Espaço destinado a fazer uma breve retrospectiva sobre a geração mimeográfo e seus poetas mais representativos, além de toques bem-humorados sobre música, quadrinhos, cinema, literatura, poesia e bobagens generalizadas
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sexta-feira, dezembro 23, 2011
Causos de Bambas: George Jucá
O baixista George Jucá estava participando de uma festa de aniversário na casa do músico Cledson Cleclé quando percebeu que Luciana, uma das irmãs de Cledson, estava se insinuando para ele.
Ocorre que Luciana já havia bebido todas e estava na fase terminal da manguaça, cujos principais sintomas são pernas bamboleantes, excessiva produção de “baba” hidrofóbica nos cantos da boca e soluço intermitente.
Ela se aproximou do baixista, tentando manter o equilíbrio, passou o dorso da mão na boca para limpar a “baba” e, bamboleando na sua frente como um “joão bobo”, tentou puxar conversa:
– Você (hic)... não é (hic)... o baixista (hic)... George (hic)... Jucá?... (hic)
George Jucá, que imita um boiola com perfeição, deu uma desmunhecada, colocou as mãos nos quadris e, com a língua entre os dentes, mais afetadíssimo do que nunca, disparou:
– Você está enganada, amiga! Meu negócio é rôôôôla!
A Luciana esbugalhou os olhos:
– Vixe! (hic)... Sai (hic)... pra lá (hic)... bicha (hic)... velha!... (hic)
E foi embora, injuriada.
George Jucá arranhou um pouco sua reputação de espada matador registrado em cartório, mas consegiu se livrar do famigerado bote do dragão.
Causos de Bambas: Luiz Bacellar
O poeta Luiz Bacellar é um dos escritores mais importantes da literatura amazonense.
Nascido em Manaus no dia 4 de setembro de 1928, o poeta viveu sua infância numa época marcada pela crise econômica que se seguiu ao fausto do “ciclo da borracha”.
Sua obra é perpassada por elementos de forte componente erudito, ao mesmo tempo em que retrata temas e motivos da cultura popular, do folclore, em particular as vivências de sua infância no bairro dos Tocos, hoje Aparecida.
O universo poético retratado por Bacellar, sobretudo no livro Frauta de barro, constrói-se sobre o plano da memória.
Ele tece seus versos com os fios das lembranças, reminiscências de seu mundo infantil.
Constrói um mapa esmaecido de uma cidade corroída pelo tempo e pelas transformações econômicas – Manaus.
Não a que conhecemos hoje, surgida sob as determinações da Zona Franca, mas a Manaus provinciana da segunda metade do século passado.
Estudou no colégio São Bento, em São Paulo, onde completou seus estudos, aperfeiçoando-se posteriormente, no Rio de Janeiro, em Pesquisa Social, Antropologia e Museologia, realizando parte de seus estudos sob a orientação do saudoso professor e estudioso da cultura brasileira Darcy Ribeiro.
Também foi professor de Literatura e Língua Portuguesa no Colégio Estadual Pedro II, polo aglutinador, nos anos 50 e 60, da jovem intelectualidade de Manaus, e se destacou no processo de renovação da literatura regional, participando da fundação do Clube da Madrugada, em 1954.
Exerceu o jornalismo, atuando em diversos órgãos de comunicação de Manaus, e foi conselheiro de cultura do Estado do Amazonas em diversas oportunidades.
A vida literária do poeta teve um começo feliz: em 1959, ele conquistou o prêmio “Olavo Bilac”, da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, com aquele que seria seu livro de estreia, Frauta de barro, publicado em 1963.
Dez anos depois, ele lançaria seu livro mais conhecido, Sol de feira, sucesso de crítica e de público.
Para homenagear o poeta, os compositores Anibal Beça e Rinaldo Buzaglo conseguiram aprovar o tema “Sol de Feira: pregão da alegria”, para ser enredo do GRES Sem Compromisso.
Os dois estavam ali dando tratos à bola para fazer um samba-enredo condizente com a importância do homenageado, quando foram rudemente interrompidos pelo empresário Getúlio Lobo, presidente da escola.
