incluir o produto para homenagear os cassetas...

6. MARIDOCARD – É o primeiro cartão de milhagem para maridos: trocar a fralda do bebê vale 5 pontos, levantar a tampa da privada mais 10 e assim por diante. A tortura vale a pena: com 1.500 pontos acumulados, dá para despachar mulher e sogra para uma colônia de férias que está bombando – lá no Iraque. Definitivamente, é um estouro!

7. MELECA DISFARCEITOR – Tem coisa mais chata do que tirar catota no trânsito e ser zoado pelo motorista do lado? A pagação de mico acabou com esse superconjunto de papelão retrátil que despenca do teto quando você quer dar um trato na napa. Privacidade total na higienização do salão e anexos. Além de limpar o nariz, dá para tirar cera do ouvido, arrancar alface do dente...

8. DOG BIMBADA REPELEITOR – Sabe aquele cãozinho que insiste em transar com sua perna toda vez que o vê? Pois essa invenção boa pra cachorro vai acabar com a graça do totó tarado. Os espetos de ferro acoplados a sua perna vão traumatizar o bichinho e ele nunca mais vai pensar em acasalamento pernal. Dependendo do alcance das lanças, ele não vai mais pensar, nem latir, nem respirar...

9. PERSONAL CHUVA – Esse produto é para quem se dá mal por confiar na previsão do tempo. Com o Personal Chuva, ninguém precisa ficar carregando o guarda-chuva no maior solzão com aquela cara de mané. Dá pra criar o seu próprio toró – e ainda por cima escolher o melhor aguaceiro para cada ocasião: “garoa”, “chuvisco”, “temporal” e “chovendo pra cacete”.

10. OLHO MÁGICO DE CAIXÃO – Uma criação do outro mundo para fechar o nosso top 10: com essa revolucionária invenção, o defunto pode enfim se defender da ameaça de assassinos homicidas que queiram invadir seu paletó de madeira – quem sabe até para matá-lo! Não dá para descuidar da segurança nem morto...

quinta-feira, setembro 22, 2016

Tudo em mim é Manaus


Marcelo Ramos (*)

Tudo em mim é Manaus.

Manaus nascida da Cidade da Barra do Rio Negro no dia 24 de outubro de 1848.

Manaus que nasceu em mim no dia 29 de agosto de 1973, na Santa Casa de Misericórdia. Manaus que caminha comigo há 42 anos e que ao meu lado irá me acompanhar até o último dia da minha vida.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que me viu criança, que jogou bola comigo no asfalto quente da rua, que soltou papagaio comigo com um carretel de linha dez e cerol de vidro pilado, que comigo brincou de manja esconde e que até hoje me diverte e me encanta.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que me apresentou o Teatro Amazonas, o Mercado Adolpho Lisboa, a poesia do Thiago de Mello, a música de Candinho & Inês e do Pereira, a Praça da Saudade (onde entrei pela primeira vez num avião), o encontro das águas, o jaraqui frito do Joca e do Galo Carijó, a Praia da Ponta Negra.

Manaus das suas caras, gostos, sons e encantos.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que sentiu comigo o deslumbre do meu primeiro amor, que chorou comigo a minha primeira saudade.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que me consolou na morte do meu velho Umberto e da minha pequena Maria Carolina, que me deu a Dona Graça, o Beto, a Glenda e o Rodrigo, que me apresentou a minha amada Juliana e colocou no meu colo o Gabriel, a Marcelinha e o José Umberto. Manaus dona dos meus amores.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que me ensinou as primeiras letras e viu nascer a minha paixão pela leitura, que raspou minha cabeça quando fui aprovado no vestibular de Direito da UFAM. Manaus da alegria do meu primeiro escritório de advocacia. Manaus que me deu a felicidade de assistir a formatura dos meus três irmãos.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que viu nascer meu entusiasmo militante, que me deu dois mandatos de vereador, um mandato de deputado estadual e que, mesmo diante de tantas dificuldades e contra forças tão poderosas, nas eleições de 2014, teimou em me entregar a confiança de 175 mil dos seus filhos.

