52. A graciosa atriz Ednelza Sahdo foi
porta-bandeira da Mocidade de Aparecida desde a fundação da escola, em 1981,
até pendurar o pavilhão, em 2006, quando passou a missão à neta Naruna. Durante
esse quarto de século, cultivou um vício que preocupava a família mais do que
dívida em cartão de crédito: fazia questão de confeccionar a própria fantasia.
Enquanto outras
porta-bandeiras encomendavam seus figurinos a profissionais especializados,
Ednelza encarava a empreitada como uma mistura de alta-costura, artesanato e
prova de resistência.
Ela passava
meses costurando lantejoulas, paetês, canutilhos e um número obsceno de
pérolas, numa dedicação que faria Penélope pedir aposentadoria. E, obedecendo a
uma tradição que parecia cláusula pétrea, a fantasia ficava pronta... duas
horas antes do desfile. Apesar disso – ou justamente por causa disso –,
colecionava notas dez.
Foi num desses
carnavais que a tragédia resolveu vestir fantasia de comédia. Enquanto Ednelza
bordava, em estado de transe, os últimos dois milhões de pérolas da saia
rodada, a filha mais nova lançou um olhar desconfiado para a delicada
sandalinha de lamê.
– Isso aí não
aguenta nem um samba-enredo, quanto mais um desfile inteiro.
Tomada pelo
espírito da engenharia improvisada, resolveu reforçar o calçado. Pegou dez
preguinhos finos para cada lado do solado e os martelou com o entusiasmo de
quem estava construindo a Ponte Rio-Niterói.
Ednelza não viu
nada. Vestiu a fantasia, colocou a coroa, ajeitou o sorriso de porta-bandeira e
deixou para calçar a sandália somente na concentração.
Mal começou a
evoluir na avenida, sentiu uma pontada no calcanhar. Um dos pregos, cansado de
viver escondido na sola, resolveu conhecer o mundo exterior. Entrou pelo pé da
dona.
Ela passou a
sambar na ponta do pé com uma elegância que fez muita gente acreditar que
aquela coreografia fazia parte do enredo. Parecia a primeira bailarina do
Teatro Bolshoi interpretando O Quebra-Nozes em ritmo de samba.
Só que a física
é uma ciência cruel. Ao transferir o peso do corpo para a frente, outros quatro
pregos atravessaram seus dedos. Instintivamente, Ednelza voltou a apoiar o pé
inteiro no chão. Foi a vez de mais quatro pregos lhe perfurarem a planta do pé.
Naquele
momento, seus pés já lembravam um porco-espinho em pleno desfile carnavalesco.
Mas havia um pequeno detalhe: o jurado não podia saber. E não soube.
Sem perder o
sorriso, sem deixar o pavilhão vacilar um milímetro e sem entregar o sofrimento
nem por decreto, Ednelza rodopiou, cortejou o mestre-sala, cumpriu todas as
evoluções e terminou o desfile como se estivesse pisando em pétalas de rosa –
quando, na verdade, estava pisando em dez pregos.
Só na dispersão
a cortina caiu. Com os pés ensanguentados, nem passou pela comemoração. Pegou o
primeiro carro rumo ao Hospital Getúlio Vargas, onde recebeu curativos, uma injeção
antitetânica e, provavelmente, o conselho médico de nunca mais aceitar serviços
de engenharia doméstica em calçados de carnaval.
Passou uma
semana sem conseguir andar. Mas, como todo bom sambista sabe, dor passa, troféu
fica. A nota dez veio, a Mocidade de Aparecida conquistou mais um campeonato e
Ednelza entrou para a história como, provavelmente, a única porta-bandeira
capaz de vencer um carnaval sambando sobre um campo minado.

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