Nervoso, o presidente foi logo atirando pra matar:
– O carnavalesco está exigindo que o abre-alas seja intitulado “Pregão da Alegria”, com seis metros de altura. Já consultei as indústrias Belgo-Mineira, Josan, Bemfixa, Lufaed e Parfix, e nenhuma delas tem condições de entregar um prego de aço inox com seis metros de comprimento por um metro de diâmetro... Eu quero saber onde é que a gente vai arranjar um pregão deste tamanho!
Foi um parto explicar ao presidente-prego que “pregão” é sinônimo de “leilão”.
quinta-feira, dezembro 22, 2011
Causos de Bambas: Thiago de Mello
Agosto de 1978. Depois de 15 anos no exílio, o poeta Thiago de Mello desembarca em Parintins.
Fã de carteirinha do poeta, o empresário Antônio Faria, um dos grandes intelectuais da ilha, apressa-se em ir buscar o poeta no aeroporto.
Antônio veste sua melhor roupa e escolhe o carro mais bonito da família para realizar a tarefa.
Afinal de contas, ele ia ficar pela primeira vez na vida frente a frente com seu grande ídolo literário.
Feita as apresentações, Thiago aboleta-se no carro, enquanto um Antônio radiante e emocionado vai dirigindo vagarosamente, completamente embevecido, em direção à cidade.
No meio do caminho, ele reconhece um funcionário da loja JP, pertencente ao seu pai, Zé Pedro Faria, pedalando uma bicicleta.
Trata-se do folclórico Ari Seixas, um dos baluartes do movimento GLS da Ilha Encantada.
Antônio para o carro e chama Ari Seixas.
Ele encosta a bicicleta ao lado do carro.
– Arizinho, meu mano, deixa eu te apresentar esse ilustre passageiro que estou levando no carro. Ele é o famoso poeta Thiago de Mello, uma das glórias da nossa literatura. Thiago foi amigo íntimo do poeta chileno Pablo Neruda, tendo morado mais de dois anos na famosa Ilha Negra, onde ficava a casa-escritório do Neruda, o primeiro escritor latino-americano a receber o prêmio Nobel de Literatura. O Thiago está voltando para o Brasil depois de ter passado 15 anos exilado na Europa por ter enfrentado a ditadura militar com seus versos humanistas e cheios de paixão pela natureza.
Ari abaixou-se na janela, olhou para o poeta e não disse nada.
Antônio Faria continuou:
– O Thiago de Mello é autor dos famosos livros “Faz escuro mas eu canto”, “Canção do Amor Amado” e “Poesia comprometida com a minha e a tua vida”. Ele também escreveu o brilhante poema “Os Estatutos do Homem”, considerado uma obra-prima pela ONU e já traduzido para mais de 50 países. Além disso, o Thiago teve e tem entre seus amigos íntimos os poetas Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto, os escritores Mario Vargas Llosa, Julio Cortazar, Gabriel García Márquez, Carlos Heitor Cony, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Armando Nogueira e José Lins do Rego, o teatrólogo Nelson Rodrigues, os artistas plásticos Pablo Picasso, Candido Portinari e Juan Miró, o paisagista Burle Marx, o arquiteto Oscar Niemeyer...
Ari abaixou-se na janela, olhou para o poeta mais uma vez e falou afetadamente:
– Pois olha, maninho, o meu cu nem tremeu...
Aí, voltou a pedalar a bicicleta e foi embora.
Antônio Faria só faltou se enfiar debaixo do carro.
Relembrando o saudoso Chico Pacífico
Redação do Amazonas em Tempo, anos 90. Em pé, Aniceto e Chico Pacífico (apontando para o céu). Sentados: Mário Adolfo, Sebastião Reis, Fernando Ruiz e esse vosso escriba, curtindo um jogo do Botafogo no Boteco do Omar
No final dos anos 70, a redação do jornal A Notícia foi transferida para a Estrada do Contorno, no Japiim, nas proximidades do Distrito Industrial.
Em pouco tempo, os jornalistas descobriram um pequeno restaurante que servia uma comida caseira de qualidade razoável, localizado na rua Tefé, nas proximidades da fábrica Sonora, e passaram a almoçar no recinto.
Para agradar a nova clientela qualificada, Rubão Melo, o proprietário do restaurante, ia todo dia à mesa dos jornalistas para receber sugestões sobre o cardápio, checar a qualidade do atendimento, o tempo de espera, essas coisas.
