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segunda-feira, junho 10, 2019

Os sons da nossa cidade (2)



Por Thiago de Mello

Tenho a certeza de que algum vendedor noturno anunciava a sua passagem com uma sineta, ali pelas bandas da Costa Azevedo e 24 de Maio. Era vendedor de merenda da noite, coisa quente, quem sabe um mungunzá; mas dos pormenores, que na vida são sempre o essencial, já não tenho segurança.

Segurança inteira, já que falei do mungunzá, eu tenho é do pregão do velho Jaú, que chegava ali pelas 9 da noite, atravessava metade de Manaus, com o seu mingau perfumado a cravo-de-cheiro. As duas panelas altas de alumínio, enroladas em alvíssimas toalhas de linho, o negro não anunciava a mercadoria, mas a si próprio, com o grito que era o seu logotipo musical impresso no espaço das nossas noites estreladas: Já-Já-Já-Jaú-ú-ú-ú!

Numa delas, canto da Dr. Almino, o Evilásio e eu ficamos só olhando o Jaú vender mungunzás para umas moças bonitas. Olhando e comendo o cheiro. O bom negro acabou de atende-las, viu os nossos olhos enormes e perguntou com um sorriso de bondade que era só dele: “Vocês querem uma provada?” E deu uma tigela bem cheia pro Evilásio e outra pra mim – e ainda ficou conversando, falando da infância dele, enquanto a gente comia.

O Ruy Lins me relembrou que aos domingos, e só aos domingos, ele ia comprar um quilo de gelo para o seu avô João (João Teófilo de Sá Cavalcanti), que morava na Dr. Moreira. Fiscal da Prefeitura no Mercado, João Teófilo sobrevivia com as ofertas das bancas. Domingo ele gostava de gelar a água do almoço. Só a água, não. Também uma XPTO escura, comprada na mercearia do seu José.

O mungunzá é o mingau feito de milho branco com leite de vaca e sumo de coco, que no Nordeste e no Sul o povo chama de canjica. Só que o nosso mungunzá leva também castanha-do-Pará, bem raladinha. Aproveito para esclarecer que o nome dessa castanha não a faz oriunda só do Estado que deu ao Brasil a Eneida de Moraes, Pará, no caso, é vocábulo indígena e significa coisa em arco, arqueada. A fruta tem denominação oficial, dada por decreto do tempo de Vargas: é “Noz do Brasil”.

Agora que entramos em matéria de pregões, vamos chamar para esta ciranda, feita de amor e memórias, os vendedores de rua, cada qual com a sua música, cada um fazendo a sua parte na construção do universo cultural da cidade.

Escuta, lá vem ele chegando, é o grito de guerra do seu Messias com a sua voz de tenor: “Pajurá-de-racha!” O seu Messias vinha de manhã, mas às vezes também aparecia pela noitinha. Caboclo baixo, forte, amorenado. Equilibrava o taboleiro na cabeça com a ajuda de uma “rodilha” de pano. Na mão direita, um banquinho de madeira. Eram as frutas mais saborosas da cidade: sorva, mari-mari, jambo, manga-rosa, biribá e (nunca mais as provei) as santas sapotilhas que ele trazia lá da Vila Municipal. Tinha noite que o Messias chegava só com pupunhas cozidas, mas de várias qualidades.

Agora é o pregão do cuscuzeiro, que vinha lá dos Educados e atravessava o igarapé de catraia, subia a ladeira gritando: cuscuz de milho no leite, coberto de coco ralado, na folha de bananeira. Do tamanho de um pires de chá a parte superior era convexa, custava mais barato do que o pão.

“Olha o miú-ú-ú-ú-do”. Não me lembro da figura humana do vendedor de miúdos, só lembro do seu taboleiro com tampa e cavalete. Mas guardo até hoje a música, o andamento rítmico e a sequência do seu pregão, que andei repetindo para os meus amigos (os capazes de infância) em tantos lugares deste mundo. Primeiro era o anúncio da mercadoria: “Mi-ú-ú-ú-dos”, o ú demorava até o fim da última reserva de ar no pulmão (eram miúdos de porco e de boi, ele os adquirira no Curro). Depois era a exaltação da qualidade: “Frescos, fresquin-in-in-in-nhos”, e afinava a voz num agudo pianíssimo, entretanto audível a muita distância. E afinal o chamamento, que se repetia em ritmo sincopado: “Quem-vai-querer! Quem-vai-querer!”

Ora, quem é que não queria? Pelo menos lá da nossa rua ele voltava de taboleiro vazio; no dia seguinte (demorava um dia para preparar) era a festa em redor da “panelada” de tripas de boi, minha mãe dava a eles um toque de chouriço, depois de uma noite ao vinha d’alhos, com muito louro, cheiro-verde e chicória.

Acrescentava-se às virtudes do pregão a pressão da criançada sobre os pais. É que o vendedor, entre os miúdos, isto é, as vísceras, trazia também os pés, os mocotós do boi. Depois de bem chupados na mesa, e bem escaldados depois, durante longas horas, numa lata de querosene (marca Jacaré) ao fogo de lenha lá no quintal para perder toda a gordura – os ossos do mocotó eram transformados, com seus formatos extravagantes, nos nossos soldadinhos-de-chumbo.

Tinha um rosto duro, escuro, sofrido (tinha também os dedos muito comprido) o vendedor-ambulante de ervas de Manaus. Em compensação, como eram tenras e suaves, trazendo o âmago perfumado da terra, as folhas e raízes que ele distribuía. Eram ervas sobretudo de cheiro, para banho e para a roupa: piprioca, pau-cheiroso, sândalo, cantiga-da-mulata, pau d’angola, patichuli, japana, louro-rosa, o mucura-caá e até uma, raríssima e cobiçada  a despeito do nome, urubu-caá. Mas também trazia verdes medicinais: a casca da carapanaúba, da manga, da sucuna, a mangarataia, o mastruço, a hortelã, da grossa e da fina. Não havia tosse de guariba nem catarro preso que se aguentassem com o xarope caseiro preparado com essas ervas.

Não faltavam, contudo, as ervas de paladar, indispensáveis ao preparo dos nossos peixes e pratos típicos. O cheiro-verde, o cuentro, a salsa, a cebolinha, a chicória, e acima de todas, a inefável alfavaca. Foi naquele tempo radioso que aprendi com minha mãe que a alma da tartarugada é a alfavaca (e a carne muito trabalhada em limão para tirar o pitiú). O que nunca entendi foi a razão e o significado do monossílabo seco que fechava o pregão bruscamente: “Cheiro-cheirô-ô-ô-so! pá!”

Nos meus anos de Lisboa, tanto tempo depois, cheguei a admitir que a sílaba do pregão da minha infância fosse a mesma que a prosódia portuguesa inclui ao falar cotidiano das ruas – Pá! –, como hoje no Brasil se usa o Pô! Mas não. O vendedor do cheiro-cheiroso era caboclo suburucu como eu. Já ia deixando de contar que ele acompanhava o grito com uma fina e afinada percussão: com a mão esquerda ele sustentava na cabeça o caixote do qual, com uma vareta, ou baqueta, ele tirava uns belos sons com a mão direita: madeira, voz e madeira. Um artista.

Para nós, que ouvimos tanto, não é preciso nem fechar os olhos para outra vez ouvir num canto de rua da memória, o cascalheiro tirando som do seu triângulo de ferro, a caixa de metal, verde, alongada e redonda, dependurada do ombro. É ouvir, sentir a doçura do cascalhinho enrolado, e ser menino de novo.

Buzina engraçada, parecia um pato gritando, era a do triciclo do Pascoal, o vendedor de sorvetes. Foi o primeiro triciclo que apareceu na cidade, ao qual o dono adaptou uma armação de madeira que terminava em forma de proa de navio embandeirado. No interior da caixa, os vasilhames de lata com sorvetes de frutas da terra: cupuaçu, biribá, graviola, tamarindo, goiaba, taperebá. De vez em quando o Pascoal chegava com um sorvete de pitanga simplesmente sensacional. O pessoal dizia que o sorvete era feito com as pitangas lá do cemitério, famosas em Manaus pelo sabor apaixonante, embora houvesse alguma gente metida a sebo que desprezava as lindas frutinhas, só porque eram nascidas em terras de defunto.

Indiferente é que ninguém ficava com os tantos sons alegres que cortavam a cidade de ponta a ponta, sobretudo nos bairros e arrabaldes pobres, anunciadores da presença de figuras conhecidas e sempre bem recebidas: os vendedores autônomos que exerciam sua profissão, oferecendo as suas finas mercâncias ou os seus bons préstimos de rua em rua.

