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sexta-feira, setembro 04, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 56

 


56. Março de 1994. O artista plástico, carnavalesco e artesão Paulo Castelo era tão magro que, se tomasse um caldo de cana, fazia sombra de canudinho. Tinha o físico de um faquir indiano em fim de carreira e vivia desafiando as leis da nutrição. 

Nas horas vagas – que eram justamente aquelas em que não estava pintando alegorias nem inventando fantasias de carnaval – dedicava-se ao próspero, embora ligeiramente clandestino, comércio de quelônios. 

Comprava tartarugas e tracajás nas bandas do rio Purus e revendia no Mercadinho da Cachoeirinha, onde os bichos faziam mais sucesso que televisão em final de novela.

Naquele ano, o Ibama resolvera acabar com a festa. Montou um posto de fiscalização nas proximidades da reserva do Abufari, em Tapauá, o maior berçário natural de tartarugas da Amazônia e, por consequência, o pior lugar do mundo para quem estivesse transportando 200 quelônios escondidos no porão de um barco. 

E foi exatamente ali que a embarcação de Paulo Castelo acabou interceptada.

Quando o barco atracou, surgiu na proa uma figura que parecia ter acabado de escapar de um campo de concentração: só de cueca samba-canção, costelas em alto-relevo e um semblante que faria qualquer médico pedir exames antes mesmo do bom-dia.

Um dos fiscais anunciou, em tom burocrático:

– Gostaríamos de subir a bordo para uma inspeção de rotina.

Paulo nem piscou.

– Por mim, tudo bem... Só acho justo avisar que tivemos um surto de cólera aqui no barco. Metade da tripulação ficou internada em Tapauá e o resto está de cama no porão. Eu também peguei essa desgraça. Tirando a diarreia que não dá trégua, a desidratação e esses quilinhos que perdi, estou me sentindo uma maravilha.

Os fiscais se entreolharam. Olharam de novo para Paulo Castelo. Olharam outra vez. O sujeito era tão magro que a história fazia todo o sentido. Se dissesse que tinha perdido quinze quilos, ninguém perguntaria de onde. Houve uma rápida reunião técnica entre os agentes do Ibama. Durou menos de um minuto.

A conclusão foi unânime: duzentas tartarugas até podiam representar um grave crime ambiental. Mas arriscar pegar vibrião colérico por causa delas já era um sacrifício que não constava no edital do concurso. Mandaram Paulo seguir viagem.

Naquele dia, as tartarugas escaparam da fiscalização graças ao melhor disfarce já inventado pela natureza: um comerciante que parecia estar morrendo havia pelo menos três semanas.

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