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terça-feira, dezembro 29, 2015

A vida secreta de Jean-Paul Sartre (21/JUN/1905 – 15/ABR/1980)


Jean-Paul Sartre tinha o mérito duplo de ser um reverenciado herói nacional e o objeto de inúmeros esquetes satíricos do grupo Monty Python. Numa mescla quase perfeita de pensador comprometido e falastrão tedioso e hipócrita, Sartre era um alvo fácil de piadas, mas alguém difícil de se ignorar. Em 1960, quando ele ultrajou a sociedade burguesa da França incitando publicamente os soldados franceses baseados na Argélia a desertarem, indagaram ao presidente Charles de Gaulle por que ele não mandava jogar na prisão aquele agitador. “Não se manda prender Voltaire”, De Gaulle respondeu – um sinal tão bom quanto qualquer outro de quem Sartre ocupava um lugar de exclusivo destaque na sociedade francesa.

Sartre era filho de um oficial da marinha francesa, que morreu quando ele ainda era bebê, e de uma alemã alsaciana, prima de Albert Schweitzer, o grande médico e humanitarista. O estrabismo que o caracterizou foi o resultado de um grave resfriado na infância, que o deixou quase cego do olho direito. Sobrecarregado com o fardo da aparência feiosa e o consequente medo de intimidade física, Sartre parecia destinado desde jovem a uma carreira em filosofia.

Ele estudou em Sorbonne, onde conheceu a amante que o acompanhou por toda sua vida, Simone de Beauvoir, uma mulher estranhamente atraída por ele apesar da sua feiura, da baixa estatura e da revoltante falta de higiene. Ela suportou até mesmo o seu esquisito hábito de escrever relatando em detalhes suas aventuras eróticas com outras mulheres. Os dois permaneceram amantes – embora dificilmente monógamos – pelo resto da vida dele.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Sartre trabalhou como meteorologista no exército francês, mas foi capturado pelos alemães e levado a um campo de prisioneiros, onde encontrou um ambiente estranhamente propício para escrever peças teatrais. Conquistou sua liberdade depois de convencer as autoridades alemãs de que era parcialmente cego, e partiu imediatamente para a Paris ocupada e para um confortável cargo de professor que ficaria convenientemente disponível quando um educador judeu foi – ahã – “transferido” para o leste. Se as circunstâncias desse emprego atormentaram a consciência de Satre, ele jamais demostrou.

Na verdade, o filósofo, romancista e dramaturgo deu-se muito bem sob o regime nazista. Bem estimulado, ele escreveu seu tratado existencialista O ser e o nada em 1943. Sua peça No exit (“Sem saída”) foi um sucesso em 1944. E embora Sartre se unisse à Resistência Francesa “da boca para fora”, ele fez muito pouco, ou nada, para lutar contra a ocupação nazista. Depois da libertação da França tudo foi perdoado e Sartre viu-se alçado ao posto de herói nacional.

Seu sistema de crença existencialista, baseado na experiência do desespero e na necessidade de extrair o significado de si mesmo por meio do compromisso com o mundo que nos rodeia, tornou-se a última moda em seu país e por toda a Europa. Politicamente, Sartre tendia para a esquerda, alinhando-se com o Partido Comunista Francês e se tornado o porta-voz dos movimentos de libertação do terceiro mundo.

Como se fosse para provar a antiga máxima de que o pessoal é o político, ele também arranjou uma amante argelina, Arlette Elkaim, a quem adotou secretamente em 1973. Seus últimos anos foram atormentados pela doença, em grande parte causada pela sua dieta de álcool, tabaco e anfetaminas.

Conforme seu tempo na Terra ia se esgotando, Sartre começou a repensar seu compromisso com o ateísmo, que durara a vida inteira. Em uma entrevista ao seu bom amigo Benny Lévy, no início de 1980, ele confessou estar mudando de opinião quando à existência de Deus. “Não sinto que sou o produto de acaso, de um grão de poeira no universo”, Sartre admitiu, “mas alguém que foi esperado, preparado, prefigurado. Em resumo, um ser a quem somente um Criador poderia ter posto aqui; e essa idéia de uma mão criadora refere-se a Deus”.

Pode-se desculpar um homem moribundo por expressar tal esperança em seus momentos finais, mas, numa revelação mais perturbadora, Sartre prosseguiu renegando virtualmente toda a base da sua filosofia: “Falei sobre isso porque estava sendo falado... Era um modismo... Jamais experimentei o desespero, nem o considero uma qualidade que poderia ser minha”.

Temendo que as legiões de seguidores de Sartre se enfurecessem com essa admissão do tipo “Desculpe, pessoal, eu só estava brincando”, Simone de Beauvoir apressou-se em repudiar a surpreendente retratação do seu antigo amante, chamando-a de “o ato senil de um vira-casaca”.

Com a casaca suficientemente virada, Sartre morreu durante o sono no dia 15 de abril de 1980, partido para ninguém sabe onde. Uma multidão de cinquenta mil pessoas enfileirou-se nas ruas de Paris para ver a procissão do seu funeral.

Lindo castor!


Sartre inventou um apelido incomum para Simone de Beauvoir. Ele a chamava de le castor porque seu nome soava como a palavra beaver que, em inglês, significa castor.

Um brinde ao nada!

A imagem de um grupo de franceses intelectuais tagarelando em volta de mesinhas nas calçadas dos cafés de Paris é um estereótipo que devemos principalmente a Sartre. No auge da sua fama, ele era frequentemente visto matando tempo com sua amante Simone de Beauvoir e outros integrantes do seu círculo de existencialistas. Verdade seja dita, eles não eram farristas muito bem comportados.

Sartre e sua turma, certa vez, estavam entornando garrafas e garrafas de champanhe em um café de Paris. A cada vez que enchiam as taças, faziam um brinde ao absurdo da existência. Os brindes começaram a ficar crescentemente barulhentos e, não demorou muito, uma mulher apareceu numa janela e exigiu que eles fizessem silêncio. Em resposta, Sartre e seus amigos passaram a fazer ainda mais algazarra.

Furiosa, a mulher desapareceu dentro do apartamento e voltou logo depois, com um balde cheio de fazes. Em seguida jogou o conteúdo pela janela, tendo como alvo Sartre e companhia. Fosse por um erro de pontaria, ou por culpa do vento que soprava no lado errado, ela errou o alvo e, em vez do pretendido, acabou acertando um outro cliente que estava a caminho do café.

Convencido de que aquela era a prova da validade da sua filosofia, os existencialistas embriagados recomeçaram imediatamente a brindar pelo absurdo do universo.

Estranha “viagem”

“Psicodélico” e “Sartre” pode parecer uma combinação estranha, mas vamos dar crédito ao autor por estar muito à frente do seu tempo. Sartre já estava fazendo experiências com substâncias alucinógenas na década de 1930, muito antes de Timothy Leary ter ajudado a transformá-las em moda na contracultura dos anos 1960.

Determinado, como ele dizia, a “romper os ossos do crânio” e destravar a imaginação, Sartre ingeriu mescalina pela primeira vez em 1935, sob a supervisão de um médico estagiário com quem fizera amizade. No início, os efeitos foram amenos. Mas, depois de alguns dias, Sartre passou a sofrer alucinações cada vez mais desagradáveis. Numa delas, ele acreditava estar sendo perseguido por uma lagosta gigante. Também relatou ter visto orangotangos, um relógio com a cara de uma coruja e casas que encaravam as bocas.

As estranhas visões continuaram a assombrá-lo por quase um ano. Mais tarde, Sartre escreveu sobre alguma das suas percepções psicodélicas em seu romance A náusea, nas cenas em que o protagonista, Roquentin, sente-se como se estivesse se “unindo” ao ambiente natural que o cerca.

Baforadas

Quando não estavam experimentando drogas pesadas, Sartre se contentava com a droga favorita de sempre: nicotina. Ele fumava dois maços de cigarros e vários cachimbos cheios de tabaco por dia. Até mesmo na França, isso é muito, além de ser uma imagem ruim para um ícone nacional.

Na verdade, quando a Biblioteca Nacional da França lançou um pôster comemorativo no centésimo aniversário do nascimento de Sartre, os oficiais foram forçados a retirar da foto o cigarro que ele tinha na mão, em cumprimento das leis que proíbem a propaganda de cigarros.

Segure o caranguejo

Talvez tivesse alguma relação com suas visões induzidas pela droga de uma lagosta gigantesca e ameaçadora, mas desde a infância Sartre tinha medo das criaturas marinhas, especialmente os crustáceos. Ele ficava aterrorizado com a idéia de ser apanhado pelas garras de um caranguejo, ou de que um polvo o atacasse e o puxasse para o fundo do mar.

Meus companheiros de terror

A política radical de Sartre colocou-o em contato com alguns personagens bem desagradáveis. Em 1960, ele viajou para Cuba para “levar um papo” sobre revolução com Fidel Castro e Ernesto “Che” Guevara. Sartre ficou tão impressionado que louvou o mortífero Che Guevara como sendo “o mais completo ser humano da nossa época”.

Quando os terroristas palestinos mataram onze atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique em 1972, Sartre foi rápido na defesa deles, dizendo que o terrorismo era uma “arma terrível”, mas os pobres e oprimidos não possuem outras”. Ele também declarou que era “absolutamente escandaloso o fato de o ataque de Munique ter sido julgado pela imprensa francesa e por uma parte da opinião pública como sendo um escândalo intolerável”.

Em 1974, ele visitou Andreas Baader, líder do infame grupo Baader-Meinhof, em sua cela na prisão Stammheim, em Stugart, Alemanha. Embora mais tarde descartasse Baader como sendo “incrivelmente estúpido” e “um idiota”, logo após o encontro Sartre foi à televisão alemã para defender a criação de um comitê internacional para proteger os interesses dos “prisioneiros políticos”. (Os crimes de Baader incluíam múltiplos assaltos a bancos e a explosão de uma loja de departamentos em Frankfurt.)

