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sexta-feira, abril 17, 2009

Criadores do Pirate Bay condenados a um ano de prisão


Fundadores do Pirate Bay à saída de um tribunal de Estocolmo, no último dia do julgamento

Um tribunal de Estocolmo, na Suécia, condenou hoje a um ano de prisão os quatro homens responsáveis pelo Pirate Bay, o maior site de torrents do Mundo. O site foi acusado por várias companhias da indústria discográfica e do cinema de facilitar a partilha ilegal de arquivos.

Os fundadores da página, Frederik Neij, Gottfrid Svartholm Warg e Peter Sunde foram condenados juntamente com Carl Lundstrom, o fornecedor do serviço de acesso à Internet (ou ISP) onde o site estava hospedado. Além da pena de prisão, os condenados terão de pagar 30 milhões de coroas suecas (2,7 milhões de euros) em indenizações. A acusação tinha exigido compensações no valor de 117 milhões de coroas (11 milhões de euros). O julgamento ocorreu entre dia 15 de fevereiro e 3 de março, mas só hoje foi conhecida a sentença.

Fundado em 2003, o Pirate Bay não aloja nenhum conteúdo protegido por direitos de autor, mas funciona como motor de busca para torrents, pequenos arquivos que permitem o compartilhamento de conteúdos entre computadores, mesmo que esse compartilhamento não seja autorizado.

A equipe de acusação era constituída por 17 empresas de multimídia, incluindo a produtora cinematográfica 20th Century Fox, a editora discográfica EMI e a empresa de jogos de vídeo Blizzard Entertainment. Ao todo, a acusação identificou 21 músicas, cinco filmes e três jogos de vídeo que teriam sido compartilhados ilegalmente através de torrents encontradas no Pirate Bay.

De acordo com a AFP, a International Federation of Phonographic Industries (IFPI), associação que representa grandes empresas da indústria discográfica como a Sony BMG e a Universal, afirmou num comunicado que esta sentença era uma “boa notícia” para a comunidade artística. “O tribunal atribuiu uma sentença bastante dissuasiva, que reflete a gravidade dos crimes cometidos”, escreveu John Kennedy, presidente da IFPI, no comunicado. A IFPI foi uma das associações a processar o Pirate Bay.

Ao meio-dia (13h00 na Suécia), Peter Sunde deu uma conferência de imprensa online, através do site sueco www.bambuser.com. Os espectadores puderam enviar perguntas a Peter, mas a ligação caiu várias vezes, devido à enorme quantidade de visitas ao site.

O porta-voz do Pirate Bay mostrou-se descontraído com a sentença. “Todos nós rimos do resultado. Uma pena de prisão é de fato um assunto sério, mas tão bizarro que só conseguimos achar graça”, afirmou Sunde. Quanto à indenização, Peter disse que nenhum dos quatro condenados poderia pagar aquela soma, nem pagaria mesmo que pudesse.

O porta-voz do grupo de piratas mostrou-se confiante de que iria ganhar o apelo da sentença. Esse processo pode, no entanto, “demorar de cinco a seis anos”, explicou Sunde.

Questionado sobre qual o efeito que este caso teria na prática de file-sharing ilegal, Sunde afirmou que nada iria mudar. “Na Suécia, os menores de 15 anos não podem beber álcool nem ter relações sexuais, mas isso nunca os impediu de o fazerem. Com o file-sharing vai acontecer a mesma coisa.”

Em maio de 2006, a polícia sueca tinha apreendido suficientes servidores do Pirate Bay para encher três caminhões. Apesar de devastadora, esta ação policial não conseguiu pôr fim ao site. Com a ajuda de voluntários espalhados por todo o planeta, a página foi restabelecida em apenas três dias, a partir de servidores holandeses. “Não houve qualquer base legal para esta ação intimidatória”, disse Peter Sunde, em 2007. De acordo com o pirata, a ação das autoridades deveu-se à “pressão do Governo dos EUA junto do Governo sueco”. Um dos servidores apreendidos durante a confusão está desde ontem exposto no Museu Técnico de Estocolmo.