Um belo dia, mais abusado do que mulher na menopausa, o fotógrafo Clóvis Silva cortou da linha de três pontos:
– Companheiro, o seu restaurante serve uma comida muito boa e a gente faz a maior propaganda dele entre os nossos amigos. Eu só reclamo de uma coisa: aqui não tem sobremesa!
Uma semana depois, o Rubão já havia providenciado uma série de sobremesas e ia pessoalmente à mesa dos jornalistas anotar os pedidos:
– Creme de cupuaçu! –, dizia Ernesto Coelho.
– Creme de graviola! –, dizia Altair Capitari.
– Doce de mamão verde! –, dizia Raimundo Nonato.
– Pudim de ameixa! –, dizia Paulo Henrique.
– Frapê de côco com calda de chantilly! –, dizia Sebastião Lima.
O restaurante estava quase se transformando em uma rotisserie, já que os jornalistas estavam ficando cada vez mais abusados.
Frequentador esporádico do restaurante, o jornalista Chico Pacífico, sempre que era inquirido sobre a sobremesa, limitava-se a fazer uma pergunta:
– Tem doce de laranja em lata?
– Não, ainda não temos! – explicava, gentilmente, Rubão. “Mas me dê um tempo, que vou providenciar!”.
Chico Pacífico dispensava a sobremesa e pedia um cafezinho.
Disposto a agradar o jornalista, Rubão Melo batia pernas em supermercados, mercearias, tabernas, feiras livres e o diabo a quatro, mas ninguém tinha o produto.
Encontrar doce de laranja em lata, em Manaus, era mais difícil do que acertar na megasena acumuldada.
Um dia, Rubão soube que um amigo estava de viagem para São Paulo e não teve dúvidas: encarregou o sujeito de comprar cinco caixas de doce de laranja em lata e despachar pra Manaus, com frete a cobrar.
Uns 20 dias depois, a mercadoria foi entregue.
Eram cerca de 50 latas de 3,2 kg, sobremesa suficiente para Chico Pacífico forrar o bucho pelo resto da vida.
Em uma sexta-feira, solícito como sempre, Rubão se aproximou da mesa dos jornalistas para anotar os pedidos da sobremesa: goiabada Cascão com queijo de Minas, frapê de mamão papaya com licor de cassis, pudim de tapioca com macaxeira, doce de abacaxi com cobertura de chocolate, sorvete de mangaba com creme holandês e por aí afora.
– Tem doce de laranja em lata? – questionou Chico Pacífico, mais uma vez.
O rosto de Rubão se iluminou.
– Temos, temos sim, e está bem geladinho! –, derreteu-se Rubão.
– Você já comeu doce de laranja em lata? –, insistiu o jornalista.
– Não, ainda não comi não! –, devolveu Rubão, cada vez mais gentil.
– Então abre uma lata, come um pedaço e me diz se isso não é a maior merda já produzida no Brasil em termos de doce... Que doce de lata escroto! Tem um gosto horrível, meio amargo, meio azedo! Não sei como alguém pode ter coragem de comer uma bosta dessas! – explicou o jornalista, se levantando para ir embora.
Foi preciso uns quatro jornalistas segurarem o Rubão pra ele não moer o Chico Pacífico de porrada.
Sonhos de Tatoo
Março de 1984. Sentado em uma cadeira de balanço na frente de sua “fortaleza”, localizada no conjunto D. Pedro I, o bicheiro Ivan Chibata estava apreciando o movimento da rua quando avistou um marombeiro com físico de Mr. Universo desfilando apenas de sunga verde limão e arrastando pela coleira um invocado cão pitbull.
O sujeito trazia várias tatuagens tribais espalhadas pelos braços musculosos e, ocupando toda a sua costa, um gigantesco dragão alado brigando com uma fênix.
As cores quentes da tatuagem eram simplesmente exuberantes.
Quando viu aquilo, o franzino e raquítico Ivan pirou o cabeção e resolveu interpelar o sujeito:
– Meu amigo, me desculpe importuná-lo, mas essa sua tatuagem é magnífica! Magnífica! É uma autêntica Capela Sistina de Michelângelo! Deu muito trabalho pra fazer?...
