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sexta-feira, setembro 04, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 55

 


55. O sambista Nilton Delfino Marçal, o lendário Mestre Marçal, nasceu em 1930, no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro. Morou em São Cristóvão, Olaria, Estácio, Inhaúma e Pilares. Morreu em 1994, em Pilares, mas, como todo bom portelense, deixou o coração estacionado em Madureira, onde até os pardais parecem cantar em ritmo de samba-enredo.

Ainda menino, aprendeu a tirar som de tudo o que aparecesse pela frente: cuíca, tamborim, surdo, tarol, pandeiro... Se dessem um balde e uma colher de pau, era capaz de montar uma bateria. Durante 22 anos comandou a bateria da Portela, até que, em 1985, resolveu sair da escola. Foi aquela velha história: em escola de samba, às vezes o surdo faz menos barulho que a política.

Marçal, porém, não era homem de desafinar. Deu a volta por cima na Unidos da Tijuca e, no fim dos anos 80, gravou discos que mostraram que sua voz era tão elegante quanto sua batida. Em “Pela Sombra”, de Nelson Sargento e Nei Lopes, aconselhava: “Siga em frente sem retorno e sem parada... Vá com Deus e siga pelo acostamento...” Era um filósofo do samba. Só não imaginava que, anos depois, pisaria em Manaus carregando bagagem suficiente para abrir uma filial da Casa Colombo.

No começo da década de 1990, Bosco Saraiva, presidente de honra da Reino Unido, convidou Mestre Marçal para ministrar um seminário sobre os segredos da armação de uma bateria de escola de samba. O curso era aberto a diretores de bateria, ritmistas e pagodeiros. A programação previa apenas um fim de semana em Manaus.

Quem foi recebê-lo no aeroporto foram Bosco Saraiva e Edu do Banjo. Abraços, fotografias, tapinhas nas costas.

– Vou ali dar uma mijadinha – avisou Marçal, desaparecendo em direção ao banheiro.

Enquanto isso, Bosco e Edu pegaram os comprovantes das bagagens e foram para a esteira. A primeira mala chegou. Depois outra. Mais uma. Outra. Mais duas. Quando a esteira finalmente parou, os dois estavam empurrando três carrinhos abarrotados com oito malas. Bosco olhou para Edu com a expressão de quem acabara de descobrir que o voo era fretado pela Portela inteira.

– Porra, Edu... eu mandei passagem pra um sambista. Pelo jeito ele trouxe escondidos o Monarco, a Velha Guarda, a bateria, a ala das baianas e, se bobear, até o Paulo da Portela.

Cinco minutos depois, Mestre Marçal apareceu assobiando, tranquilo como quem voltava da padaria. Olhou para os dois imóveis ao lado da montanha de malas e perguntou:

– Ué... vocês ainda estão aí? Vamos embora.

Edu, completamente perdido, perguntou:

– Mas... e o resto do pessoal?

– Que pessoal?

– Os donos dessas malas.

Marçal olhou em volta, depois para as malas, depois para Edu.

– Que donos, rapaz? Tudo isso é meu.

Bosco quase engasgou.

– Tudo seu?

– Claro. São alguns paletozinhos...

– Mas o senhor vai ficar só dois dias em Manaus!

– Justamente.

No Hotel Imperial, enquanto quatro carregadores faziam musculação involuntária levando a bagagem para o quarto, Edu não resistiu.

– Mestre, me desculpe a curiosidade, mas pra que tanto paletó?

Marçal respondeu com a serenidade de quem explicava um teorema de Einstein.

– Meu filho, um homem elegante nunca desafia o clima.

Fez uma pausa dramática e iniciou uma verdadeira palestra de meteorologia aplicada à alfaiataria.

– Vamos imaginar que hoje à noite chova. Aí entra o azul-marinho. Mas, se der só um friozinho, eu prefiro o marrom-escuro. Amanhã de manhã, se fizer um sol bonito, vai o branco perolizado. À noite, dependendo da umidade do ar, posso escolher o cinza-grafite ou o verde-musgo. Domingo... ah, domingo é uma incógnita. Posso acordar inspirado no risca-de-giz. Mas, se o tempo abrir, quem sabe um salmão? Agora, se o céu amanhecer indeciso, aí só um quadriculado resolve. Ou então o azul-turquesa.

Bosco e Edu ouviam aquilo em silêncio, como dois alunos diante de uma aula magna da Academia Brasileira de Alfaiataria.

Marçal ainda concluiu:

– E cada terno tem seu sapato, seu cinto e sua gravata. Porque elegância não é brincadeira. O samba pode até improvisar. O figurino, nunca.

Bosco balançou a cabeça, admirado. Saiu de casa pensando que iria aprender os segredos da bateria da Portela. Acabou descobrindo que o verdadeiro mestre também era doutor em previsão do tempo... desde que o clima fosse medido em paletós.

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