Já que entramos pelas aléias do campo santo, levados pela buzina do Pascoal, cabe fazer trinar aqui o apito de boca do Zé Traíra. Vibrava apagado e soturno, mal ultrapassava as grades de ferro lá do São João Batista. Mas cumpria bem a sua função na vida da cidade, da qual a morte faz parte: era com ele que o Zé Traíra, chefe dos coveiros, chamava os seus companheiros de ofício, duro ofício, que a rotina acaba por impregnar de indiferença.

A começar pelo do “teque-teque”, onomatopeia feliz que o povo achou para designar o mascate andarilho, em virtude do som estalado que ele conseguia, batendo uma contra a outra as duas metades do “metro”, unidas por um pedaço de couro que funcionava como dobradiça. E com uma só mão, não era fácil. O mesmo metro servia para fazer música e medir a fazenda.

O teque-teque era sempre um turco (não dominávamos ainda a sutileza que distingue os povos árabes). Não era nem sírio nem libanês, nem muito menos sírio-libanês. Era turco mesmo, e nenhum se zangava. Vendia de tudo: linhas, agulhas, botões, morins, chitas, brilhantinas, pó-de-arroz (Coty), cordões e brincos de ouro, pelo menos o mascate afirmava que era de ouro com a garantia de que não enferrujava: “Bode combrar, não embaruja”.

Além do “teque-teque”, havia a figura do vendedor de fósforo, o “palita-barata”. Na caixa de estanho, antiga embalagem dos fósforos, o “turco”, com o lucro dos palitos, levava também outras miudezas.

Uma tarde cheia de pessegueiros em Las Condes, bairro de Santiago do Chile bem ao pé da Cordilheira dos Andes, estávamos com Pablo Neruda tomando o nosso bom vinho na casa do fabuloso Rubén Azocar (dois companheiros que já partiram), quando de repente Manaus invade o jardim do meu amigo romancista me chamando pelo nome de infância. Era um realejo daqueles antigos, que nas redondezas começava a tocar a valsa “Sobre as Ondas”, o mesmo som singelo e a mesma música que tantas vezes inesperada se erguia enchendo de encantamento as ruas da Manaus antiga.

Relembrei para os companheiros chilenos, evidentemente sensíveis, por supuesto, ao lirismo dos realejos de rua, o alegre alvoroço que sempre se fazia em torno do vendedor da sorte que parava lá no canto da Quintino Bocayuva com a rua Isabel. Ele chegava com o seu órgão portátil, era uma caixa de madeira com adornos metálicos, movido a manivela. Além do instrumento, ele trazia também um periquito, seu companheiro de trabalho, que atendia solícito pelo nome de João.

Sobre o realejo, o poleiro do periquito com uma gaveta onde, coloridos e bem dobradinhos, estavam os papéis impressos que adivinhavam a sorte dos fregueses, aliás freguesas, moças na maioria. A moça retirava o papel da gaveta, pagava com a sua moedinha e então o homem pedia: “Carimba, João!” O periquito arrancava com o bico uma pontinha do papel – a sorte estava sacramentada, lá vinha a música novamente.

Som que não faltava nenhum dia e que nascia simultâneo nos mais diferentes bairros de Manaus era o do piano. Perdão, dos muitos pianos (os pais faziam sacrifícios mas compravam o instrumento, todas as mocinhas – e muitos rapazes também – estudavam piano, ou violino). Mas de todos se ouvia uma linha melódica, a da escala cromática, o dedilhado ia e voltava, sem parar recomeçava no tom imediato. Era um tal de “Vai-cachorro-vai-cachorro-vem, cachorro vai-cachorro-vem” que não se acabava nunca. Pois parece que também já se acabou.

Outro realejeiro de Manaus apareceu mais tarde, não vinha com periquito nem vendia a sorte. Trazia uma roda movida com o pé, na qual amolava facas, terçados e tesouras. Tinha a sua metodologia de trabalho, que sabia separar o músico do amolador. Tocava um bom tempão enquanto os fregueses iam colocando no batente da calçada os objetos cortantes mas desamolados. Quando via que já se acumulava material suficiente para boa jornada, deixava o realejo e ia para a roda de amolar. O que não quer dizer que se acabasse a música. As valsas de Strauss eram substituídas pelo grito áspero, chega dava arrepio, das lâminas afiadas no ferro da roda.



(Do livro “Manaus, Amor e Memória”, publicado pela Philobiblion Livros e Artes Ltda., em 1984)

Os sons da nossa cidade (1)



Por Thiago de Mello

É de justiça começar com o som do apito que chamava os operários para o trabalho, às 7 horas da manhã, na serraria do Monte Cristo. Os trabalhadores entravam por porta pequenina, encravada na banda direita do enorme e pesado portão, de dobradiças de quase meio metro. Alguns eram já idosos, ombros curvos, como o seu Venturino, que tinha as mãos enormes e nos contava a vida das madeiras, sabia o nome de todas e as conhecia de relance, os olhos apertados a puxar pela ciência, mesmo de longe quando elas ainda vinham na jangada, lá na boca do igarapé. “Aquilo é cedro do melhor”.

O apito – era grosso, zangado – tocava mais três vezes: às onze, à uma e às cinco da tarde. Os operários já conheciam a jornada de oito horas, com duas para almoço; todos iam à casa e voltavam, com exceção do Modestino, trabalhador da serra, que aproveitava as horas de folga para empinar papagaio, depois comia um jaraqui ali na estância do fim da rua Isabel, onde morava a namorada, não me lembro o nome dela, tinha pernas altas, ajudava a mãe a lavar roupa, o ouvido atento no apito.

Era triste e prolongado o apito da Fábrica de Cerveja. Subia lá no São Raimundo e a gente ouvia lá na Zé Paranaguá. Um velho caboclo, que lá trabalhou mais de trinta anos, a quem conheci adolescente e reencontrei tempos depois, me garantiu que o último apito soava às seis da tarde, aumentando a jornada em uma hora. Também me garantiu que a XPTO era muito mais saborosa do que a cerveja fabricada pelos atuais donos da fábrica, cujo apito não sei se ainda funciona.

O apito da Sub-Usina de Luz na Cachoeirinha, que era também o lugar onde os bondes dormiam. Esse apito tinha uma generosa singularidade: era o primeiro que se ouvia na cidade, às seis horas da manhã. Não para indicar o início dos trabalhos, mas para acordar os operários. Prestava, de resto, um serviço aos moradores da vizinhança: era também um aviso de que dez minutos depois partiria o primeiro bonde da Cachoeirinha.

Já a principal usina de luz, que ficava ali no Tocos, tinha um apito que era um verdadeiro uivo, e não existe outro adjetivo que lhe caiba a não ser este: lancinante. O apito tinha os seus especiais timbres, para significados e funções diferentes. Quase ninguém se apercebia dele quando, sóbrio, conquanto sempre roufenho, dizia à turma da eletricidade e ao pessoal da lenha na caldeira (os olhos dos operários eram tochas de fogo) que estava na hora do rojão.

Mas a cidade inteira se sacudia, inquieta, quando a usina da luz dava “aquele” seu apito, chamando os bombeiros para apagar um incêndio. Havia um timbre intermediário, que os mais antigos sabiam distinguir: o que chamava os empregados da usina para alguma anormalidade no funcionamento das máquinas. “Não, isso não é incêndio” – ouvi o seu Félix Bayma dizer sentado ao portão da casa, uma noite de São Pedro, a fogueira ardia no meio da rua Isabel. – “Isso é alguma válvula da caldeira que quebrou”.

O historiador amazonense Mário Ypiranga Monteiro (que me fez alguns bons reparos ao texto da primeira edição e deu mais de um quinau a muita memória encardida) me garante que a Fábrica de Cerveja não tinha apito. Ele nasceu e viveu no Tocos até 1924, tem bons motivos para saber o que diz: “O único apito (aliás era proibido pelo Código de Posturas o barulho de sinos e de apitos indiscriminadamente) era o da Usina de Luz, invariavelmente às seis da manhã e às seis da tarde em ponto: três apitos com pequenos intervalos.”

Trago também a canção áspera do apito da Fábrica de Castanha, do Sabá, ali no Monte Cristo, onde os operários quebravam e secavam as castanhas nas estufas. E também merece um lugar o apito do Forno do Lixo, lá no Tocos.

Vamos continuar com a vida vivida pelo som dos apitos, só que agora é com os dos barcos, mágica matéria sonora da cultura daquela cidade que se acabou. “Eu acho que aquilo é a Onza”, dizia o seu Emídio, na sua taberna da rua Isabel.

“Pois que Onza que nada, esse apito é da Obidense”, discordava o seu Orlando Medeiros, a voz grossona, o cotovelo apoiado no balcão de itaúba. A Onza, da firma Bastos & Cia., a Obidense, da Marques & Cia, firmas portuguesas ambas – eram lanchas boiadeiras. Iam buscar no Rio Branco e traziam para Manaus depois de uma temporada de engorda nos campos dos baixios do Careiro, do Curari, do Janauacá, do Paraná, do Xiborena – o gado para o abate lá no velho Curro, o antigo Matadouro Municipal. O apito da Onza era trinado, agudo e repetido, e tentava imitar a tosse do felino: um longo, seguido de vários, bem breves. Os familiares da tripulação e dos poucos passageiros recebiam o aviso, que atravessava praças e ruas, ia bater lá no bairro do Céu.