– Não, até que não. Ficou pronta em três meses! – devolveu o “saradão”.
– E doeu muito? – insistiu Ivan.
– Não, não doeu não. O tatuador era da melhor qualidade! – explicou o sujeito, dando um comando para o pitbull se sentar e permanecer quieto, ouvindo a conversa dos dois.
Ivan foi em frente:
– Me diz uma coisa: qualquer pessoa pode ser tatuada?
– Qualquer pessoa. Basta não sofrer de doença da pele nem ser diabético.
– Eu estou perguntando isso porque sempre quis fazer uma tatuagem, mas nunca tive coragem.
– Eu posso te dar o endereço do Charles Tatoo, ali no Parque Dez, pra você conversar com ele. Em dez minutos, você vai criar coragem para fazer uma tatuagem.
– É mesmo? – espantou-se Ivan Chibata, os olhos brilhando. “E que tipo de tatuagem você acha que cai bem nesse meu braço direito?...”
O sujeito examinou detidamente o braço do bicheiro e cantou a pedra:
– Eu acredito que dê pra fazer uma cobra cipó...
Ivan se encrespou:
– Qual é, porra? Tu tá me tirando, é? Tu tá me tirando?...
– Que tirando o que, porra! Eu estou sendo sincero! – falou duro o “saradão”. “Nesse teu bracinho cadavérico de criança desnutrida de Biafra, o máximo que dá pra fazer é uma cobra cipó e olhe lá...”
Aí, deu um novo comando no pitbull e foi embora.
Ivan Chibata nunca mais quis saber de tatuagens.
terça-feira, dezembro 20, 2011
Relembrando o falecido Cine Ypiranga
Agosto de 1968. O varapau Sidnei Soares, o “Sidão”, com catorze anos e 1,96 cm de puro esqueleto, foi barrado pelo porteiro do cine Ypiranga ao tentar entrar em um filme proibido até dezoito anos.
Ele criou o maior caso, já que o cinema não aceitava devolução de ingresso.
– Quantos anos você tem? – perguntou o irascível vigilante do Juizado de Menores, que fazia dupla com o porteiro.
– Dezesseis!
Mentiu pela metade, mas acabou sendo admitido no cinema pela suposta “sinceridade”.
Foi um dos poucos sujeitos a realizar esta façanha.
Nunca conheci ninguém mais odiado pela garotada do bairro do que este suposto vigilante do Juizado de Menores (ninguém nunca teve acesso a um documento que comprovasse sua identidade funcional para descobrir seu verdadeiro nome).
Ele era conhecido simplesmente como “Baixinho”.
O sujeito era baixo, entroncado, cultivava uma barba meio cafajeste e se comprazia em nos fazer sofrer.
A gente desconfiava de que ele era um simples lambe-botas do Adriano Bernardino, dono do cinema.
Naquela época, os estudantes ganhavam uma caderneta escolar que tinha de ser apresentada diariamente na secretaria da escola para receber o carimbo de “presente”.
A caderneta era devolvida na saída da escola.
Era aquele carimbo que atestava a nossa frequência na sala de aula.
Na referida caderneta, eram lançadas as notas e os pais precisavam assinar em um campo específico para garantir que estavam acompanhando o desenvolvimento escolar do aluno.
A caderneta escolar também substituía a carteira de identidade nos eventos.
Para adulterar a idade nas cadernetas escolares era questão de lógica para qualquer moleque com os hormônios a flor da pele.
O feito, aparentemente banal, dava uma trabalheira miserável.
Era preciso limpar o número original com um pouco de álcool e depois encontrar uma lapiseira cuja tinta se aproximasse o máximo possível da cor original, para escrever o novo número.
Algumas adulterações ficavam perfeitas.
Outras, não.
O filho da puta do Baixinho devia ter sido treinado no FBI para conseguir identificar tantas adulterações.
Ou então, como comecei a desconfiar algum tempo depois, ele partia da lógica: já que todo mundo adulterava as cadernetas, bastava simplesmente escolher um bode expiatório.
Durante muitos anos, eu fui um desses bodes expiatórios.