Tudo em mim é Manaus.

Manaus que eu sonho um dia me dar uma chance de retribuir tudo que recebi nesses 42 anos de vida. 

A chance de oferecer aos manauaras um transporte público rápido, eficiente e confortável. 

A chance de dotar a cidade de rede de esgoto que preserve a saúde do nosso povo e salve a vida dos nossos igarapés. 

A chance de melhorar a qualidade do atendimento básico de saúde e educação. 

A chance de espalhar a rede de creches, em especial nas áreas mais humildes, para que as manauaras deixem seus filhos com segurança enquanto trabalham. 

Manaus que está em mim e que a ela desejo servir, com determinação e responsabilidade.

Tudo em mim é Manaus.


(*) texto publicado na sua página pessoal no FB, no dia 24 de outubro do ano passado, quando Manaus comemorou 346 anos

segunda-feira, setembro 19, 2016

“O que é antigo é velho, o que é velho não serve mais”


Roberta, Rui Machado, Sandra, Bob Carlos, Elisa, Rita, João Bosco Chamma e Mazé Chaves

José Alberto Tostes, de Santana (AP)

A frase desse artigo foi dita pelo colega, amigo e arquiteto e urbanista manauara, João Bosco Chama, por ocasião do II ARQAMAZÔNIA realizado na cidade de Manaus, no período de 14 a 16 de setembro. A referência dessa citação deve-se a uma longa conversa sobre as questões referentes ao centro histórico da cidade de Manaus.

As reflexões sobre a citação de Chama, nos leva a crer que a desvalorização das áreas centrais na grande maioria das cidades brasileiras, está diretamente relacionada à cultura contemporânea, não se caminha mais com a frequência de antes pela cidade. Vive-se a pressa do dia-a-dia, de um cotidiano dominado pela autoridade do automóvel, então, a pressa é adversa ao sentimento de vivenciar a cidade.

Gradualmente com o passar das décadas e os anos, os centros históricos vem perdendo a sua representação mais efetiva com a cidade. Um dos motivos é a mudança gradual de uma área, que antes tinha um caráter eminentemente residencial para um sentido institucional e comercial, ou seja, as áreas históricas passaram a ter 12 horas de intensidade e outras 12 horas de silêncio profundo. E o que significa esse fato? Representa a perda gradativa de valores, simbologias e de pertencimento com a história do lugar.

Se avaliarmos mais detalhadamente vamos perceber que as maiores representações históricas que vinculam a formação e a gêneses das cidades, está no centro histórico, todavia, o processo de transformação da paisagem da cidade apresenta o preço do desapego com aquilo que é considerado antigo, portanto, está enraizado na cultura brasileira, “o que é antigo é velho, o que é velho não serve mais”, tal afirmação e crítica,  evidencia que temos enormes dificuldades para entender a relação entre o “velho e o novo” entre o “antigo e o contemporâneo ou atual”. Não conseguimos de forma efetiva construir uma relação entre os distintos tempos que envolvem a história da cidade.

Como estudioso, pesquisador, arquiteto e urbanista participei de uma infinidade de eventos ao longo dos anos, um dos fatores que mais me chama atenção, é como está consolidado em nossa cultura o sentimento da negatividade. A quase totalidade das apresentações em eventos evidencia uma cultura negativa, induz indiretamente a juventude, a crer firmemente que não há esperança, tudo é “terra arrasada”. Tal afirmação corrobora para acreditarmos que o amanhã, é impossível, e o passado não existe daí a relação conflituosa sobre a relação com o antigo.

Em diversos países do mundo, principalmente na Europa onde há um legado expressivo da cultura sobre o antigo, tem ocorrido ações e estratégias de incluir o antigo no âmbito de um contexto atual, aliado com as tecnologias, redes sociais e outros níveis de inserção que auxiliam a sociedade, possibilita aos turistas compreenderem que, o antigo é parte da história do lugar, e mesmo com todo o processo evolutivo do tempo presente, esse antigo, gera emprego e renda, contribui para disseminar a cultura de um povo e acima tudo, permite conectar a relação entre passado, presente e futuro.