O conquistador

Apesar da aparência desairosa, Sartre foi um mulherengo notório que passava de uma amante para outra com a mesma avidez com que fumava seus muitos cigarros Boyard. Ele até tentou conquistar uma bela e jovem jornalista enquanto Simone de Beavoir estava no hospital, recuperando-se de uma febre tifoide. Sartre justificava a sua infidelidade comparando-a com a masturbação e se recusava a atingir o orgasmo juntamente com as parceiras – não para evitar a gravidez, mas simplesmente para negar a elas uma desnecessária intimidade.

Proibido fumar

Talvez Sartre não tenha se esforçado muito para ajudar a Resistência Francesa, mas em pelo menos um aspecto ele foi contra a ocupação nazista. A escassez de cigarros durante a guerra atrapalhou seriamente o seu hábito de fumar dois maços por dia. Indômito, o criativo filósofo frequentemente era visto recolhendo “bitucas” de cigarros nos pisos de cafés, e depois enchia o cachimbo com o tabaco que retirava delas.

O amor de Sartre pelo cigarro era tanto que ele até permitia que seus alunos fumassem na classe. Abandonou o vício somente depois que os médicos ameaçaram amputar suas pernas para curar os seus problemas circulatórios.

A vida secreta de Ernest Hemingway (21/JUL/1899 – 02/JUL/1961)


Ernest Hemingway passou mais de trinta anos sob os holofotes como a principal celebridade literária dos Estados Unidos. Sobreviveu a cinco guerras, quatro acidentes de automóveis e dois desastres de avião. Escreveu sobre si mesmo, e sobre as próprias experiências, mais do que qualquer outro autor da sua época. Ainda assim, os biógrafos continuam batalhando para entender este homem sobre quem o escritor Morley Callaghan certa vez observou: “Nunca sabemos com certeza se ele está falando a verdade ou se está sendo seduzido pela sua imaginação a acreditar nas lendas que criou para si mesmo”.

Mas algumas coisas sabemos ao certo: ele nasceu em 1899, em Oak Park, lllinois. Quando criança, rebelou-se contra a mãe neurótica – que o mandava para aulas de dança e fez o possível para lhe tirar a masculinidade – adotando uma fachada máscula que foi expressada durante toda sua vida através da paixão pela caça, pesca e atividades físicas. Foi contaminado com o vírus da literatura no colegial e desenvolveu seu estilo assertivo, que se tornou a sua marca registrada, quando trabalhou como “foca” no jornal Kansas City Star.

Quando a guerra eclodiu na Europa, em 1914, Hemingway foi atraído pela ação. Alistou-se no exército e tornou-se motorista de ambulância no front italiano. Suas experiências dessa época formariam a base para o seu clássico romance Adeus às armas. No dia 18 de julho de 1918, o veículo que Hemingway dirigia foi atingido por uma pesada artilharia de morteiro e ele ficou com estilhaços nas duas pernas. Ele preencheu os vãos dos ferimentos com tocos de cigarros e conseguiu carregar um dos seus companheiros soldados para um lugar seguro, um ato de bravura que lhe rendeu uma medalha do governo italiano e um passe para fora da zona de combate.

Entre uma guerra e outra Hemingway provou o primeiro sabor da fama literária. Instalou-se em Paris, tornando-se parte de um círculo de expatriados que incluía Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald e Gertrude Stein. Em 1926, publicou O sol também se levanta, um romace entrecortado e dissonante sobre um veterano de guerra mutilado e impotente, sua amante sexualmente voraz e seus amigos expatriados na – você adivinhou – Paris da década de 1920. O romance e a subsequente coletânea de contos ajudaram a catapultar Hemingway para as primeiras fileiras das celebridades literárias, uma posição da qual ele desfrutou e cultivou pelo resto da vida.

A fama e a fortuna liberaram Hemingway – ou “Papa”, como na ocasião gostava de ser chamado – para ir em busca de novas e violentas experiências, onde quer que elas se encontrassem. Ele participou de touradas, foi a safáris na África e fez a cobertura da Guerra Civil Espanhola para jornais, transformando cada episódio em mais um clássico, fosse sob a forma de romance, conto ou tratado autobiográfico.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, Hemingway desafiou a idade que já ia avançando – e também a um desconfiado J. Edgar Hoover, então diretor de FBI – e foi à caça de submarinos alemães na costa de Cuba. Alguns afirmam que essa aventura foi meramente uma desculpa para beber e pescar, da mesma maneira que descartam suas tentativas posteriores de participar da liberação de Paris como nada além de mais uma visita ao bar do Hotel Ritz. Fosse como fosse, o fato é que Hemingway pôde dizer que esteve lá, no centro da ação, como sempre.

A produção literária de Hemingway decaiu nos anos pós-guerra, embora ele continuasse sendo uma celebridade mundial. Ele não escreveu nenhum romance significativo depois de Por quem os sinos dobram, em 1940. A maior parte do seu tempo ele passava “polindo” a própria fama ou ajustando contas antigas por meio de ataques aos seus colegas escritores pela imprensa. Em particular, Hemingway enfurecia-se por nunca ter sido agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Pode-se imaginar sua felicidade quando seu romance O velho e o mar, de 1952, lhe rendeu não somente aquele prêmio como também o Pulitez. Talvez, no fim das contas, o velho “Papa” ainda tivesse algum óleo para queimar.

Infelizmente nem mesmo esse reconhecimento tardio seria capaz de curar a única aflição que o atormentou por toda a vida adulta: a depressão. Durante a última década de sua vida, o humor naturalmente sombrio de Hemingway nublou-se ainda mais graças a uma série de problemas de saúde. Ele sobreviveu a dois acidentes de avião e, em cada um deles, emergiu com graves ferimentos internos. Teve sérias queimaduras devido a um incêndio na mata, desenvolveu pressão alta e problemas de fígados relacionados ao alcoolismo e foi submetido a uma terapia de choque elétrica que deixou sequelas em suas memórias.

Em seus dias finais, era mantido quase constantemente sedado para evitar que atentasse contra a própria vida. Sua esposa, Mary, chegou ao ponto de trancar todas as armas dele no porão da casa em Ketchum, ldaho. Infelizmente um desesperado Hemingway encontrou as chaves e, na manhã do dia 2 de julho de 1961, apontou o cano duplo de uma espingarda na própria cabeça e puxou o gatilho. O escritor que certa vez observou que “um homem pode ser destruído, mas não derrotado” teve sucesso em finalmente destruir-se.

Filhinho da mamãe


Quando adulto, Hemingway foi a personificação das virtudes masculinas. É de surpreender, portanto, que ele tenha iniciado a vida como uma garotinha. A excêntrica mãe de Hemingway desejava tanto uma companheira para a irmã mais velha dele, Marceline, que vestia o pequeno Ernest com roupas de menina, penteava os longos cabelos dele como os de uma menina e o apresentava aos vizinhos como sendo a sua “filha” Ernestine.

Estranha dupla

Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald foram o Oscar e Felix da geração perdida norte-americana. Nascidos com apenas três anos de diferença, eles cultivaram uma das mais estranhas amizades da história literárias. Hemingway era impetuoso, vociferante e autoconfiante. Fitzgerald era inseguro, educado e um tantinho petulante. No entanto, foram inseparáveis por um breve período e desde então associados na imaginação popular.

Ele se conheceram em 1925, no famoso Dingo Bar de Paris. Hemingway tinha apenas vinte e quatro anos na época e era virtualmente desconhecido, enquanto Fitzgerald, três anos mais velho, acabara de publicar O grande Gatsby e estava seguindo de vento em popa na direção da fama literária. Ainda assim os dois se tornaram amigos rapidamente. Na verdade, o relacionamento deles se tornou bastante íntimo.

Segundo relatos, quando Zelda, a esposa de Fitzgerald, fez um comentário zombeteiro a respeito do tamanho da genitália do marido, Hemingway conduziu uma improvisada inspeção no banheiro masculino para assegurar ao amigo que seus dotes naturais eram perfeitamente adequados. “Você é completamente normal”, disse o “Papa” a Fitzgerald. “Não há nada de errado com você”.

Apesar de momentos sentimentais como este, a amizade foi esfriando consideravelmente depois de 1926. A separação foi devida, em parte, ao mero ciúme. A estrela de Hemingway começava a brilhar, ao mesmo tempo que Fitzgerald iniciava o longo, lento e árduo declínio artístico. Hemingway também desenvolveu um hábito desagradável de zombar do velho amigo em suas obras. Ele criou uma caricatura pouco lisonjeira e finamente velada de Fitzgerald em seu O sol também se levanta e deu-lhe um golpe violento usando seu nome no conto As neves do Kilimanjaro, incitando Fitzgerald a implorar para que não zombasse dele novamente.

Por algum tempo, Hemingway acatou o pedido, mas não conseguiu resistir à oportunidade de dar a última palavra. Muito tempo depois da morte de Fitzgerald, Hemingway “detonou” pela última vez seu antigo mentor em suas memórias publicadas postumamente, Paris é uma festa, descrevendo o autor de O grande Gatsby como um covarde fanfarrão e impotente.

Uma situação cabeluda

Hemingway não aceitava muito bem quaisquer insinuações a respeito da sua masculinidade. Na verdade, quase teve um “chilique” quando o crítico Max Eastman o depreciou em uma contundente resenha do seu tratado sobre touradas, de 1932, Death in the Afternoon. Eastman escreveu que Hemingway “falta a serena confiança de ser um homem completo” e comparou o seu estilo ao de um homem que “usa pêlos falsos no peito”.

Vários anos depois, Hemingway encontrou Eastman por acaso no escritório do editor Maxwell Perkins. Depois de cumprimentar Eastman com um aperto de mão, um sorridente Hemingway abriu com um puxão a camisa de Eastman e a sua própria – revelando os pêlos luxuriantes que provavam que ele, Hemingway, era muito mais peludo que o outro. “O que você pretendia, ao me acusar de impotente?”, Hemingway indagou furioso. Depois, esfregou no rosto de Eastman uma cópia da sua resenha e derrubou o atônito crítico no chão. Foi a última vez que Eastman fez uma crítica negativa ao “Papa” – pelo menos em termos tão pessoais.

