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quinta-feira, novembro 19, 2009

Duas histórias do meu brother Antonio Belém


No começo dos anos 90, um gaudério se estabeleceu em Parintins e abriu uma mercearia inspirada nos rincões gaúchos. A nova taberna ficava em frente da casa de Antonio Belém, irmão do Vicente Matos, ex-presidente do bumbá Garantido.

Pra quem não sabe, Antonio Belém é um sujeito com porte de halterofilista, mas incapaz de matar uma borboleta – provavelmente porque tem o coração maior do que o corpo.

Quando ia na bodega em busca de cervejas, ele até achava engraçado surpreender o gaudério repetindo, contritamente, a oração criada por D. Luiz Felipe de Nadal, bispo de Uruguaiana:

“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e com licença do Patrão Celestial. Vou chegando, enquanto cevo o amargo de minhas confidências, porque ao romper da madrugada e ao descambar do sol, preciso campear por outras invernadas e repontar do Céu a força e a coragem para o entrevero do dia que passa. Eu bem sei que qualquer guasca, bem pilchado, de faca, rebenque e esporas, não se afirma nos arreios da vida, se não se estriba na proteção do Céu. Ouve, Patrão Celeste, a oração que te faço ao romper da madrugada e ao descambar do Sol: tomara que todo o mundo seja como irmão! Ajuda-me a perdoar as afrontas e não fazer aos outros o que não quero para mim. Perdoa-me, Senhor, porque rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase sem querer, eu me solto porteira a fora... Êta potrilho chucro, renegado e caborteiro... Mas eu te garanto, meu Senhor, quero ser bom e direito! Ajuda-me, Virgem Maria, primeira prenda do Céu. Socorre-me, São Pedro, Capataz da Estância Gaúcha. Pra fim de conversa, vou te dizer meu Deus, mas somente para ti, que tua vontade leva a minha de cabresto pra todo o sempre e até a querência do Céu. Amém.”

Para Antonio Belém, a tal oração fazia parte das extravagâncias do novo morador da cidade, ao lado das bombachas, do laço de maragato no pescoço e da cuia de chimarrão fumegante sempre presente na mão direita do sujeito. Ele não morria de amores pelo gaudério, mas o tratava com uma cordialidade civilizada.

Um dia, durante um churrasco que oferecia para seu cunhado, Belém atravessou a rua que o separava da mercearia, em busca de meia dúzia de cervejas geladas, e, ao cruzar com o gaudério, dentro da bodega, tentou ser gentil:

– E aí, parente? Degustando o seu chazinho?...

Enquanto colocava as seis garrafas vazias sobre o balcão, Belém foi surpreendido pelo vozeirão agressivo do gaúcho:

– Escuta aqui, tchê! Eu nunca falei mal dessa merda dos bois bumbás de vocês! Nunca me meti nessa cultura de guampas de vocês! Sempre achei esse atoleiro de bumbás o mesmo que um sapo morto estirado nos arreios, mas nunca falei nada! Então, tchê, me respeite! Respeite a minha cultura! Isso aqui não é chazinho não! Isso aqui é chimarrão, animal! Isso aqui é chimarrão!!! Respeite a minha cultura como até hoje eu tenho respeitado essa cultura de merda de vocês!

Sem esconder o constrangimento, Antonio Belém não disse nada. Ele pegou as seis cervejas, pagou, recebeu o troco, atravessou a rua e, na hora em que ia entrar em casa, a ficha caiu.

“Como é que um filho da mãe daquele tinha vindo do cu do Rio Grande ganhar dinheiro às custas dos parintinenses e ainda se metia a cagar regras na Ilha Encantada?”, matutou.

Foi conta de multiplicar. Ele encostou as seis cervejas no muro da casa e voltou pra falar com o gaudério, cuspindo fogo. Quando entrou na mercearia, deu uma palmada no balcão, que quase desmonta a bodega:

– Escuta aqui, porra! Isso aí que tu tá bebendo é chá! É chá, é chá, é chá, e se você disser que não é chá, eu vou quebrar essa merda toda! (Belém dizia isso dando palmadas violentíssimas em cima do balcão).

A mulher do gaudério entrou em pânico. O sujeito ficou mais amarelo do que gema de ovo caipira. Belém, agora possuído por Xangô, o orixá das Tempestades, foi direto na jugular. Mirando o gaudério nos olhos, enquanto derrubava no chão uma das gôndolas da bodega, perguntou:

– O que é que tem aí nessa cuia de tacacá? Responde logo, porra, antes que eu comece a acabar com essa espelunca... É ou não é chá?...

– É, chá, gente boa, é chá!... É chá, isso aqui é chá!... Como você falou antes, isso aqui é chá!... – respondia o gaudério, se tremendo nas bases.

– Diz de novo, porra: o que é que tem aí nessa cuia de tacacá?... – insistia Antonio Belém, derrubando no chão uma nova gôndola.