Um dos exemplos é o próprio Rio Janeiro, a construção do Museu do Amanhã, obra arrojada e de linguagem universal contribuiu para redimensionar uma área que estava decrepita e abandonada pelo poder público e pela própria população, independente de qualquer crítica, que é salutar, houve uma mudança na paisagem. Quando os governos e a própria população abandona a sua história, tais ambientes de grande valor perdem a significação, o que dá vida ao lugar são pessoas, dinamizam e transformam os espaços.


Uma das maiores expressões da cidade de Manaus é o Teatro Amazonas, não há uma só pessoa que chegue a cidade que não tenha o interesse em conhecer o Teatro, portanto, um símbolo do lugar e da expressividade de uma época, mas quando parte dos visitantes e dos próprios moradores se deparam com o entorno, percebem fragilidades do poder público e da própria sociedade.

É comum a presença de drogaditos, bêbados, guardadores de carros e o mercado de sexo. O cenário se trabalhado através de projetos sociais poderia haver maior inclusão desses usuários segregados. Não se deve tratar os excluídos, aumentando a indiferença, mas dar o trato devido com dignidade. Os projetos de arquitetura, urbanismo e paisagismo são eficazes, somente se alcançarem os níveis de integração social, de nada adiante pensar na morfologia e no caráter estético, se o maior sentido que dá vida não for bem equacionado.

Os problemas do centro histórico da cidade de Manaus não são exclusivos dessa cidade, existe em quase a totalidade das cidades brasileiras, porém, evidencia a forma como a sociedade atual se relaciona com lugar, com indiferença, pois o único contato  cotidiano é através das janelas dos veículos, criando um “abismo”, fortalecendo ainda mais a segregação das ruas, dos becos e principalmente dos espaços públicos, aliás, tais espaços tem sido os que mais se modificaram no ambiente urbano brasileiro, pois do lugar do encontro, das relações entre pessoas e grupos sociais, transformou-se no ambiente que esconde o medo dos transgressores urbanos.

A vida nos centros históricos no Brasil não é fácil, o antídoto, é o diálogo institucional, pois essas áreas concentram o que há de melhor e de pior de acordo com a população, mas, para que seja um lugar com qualidade de vida para os cidadãos locais e para os turistas é preciso inverter a lógica em nosso País, “o que é antigo é velho, o que velho não serve mais”.

As boas práticas e experiências de tantos lugares devem servir como fonte inspiradora para que a sociedade não abandone o seu DNA urbano, o lócus de formação de sua história, e acima tudo, compreenda que todos nós começamos de um ponto de partida. E como diz Carlo Levi: “O futuro tem um coração antigo”.


NOTA: Como estudioso, pesquisador, arquiteto e urbanista participei de uma infinidade de eventos ao longo dos anos e um dos fatores que mais me chama atenção é como está consolidado em nossa cultura o sentimento da negatividade. A quase totalidade das apresentações em eventos evidencia uma cultura negativa, induz indiretamente a juventude, a crer firmemente que não há esperança, tudo é “terra arrasada”. Tal afirmação corrobora para acreditarmos que o amanhã é impossível e o passado não existe, daí a relação conflituosa sobre a relação com o antigo.

A arte de enganar os "trouxas"


Por João Bosco Gomes (*)

Esse Simas Pessoa. Ou Careca Selvagem, forma iconoclasta com a qual assina o texto introdutório de seu mais recente livro, “Arte e ciência de jogar dominó”, reunião de quase tudo quanto publicou (“poemas, folhetos, cartazes, envelopes recheados de papéis de todas as formas, anotações, dicas, anedotas, resumos de partidas e até estórias parecidas com histórias”) desde 2010, e que ele lança agora pela sua – dele, Simas – Editora do Autor. Aliás, a Editora do Autor cai na vida junto com outro lançamento, a reedição que o próprio Simas faz daquele não menos desbocado “O Elixir do Pajé”, de Bernardo Guimarães, essa suma escatológica tropical. Quem comprar um, leva o outro na bagagem, de graça.