Já no mês passado, enquanto esperavam pela sentença, Peter Sunde e companhia criaram o IPredator, um serviço anônimo de compartilhamento de arquivos, que cobra cinco euros mensais pelo acesso. O site protegerá a identidade dos utilizadores, dificultando assim ações legais por parte dos detentores de direitos autorais.

Em poucos dias, o serviço conseguiu 100 mil pré-subscrições, atrasando o seu lançamento oficial, previsto para dia 1º de abril (“dia da mentira”). O nome IPredator é um trocadilho com IPRED (Intellectual Property Rights Enforcement Directive), uma diretiva européia que obriga os ISP a denunciar os suspeitos de pirataria. A medida foi adotada na Suécia no início deste mês, e logo nos primeiros dias se verificou uma queda de 40% no tráfego de Internet nesse País.

Piratas Políticos

Em 2006, o engenheiro informático Rickard Falkvinge fundou o Partido Pirata sueco, um movimento político sem nenhuma ligação oficial ao Pirate Bay, que pretende reformular as leis que regem os direitos de propriedade intelectual. Pouco depois do ataque ao site, o número de militantes aumentou consideravelmente, ultrapassando os do Partido Verde sueco. A sua juventude partidária, os “Jovens Piratas”, é a segunda maior do país.

O partido concorreu nas eleições parlamentares nesse ano, onde conseguiu 33 mil votos nas eleições, o equivalente a 0,6 por cento dos votantes. O resultado não deu direito a assento parlamentar, mas o transformou no 10º maior dos 40 partidos suecos. O Partido anunciou recentemente que irá participar nas eleições européias, em junho deste ano, com o candidato Christian Engström.

Por enquanto, o site Pirate Bay continua no ar. Aproveitem para ir às compras...

quinta-feira, abril 16, 2009

Homem que é homem (mais um texto da série "Vale a pena ler de novo")


Joaquim Ferreira dos Santos

Homem que é homem domingo à noite liga a televisão para ver todas as mesas-redondas que estão passando, mas no último fim de semana eu confesso que vi mesmo foi o Fantástico. Tinha um quadro com esse mote. Homem que é homem não come suflê, não faz alongamento, não fala "enquanto gente", não usa batom para evitar o ressecamento dos lábios. Também não fica elogiando o brucutu ao lado assim sem mais nem menos. Mas, se ninguém sabe mais muito bem o que é esse homem de verdade, eu me aproveito da confusão reinante para dizer que o quadro é das melhores coisas da televisão. Mandaram bem, meninos, meu eu interior vibrou a nível de holístico.

Homem não dá ibope na televisão e o quadro já sai do ar este domingo. Agora até as mesas-redondas de futebol, como as da MTV e da SportTV, lançam um olho de sedução para a audiência feminina. E tome Sex and the city, Superbonita e dezenas de atrações discutindo o que passa por debaixo da balaiage delas. "Homem consome menos" - descobriram os sabichões. "Fale com ela" - descobriu Almodovar, e o cara da grade televisiva acreditou. A atração do Fantástico era um cavanhaque, uma costeleta de exceção, bem-humorada, no debate sobre o que vai por baixo dos suspensórios deles. Se eu entendi alguma coisa, havia sotaques viris em nordestês e outros doces em neymatogrossês, homem que é homem hoje não tem a mínima noção do que seja isso.

Eu tenho conhecimento, uma colega aqui do B me contou que já há homens telefonando no dia seguinte, uma eterna reclamação delas. Da mesma maneira que outros continuam nem aí, neanderthal total, desinteressados em pegar com elas qualquer informação de como se chega, qual atalho pegar, na tal rodoviária Ponto G. O território masculino tem mais facções que xiitas e curdos em Bagdá. Além de não discutir a relação, não comer canapé nem salsinha, o homem que é homem do Fantástico não joga futebol no meio de campo - é cabeça de área. Ou beque. Eu daria uma terceira opção: ou fica de um lado para o outro, rebolando como o Robinho, o homem que é o futuro do futebol brasileiro.