Nome aos bois

Hemingway jamais participou das corridas de touros em Pamplona, embora muito o associem a esse espetáculo espanhol anual porque ele escreveu a respeito em O sol também se levanta. Na verdade, Hemingway nunca conseguiria participar de nenhum tipo de corrida por causa dos ferimentos nas pernas que sofreu durante a Primeira Guerra Mundial. Quanto a correr de touros em disparada, nem pensar – as ruas de pedras de Pamplona certamente teriam sido demais para ele.

Só porque você é paranoico...

... não significa que “eles” não irão pegá-lo. Por muitos anos Hemingway dizia a todos que quisessem ouvir que estava sendo seguindo pelo FBI. A maioria das pessoas simplesmente descartava essa idéia como mais uma das teorias malucas do “Papa”, mas, no fim das contas, ele realmente estava certo. Arquivos revelados depois da morte de Hemingway confirmam que os agentes federais estavam monitorando as atividades do escritor, desde a Segunda Mundial até a sua morte. Ponto para os paranoicos do mundo todo!

Filho-problema

Se o filho mais novo de Hemingway, Gregory, tivesse vivido o bastante para escrever sua autobiografia, talvez pudesse tê-la intitulado De caçador de elefantes a exibicionista. Sempre o preferido do pai, Gregory compartilhava muito dos maneirismos machistas do “Papa” e era um atirador exímio que certa vez abateu dezoito elefantes durante um safári da África.

Mas ele também teve uma vida dupla como travesti (Hemingway certa vez o apanhou experimentando as meias de náilon da mãe) e, com o tempo, optou por fazer uma cirurgia para mudança de sexo. Depois de mudar também o seu nome para Gloria, passou a sofrer de frequentes blackouts por ser maníaco-depressivo e foi preso várias vezes por agressão a policiais.

A última altercação desse tipo ocorreu em setembro de 2001, quando Gregory/Gloria, aparentemente embriagado, foi visto andando nu pelas ruas de Key Biscayne, na Flórida. A polícia o prendeu por atentado ao pudor enquanto ele tentava freneticamente cobrir os genitais com uma calcinha fio-dental. Seis dias depois ele teve um ataque cardíaco e morreu em sua cela no Centro de Detenção Feminina de Miami-Dade.

Poucas explicações foram oferecidas para essa outra lenda queda ao fundo do abismo de um Hemingway. Como o próprio Gregory certa fez refletiu durante um entrevista: “O que será isso que existe em um pai amoroso, dominador e basicamente bem-intencionado que faz você acabar ficando louco?”. Talvez jamais saberemos.

Mal de família

Será que existe uma maldição dos Hemingway? Como se a estranha saga de Gregory Hemingway não bastasse como prova disso, há também o triste fim de Margaux Hemingway, a neta do “Papa”. A escultural irmã mais velha da atriz Mariel Hemingway foi certa vez uma das modelos mais famosas de Nova York. Então a depressão, o uso de drogas e os distúrbios alimentares acabaram cobrando seu preço.

Por volta da década de 1990 ela havia chegado ao fundo do poço, posando nua para a Playboy, aparecendo em comerciais baratos e emprestando a voz a um serviço de “0800” que oferecia conselhos mediúnicos de “celebridades”. (A propaganda de serviço dizia: “Margaux Hemingway: o nome contém seu próprio mistério”.)

No dia 2 de julho de 1996 – exatamente trinta e cinco anos depois que seu avô tirou a própria vida – ela juntou-se a ele no rol de suicídios da família, que incluía também o pai de Ernest, Clarence, a irmã dele, Ursula, e o irmão Leicester. Com quarenta e um anos, Margaux ingeriu uma dose letal de fenobarbitol em seu apartamento em Santa Monica, Califórnia.

A forma mais sincera de homenagem

A cada ano o Harry’s Bar American Grill em Century City, Califórnia (uma réplica norte-americana de um dos “botecos” italianos preferidos de Hemingway), patrocina o Concurso Internacional de Imitação de Hemingway, mais conhecido como o Concurso Bad Hemingway. Os competidores devem apresentar um texto original de uma página parodiando o estilo inimitável do autor, com a estipulação de que incluem uma referência elogiosa ao restaurante patrocinador.


Os títulos mais recentes, que foram reunidos e publicados em forma de livro, incluíram A farewell to lunch (adeus ao almoço), The snooze of Kilimanjaro (a soneca do Kilimanjaro), The old man and the seal (o velho e a foca), e o clássico que reúne Ernest Hemingway com Monica Lewinsky Across the Potomac and into her pants (cruzando o Potomac para dentro da sua calcinha). O grande prêmio é uma viagem para duas pessoas, com tudo pago, para o verdadeiro Harry’s em Florença, Itália. Em algum lugar o “Papa” deve estar sorrindo.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

A vida secreta de T.S. Eliot (26/SET/1888 – 04/JAN/1965)


Ninguém jamais explorou as profundezas do desespero humano com tanta graça e elegância quanto T.S. Eliot. Certa vez, V.S Pritchett o descreveu como “um bem aprumado antiboêmio com um chapéu-coco e guarda-chuva preto, conduzindo-nos a todos aos nossos assentos no Inferno”. Virginia Woolf achava sua aparência quase irresistivelmente cômica. “Venha para o almoço”, ela escreveu num convite urgente ao cunhado. “Eliot estará aqui com seu terno de quatro peças”.

Se Eliot tinha a aparência de um empertigado bancário é porque ele era exatamente isso. Labutou duramente por oito anos atrás de uma escrivaninha no Lloyd’s Bank of London, cuidando de contas estrangeiras enquanto trabalhava em alguns dos mais revolucionários poemas do século XX.

Claro, tudo isso não passava de pose. Em primeiro lugar, Eliot não era realmente britânico. Adotou a cidadania britânica em 1927, mais ou menos na época em que se converteu à Igreja Anglicana. Ele nasceu em St. Louis, descendente de três presidentes norte-americanos: Jonh Adams, Jonh Quincy Adams e Rutherford B. Hayes.

Frequentou a Universidade de Harvard, a fim de obter o doutorado em filosofia, mas até ele mesmo admitiu que sua dissertação era “ilegível”. Ele não apareceu para defender a tese – consequentemente, seu pedido para o doutorado foi rejeitado pela universidade –, em vez disso, emigrou para Inglaterra e passou a trabalhar como professor, bancário, editor, crítico e poeta de fama mundial.

Eliot permaneceu virgem até a idade de vinte e seis anos, o que não deixava de ser surpresa para quem quer que tenha lido seus primeiros poemas, tal como o The love song of J. Alfred Prufrock. Quando finalmente conheceu alguém capaz de suportá-lo, os resultados foram desastrosos. Vivien Haigh-Wood – a “Viv” de “Tom” como ele costumava dizer – era uma mulher alegre e vibrante, que considerava o reservado Eliot um homem tedioso e inibido. Ela era também mentalmente instável, costumava traí-lo e talvez fosse viciada em éter. Porém, exceto por isso, eles se davam muito bem.

Eliot descreveu seu relacionamento com ela como algo capaz de evocar “o estado de espírito no qual foi criado o The waste land”– o que não era exatamente um retrato da felicidade conjugal. Aldous Huxley, amigo do casal, associou “todo aquele cinza e desespero da poesia de Eliot” à união dele com Viv. O mais impressionante é que eles ficaram juntos durante dezessete anos, quando Eliot achou que já aguentara o bastante. Depois que a abandonou, em 1933, Viv mergulhou na loucura e ficou confinada em um hospital psiquiátrico durante os últimos nove anos da sua vida. Eliot nunca foi visitá-la.

Por essa época Eliot já havia se tornado um poeta famoso e respeitado, embora não muito prolífico. Ele concebia seus poemas como “eventos” que deveriam ser entregues em parcelas ao seu ávido público a cada poucos anos. Entre eventos como The hollow men e Ash Wednesday, Eliot escrevia ensaios críticos para diversos jornais literários. Foi nesses ensaios que seus leitores tiveram um relance dos primeiros sinais do anti-semitismo latente que, antes disso, não eram revelados em sua postura crítica.

“Motivos de raça e religião se combinam para tornar indesejáveis um grande número de judeus livre-pensadores”, ele escreveu em uma dessas ladainhas. Tinha também palavras amáveis a respeito de Hitler e Mussolini. Em pouco tempo os fãs começaram a rever e analisar seus primeiros poemas em busca de exemplos de supostas caricaturas e imagens anti-semitas. Lá estavam elas, e ainda permanecem como uma mancha na sua reputação.

Mesmo assim, Eliot foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1948 e acomodou-se no status de ícone com a mesma facilidade com que antes usava o seu chapéu-coco. A vida ainda apresentava dificuldades, mas eram cada vez mais do tipo “Sinto muito, não posso fazer a palestra para o seu grupo de poesia”. “Os anos entre cinquenta e setenta são os mais difíceis”, Eliot comentou. “Você esta sempre sendo solicitado a fazer coisas, no entanto ainda não está suficientemente decrépito para recusá-la”.

Na verdade, Eliot recusou muito pouco coisa. Ele se comprazia bastante com a sua celebridade. Em 1956, mais de quatorze mil pessoas foram assistir à sua palestra na Universidade de Minnesota – a maior multidão já reunida para um evento literário. A universidade precisou transferir a palestra para o ginásio de esportes para acomodar a platéia.

Em outra ocasião, Eliot recebeu o título de cidadão honorário de Dallas, no Texas, bem como o de xerife honorário do condado de Dallas – o motivo de tais horarias, ninguém sabe. Nunca alguém soube o motivo.

Ele não ia muito ao cinema, porque, dizia, “os filmes interferem em meus devaneios”. No entanto era um “gozador” inveterado, que pendurou uma fotografia de Groucho Marx na sala, ao lado de retratos de seus colegas poetas W. B. Yeats e Paul Valéry.