Nascido em Manaus, em outubro de 1961, poeta das alegorias gráficas, distribuidor de humor, sátira, paródia, macunaímico mais que Macunaíma, descomportado como o diabo gosta, vencedor do 1º Concurso de Poesia Falada da Cachoeirinha, lançador de ambiguidades no discurso à cotê, desfrequentador de rodas e igrejinhas (“eu nunca fiz parte de nenhum movimento”), Simas Pessoa é uma usina de desafinar. Dois pontos. Corais contentes. Fez Engenharia de Sistemas, trabalhou 20 anos no Distrito Industrial e sempre exerceu o gauche.

“O primeiro poema que escrevi foi em 1982”, diz ele. Deste poema, já canabalizando o potencial visual dos “ready made” (“os quadrinhos, as fotos, a ilustração”), Simas disparou o seu livro de estreia, “Dias sem luz e outros poemas amargos”, no ano seguinte. Desdevedor de editor, como até hoje. Mas com duas tentativas, é bom que se aclare. Uma, junto à Civilização Brasileira, recebendo o “não” de praxe. Outra, junto à Brasiliense: “além do não, recebi pelo correio um envelope cheio de panfletos sobre as diretas-já”. Recusado pelas outras, ficou com a sua, a Editora do Autor, onde rege múltiplos instrumentos.

“Como ninguém vive de literatura, fui trabalhar no Distrito Industrial e a escrita ficou em segundo plano”, recorda. “Só fui lançar um novo livro em 1996”. O livro “Forte Apache e a fabulação do Velho Oeste” era um relato biográfico da alegria que teve ao ganhar de presente de Natal de seu irmão mais velho, o também escritor Simão Pessoa, a linha completa dos produtos Casablanca: Forte Apache, Caravana do Oeste, Acampamento Apache, Fazenda Bonanza e Dodge City. “Virei o menino mais invejado da rua porque tinha mais de 100 personagens do Velho Oeste para brincar no fundo do quintal”.

Não que o escritor tenha ficado inativo por quase uma década. Neste tempo, ele participou de recitais de poemas em barzinhos, como Barraka’s Drinks, Clube da Esquina, Notívagos e Bar do Cardeal, teve poemas publicados em algumas antologias do editor Celestino Neto e chegou a lançar, com uma tiragem de apenas 100 exemplares, o poético “Elegia para os pássaros cativos”, em 1994. “Na verdade, o livro fazia parte de um projeto em parceria com o poeta Jorginho Almeida que iríamos apresentar no 1º Concurso de Poesia Falada do Amazonas, promovido pela Secretaria Estadual de Cultura, mas que acabou não rolando”.

A mediania feliz, ou dourada, esse chantilly cremoso que substitui a inteligência na vida brasileira (“este é um país do banal”), eis aí o alvo gostosamente predileto desse poeta cáustico. Não poupar a ninguém, eis a especialidade desse satírico e sátiro afiadíssimo em plena era do padrão por baixo, da mediania dos brejais. “A poesia mais difícil de fazer é a satírica”, diz Simas, lançando algumas pedras de toque para uma (sua) estética, embora diante desse termo de abotoaduras já se possa prever que seu alterego Careca Selvagem oporia uma “Ode à pústula”, por exemplo, com todos os excessos de acentos graves: “Ante tu, ó pústula/ com tua geléia amanteigada de pus...”

Escatológico? Nem importa. “A essência da poesia é política”, afirma. Uma política ao revés, diga-se, “porque a poesia deve ser comprometida com a inteligência”. E essencialmente demolidora. Não é à toa que neste seu novo livro, “Arte e ciência de jogar dominó”, o que menos se vê ou lê é sobre a brincadeira de dominó. O título é apenas uma isca para atrair os adeptos da brincadeira. Na realidade, o poeta escreveu um dicionário enciclopédico de alto coturno. Algo como um Bouvard e Péuchet: a compilação flaubertiana e sem meias-palavras da estupidez humana, tal como é exercida em terras tupiniquins. Eu recomendo.