Há muitas possibilidades de ser másculo hoje em dia e a melhor de todas talvez seja a de não precisar posar mais de homem, nem mesmo se for com um terninho lindo, preto com falsas listas de giz, que saiu na coleção de inverno do Alexandre Hercovitch. Foi uma revolução - um texto testosterona não devia incluir essas palavras, mas lá vai - passiva. As mulheres a fizeram e só nos cabe agradecer. Foram à luta, de início para conseguir direito ao voto, e hoje conseguem ser respeitadas até pelo direito de beliscar o bumbum do Gianecchini se cruzarem com ele na rave. O homem, acuado, aceitou ficar menos. Umas pitadas do perdedor Hommer Simpson. Uma nonchalance diversionista, tipo assim, Boy George. O resultado, pasmem!, é bom.

Eu tenho um amigo gaúcho, jornalista, que fala muito grosso, e ele me disse dia desses, epidermicamente sensibilizado, que está adorando fazer pilates. Não disse "a-do-ran-do", o que tornaria tudo diferente. Ele está adorando o pilates porque se sente mais solto, ou mais disposto, não me lembro bem. Sugeriu até que eu parasse com a musculação. "Embrutece a articulação, tchê", desdenhou.

Esse novo "homem que é homem" pode até saber a diferença entre celulite e estria, mas, diante da choradeira delas por causa do infortúnio estético, perguntam incrédulos, como cego aos apalpos: "onde? onde?". Desconhecem-lhes as imperfeições, ajoelham-se às súplicas por mais preliminares. O homem-pilates não quer mais saber do bafo no cangote do machismo - e se ainda se faz necessário novo exemplo aqui está o ensaio do fotógrafo Jorge Bispo. Ele propôs a um grupo de atores, homens acima de qualquer suspeita, como Fábio Assunção, que se vestissem de... noiva. Todos aceitaram. De graça. Pelo simples prazer de experimentarem o frissom por baixo dos panos ou qualquer outra viagem mais particular a que quisessem submeter suas enzimas.

No quadro do Fantástico, os homens deixam Mariana Ximenes esperando na porta do vestiário e partem para a briga. Não disputam a loura. Instigados a pensar no nome que usariam se virassem travesti - se precisassem por uma necessidade cármica deixar vazar, Lapa afora, a última flor do macho carioca - eles saem no pau porque todos quereriam usar como travecas o mesmo nome de Záfine. Sem dúvida, e o jogador Edilson que voltou ao Flamengo com a sobrancelha depilada concordaria comigo - taí, um lindo nome.

segunda-feira, abril 13, 2009

Sangue novo no pedaço


Oi Simão, tudo bem?
Gostei muito do seu blog e preciso me apresentar a você!
Sou o guitarrista de uma banda chamada Instiga e gostaria muito que escutasse nosso trabalho.
Lançamos há pouco tempo um disco chamado "Tenho uma banda", nosso terceiro.
Dá para baixar no nosso site oficial - www.instiga.com

Ah, se quiser ver um clipe do Instiga, aqui vai o link

http://www.youtube.com/v/9Fq7bEemJDo

abração

Chris

--
Christian Camilo
www.instiga.com
www.twitter.com/instiga
celular - (19) 81670450
skype - titaocamilo
msn - titao80
www.instiga.com/tenhoumabanda
www.myspace.com/instiga

Pois é, moçada do Instiga, já baixei o disco e vou escutar com calma. Depois resenho o que achei. Abracadabraços e votos de sucesso nas sendas do rock tupiniquim (SP)

O Cioran da era cibernética


Eu estava chafurdando na Web em busca do texto “A sedução dos zumbis cibernéticos”, do Hakim Bey (“Senhor Juiz”, em turco), quando esbarrei nesse texto do Ricardo Rosas sobre o grande guru pós-Aleister Crowley. Como sei que muita gente ainda não ligou o nome à criatura, transcrevo o texto na íntegra, na esperança de atrair novos guerrilheiros para a nossa jihad cibernética.