Nas casas da orla dos Educandos, quando a Xiborena apitava atravessando o rio, muito caboclo respondia com a cantiga que o povo inventou: “A Xiborena / Quando vem lá do Careiro / Vem fazendo fumaceiro / Com vontade de chegar.”

Certas memórias guardam a estrofe com um verso diferente: em vez de fumaceiro a Xiborena fazia tuque-tuque. Fazia as duas coisas, o povo está certo.

Os dois apitos de largada dos navios que faziam a linha do Médio e do Baixo Amazonas. As “Chatas”, os “Gaiolas” e os “Vaticanos”; o Ajudante, o Cuiabá, o Júpiter, o Tejo, o Distrito Federal, o Belo Horizonte. Primeiro era o som da sineta badalada por um taifeiro de bordo, que ia e voltava da proa à popa, avisando que o navio em quinze minutos ia partir, que descessem as pessoas que não iam viajar. Depois eram os dois graves e prolongados apitos de despedida. A gente chega estremecia: neles como que falava toda a alma encantada dos barcos, cujo comandante, no seu engomado uniforme branco, se despedia da cidade com um largo e digno gesto do braço estendido.

Quem se lembra do apito da Aranha? A Aranha era um rebocador todo negro que servia às manobras de atracação dos grandes navios europeus. Um episódio dramático perdura ligado ao som estridente, agudo, agressivo do apito desse rebocador que certa manhã deu de proa com uma canoa que vinha pelo Rio Negro lá da Ponta do Ismael, bordejando a boca do Igarapé de Manaus. Na canoa vinham a Engrácia e a Quintina, eram irmãs, filhas da dona Biló, as duas remando, quando viram foi a Aranha apitando e vindo em cima delas. Tentaram escapar puxando desesperadamente pelo remo.

A canoa foi atingida pelo meio: só a Engrácia se salvou, a Quintina não apareceu nunca mais. Na moça sobrevivente nasceu pela Aranha um ódio de morte. Quando a avistava se transtornava, aos brados de “Assassina, assassina!” E durante muitos anos acordava no meio da noite sobressaltada com os apitos terríveis do rebocador, que incessantes lhe ressoavam no sonho.

Os sinos da Igreja da Matriz sempre dobraram bonito nas matinas e no Angelus. Nos domingos e dias santificados o sineiro se esmerava. A Matriz, repicando forte e aflita, também ajudava a chamar os bombeiros quando havia incêndio.

Mas durante muitos anos foi a Igreja de São Sebastião que prestou a Manaus um serviço inestimável, com o som do sino do seu relógio. Anunciava não somente as horas, mas também as meias e os quartos de hora, com sinos de amálgamas e timbres diferentes. Lá das alturas da praça, o som se espalhava, chegava longe, companheiro do dia e da noite dos moradores da cidade. O relógio ainda está lá na torre da Igreja, só que silencioso, parado, marcando a hora do entardecer de um tempo que se acabou.

Outros sinos mais modestos, mas de muita e louvada serventia, eram ingredientes sonoros da nossa cultura.

O do carro da Assistência, que ainda não era chamado de ambulância e que não tinha sirene. Era sino mesmo, de som possante, vibrado pelo funcionário que viajava ao lado do motorista, o braço para fora, badalando o sino.

Já bem distinto – na qualidade do som e sobretudo no ritmo – era o da sineta arrogante do carro policial, o vulgar “camburão” de hoje, ao qual naqueles anos o povo chamava de “Manduquinha”, que aliás ganhou sirene em pouco tempo. Cedo o som da Manduquinha se ligaria em nosso espírito de adolescentes pobres à ideia de repressão e violência policial.

Inconfundível, mesmo de longe, era a harmonia formada pelo badalar simultâneo das várias sinetas do Gelo Cristal, do Miranda Correia. Era uma carroça de rodas altas, puxada a cavalo, a caixa verde com os dizeres pintados em dourado, onde o geleiro (havia mais de um; lá na rua Isabel o que chegava era seu Felipe) trazia acumuladas as pedras transparentes que nos fascinavam, produzidas na fábrica lá do Plano Inclinado.

Tempo ainda distante dos eletrodomésticos e das Frigidaire, a geladeira era um móvel de madeira com dois compartimentos verticais, portinholas com dobradiças de metal (isso nas casas ricas) ou uma caixa de madeira com tampa onde se guardava o gelo conservado em serragem. Em cima e ao redor, as garrafas de guaraná Andrade, de cerveja amazonense; na geladeira do seu José Grosso, na Padaria Modelo, em 1937, vi pela primeira vez uma garrafa de vinho Casal Garcia branco.

Bem: as sinetas eram presas em lâminas de aro de barrica, fixada à direita do assento do guieiro, de sorte que balançavam quando a carroça caminhava. Mas o geleiro não ficava só nos sininhos, que serviam apenas para avisar que ele vinha vindo. Para dizer que já chegara, ele mudava de som: tocava então uma buzina de boca dourada e fole de borracha preta.

Apitos de impor silêncio, gravíssimos e solenes, eram os dos navios do Loide do Brasil, quando desatracavam do Roadway. Do Almirante Alexandrino (no qual Machadinho e eu viajamos para estudar no Rio de Janeiro em 1942), do Baipendi (que foi para o fundo, dias depois de deixar Manaus, bombardeado no Atlântico por um submarino alemão, durante a Segunda Guerra. Morreram muitos filhos da cidade. Um deles o meu valente amigo Edgar Rodrigues, irmão do João Batista e da Doralice. Bom de nado e de sorte, salvou-se o Jacaúna Maia, nosso contemporâneo do Ginásio).

Não me lembro dos apitos dos transatlânticos da Booth Line. Em compensação recordo perfeitamente o som da orquestra de cordas e metais do Hilary, os músicos todos de branco no mais alto convés da popa, tocando peças europeias no instante da partida, o cais cheio de gente, o barco enorme se afastando devagarinho.

A montagem deste livro ganhava o caminho do fim quando tivemos a alegria de ouvir de novo o sino da São Sebastião. A poluição sonora da cidade já não lhe permite atravessar grandes espaços. Tornou-se um som digamos doméstico, da intimidade das redondezas da velha praça.

Quem uma vez teve de bancar o geleiro e saiu-se até que muito bem foi o Silvio Moura Tapajós, quando aluno acho que da 4ª série do nosso Ginásio, já o Machado e Silva era o diretor. Organizava-se, manhã cedinho, a partida para um banho no Igarapé do Mindu: alguém conseguira um carro para levar os comes-e-bebes, o grosso da turma iria de bonde.

De repente dá-se com uma pedra de gelo no batente da porta fechada de uma casa ali na Lauro Cavalcanti. Era o que estava faltando para completar a festa. O Silvio é indicado para recolher o gelo e não se faz de rogado. Sucede que no instante mesmo em que ele, já agachado, tentava segurar a pedra escorregadia, eis que a porta se abre, o dono da casa aparece de corpo inteiro. Silvio Moura Tapajós não se deu por achado. Na melhor imitação do sotaque lusitano do seu Felipe, ele anunciou: “Olha o geleiro!”



(Do livro “Manaus, Amor e Memória”, publicado pela Philobiblion Livros e Artes Ltda., em 1984)

sexta-feira, junho 07, 2019

Manaus, verde cidadela de convivência fraterna



Por Thiago de Mello

Minha memória trabalha com a matéria de um tempo que o próprio tempo comeu. Como é que era esse tempo?

Antes de tudo, era um tempo de tempo. Um tempo em que o tempo dava. Dava e ainda sobrava, para o que desse e viesse. Como refeição abençoada em mesa de família pobre e numerosa (a mãe aflita achando que a farofa, feita com as sobras do pirarucu do almoço, não ia dar para todos os filhos), o tempo de cada dia dava de sobra para que todas as coisas fossem feitas, cada coisa no seu tempo, sem afobação nem correria. A vida era maneira e permitia que as pessoas soubessem fazer e o que fazer do seu próprio tempo.

Falta-de-tempo foi coisa que jamais serviu de pretexto para que as pessoas deixassem de fazer o que o coração pedia. Ou de atender os afazeres de obrigação. Nem foi nunca desculpa para a falta de amor. De resto, não havia pressa. Os homens tinham um andar vagaroso, era macio o caminho das moças. É verdade que de vez em quando a gente perdia o bonde. Mas, ao contrário do poema de Drummond, ninguém chegava a perder a esperança.

