domingo, abril 10, 2016

A poesia erótica e satírica de Bernardo Guimarães


Duda Machado

Uma dupla condenação vem mantendo a poesia erótica e satírica e os poemas humorísticos de Bernardo Guimarães (1825-1884) longe dos leitores e do lugar de destaque que merecem.

De um lado, um juízo crítico equivocado subestima a parte mais viva de sua obra poética em nome de critérios que privilegiam a eloquência sentimental e a dicção indianista do romantismo brasileiro.

De outro lado, uma inexplicável e espantosa atitude de consentimento à censura vem confinando – há mais de 140 anos – a publicação de poemas como “Elixir do Pajé” e “A Origem do Mênstruo” a edições clandestinas cada vez mais raras.

Nas últimas décadas, a criativa linguagem de humor e sátira de Bernardo Guimarães vem sendo devidamente reavaliada por poetas e críticos como Haroldo de Campos, Luiz Costa Lima e Flora Sussekind.

No entanto, o sabor desta poesia continua ignorado pelos leitores. Divulga-lo é parte imprescindível de sua reavaliação.

A qualidade de poemas como os dois citados anteriormente e mais “A Orgia dos Duendes” supera amplamente a maior parte da produção do romantismo brasileiro, tão débil e tão divulgado.
Mais ainda: estes poemas – ao lado de muitas outras peças de humor e bestialógico – constituem a mais divertida e consistente crítica às debilidades e convenções deste romantismo.

A linguagem destes poemas – marcada pelo humor, pela paródia e pela sátira – é uma inventiva demolição de temas, clichês e convenções poéticas. E, deste ângulo, dialoga à sua maneira com parte essencial do modernismo brasileiro.

Publicado no dia 7 de maio de 1875, numa impressão clandestina feita em Ouro Preto (MG), “Elixir do Pajé” tem como alvo o ritmo e a retórica de Gonçalves Dias em poemas como “I-Juca Pirama” e “Os Timbiras”, expressões máximas da imagem sublime do índio.

Só em Oswald de Andrade (“O Santeiro do Mangue”) e Gregório de Matos encontra-se algo próximo a esta grossa prosa de palavrões, erotismo satírico e escatológico, tramada em tão inventiva poesia antipoética.

Por fim, um lembrete: Bernardo Guimarães, o autor desta “Trilogia Sacana”, é em tudo avesso ao romancista que ganhou fama com o clássico “A Escrava Isaura”.

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