1ª cena: Imagine um místico enlouquecido gritando numa montanha. Suas palavras são um misto de poesia e aviso, como as iluminações desses bárbaros visionários, Blake ou Nerval, como os antigos druidas, xamãs e profetas a vaticinar o futuro da tribo.

2ª cena: Imagine agora um pirata. Pense nas comunas de piratas livres dos mares perdidos, pense nos bucaneiros, nessas congregações, misto de utopia e anarquia, pense até mesmo nos hackers modernos, esses nômades piratas de dados a surfar na net, oceano de nossa época, onde a noção de propriedade, principalmente intelectual, é cada vez mais próxima de uma miragem fadada ao desaparecimento.

3ª cena: Visualize um poeta, burilador de palavras a jorrar significados e imagens vertiginosas num turbilhão borbulhante, caótico, recheado de mensagens, mas igualmente lírico, num ritmo fluido que lembre o desregramento dos sentidos de Rimbaud ou o caleidoscópio de imagens de Allen Ginsberg.

4ª cena: Na Biblioteca de Babel, move-se um erudito. Imagine esse sábio que já percorreu os livros místicos do hinduísmo e do sufismo, que conhece os segredos dos neo-platônicos e dos alquimistas, os livros de emblemas da época barroca, infinitudes de poesia, que já leu utopistas e enciclopedistas, e todo um “contracânone” ou tradição de inconformistas que vai de Sade, passando por Fourier, Nietzsche, Baudelaire, Bakunin, até chegar aos luminares da ainda fértil contracultura americana, sejam eles Timothy Leary ou Robert Anton Wilson, ou ainda os subversivos teóricos do situacionismo, como Guy Debord e Raoul Vaneigem. Para articular tanta informação, esse erudito move-se por seus dados não de uma forma racional, mas como Salvador Dali teria formulado de maneira precisa: por um método crítico-paranóico, juntando dados aparentemente isolados, impensados, numa livre associação que ele chamará de palimpsesto, junção de camadas interrelacionadas.

Todas as cenas agora juntas. O homem é um só. Seu nome: Hakim Bey.

O nome é antes uma persona de Peter Lamborn Wilson, um estudioso americano dos sufis, que chegou viver alguns anos no Irã e conviveu com comunidades de devirxes, estudando rituais secretos dos sufis.

Tradutor de poesia sufi e teórico rebelde, Wilson publicou, entre outros, uma coleção de estudos sobre os anarquistas do século dezenove, em Escape the nineteenth century, e um livro polêmico sobre costumes secretos da tradição sufi com o título nada inocente de Scandal: Essays in Islamic Heresy, onde aborda desde a seita dos Assassinos de Hassan Ibn Sabah (um dos temas prediletos de William Burroughs), o consumo de haxixe e outros estupefacientes entre os sufis, e o hábito de contemplação pedofílica entre poetas no Islã.

Não se assuste: ousadia e surpresa são uma permanente nesse pensador do impensável. Não bastasse ir bem além das fronteiras que Salman Rudshie sequer atravessou, Lamborn Wilson avançou mais ainda teorizando sobre nossa época, a crescente virtualização do pensamento e das transações econômicas, juntou a isso seu conhecimento cabal do ideário anarquista e dos movimentos subversivos que o precederam, e assim surgiu Hakim Bey.

Esqueça agora a pós-modernidade, esqueça a Nova Era, esqueça o fim da história. Hakim Bey já esteve lá, e, quem sabe, poderá lhe contar como serão os tempos vindouros. A contemplação do sublime tecnológico e a frivolidade paródica da pós-modernidade são absolutamente alheios a este ativista tecno-pagão e iconoclasta.

Os anjinhos sorridentes do supermercado new age são quebrados a martelo pelo dionisismo nietszcheano brotando nas raves e por magos seguidores de Aleister Crowley. O conformismo dos pregadores do fim da história e da globalização é desafiado pelas hordas de anarquistas nômades que falam outra linguagem que não a do mercado das grandes corporações.

