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quinta-feira, setembro 03, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 52

 


52. A graciosa atriz Ednelza Sahdo foi porta-bandeira da Mocidade de Aparecida desde a fundação da escola, em 1981, até pendurar o pavilhão, em 2006, quando passou a missão à neta Naruna. Durante esse quarto de século, cultivou um vício que preocupava a família mais do que dívida em cartão de crédito: fazia questão de confeccionar a própria fantasia.

Enquanto outras porta-bandeiras encomendavam seus figurinos a profissionais especializados, Ednelza encarava a empreitada como uma mistura de alta-costura, artesanato e prova de resistência.

Ela passava meses costurando lantejoulas, paetês, canutilhos e um número obsceno de pérolas, numa dedicação que faria Penélope pedir aposentadoria. E, obedecendo a uma tradição que parecia cláusula pétrea, a fantasia ficava pronta... duas horas antes do desfile. Apesar disso – ou justamente por causa disso –, colecionava notas dez.

Foi num desses carnavais que a tragédia resolveu vestir fantasia de comédia. Enquanto Ednelza bordava, em estado de transe, os últimos dois milhões de pérolas da saia rodada, a filha mais nova lançou um olhar desconfiado para a delicada sandalinha de lamê.

– Isso aí não aguenta nem um samba-enredo, quanto mais um desfile inteiro.

Tomada pelo espírito da engenharia improvisada, resolveu reforçar o calçado. Pegou dez preguinhos finos para cada lado do solado e os martelou com o entusiasmo de quem estava construindo a Ponte Rio-Niterói.

Ednelza não viu nada. Vestiu a fantasia, colocou a coroa, ajeitou o sorriso de porta-bandeira e deixou para calçar a sandália somente na concentração.

Mal começou a evoluir na avenida, sentiu uma pontada no calcanhar. Um dos pregos, cansado de viver escondido na sola, resolveu conhecer o mundo exterior. Entrou pelo pé da dona.

Ela passou a sambar na ponta do pé com uma elegância que fez muita gente acreditar que aquela coreografia fazia parte do enredo. Parecia a primeira bailarina do Teatro Bolshoi interpretando O Quebra-Nozes em ritmo de samba.

Só que a física é uma ciência cruel. Ao transferir o peso do corpo para a frente, outros quatro pregos atravessaram seus dedos. Instintivamente, Ednelza voltou a apoiar o pé inteiro no chão. Foi a vez de mais quatro pregos lhe perfurarem a planta do pé.

Naquele momento, seus pés já lembravam um porco-espinho em pleno desfile carnavalesco. Mas havia um pequeno detalhe: o jurado não podia saber. E não soube.

Sem perder o sorriso, sem deixar o pavilhão vacilar um milímetro e sem entregar o sofrimento nem por decreto, Ednelza rodopiou, cortejou o mestre-sala, cumpriu todas as evoluções e terminou o desfile como se estivesse pisando em pétalas de rosa – quando, na verdade, estava pisando em dez pregos.

Só na dispersão a cortina caiu. Com os pés ensanguentados, nem passou pela comemoração. Pegou o primeiro carro rumo ao Hospital Getúlio Vargas, onde recebeu curativos, uma injeção antitetânica e, provavelmente, o conselho médico de nunca mais aceitar serviços de engenharia doméstica em calçados de carnaval.

Passou uma semana sem conseguir andar. Mas, como todo bom sambista sabe, dor passa, troféu fica. A nota dez veio, a Mocidade de Aparecida conquistou mais um campeonato e Ednelza entrou para a história como, provavelmente, a única porta-bandeira capaz de vencer um carnaval sambando sobre um campo minado.

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