Eliot até fez uma nova tentativa no casamento e, já bem tarde na vida, conquistou a felicidade nos braços de sua antiga e fiel secretária Esmé Fletcher.

Sendo um hipocondríaco de longa data, Eliot era conhecido por internar-se no hospital por qualquer bobagem, muitas vezes por nada mais sério que um pé-de-atleta. No inverno de 1964, porém, um grave caso de enfisema, devido aos muitos anos em que fumou, finalmente o atingiu e matou no dia 4 de janeiro de 1965. Ele foi homenageado com uma lápide no Poet’s Corner da Abadia de Westminster.


Jogo de palavras

Talvez não seja uma observação das mais poéticas, mas Dylan Thomas, contemporâneo de Eliot, certa vez salientou que “T. S. Eliot” é um palíndromo quase perfeito da palavra “toilets” (“sanitário”).

O livro de peças do Velho Gambá

Quem diria que o autor de The waste land gostasse tanto de pregar peças? Apelidado de “Velho Gambá” pelo seu amigo Ezra Pound, Eliot adorava, preparar “pegadinhas” para seus colegas escritores que o visitavam, e depois ficava à espreita para observar suas reações. Suas brincadeiras favoritas incluíam colocar nas cadeiras dos “escolhidos” almofadas que produziam barulhos estranhos, e o sempre popular charuto explosivo. Certa vez ele interrompeu uma reunião de diretoria em sua famosa e tradicional editora quando escondeu um balde cheio de bombinhas entre as pernas do diretor-presidente.

Meu jantar com Groucho

J. Alfred Prufrock encontrou-se com o capitão Jeffrey T. Spaulding na noite de 3 de junho de 1964, quando Eliot e Groucho Marx finalmente se conheceram, depois de um longo período em que trocaram cartas. Os improváveis amigos haviam iniciado a correspondência cerca de dois anos antes, depois que Eliot escreveu a Groucho uma carta de fã.

Eles trocaram fotografia – Groucho enviou-lhe a segunda foto quando Eliot lhe pediu uma em  que estivesse portando o charuto que era a sua marca registrada – e logo progrediram para a fase de amizade de “Caro Tom” e “Caro Groucho”. Faziam planos para jantares, nas palavras de Groucho, “para ficar bêbados juntos”, porém nunca haviam conseguido concretizar tais planos, até uma mágica noite de primavera em Londres.

Poucos dias antes da “festança”, Eliot escreveu a Groucho para confirmar que enviaria um carro ao hotel do comediante para busca “você e a sra. Groucho” para jantar. O poeta, deslumbrado com a fama do artista, também comentou que a visita iminente de Groucho havia “melhorado grandemente o meu crédito com a vizinhança, especialmente com o vendedor de verduras no outro lado da rua”.

Groucho, de sua parte, “queimou as pestanas”, nos livros de poesia de Eliot, antecipando uma noite de pretenciosas conversas literárias e, para o caso de ficar sem assunto, reaproximou-se também do Rei Lear de Shakespeare.

Depois de se recuperar do choque que levou com a aparência física do velho poeta, então com setenta e cinco anos (ele o descreveu como “alto, esguio e um tanto curvado para frente... pela idade, doença, ou ambos”), Goucho acomodou-se com a esposa para o que, ele esperava, seria uma conversa intelectualmente estimulante, mas estava errado.

Eliot queria apenas conversar sobre os filmes dos Irmãos Marx e chegou até mesmo a citar frases dos filmes de Groucho que o próprio comediante há muito tempo esquecera.

Quando Groucho tentou desviar a conversa na direção do The waste land, Eliot limitou-se a esboçar um sorriso cansado. E as observações dele sobre Shakespeare também levaram o poeta a um absoluto silêncio.

Antes mesmo que a sobremesa fosse servida, Groucho e a “sra. Groucho” já estavam procurando o caminho da porta. “Não ficamos até muito tarde”, o lendário cômico recordou depois, “porque nós dois sentimos que ele não estava disposto a ter uma longa noite de conversa – especialmente a minha conversa”.

O brinde da Broadway

Quantos poetas podem se gabar de ter ganho ao menos um Prêmio Tony? Pois Eliot ganhou quatro: dois pela sua peça teatral de 1950, The cocktail party, e dois postumamente, pelo musical Cats, que foi baseado em seu livro de versos com tema felino Old possum’s book of practical cats.

Embora os esnobes teatrais amaldiçoem o dia em que Rum tum tugger tomou a Broadway de assalto, Eliot teria ficado encantado com o sucesso duradouro do espetáculo, pois era fanático por musicais.

Na verdade, depois de saber que Eartha Kitt havia inserido o nome dele em uma das suas músicas do New faces of 1952, ele enviou um buquê de rosas para o camarim dela.

Quando Eliot assistiu pela primeira vez à produção original da Broadway de My fair lady, superou uma antiga antipatia pelo material que lhe servira de inspiração – “Shaw melhorou muito com a música”, disse.

Roube este poema


A verdadeira fonte de inspiração do maior poema de Eliot, The waste land, há muito tem sido objeto de controvérsias. Até recentemente os acadêmicos limitavam-se a argumentar sobre quanto crédito Ezra Pound, que editou a versão original de Eliot, deveria receber pelo produto final. Então, em 1995, um acadêmico canadense chamado Robert Lan Scott afirmou que tanto o título como algumas das imagens no The waste land de Eliot haviam sido extraídos da obra de um obscuro poeta de Kentucky chamado Madison Cawein.

As evidências eram frágeis e os versos simples e “caseiros” de Cawein estão a anos-luz de distância da obra de Eliot, mas foi um grãozinho a mais para aquele que afirmam que Eliot não era nada além de um plagiador inteligente. Como se estivesse antecipando tais acusações, Eliot certa vez observou que “poetas imaturos imitam, poetas maduros roubam; maus poetas desfiguram o que roubaram, e os bons poetas o transformam em algo ainda melhor”.

Você está por conta própria

Os estudantes de literatura inglesa há muito se queixam da natureza propositalmente obscura da poesia de Eliot. Porém, mesmo quando vivo, o poeta oferecia pouca ajuda a quem quer que tentasse analisar seu verdadeiro sentido.

Num encontro com o Clube de Poesia de Oxford, um estudante pediu a Eliot que explicasse o verso Lady, three white leopards sat under a juniper-tree, do seu poema “Ash wednesday”. “eu quis dizer”, Eliot respondeu, “Senhora, três leopardos brancos descansaram sob o junípero’”.

Em outra ocasião, um calouro de um universidade norte-americana forneceu uma longa e elaborada interpretação de uma passagem de um dos Four quartets de Eliot. “Não é isso que significa?”, o estudante perguntou ao final da sua análise. “Pode muito bem significar isso”, foi tudo o que Eliot respondeu.

A respeito de um dos seus poemas mais exasperante, The waste land, Eliot certa vez admitiu: “Eu nem mesmo me incomodei em saber se entendia o que estava dizendo”.

O obscurantismo intencional de Eliot estendia-se até a arena dos conselhos pessoais. Uma vez o jovem poeta Donald Hall o visitou em Londres, buscando conselhos sobre como fazer a transição de Harvard para Oxford. “Agora, que conselho eu posso lhe dar?”, Eliot indagou, portentoso. Após uma adequada pausa grandiosa, ele forneceu a resposta à sua própria pergunta: “Você tem alguma ceroula?”.

Nobel orelhudo

Quando estava a caminho de Estocolmo para receber o Prêmio Nobel, em 1948, Eliot submeteu-se a uma entrevista com um repórter não muito letrado. Indagado sobre por qual de suas obras ele estava sendo premiado, Eliot respondeu que o Nobel era pelo “corpus inteiro” (sendo corpus o conjunto da obra). “E quando o senhor pretende publicá-lo?”, perguntou o inculto repórter. Eliot mais tarde comentou que “Corpus inteiro” até que daria um bom título para o seu primeiro romance de mistério.

Homem paciente

Eliot era um jogador de cartas inveterado, embora preferisse sempre apostas baixas. “Eu nunca aposto alto porque jamais ganho nada”, ele admitiu. Seus jogos preferidos incluíam pôquer, rummy e heart.
W.H. Auden certa vez abordou-o durante um jogo de paciência no qual ele parecia estar particularmente absorvido. Quando Auden lhe perguntou por que desperdiçava seu tempo com uma atividade tão trivial, Eliot respondeu: “Bem, imagino que esta seja a atividade que mais se aproxima de se estar morto”.

A vida secreta de Franz Kafka (03/JUL/1883 – 03/JUN/1924)


Você sabe que é um grande escritor quando o seu sobrenome passa a ser usado como um adjetivo. Como iríamos descrever algo como “kafkiano” se não fosse por Kafka? Essa é uma pergunta que provavelmente jamais ocorreu a esse indefinível filho de um comerciante de Praga, que morreu sem saber com que perfeição os seus romances e contos apavorantes capturaram uma época, uma sociedade e um sentimento universalmente reconhecido de alienação e desespero.

O pai dominador de Kafka ajudou a fomentar esse sentimento, depreciando o filho desde a tenra infância como fisicamente fraco, que jamais equipararia o seu sucesso como fornecedor de bengalas sofisticadas. Deus sabe o quanto o pequeno Franz tentou. Foi um aluno exemplar, fez seu bar mitzvah e conquistou um diploma de advogado, mas desde muito jovem ele descobriu que seu único meio de libertação era por meio da leitura e da escrita – atividades que Herman Kafka considerava triviais e sem valor.

Um fiasco como advogado, Kafka tentou trabalhar com seguros. Aceitou um emprego como gerente de pagamentos no Instituto de Seguros de Acidentes de Trabalho da Boêmia, mas o horário de trabalho era cruel e as condições, absurdas: ele passava a maior parte do tempo redigindo formulários com descrições de dedos cortados, retalhados e mutilados para documentar aparelhamentos defeituosos e máquinas com mau funcionamento.