Era um tempo de conversa. Tempo de diálogo. Da boa prosa e da santa conversa fiada, que sempre deixava um saldo, chamado sabedoria. Uma das esplêndidas instituições culturais da Manaus daquele tempo era a conversa de calçada. Aberta a boca da noite, em tudo quanto era rua, as conversas começavam, bem defronte do portão. Uma das tarefas caseiras, logo depois da janta, era colocar na calçada as cadeiras da conversa. De preferência, cadeiras de embalo. Melhor ainda se fossem de palhinha. Crescemos no meio dessas práticas diárias, ouvindo fascinados grandes conversadores, excepcionais contadores de casos e estórias do rio e da floresta, de onças e de serpentes, de febres e naufrágios, de assombrações e magias.

A conversa era um elemento imprescindível à vida. Como a água, a farinha e o amor.

Era um tempo em que a cidade parava para fazer a sesta. Hábito, aliás extremamente saudável, de homens e de mulheres, no qual os pais iniciavam os filhos desde a adolescência. Os chefes de família, era assim que a gente dizia antigamente, chegavam em casa para o almoço antes do meio-dia, tomavam banho, botavam o seu pijama, comiam a sua boa costela de tambaqui e já deixavam a cabeceira da mesa diretamente para a rede estendida na varanda ou para a cama da alcova, que era como se chamava o dormitório principal da casa. Eram quinze minutos, no muito meia hora de sono. Novo banho, de novo o fato branco de brim, e saíam para a etapa vespertina do trabalho.

Imperdoável falta – de gosto e de respeito – era perturbar a quem estivesse em estado de sesta. Fomos educados, de meninos, a respeitar o sono alheio como coisa sagrada. Quando alguns anos mais tarde aprendi com a poesia de Joaquim Cardozo que “o homem dormindo é mais puro do que um anjo”, me lembrei dos tempos em que pisávamos macio, caminhávamos cuidadosos, bons sentinelas do sono, incapazes de roçar, nem de levezinho, num punho ou em varanda de rede em que alguém estivesse adormecido.

A sesta não pedia apenas a sombra das alcovas e o vento dos corredores avarandados: ela se fazia também publicamente, enrolada na luz morna do começo da tarde. Dorsos recostados aos troncos das árvores da Praça da Matriz, carregadores italianos, mascates árabes, caboclos trabalhadores braçais – estiravam-se no fofo da relva, sossegadamente a ressonar. Na Praça Tamandaré era a mesma coisa. Ali pela rampa do Mercado o descanso era amaciado pela brisa que chegava do rio. Os estivadores faziam a sua sesta lá mesmo pelo roadway, sobre a maciez das pranchas de itaúba.

Era um tempo em que havia vizinhança. Em que cada morador tinha – e se prezava muito de ter – os seus vizinhos, na melhor e justa acepção de pessoas que são próximas. Vizinhos não eram apenas os que moravam na casa ao lado, ao pegado, de parede-e-meia. Eram também vizinhos os que moravam em frente ou até lá no outro quarteirão. Havia os vizinhos de quintal, cujos fundos se encontravam na cerca de acariquara. A parede de boa taipa não chegava propriamente a separar: simplesmente marcava o lugar onde, do outro lado, começava uma casa vizinha.

A vizinhança, na verdade, reunia e como que dava sutil parentesco a todos os moradores de uma mesma rua, que se conheciam não apenas de vista e de cumprimento: todos se falavam, todos se frequentavam. Na festa ou na aflição, as famílias se acompanhavam. “– Vá ali na casa de dona Dília e peça um pires de pó de café.” “Leve esta terrina de sarapatel lá para a casa do seu Pedro Marques.” “Vá lá na casa da dona Ligia Nobre e pergunte se a febre da menina dela já passou.” Eram frases de convivência entre vizinhos. A terrina voltava no dia seguinte cheinha de sapotilhas. O pires era devolvido com mingau de jurumum e tapioca. A turca dona Matilde, lá da rua Isabel, ofertava pelos domingos quibes de frigideira. Os moradores sabiam transformar a rua num espaço solidário.

Isso não quer dizer que a vizinhança estivesse formada por pessoas excepcionais. Não. Eram pessoas comuns, com as triviais virtudes e imperfeições humanas, que é como deve ser. Só que sabiam valorizar a convivência. Todos triviais e comuns. Só que – cada qual a seu modo e com o jeito de ser de cada um – participavam, faziam questão de participar, por exigência íntima, da vida da rua, da vida compartida com os vizinhos.

É bom esclarecer e convém relembrar, aos assustados e apressados moradores atuais da nossa cidade, que tudo isso acontecia num tempo em que as pessoas não tinham medos dos transeuntes desconhecidos e em que as janelas nunca tiveram precisão de grades. As janelas dormiam abertas: o único temor que então existia era o de que penetrasse pela casa, soprando de viés, algum vento encanado, misterioso causador de infalíveis dores de nuca, de lombo ou de garganta.

Tempo do traje branco. Do traje certo, apropriado ao clima da cidade. Nos dias da semana, a maioria dos homens se vestia de branco. O jaquetão, cruzado de seis botões, ou o paletó e colete. Mas era nos domingos que o branco tomava conta da cidade, traje de festa, de solenidade e de aniversário. Quem podia usava os linhos da Irlanda. O H.J., o S.120. A maioria envergava mesmo era o brim nacional. Havia lavadeiras especializadas em lavar, e sobretudo em engomar a ferro de brasa os fatos brancos. Porque antigamente o caboclo não dizia terno, dizia era fato, como aprendeu com o português, no tempo em que cabide era cruzeta. Muitas esposas, minha mãe dona Maria uma delas, se orgulhavam de engomar, elas próprias, na água rala de goma de mandioca, suando em cima do ferro, as fatiotas brancas dos maridos. O branco chega ficava brilhando. O fino da época era o fato branco, a camisa de palha de seda e o chapéu de palhinha.

A verdade é que todos marcavam presença, e todos precisavam da rua, para repartir um pedaço de vida. Cada qual com o seu jeitão, suas manias, suas pirraças, suas bondades. O seu Emídio, português taverneiro da esquina da rua Isabel com a Quintino Bocayuva, era delicado, silencioso, quando a gente menos esperava lá vinha um filhós, açucarado de presente. Já o seu Rodrigues, também português, da última casa descendo a rua, era arengueiro e sovina, não gostava de criança cantando de roda defronte da janela dele.

A Jória Bayma, com aquela sua beleza de negra de olhar amendoado e altivo (beleza que com a ajuda dos anjos ela conserva até hoje, professora aposentada), era doida por uma discussão valente, mas também amava uma conversa que abrisse caminho à canção inesquecível de sua risada. Já a Noemia, moça maior, toda sóbria, ria só com as comissuras dos lábios, mas tinha um jeito delicadíssimo de, parada debaixo do lampião, dar um volteio lindo aos tornozelos.

Tempo do resguardo. Depois do parto, confiado às mãos amorosas de parteiras competentes, as mulheres atravessavam por um largo período de cuidadoso descanso, dito resguardo, que durava coisa de quarenta dias. Parentas e amigas chegavam para cuidar da criancinha e poupar esforços à mãe, que passava a maior parte dos dias deitada e recebia alimentação especial, na base de canjas, caldos, mingaus de caridade. Canja de galinha gorda, caldo de mulher parida. O menino batia à porta da casa e entregava: “Aqui está este frango que a mamãe mandou para o resguardo da dona Josefa”. Não podia faltar era a Água Inglesa Granado, vinho reconstituinte, nem a marmelada Colombo. Em compensação, às visitas, frequentes durante os quarentas dias do resguardo, era servido o mijo da criança: vinho-do-Porto ou aluá de abacaxi, com sequilhos de araruta feitos em casa.

Era um tempo em que todas as coisas boas, gostosas e bonitas a gente dizia que eram paidéguas. Que flor paidégua! Mas a Maria Eneida é muito da paidégua! Professor paidégua é o velho Agnello.

Tempo em que havia o gosto bom de visitar e o contentamento indisfarçável de receber uma visita. Era uma afirmação de afeto, um exercício de amizade. Nenhuma visita ficava sem pagamentos. Visita de casal quase sempre se fazia pela noite ou em tardes de domingo. As amigas e comadres se visitavam pelos dias da semana. Era visitas de conversas, largas. Tão compridas que se gerou, naquela Manaus, o lindo costume de “passar o dia”.

Uma família, os pais com toda a criançada, era convidada por outras para passar o dia em sua casa. Como era bom! Ia-se de manhã cedo, voltava-se já escurecendo, depois da merenda. Uma única pessoa, moça ou rapaz, nem precisava combinar de antemão: ia, simplesmente chegava, era recebida com o agrado e a naturalidade de gente querida. “Mamãe, hoje, depois do Ginásio, eu vou passar o dia lá na casa do seu Tude”. “– Está bem, vá. Mas não dê lá muito trabalho à dona Santinha”.

