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quinta-feira, junho 05, 2014

Paulo Cesar de Araújo: uma outra boa história sobre Roberto Carlos


O historiador que escreveu a biografia não autorizada do Rei lança uma obra com os bastidores do processo que proibiu sua venda

Camila Guimarães

Aos 15 anos, o baiano Paulo Cesar de Araújo deixou sua cidade natal, Vitória da Consquista. Decidira tentar a vida em São Paulo, com um irmão e sua mãe, Alzenira. De origem simples, dona Alzenira queria que seus filhos fossem algo mais do que ela. Desejava dar aos filhos melhores oportunidades de estudo e a chance de entrar numa boa faculdade. Era 23 de fevereiro de 1978, e o jovem Araújo carregava na bagagem discos, recortes de jornais e revistas com notícias sobre Roberto Carlos, seu ídolo desde criança.

Ele ainda não sabia que naquela mala estava o embrião do livro que escreveria quase 30 anos mais tarde, a biografia não autorizada Roberto Carlos em detalhes, lançada em 2006 pela editora Planeta.  Muito menos que seria processado por seu ídolo, que o acusou de má-fé e conseguiu que a Justiça, em 2007, banisse o livro das prateleiras. Alegou invasão de privacidade. Uma atitude medieval que flertou perigosamente com a censura e colocou em risco a liberdade de expressão garantida pela Constituição brasileira.

O equívoco de Roberto Carlos criou uma outra boa história para Araújo nos contar. Em O réu e o Rei – Minha história com Roberto Carlos em detalhes (Companhia das Letras), Araújo – formado em história e jornalismo – conta, em 520 páginas, a primeira vez que ouviu uma música do rei; como ela esteve presente, de forma marcante, em sua infância e sua juventude; e como, mais tarde, norteou seu trabalho de pesquisador da MPB. A narrativa mostra de que forma o mito Roberto Carlos foi criado e sustentado por milhões de fãs Brasil afora, como Araújo, de origem simples, até culminar no momento em que o grande ídolo se voltou contra o fã. “Quando Roberto proibiu o livro, ele me deu um tema que não existia. Eu precisava contar essa história”, afirma Araújo.

O destaque da obra é o capítulo em que Araújo descreve a audiência em que esteve cara a cara com o Rei, em São Paulo, em abril de 2007. Ali, Roberto Carlos afirmou: “Minha história é patrimônio meu”; “Livro é um documento, é algo que fica para sempre”; e “Ninguém pode escrever minha biografia sem minha orientação, porque ninguém melhor do que eu para contar a minha própria história”.

Ao final, depois que os advogados da Planeta aceitaram o acordo que proibia a venda do livro sem consultar Araújo, o juiz Térsio Pires tirou de uma bolsa um CD de sua autoria e o entregou a Roberto Carlos. Disse: “Também sou cantor e compositor, com o nome artístico de Thé Lopes. Gostaria muito que você ouvisse esse disco e desse sua opinião sincera.” Horas antes, durante a audiência, o juiz ameaçara fechar a editora Planeta.

Naquela mesma noite, dentro do ônibus de volta a Niterói, onde vive, Araújo passou por suas piores horas. “Só conseguia pensar que 15 anos de pesquisa, as mais de 250 entrevistas, meu livro, tudo tinha acabado. Me senti muito sozinho.”

Não poderia estar mais enganado. Logo outros escritores, como Paulo Coelho, e artistas, como Lobão, Ney Matogrosso e Rita Lee, deram opiniões públicas a favor da circulação da obra. Outros tantos defenderam Roberto, e a proibição do livro tornou-se o exemplo mais radical da discussão sobre a publicação de biografias não autorizadas no Brasil.

Os advogados de Roberto Carlos usaram como base os Artigos 20 e 21 do Código Civil. Eles exigem autorização prévia do biografado para a publicação de obras com fins comerciais a seu respeito e consideram a vida privada “inviolável”. Mas a Constituição Federal afirma: “A expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação é livre e independe de censura ou licença”.

Para fazer valer a Constituição, a Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) move uma ação direta no Supremo Tribunal Federal para anular os Artigos 20 e 21. O Procure Saber, movimento cuja lista de fundadores inclui o próprio Roberto Carlos (que depois abandonou o grupo), Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, quer que os artistas e seus herdeiros permaneçam com o direito de impedir a publicação de biografias. Lutam ainda para que biografados ou suas famílias recebam parte do lucro obtido com a venda das obras.

A previsão é que o STF julgue a matéria ainda neste semestre. Em outro campo de batalha, a Câmara dos Deputados, um projeto de lei que libera a venda de biografias não autorizadas foi recentemente aprovado. O texto precisa agora passar pelo Senado e, em seguida, receber a sanção da Presidência da República.

Araújo diz não ter ressentimentos de seu ídolo. “Herdei isso da minha mãe. Não guardo rancor. Sei das limitações do Roberto, que não tem familiaridade com os livros. Tudo o que posso fazer é lamentar.” E escrever mais. O réu e o Rei, diz ele, “é um ato de resistência”.

Não toquem em Machado de Assis


É uma hipocrisia apoiar adaptações de textos literários para facilitar a leitura. Porque ler nunca é fácil

Luiz Antônio Giron

Chego tarde à discussão sobre a legitimidade de adaptações de obras literárias do passado para facilitar a leitura das novas gerações.

Mas não tenho como desviar de um assunto que só se torna relevante porque o Brasil continua a ser o país dos vira-latas (ou do neo-viralatismo), dos espertalhões e do triunfo da ignorância.

As adaptações de livros clássicos não passam de uma camada do aterro sanitário que entulha a cultura do país desde que os portugueses rezaram a Primeira Missa em Porto Seguro e constataram que a população local se mostrava dócil à evangelização.

Dá asco pensar no tema, mas vou tapar o nariz e tentar manter a lucidez.

As políticas do livro e da educação nacionais são infames e parece que não irão melhorar nunca.

Dessa forma, o futuro de nossa cultura já está traçado: caímos na tentação da visão antropológica que rebaixa o indivíduo a sua condição primitiva e não permite que ele saia do estágio folclórico e étnico a que está condenado desde o início dos tempos.

Bons selvagens,os brasileiros são obrigado a  celebrar as “manifestações culturais” mais primárias como se a população estivesse condenada sumariamente à fogueira de São João e ao trio elétrico.

Ora, esse ambiente sulfúrico torna coerente e até elogiável a facilitação da leitura - prefiro chamá-la de vulgarização.

Afinal, para que submeter os jovens leitores ao sacrifício de ler Homero, Cervantes, Graciliano Ramos e Machado de Assis quando tudo pode ser resolvido numa narrativa direta e concisa no estilo?

A vulgarização poupa trabalho do aluno e rende uma boa grana às editoras e aos autores das adaptações de obras de domínio público – que, do contrário, sairiam de graça para o leitor.

A ideia de que rebaixar o ato de ler é um gesto culturalmente correto constitui um dos dois argumentos em confronto hoje na discussão das adaptações.

O outro preconiza que os textos clássicos não podem ser alterados, pela própria sacralidade artística que eles contêm.

Obviamente, defendo o segundo argumento – embora não acredite na arte como religião.

Se valer um testemunho, perdi muito tempo na minha infância e adolescência lendo Homero, Cervantes, Jack London e outros autores clássicos em adaptações de medalhões brasileiros como Clarice Lispector e Carlos Heitor Cony.

Isso porque eu deveria ter lido os textos originais, ou pelo menos as traduções diretas.

Acabei lendo bons textos de segunda mão de Cony e Clarice que não substituíram os originais.

Antes, desviaram minha atenção.

É claro que não havia naquele tempo (como não há agora) edições didáticas desses textos.

A produzir introduções, ensaios e notas sobre obras canônicas em edições críticas, as editoras brasileiras sempre preferiram a lei do menor esforço.

Em vez de preparar e orientar o jovem leitor, as editoras lhe entregam edições embonecadas e facinhas.

O resultado é o que vemos: cada vez mais jovens lendo baboseiras para jovens leitores – a chamada literatura para jovens adultos, uma literatura-salgadinho.

O resultado é que os jovens adultos (e crianças) ignoram com crescente soberba os autores importantes.

Afinal, para que enfrentar a dieta pesada de Guimarães Rosa se é possível devorá-lo em versão nacho com queijo?

Os jovens nutridos nessa formação rala e prejudicial ignoram também que ler é difícil.

Trata-se de uma atividade que precisa ser elaborada ao longo dos anos. 