Como escreveu ao amigo e colega escritor Max Brod: “Você não faz idéia de como estou ocupado... As pessoas tropeçam em andaimes e por cima de máquinas como se estivessem bêbadas. Todas as pranchas tombam, todos os aterros desabam, todas as escadas escorregam, tudo o que é erguido cai, tudo o que é posto para baixo atira alguém para cima. E todas aquelas jovens em fábricas de porcelana que constantemente se arremessam por lances inteiros de escada carregando montanhas de louças provocam-me dores de cabeça”.

A vida pessoal de Kafka oferecia pouco refúgio para esse pesadelo. Ele era um patrocinador regular de diversos bordéis em Praga e divertia-se com uma aparentemente inesgotável sucessão de casos rápidos com balconistas de bares, garçonetes e vendedoras de lojas – se é que se pode chamar isso de diversão. Kafka enojava-se com o sexo e sofria de um considerável complexo de madona/prostituta. Achava que todas as mulheres que conhecia eram virgens ou prostitutas e, uma vez que estivesse fisicamente satisfeito, não queria ter mais nada com elas. A idéia de uma vida normal de casado lhe provocava asco. “O coito é o castigo pela felicidade de se estar junto”, ele escreveu em seu diário.

Apesar dessas deficiências e de uma inegável ausência de auto-estima, Kafka conseguiu manter uns poucos relacionamentos duradouros, embora ainda seja uma questão em aberto se ele realmente praticava sexo com alguma dessas mulheres. Em 1912 ele conheceu Felice Bauer durante uma estada na casa de Brod em Berlim. Kafka conquistou-a escrevendo longas cartas nas quais confidenciava seus sentimentos de inadequação física – sempre uma boa estratégia com as damas. Ela ajudou a inspirar algumas das suas grandes obras, incluindo O Processo e A Metamorfose

Talvez também o tenha inspirado a traí-la com sua melhor amiga, Grete Bloch, que, anos depois, afirmou que Kafka era o pai de seu filho ilegítimo, o que é atualmente debatido por muitos acadêmicos. O relacionamento com Felice terminou em julho de 1914 com uma briga feia no escritório de Kafka no Instituto de Seguros, durante a qual Felice leu em voz alta as cartas de amor que ele escrevera para Grete.

Kafka então manteve um caso por correspondência com Milena Jesenká-Pollak, esposa de seu amigo Ernest Pollak (imagine o tipo de conquistador que ele seria se tivesse vivido na era dos e-mails), mas o relacionamento terminou em 1923 por insistência dele. Mais tarde Kafka usou Milena como uma das personagens do seu romance O castelo.

Finalmente Kafka conheceu a professora de jardim-de-infância Dora Dymant num acampamento de crianças judias em 1923, quando já estava atacado pela tuberculose. Com a metade da idade de Kafka e vinda de uma família judia ortodoxa polonesa, Dora cuidou dele durante o seu último ano de vida. Eles estudavam o Talmude juntos e falavam sobre emigrar para a Palestina, onde sonhavam abrir um restaurante, com Dora na cozinha e Kafka atendendo as mesas. Ele até mesmo escreveu para um kibutz, pedindo informações sobre um emprego de contador, mas tais planos foram subitamente interrompidos pela morte dele em 1924.

Ninguém ficou muito surpreso por Kafka não ter vivido até uma idade avançada. Seus amigos sabiam que ele era um hipocondríaco consumado, que vivia se queixando de enxaqueca, insônia, constipação, falta de ar, reumatismo, furúnculo, manchas na pele, queda de cabelo, deficiência de visão, deformação leve no dedo do pé, extrema sensibilidade ao barulho, exaustão quase constante, coceiras e pruridos por todo o corpo e uma variedade de outras doenças, reais e imaginárias. Ele tentava rebater essas enfermidades com a prática diária de exercícios calistênicos e uma série de tratamentos naturopático, que incluíam laxantes naturais e uma dieta estritamente vegetariana.

Mas, no fim das contas, Kafka tinha bons motivos para se preocupar – contraiu tuberculose em 1917, provavelmente como resultado da ingestão de leite não-pasteurizado. Os últimos sete anos da sua vida foram uma busca incessante por curas milagrosas e pelo ar puro do qual precisava desesperadamente para aliviar os pulmões enfermos. Quando morreu, deixou um bilhete em sua mesa instruindo o amigo Brod a queimar todas as obras, com exceção de O Processo, Contemplação/O Foguista, A Metamorfose, O Veredicto/Na Colônia Penal e Um médico rural. Brond decidiu não cumprir a ordem. Em vez disso, preparou as obras O Processo, O Castelo e O Desaparecido ou Amerika para publicação e ajudou a assegurar ao amigo e a si mesmo um lugar na história literária.


Sr. Segurança

Kafka foi mesmo o inventor do capacete de segurança? O professor de gestão de negócios Peter Drucker afirma que sim em seu livro A administração na próxima sociedade, publicado em 2002. Drucker creditava a Kafka o desenvolvimento do primeiro capacete de segurança civil quando trabalhava como gerente de pagamentos no Instituto de Segurança de Acidentes de Trabalho de Boêmia, mas não está bem claro se ele inventou o protetor de cabeça ou se apenas determinou que seu uso fosse obrigatório. O certo é que Kafka foi premiado pelos seus esforços com a medalha de ouro da Sociedade Americana de Segurança, posto que ajudou a reduzir as fatalidades na indústria e nos forneceu um estereótipo duradouro dos trabalhadores de construções, no qual confiamos até os dias atuais.

Jens e Franz

Envergonhados do seu corpo magro e dos músculos fracos, Kafka sofria do que hoje chamamos de imagem corporal negativa. Muitas vezes ele escreveu em seus diários sobre o quanto desprezava sua própria aparência física – um tema que também apareceu repetidamente em sua ficção.

Muitos anos antes de Charles Atlas prometer aos banhistas magricelos que conseguiria esculpir seus corpos por meio do levantamento de peso, Kafka já praticava exercícios calistênicos sob uma janela aberta, seguindo as instruções do seu preparador físico dinamarquês Jens Peter Muller, um guru dos entusiastas por exercícios cujas “dicas” de saúde eram entremeadas de exortações racistas sobre a superioridade do corpo nórdico. Obviamente não era a pessoa mais indicada para dar lições de vida ao neurótico judeu da Boêmia.

Engula essa

Como resultado de sua baixa auto-estima, Kafka tornou-se um maníaco por planos de dieta malucas, e exóticas. Uma das que realmente conquistou a imaginação dele foi a chamada Fletcherismo, um absurdo regime de mastigação criado por um “novidadeiro” vitoriano e defensor da alimentação natural cognominado “o grande mastigador”.

Flecher argumentava que era preciso mastigar os alimentos na boca exatamente quarenta e cinco vezes antes de engolir. “A natureza irá castigar aqueles que não mastigam”, ele alertava, e Kafka levava a sério o aviso. De acordo com uma anotação em seu diário, o pai dele ficava tão enojado com o barulho constante da sua mastigação que se escondia por trás do jornal na mesa de jantar.

Carne é crime

Kafka era um vegetariano convicto, tanto por motivos relacionados à saúde como por motivos éticos. (Sendo neto de um açougueiro kosher, essa convicção reforçava a crença de seu pai de que o filho era um fracasso total e absoluto.) Certo dia, quando admirava os peixes em um aquário, Kafka declarou: “Agora posso admirá-los em paz. Eu não os como mais!” Um dos primeiros defensores da dieta de alimentos crus, Kafka também envolveu-se no movimento antivivissecção.

A verdade nua

Para um homem que escreveu tanto sobre espaço fechados, atulhados e escuros, Kafka certamente adorava ficar ao ar livre. Era conhecido por fazer longas caminhadas pelas ruas de Praga, sempre acompanhado do bom amigo Max Brod. Também foi adepto do nudismo, então muito em voga, passando temporadas em meio ás multidões despidas em um spa chamado A Fonte da Juventude.

Contudo, é pouco provável que Kafka tenha realmente tirado as calças, pois era extremamente retraído quando à nudez – a sua própria ou de qualquer outra pessoa. Os outros hóspedes do spa o chamavam de “o homem com o calção de banho”, e por mais de uma vez ele foi desagradavelmente surpreendido por outros residentes, que apreciam nus na frente dos seus aposentos ou que passavam por ele au naturel a caminho dos bosques nas proximidades.

A vida secreta de James Joyce (02/FEV/1882 – 13/JAN/1941)


Enaltecido por um crítico como o mais raro dos autores que “escrevia somente obras-primas”, Joyce compartilhava com o mundo a elevada opinião sobre seu trabalho. Embora certa vez tivesse dito a W.B. Yeats que “você e eu logo seremos esquecidos”, em momentos menos dissimulados Joyce se considerava como um presente de Deus à ficção moderna. Mais de setenta anos depois de sua morte, poucas pessoas discordariam dessa afirmação. (E menos pessoas ainda conseguiram ler as suas duas últimas obras-primas do início ao fim, mas essa é uma outra história.)

Joyce nasceu em uma família irlandesa católica relativamente próspera, cujas condições financeiras acabaram sendo prejudicadas pelo pai alcoólatra e esbanjador. Indagado depois da morte de John Joyce como havia sido o seu pai, James respondeu: “Um falido”. Ainda assim, o salário que o velho Joyce recebia como coletor de impostos foi mais que suficiente para enviar o pequeno Jimmy a excelentes colégios internos e a encaminhá-lo muito bem no estudo da Medicina. Mas foi aí que o vírus da literatura o contaminou e todos os sonhos de pagar as dívidas acumuladas do pai voaram pela janela.

Em 1904 Joyce conheceu Nora Barnacle, a sensual camareira que acabou se tornando sua companheira por toda a vida. Quando soube que o filho havia fugido com uma mulher chamada Barnacle, John Joyce comentou com pena: “Ela jamais o deixará”. (Barnacle, para quem não sabe, é uma espécie de crustáceo que se gruda nos cascos de navios e, tudo bem, as piadas de John eram mais engraçadas.)