“Fazer quarto” era como se chamava a visita a alguém enfermo. Também se usava a expressão “dar quarto”. E nunca eram visitas ligeiras e formais, de puro protocolo. A intenção era acompanhar, de repente poder ser de serventia.

Tempo de bênção. Os filhos tomavam a bênção aos pais, com beijo de mão e de face. Não somente na meninice. Marmanjos de barba, mulheres já casadas, nunca deixavam de pedir a bênção aos pais (e aos tios, e aos padrinhos), fosse em despedida caseira, fosse em encontro de rua. Era mais do que uma praxe. As frases tão breves vinham impregnadas de uma significação transcendente: “Deus te abençoe”, “Deus te fala feliz”.

Quero fechar essas anotações em torno dos costumes que marcaram a vida da capital amazonense com a notícia do grande espanto, grande pena, que tive, quando, de retorno ao Brasil, depois de ausência demorada, ouvi do meu amigo Lucio Kovarich, o notável sociólogo paulista, a informação de que Manaus já se incluía entre as cidades brasileiras de mais alto índice de criminalidade. Já não bastasse a elevada mortalidade infantil, filha sinistra da subnutrição, era espantosa a estatística dos homicídios, assaltos, estupros.

Contei então para o meu amigo que na Manaus do meu tempo de rapaz – de repente parece que foi ontem, de repente parece uma época já longínqua demais – um assassinato, de resto acontecimento bem raro, provocava assombro. O crime não fazia parte da sua ordem natural das coisas, feria a sua índole sossegada. O forte da cidade não era a criminalidade, mas a cordialidade.

Estou me lembrando agora do Viriato. Meu contemporâneo no Ginásio, de curso mais adiantado. Frequentava a sua casa, um sobrado de azulejos na antiga Treze de Maio. Sua amizade me deixava orgulhoso, porque Viriato era de longe o melhor goleiro da cidade, jogava no Olympico. Tinha olho de gato. Um anoitecer, em plena Eduardo Ribeiro, Viriato matou uma moça de vida alegre, ou de triste vida, como queiram. A cidade, perplexa, não podia acreditar. Adolescente, fardado de ginasiano, fui à Penitenciária do Estado, me inscrevi para visita-lo. Diante dele, emocionado, não sabia de que falar, acabei relembrando uma defesa linda que ele fizera, poucos dias antes, num jogo no campo do Parque Amazonense. À despedida, Viriato me abraçou e me prometeu: “Quando eu sair daqui, vou te dar as minhas joelheiras”.



(Do livro “Manaus, Amor e Memória”, publicado pela Philobiblion Livros e Artes Ltda., em 1984)

Cantando peço passagem para Manaus



Por Thiago de Mello

Para muita gente boa, o tempo de que dou notícias constitui o que chamam, em tom de lástima, o período negro da decadência da vida da capital do Amazonas iniciada nos anos 20 com a grande crise econômica resultante do baque da borracha. Pois vejam só: com olhos que ganhei de olhar a vida dos homens, contemplo aquele tempo da chamada decadência e simplesmente digo: santa decadência! 

A década de 20 se abre com as seringueiras da Malásia (filhas da nossa floresta, ali cultivadas artificialmente, depois que o inglês Henry Wickman, em 1873, daqui levou clandestinamente muitos sacos de sementes) produzindo 360 mil toneladas de borracha enquanto a produção do Amazonas não alcançava oito mil, pagas a preços aviltados. Era o fim do famoso ciclo da borracha. 

Era também o fim da grande vida. Do dia para a noite, se foram acabando o luxo, as ostentações, os esbanjamentos e as opulências sustentadas pelo trabalho praticamente escravo do caboclo seringueiro lá nas brenhas da selva. Cessou bruscamente a construção dos grandes sobrados portugueses, dos palacetes afrancesados, dos edifícios públicos suntuosos. Não se mandou mais buscar mármores e azulejos na Europa, ninguém acendia mais charutos com cédulas estrangeiras. O enxoval das moças ricas deixou de vir de Paris. Os navios ingleses, alemães e italianos começaram a escassear na entrada da barra. 

Muitas grandes firmas exportadoras, de capital europeu, começaram a pedir concordata. Das casas aviadoras (que forneciam dinheiro e mercadorias aos seringalistas do interior da floresta), as mais fracas faliram logo, algumas resistiram ainda um pouco, mas não puderam evitar a falência. As companhias líricas de operetas italianas foram deixando de chegar para as suas temporadas exclusivas no sempre iluminado Teatro Amazonas. Os coronéis de barranco já não podiam pagar com fortunas uma carícia mais quente das francesas importadas e refinadas na arte do amor comprado, as quais, por isso mesmo, foram logo tratando de dar o fora, substituídas nas pensões noturnas pelas nossas caboclas peitudas e de cintura menos delgada.  

Dar o fora foi também o que fizeram os comerciantes ingleses e alemães, os navios partiam carregados deles com a família inteira. Nunes Pereira, que já naquele tempo começava a reunir material para a sua importantíssima obra sobre a literatura oral dos índios do Amazonas, reunida quarenta anos depois nos dois volumes do “Moronguetá”, viu os barcos largando do roadway com levas de pessoas abandonando Manaus – e muitas se despiam da cidade com gestos obscenos.

Os novos-ricos se apavoraram. Os ricos mais sólidos se acautelaram e trataram de abrir novos atalhos para continuar a enriquecer. O povo continuou sendo o povo. A cidade ingressou então no seu largo período de declínio e estagnação.

Foi durante esse tempo que eu vivi e convivi com ela, que entrei pelos seus caminhos e penetrei pela sua alma: o tempo em que Manaus pôde ser ela mesma, a viver de si mesma e de afirmar um jeito de ser todo seu – autêntico, simples, gostoso jeito de ser. 

Do que a borracha trouxe de benefício público – ao preço da miséria e da servidão de milhares de caboclos – a cidade continuou a usufruir. Bom serviço de águas e esgotos, uma excelente luz de carvão e arco voltaico, transporte urbano, servido por bondes de primeira categoria. Boas casas de ensino, principalmente muito bons professores, para os cursos primários, secundário e (não demorou muito) também para o ensino de Direito e de Odontologia. 

Já encontramos uma atenção médico-hospitalar, com a Beneficência Portuguesa e a Santa Casa de Misericórdia, que dava para as exigências da população, naquele tempo ainda exposta às febres da sezão, nome popular da malária.

E, não obstante a decadência econômica, a cidade era muito bem abastecida. Fartura de peixe e de carne, a tartaruga estava ali diariamente, para quem quisesse comprar, nas bancas do Mercado. Muita fruta e verdura: hortaliça em abundância, cultivadas pelos portugueses cujos tão bonitos canteiros davam alegria só de olhar. Fome mesmo ninguém passava; mesmo porque o comerciante da época não queria arrancar os olhos da cara de ninguém. Antigamente comia-se melhor, me afirma o dr. Moura Tapajós, grande filho daquela época, com a segurança de quem sabe o que está dizendo. 

Manaus, batida pela estagnação, teve tempo e teve, mais que tudo, força para a afirmação cotidiana de um delicioso estilo de vida que se amparava em valores culturais que lhe eram próprios. Valores que não se deixaram amassar, submissos, pelos elementos poderosos da cultura europeia colonizadora. Ao contrário, sempre foram os ingredientes dominantes no processo de aculturação, tão bem levada com os costumes e hábitos de vida que nos trouxeram, sobretudo a partir dos últimos anos do século passado, os portugueses provincianos pobres e os árabes de bolsos vazios. 

No espaço de tempo histórico de que a minha crônica traz notícia, Manaus não precisou nem foi forçada a copiar o jeito de viver de outras sociedades humanas mais evoluídas. E a verdade é que, já mesmo antes, no período que terminou na segunda década, no conjunto de sua cultura, não se deixou seduzir, embasbacada, por todas as coisas diferentes vindas, e nem sempre bem-vindas, lá de fora. Incorporou o que lhe fazia boa cama ao dengue de cabocla e foi dona de sua casa durante uma porção de anos.

É no período da grande depressão econômica, em que o Amazonas chega a perder 90% do seu produto territorial bruto (fato que se considera sem paralelo) que Manaus abre para a sua gente caminhos de reencontro com a sua própria autenticidade cultural. Apagados os brilhos das lantejoulas estrangeiras, que tanto a ofuscava, a cidade redescobriu e deu o devido valor à sossegada mas permanente luz que lhe nascia dos âmagos mais fundos. É acertado e é justo reconhecer que houve naquele período um instintivo e bonito movimento de recuperação da nossa amazonidade. Imposto dialeticamente pela dura contingência.