Envolve aprendizado, treinamento e, no caso do texto literário, vivência, intimidade com a natureza humana.

Se a maior arte dos professores do ensino fundamental e médio do Brasil gostasse mesmo de ler, os estudantes entenderiam que o esforço vale a pena.

Mais, que ler é mais compensador que jogar videogame ou assistir a uma série de televisão.

Tudo isso me faz pensar em postar as hashtags #NãoToqueemMachado, #NãoToqueemHomero e #NãotoqueemCervantes e assim por diante.

Só de pensar que alguém possa alterar os textos canônicos me dá calafrios.

Que dizer quando um professor apresenta um projeto desses ao governo federal e ganha milhões para executar Machado de Assis em praça pública em nome do consumo fácil das tribos autóctones analfabetas funcionais?

É o último círculo do inferno.

Não toquem na sutileza de Machado de Assis, na concisão de Graciliano Ramos e na complexidade de Guimarães Rosa.

Tirem suas mãos porcas da pouca literatura que nos resta!
      

Conheça 10 sites para aprender mais de 200 idiomas estrangeiros gratuitamente


Com o processo de internacionalização cada vez mais intenso dos países, aprender um idioma estrangeiro é requisito indispensável. 

Tanto por questões pessoais quanto profissionais, ter domínio ou até conhecimento básico de outras línguas estreita laços de amizade e também é capaz de favorecer o crescimento na profissão. 

E com o surgimento e a evolução das ferramentas tecnológicas o que não faltam são opções que ajudam no processo de aprimoramento das habilidades dos estudantes que se aventuram em conhecer outros idiomas.

Sendo assim, confira a lista de 10 plataformas gratuitas, tanto brasileiras quanto internacionais, que abrigam diferentes cursos de idiomas que vão do inglês - passando pelo mandarim, espanhol, polonês - até o russo. São mais de 200 idiomas para suprir os interesses mais diversos possíveis.


O site é ideal para quem quer aprender inglês com americanos nativos. As aulas acontecem através do Hangout, videoconferência do Google, que ajuda a praticar a fala e compreensão auditiva. Para quem não tiver um microfone, for tímido ou quiser apenas ouvir, é possível ainda assistir a transmissão ao vivo das aulas ou acompanhá-las depois pelo YouTube. Para acessar a plataforma é preciso ter cadastro no Facebook e as aulas acontecem por meio de convites dos administradores.


No site, as pessoas podem criar o próprio perfil ou fazer o login via Facebook. É possível aprender até 12 idiomas como alemão, francês, espanhol. São 18 milhões de pessoas cadastradas na plataforma. Há recursos como vocabulários, diálogos, gravador de voz, podcasts e revisão. O acesso à conta básica é gratuito e o novo usuário tem à disposição sete dias para usar os serviços premium, depois disso, o premium passa a ser pago.


É considerado um dos maiores guias de pronúncias do mundo. A plataforma é perfeita para quem tem curiosidade de saber como se pronuncia uma determinada palavra. Além disso, pode ajudar outros usuários gravando pronúncias de seu próprio idioma. Há diferentes línguas como russo, tártaro (língua falada por mais de 5 milhões de pessoas na República do Tartaristão, na Rússia). Há 300 mil pessoas cadastradas e na plataforma é possível ainda saber quantos usuários estão on-line.


Nesta plataforma, as pessoas podem tanto aprender quanto ensinar um outro idioma pra alguém, sem pagar nada. Os usuários vão ganhando créditos tanto corrigindo atividades ou dando dicas, que podem ser convertidos para acessos a áreas premium do site, que são normalmente pagas. Há mais de 6 milhões de membros em todo o mundo e é considerada a maior comunidade on-line de aprendizado de outros idiomas.


A plataforma é voltada a pessoas que já têm algum conhecimento em um determinado idioma e querem ampliar o vocabulário. São 220 línguas disponíveis. É também considerada ideal para os professores que querem desenvolver, a longo prazo, a aprendizagem de seus alunos, pois o site oferece recursos em que os alunos podem aprender o idioma, por exemplo, a partir da cultura geral com imagens ou músicas de um país específico. O estudante também pode acompanhar o rendimento dos cursos que realiza.


Neste site brasileiro, os usuários podem aprender até quatro línguas diferentes: português, inglês, espanhol e francês. Na plataforma, é possível estudar a partir de textos que trabalham situações do cotidiano como o café da manhã, a hora almoço, uma hospedagem no hotel, entre outras. Além disso, os estudantes podem aprender como pronunciar as palavras, realizar testes e acompanhar o rendimento de suas aulas.

Your Language Exchange (http://www.mylanguageexchange.com/)

Este site permite que estudantes se conectem diretamente com outros usuários nativos para aprender um novo idioma. O diferencial desta plataforma é que reúne outros recursos como dicionários, planos de aulas e recursos em áudio. Há também jogo de palavras em cada língua, para que os estudantes aprendam expressões formando palavras. São cerca de 1 milhão de membros cadastrados em 133 países, falantes de 115 línguas distintas.


Esta plataforma também conecta estudantes com usuários de outras partes do mundo. Nele, a interação acontece via Skype e o objetivo é que se tornem tanto alunos quanto professores de sua própria língua. Para acessar a conta, é preciso criar um perfil simples, marcar o idioma de origem e selecionar a língua que quer aprender e ter a sorte de encontrar alguém on-line querendo conversar.


A plataforma oferece uma área exclusiva com inúmeros recursos como vídeos, áudios, textos, vocabulário, pronunciação, gramática e testes. É possível aprender até 40 línguas como os tradicionais inglês e espanhol até mesmo suíço e polonês.


Esta também é outra opção que conecta estudantes de uma língua com seus nativos. Os usuários precisam criar uma conta, selecionar seu idioma e escolher o país em que pretende encontrar um nativo para aprender uma nova língua. Eles têm acesso a chats, vídeos e exercícios.

Minhas lembranças de Leminski


Jotabê Medeiros

Utilizando-se às vezes de artifícios da obra mais experimental do poeta Paulo Leminski, Catatau (1975), e estabelecendo um paralelo entre a própria história de vida e a de Leminski (além de recorrer a uma espécie de recurso “mediúnico”), o escritor Domingos Pellegrini gestou um livro que, embora não deixe de ser uma biografia, vai além do gênero. É como se fosse uma transbiografia.

Minhas Lembranças de Leminski chega às livrarias 25 anos após a morte de Leminski, num momento em que a obra do artista atinge impressionante celebridade – 200 mil visitantes viram a mostra Múltiplo Leminski, em Curitiba; a exposição Ocupações Paulo Leminski do Itaú Cultural (2009), com curadoria de Ademir Assunção, foi um dos destaques culturais daquele ano; e o volume Toda Poesia (Companhia das Letras) chegou a bater best-sellers importados, como 50 Tons de Cinza.

Nos anos 1980, havia um grafite famoso no muro da Universidade Federal do Paraná: “Pau no Leminski!”. A inscrição é bastante atual hoje: o livro de Pellegrini chega num cenário em que um cruel paradoxo se desenha: apesar de toda a badalação, para se escrever sobre Leminski, um libertário, os autores encontram um paredão de censura prévia, exercida pela família.

Pellegrini (de Londrina, cidade cujos cidadãos natos costumavam ser chamados de Pés Vermelhos) desfrutou da amizade de Leminski (de Curitiba, de origem polonesa, ou polaco), a partir do início dos anos 1970. Morou com ele em São Paulo, durante investida de Leminski para conquistar o mundo pop, tempo em que tomavam quatro garrafas de vodca dupla e depois o poeta mascava bala de hortelã, “por via das dúvidas”.

Além do senso de humor, a iconoclastia militante, a profunda erudição sem vaidade e as aparentes contradições bem resolvidas, o próprio processo de produção poético de Leminski é analisado pelo amigo, que confessa não partilhar de certos gostos do autor – como, por exemplo, a admiração pelo concretismo.

Pellegrini divide Leminski em dois: um pop, com uma estratégia de divulgação pessoal calcada na poesia acessível e numa mitologia pessoal, e o intelectual, contido especialmente em sua obra em prosa, como os Ensaios Crípticos e o Catatau. A saga alcoólica de Leminski, o Polaco, aparece com grande impacto no livro de Pellegrini, o Pé Vermelho.

segunda-feira, junho 02, 2014

E se não tiver Copa?


Mouzar Benedito (*)

A pergunta que faço aos militantes do movimento “Não vai ter Copa”, e aos não militantes também, é essa: se esse movimento tiver sucesso e não acontecer a Copa do Mundo no Brasil, o que acontecerá? Que resultados teremos?