Modelo ideal para católicos relapsos de mundo inteiro, Joyce acabou dando as costas para todas as instituições que antes o acolhiam – sua família, seu país e sua religião. A frase “Non serviam” (Não servirei), dita pelo protagonista de Retrato do artista quando jovem, poderia ter sido também o lema de Joyce.

Sua coletânea de contos intitulada Dublinenses foi rejeitada por vinte e dois editores e queimada por um, que a declarou moralmente repugnantes e “não-patriótica em seu retrato de Dublin”. Ulisses foi banido nos Estados Unidos até 1933.

Em parte pela frustação com a ignorância daqueles que o cercavam, em parte pelo desejo de viver abertamente “em pecado” com Nora sem ter de se casar com ela, Joyce passou quase toda a vida na Europa, principalmente em Paris, Zurique e Trieste, onde escreveu e viveu sem ser perturbado, exceto pela ocasional deflagração da guerra mundial.

A saúde era a sua maior preocupação. A péssima visão o atormentou desde a infância. Seus óculos tinham lentes grossas como fundos de garrafa e passou por onze cirurgias para tratamento de miopia, glaucoma e catarata. Em determinado momento, o cristalino do seu olho esquerdo foi removido completamente.

Outro problema era a dor de dente. Em seus primeiros anos como jovem escritor, Joyce vivia à base de chocolate, mas não tinha meios para pagar os tratamentos dentários que deveriam acompanhar essa dieta tão açucarada; por conta disso, seus dentes apodreceram e foram literalmente caindo, levando a uma inflamação da íris que exarcebou ainda mais a fragilidade da sua visão. Quando dizia que havia escolhido as palavras certas para o Ulisses, mas que só precisaria colocá-las em perfeita ordem, talvez não estivesse brincando. Durante o último terço de sua vida ele estava quase totalmente cego.

No dia 10 de janeiro de 1941, Joyce contorceu-se com dores de estômago e foi levado para um hospital de Zurique. O diagnóstico foi úlcera duodenal rompida e ele logo entrou em coma, despertando apenas uma vez para proferir suas últimas palavras: “Será que ninguém entende?”. Um padre católico ofereceu-se para conduzir seu funeral, mas Nora objetou, dizendo: “Eu não poderia fazer isso a ele”. Joyce está enterrado sob uma simples lápide no Cemitério Fluntern, em Zurique.


Latidos e “bums”

Joyce tinha pavor mortal de suas coisas: cachorros e trovões. A primeira fobia era bem compreensível, porque quando criança ele havia sido mordido no queixo por um cão vira-lata enquanto brincava de jogar pedras na praia. Quando ao medo de trovões, Joyce poderia atribuí-lo á babá que teve na infância.

Católica devota, ela o ensinou que as tempestades de raios eram uma manifestação da fúria de Deus e insistia para que ele fizesse o sinal da cruz e rezasse sempre que visse o estouro de um relâmpago. Mesmo quando adulto, Joyce estremecia toda vez que ouvia o estrondo de um trovão. Quando alguém lhe perguntava o porquê desse medo, ele dizia simplesmente: “Você não foi criado na Irlanda católica”.

Retrato de artista quando velho e pervertido

Dizer que Joyce tinha uma imaginação sexual ativa seria uma declaração muito suave. “As duas partes do corpo que fazem sujeira são as mais adoráveis para mim”, ele escreveu em uma das inúmeras cartas eróticas que enviava à sua amante Nora Barnacle. “Gostaria que você me batesse ou até mesmo me açoitasse”, entusiasmou-se em outra carta. “Gostaria de ser açoitada por você, Nora, meu amor!”. E esses são apenas dois trechos mais brandos.

As cartas de amor de Joyce estão repletas de descrições explícitas de atos sexuais que ele compartilhou, ou gostaria de ter compartilhado, com ela. Em meio às referências anatômicas bastante gráficas que Joyce usava como auxílio masturbatório, estão os repetidos e devassos louvores aos “peitos cheios e grandes” de Nora e a sua “bunda repleta de peidos”.

De fato, Joyce parecia ter um lugar especial em seu, bem, coração para o aroma dos gases da mulher e pela visão das suas roupas íntimas sujas. Esquisito? Sim. Sensual? É discutível. Nora também participava dessas sessões de cheirar calcinhas? As cartas dela para ele parecem ser igualmente erótica e “sujas” – talvez ainda mais. “Você perece ter o poder de me transformar em animal”, Joyce escreveu em outra lasciva missiva. “Foi você mesma, menina malvada e desavergonhada, a primeira a guiar-me neste caminho”.

“Gosto de bumbuns e não vou negar”

Como o cantor Sir Mix-a-Lot, Joyce era atraido por uma parte especial do corpo feminino, acima de todas as outras. Quando lhe contaram uma história sobre um rei canibal que escolhia suas consortes reais baseado no tamanho dos seus traseiros, Joyce retrucou: “Espero sinceramente que quando bolchevismo finalmente varrer o mundo, possa poupar este esclarecido potentado”.

Sessão Kvetch

Às vezes um encontro entre duas lendas literárias não corresponde tão bem às nossas elevadas expectativas. O caso em questão foi o encontro de Joyce, em 1922, com o escritor francês Marcel Proust. Na época, os dois eram o mais aclamados romancistas no mundo. Quando compareceram a um mesmo jantar festivo em Paris, todos silenciaram. As pessoas presumiram que os dois gênios literários teriam muito em comum – e estavam certas.

Como dois velhotes num banco de jardim, Joyce e Proust imediatamente começaram a se queixar um ao outro das suas diversas enfermidades. “Tenho dores de cabeça todos os dias... Minha visão é horrível”, Joyce resmungou. “Meu pobre estômago está me matando... O que vou fazer?”, Proust contra-atacou. E depois de uma breve e constrangedora conversa sobre como gostava de comer trufas, ambos admitiram que não haviam lido as obras um do outro.

Sem mais nada sobre o que conversar, Proust, famoso pela sua timidez, escapou em direção da porta. Joyce o acompanhou no táxi até a casa dele, esperando continuar a conversa, mas, infelizmente, não era para ser. O autor de Em busca do tempo perdido desapareceu no interior do seu prédio de apartamento sem nem mesmo oferecer ao seu colega uma madeleine para comer no caminho.

Conflito de gerações

O encontro de Joyce com outro ícone literário – William Butler Yeats – foi quase tão desastroso quanto o anterior. O reverenciado poeta irlandês tentou com afinco fazer com que seu conterrâneo mais jovem gostasse dele, mas seus esforços foram em vão. Yeats até mesmo se ofereceu para ler algumas das terríveis poesias de Joyce, porém este, relutante, esgueirou-se com a arrogante réplica: “Eu o farei, desde que você me peça, mas não darei mais importância à sua opinião do que daria à de qualquer um que encontrasse na rua”.

Uma troca de opiniões generalizadas sobre literatura então se seguiu. Quando Yeats mencionou Honoré de Balzac, Joyce rui dele. “Quem lê Balzac hoje em dia?”, zombou. Finalmente a discussão voltou-se para o trabalho do próprio Yeats, que ele descreveu como estando numa fase mais experimental. “Ah”, Joyce comentou, “isso demonstra quão rapidamente você está deteriorando”. Quando a conversa se encerrou, Joyce foi sumariamente evasivo. “Nós nos conhecemos tarde demais”, disse a Yeats. “Você é velho demais para mim e eu não causo efeito algum em você”.

Por todo o transcorrer dessa sucessão de insultos, Yeats mordeu a língua. Mas tarde, porém, foi bem mais sincero quando escreveu a Joyce: “Tal colossal autopresunção, com um gênio literário tão liliputiano, eu jamais vi combinados em uma única pessoa”.

Fale com a mão

Algumas pessoas realmente compartilham da elevada opinião de Joyce sobre si mesmo. Certo dia em Zurique um jovem aproximou-se dele na rua. “Posso beijar a mão que escreveu Ulisses?”, ele perguntou. “Não”, Joyce respondeu. “Esta mão fez muitas outras coisas também”. Como Nora sem dúvida poderia atestar.

Eternamente “chato”

Joyce detestava monumentos. Uma vez, quando estava passando em um táxi pelo Arco do Triunfo, em Paris, um amigo perguntou-lhe por quanto tempo a eterna chama em seu interior iria arder. “Até o dia em que o Soldado Desconhecido se levantar enojado e a apagar com um sopro”, Joyce retrucou.

“Quark” as minhas palavras

No mundo da física de partículas, o quark é um dos blocos construtores fundamentais da matéria. É também o nome de um carro francês conceitual, de um personagem do Jornada nas estrelas: deep space nine e do cachorro da família Szalinski na comédia de ficção científica de 1989, Querida, encolhi as crianças. Todos esses usos se devem a James Joyce.

O físico norte-americano Murray Gell-Mann foi o primeiro a denominar as partículas subatômicas de “quarks” em uma referência aos brados de escárnio que as três aves marinhas enviam ao Rei Mark na página 383 do romance Finnegans Wake. (A frase complete é “Three quarks for Muster Mark!”. Ou “Três quarks para o Mestre Mark!”)

Surdez de Finnegan

E por falar em “The wake” (como é informalmente conhecido entre os admiradores de Joyce), o famoso e impenetrável último romance de Joyce se tornou um pouco mais incompreensível graças ao problema de audição de Samuel Beckett.

Joyce, que já estava quase cego quando escreveu o romance, estava ditando-o a Beckett, que então o redigia. Durante uma dessas sessões, alguém bateu à porta e Joyce disse: “Entre!”, mas Beckett, que estava com dificuldade para ouvir, não escutou a batida na porta, só a resposta de Joyce, e rapidamente a escreveu no manuscrito.

Mais tarde, quando Joyce fez com que o trecho fosse lido para ele, gostou da maneira como soava e decidiu manter o “Entre!” no livro finalizado.