 

(*) João Bosco Gomes é poeta, cronista, jornalista e ator teatral. Apesar de nascido em Manaus, mora no Rio de Janeiro desde 1976.

Mr. Loverman strikes again


Ontem à noite, já quase indo embora do mocó, minha flor-de-lis me abraça, no estilo face-to-face, e manda um papo reto:

– Ah, amor, faz mesmo quanto tempo que nós estamos juntos nesse estica-e-puxa?...

– Sei lá, minha filha. Sempre fui muito ruim de guardar datas. Só lembro que quando te conheci você tinha 20 anos... – devolvi, com aquela cara de canalha que só um autêntico canalha é capaz de emular.

Ela respirou fundo:

– Seis anos?!... Tudo isso?!... Afeeeeee...


Eu podia ter dito:

– Pois é, meu amor, mas você continua do mesmo jeito que te conheci, parece a mesma garotinha de sempre, cada vez mais linda... yes, vamos encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris, is this love, is this love, is this love, is this love, that I'm feeling?, you are the sunshine of my life, that's why I'll always be around, you are the apple of my eye, forever you'll stay in my heart…

Mas me limitei a um burocrático:

– É... Você está ficando velha...


Ela afrouxou o abraço, começou a rir e, para desespero dos vizinhos, o riso inicial virou uma gargalhada estrepitosa, de assustar cachorros na rua.

– Porra, meu amor, mas você é muito palhaço! – avisou, recobrando o fôlego. – Deve ser por isso que te gosto tanto!

Aí, entrou no táxi “e foi embora deixando um travo de Jack Daniel’s sem gelo na minha garganta, enquanto eu procurava um velho disco de vinil do Cartola escondido na velha petisqueira de todas as minhas ternuras imemoriais” – eu poderia arrematar esse texto se fosse o poeta Diego Moraes querendo catar meninas indefesas via Facebook.


Mas não sou ele – que sempre considerei um querido irmão mais novo – e nem tenho mais idade para esses parangolés afetivo-sexuais que eram recorrentes nos meus verdes negros anos.

Seis anos com minha flor-de-lis... Pois é, carniça, ainda parece que foi ontem. Fazer o que?... So sorry, periferia!

sexta-feira, setembro 16, 2016

Sou um esquerdista desiludido, diz Verissimo


Julianna Granjeia

Em meio às denúncias do mensalão em 2005, o escritor Luis Fernando Verissimo anunciou a morte da “Velhinha de Taubaté”, um dos seus mais conhecidos personagens – a última que ainda acreditava no governo. Em conversa ontem com a coluna, após participar da Pauliceia Literária, na sede da Associação dos Advogados de São Paulo, o autor se definiu como “um esquerdista desiludido” e avisou: se estivesse viva, a “velhinha” apoiaria o governo Temer.

O senhor tem 79 anos e já passou por algumas crises da história do País. Considera essa atual mais grave que as outras?

Nós já passamos por tantas crises, suicídio do Getúlio, Jânio Quadros, cassação do Collor… Todos esses foram períodos muito conturbados, nos últimos 50 anos. Mas uma crise como esta, com posições tão arraigadas de direita e esquerda, acho que nunca tivemos.

O senhor gosta de escrever sobre política?

A gente ter que dar o testemunho sobre o que está acontecendo, comentar o que está acontecendo. Acho que todo mundo tem que ter lado e deixar claro qual é o seu. Eu preferiria escrever sobre banalidades, mas a gente quase que se obriga a escrever sobre essa situação.

E qual é seu lado?

Eu me considero um homem de esquerda, acho que houve um golpe. As novas revelações sobre o Lula são lamentáveis e vamos ver como isso se desenrola.

No que acha que vai dar esse acirramento?

É prejudicial, o ideal seria um entendimento, um congraçamento nacional. O lado bom disso tudo é que os militares não se manifestaram, não intervieram. Olhando por esse lado, a coisa está boa.