Compartilho com todo esse pessoal a indignação com o destino de muitos bilhões de reais para um evento efêmero, indo boa parte dessa grana parar nas contas bancárias de empreiteiras mutreteiras, políticos safados, mercantilizadores do esporte e instituições imperiais corruptas e mandonas. E acredito que idealizadores desse movimento sejam contra o capitalismo e odeiem a Fifa e a CBF. Compartilho isso também.

Talvez eu precise tomar conhecimento do “e daí? O que faremos em seguida?”, para poder embarcar nessa campanha também. Mas enquanto não souber o conjunto todo da proposta, prefiro outras vias. Não sei se haverá o que modernamente chamam de “empoderamento” do povo, se será criado um clima para derrubada do capitalismo ou, pelo menos, se haverá uma mudança na política brasileira que ponha fim a um Congresso vendilhão, que só funciona à base do toma-lá-dá-cá.

COPAS PASSADAS NÃO MOVEM MOINHOS?


Antes de voltar a discutir a Copa de 2014, gostaria de lembrar de algumas outras copas que “presenciei” à distância.

Minha primeira Copa foi a de 1958. Tinha 11 anos de idade, estudava na primeira série do curso ginasial e ganhava um dinheirinho vendendo frutas e engraxando sapatos, morando numa cidade do Sul de Minas com cerca de dois mil habitantes na área urbana.

Não tínhamos rádio, assim como a maioria da população. Numa cidade em que o dinheiro circulava pouco, era difícil comprar qualquer coisa industrializada que não fosse de primeira necessidade. Então, fomos todos para a frente do cinema – isso mesmo, naquela época, uma cidade minúscula tinha cinema! – ouvir a final Brasil X Suécia pelo alto-falante instalado ali. Uma multidão vibrava na praça. E a conquista do campeonato foi como uma declaração de poder, de tomada de uma autoestima inédita. Acabava-se o mito de que brasileiro era perdedor por natureza.

Na Copa seguinte, de 1962, a conquista foi como uma reafirmação dessa autoestima.

Em 1970, já morando em São Paulo e estudando na USP, com ideias de esquerda – que preservo e até radicalizo –, no auge da ditadura, havia também uma pedra no meio do caminho: se o Brasil vencesse, a ditadura ia faturar em cima, ganhar mais popularidade. Por isso, corria a proposta de torcer contra o Brasil. Mas durou pouco: assistimos e vibramos no pátio do prédio de Geografia e História, todos os jogos do Brasil. E a ditadura realmente faturou em cima. Enquanto se torturava e matava opositores do regime nos porões da ditadura, ouvia-se direto a música “Pra frente, Brasil”. Mas até os presos políticos, em boa parte, torceram pela seleção, que jogou bem e bonito, mereceu vencer.

Em 1982, na Espanha, a seleção jogava bonito como nunca, mas perdeu. Foi uma tristeza imensa, mas até hoje se reconhece o valor daquele time. Acredito que pelo menos o pessoal um pouco mais velho se lembra dela com mais saudade do que das seleções vencedoras de 1994 e 2002. E a perda serviu para os burocratas do futebol se dedicarem a exigir um abandono do chamado futebol-arte, imitando o futebol-força europeu. Uma pena. Quando o Barcelona se tornou o time que vencia jogando bonito, o técnico disse que estava fazendo com o time simplesmente o que aprendeu vendo o Brasil jogar “antigamente”.

VOLTANDO A 2014


Acredito que se, há seis ou sete anos, houvesse um plebiscito para decidir se o Brasil disputaria o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014, o sim venceria fácil. Pouca gente era contra.

Mas se fôssemos informados de todas as condições que a Fifa impôs e o governo brasileiro aceitou, de nos submetermos a essa instituição imperialista como colonizados sem vontade própria, obedientes e subservientes, aí sim, acredito que o “Não vai ter Copa” seria quase unânime.

O Brasil se submeteu. Numa linguagem vulgar, abriu totalmente as pernas. A Fifa manda e desmanda. Para começar, houve a escolha das cidades que sediariam os jogos. A Fifa impôs o que quis. Por que escolher, por exemplo, Natal, que não tinha um estádio à altura, nem tanta torcida, além de ser relativamente perto de duas sedes – Fortaleza e Recife – e deixar de fora Belém, que já tinha um estádio pronto, “padrão Fifa”, na linguagem atual, e além disso tem uma torcida enorme que freqüenta esse estádio para ver jogos do Payssandu e do Remo?

Como torcedor do Internacional, que tem o Saci como mascote, pergunto: por que deixar de lado um estádio pronto, também “padrão Fifa”, recém-construído pelo Grêmio e ter que fazer um estádio novo, do Inter?

Como simpatizante do Corinthians, perguntou: por que deixar de lado o estádio do Morumbi, que se fosse na Europa seria festejado pela Fifa, e fazer um estádio do zero em Itaquera, com o custo de quase um bilhão de reais, fora as obras do entorno?

E o caso do Maracanã? O estádio passou por uma grande reforma para os Jogos Panamericanos, estava quase “zero quilômetro” e a Fifa exigiu que fosse posto abaixo para ser refeito, a um custo de mais de um bilhão e muitos problemas.

A grana tinha que rolar alto, não é? Quanto mais gastos, mais lucros para a Fifa. E para empreiteiras também: é comum aqui ganhar uma concorrência para fazer uma coisa por uma valor e a obra acabar custando muitas vezes mais. Além disso, fazendo de propósito que a obra atrase, encosta-se o poder público na parede: “Se não puser muito mais grana, não vai ficar pronto a tempo”. Claro que os atuais assentados no poder não fizeram nada para mudar isso. E claro também que a “culpa” tem muito a ver com o tão glorificado empresariado, tratado como honesto e não sei que mais pela mídia e por uns babacas que fingem acreditar que existem corruptos sem existirem corruptores.

E a questão “do” mascote (sei que mascote é palavra feminina, mas ninguém fala “a” mascote)?

PERNETA, E DAÍ?


Mesmo sabendo que a Fifa (e a CBF também) encara o esporte como um negócio, simplesmente, propusemos o Saci como mascote da Copa. Já expus várias vezes o motivo. Em síntese, o Saci era um indiozinho guarani, foi transformado em negro e ganhou o gorrinho mágico presente em mitos europeus, então é uma síntese do brasileiro.

Nesses tempos em que se fala tanto em meio ambiente, o Saci tem a vantagem de ser um protetor da floresta.

Nesses tempos em que se fala tanto em combate ao racismo, o Saci tem a vantagem de ser negro. Aliás, maior parte dos jogadores brasileiros, do Pelé aos pernas de pau, é negra.

Nesses tempos em que se fala tanto em aceitar as diferenças, o Saci tem a vantagem de ser perneta. Mas apontam isso como um problema: como chutar bola tendo uma perna só? Brinco: ele tem o apoio do redemoinho.

E mais: mesmo sendo pobre, negro (dois motivos para ser estigmatizado nesta terra que muito teoricamente não tem preconceitos), o Saci é brincalhão e alegre. Quer algo mais brasileiro do que isso?

Escolher o Saci como mascote da Copa seria um recado para o brasileiro olhar para si mesmo, e com certeza não só ele, mas toda a mitologia brasileira seria valorizada, estudada aqui e divulgada fora daqui.

Mas o Saci tem uma qualidade a mais, que para a Fifa e a CBF é um defeito: ele é um personagem pronto. Não seria preciso pagar milhões para uma agência de publicidade… mas também não seria possível cobrar royalties por ele. Qualquer pessoa ou grupo criaria a sua imagem do Saci em camisetas, por exemplo.

Milhares e milhares de pessoas mandaram mensagem para a CBF propondo o Saci como mascote, mas os burocratas comerciantes do futebol não deram nenhuma resposta. Chegamos a pedir que nos explicassem que critérios usariam para escolher o mascote, mas nem deram bola. Nunca falaram sobre isso. É próprio dela e da Fifa. São instituições que se julgam no direito de não precisar dar respostas a ninguém.

Enfim, escolheram o que queriam, mas só depois de patentear os possíveis nomes que o coitado do tatu-bola teria. Muitos bobalhões votaram pela internet, como se estivessem decidindo alguma coisa, para ele ter o fuleiro nome de Fuleco.

Se o Saci não podia ser escolhido por ter uma só perna, o coitado do tatu-bola entra numa situação pior: bola é para ser chutada, não para chutar. E tem esse nome infeliz. Fuleco!