Pois fator que convém seja levado em conta, na explicação sociológica daquele momento, é a força de toda uma vivência interiorana, que chegava e se manifestava na vida da capital com a presença de numerosas famílias que refluíram do interior, tangidas pelo mesmo vendaval asiático que sugou de Manaus estrangeiros desesperados. É a força do caboclo suburucu – popa de lancha e bandeira azul – chegando para plantar na cidade as raízes de uma cultura adquirida na convivência com os seres animais e vegetais, terrestres e aquáticos e com as virtudes materiais e espirituais da floresta. 

E assim, acolhedora e aconchegante, espaço urbano em que predominava o convívio cordial e solidário, Manaus atravessou a metade do século.

Quando veio a nova onda – que ainda não passou e nem se sabe se um dia vai passar, talvez seja mesmo irreversível – a cidade, valente de brios, resistiu até onde pôde, aos furores de uma dominação cultural que acabou por submetê-la com os ímpetos do capital sem-nação e com as suavidades do engano colorido da comunicação de massa totalizadora.

Mas a vida da Manaus submetida ainda não é matéria de memória.



(Do livro “Manaus, Amor e Memória”, publicado pela Philobiblion Livros e Artes Ltda., em 1984)

quinta-feira, junho 06, 2019

Relembrando as boas coisas idas e vividas



Por Thiago de Mello

Adolescente, sentado sozinho no entardecer da beira do igarapé de Manaus, eu ficava cismando, olhando os catraieiros transportando lá para o lado dos Educandos os operários da serraria. E me perguntava por que é que havia tanta diferença na vida das pessoas. Por que havia gente tão rica, que morava em palacetes e tinha de tudo, enquanto tanta gente, que trabalhava o dia inteiro, vivia pobremente em casas cheias só de redes e crianças? Por que – eu me indagava – minha linda Mãe precisava se levantar ali pelas cinco horas da manhã, ainda noite escura, e preparar pastéis e refrescos para serem vendidos e com esse dinheirinho ajudar meu pai nas despesas da comida e da educação dos filhos? A vida, só depois é que a vida me deu a resposta. A vida e o estudo.

Mas em Manaus aprendi também a força da bondade e a alegria da amizade. Aprendi ainda que o amor é possível.

Quero contar um episódio. Devia andar pelos meus dez anos. Acordava às seis da manhã e (com o caboclo Augusto, meu bom irmão-de-criação) descia até a beira-do-rio, a recolher a lenha para o fogão de casa. Voltava e ia regar as plantas do jardim de minha Mãe, quem sempre me recomendava especial carinho para com as suas begônias. Terminava essa tarefa e saía correndo à esquina da José Paranaguá, em busca do Jornal do Commercio para o meu Pai. Regressava, meio correndo, tomava o meu banho, vestia o uniforme escolar, tomava o meu café com macaxeira cozida (bom mesmo era quando parava na porta de casa bem cedinho o vendedor de cuscuz de milho) e então saíamos, com a mama Maria Julia, para as aulas. Era esse o programa matinal de cada dia.

Pois bem. Um dia, fui buscar o jornal e o jornaleiro ainda não chegara. Não o esperei, o meu tempo era contado. Cheguei em casa sem o jornal e dei o motivo. Meu pai, homem de gênio severo, de rompantes ásperos, duvidou de mim: ergueu-se raivoso e me bateu, forte, em pleno rosto. A injustiça me doeu mais do que o golpe. Sentado numa cadeira de balanço, um varão muito bom e muito digno assistiu aquela cena. Era o meu avô paterno Gaudêncio José Thiago de Mello, que vivia lá na várzea de Barreirinha e vinha uma vez por ano a Manaus. Meu avô Gaudêncio levantou-se, lento e alto, e com a sua mão solidária pousada no meu ombro, disse a meu pai estas palavras que nunca mais esqueci: – Pedro, se você acha que deve castigar o seu filho, castigue. Mas castigue com amor.

Quem quiser encontrar aqui a história da capital do Amazonas está perdendo tempo. Feche o livro e vá às bibliotecas, onde encontrará o trabalho de historiadores que informam, com apoio em papel e palavras antigas, como a cidade nasceu e cresceu, desde os idos da metade do século XVII, a sua vida começando ao pé do Forte de São José da Barra do Rio Negro, com aquela bonita história de amor do militar português Guilherme Valente, que inaugurou ardentemente a nossa mistura de sangues, casando-se com a filha de um tuchaua baré.

Não, não feche o livro. Em algum canto desta crônica – canto de rua ou cântico de roda – o leitor quem sabe pode achar um pouco da luz, ou mesmo da sombra, de que, sem se dar conta, andam carecidos os atuais moradores da cidade, a quem, ao fim das contas, estas páginas se encaminham. De resto, vale a pena olhar, devagarinho, as fotografias, mordidas ou afagadas pelo tempo: há coisas que só elas sabem contar.

Não consultei arquivos e muito pouco me vali de palavras impressas. Apenas ouvi, aticei fogueiras, revolvi águas paradas de fundo de açude. Conversei com gente que viveu e gosta de lembrar, porque gostou de viver, o tempo da Manaus que se conta. Aqui prevalecem as criaturas, participando da vida da cidade.

Texto cuja matéria-prima é a memória, ele não se vale apenas da minha, mas da memória de antigos companheiros de estudo ou de estrada, de rio e de rua, de canoa e de canção. Vários bem mais vividos e mais sábios, da geração de meus pais. Nenhum se fez de rogado. E mais de um se espantou, ao cabo da conversa, ao descobrir acesas as virtudes de sua memória, tanto tempo empoeirada pelo afã de ganhar dinheiro, que atualmente toma conta da cidade.

Advirto que aqui não entra nem sombra de sentimento saudosista. Quem me conhece, de conversa ou de leitura, sabe que a minha preocupação maior, e também a minha esperança mais pelejada, está no futuro. Sou um caboclo sofrido, mas cheio de alegria, que procura fazer a sua parte, ajudar com o seu barro, na construção de uma vida que deve e pode ser melhor aqui neste chão, onde – apesar de todas as ferocidades cometidas pela cegueira dos donos do mundo – ainda creio que se erguerá uma sociedade fraterna.

Trabalhei com os olhos abertos da memória, com substância que faz parte do presente. Como todo mundo sabe, o futuro começa a cada manhã que nasce, mas tem as suas raízes, das quais jamais se desgarra, no âmago da matéria ardente, mesmo revestida de cinza, a que chamamos passado.

Reconheço que não gosto de frequentar quem só vive voltando para o tempo que já foi vivido e se agarra no que ele teve de lindo – embora haja quem prefira ficar enrolado no que sobrou de ruim e apodrecido. É atitude de quem tem medo ou desgosto dos dias de agora, da vida que está aí, na porta e no peito. Ou de quem teme os dias que virão, sentimento que compreendo nos que envelhecem se sabendo desamparados por um sistema social cruel. Seja como for, é sempre uma forma de escapismo, que acaba por adoecer o próprio gosto da vida, que se quer participante e repartida.

Nem por isso escondo o prazer imenso com que eu mesmo relembro ou escuto as pessoas que sabem, por talento, relembrar as boas coisas idas e vividas, os acontecimentos que, marcados por imperecíveis sinais da condição humana, se fizeram memoráveis. Acho até que nada mais saudável: uma forma de unir os pedaços do tempo que a cada instante se parte e se triparte, e recompô-los como quem dá um jeito novo a uma flor que nunca morre.

Quando me demoro um tempo grande lá na minha floresta de Barreirinha, ao chegar a Manaus morro de medo de encontrar a Praça do Ginásio (sempre a chamei assim, embora outros a digam da Polícia) transformada em curral de veículos. Ou que tenham derrubado o seu maravilhoso coreto, para colocar em seu lugar um imenso Boeing de uma companhia aérea, à maneira do que fizeram lá na Praça da Saudade, na qual, suponho que por falta de outro lugar na cidade, chegaram ao extremo de construir um edifício. A insensatez se agrava quando se sabe que o prédio abriga órgãos oficiais destinados a cuidar de assuntos da cultura amazonense. Um paradoxo perverso. Salvo melhor juízo.

Manaus modificou-se. Quer dizer, mudou mas ficou, para continuar. É o progresso e – o sambista já ensinou – o progresso é natural. O que não é progresso e muito menos pode ser natural é – só para dar um exemplo – o desaparecimento inaceitável da antiga praça da estação dos bondes, chamada Oswaldo Cruz, que se abria ao povo ali em frente ao prédio da Manaus Tramways. Era um dos lugares mais lindos e agradáveis desta cidade. Pois bem: foi impiedosamente arrasada, árvore por árvore, pedra por pedra, planta por planta. Não lhe deixaram nem vestígios. Só para dar lugar a um horrível e sujo estacionamento de automóveis. Uma estupidez cultural. Salvo, repito, melhor juízo.

Sucede que o livro leva, além do juízo, o olho e o coração do autor. Não tenho, todavia, o intuito de comprovar nada. Nem mesmo que antigamente a qualidade da vida era melhor. Essa constatação, se houver, caberá ao leitor, a quem se deixa o trabalho de tirar as suas conclusões.