A vida secreta de Virginia Woolf (25/JAN/1882 – 28/MAR/1941)


Poucos escritores foram tão predestinados à imortalidade quanto Virginia Woolf. Seu pedigree era impecável. Seu pai era um ilustre biógrafo e editor que se casara com a filha mais velha de William Makepeace Thackeray. Seu padrinho era o poeta norte-americano James Russell Lowell (um antepassado de Amy e Robert Lowell), e apenas para acrescentar mais um toque de realeza, sua mãe era descendente de uma das armas de honra de Maria Antonieta. Durante a sua infância passavam pela sua casa luminares artísticos e literários, como Henry James, George Eliot e a fotógrafa Julia Margaret Cameron, tia de sua mãe.

Mas nem tudo era chá com biscoitos, é claro. Quando criança, Virginia e sua irmã Vanessa eram sujeitas aos assédios constantes dos meio-irmãos George e Gerald Duckworth. Sua mãe morreu subitamente de gripe em 1895, e dois anos depois, em 1897, morreu sua meia-irmã, Stella Duckworth. “O golpe, o segundo golpe da morte, atingiu-me”, Woolf escreveu mais tarde, “trêmula, enrugada, sentada com minhas asas ainda presas na crisálida rompida”. A morte de Stella precipitou a primeira de mais de uma dezena de crises nervosas que ela sofreria durante sua vida.

Woolf era maníaco-depressiva em uma época em que ninguém ainda entendia essa doença. Para aqueles que a rodeavam, ela simplesmente tinha uma tendência a intermitentes ataques de insanidade. Tais ataques costumavam coincidir com as grandes mudanças de vida, tal como a morte de seu pai em 1904, ou com períodos de dificuldade criativa. Ela tendia a “enlouquecer”, como ela própria colocava, quando estava perto de completar um romance. Na fase maníaca da sua enfermidade, era conhecida por falar incessantemente. Esse comportamento errático devia deixar chocados aqueles que a conheciam como uma pessoa tímida e reservada.

Outro aspecto da vida íntima de Woolf era o lesbianismo. Embora forjasse vários relacionamentos românticos com homens, está claro que, desde muito cedo, ela preferia as mulheres. Na adolescência, teve uma grande paixão por Violet Dickinson, amiga da família e dezessete anos mais velha do que ela. “Eu queria que você fosse um canguru e que tivesse uma bolsa onde os pequenos cangurus pudessem se esconder”, Woolf escreveu a Violet em uma de suas cartas tipicamente enigmáticas e carregadas de sensualidade. Em outra carta, chamou-a de “bendita gata infernal”, declarando: “Quantos tumultos e guinchos deve haver dentro de você”. Provavelmente Woolf jamais consumou seu relacionamento com Violet, porém, mais tarde, teve um longo caso homossexual com Vita Sackille-West, a inspiração para o seu romance Orlando.

O mais notável relacionamento heterossexual de Woolf, é claro, foi com seu marido, Leonard Woolf, um escritor e intelectual que adorava uma farra. Juntos eles ajudaram a fundar o influente salão literário Bloomsbury. Ele formava um par interessante: Virginia detestava judeus e relações sexuais com homens mais ou menos na mesma medida, e Leonard, além de homem, era judeu. Depois de passar alguns anos tentando inutilmente convencer Virginia a fazer sexo com ele, Leonard simplesmente desistiu. Felizmente ambos acreditavam no “casamento aberto” e compartilhavam uma visão igualmente sombria sobre o futuro da humanidade e acabaram formando um dos casais mais estranhamente compatíveis da história literária.

O suicídio era outro interesse que Leonard e Virginia tinham em comum. Convencida de que o mundo iria direto para o inferno e que os socialistas judeus e as lésbicas feministas provavelmente seriam os escolhidos para suportar o apocalipse que se aproximava, o casal passou a estocar gasolina na garagem para o caso de, a qualquer momento, ser necessário que os dois cometessem suicídio inalando a fumaça do escapamento do automóvel. Eles também estocavam doses letais de morfina.

Quando a Segunda Guerra Mundial estourou e os nazistas começaram a bombardear Londres, Woolf perdeu o que parecia ser o seu último parafuso. A casa onde morava foi destruída duas vezes enquanto ela lutava para completar o seu último romance, Entre os atos. Ela e Leonard mudaram-se para a casa de campo que tinham nos arredores de Londres onde, durante o inverno de 1941, sua disposição de espírito ainda mais sombria. Convencida de que estava prestes a “enlouquecer” novamente, Woolf não conseguiu suportar a perspectiva. Na manhã do dia 28 de março ela escreveu cartas de despedidas para o marido e a irmã e saiu da casa, seguindo para o rio Ouse que ficava próximo. Ali, depois de enfiar pedras nos bolsos para mantê-la no fundo, entrou na água e afogou-se. Seu corpo foi encontrado três semanas depois.


Nomes carinhosos

Woolf adorava animais. Quando criança, cercava-se de uma coleção incomum que incluía um esquilo, uma marmota e um ratinho chamado Jacobi. Como se já não bastassem tantas criaturas silvestres à sua volta, ela também gostava de chamar as pessoas por apelidos que lembravam de animais. Escolheu o apelido de “golfinho” para a sua irmã Vanessa que, por sua vez, a chamava de “bode”. Adequadamente, o primeiro ensaio publicado de Woolf foi um obituário para o cão da família.

Tire as mãos do meu busto!

Quando menina, Woolf teve uma altercação com o famoso escultor francês Auguste Rodin. Numa visita ao seu estúdio com um grupo de amigos, ela foi explicitamente instruída a não examinar nenhuma das peças inacabadas que Rodin mantinha ocultas, enroladas com faixas. Ansiosa como sempre por desafiar os limites que lhe eram impostos, Woolf imediatamente começou a desenrolar a faixa de uma das esculturas proibidas. Robin avançou para ela e deu-lhe um tapa no rosto.

Alegres brincadeirinhas

Entre um ataque de nervos e outro Woolf gostava de divertir pintando o rosto de preto e pregando peças na Marinha Britânica. Bem, ela fez isso apenas uma vez – mas causou uma confusão e tanto.
Em 1910 Woolf foi uma das seis pessoas – e a única mulher – por trás do infame Embuste de Dreadnought, que resultou na humilhação pública da Marinha Real Britânica. O esquema envolveu convencer o comandante do HMS Dreadnought de que uma delegação da realeza da Abissínia (atual Etiópia) iria inspecionar seu navio.

Woolf e seus companheiros de brincadeira, então fantasiados com barba falsa, turbantes e mantos alugados e os rostos cobertos de tinta preta, subiram a bordo do navio sem despertar nenhuma suspeita. Distribuíram cartões escritos em suaili (que não é o idioma da Etiópia) e gritavam “bunga bunga” de vez em quando para demonstrar sua animação. Antes de partir, os africanos falsificados até mesmo se deram ao trabalho de prender falsas medalhas no peito de alguns oficiais britânicos.

Depois retornaram à terra firme, onde revelaram a artimanha à imprensa britânica, causando uma imensa consternação na hierarquia naval da nação. Alguns jornais exigiram que os autores da “brincadeira” fossem processados, mas a opinião pública foi mais compreensiva e os perdoou, chegando até mesmo a adotar o “bunga bunga” dos abissínios como uma espécie de bordão nacional. Satisfeito com a diversão, Woolf tranquilamente retomou a sua nascente carreira literária.

Em pé!

Inspirada pela irmã Vanessa, que ficava em pé enquanto pintava, Woolf, até bem tarde em sua carreira, só escrevia nessa posição.

Hardy Har Har

No verão de 1926 Woolf visitou Thomas Hardy, um dos seus antepassados literários, na casa dele em Dorchester. O encontro não transcorreu tão bem quanto o esperado. Hardy, muito esnobe, não parecia absolutamente interessado em discutir questões literárias. Descartou com desdém todas as ponderadas perguntas que Woolf lhe fazia sobre a natureza da poesia, respondendo com banalidades e sem oferecer nenhuma opinião para guiá-la nas atribulações da vida literária. Mas autografou um livro para ela, embora escrevesse seu nome de maneira errada, “Wolff”. Qual foi a reação de Woolf a esse encontro? Teve uma crise nervosa.

Virginia Woof

Está interessado em ler uma pequena biografia canina, no estilo Virginia Woolf? Então dê uma olhada no Flush, a bizarra “vida de cachorro” que Woolf escreveu em 1933 como uma espécie de brincadeira. O cão da raça cocker spaniel que inspirou o título, e a obra, pertencia à poetisa Elizabeth Barrett Browning. Woolf leu sobre Flush nas cartas de Browning ao seu marido, Robert, e “a figura do cão me fez rir tanto que não consegui resistir à idéia de criar uma vida para ele”.

O livro relata extensos – alguns diriam penosos – detalhes sobre os devotados ancestrais do au-au, incorporando material extraído de lendas cartaginenses, de contos bascos e das cortes dos Tudor e Stuart. O mais impressionante é que a história da cauda do spaniel abanando atingiu o coração do público. Flush tornou-se o livro mais vendido de Woolf até aquela data, vendendo cerca de 19 mil cópias em seis meses de publicação. O New York Times chamou-o de “tour de force literária”.

Talvez a única pessoa a ficar decepcionada com toda essa aceitação tenha sido a eternamente deprimida Woolf, pois temia que o livro a rotulasse para sempre como uma “velhota tagarela”. “Tenho um grande desgosto com o sucesso de Flush”, ela declarou.

Quem tem medo de ser processado?

A resposta é Edward Albee. O dramaturgo pediu e recebeu permissão do viúvo de Virginia, Leonard, para usar o nome da falecida esposa no título da sua peça de 1962, Who’s afraid of Virginia Woolf? (“Quem tem medo de Virginia Woolf?”). O título foi extraído de um grafite que Albee certa vez viu rabiscado no espelho do salão de um bar. O dramaturgo inglês Alan Benett respondeu comicamente, em 1978, com uma peça intitulada Me – I’m Afraid of Virginia Woolf (“Mim – Eu tenho medo de Virginia Woolf”).

quarta-feira, dezembro 23, 2015

A vida secreta de Jack London (12/JAN/1876 - 22/NOV/1916)


“Sempre gostei de beber quando não havia ninguém por perto”, Jack London afirmou certa vez. “Eu bebia quando estava sozinho.” Num universo literário prolífico em beberrões de escala galáctica (Edgar Allan Poe, Jack Kerouac e Dylan Thomas são alguns exemplos), o autor de clássico de aventura como Caninos brancos e O grito da selva talvez tenha sido o mais beberrões de todos.