O certo é que acredito que se o Saci fosse mascote, milhões e milhões de brasileiros (além de estrangeiros também) estariam usando camisetas com algum desenho dele com a bola no pé, na cabeça ou no redemoinho. Alguém viu por aí uma camiseta com o Fuleco?

Ah, falam que a escolha do tatu-bola, um animal em extinção, ajudaria as instituições que o pesquisam e tentam fazer que sobreviva, receberiam muito apoio. Uma boa causa, enfim. Mas aconteceu? Vi recentemente nos jornais que a instituição que propôs a escolha do tatu-bola não recebeu um centavo.

SEM COPA?


Volto agora à possibilidade de não ter Copa.

Nem ponho em questão coisas do tipo “como ficará a imagem do Brasil no exterior”. Será que o capital, as empreiteiras, a Fifa e os corruptos em geral seriam atingidos de alguma forma? Será que alguém acredita que o dinheiro gasto (desperdiçado, na maioria) voltará automaticamente e será usado para construção de casas populares e melhoria dos sistemas de educação e de saúde? Será que os corruptos e corruptores serão identificados e punidos? Será que caminharemos para um sistema econômico mais democrático?

Acredito que o movimento “Não vai ter Copa”, seja mais para “Vai ter Copa, mas com protestos”. Impedir totalmente a sua realização, agora que já houve a gastança toda, me parece que significa perder mais ainda.

Então, pelo menos provisoriamente, minha ideia é que a Copa não só aconteça como seja muito legal, e que a seleção brasileira jogue bem e bonito, e ganhe sempre.

Isso não implica em apoio à Fifa, à CBF, aos que se locupletam superfaturando obras, aos oportunistas nem nada. Que o movimento continue e cobre tudo isso.

Se houver um movimento pós-Copa para que se realize o que ele propõe hoje e vá até muito além, estou dentro, sem perdoar quem quer que seja. Que o Brasil tenha e seja tudo o que querem os ativistas do “Não vai ter Copa”.

Mas não contem comigo para “protestar” depredando pequenos comércios, como bancas de jornais (isso é contra o capitalismo?) e provocações inúteis. Vamos direto ao ponto, contra os que mantêm o sistema econômico e político atual, as injustiças em geral. Contra eles, “tamos aí”.

E não contem comigo, também, para participar de movimentos com nome em inglês. Black, red, seja que cor for, é coisa deles e imitar gringo me parece que é voltar à estaca zero, ao tempo em que ser brasileiro era ser sinônimo de perdedor por natureza. Não que os movimentos gringos sejam em princípio ruins, mas são deles, e pronto. Nos tempos da ditadura e da Guerra Fria, o então ministro Juracy Magalhães disse uma frase que ficou célebre como postura submissa: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Isso me causa ojeriza até hoje.

SONHANDO UM POUCO


O “Não vai ter Copa” poderia ir um pouco além e conquistar algumas coisas relativas ao próprio esporte.

Um exemplo: é difícil torcer pelo Brasil sem termos jogadores atuando aqui. Foi-se o tempo em que nos identificávamos com os atletas do Santos (Pelé, hoje estaria nesse time?), do Corinthians (viva Sócrates!), do Botafogo (nossa: nele jogaram ao mesmo tempo, Nilton Santos, Garrincha e Didi, depois teve o Gerson), do Flamengo (com Zico e muitos outros), do Cruzeiro (que timaço, com Tostão, Dirceu Lopes e Joãozinho!), do Internacional (time de Falcão)… Agora, para gostar de um jogador é preciso assistir a jogos do Barcelona, do Real Madrid, do Manchester, do Milan e até times da Ucrânia. Não tem graça.

A mercantilização do esporte manda todos os que se destacam para a Europa, então o futebol daqui fica cada vez mais pobre, embora também mercantilizado. E isso não acontece só com o Brasil. Basta dar uma olhada nas escalações de várias seleções para ver que poucos atuam em seus países. Não seria o caso de chamar só jogadores que atuam dentro do país?

Certo, o jogador tem o direito de ir pra Europa ganhar dinheiro, mas teria como opção ganhar aquela grana toda ou ter a possibilidade de jogar na seleção. Podem dizer que nossa seleção ficaria muito mais fraca. E daí? Perder por perder, melhor perder decentemente. Duvido que se na Copa da África do Sul teríamos uma campanha pior do que a seleção do Dunga.

E tem essa coisa de ganhar uma grana exagerada. Fico pensando: como pode um jogador de futebol ganhar num mês o que um trabalhador comum às vezes não ganha na vida inteira? Em alguns casos, o cara ganha num jogo mais do que um proleta em toda a vida. É justo? Poderão dizer: não, não é, mas a coisa funciona assim. Ora, se queremos mudar tudo, com o povo conquistando o poder e fazendo o que lhe é útil, essas coisas estariam na nossa pauta também, não? Assim como apresentadores de televisão que ganham milhões por mês. Vamos radicalizar: concessões de rádio e TV a grupos capitalistas e políticos, privilégios em geral, reforma (preferiria dizer “revolução”) política, lucros de empresas… Gostaria de ter Copa e mudar tudo isso. Inclusive tomar da Fifa tudo o que ela está nos tirando e, se possível, acabar com ela.

(*) Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

9 coisas que você pode aprender com um garçom


Saiba como servir bem para servir sempre!

Edson Aran

1 – Olhar sem enxergar, mesmo que você esteja diante dele agitando a mão sem parar.

2 – Ouvir sem escutar, mesmo que você esteja ao lado dele falando “ei, psiu, ô garçom, por favor!”

3 – Ouvir absolutamente qualquer coisa, com exceção de “ei, psiu, ô garçom, por favor!”

4 – Desenvolver a inacreditável habilidade de confundir “salada caprese” com “carré de cordeiro” e “sushi de robalo” com “javali com risoto”.

5 – Servir o chope sempre quente para combinar com os bolinhos de arroz sempre gelados.

6 – Beber disfarçadamente até ficar tonto e derrubar chope no cara de terno que acabou de sentar. Na hora do almoço.

7 – Trazer a conta com 10 chopes a mais. Se o freguês reclamar, pedir desculpas, subtrair cinco e acrescentar três couverts.

8 – Confundir Pinot Noir Reserva 1967 com cachaça Mijo de Égua 2010.

9 – Anotar o pedido atentamente e depois reler uma coisa completamente sem sentido. “Pro senhor, castanholas ao molho de salmonela e, para a senhora, presilhas com varões ao poste, certo?”

Volume reúne todos os poemas e letras de música de Waly Salomão


O poeta Waly Salomão, morto em 2003, é homenageado com 'Poesia Total', livro que reúne sua produção poética e as letras de músicas que escreveu para artistas como Maria Bethânia, Gal Costa e Cazuza 

Maria Fernanda Rodrigues

Há muito não se via um livro de poesia nas listas de mais vendidos no Brasil, mas o curitibano Paulo Leminski conseguiu tal feito este ano quando a Companhia das Letras lançou um volume com toda a sua produção poética. Ele chegou, inclusive, a desbancar o best-seller erótico Cinquenta Tons de Cinza.

Quem entra na briga pela atenção do leitor brasileiro agora é Waly Salomão, baiano de Jequié, filho de pai sírio e mãe sertaneja, e poeta que agitou o Rio de Janeiro nos anos 70, 80, 90, morreu precocemente e fez escola influenciando novas gerações de poetas.

Poesia Total, que será lançado nesta segunda-feira no Rio e no dia 31 em São Paulo, traz, além de seus poemas, as músicas que escreveu e que ficaram famosas na voz de artistas – entre elas estão Vapor Barato, gravada por Jards Macalé, Gal Costa e Rappa; Mel, por Maria Bethânia e Caetano Veloso; e Assaltaram a Gramática, interpretada por Lulu Santos e Paralamas do Sucesso.

Waly Salomão não falava, declamava. Era todo gestos, caras, bocas e sorrisos largos. Inventou um personagem e viveu nele até perder a batalha para o câncer em 2003 – nessa época, ele era também secretário nacional do livro enquanto o amigo Gilberto Gil comandava o ministério da Cultura.

O movimento de resgate da obra de Waly Salomão (1943-2003), iniciado agora com o lançamento de Poesia Total, terá desdobramentos durante o ano. Omar Salomão, poeta como o pai, músico e artista visual, está organizando um show em São Paulo com a presença de Gal Costa, Jards Macalé e Lirinha e de cantores da nova geração, como Alice Caymmi e Botika.