(Do livro “Manaus, Amor e Memória”, publicado pela Philobiblion Livros e Artes Ltda., em 1984)

quarta-feira, junho 05, 2019

Agora quero contar como é que o livro nasceu



Por Thiago de Mello

Nasceu num entardecer da primavera chilena de 1973, a envergonhada luz da Cordilheira dos Andes banhando a Gran Avenida, no momento mesmo em que três militares armados de metralhadoras me obrigaram a ajoelhar no chão. Mata aqui mismo? consultou um dos soldados. Poucas horas antes eu assistira o fuzilamento de dois homens, em plena calçada da avenida proletária, de um deles jamais esquecerei o olhar.

Durante o silêncio – frações de segundo, quero dizer, uma eternidade – entre a pergunta e resposta do sargento, dezenas, centenas, não sei quantas cenas, nítidas e vivas, me passaram, sucessivas e fugazes, pela memória; muitas delas pertenciam à minha infância: minha Mãe dona Maria lavando roupa sentada no pátio de cimento da nossa casa de Vila Pedrosa; a minha aflição, salvo de um afogamento por meu pai, puxado de dentro do rio pelos cabelos; um negro enorme se lançando às águas para salvar o Gorayeb (não o Anísio, o menor, também aluno do Ginásio), na beirada da serraria do Monte Cristo; eu subindo a ladeira da Quintino Bocayuva com uma carrada de lenha na cabeça; eu com meu filho Manuelzinho ainda menino brincando num carrossel armado na Praça do Ginásio.

Alguns meses depois, já na Alemanha, decidi botar no papel aqueles e outros momentos chilenos, sozinhos na madrugada do meu pequenino, mas tão confortável, quarto da cidade universitária de Mainz. Foi quando me descobri ponderando sobre a imensa importância de Manaus na minha vida, a propósito da qual eu jamais antes de detivera, a seco e a frio, que é uma forma de dizer ardentemente. Nas cartas para minha Mãe comecei a relembrar episódios e pessoas da minha distante Manaus que, pelas notícias dos raros jornais que chegavam lá ao outro lado do mar, eu já sabia em etapa de intensa transformação.

Certa noite gelada de novembro de 1975, a meio da travessia da ponte sobre o Reno, que liga Mainz a Wiesbaden (aristocrática cidade dos cassinos, onde Dostoyewski recolheu a matéria-prima do seu livro O Jogador), parei para urinar. Água de caboclo do Amazonas, falei sozinho em voz alta, para esse igarapé poluído. Mal retomei a caminhada em direção à casa, tomei duas decisões: 1, quando puder voltar ao Brasil, vou morar no Amazonas e 2, vou escrever um livro sobre a Manaus da minha infância.

Na mesma madrugada comuniquei a decisão em carta a mestre Nunes Pereira, de quem até hoje guardo a resposta, celebrando menos os meus projetos do que a circunstância em que os tomei, o jorro generoso caindo lá de cima da ponte no meio da noite do inverno alemão.

Sucedeu que coisa de um ano depois, certa amanhã de setembro, tomando um vinho branco da Rheinstrass com o meu editor Hermann Schulz, na famosa feira anual de livros, a Buchmesse, de Frankfurt, dele recebo a proposta para elaborar um texto, aí por trinta páginas, para um livro a ser incluído numa série intitulada Escritores Falam de Suas Cidades, que reunia depoimento de romancistas, poetas, historiadores de muitos países. 

Do Brasil já contava com um belo texto de Jorge Amado sobre Salvador da Bahia. Queria que eu contasse um pouco da história e da vida de Manaus. Aceitei, fui para Lisboa, onde, ao pé da minha janela de Benfica, redigi um texto para alemães, ou melhor, para europeus. Ao concluí-lo estava reforçada a minha decisão: quando voltar para o Amazonas e reencontrar a minha cidade vou fazer o livro que eu quero, do jeito que eu quero.

Pois aqui está o livro.

Escrito para os de casa.

É uma demão que dou à roda, perra e vagarosa, que talvez tire um pouco a nossa cidade do atoleiro do esquecimento de si mesma, em que foi caindo, empurrada – à traição às vezes – pela incultura e o descaso.

Trata-se de uma crônica simples, intimista, que pretende, guiada pelo alfabeto do amor e da memória, trazer um testemunho da vida que em Manaus se levava ou do jeito de viver que tinha a cidade, num breve e determinado período histórico, que abrange duas décadas deste século, a de 30 e a de 40. Verdade que de vez em quando penetra em acontecimentos dos anos 50, como, por exemplo, aliás luminoso, a fundação do Clube da Madrugada, reunindo escritores e artistas plásticos cuja sede é uma praça pública ou então recua a época dos 20, a década da minha geração.

É testemunho que de repente vira louvação, quando celebra costumes e práticas sociais da cidade que foi o campo mágico da nossa meninice e do começo da nossa mocidade.



(Do livro “Manaus, Amor e Memória”, publicado pela Philobiblion Livros e Artes Ltda., em 1984)

terça-feira, junho 04, 2019

Manaus, amor e memória



Por Thiago de Mello

Este livro é um gesto simples de amor. Pela cidade que pode não ser das mais lindas do mundo, que até ultimamente deu de ficar o seu tanto ou quanto feiosa, mas, em compensação, ficou também famosa, porque foi transformada em zona franca. Cidade onde nem mesmo nasci: orgulho que não consigo esconder é o de ter nascido no Bom Socorro, nome do lugar do meu avô no meio da floresta de Barreirinha. E, sem embargo, é a cidade à qual estou essencialmente mais agarrado. Pois foi ela que de mim fez o que sou.

Isso quer dizer que tudo devo a Manaus? Claro que não. Muito ganhei de todos os tantos lugares deste chão humano chamado Terra por onde venho aprendendo a viver e a conviver, quero dizer, a amar. A algumas cidades sei que devo demais. A nenhuma cidade sei que devo demais. A nenhuma talvez tanto como ao Rio de Janeiro, aonde cheguei aos quinze anos; o Rio me deu de comer, na palma de sua mão atlântica, o fel e o mel da existência humana. É uma das poucas cidades cuja alma posso dizer que conheço.

O coração me pede a justiça de dizer quais são as outras. As outras são: Santiago do Chile, banhada pela eterna luz das neves da Cordilheira, onde vivi talvez los más hermosos e também os mais terríveis momentos de minha vida; a pequenina Ilha de Páscoa, perdida na imensidão do oceano Pacífico, a cujo redor estão as maiores distâncias marítimas, onde morei tão pouco tempo, entre as suas misteriosas esculturas gigantescas, com homens, mulheres e crianças, poetas, pescadores e dançarinos, irmãos do vento, parentes dos pássaros – com os quais aprendi, definitivamente, que a convivência fraterna é possível entre os seres humanos: ilha da qual me despedi com as lágrimas escorrendo, abraçado aos meus inesquecíveis amigos pascuenses, eles também chorando, só que choravam cantando e dançando diante do mar. 

A outra fica na Alemanha: é Mogúncia, Mainz, mein liebes Mainz, a pequenina cidade que me deu exílio, onde ainda se resguarda, com os mais civilizados cuidados, a impressora que Guttermberg, natural de Mainz, construiu com as próprias mãos e onde, nos meus primeiros dias de forçada cidadania só tinha por companheiro de conversa o poeta Schiller, em cujo monumento eu depositava, agradecido, uma tulipa orvalhada. Em Mainz aprendi as mais duras lições da solidão humana.

Só eu sei a importância que certas cidades tiveram e continuaram a ter na minha vida sobretudo pelo que nelas vivi e encontrei, mas também pelo que elas são, pelo que guardam dentro delas, enquanto urbe edificada pela mão humana. De todas as que habitei, Paris, como todo mundo sabe, é a mais bela. O meu maior encantamento em Paris sempre foi andar a pé, sem rumo pelas suas ruas, principalmente quando chegava a primavera: acabava sempre dando com o Sena, as suas águas esverdeadas lambendo as falésias da Notre Dame.

Jamais poderei me esquecer de Berlim, a moça dourada avançando de perfil no entardecer de inverno na sua avenida Central, em direção às ruínas da catedral bombardeada. Às vezes sonho com a Grand Place de Bruxelas, levado para uma cerveja espessa pela boa mão do meu camarada José Ibrahim; e confesso que sinto saudades físicas de Lisboa, uma das cidades que mais amo, e me distraio em refazer de memória o percurso do Chiado ao Rossio, descendo e subindo as ladeiras do cesario da Alfama ou a contemplação do mar do alto do Farol do Cabo, a visita aos túmulos de Camões e de Vasco da Gama, nos Jerônimos, de braço dado ao meu amigo, o escritor Jacinto Baptista, português da melhor cepa.

