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segunda-feira, novembro 09, 2009

Ensaio sobre a leseira


Um exemplar de galo combatente do tipo shamo

Novembro de 1961. Pai do meu primo Giovanni “Gigio” Bandeira, o taxista Nicolino Paladino, um carcamano de pavio curto e mal humorado toda vida, acordava religiosamente por volta das 5h da manhã para cuidar dos trinta galos que criava em sua casa, na rua Urucará, próximo da rua Codajás, na Cachoeirinha.

Mas não se tratava de uma criação de galos comuns. Eram aves selecionadas das raças shamo, aseel, bankiva e satsuma, verdadeiros guerreiros das rinhas, que recebiam tratamento especial: banhos de banha de porco com cachaça, exercícios diários e mutilações que os tornavam mais resistentes.

Eram galos de briga treinados à exaustão para atuar nas rinhas da cidade, quase sempre equipados com esporas de aço, em embates sangrentos de 60 minutos, que ainda geram muita polêmica entre os protetores de animais e os apaixonados pelas lutas.

No plantel de “seo” Nicolino se destacava o grande campeão amazonense Caninana, que recebera esse nome por ser tão ágil, rápido e agressivo como a serpente de mesmo nome – também conhecida como cobra-tigre.

O campeão Caninana era um combatente shamo preto de peito avermelhado e escuro e estava invicto há quinze lutas. Não havia dinheiro no mundo que comprasse o “Rickson Gracie das rinhas manauaras” – Nicolino, inclusive, já havia rejeitado uma troca do invencível galo de briga por um táxi zero quilômetro.

Entre outras façanhas, Caninana era o único campeão de rinha que disputava o cinturão dos pesos pesados uma vez por mês, já que nunca havia recebido um único golpe fulminante dos adversários (em média, para curar os ferimentos, os grandes campeões brigavam a cada três meses).

Pelo que me contam, os galistas da cidade inteira deixavam seus afazeres para assistir às performances demolidoras daquele combatente shamo, lotando completamente as dependências da famosa rinha do "Buraco do Pinto", localizada na av. Ramos Ferreira, entre as ruas Major Gabriel e Joaquim Nabuco.

Suas apostas pagavam, no máximo, um por dois, já que achavam que o shamo tinha parte com o diabo. Os galos adversários pagavam um por vinte, um por trinta, um por cinqüenta, um por cem.

Mas o sonho de alguém ficar milionário da noite pro dia às suas custas nunca fez parte das preocupações cotidianas do galo Caninana. Ele havia nascido para ser um matador e cumpria sua tarefa com disposição e arte.

Provavelmente versado nas artes da capoeira, o Caninana enfrentava seus adversários como um escravo banto fugindo de seus preadores até ser encurralado em um beco sem saída.

De repente, ele encarava o oponente naquela disputa de vida ou morte, dava uns dois passos para trás, e aí se atirava com disposição sobre a cabeça do galo adversário e executava um martelo perfeito.

Desabavam os dois na rinha. O galo Caninana querendo se livrar da espora atravessada na cabeça do oponente e este se debatendo nos estertores finais da morte. Nenhuma briga dele durava mais de 45 segundos.

Aos oito anos, Giovanni deixou a casa da tia Dica, irmã mais velha de minha mãe, e foi morar com a família do italiano, no começo daquele ano.

Por uma especial deferência (talvez pelo fato de ser seu primeiro filho fora do casamento que fora aceito pela esposa), Nicolino permitiu ao Gigio se transformar em auxiliar do tratador oficial do campeão Caninana, seu irmão mais velho (por parte de pai) chamado Felipe.

Enquanto Felipe, de nove anos, cuidava dos exercícios físicos (fazer o galo bater asas, correr, pular e aprender novos golpes), Giovanni se esmerava na fabricação da dieta balanceada: milho quebrado no pilão até virar poeira, que depois era misturado com aveia, verduras, legumes, pimenta malagueta picada, sementes de girassol, vitaminas e sais minerais.

Os dois moleques eram acordados às 5h da manhã para acompanhar o pai no treinamento dos galos. Por volta das 6h30, tomavam banho e iam pra escola, enquanto o velho Nicolino pegava o táxi pra ganhar a vida.

Felipe e Giovanni retornavam pra casa às 11h, almoçavam por volta do meio-dia e, a partir daí, passavam o resto da tarde cuidando dos galos até a chegada de seu Nicolino, por volta das 19h. Só então eram liberados para cuidar da própria vida.

O fato de os dois moleques estarem indo de mal a pior nos estudos – já que ficavam tão cansados que não tinham tempo de fazer seus exercícios escolares – não tinha a menor importância para o carcamano. A única coisa que importava era seus galos de briga estarem bem treinados.

Em novembro daquele ano, o Caninana iria enfrentar o campeão paraense Sandokan, do criador Paulo Onofre, com um cartel semelhante ao do amazonense: doze lutas, doze finalizações, todas em menos de três minutos.