É da pena de Hakim Bey que surgiu o já clássico TAZ (Temporary Autonomous Zone) ou Zona Autônoma Temporária. A TAZ ou ZAT, em português, é livro de cabeceira (ou de tela, se preferir) de nove entre dez ativistas eletrônicos, e, pode ter certeza, eles não são poucos.

Liberado de direitos autorais, como de resto toda a obra de Hakim Bey, a ZAT é como diz o próprio nome, uma zona de liberdade temporal, onde a livre expressão, o livre pensamento, a imaginação, crença e prática são exercidos sem a repressão e o controle da autoridade, i.e. o Estado e a Mídia. Dado seu caráter temporário, volátil e passageiro, a ZAT tem a pretensão da realização utópica no aqui e no agora.

Sua grande inspiração são as utopias piratas dos séculos dezessete e dezoito e sua materialização mais fremente são as festas, celebrações coletivas, as raves, o carnaval, os sites de troca de livre informação, todo e qualquer lugar onde se possa exercer a plena liberdade mesmo que por uma curta duração de tempo.

Lugar ideal de autonomia temporária, a Internet, por seu caráter invisível, permite, pelo menos por enquanto, essa troca nômade de experiências, esse intercâmbio de desejos livres. Lugar de desaparecimento, onde a presença é nada mais que um dado, a Internet proporcionaria o ponto de fuga necessário para as estratégias de ataque à ordem global ora vigente.

Para isso, Bey falará de uma contranet, uma rede de informações ligada aos membros do mundo oculto do underground e da contracultura, anarquistas, comunistas, hackers, cyberhippies, ecoguerrilheiros, e assim por diante.

A ZAT seria o grande ponto de encontro, confluência de todas as tribos de discordantes, de xamãs, de tecno-rebeldes. Como tal, como vislumbre de uma utopia, a ZAT seria apenas o primeiro passo para a Zona Autônoma Permanente, aí sim, realização perene do desejo utópico.

Mas antes ele citará os piratas bucaneiros, que formaram uma república independente, estudará a utopia de Charles Fourier, com sua junção de arte e sexo na criação de um estado amoroso e chegará até mesmo à estranha república de Fiume, fundada pelo escritor italiano Gabrielle D´Annunzio, formada majoritariamente de anarquistas, segregados e párias sociais, putas, artistas e loucos em geral, uma piração do meio do século vinte, praticamente desconhecida em nossos manuais de história. Aí também poderão ser adicionadas as comunidades livres dos anos sessenta e setenta.

Pode parecer que não, mas a Zona Autônoma Temporária tem dado muito o que falar na internet. São numerosíssimos os sites em lingua inglesa com TAZ livre para download e eles vão de sites de estudos de tecnologia e sociedade, sites artísticos, de ativismo, de anarquistas, de contracultura e anos sessenta, de anti-copyright, neo-situacionistas ou de culture jammers.

A influência de Hakim Bey é visível em toda uma nova geração de artistas e poetas, que já sentiam falta de alguém que levantasse a poeira como fizeram os beatniks nos anos cinqüenta e sessenta. A ZAT reatualiza toda uma tradição de contestação nos Estados Unidos, que vem desde Henry D. Thoreau e sua Desobediência Civil, assim como do libertarianismo de Whitman.

A nova geração de artistas, músicos e cineastas na linha anticopyright assim como os “congestionadores de mídia”, os provocativos culture jammers, com suas estratégias de guerrilha sabotando propagandas, interferindo em slogans e produtos massificados, alterando discursos dos meios de comunicação seguem nada menos que esse anseio utópico anti-capitalista.

Além disso, a crescente popularidade das raves, o aspecto tecno-xamãnico dos DJs nessas reuniões gigantescas de uma coletividade que transcende barreiras com a dança, igualmente revela esse desejo de liberdade e elevação.