– É, chá, gente boa, é chá!... É chá, isso aqui é chá!... Como você falou antes, isso aqui é chá!... – devolvia o gaudério, quase se ajoelhando aos pés de Xangô.

Depois de aterrorizá-lo por dez minutos (e colocar no chão umas 12 gôndolas), Antonio Belém, com a certeza do dever cumprido (onde já se viu sacanear com os bumbás de Parintins dentro da cidade?), atravessou a rua para continuar a celebração do churrasco na companhia do cunhado.

O comerciante ficou tão assustado que não teve coragem de dar queixa na polícia. Alguns meses depois, o gaudério escafedeu-se da cidade. Com chá, aliás, chimarrão e tudo.

2

Com ar de quem não quer conversa com ninguém, Antonio Belém está no bar da Confraria do Vivaldo tomando uma cachacinha no balcão, em pé, de costas para a rua, matutando em silêncio. O resto da curriola está ocupando as poucas mesas do mocó e conversando animadamente.

De repente, um casal de missionários adentra o recinto.

– Bom dia! Nós estamos anunciando a boa nova de que Jesus está voltando porque a Terra clama por Jesus e nós queremos que todos sejam salvos! – diz o pastor, enquanto distribui exemplares da revista “A Sentinela”, das Testemunhas de Jeová, para as pessoas presentes.

– A ordem do Senhor é ir por todo o mundo e pregar o Evangelho a toda criatura, como está escrito em Marcos 16, versículo 15! – diz a acompanhante do pastor, enquanto distribui exemplares da revista “Despertai!”.

Antonio Belém recusa polidamente a revista entregue pela missionária:

– Dona Menina, pelamor de Deus não me venha com esse papo... Eu hoje amanheci de cabeça quente e vim aqui pra esfriar a cabeça...

A missionária não se dá por vencida:

– Escute, meu senhor, esse sofrimento seu não existe... Isso tudo que o senhor está sentindo é obra do demônio... Se entendermos que Cristo nos amou e morreu por nós quando ainda éramos pecadores, como está escrito em Romanos 5, versículo 8, e tudo isso porque ainda estávamos vivendo como filhos da ira, como diz em Éfeso 2, versículo 3, não vamos ter dificuldades de amarmos os discípulos como eles são. Devemos recebê-los como Cristo nos recebeu, para glória de Deus, conforme está dito em Romanos 15, versículo 7. Não esqueça, meu senhor, que Jesus vai voltar!

Belém começou a ficar impaciente:

– Dona Menina, a senhora me desculpe, mas ele não volta! Ele não volta!

A missionária, nem aí:

– Ele vai voltar, claro que ele vai voltar, meu senhor. Diz a Bíblia, em Mateus 25, versículos 31 e 34: Quando vier o Filho do Homem na Sua majestade e todos os anjos com Ele, então dirá: Vinde benditos de meu Pai! Entrai na posse do Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque quando Jesus vier pela segunda vez, Ele vai ressuscitar os mortos de todos os tempos, que tiveram uma convivência de amor com Ele, para estarem eternamente juntos.

Belém tomou uma nova dose de cachaça e contestou:

– Ele pode ir pra Marte, pra Júpiter, até pro Sol, mas aqui pra Terra ele não volta mais não, Dona Menina, porque aqui só tem filho da puta!

A missionária tomou um susto.

– Ele vai voltar, meu senhor, ele vai voltar! – insistiu ela, sem esconder o constrangimento.

– Como vai voltar? Colocaram nas costas dele uma cruz de massaranduba de três metros e meio... Eu tiro madeira e sei como aquilo é pesado, não tem cristão que agüente carregar uma tora daquelas por mais de meia hora... Ele carregou por quase duas horas... Antes disso, apanhou que nem boi ladrão... Levou até chute nos ovos... Colocaram nele uma coroa de espinhos... Em vez de lhe darem conforto, lhe deram lambadas nas costas... Depois, pregaram ele na cruz com pregos Galiota de cinco polegadas... Quando ele estava quase morrendo, pediu um pouco d’água e lhe deram vinagre... Se não bastasse isso, dois soldados arpoaram o peito dele... Dona Menina, se isso fosse com a senhora, a senhora voltava?...

A missionária, aparentando nervosismo:

– Eu, não! Mas ele vai voltar, meu senhor, ele vai voltar!

Belém tomou uma nova dose de cachaça e resolveu encerrar o assunto:

– Dona Menina, ele não volta! Se ele quiser voltar é porque é um bom filho da puta, mas o Pai dele não deixa! O Pai dele não deixa! Ele não volta nem pelo caralho!

Dito isso, Belém entornou mais uma dose de cachaça.

A missionária saiu quase correndo de dentro do bar, como se tivesse visto o demo em pessoa.

Um comentário:

Rodrigo disse...

Este casal lhe autorizou a colocar essa foto?