Uma vez, aos 13 anos, eu fui barrado numa sessão noturna (proibida até 14 anos) e o escrotérrimo Baixinho confiscou minha caderneta, o que era sinônimo de expulsão do colégio.
Fiquei tão puto que chorei de raiva.
Nos cines Odeon, Avenida e Politheama, eu havia entrado sem problemas, como é que estava sendo barrado no único cinema de meu próprio bairro?
Depois de eu muito implorar (e me humilhar), o paneleiro me devolveu a carteira avisando de que na próxima vez ia confiscar “aquela merda adulterada e não devolveria nem pro Papa”.
Para limpar a honra ultrajada, eu resolvi voltar na noite seguinte, acompanhado da mamãe e do papai, mostrando a minha caderneta escolar tal como se deve.
O filho da puta não deu um pio.
Outra vez, ele barrou o Simas, que devia ter dez anos, em uma sessão matinal proibida até 12 anos.
O Simas ficou duas horas chorando em um dos bancos do Palácio Rodoviário para justificar o tempo de permanência dentro do cinema.
Quando entrou em casa, minha mãe indagou:
– O filme foi bom? Porque pelo jeito como os seus olhos estão vermelhos, você passou a sessão inteira chorando. Era “Dio come ti amo”?...
O Simas não disse nada.
Um dia, entretanto, o Baixinho caiu na asneira de barrar o Samuel Colorau num filme proibido para menores de 18 anos.
A exemplo do Simas, de quem sempre foi um dos melhores amigos, Samuel também não disse nada.
Limitou-se a chorar de raiva.
Como a vingança é um prato que se come frio e pelas beiradas, ele ficou vagabundando pelo Palácio Rodoviário esperando a sessão terminar.
Quando o Baixinho começou a descer a ladeira de São Francisco, indo em direção de sua casa, Samuel surgiu das trevas armado com um taco de beisebol, como se fosse o pior pesadelo daquele desgraçado.
O Baixinho levou tanta porrada que passou três meses sem aparecer no cinema.
Até hoje questiono por que o Samuel não matou o sujeito?
Ele não faria qualquer falta a humanidade.
Alguns anos depois, Simas deu o troco.
Era uma sessão das 16h proibida para menores de 18 anos (provavelmente o filme “Emanuelle”).
Ele convocou todos os moleques punheteiros da rua Parintins (uns 80!) para ficarem posicionados nas proximidades da porta de saída do cine Ypiranga, mas sem dar muita bandeira.
Quando as luzes começaram a apagar, indicando o início da sessão, Simas saiu do cinema pela lateral e simplesmente abriu a porta de saída.
Os mais de oitenta moleques entraram no cinema em velocidade supersônica, fazendo o maior escarcéu, se sentando alegremente nos lugares vagos e deixando os lanterninhas a beira de um ataque de nervos.
Uns quinze deles foram colocados pra fora, mas a maioria absoluta assistiu ao filme.
O Baixinho ficou tão desmoralizado que se aposentou do Juizado de Menores e nunca mais foi visto no bairro.
Espero sinceramente que ele já tenha subido para o 2º andar.
segunda-feira, dezembro 19, 2011
Bares são referências entre pontos turísticos de Belo Horizonte
Por Raquel Freitas, do G1
Uma frase virou ditado popular entre os belo-horizontinos: “se não tem mar, vamos para o bar”.
Na cidade onde não faltam “botecos”, com mais de 12 mil, segundo associação do setor, o visitante encontra roteiros que conciliam mercados, praças, parques e museus, tudo logo ali, bem pertinho dos locais que motivaram o apelido ‘capital mundial dos bares’.
Se “botecar” virou verbo no dicionário do belo-horizontino já faz tempo, o apelido foi aprovado em lei municipal recentemente: em 2009.
A oficialização ocorreu oito décadas depois da inauguração do Tip Top, o bar mais antigo ainda em funcionamento na cidade, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Minas Gerais (Abrasel-MG).
Fundado por um romeno e uma tcheca, hoje é administrado por uma ex-cliente, Teresa Recorder Gonçalves, que, aos 10 anos, começou a frequentar o estabelecimento junto com o pai.
Teresa ampliou o cardápio, que tem como destaque o salsichão com salada de batata.
O prato é o preferido entre os visitantes da casa localizada na Rua Rio de Janeiro, no bairro de Lourdes.