Sandokan era um índio gigante metido a esperto. Se o adversário recuava, ele também recuava. Quando os dois partiam para o ataque, ele saltava um pouco antes para enfiar a espora, de cima pra baixo, no pescoço do adversário. Era um golpe indefensável.

Quando soube disso, Nicolino começou a treinar o Caninana para executar a mortal “meia-lua de compasso”, um golpe introduzido nas rinhas amazonenses, nos anos 50, pelo campeoníssimo Mestiço, do criador Zé Eliseu.

Quem já brincou capoeira, sabe do que se trata: um movimento de capoeira no qual é usado o calcanhar para se acertar o adversário, girando-se com uma das mãos no chão.

Ensinar o galo a fingir que ia correr e, ainda de costas, dar uma violenta esporada no adversário na altura do coração virou uma tarefa diária dos dois tratadores.

Com as apostas pagando um por 100 no galo amazonense contra um por 50, no famoso galo paraense, era a hora de “seo” Nicolino tirar o pé da lama. Ele planejou vender a casa e apostar tudo no taco de seu Caninana velho de guerra.

Mas havia um porém. O enorme quintal da casa de "seo" Nicolino era cercado de taboas corridas e no quintal vizinho havia um galo garnizé, que como todo galo baixinho era meio abusado.

Sempre que o Caninana estava se exercitando, o garnizé se aproximava da cerca, mirava o desafeto pelo pequeno vão entre as taboas corridas e se punha a cantar.

O “Rickson Gracie das rinhas” ficava louco. Dava uma trabalheira da moléstia para os dois moleques segurarem a fera, que queria a todo custo destroçar o baixinho marrento, que ficava cantando ali ao lado numa visível provocação.

Um início de tarde qualquer, no começo de novembro (a luta seria no dia 25, um sábado), os dois moleques estavam ali entretidos em ensinar o campeão dos campeões a executar a “meia-lua de compasso” quando divisaram no céu um magnífico papagaio “banda de asa” que estava “quedando” e provavelmente iria cair na mata atrás do sanatório Adriano Jorge, ali perto da casa deles.

Os dois largaram o Caninana no terreiro e saíram correndo para tentar pegar o estupendo papagaio de “famão”, cuja linha estava praticamente se arrastando pelo chão (o dono do papagaio devia ter sido cortado na mão...). Com um pouco de sorte, teriam um papagaio e linha suficiente para brincar pelo resto da tarde.

Nesse mesmo instante, o abusado garnizé do vizinho começou a cocoricar. Foi quando o “Rickson Gracie das rinhas” teve os seus dois minutos de leseira. Livre, leve e solto no terreiro, o Caninana aproveitou a oportunidade para dar uma lição no marrento baixinho.

Ele se aproximou da cerca e, com sua força descomunal no pescoço, fuçou daqui, fuçou dali, até que conseguiu enfiar a cabeça entre duas taboas para tentar divisar a posição do inimigo. Suas penas do pescoço se eriçaram automaticamente.

Quando tentou retirar a cabeça, as penas eriçadas de seu enorme pescoço funcionaram como as farpas abertas de um anzol e ele ficou preso na armadilha. Pro garnizé marrento foi uma farra do boi.

Enquanto Felipe e Giovanni se embrenhavam no meio da mata para resgatar o papagaio de “famão”, a cabeça do Caninana – que ficara presa a menos de 15 centímetros do chão – servia de saco de pancadas para o impetuoso garnizé. E quem já criou garnizé sabe o quanto eles são abusados.

Quando os dois moleques retornaram pra casa, umas três horas depois, o “Rickson Gracie das rinhas” já estava morto. Foi uma morte anunciada. Mesmo um anão socando a cabeça do Mike Tyson durante três horas seguidas faria um trabalho semelhante.

Por volta das oito horas da noite, Nicolino Paladino chegou em casa para jantar, e, como fazia habitualmente, passou primeiro no galinheiro do quintal ainda escuro para fazer um dengo no seu xodó. Foi quando soube da novidade por meio da esposa.


Um exemplar de galo garnizé, conhecido na Cachoeirinha como "matador de caninana"

O Giovanni levou uma surra de galho de cuieira de criar bicho. Fugiu de casa na mesma noite, foi resgatado em um beco escuro, no bairro de São Francisco, pelo saudoso tio Zé Bandeira, alguns dias depois, e só voltou a ver seu pai de novo depois de completar dezoito anos.

O Felipe teve as mãos queimadas por ácido muriático e foi internado no Instituto Melo Mattos (um internato para moleques infratores) na mesma noite. Fugiu seis semanas depois. Conheci o sacana uns cinco anos mais tarde, ele estudando no Colégio Batista Ida Nelson, na mesma classe da minha irmã mais velha, Simone.

O garnizé assassino também não teve melhor sorte. Diz a lenda que o velho Nicolino, na calada daquela mesma noite, pulou para o quintal do vizinho, apanhou o garnizé e o comeu vivo, com penas e tudo. Continuo achando que se trata de um exagero. Mas o fato é que o matador do campeão Caninana nunca mais foi visto na cidade. Acontece.

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