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terça-feira, setembro 08, 2009

Morre o inesquecível professor Heyrton Bessa


Márcia Siqueira e Sidney Rezende curtindo a dupla premiação

Cheguei de Itacoatiara na manhã desta terça-feira. Assim que o humor voltar, farei um relatório circunstanciado a respeito do “Festival dos Festivais”, o slogan oficial da 25ª edição do evento. Pra quem ainda não sabe, a música “Dança”, de Sidney Rezende, interpretada por Márcia Siqueira, abiscoitou o 1º lugar (Márcia também ganhou o prêmio de melhor intérprete). A música “Oriente Amazônico”, de Zé Beto Correa, interpretada pelo próprio, ficou em 2º lugar. Em terceiro, “Faróis”, de Candinho, interpretada por Lili Andrade.

Na Velha Serpa, tomei conhecimento das mortes prematuras de dois outros amigos, ocorridas recentemente: o baterista Almir Fernandes, que durante quase dez anos foi um dos músicos da banda oficial do Fecani, e o artista plástico e médico Ademar Brito, um dos fundadores da banda do Mandy’s Bar, a pioneira do carnaval de rua amazonense. Foi um baque fodido.

Bom, mas se a internet daqui é assim, imaginem a de Itacoatiara... Durante cinco dias – de quinta-feira a segunda – não consegui sequer abrir meus e-mails. Resultado: a caixa ficou superlotada com mais de 600 informes. Num dos primeiros que abri, um novo choque: Geraldo Katatau participava sua tristeza pela perda do irmão Heyrton.

Puta que pariu, eu fiquei tão mareado que escrevi de volta pra ele, solicitando confirmação do fato. Não precisava. Em um outro e-mail, enviado no domingo, Geraldo anexara a belíssima crônica do Ribamar Bessa, publicada no mesmo dia, no Diário do Amazonas, que estou transcrevendo na íntegra. Que merda!

Conheci o Heyrton Bessa em 1971, quando eu cursava o 1º ano de Eletrotécnica na ETFA e ele era professor de Física. Suas aulas eram inesquecíveis, uma espécie de permanente alumbramento. A facilidade com que ele transformava os conceitos mais espinhosos de cinemática em postulados acessíveis por qualquer pessoa com mais de um neurônio na chacola era digna de figurar em galerias de arte. Um gênio sem idiossincrasias, um educador na mais completa acepção da palavra, um amigo solidário em constante estado de bom humor!

Lembro que, no meio das aulas, ele parava o discurso e fazia um teste-relâmpago sobre o que acabara de explicar. Quem resolvesse a questão por primeiro ganhava um ponto para a prova mensal. Eu fiquei tão fissurado nesses testes, que estudava antecipadamente as matérias que ele ainda ia ensinar. De cada dez questões propostas, eu era o primeiro a matar a charada em pelo menos seis vezes (e isso em uma turma de 50 moleques).

Por conta disso, às vezes eu chegava na prova mensal com 12 pontos na carteira (ele assinava o papel com as respostas corretas de cada teste e na hora de lançamento das notas bastava apresentar no “caixa”, que os pontos eram computados na nota final). Pra eu começar a vender os meus pontos para os piores alunos da classe, foi conta de multiplicar.

Como o Heyrton sabia que eu era filho de um operário da Reman e que, portanto, estava dando os meus pulos para garantir os trocados da passagem de ônibus (na maioria das vezes eu ia a pé da ETFA, na Sete de Setembro com a Duque de Caxias, para a minha casa, lá na Parintins com a Borba, uma verdadeira maratona para um moleque de 15 anos), sempre fez vista grossa para a traquinagem.

Claro que ele sabia quem era o verdadeiro dono dos pontos apresentados por Frank Seixas, Zé Magro, Samuel, Papagaio, Jacy, Nego Alexandre, etc. Se não, como explicar que eles tivessem se saído tão bem nos testes-relâmpagos e depois se fodido nas provas mensais? Mas como ele nunca esteve interessado em foder a vida de alguém, computava os pontos pra quem apresentasse o papel com a sua assinatura. A exemplo do jogo do bicho, pro professor Heyrton valia o escrito.

Das centenas de professores que tive ao longo da vida, ele foi o que mais me influenciou. Quando me formei na ETFA, já acalentava o sonho de ser físico nuclear. No ano seguinte, em 1974, fiz vestibular pra Licenciatura em Física, na FUA, onde estudei por três meses. Aí, tive que optar entre trabalhar e estudar – o curso da FUA era diurno – e acabei trancando a matrícula.

No meio daquele mesmo ano, passei no vestibular da UTAM pra engenharia eletrônica (curso noturno) e acabei arquivando o velho sonho. Mas o brilhantismo, a integridade, a dimensão humana e o bom humor do Heyrton sempre foram uma referência existencial ao longo de minha vida. Saber que nunca mais vou vê-lo me deixou com um gosto amargo na boca. A crônica do Ribamar Bessa só reforçou aquilo que sempre intui de uma maneira ou de outra: Heyrton era um autêntico gênio da raça. Deo gratias tê-lo conhecido pessoalmente. E à família enlutada, os sinceros pêsames desse escriba.