Esse radicalismo está causando uma onda de ódio…

Eu recebo muita carta desaforada. Falam para eu ir morar em Cuba, que eu deveria morar na Coreia do Norte, que sou esquerda caviar. Quando recebo uma carta com xingamento, na primeira linha vejo o que é e nem leio o resto.

Acha que temos muitas velhinhas de Taubaté atualmente?

A velhinha de Taubaté foi um comentário naquele momento do (governo do general) Figueiredo (1979-1985), o fim dos governos militares. Então, ela tinha essa função de criticar a falta de credibilidade do governo através de uma ficção, de uma figura inventada. E hoje eu não sei o que a velhinha de Taubaté diria dessa situação toda, acho que ela acreditaria em todo mundo, inclusive no Temer. E estamos cheios de velhinhas de Taubaté por aí.

O senhor é uma?

Penso que não, talvez eu tenha sido no começo do governo Lula. Eu acreditava que haveria mesmo uma mudança na política brasileira. Mas acho que hoje não sou mais, não.

Decepcionou-se com Lula?

Acho que sim, com o PT em geral. Embora entenda que o governo Lula, principalmente o primeiro mandato, foi muito importante em termos de inclusão social. Mas posso me caracterizar agora como um esquerdista desiludido.

E o que o senhor espera para o futuro do País?

É importante ver o resultado das eleições agora. Ver como todas essas questões vão repercutir no nível municipal e o que vai acontecer. Não tenho nenhuma previsão. Acho que teremos tempos difíceis nos próximos anos, é um momento confuso, o Brasil está meio sem direção. O perigo maior é de retrocesso, de todas as conquistas que nós passamos serem negadas e substituídas. Mas sou um otimista, acho que tudo se arranjará.

sexta-feira, setembro 02, 2016

O fim de uma Era


Sonia Zaghetto

Um céu enevoado pairava sobre Brasília nas primeiras horas do dia 31 de agosto de 2016. Nada daqueles dias ensolarados que douram o cerrado: apenas a atmosfera sufocante e seca que traduzia as horas. Debaixo daquele céu, uma Esplanada deserta, melancólica, de ressaca antecipada. Sim, um dia histórico e de reflexão – exceto para o ativismo das redes sociais, onde o clima de terceira guerra mundial continuava de vento em popa.

Pouco depois das 11 horas, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, iniciou a sessão do julgamento de Dilma Rousseff. Às 13h35, tudo estava consumado. Não era apenas o fim do governo Dilma. Chegava ao fim uma era que expôs com toda crueza nossa infantilidade brasileira, nosso despreparo perante os embates da vida, nossa dificuldade em debater com maturidade as questões essenciais da nação.

Não vou atribuir todos os males desta terra ao PT, já que nossa história e ethos nos mostram que malandragem, jeitinho, corrupção e populismo têm lugar garantido desde priscas eras. Entretanto, é inegável que a era petista ampliou o ódio e estimulou algumas práticas que hoje estão plenamente incorporadas ao modo de agir brasileiro. Somadas ao caráter natural de parte da população e ao advento das redes sociais, constituíram um pacote explosivo que resulta na atual face da nossa sociedade.

Nos últimos anos, fomos envenenados. Não foi abrupto, com a boca sendo aberta à força e o cálice tóxico derramado goela abaixo. Não, nada disso. Foi um envenenamento gradual – a cada dia uma gota amarga e cumulativa sendo oferecida com um sorriso nos lábios. Aos poucos o organismo desta pobre Nação recebeu, sem resistência, as gotículas que se converteram no oceano de raiva mal contida que agora nos ameaça. E quando nos demos conta, lá estávamos nós, ventre inchado de ódios, vomitando a mágoa que nos encharcava as vísceras e saía boca afora, violenta e feia.

Atordoados pelo veneno, feridos pelas marcas de um passado ditatorial recente que nos apavorava, muitos acreditaram nas ilusões que viam. E reverenciaram salvadores da pátria que tinham como único objeto de adoração o seu próprio projeto de poder. Nossa gente tão crédula abraçou os discursos demagógicos, os corruptos em pele de cordeiro, os exploradores da pobreza e os que, espertamente, os insuflavam a se odiarem mutuamente.