Quanto ele bebia? Bem, a sua coletânea de “memória alcoólicas”, John Barleycon, está na lista de leituras recomendadas dos Alcoólatras Anônimos. London gabava-se aos amigos de que havia começado a “encher o caneco” aos cinco anos, quando seu padrasto alcoólatra o enviava ao saloon local para buscar cerveja em um balde. Aos catorze anos ele já bebia como um velho marinheiro. No auge do alcoolismo, London consumia quase uma garrafa de uísque por dia, e sofria os efeitos disso na forma de acidentes e períodos em que perambulava como andarilho.

Certa vez ele ficou tão “mamado” que cambaleou para fora do cais em Oakland e caiu na baía de San Francisco, onde ficou flutuando sem rumo até ser resgatado por um pescador grego. Numa vista ao Japão, London usou e abusou do saquê. Confinado em seu barco no porto de Yokohama, ficou “entornando” o aguardente de arroz durante uma semana, até que a polícia local ordenou que fosse embora. Então, aparentemente convencido de que se estivesse de pileque seria capaz de respirar debaixo d’água, mergulhou nas águas do porto para fugir dos policiais. As autoridades japonesas o registraram oficialmente como morto, mas, de algum modo, London conseguiu encontrar o caminho de volta para o barco.

Um verdadeiro pioneiro literário, London ajudou a romantizar a imagem do escritor norte-americano briguento, beberrão e irresponsável, do tipo “que se dane o mundo”. Teria havido Ernest Hemingway ou um Norman Mailer sem o seu exemplo agressivamente “macho”? London levou aquela vida desregrada que escritores com antecedentes mais refinados como, digamos, Hemingway, invejavam e tentavam imitar.

Ele nasceu de um relacionamento fora do casamento e cresceu em meio à pobreza do cais de Oakland, onde sobrevivia como trabalhador ilegal, incluindo um “bico” que fazia como “pirata de ostras”, roubando os rentáveis moluscos dos criadouros comerciais na baía de San Francisco. Sob essa fechada rude e grosseira, no entanto, batia o coração de um sensível homem das letras.

London foi quase inteiramente autodidata. Como “rato de biblioteca” ele acumulou uma coleção particular de cerca de quinze mil livros, aos quais se referia como “ferramentas do seu trabalho”, trabalho este que lhe pagou muito bem e ele se tornou um dos primeiros escritores best-seller do século XX. A fama, acompanhada das suas recompensas financeiras, permitiu que London fosse em busca de aventuras, muitas vezes a bordo do barco construído por ele, o Snark.

Depois de 1905 sua segunda esposa invariavelmente o acompanhava nessas excursões. Era Charmian Kittredge, uma mulher “durona” desinibida e endiabrada a quem ele chamava de “Companheira” e com quem London encontrou seu maior desafio não apenas intelectual, mas também sexual.

Embora o seu estilo de vida aventureiro o mantivesse fisicamente em forma, também o deixava exposto a uma variedade de doenças e enfermidades que foram aos poucos o desgastando, até levá-lo à morte prematura.

No início dos seus vinte anos ele perdeu quatro dentes da frente devido ao escorbuto. Contraiu disenteria e pleurisia quando trabalhava no México, e depois malária no Pacífico Sul. Durante um cruzeiro para a ilha de Otong Java, suas mãos incharam a ponto de ficar duas vezes maiores que o tamanho normal, e a pele começou a descasca em pedaços. Ele foi diagnosticado com pelagra, uma doença comum entre os marinheiros e causada pela deficiência de vitaminas.

Também foi atormentado por cálculos renais, reumatismo, herpes, infecção nas bolhas dos pés, amidalite, insônia, dores nas articulações e uremia. Esta última iria finalmente derrubá-lo com a idade de quarenta anos. Aos contrários do equívoco bastante comum, London não cometeu suicídio, mas morreu sucumbido pelos efeitos cumulativos da sua dieta pobre em vitaminas associada ao consumo de álcool ou por uma overdose acidental de morfina, que ele usava para aliviar as dores provocadas pela uremia. Ele está enterrado onde é hoje o Jack London State Historical Park no condado de Sonoma, Califórnia.


Nasce uma estrela

London pode ter nascido na miséria, mas seu sucesso literário estava claramente escrito nas estrelas – como seu pai poderia atestar. É quase certo que o pai legítimo de London tenha sido William Chaney, um astuto ex-pirata que se formou a figura germinal na história da astrologia. Depois de ser convertido ao poder dos horóscopos pelo pioneiro astrólogo britânico dr. Luke Broughton.

Chaney considerava os presságios zodiacais como “a mais preciosa ciência já levada ao conhecimento dos homens” e dedicou-se a popularizá-la. Ele infundiu o rigor acadêmico ao estudo das estrelas, ensinando e treinando seus seguidores e publicando uma efeméride, ou mapa, usada para calcular os horóscopos.

Ao que parece, no entanto, nada nesses mapas lhe disse que ele era o pai de Jack London. Quando London foi á sua procura, em 1897, Chaney negou a paternidade, afirmando que estava impotente no período em que London fora concebido. Atualmente, muitos acadêmicos debatem a veracidade dessa afirmação.

Ladrão de enredos

London foi objeto de inúmeras acusações de plágio. Era conhecido por extrair elementos de histórias verdadeiras publicadas nos jornais (uma prática comum na época), ou simplesmente pagar para que as pessoas lhe fornecessem enredos ou idéias para histórias, incluindo entre estas o jovem Sinclair Lewis. Há quem diga que ele também surrupiou as idéias do jornalista irlandês Frank Harris, bem como as do romancista norte-americano Frank Norris. A defesa mais comum de London, no entanto, era afirmar que ele e o autor lesado tinham simplesmente se baseado nas mesmas fontes. Isso deve ter funcionado, pois London nunca foi considerado culpado das acusações de plágio.

Às trincheiras!

London foi o primeiro escritor norte-americano a ganhar um milhão de dólares com seus livros. Ele era também um socialista comprometido – uma contradição que não passou despercebida entre os seus contemporâneos. “Seria bem-feito a esse London se as classes trabalhadoras tomassem o controle das coisas”. Mark Twain certa vez observou. “Ele teria de convocar a milícia para receber seus direitos autorais”.

Verdade seja dita, o radicalismo de London não era muito sincero. Ele era conhecido por aparecer em elegantes jantares festivos usando uma camisa de flanela de operário – porém uma camisa tão impecavelmente limpa e bem passada que destruía o efeito desajeitado. Ele assinava suas cartas com um “Seu, pela Revolução”, embora fizesse muito pouco para iniciar uma.

London de fato se candidatou duas vezes para o cargo de prefeito de Oakland pelo Partido Socialista. Na primeira vez, em 1901, obteve 245 votos. Quatro anos depois, aumentou aquele ínfimo total para 981. Depois disso, nunca mais concorreu.

Febre amarela

Apesar de toda sua conversa sobre luta de classes e justiça econômica, London era um racista feroz que nutria um desprezo especial pelos asiáticos. Numa visita ao Japão para fazer a cobertura da guerra russo-japonesa para os jornais de Hearst em 1904, ele comentou com um colega que os japoneses “podem ser corajoso, mas os porcos selvagens sul-americanos também o são quando atacam em bandos”. Os coreanos, ele escreveu, eram “o tipo perfeito de ineficiência – o da absoluta inutilidade”. Os chineses escaparam com relativa facilidade. London os elogiou pela ausência de covardia e pela sua natureza laboriosa.

Porém, num revoltante ensaio de 1904 intitulado “O Perigo Amarelo”, London alertou sobre as consequências caso os japoneses “marrons” e os chineses “amarelos” algum dia unissem suas forças. “A ameaça para o mundo Ocidental está nas mãos não do pequeno homem marrom”, ele escreveu, “mas sim nos quatrocentos milhões de amarelos, se os pequenos marrons se submeterem ao seu comando”.

Então, de que forma London conciliava tais crenças com a sua plataforma política progressista? Ele não o fazia. Quando um de seus companheiros do partido socialista salientou que Marx havia convocado uma revolução para unir os trabalhadores de todas as nações e raças, London praticamente subiu pelas paredes. “Eu sou primeiro e acima de tudo um homem branco, e somente depois um socialista!”, esbravejou.

Agente de Satã

Todo estudante temente a Deus conhece Jack London como o autor de O grito da selva. Porém, entre os satanistas, ele é mais famoso por um livro que não escreveu. Durante décadas a Igreja de Satã Anton LaVey sustentou – inexplicavelmente – que London era “Ragnar Redbeard”, pseudônimo do autor da enfadonha obra Might is rigth, de 1896.

Uma estranha mistura da teoria evolucionista darwiniana com a filosofia de Friedrich Nietzche do “super-homem”, Might is right defende conceitos que qualquer um que esteja familiarizado com as opiniões políticas de London jamais pensaria em atribuir a ele, tais como, “O forte sempre deve comandar o fraco em favor da lei primordial” ou “Na ampla malha racial da terra, os fracos são derrotados”.

Não é de surpreender que esse livro tenha conquistado a predileção de anarquistas radicais, satanistas, defensores da supremacia branca, stalinistas e outros favoráveis a uma ordem social na qual os poderosos subjugam os fracos pela força. Essa não era exatamente a “praia” de London, mesmo que ele não gostasse muito dos asiáticos. Embora a verdadeira identidade de Ragnar Readbeard jamais tenha sido estabelecida, muitos acadêmicos hoje concordam que se tratava de Arthur Desmond, um escritor neozelandês radical e ativista político (e de barba ruiva).