Fazem parte da minha substância humana mais íntima, e me ajudaram à formação de uma concepção de mundo e de vida – tantos descobrimentos culturais que fiz nos mais diversos espaços trabalhados pelo homem para lhe servir de morada. Atenas e sobretudo Roma me ensinaram mais do que todos os livros do mundo sobre os poderes do gênero humano em matéria de arte e de engenho, de invenção e do gosto de domínio. Posso viver setecentos anos e resguardei intacta a emoção e límpidos os detalhes de tudo que vi e vivi em Trento e em Verona, aonde fui levado pelo coração do caboclo meu irmão Araujo Neto. 

Ciudad de Mexico, Cuernavaca, Guadalajara (onde em 67 estive com Guimarães Rosa pela última vez), Madrid e Barcelona, Ibiza, com os seus muros brancos e as camponesas vestidas de negro. A impressionante Praga, com a gente cativante, as suas pontes solenes e a imensa praça de São Stanislaw, onde num anoitecer com os poetas companheiros Cesar Calvo, peruano, e Henrique Lihn, chileno, quase morremos de frio. 

A linda La Paz com o rosado Himani e os seus índios miseráveis, que me abriram a porta do fantástico universo do altiplano dos Andes, onde o frio é azul como a pele dos mortos. E Havana, La Habana do meu coração, onde encontrei o povo mais parecido ao nosso e vi com estes meus olhos, que ainda queimam, o milagre real da construção de um homem novo. A Montevideo de Antonio Grompone, Fernando Pareda e Mario Benedetti. A Buenos Aires de Luiz Felipe Noé. Valparaiso do Pancho e da Maria Martner.

Não posso dar nem cabe aqui o nome das centenas de cidades brasileiras sem cujo conhecimento eu não poderia nunca compreender bem a história do meu país e a vida do meu povo. Mas faço questão de dizer o nome do Recife, de Salvador, de São Luiz do Maranhão e de Belém do Pará, de Porto Alegre, de São Paulo e de Belo Horizonte. Ainda que a grande e verdadeira cara brasileira eu a tenha encontrado nas pequenas vilas e lugarejos do interior. E em poucos lugares do mundo encontrei tanta beleza criada pelo engenho humano (beleza descuidada e ameaçada) como em Congonhas do Campo, Ouro Preto, Alcântara.

Não devo concluir este ligeiro rol de cidades, em cujas ruas e casas acabo por me perder, sem gravar aqui o nome da cidade-cidadela dos Incas, Macchu Picchu, que me feriu para sempre, na altura da sua solitária majestade de pedra, com a sua espada de sol e de silêncio.

Pois ora. Se por lugares andei, se em tantas cidades vivi e de todas muito gastei, por que então digo que foi Manaus que me fez o que sou? Simplesmente porque de Manaus ganhei o principal: os alicerces da vida do homem, que se edificaram na minha meninice, toda ela vivida em Manaus, chão e céu de minha adolescência inteira. Tão rica, tão bonita e tão bem vivida foi a minha infância de menino pobre, que o seu poder – o poder de ser menino – nunca me abandonou: até hoje perdura dentro do meu peito.

Foi em Manaus que pela primeira vez senti, queimando profundas, as solicitações do amor, da arte e da justiça. Aqui nas beiradas dos nossos igarapés a vida me abriu os olhos para as desigualdades sociais, cujas causas só mais tarde eu viria a enxergar. Esta cidade me plantou a perplexidade perante a pobreza, e me ensinou a valorizar o sentimento da amizade como um dos mais belos dons da condição humana. 

Aqui descobri a força do sentimento solidário e a certeza de que o ser humano nunca está sozinho. Aqui descobri o sortilégio das palavras, o poder mágico da música e fui conquistado definitivamente para uma forma fascinante de alegria que só o esporte – e em particular o futebol – proporciona ao homem. Quando sai de Manaus para percorrer no Rio os caminhos de minha mocidade, já levava comigo, abertas e irresistíveis, as vertentes fundamentais da minha vida.



(Do livro “Manaus, Amor e Memória”, publicado pela Philobiblion Livros e Artes Ltda., em 1984)

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

O portal mais cult da taba manauara



As atividades técnicas relacionadas ao beta-teste de um novo portal que estou colocando no ar tem me impedido de atualizar este bloguinho velho de guerra, mas não vou abandoná-lo tão cedo.
Aliás, a primeira coisa que fiz foi abandonar as redes sociais já que não dá pra chupar cana e assoviar ao mesmo tempo.
Mas como assim um novo portal se já existem mais de 200 milhões de tralhas iguais a essa infestando a blogosfera brasileira?
So sorry, carniça, mas meu novo portal não tem nada a ver com isso tudo que vocês encontram por aí. Aliás, não é nem parecido com isso tudo que vocês encontram por aí.
Ele está mais para uma biblioteca virtual de coisas relevantes do que para um site de notícias descartáveis das quais amanhã você nem vai lembrar do que leu. 
Por exemplo, ele tem uma lupa, ali ao lado do “Conversa de Botequim”. Clique nela e digite qualquer porra. O diabo da lupa vai te dar uma quantidade de textos tão legais que você sequer imaginaria existirem em um só lugar. 
Não bastasse isso, há as viagens individuais, zona por zona:
NOTÍCIAS & OPINIÃO – Matérias factuais, locais e nacionais, que sejam relevantes. Artigos opinativos de José Nêumanne, Fernando Gabeira, Gaudêncio Torquato, Carlos Brickmann, Augusto Nunes, Ricardo Noblat, etc.
CRÔNICAS IMORTAIS – Publicação das melhores crônicas de Rubem Braga, Mouzar Benedito, Paulo Mendes Campos, Joaquim Ferreira dos Santos, Carlinhos de Oliveira, Sérgio Porto, Fernando Sabino, Luís Fernando Veríssimo, Edney Silvestre, Ruy Castro, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, etc.
CAXUXA BLUES – Histórias do bairro da Cachoeirinha e de seus moradores. Minhas lembranças de infância e adolescência.  Sim, eu sou meio exagerado. Ainda mais, jogado aos seus pés.

VERSO & PROSA – Dicas de livros, roteiros de sebos, biografias de escritores e poetas, registros de lançamentos literários. Muito material inédito ou atualmente fora de circulação. Iniciamos a publicação de “Inventário de Sombras”, do José Castello. Já estão lá os perfis de Clarice Lispector, João Antônio, Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst
MEMÓRIA VIVA – Depoimentos de gente selecionada sobre os tempos de outrora. Já estão no arquivo as lembranças de Jefferson Peres sobre a Manaus dos anos 40, 50 e 60, de Luis Carlos Miéle sobre o Rio de Janeiro dos anos 50, 60 e 70, e de Agripino Grieco sobre Paraíba do Sul dos anos 20 e 30. Estamos, no momento, publicando a biografia do gaúcho Lupicínio Rodrigues. O próximo da lista será o cartunista Nássara.
MUSICOTERAPIA – Dicas de discos e shows musicais, curiosidades sobre ritmos, biografia de cantores, letras traduzidas, etc. História do rock, reggae, funk, hip hop, música eletrônica, etc. Uma verdadeira biblioteca musical. Iniciamos a publicação da história do Samba.
CAUSOS DE BAMBAS – Histórias, anedotas, chistes e folclore político do Amazonas, do Brasil e do mundo. Textos de Marcos de Vasconcellos, Sebastião Nery, Luiz Rodrigues e outros cabrones. Já devo ter coletado pelo menos umas 1.500 histórias para postar, envolvendo cantores, jogadores de futebol, escritores, políticos e gente anônima. Serão publicadas na medida do possível.
HUMOR COM AGÁ Sim, é onde o jornalista Agamenon Mendes Pedreira, criação de Marcelo Madureira e Herbert Aranha, reina impunemente. Mas há textos escolhidos do meu livro, “Alô, Doçura”, e de escritores politicamente incorretos como Edson Aran, Xico Sá, Fausto Wolff, Millôr Fernandes, Uilcon Pereira, Paulo Francis, Henry Louis Mencken, Ivan Lessa, etc.
CONVERSA DE BOTEQUIM – Entrevistas com grandes nomes da nossa cultura. De Millôr Fernandes a Enoli Lara, de Ziraldo a João Gordo, de Emicida a Aldir Blanc. Entender o que esses caras pensam é um bom caminho em busca do conhecimento.
VIDA BOEMIA – Dicas de bares, restaurantes e churrascarias de Manaus. 
KAYA NA GANDAIA – Roteiros e dicas de turismos tanto no Amazonas quanto no Brasil e no exterior, dando preferência aos locais menos badalados ou “off-road”.
Como o portal continua sendo um projeto em aberto, estou aberto às sugestões. 
Por enquanto, é isso. There is it.
PS: Pra dar uma zapeada no bicho, sem compromisso, clique aqui.