O modo de agir era sempre o mesmo: pegava-se um problema social pré-existente e, em vez de concentrar esforços apenas em mecanismos positivos para eliminá-lo, açulava-se os brasileiros uns contra os outros. Em vez da educação que liberta, de ações positivas, do incentivo ao respeito mútuo, o país mergulhou na era da vingança induzida pelo debate superficial  e por sofisticadas técnicas de marketing. Curiosamente, a prática contraria uma das mais famosas frases de um ídolo das esquerdas, o pedagogo Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.  Não deu outra: os oprimidos adoraram inverter os lugares.

E foi assim que causas nobres e dignas de atenção – como combate ao racismo, à pobreza, ao preconceito contra homossexuais e a violência contra as mulheres –  tornou-se propriedade exclusiva de um grupo instalado no poder. Aos petistas e seus mais próximos aliados cabia o monopólio da indignação com qualquer problema de natureza social. Souberam manipular muito bem as mentes mais imaturas, dando a elas a sensação de que agora tinham voz e armas para lutar contra a opressão. Não é muito diferente das estratégias de colonização de cérebros utilizada pelo Estado Islâmico. Só mudam os resultados práticos. Quer transformar alguém num homem/mulher bomba real ou virtual? Convença-o que ele é vítima de um sistema, dê-lhe inimigos, faça-o concentrar seu ódio em um alvo específico, assegure a ele que está do lado certo e que suas estratégias – mesmo as mais estapafúrdias – são a maneira adequada de “lutar”.

O  envenenamento de almas converteu os incautos em uma espécie de Peter Pan malcriado que adora expressar, de forma teatral, sua raiva e frustração. Simultaneamente desaprendemos os fundamentos da vida adulta, como o fato de que o sucesso é fruto de esforço, tempo e dedicação; que não há almoço grátis e que o Estado não é uma vaca de miraculosas tetas de onde brotam cédulas e moedas. Para essas mentes infantis, caiu perfeitamente bem um governo que se apresentava como o grande dizimador das desigualdades mediante atos mágicos, escorados em slogans criativos. Seduzidos por memes e frases de efeito repetidos à exaustão, provocações pueris e gestos afetados, tornaram-se instrumentos dóceis de seus manipuladores. Sem jamais se dar conta de que são meros peões de um jogo muito complexo, milionário e perigoso.

Pensar tornou-se dispensável: as opiniões surgiam, prontinhas, no feed de notícias. Bastava curtir e reproduzir. Atos midiáticos tornaram-se um clássico instantâneo. A luta feminista agora tem como símbolos máximos um rastro de menstruação escorrendo pelas pernas, mamas desnudas e sovacos cabeludos exibidos como troféus – sem falar nos relatos rocambolescos que tomam as redes sociais e protestos simplistas contra cartazes de filmes de super herói. Sinceramente, só consigo ver isso como demonstração de rebeldia adolescente. Educar pela reflexão e exemplo ou trabalhar voluntariamente em instituições voltadas para dar suporte a mulheres vítimas de violência talvez não seja algo tão espetacular para colocar no Facebook. Além de que tudo isso consome muitas horas que se pode passar tentando arrumar curtidas e viralização nas redes sociais, não?

E o racismo? Reduziu-se a mantras do tipo “a casa grande surta quando a senzala aprende a ler”, que soa fortemente provocativa e atinge, indiscriminadamente, aos preconceituosos e aos que apoiam a causa embora não sejam diretamente afetados. Suspeito que Martin Luther King discordaria dessa abordagem tosca. Sem a tal educação libertadora, o que temos para hoje é um pessoal que adora se tornar opressor, repito. Foi o caso daqueles que ofenderam um rapaz branco (ó crime!) por haver cometido o pecado de “apropriação cultural” ao usar dreadlocks.