No Rio, está prevista para setembro a exposição A Biblioteca de Grifos de Waly Salomão. Omar, curador ao lado de Anna Dantes, conta que a mostra que estará em cartaz na Biblioteca Pública do Estado partirá do acervo de seus pais e das anotações que ele fazia nas beiradas dos livros. Será uma boa oportunidade de rever Waly Salomão ou de apresentar à nova geração o artista hiperativo, “de olhar periférico”, que vivia em constante estado de alerta e representando seu personagem, e que teve a primeira grande motivação para escrever quando foi pego numa blitz com fumo e levado ao Carandiru.

“O fato de eu ver o sol quadrado foi uma concentração até espacial do meu desejo e meu primeiro texto jorrou daqui de dentro”, ouvimos o poeta contar em Pan-Cinema Americano, documentário de Carlos Nader sobre ele.

O texto a que se refere é Apontamentos de Pav Dois, e o também poeta e letrista Antonio Cicero comenta sobre ele num dos vários textos críticos que completam o volume lançado agora com as letras e os livros do autor – Me Segura Q’eu Vou Dar um Troço (1972), Gigolô de Bibelôs (1983), Algaravias: Câmara de Ecos (1996), Lábia (1998), Tarifa de Embarque (2000) e Pescados Vivos (2004). De Poemas de Armarinho de Miudezas (1993) e Hélio Oiticica: Qual é o Parangolé? (1996), livros de gêneros mistos, foram extraídos alguns textos.

Ao Estado, Cicero disse que a poesia do amigo é, ao mesmo tempo, vital e elaborada. Ele explica: “Pela vitalidade dos seus poemas, pode-se pensar que eles surgiram num jorro. De certa maneira, sim: elas surgiam num jorro. Por outro lado, esse jorro inicial era submetido a um trabalho exaustivo, até chegar ao ponto de ser publicado”.

A amizade dos dois e admiração mútua remete aos anos 1970. Cicero já tinha ouvido músicas escritas por Waly Salomão quando o conheceu num jantar na casa de Gal Costa e de sua mãe, “uma distinta senhora”. A casa estava cheia e o poeta estava há muito trancado no banheiro. “Ao aparecer na sala, sem cumprimentar ninguém, anunciou, com sua voz megafônica, que ia nos mostrar, em primeira mão, alguns de seus novos poemas. E começou a recitar. Entretanto, os versos que ele dizia não pareciam em nada com os poemas e as letras dele que eu já tinha ouvido. Falavam de crianças, flores, borboletas borboleteando, etc.”. Ele e Caetano Veloso se entreolharam sem entender nada. “De repente, dona Mariah gritou, com sua voz rouca: ‘Ladrão! Esses poemas são meus!’”, conta Cicero – e isso dá uma ideia de sua personalidade.

Os dois viraram amigos e Cicero, tímido, teve a ajuda de Waly para se soltar. “Com sua irreverência, ele tinha a capacidade de desarmar qualquer situação de convencionalismo repressor ou caretice. Ele expunha a farsa subjacente a tais situações. Isso me fez muito bem.”

O poeta Ramon Mello, de 30 anos, não conheceu Waly, mas, admirador de sua obra, desabafa em determinado ponto de seu Poema Atravessado Pelo Manifesto Sampler: “Alô Waly. Ah, se você ainda estivesse por aqui”. Ele tem todos os livros em primeira edição. “Era um poeta que estava muito a frente de seu tempo e que fazia uma poesia que estava em diálogo com as manifestações culturais e artísticas. Isso é fundamental”, conta.

Da mesma geração de Ramon, Bruna Beber se encantou primeiro pela música Mel, que a mãe ouvia sem parar. “Depois fui pescando uma letra dele aqui e ali quando comecei a ouvir Gal e Jards Macalé. Daí para os livros foi um passo só”, comenta. E completa: “Eu não conheci o Waly, mas é difícil ler seus livros sem sentir sua presença, ao mesmo tempo impávida e doce. Seu nome me remete à palavra ‘vigor’ em todos os seus significados”.

Waly Salomão fazia da vida uma atividade poética


Luciano Trigo

Quem teve a chance de conhecer pessoalmente Waly Salomão sabe que, mais que escrever poesia, ele fazia da própria vida uma atividade poética. Nesse sentido, o título “Poesia total”, dado à reunião de seus livros (Companhia das Letras, 520 pgs. R$ 49) é mais que adequado. Mas serve também para lembrar que o volume que o leitor tem em mãos corresponde apenas a uma fração de um projeto estético e existencial que, para ser plenamente entendido, exige um olhar em perspectiva e uma consciência do contexto em que sua obra foi produzida.

Baiano de Jequié, filho de pai sírio e mãe sertaneja, Waly formou-se em direito, mas nunca exerceu a profissão. Cedo ele descobriu sua vocação de agitador cultural, que fazia da palavra trincheira. Portador de uma "brava alegria" e uma "felicidade guerreira", nele se combinavam o entusiasmo e a força criativa, a erudição e a irreverência, mas também, quando necessário, a revolta e a raiva, que o levaram a comparar o Brasil a um “buraco de cárie”.

“Poesia total” reúne todos os livros de Waly, de “Me segura qu'eu vou dar um troço” (1972) a “Pescados Vivos”, publicado postumamente em 2004 (Waly morreu em 2003, aos 59 anos, meses após assumir a Secretaria do Livro e da Leitura a convite do então ministro Gilberto Gil. Na área pública, foi também diretor da Fundação Gregório de Matos e coordenador do carnaval da Bahia, quando apoiou blocos afro como Ilê Ayê e Olodum).

Capa de Além das obras publicadas de forma avulsa, o volume inclui letras de canções inéditas e um apêndice com uma fortuna crítica do poeta, incluindo textos de Antonio Cícero, Francisco Alvim, Paulo Leminski (também recentemente reeditado pela Companhia das Letras), Armando Freitas Filho, Caetano Veloso, Davi Arrigucci Jr e Heloísa Buarque de Hollanda.

Waly começou a ganhar projeção em 1972, em Salvador, quando publicou no jornal alternativo “Verbo Encantado” textos em que anunciava seu projeto de um "alargamento não-ficcional da escritura". No mesmo ano lançou seu primeiro livro, “Me segura qu'eu vou dar um troço”, que, em parte escrito na prisão, pode ser entendido como um inventário de aventuras underground escrito no fio da navalha da linguagem.

Mas Waly não gostava de ser identificado como um poeta da geração 70, marcada pela resistência à censura e à ditadura, ou com os tropicalista, embora tivesse laços profundos com o grupo: "Eu não sou um fóssil, sou um míssil". Permanentemente inquieto, já em “Gigolô de Bibelôs”, seu segundo livro, afirmou: “tenho fome de me tornar em tudo que não sou”. Movido pelo impulso de romper limites – entre a vida e a poesia, inclusive – e subverter convenções formais, Waly foi, nas décadas seguinte, letrista de canções famosas (como Mel, Memória da Pele, Fábrica do Poema, Vapor Barato e Mal Secreto, entre muitas outras), produtor de discos hoje cultuados e diretor de espetáculos musicais antológicos. Foi, ainda, Interlocutor de Hélio Oiticica e Lina Bo Bardi e criador dos poemas visuais “Babilaques”.

Ainda que Waly sempre pensasse a produção literária a partir de sua articulação com as outras artes, sua ambição maior era mesmo a poesia, "a menos culpada de todas as ocupações". Assim, ele continuou se reinventando como poeta até o fim da vida, em livros como “Lábia”, “Armarinho de miudezas”, “Tarifa de embarque” e “Algaravias”.

Alguns poemas de Waly Salomão

A memória é uma ilha de edição – um qualquer
passante diz, em um estilo nonchalant,
e imediatamente apaga a tecla e também
o sentido do que queria dizer.
Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser
levado junto de roldão.
Onde e como armazenar a cor de cada instante?
Que traço reter da translúcida aurora?
Incinerar o lenho seco das amizades esturricadas?
O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?


