56. Março de 1994. O artista plástico, carnavalesco e artesão Paulo Castelo era tão magro que, se tomasse um caldo de cana, fazia sombra de canudinho. Tinha o físico de um faquir indiano em fim de carreira e vivia desafiando as leis da nutrição.
Nas horas vagas – que eram justamente aquelas em que não estava pintando alegorias nem inventando fantasias de carnaval – dedicava-se ao próspero, embora ligeiramente clandestino, comércio de quelônios.
Comprava tartarugas e tracajás nas bandas
do rio Purus e revendia no Mercadinho da Cachoeirinha, onde os bichos faziam
mais sucesso que televisão em final de novela.
Naquele ano, o Ibama resolvera acabar com a festa. Montou um posto de fiscalização nas proximidades da reserva do Abufari, em Tapauá, o maior berçário natural de tartarugas da Amazônia e, por consequência, o pior lugar do mundo para quem estivesse transportando 200 quelônios escondidos no porão de um barco.
E foi
exatamente ali que a embarcação de Paulo Castelo acabou interceptada.
Quando o barco
atracou, surgiu na proa uma figura que parecia ter acabado de escapar de um
campo de concentração: só de cueca samba-canção, costelas em alto-relevo e um
semblante que faria qualquer médico pedir exames antes mesmo do bom-dia.
Um dos fiscais
anunciou, em tom burocrático:
– Gostaríamos
de subir a bordo para uma inspeção de rotina.
Paulo nem
piscou.
– Por mim, tudo
bem... Só acho justo avisar que tivemos um surto de cólera aqui no barco.
Metade da tripulação ficou internada em Tapauá e o resto está de cama no porão.
Eu também peguei essa desgraça. Tirando a diarreia que não dá trégua, a
desidratação e esses quilinhos que perdi, estou me sentindo uma maravilha.
Os fiscais se
entreolharam. Olharam de novo para Paulo Castelo. Olharam outra vez. O sujeito
era tão magro que a história fazia todo o sentido. Se dissesse que tinha
perdido quinze quilos, ninguém perguntaria de onde. Houve uma rápida reunião
técnica entre os agentes do Ibama. Durou menos de um minuto.
A conclusão foi
unânime: duzentas tartarugas até podiam representar um grave crime ambiental.
Mas arriscar pegar vibrião colérico por causa delas já era um sacrifício que
não constava no edital do concurso. Mandaram Paulo seguir viagem.
Naquele dia, as
tartarugas escaparam da fiscalização graças ao melhor disfarce já inventado
pela natureza: um comerciante que parecia estar morrendo havia pelo menos três
semanas.

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