Clã Bessa, da esquerda pra direita e de cima pra baixo: Lucinha, Eduardo, Heyrton, Juliana (falecida), Marta, Geraldo, Elisa, Gugu e Dodora

Taquiprati – Diário do Amazonas - José R. Bessa Freire – 06/09/2009

O NETO DA VOVÓ

De onde é que tio Eduardo tirou aquele nome? Ninguém sabe. Mas da Bíblia, que ele lia diariamente, não foi. Não existe, nem no Antigo nem no Novo Testamento, profeta, apóstolo, evangelista ou santo chamado Heyrton. Foi, porém, com esse nome raro – Heyrton - que batizou o filho, pimbudo e ligeiramente estrábico, nascido em 1937, num seringal em Sena Madureira (Acre). O primogênito encabeçou uma lista de quarenta netos da vovó Marelisa, reinando durante algum tempo, soberano, como primeiro e único, até o nascimento dos demais.

Quase todo mundo tem apelido. Mas, engraçado, o Heyrton não! É fácil explicar. Um dos irmãos dele, por exemplo, reconhecido internacionalmente pelo nome artístico de Djwery Power, seria um ilustre desconhecido, se fosse apenas um Geraldo qualquer. Isso porque, em toda família que se preza, há sempre um Geraldo. Djwery Power, porém, só tem um. Aqui, o apelido é que confere a singularidade, a notoriedade.

Não é o caso do Heyrton, que carece de apelido, posto que só três seres no planeta – e olhe lá! - giram a cabeça, quando escutam esse nome: os dois Heyrton, pai e filho, e um cachorro de raça, na Bélgica que, por sua fidelidade e beleza, deu origem ao “Troféu Heyrton da Planície de Flandres”, se o Google não mente.

Na boléia

Aos quatro anos, sem ter freqüentado escola, Heyrton olhou uma placa e soletrou em voz alta: E-pa-mi-non-das, nome da avenida que corta a rua Monsenhor Coutinho, no centro de Manaus, onde vovó morava, num casarão com porão e jardim. Assombrou a família. Passou a ser atração dos vizinhos, lendo manchetes do Jornal do Commércio, como a notícia do bombardeio de Pearl Harbor pelos japoneses, em dezembro de 1941.

Foi assim que os netos cresceram, ouvindo essas e outras façanhas, enriquecidas ao longo do tempo com novos detalhes, recriados nas reuniões familiares, que eram muitas, naquela Manaus dos anos 1950, onde as famílias viviam tribalmente. A casa da vovó era uma grande maloca, com cheiro de tabaco do cachimbo, que ela pitava, e de café, que ela pessoalmente pilava. Ora tibis! Como era bom o cheiro da vovó!

Maloca aglutinadora. Ela unia e reunia a tribo. Nas noites quentes de Manaus, enquanto os adultos discutiam a empresa de ônibus estatal Transportamazon, criada pelo PTB local, os netos de todas as idades se aboletavam na carroceria de uma fubica do tio Manoel, dirigida pelo Heyrton, já com 18 anos, olhado por todos com reverência e admiração. A fubica descia a João Coelho e subia o boulevard até a Caixa D´Água, no meio de muita algazarra. Era uma senhora aventura! O lugar dele, na boléia, nunca foi questionado.

Logo depois, Heyrton encontrou Rosilene, paixão fulminante, com quem casou, levando a sério o “até-que-a-morte-nos-separe”. Quando o genro predileto, anos mais tarde, lhe prestou homenagem, batizando suas próprias úlceras – eram duas - com os nomes de Rose, uma, e de Lene, a outra, o sogro fez um comentário matemático: “É. Ela vale mesmo por duas”.

Graduado em química, Heyrton fez a pós-graduação em física, na Universidade Federal do Paraná, onde nasceu a primeira filha. De regresso a Manaus, trabalhou como pesquisador do INPA e de lá saiu, concursado, para lecionar física na Universidade Federal do Amazonas e na Escola Técnica Federal de Manaus. Suas aulas inesquecíveis lhe renderam homenagem dos alunos, que batizaram, com o nome dele, o Laboratório de Iniciação Científica.

Era seresteiro. Tocava violão e piano. Foi a primeira pessoa que ouvi cantar em espanhol: “Malagueeeeeeeña, salerosa”. Depois, a partir dos anos 1970, as noitadas de dominó e as conversas regadas à cervejinha, que ele tanto apreciava, foram tecendo relações sólidas de afeto e cumplicidade. Deixamos de ser primos. Passamos a ser irmãos, compartilhando reflexões, entre outras, sobre a educação dos filhos.