Os exageros da militância infantilizada causaram sérios danos a todas essas causas que merecem atenção. Despertaram antipatia e empurraram muita gente boa direto para os braços de políticos rudes e gurus falastrões, vaidosos e sem o menor bom senso, cuja única vantagem é ter uma suposta coragem de combater os excessos do politicamente correto. Sim, estou dizendo a todos esses guerreiros da justiça social que eles mesmos ajudaram a turbinar os seguidores fanáticos de seus adversários. É o preço que se paga por optar pelo caminho da superficialidade.

No Brasil de hoje já quase não há espaço para o caminho do meio, para os que pensam com calma. É a era dos extremos, na qual se cola na testa alheia, com facilidade e quase displicência, rótulos de todo tipo: reacionário, progressista, retrógrado, opressor, macho indócil, feminazi, coxinhas, petralhas, etc. A criatividade é imensa; a maturidade, não.

Simultaneamente, perdemos nesta terra a delicadeza do gesto, a elegância da expressão, o respeito à opinião diferente e a arte de argumentar. Nas redes sociais, tornou-se cada vez mais natural cuspir na face alheia os mais cabeludos palavrões e as mais duras agressões. Aos poucos, a Nação trouxe para a vida real as escarradas virtuais, a impaciência generalizada e esse ódio cada vez mais onipresente.

Hoje somos um país de crianças mimadas e mal-educadas, que reagem com histeria à menor contrariedade. Infantes desacostumados ao que dá estofo às civilizações: estudo, trabalho e altos valores.

Desaparece dentre nós o hábito da leitura mais longa. Qualquer texto de mais de cinco linhas torna-se “textão” e gera a inevitável e quase elogiada preguiça. Preguiça que, aliás, também se tem diante do exame da argumentação alheia. Tudo é cansativo. Sem o hábito da leitura, do estudo sério e da reflexão, torna-se compreensível a adesão ávida às armadilhas da falsa retórica.

Ah, pátria minha, que compaixão me toma ao pensar em ti. Uma terra tão rica, cuja fertilidade Pero Vaz atestou logo na chegada: em se plantando, tudo dá… Aqui está a maior jazida mineral do planeta, opulentos mananciais de água doce, biomas extraordinários, clima ameno, cenários de sonho. O que nos falta para ser grandes? Maturidade. Apenas maturidade em vários aspectos.

Maturidade para entender que não é o rótulo de “direita” ou “esquerda” que dá salvo conduto moral e atestado de bons sentimentos.

Maturidade para escolher governantes sem paixão cega.

Maturidade para retirá-los do poder quando violarem a ética ou malbaratarem os bens públicos. Sem traumas, sem guerras civis, sem a morte das amizades.

Maturidade para aceitar as regras do jogo democrático quando elas se voltarem contra interesses e desejos pessoais.

Maturidade para compreender que, no grande jogo político, há profundas manipulações mas cabe a cada um de nós, votantes, a decisão de não ser marionetes de interesses inconfessáveis. E este é um poder imenso.

Maturidade para aprender a respeitar regras e leis.

Maturidade para entender que são valores essenciais de uma nação o trabalho árduo, a boa educação e a honestidade.

Maturidade para compreender que a excelência deve ser buscada em grandes obras e pequenos detalhes. Sempre.

Maturidade para tirar os olhos exclusivamente do umbigo e saber colaborar para o bem comum, evitando sobrecarregar o organismo social. E isso vai de lixo jogado na rua à corrupção nas altas esferas.

Maturidade para entender o mais que óbvio: no Brasil tudo está por fazer e cada um tem um papel decisivo nessa tarefa.

Sei que tudo isso soa como utopia e até platitude, mas ainda cultivo na alma uma grande esperança: a de que essa época de ódios acabe por cansar a nossa gente. Que seja como aqueles relacionamentos tumultuados, que se consomem de intensa paixão por alguns meses e depois se deixam aquietar, vencidos pela intensidade dos sentimentos que ninguém é capaz de suportar por longo tempo.

Que venha esse tempo de calmaria, onde se reaprenderá a viver de verdade.