ANTI-VIAGEM

Toda viagem é inútil,
medito à beira do poço vedado.
Para que abandonar seu albergue,
largar sua carapaça de cágado
e ser impelido corredeira rio abaixo?
Para que essa suspensão do leito
da vida corriqueira, se logo depois
o balão desinfla velozmente e tudo
soa ainda pior que antes pois entra
agora em comparação e desdoiro?
Nenhum habeas corpus
é reconhecido no Tribunal do Júri do Cosmos.
O ir e vir livremente
não consta de nenhum Bill of Rights cósmico.
Ao contrário, a espada de Dâmocles
para sempre paira sobre a esfera do mapa-múndi.
O Atlas é um compasso de ferro
demarcando longitudes e latitudes.
Quem viaja arrisca
uma taxa elevada de lassitudes.
Meu aconchego é o perto,
o conhecido e reconhecido,
o que é despido de espanto
pois está sempre em minha volta,
o que prescinde de consulta
ao arquivo cartográfico.
O familiar é uma camada viscosa,
protetiva e morna
que envolve minha vida
como um pára-choque.
Nunca mais praias nem ilhas inacessíveis,
não me atraem mais
os jardins dos bancos de corais.
Medito é beira da cacimba estanque
logo eu que me supunha amante
ardoroso e fiel
do distante
e cria no provérbio de Blake que diz:
EXPECT POISON FROM THE STANDING WATER.
Ou seja:
AGUARDE VENENO DA ÁGUA PARADA.
ÁGUA ESTAGNADA SECRETA VENENO.


POESIA

Barroco
Mundo e ego: palcos geminados.
Quero crer que creio
E finjo que creio
Que o mundo e ego
Ambos
São teatros
Díspares
E antípodas.
Absolutos que se refratam/difratam…
Espelhos estilhaçados que não se colam.
Entanto são
Ecos de ecos que se interpenetram
Partículas de ecos ocos, partículas, partículas de ecos plenos que se conectam
Aí cosmos são cagados, cuspidos e escarrados pelo opíparo caos
E o uso do adjetivo está correto
Pois que o caos é um banquete.
Fantasmas de óperas.
Ratos de coxias.
Atos truncados.
Há uma lasca de palco
em cada gota de sangue

quinta-feira, maio 29, 2014

Grandes Mestres da AMOAL: Mercedes de Acosta y Hernández


Como essa chiquita bacana conquistou algumas das mulheres mais desejadas de sua época

Eric Nepomuceno

“Sou capaz de roubar qualquer mulher de qualquer homem.” A frase, que transborda prepotência, desafio, um certo ar de pretensioso arroubo juvenil, costumava ser dita e redita com seriedade e divertida convicção por alguém que havia tido romances agitados com Marlene Dietrich, Isadora Duncan, a grande atriz russa Alla Nazimova e Adele Astaire, a bela irmã de Fred.

Alguém que tinha alcançado o impossível sonho de meia humanidade: um longo e denso caso de amor com Greta Garbo.

O que mais chama a atenção, porém, não é a vasta e quase insuperável lista. Surpreendente mesmo é saber que a frase foi repetida com a mesma firmeza, ao longo de anos, por Mercedes de Acosta y Hernández. Uma mulher rica, nascida em Nova York, filha de pais espanhóis instalados em Cuba.

Temperamental, culta, extravagante, insinuante, ela era descendente dos duques de Alba.

A linhagem, aliás, é outra das peculiaridades daquela mulher miúda, de 1,57 metro de altura, grandes olhos negros, um nariz poderoso, faces amplas, corpo compacto, que dizia com certa nostalgia: “Eu amei Greta Garbo.”

É que, séculos antes, uma duquesa de Alba havia sido a grande protetora de Goya, e modelo de dois quadros que marcaram época na história da pintura: “La Maja Vestida” e “La Maja Desnuda”.

A ancestral de Mercedes de Acosta y Hernández chocou nobrezas de várias cortes ao se deixar retratar bela e ora vestida, ora nua, pelo pintor.

Mercedes causava impacto pelo seu atrevimento, sua maneira de usar os cabelos curtos, penteados na melhor linha Rodolfo Valentino, com rotundas quantidades de brilhantina, vestida sempre de negro, coberta por uma capa escura, insinuante.

E, claro, pelos seus intensos amores, às vezes simultâneos, às vezes solitários, às vezes serenos, às vezes fulminantes e fugazes, sempre ávidos, sempre com mulheres belas, ansiosamente desejadas.

Alice B. Toklas, inseparável companheira da escritora Gertrude Stein – as duas formaram um dos mais duradouros casais da história da literatura e das artes dos Estados Unidos –, sabia avaliar mulheres.

É dela a advertência que, no começo dos anos 30, consolidou a imagem daquela imbatível Dom Juan de saias: “É preciso levar muito a sério quem conquistou Greta Garbo e Marlene Dietrich, as duas mulheres mais importantes dos Estados Unidos.”

Na verdade, naquele tempo eram as duas mulheres mais importantes e desejadas do mundo.


Certo dia de 1922, segundo suas memórias, ou de 1924, segundo os biógrafos de Greta Garbo, Mercedes de Acosta estava no saguão do luxuoso hotel Pera Palace, na capital da Turquia, que na época se chamava Constantinopla (sim, é a mesma Istambul de hoje, mas para aquela cena o antigo nome é muito mais sonoro, insinuante, misterioso).

Estava, pois, em Constantinopla, no saguão do hotel favorito de gente como a escritora Agatha Christie ou o pai da Turquia moderna, Kemal Ataturk, quando se sentiu inebriada pela luminosidade fulminante de uma mulher.

“Era belíssima, uma das criaturas mais impressionantes que meus olhos haviam visto. Seus traços e seus movimentos eram tão distintos e aristocráticos que concluí, na mesma hora, que seria uma princesa russa refugiada. Nos dias seguintes encontrei-a várias vezes nas ruas. Eu estava terrivelmente perturbada pelos seus olhos, e desejava acima de tudo falar com ela, mas não tive coragem. Foi penoso sair de Constantinopla sem termos conversado, mas o destino muitas vezes é mais amável do que parece. Ou, talvez, a gente não consiga jamais escapar do destino”, recordaria anos mais tarde.

O destino, amável ou impiedoso, fez com que se passasse um bom tempo até que Mercedes tornasse a encontrar a distante e fugaz deusa de seus devaneios. Aconteceu do outro lado do mundo, em Hollywood, onde ela estava chegando como roteirista de prestígio.

Certa noite do começo de 1931, numa festa na casa de Salka Viertel, em Santa Mônica, onde se reuniam personalidades que formavam algo parecido ao mundo intelectual europeu – sem nenhuma semelhança com “a estupidez, a vulgaridade e o mau gosto que faziam de Hollywood um lugar genuinamente insuportável”, conforme dizia Mercedes –, de repente surgiu Greta Garbo.

“Bastou um aperto de nossas mãos para que eu entendesse que nos conhecíamos desde sempre. Na verdade, desde muitas outras encarnações anteriores”, recordou Mercedes de Acosta.

Foi uma conversa rápida, selada por um gesto definitivo: Greta Garbo elogiou uma pulseira que enfeitava seu braço. Mercedes tirou-a e deu-a de presente à musa de seus sonhos, dizendo: “Comprei pra você, em Berlim.”

Sentiu, naquele exato instante, que havia passado a vida à espera daquela mulher de beleza implacável, olhar distante, voz grave, corpo absoluto. Tudo que havia feito, inclusive comprar a pulseira, tinha sido para que pudesse, em algum momento, cumprir o que o destino traçara para ela. Para que pudesse enfim ocorrer o que havia acabado de acontecer.

Naquela noite Mercedes de Acosta tinha 38 anos. Greta Garbo tinha 26.

Mercedes era um vulcão cheio de histórias incandescentes. Garbo era uma deusa distante e glacial, que abrigava um invisível vulcão na alma. Mercedes começava a cumprir seu difícil, angustiante e inevitável destino de solidão: amar Greta Garbo. Amar o impossível.

Era uma mulher vivida. Aliás, bem vivida. Tinha feito furor na Nova York dos anos 20, alegres e desaforados tempos em que tudo parecia permitido. Até mesmo as coisas proibidas estavam ao alcance da mão, e por isso mesmo eram – certamente – as mais atraentes.

Beber, por exemplo, estava proibido. A homossexualidade também. Resultado: além de centenas de bares clandestinos, havia algumas dezenas de clubes dedicados especialmente a homossexuais, onde pululavam rapazes vestidos de moças e moças vestidas de rapazes.

Bebia-se, amava-se, consumia-se cocaína, dançava-se freneticamente, tudo sempre em grandes quantidades. 

Mercedes de Acosta era estrela de luz própria naquele universo de desvarios. Sua vida era uma busca incessante e frenética de alguma conquista, qualquer conquista.

Em 1917, aos 20 anos, ela descobriu sua capacidade de deixar-se fascinar com rapidez assombrosa por mulheres belas, ousadas, famosas, disputadas por montanhas de homens, inatingíveis – ou quase. 