Defendeu com pensamentos, palavras e obras o direito de cada um decidir sobre sua própria vida, sobretudo seus filhos, cuja liberdade de escolha foi sempre por ele estimulada. Era um compromisso radical, que os meninos souberam apreciar e valorizar. Mas não abdicava do seu lugar na boléia: - “Baixinha, vamos combinar assim: você cuida do teu câncer, que eu cuido do meu” – ele disse pra filha mais velha, com câncer de mama, que tentava, no desespero, encaminhar o tratamento do pai.

Estou indo

No início dos anos 1990 – ele já aposentado – nossas famílias mudaram para Niterói, de onde essa coluna passou a ser remetida semanalmente até os dias de hoje. Ele dizia que era um caso singular, alguém ter que andar quase dois quilômetros - a distância entre nossas casas - para se comunicar via internet. É que, analfabeto digital, eu lhe levava um disquete com a crônica semanal. Ele me hospedava na sua home-page – Cidade Virtual dos Bessa e Birutério – e era de lá que repassávamos o artigo.

A coluna, antes de ser enviada ao jornal, era lida por ele, a quem eu solicitava críticas, argumentando: - “É para o controle de qualidade”. Suas observações, quase sempre incorporadas, me davam segurança. Heyrton tinha um raciocínio lógico, científico, rigoroso, que usava para olhar o mundo, os fatos, o cotidiano, com a precisão de um cirurgião ou de um relojoeiro, mas com um humor discreto, elegante, comedido, refinado. Era enxuto, não apreciava a verborragia nem a retórica ribombante.

Um dia, em julho de 1995, a coluna fez gozação com o prefeito de Manaus. Aí, um vereador puxa-saco, que sequer havia sido mencionado, subiu à tribuna e esculhambou o Taquiprati, só pra mostrar serviço. O troco veio na semana seguinte, procurando, porém, poupar a irmã do bajulador, uma figura doce, que merecia explicações. A sugestão do Heyrton foi substituir um parágrafo de quinze linhas por um recado fulminante que dizia tudo: “Peço desculpas, mas teu irmão atirou primeiro”.

Seu humor funcionava como uma fisgada sutil, ágil, de onde aflorava a verve popular. Os quatro testamentos do Judas, publicados em versos, em anos diferentes, foram redigidos por ele. No ano passado, Judas não poupou nem o Eduardo Braga: “E pro povo do Amazonas / governado pelo Dudu / deixo apenas a esperança / de não mais tomar na rima”. No testamento de 1987, Judas contemplou o então vice-governador: “Vivaldo Frota a ti deixo / neste claro mês de abril / pra curar tuas hemorróidas / tubinhos de Cola Mil”.

Cada ano, a família comemorava o aniversário de nós dois, com uma única festa, celebrada no mesmo dia. O último foi há menos de dois meses, quando somando as idades, completamos 134 anos. Sopramos as velinhas correspondentes que enfeitavam o bolo, onde aparecia impressa a foto da vovó cercada dos netos. De lá para cá, seu estado de saúde se agravou celeremente, o que podia ser constatado em cada visita.

Domingo passado, falamos sobre a morte. Quem puxou a conversa foi ele, quando perguntei: - “E aí?”. Respondeu sereno, digno, quase altivo: - “Estou indo. Contrariado, mas sem medo”. Enquanto o neto da vovó se ia, lembrei o poeta Vallejo: “Tanto amor y no poder nada contra la muerte”.

Se você entrar agorinha no blog e clicar em “Perfil do Heyrton”, vai ler essa frase: “Heyrton não fez nada de novo recentemente”. Não é mais verdade. Fez sim. Nessa quinta-feira, dia 3 de setembro, às 13:30hs, ele foi embora, em paz, segurando a mão do filho e da filha, cercado do carinho da família, em casa, como queria, mantendo a lucidez até o final.

Teve uma única mulher, três filhos e seis netos, mas deixou muitas viúvas e dezenas de órfãos. Sou um deles. No próximo ano, completo, na maior solidão, apenas 63 anos, com a dor dos 73 que se foram. Rose perdeu seu companheiro de meio século. Dodora, seu mano de toda a vida. Os filhos, o pai exemplar. Todos nós perdemos o patriarca, o primo, o irmão, o tio, o avô, o conselheiro, o parceirinho querido de tantos dominós, porém ficou sua referência ética. O leitor da coluna também perde seu “controle de qualidade”, a rima e a veia poética desse cavalheiro de fina estampa. Ele se foi, levando com ele o cheiro da vovó.

2 comentários:

Raffa disse...

Sacanagem!!!

Tinham me falado, mas eu não quis acreditar...

Embora tenha consciência da morte humana, não conseguia nem imaginar essa possibilidade, tão cedo, para o "moleque" professor sempre amigo...

Só consigo, agora, ficar olhando para a janela a minha frente...

Paula disse...

Estudei com Heyrton filho em Manaus e terminamos o segundo grau juntos. Não nos vemos desde então, mas temos contato através do orkut, mas não posso deixar de me emocionar com suas palavras e com a lembrança dessa pessoa tão singular que foi o Sr. Heyrton. Que Deus o tenha em seus braços.
Paula Dias