54. Mestre Carlito acompanhava Chico da Silva numa excursão pelo Pará, uma turnê tão extensa que, segundo a lenda, eles tocaram em todos os 5 mil garimpos de Itaituba – e ainda sobraram dois ou três barrancos reclamando que haviam sido esquecidos.
Nas horas vagas, enquanto
Chico descansava a voz ou ia prosear com os garimpeiros, Carlito se trancava
com o violão para inventar um arranjo diferente para uma música inédita de
Rinaldo Buzaglo. Era o tipo de sujeito que achava mais fácil encontrar um
acorde diminuto do que uma vaga para estacionar no centro de Manaus.
Numa manhã de
domingo, Chico resolveu disputar uma animada pelada com o pessoal do garimpo
“Vai Quem Quer”, um campeonato em que o impedimento era ignorado, mas carrinho
por trás valia medalha de honra ao mérito. Carlito preferiu ficar no hotel, em
paz, sentado à beira da piscina, espremendo acordes dissonantes do violão
enquanto o café da manhã ainda fazia efeito.
Só que paz, em
garimpo, dura menos que promessa de político em época de eleição. Na mesa ao
lado, dois garimpeiros que já tinham ultrapassado o limite do álcool havia
algumas doses começaram uma discussão filosófica sobre futebol. De repente, um
deles resolveu enriquecer o debate com argumentos de aço: puxou um revólver
Taurus calibre .38 de cano longo e o depositou sobre a mesa com a delicadeza de
quem serve um cafezinho. Então disparou – felizmente apenas pela boca:
– Olha,
caralho, a gente não precisa ir muito longe! Isso aqui é um berro flamenguista
de matar ladrão! Sou flamenguista desde que nasci e todo vascaíno que eu
conheço é ladrão, corno, viado, maconheiro, filho da puta, bandido,
mau-caráter, trambiqueiro, nojento, safado, vagabundo, trampolineiro, vigário,
qualira e ainda tem a mãe na zona! Tenho nojo de vascaíno! Não posso ver um que
já me dá vontade de passar bala! Ô raça desgraçada!
Em seguida,
virou-se para Carlito, que até aquele instante só queria descobrir se a nona do
acorde era maior ou menor:
– Você não
concorda, parente?
Naquele
momento, Mestre Carlito viveu o maior conflito moral da carreira. De um lado,
mais de quarenta anos de fidelidade ao Vasco da Gama. Do outro, um flamenguista
bêbado segurando um .38, claramente disposto a transformar qualquer divergência
esportiva em estatística policial.
Apesar da
cegueira que escondia com óculos escuros, Carlito olhou para o revólver, olhou
para o sujeito e respondeu com a serenidade dos grandes diplomatas:
– Concordo
plenamente, meu amigo!
Naquele
domingo, o Vasco perdeu mais um torcedor por alguns minutos. Mas, em
compensação, Carlito ganhou o direito de continuar vivo para torcer de novo na
segunda-feira.

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