Teve uma primeira paixão devastadora, sua primeira conquista radical: Isadora Duncan. 

A mais famosa bailarina da época deixou-se pender naquela voragem. 

Era 16 anos mais velha que Mercedes. 


Dançou várias vezes só para ela, e escreveu poemas desaforados. Um deles dizia: “Um corpo delgado, mão suaves e brancas / a serviço da minha delícia.”

Não foi a qualidade literária dos poemas, em todo caso, que pôs um rápido fim ao romance intenso: foi a beleza atordoante da atriz Alla Nazimova, que havia acabado de chegar da Rússia para conquistar a Broadway. 

Mercedes, aliás, foi solidária e generosa com sua primeira paixão: ajudou Isadora a manter seu caríssimo trem de vida até sua morte trágica, asfixiada por uma longa echarpe que ficou presa na roda de um potente Bugatti.

A partir de Isadora Duncan, a torrente incessante de paixões fulminantes passou a fazer parte do cotidiano de Mercedes de Acosta. 


Allan Nazimova foi a dona “dos únicos olhos cor de violeta que conheci na vida”. 

E vieram outras, muitas outras.

Com um detalhe curioso: em 1920, pressionada por sua iracunda mãe, ela casou-se com um pintor chamado Abram Poole, herdeiro de uma das mais sólidas fortunas de Chicago. 

Foi um longo e sereno casamento, que durou 15 anos. Nunca houve perguntas ou recriminações. Os dois compartilhavam grandes casas e apartamentos quando estavam juntos. 

Mercedes passava o tempo dedicando-se a escrever peças de teatro, roteiros de cinema, livros, poemas, artigos para revistas culturais; ele pintava, com êxito apenas razoável. Quando se encontravam, o que era raro, formavam uma dupla feliz. 

Ela aconselhava o marido a ter muitas amantes, e frequentemente ajudava-o a escolher seus alvos de conquista. Na verdade, Abram Poole não era muito dedicado ao assunto. Talvez por isso, o alvo escolhido pelos dois para ser conquistado por ele acabava mesmo era com Mercedes.

Até que, num belo dia de 1935, Abram Poole resolveu mudar de vida. Apaixonou-se por uma de suas modelos, separou-se da mulher e casou com a moça. Naquela altura, porém, não havia nada sob o sol que pudesse perturbar Mercedes. Mesmo porque, para ela, fazia tempo que o sol tinha nome, sobrenome e lugar de nascimento: Greta Garbo, da Suécia.

Pouco depois da festa em que se conheceram, Greta Garbo – uma atriz no esplendor da fama – convidou Mercedes de Acosta para passar alguns dias na casa que havia alugado numa ilha no meio de um lago em plenas montanhas Nevadas da Califórnia. 

Foram, segundo a escritora, “seis semanas encantadas”. E mais: “Não houve um único instante de desarmonia entre Greta e eu. É como se, em vez de seis semanas, tivessem sido seis minutos.”

Além de memórias inatingíveis, a breve temporada deixou registros perduráveis, como as famosas fotos de uma esplêndida sueca sem blusa, os seios atrevidos destacando-se contra o fundo de montanhas nevadas, ou recostada na proa de um barco, suas pernas douradas refletidas nas águas do Silver Lake, seus pés mergulhados em meias e tênis de uma brancura singular.

Meses depois, no verão de 1932, Greta Garbo viajou para a Europa, deixando atrás uma desolada Mercedes de Acosta. 

“Hollywood tornou-se um lugar insuportavelmente vazio sem ela”, registrou a escritora em suas memórias. 


E contra o insuportável, o remédio surgiu na forma de outra deusa da época, uma alemã que explodia sensualidade em cada milímetro do corpo perfeito: Marlene Dietrich.

Desta vez, porém, a conquistadora foi conquistada: decidida a ir às últimas consequências, Marlene Dietrich literalmente cobriu a pequena Mercedes de flores, dia após dia, ao longo de uma semana.

Na verdade, nem teria sido necessário: na primeira troca de olhares, a pequena Don Juan tinha entendido que o calor daquele vulcão seria inevitável. A paixão sem fim durou de setembro de 1932 a maio de 1933. Depois, o que sobreviveu foi uma amizade cálida, profunda, salpicada de confidências.

Quando Greta Garbo voltou da Europa, encontrou Mercedes de Acosta do mesmo jeito que a teria até o fim: esperando por ela, disponível, ansiosa, decisivamente apaixonada, irremediavelmente submetida ao grande amor.

A partir de então, e para sempre, a pauta de relação entre as duas seria dada por Greta Garbo. Ela determinaria os momentos de aproximação, de calidez e de desprezo, determinaria quando seria a vez dos vulcões, quando a vez das geleiras.

A história entre as duas durou até 1960. Ao longo desses anos houve de tudo. Mercedes foi a responsável, por exemplo, pelo dia em que Greta Garbo surgiu vestindo calças compridas. “Levei-a a um alfaiate, e convenci-a de mandar fazer calças compridas, coisa que nenhuma mulher se atrevia a usar naquela época. Quando ela saiu ás ruas e foi fotografada, ocorreu uma espécie de cataclismo. Pouco depois, mulheres do mundo inteiro começaram a usar calças compridas. Nasceu a Era das Grandes Mulheres de Calças Compridas. E pensar que fui a causadora...”, recordaria Mercedes mais tarde.

Aos poucos, porém, Greta Garbo – sempre determinando o calendário – fez com que as geleiras ocupassem cada vez mais o espaço dos vulcões. Mercedes de Acosta chegou a pensar em suicídio. Continuavam sendo amigas, mas isso, para ela, era pouco. Era quase nada.

Trocavam cartas, fotografias, encontravam-se, mas nada seria como antes. 

E aí aconteceu o final tempestuoso, em 1960, quando Mercedes de Acosta publicou um livro de memórias chamado “Here Lies the Heart” (“Aqui Descansa o Coração”). 

No livro, ela escreveu sobre seus amores com a deusa.


Na verdade, Mercedes de Acosta foi a única mulher a escrever o que dizia: “Eu amei Greta Garbo.” E isso, para a deusa sueca, era imperdoável.

Dona de um silêncio misterioso e impenetrável, Greta Garbo jamais fez nenhuma referência a esse – ou, aliás, a qualquer outro – caso de amor.

Em suas parcas conversas com as duas ou três pessoas com quem se permitiu alguma intimidade, fez questão de desmentir que tivesse mantido, por uma vez que fosse, algo mais que uma relação de amizade com Mercedes de Acosta.

Groucho Marx: hilariante e rabugento


Biografia traça retrato pouco enaltecedor do mais famoso dos Irmãos Marx

Contar piadas para viver é a mais exigente das artes do show-business, e a história mostra que isso pode afetar a psique daqueles que seguem essa carreira. Muitos comediantes extraordinários sofreram de combinações de inconsequência, delírio e inadequação social que criaram desordens em suas vidas. Há duas possíveis explicações: a de que para fazer rir é preciso ser um desajustado; ou de que o dano emocional pode ser fruto do estresse do trabalho.

No caso de Groucho Marx, o escritor Stefan Kanker, autor do livro “Groucho: A vida e a época de Julius Henry Marx”, se apoia na primeira. O argumento-chave é a frase mais citada de Groucho, aquela sobre não querer ser membro de um clube que o aceite como sócio.

O autor acredita que se trata de uma convicção disfarçada de chiste e que, se a palavra “clube” for substituída por “mulher”, a frase explica por que, com seu comportamento abominável, levou suas três esposas e duas filhas a beber. Groucho se casou com mulheres que podia dominar e as tornou dependentes. Depois agiu deliberadamente para afastá-las de sua vida, tentando destruir a autoestima delas, uma qualidade da qual ele mesmo era deficiente.
Os relacionamentos de Groucho com os filhos seguiram um padrão igualmente tumultuado. Groucho discutia com eles, depreciava seus esforços criativos e depois lhes dava cheques polpudos, ao mesmo tempo para tentar consertar o estrago e mostrar-lhes como eram dependentes.

Kanfer acredita que a origem desse comportamento remonta à infância de Groucho, em particular à figura de Minnie, sua mãe manipuladora que o obrigou a abandonar a escola antes do tempo. Contra todas as probabilidades, ela transformou quatro de seus filhos, incluindo Groucho, nos Irmãos Marx, um grupo de vaudeville doidivanas, de início nada de extraordinário, que conquistaria a Broadway e Hollywood.