Bem perto dali, a cerca de 600 metros, fica a Praça da Liberdade, um dos principais pontos turísticos da cidade.
Inspirado no Palácio de Versalhes, na França, a praça foi projetada para abrigar a sede do poder mineiro.
É ladeada por edifícios históricos e pelos traços modernistas de Niemeyer e pós-modernistas de Sylvio de Podestá e Éolo Maia.
Hoje, abriga um circuito cultural, iniciativa que transformou antigos prédios públicos em espaços para o fomento à cultura.
Tip Top oferece cardápio baseado na culinária alemã
Dali, bastam dez minutos de caminhada para se chegar ao Mercado Central.
O cartão-postal também foi inaugurado em 1929, no mesmo ano do Tip Top, e oferece um pouco de tudo: produtos artesanais, artigo para decoração, iguarias gastronômicas da culinária mineira e, claro, bares.
É tradição ir ao mercado para comer fígado acebolado com jiló, servido para os clientes, em pé, no balcão dos botecos.
Em outro ponto da capital, vale incluir no passeio por Belo Horizonte a visita a um prédio residencial com galeria de bares e lojas.
É o Edifício Maletta, o primeiro na cidade a ter escada rolante.
Lá dentro fica a Cantina do Lucas, tombada como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade.
O bar começou a funcionar em 1962, com o nome de Chopplândia.
Cinco anos depois da abertura, foi assumido pela família Lucas e ganhou fama com clientes ilustres.
O administrador do restaurante, Edmar Roque, lembra que o bar ficou conhecido por reunir intelectuais e artistas desde a década de 1960.
Às mesas, sentavam-se nomes como os escritores Pedro Nava e Murilo Rubião, além da turma do Clube da Esquina.
Nesta época, o local também era ponto de encontro de militantes de esquerda contrários ao regime militar.
“O Lucas era uma tribuna livre, tinha toda uma liberdade para as pessoas se expressarem. O seu Olympio, que era comunista convicto, era o grande protetor desta turma. Sempre que via alguém estranho dava um jeito de avisar com um código vindo do cardápio: hoje não tem filé à cubana”, relata.
O senhor a quem Roque se refere é Olympio Peres Munhoz, garçom que ajudou a consolidar a tradição da casa, servindo aos clientes, por 39 anos, pratos baseados na culinária internacional e adaptados ao gosto do freguês.
No cardápio, destacam-se o macarrão parisiense, o filet à parmegiana e o surprise à moda (filé à milanesa, recheado com presunto e muçarela, risoto ou arroz à piamontese, banana, batata frita e dois ovos fritos).
E para acompanhar, cerveja gelada.
Ao lado do Edifício Maletta está o Centro de Cultura Belo Horizonte, com salas de leitura, acesso gratuito à internet e espaço para exposições.
O prédio é patrimônio estadual e municipal.
Os imóveis que abrigam o Centro de Cultura e a Cantina do Lucas estão no coração de Belo Horizonte, a dois quarteirões da Avenida Afonso Pena, uma das principais da cidade e onde é instalada, aos domingos, a Feira de Artesanato, apelidada pelos belo-horizontinos de Feira Hippie, conhecida principalmente pela venda de roupas, calçados e bijuterias.
Ao percorrer a avenida em direção ao bairro Mangabeiras, já se pode avistar a Serra do Curral, coberta por flora diversificada, com espécies do cerrado e da mata atlântica.
Ao pé da Serra do Curral está a Praça do Papa, de onde se tem uma das mais belas vistas da cidade.
Originalmente batizada de Israel Pinheiro, ganhou o apelido após a visita do Papa João Paulo II, em 1980.
Também fazem parte do circuito turístico do Mangabeiras o mirante, o Museu das Telecomunicações e a Rua do Amendoim.
Muitas lendas rondam a via, onde os carros ‘sobem’ mesmo desligados, apesar de tudo não passar de ilusão de ótica.
O mirante do Mangabeiras tem uma das mais belas vistas da capital
Do alto do bairro Mangabeiras, o horizonte é tão amplo que é possível avistar a Região da Pampulha, onde está localizado o restaurante mais antigo em funcionamento em Belo Horizonte, segundo a Abrasel-MG.
