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quinta-feira, setembro 03, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 54

 


54. Mestre Carlito acompanhava Chico da Silva numa excursão pelo Pará, uma turnê tão extensa que, segundo a lenda, eles tocaram em todos os 5 mil garimpos de Itaituba – e ainda sobraram dois ou três barrancos reclamando que haviam sido esquecidos. 

Nas horas vagas, enquanto Chico descansava a voz ou ia prosear com os garimpeiros, Carlito se trancava com o violão para inventar um arranjo diferente para uma música inédita de Rinaldo Buzaglo. Era o tipo de sujeito que achava mais fácil encontrar um acorde diminuto do que uma vaga para estacionar no centro de Manaus.

Numa manhã de domingo, Chico resolveu disputar uma animada pelada com o pessoal do garimpo “Vai Quem Quer”, um campeonato em que o impedimento era ignorado, mas carrinho por trás valia medalha de honra ao mérito. Carlito preferiu ficar no hotel, em paz, sentado à beira da piscina, espremendo acordes dissonantes do violão enquanto o café da manhã ainda fazia efeito.

Só que paz, em garimpo, dura menos que promessa de político em época de eleição. Na mesa ao lado, dois garimpeiros que já tinham ultrapassado o limite do álcool havia algumas doses começaram uma discussão filosófica sobre futebol. De repente, um deles resolveu enriquecer o debate com argumentos de aço: puxou um revólver Taurus calibre .38 de cano longo e o depositou sobre a mesa com a delicadeza de quem serve um cafezinho. Então disparou – felizmente apenas pela boca:

– Olha, caralho, a gente não precisa ir muito longe! Isso aqui é um berro flamenguista de matar ladrão! Sou flamenguista desde que nasci e todo vascaíno que eu conheço é ladrão, corno, viado, maconheiro, filho da puta, bandido, mau-caráter, trambiqueiro, nojento, safado, vagabundo, trampolineiro, vigário, qualira e ainda tem a mãe na zona! Tenho nojo de vascaíno! Não posso ver um que já me dá vontade de passar bala! Ô raça desgraçada!

Em seguida, virou-se para Carlito, que até aquele instante só queria descobrir se a nona do acorde era maior ou menor:

– Você não concorda, parente?

Naquele momento, Mestre Carlito viveu o maior conflito moral da carreira. De um lado, mais de quarenta anos de fidelidade ao Vasco da Gama. Do outro, um flamenguista bêbado segurando um .38, claramente disposto a transformar qualquer divergência esportiva em estatística policial.

Apesar da cegueira que escondia com óculos escuros, Carlito olhou para o revólver, olhou para o sujeito e respondeu com a serenidade dos grandes diplomatas:

– Concordo plenamente, meu amigo!

Naquele domingo, o Vasco perdeu mais um torcedor por alguns minutos. Mas, em compensação, Carlito ganhou o direito de continuar vivo para torcer de novo na segunda-feira.

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