Apesar de as grandes falhas pessoais de Groucho impossibilitarem admiração total, elas não tiram o mérito de seu gênio cômico ou de sua duradoura posição na história do show-business. Os filmes dos Irmãos Marx, produções baratas saídas da linha de montagem de Hollywood, não são obras-primas: na maioria deles, os trechos musicais se alongam demais e interrompem fatalmente a ação.

Mas o personagem desenvolvido por Groucho – o vigarista nada dissimulado, anárquico, traiçoeiro – se realiza de forma soberba na maior parte de sua carreira. Quando seu sucesso no cinema entrou em declínio, Groucho veio a ser o primeiro apresentador de perguntas e respostas de televisão, especializado em desconcertar os convidados. Por exemplo, quando apresentou um homem com sotaque que se gabava de falar 11 línguas, Groucho perguntou: “E em qual delas você está falando agora?”
Kanfer cita muitas tiradas como esta, assim como diálogos dos filmes e peças teatrais dos Irmãos Marx. Na forma impressa, e sem a contribuição de sua elocução maliciosa, seu charuto e seus passos largos, muitos deles perdem a graça. Às vezes, também, o autor tem dificuldade em distinguir fato e lenda, algo talvez compreensível quando os próprios escritos autobiográficos de Groucho são uma mescla indiferenciada dos dois.

Ainda assim, o livro oferece um retrato revelador, às vezes pungente, de uma pessoa horrível que era um artista brilhante.

Horror simbólico e real


Estudo confronta o canibalismo ocorrido após o naufrágio do navio que inspirou “Moby Dick” com o sutil tratamento dado por Melville ao abismo entre homem e natureza

Em novembro de 1820, o “Essex”, um baleeiro originário de Nantucket, no estado americano de Massachusetts, foi atacado duas vezes por um grande cachalote no Pacífico. Com a quantidade de comida, água e equipamentos náuticos que pode agarrar no curto intervalo que o navio levou para soçobrar, a tripulação de 20 homens abandonou o “Essex” em três escaleres. Pelos mais de 90 dias que se passaram até que fossem recolhidos, navegaram ao léu pelo Pacífico, torturados pela sede, a fome e o delírio, bebendo a própria urina e finalmente cedendo ao canibalismo. Apenas oito sobreviveram.

Essa é a história de caça à baleia que mais diretamente inspirou “Moby Dick”, de Herman Melville. Mas Melville encerra seu romance com o naufrágio do “Pequod” (seu “Essex”) e o afogamento de todos, com exceção de Ishmael, o narrador. Talvez não considerasse pertinente a sequência da história real. Melville compara o oceano aos “horrores da vida apenas semiconhecida” que cerca “a Taiti insular” de cada alma. “Não te afastes dessa ilha”, adverte, “pois jamais poderás voltar!”

Em certo sentido, a história do “Essex” afasta-se em direção da “vida apenas semiconhecida”, mas talvez não de uma forma que inflamasse o tipo de imaginação de Melville. Seu universo era enormemente metafórico. Ele não conseguia descrever a tessitura de uma esteira ou a disposição de uma corda de arpão sem encontrar simbolismo nelas. Seu Capitão Ahab e seu Moby Dick são monumentos à execração mútua entre homem e natureza.

Mas, com o naufrágio do verdadeiro “Exssex”, a baleia branca desaparece; a história se contrai e se volta para dentro; torna-se, como foi, intestina. Todo o problema em torno de 85 g de biscoito de despensa e 280 ml de água por dia debaixo do sol escaldante é que eles se resumem a isso; e que com o passar do tempo, reduzirão a pessoa a devorar as entranhas do seu amigo. Não é preciso dizer mais nada. Em outras palavras, os fatos falam por si sós.

Na realidade, a história se espalhou celeremente por toda a comunidade de baleeiros. No ano seguinte o primeiro contramestre do “Essex”, Owen Chase, publicou seu relato da penosa experiência, agora reeditado como “O Naufrágio do Baleeiro Essex” (“The Wreck of the Whaleship Essex”). Depois, em 1960, encontrou-se um caderno de notas que encerrava outra narrativa sobre o “Essex”, paralela à de Owen Chase, escrita por Thomas Nickerson, criado de bordo no navio e um dos tripulantes do escaler de náufragos de Chase.

Agora, “No Coração do Oceano” (“In the Heart of the Sea”), de Nathaniel Philbrick, usa a versão de Nickerson para ampliar o relato de Chase, mais conhecido, além de uma enorme quantidade de leituras complementares sobre todos os aspectos da história – desde a comunidade dos “quakers” do começo do século XIX em Nantucket e a atividade baleeira até a psicologia da sobrevivência e a incidência “in extremis” do canibalismo.

Philbrick está impregnado desse assunto e de todos os ramos do conhecimento correlatos de uma forma que o próprio Melville teria aprovado. Mas, naturalmente, onde Melville é exagerado e brincalhão, Philbrick fala a sério. De modo geral ele realiza com grande habilidade sua pesquisa em torno do drama da primeira mão de suas fontes, mas há momentos em que é infeliz. Teria sido necessário, por exemplo, citar as provações dos combalidos soldados da Segunda Guerra Mundial para explicar o desespero dos náufragos? E quando Owen Chase decide “entregar-nos totalmente aos rumos e à vontade do Criador”, será que nos interessa mesmo saber que isso é prova da compreensão intuitiva da teoria do “ativo-passivo” das situações de sobrevivência, como descreveu o psicólogo John Leach?

Na verdade, não é fácil escapar de ser eclipsado por Owen Chase. Seu livro é ao mesmo tempo direto e cheio de estilo, flui aos ritmos e imagens familiares a seu público leitor da Bíblia. Seu minúsculo barco lançado ao sabor da tempestade, por exemplo, torna-se “uma partícula de matéria perante o terror esmagador da tempestade”; e o sono dos homens, depois de uma vigília longa e angustiante, torna-se tão profundo que “nenhum sonho poderia romper as sólidas amarras do alheamento que agora aprisionavam a mente”. Mas Philbrick tem a vantagem de ser moderno. Onde Chase, no século XIX, lança um véu, ele pode levantá-lo num átimo.

Ele queria saber mais, conforme diz em seu prefácio, e nós também – sem nos importar com os ritmos. Com um grau de minudência que quase beira o de um voyeur, ele descobriu que, quando um organismo é privado de água, os lábios se retraem como que amputados, a gengiva preteja, o nariz reduz-se à metade e a pele se contrai a tal ponto em torno dos olhos que impede o pestanejar. Descobriu que a gordura, em organismos desnutridos, transforma-se numa “substância gelatinosa translúcida” e que a carne que um organismo nesse estado pode fornecer será de valor nutritivo duvidoso, assim desprovida de gordura. Ele nos fala também dos efeitos psicológicos da desnutrição, e da degradação para um comportamento “bestial”, como foi demonstrado pelos sobreviventes de Auschwitz.

E, de forma mais ampla, ele se interessa por coisas que Chase e Nickerson ignoram; o papel desempenhado pelas mulheres de Nantucket na ausência dos baleeiros; a posição dos membros negros da tripulação e os motivos pelos quais eles foram os primeiros a morrer; a solidariedade dos habitantes de Nantucket a bordo e seus efeitos sobre suas chances de sobrevivência. Ele conhece a história de outros naufrágios e tripulações de náufragos, e os motivos pelos quais se saíram melhor ou pior. Conhece a linguagem sibilante das baleias e tem uma teoria sobre por que o barco foi atacado. Também sabe mais sobre o Pacífico do que a tripulação do “Essex”, e entende por que eles não conseguiram pescar na da na assim chamada Região Desolada.

Mas a coisa mais dolorosa que ele sabe é algo que a tripulação do “Essex” também tinha todas as condições de saber, mas ignorava: que a ilha de Taiti, que eles poderiam ter alcançado, não era habitada por canibais. Isso, ironia cruel, era o que eles mais temiam. Os ingleses tinham uma missão na ilha desde 1797, mas, por uma “combinação de arrogância, ignorância e xenofobia”, diz Philbrick, os habitantes de Nantucket não quiseram arriscar aportar em suas praias. Melville sabia que a ilha era segura, e anotou esse fato em seu exemplar do livro de Owen Chase. O que nos traz de volta a sua referência, em “Moby Dick”, à “Taiti insular” em meio aos horrores do oceano circundante. Nessas circunstâncias, o leitor se pergunta se essa expressão não teria sido uma alusão deliberada à incauta e desventurada tripulação do “Essex”.