No Maria das Tranças, especializado em comida mineira, o frango ao molho pardo é o principal prato.
O estabelecimento foi criado em 1950 por Maria Clara Rodrigues.
Um dos clientes mais ilustres destas seis décadas foi o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que acabou se tornando amigo da fundadora.
Fotografias nas paredes registram as idas ao restaurante para saborear o prato típico.
Como prefeito de Belo Horizonte, na década de 1940, JK deu início ao Complexo Arquitetônico da Pampulha. Primeiramente, foi construída a lagoa, com 18 quilômetros de extensão de orla.
Frango ao molho pardo do Maria das Tranças conquistou até o ex-presidente JK
Num outro bairro da capital, a tradição dos botecos está ligada à boa música.
O Santa Tereza, na Região Leste, ficou conhecido como o reduto da boemia.
Lá surgiram o Clube da Esquina, o Sepultura e a banda Skank.
Em quase todas as ruas, bares antigos e alguns novos atraem público diversificado.
Em frente à Praça Duque de Caxias e perto da matriz, o bar e restaurante Bolão ocupa, desde 1961, um dos pontos mais conhecidos do bairro.
Rochedão é um dos pratos mais pedidos do Bolão
A família Rocha é dona do Bolão, e sete irmãos dividem as tarefas.
O prato mais servido é o Rochedão, com arroz, feijão, bife, ovo e fritas ou espaguete.
O preço ajuda a deixar o restaurante sempre cheio, atendendo uma média de 400 pessoas por dia.
De acordo com o proprietário Sílvio Rocha, com R$ 17 é possível comer bem no Bolão.
O aposentado Paulo Azevedo Reis, natural do Sul de Minas, escolheu o bairro para morar e o bar para passar os fins de tarde.
Há 40 anos, o aposentado pode ser encontrado no balcão à espera de um bom papo.
“Eu era bancário e, depois do expediente, vinha para cá tomar duas, três cerveja. Hoje, sou aposentado, mas mantenho o horário de depois da seis da tarde. Eu fico aqui no balcão porque, se sento, parece que quero ficar isolado”, conta Paulo.
A poucos minutos dali, o visitante pode conhecer a Praça da Estação, construída em 1904 e hoje revitalizada.
O prédio da estação do metrô abriga o Museu de Artes e Ofícios (MAO), com acervo de mais de duas mil peças, entre objetos, instrumentos e utensílios de trabalho do período pré-industrial brasileiro que contribuem para contar a história da evolução do mundo do trabalho.
De acordo com a diretora de promoção Turística da Belotur, Stella de Moura, os bares já fazem parte da tradição da cidade e têm atraído cada vez mais turistas.
“Na realidade, a questão dos bares é uma tradução do nosso estilo de vida, que pode ser comprovada em números. Eles são uma opção de lazer que os turistas têm curiosidade em conhecer”, afirma.
Projeto The Faces of Meth
O projeto “The Faces of Meth” foi desenvolvido pelo gabinete do xerife do Condado de Multnomah, no Oregon, por iniciativa do delegado Bret King.
O delegado simplesmente começou a compilar as fotografias criminais dos dependentes de metanfetaminas (pervertin, desbutal, ecstasy, crack, pasta base, merla, etc) a partir de sua primeira detenção até as detenções seguintes, para mostrar o efeito devastador da droga no rosto dos viciados.
Envolvidos na prevenção do uso de metanfetamina e nos esforços de conscientização dos jovens do condado, Bret King costuma começar cada uma de suas apresentações dizendo o seguinte:
“Agradeço aos homens e mulheres que, através de suas histórias e fotos, puderam compartilhar sua dolorosa experiência com metanfetaminas para que você nunca tenha que experimentar por si mesmo para saber o que ela pode fazer. Tenho visto e entrevistado cada uma dessas pessoas na cadeia. Espero que ao ver isso, você seja capaz de fazer uma escolha que não o consumo de metanfetaminas e que eu nunca precise ver você dentro da minha prisão.”
Espero que, neste Natal, aquela anônima e paranoica alma penada com laivos de escritor maldito – que vive perdendo seu precioso tempo de viciado em pasta base escrevendo comentários idiotas aqui no mocó – caia na real e se interne em uma clínica de reabilitação.
Caso contrário, serei obrigado a postar as fotos de “antes” e “depois” enviadas pelo delegado Bret King.
Tomou, papudo?
domingo, dezembro 18, 2011
Brasil se vinga da Dinamarca e é campeão no futebol feminino
Sei que pode parecer anacronismo, mas ainda gosto muito de mulheres.
Sério.
E, por incrível que pareça, gosto desde pequenininho.
Não sei explicar a origem dessa doce maldição.
Podem ter sido as más companhias (nenhum moleque da minha turma virou viado depois de adulto).
Uma falha na educação recebida em casa.
Uma omissão da minha professora Dona Lucila, do terceiro ano primário.
Uma consequência direta da leitura dos “catecismos” de Carlos Zéfiro.
O certo é que, mesmo depois de ter conhecido biblicamente mais de 1.280 exemplares da fauna, essas figuras curvilíneas e delicadas ainda me tiram do sério.
Também preciso confessar que, na qualidade de ex-quarto-zagueiro do formidável “Murrinhas do Egito”, continuo gostando muito de futebol, apesar de não disputar uma simples partida de “pelada” há mais de 25 anos.
A mistura de futebol e mulheres, portanto, me encanta profundamente.
Daí que eu devo ter sido um dos poucos machos da aldeia que, em vez de ir lavar o carro nessa tarde de domingo, optou por se abastecer com biritas e cigarros para torcer pela seleção feminina do Brasil em jogo memorável contra a Dinamarca.
O jogo transmitido pela Band só não foi melhor porque a locução e os comentários da velha e cansada dupla caipira (“Luciano & Zé Neto”) são simplesmente brochantes.
O que é aquele sotaque over do Neto, meu Deus?
E por que o Luciano se esforça tanto para ser um sub-Sílvio Luis, sem um pingo da graça do original?
Para resolver a situação, recomendo acionar a tecla “mute” do controle remoto e colocar um disco do Pink Floyd no volume máximo.
Comigo, essa simpatia sempre funciona.
Mas voltando ao jogo das meninas.
A Dinamarca ganhou disparada no quesito beleza, graça, malemolência e porta malas aerodinâmicos.
Por Tutatis!, mas a jogadora de número 10 e a jogadora de número 8 (não gravei o nome porque a tevê estava sem som, gafanhoto!) eram duas valquírias de fazer qualquer viking chorar sem sentir dor.
Em compensação, a seleção canarinha tinha o veneno e a graça da mulher brasileira dignamente representada pela estonteante Thaís.
Lideradas por Marta e Cristiane, as brasileiras venceram as dinamarquesas por 2 a 1, com dois gols da zagueira Érika (o segundo, de bate-pronto, foi uma pintura de Magritte!).
A competição marcou o retorno do técnico Jorge Barcellos ao comando da seleção, substituindo Kleiton Lima.
A vitória vingou a derrota que o Brasil havia sofrido para esta mesma Dinamarca, na quinta-feira, na última rodada do quadrangular.
Aquele resultado deixou as europeias no primeiro lugar, o que lhes deu a vantagem de jogar pelo empate na decisão.
No fim do jogo, a Dinamarca quase empatou.
A volante Ester cometeu pênalti dominando escandalosamente uma bola com o braço esquerdo no meio da área, na cara da juíza, mas nada foi marcado.
A juíza era brasileira ora, pois, pois.
Nos acréscimos, as dinamarquesas carimbaram o travessão de Andreia, que ainda tocou de leve na bola impedindo o gol de empate das louraças belzebu.
Graças a brilhante atuação da zagueira Érika, a seleção canarinha voltou a conquistar o torneio, bisando que já havia feito na primeira edição, em 2009.
Em 2010, o título ficou com o Canadá, por conta de um empate em 2 a 2 com as brasileiras, resultado que beneficiava as canadenses.
Agora a missão será ganhar a inédita medalha de ouro em Londres no próximo ano.
E, em vez desses horrorosos calções masculinos, a Fifa deveria autorizar as jogadoras de futebol a utilizarem aqueles charmosos shortinhos de lycra usados pelas jogadoras de vôlei.
Aí, sim, o futebol feminino deslancharia de vez!
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