Mas há muito mais deste Marco Pólo do mundo underground. Uma infinidade de textos com sua rubrica e indefectível visão crítica estão espalhados pela rede. Alguns se inclinam mais para o ensaio, outros para a poesia. Coisas como CHAOS : the broadsheets of onthological anarchism (CAOS: os panfletos do anarquismo ontológico), pura poesia subversiva e inconformista.

Com idéias perturbadoras, imagens pouco aceitáveis, o libertarianismo de Hakim Bey é um vento fresco numa época de tanto conservadorismo como a nossa. Seu antídoto é poderoso frente ao marasmo pós-moderno e ao controle mental das maiorias silenciosas. Depois dele, muitos já surgiram. Outros surgirão.

Como Grant Morrison, Bey é um desses caras que conseguiu ligar os dados certos, fazendo as conexões mais inesperadas mas nem por isso menos corretas. Sua intuição e capacidade visionária nos põe anos à frente em relação ao que pode acontecer neste planeta. Não só. Sua re-visão do passado igualmente ilumina em relação a coisas às quais ainda não havíamos atentado. Bem vindos ao admirável mundo novo.

PS: No 4shared tem uma porrada de textos do Hakim Bey, em português e inglês, ao alcance de todos. É só baixar e se esbaldar. Experimente.

Uma cilada para Roger Rabbit


A coxona sexy da Lucia Antony, o jeito sexy de ser do Amecy Souza e a barriga sexy do Zé Alfaia. Atrás, só na manha, os Demônios da Tasmânia e a docemente sexy Petronila, durante uma das saídas da BICA, no final dos anos 80

Agosto de 1977. No mês passado, aos 21 anos, eu acabara de me formar em engenharia eletrônica pela Utam (Universidade de Tecnologia do Amazonas, hoje Itam) e estava indo assistir minha primeira aula no curso de Administração (noturno), na FUA (Fundação Universidade do Amazonas, hoje Ufam).

O curso funcionava no antigo ICHL, ali na Rua Major Gabriel canto com a Rua Ramos Ferreira, onde hoje está a Faculdade de Estudos Sociais (FES). Eu havia prestado vestibular em janeiro, me matriculara no curso, pedira aproveitamento de várias disciplinas da Utam e trancara a matrícula, para retomar os estudos no segundo semestre. Fácil assim.

Dos “nove homens de ouro” (a turma que vinha estudando na mesma classe desde o 1º ano de Eletrotécnica, na ETFA, em 1971), apenas eu e Engels Medeiros havíamos optado por fazer o vestibular para Administração. Geraldo Nogueira havia viajado para os EUA para fazer pós-graduação no Massachusetts Institute of Technology, onde seu irmão, Vicente Nogueira, fazia doutoramento. Pauderley Avelino queria fazer um upgrade na Medave (na época uma assistência técnica de produtos eletrônicos, hoje, uma potência chamada Construtora Capital).

O gente fina Reinildo Cunha pensava em se devotar ao espiritismo e à criação de galos de briga. Professor da ETFA, Carlos Almeida estava de olho gordo em uma aluna (sua atual esposa e minha comadre, a engenheira e advogada Ana Maria). Sebastião Peixoto não tinha mais saco para professores imbecis (e ele vinha defendendo com galhardia o posto de melhor aluno da turma desde a ETFA). Funcionário da Gradiente, Aldenir Alencar estava interessado em abrir uma firma de consultoria. Paulo Saraiva se preparava para ser chefe de departamento da Telamazon.

Na verdade, eu ainda não sabia direito o que queria da vida – como não sei até hoje. Além de trabalhar como assessor do Diretor Industrial da Sharp do Brasil, estava sendo treinado pelos executivos da Sharp S.A., de São Paulo, para implantar o Departamento de O&M nas empresas de Manaus (Sharp do Brasil, Sharp Transportes, Sharp Componentes, etc). Calculei que cursando Administração poderia me desincumbir mais fácil da tarefa.

Nessa época, eu devia ser uma verdadeira metamorfose ambulante. Sabe-se lá como, mas eu conseguia me interessar tanto pelas teorias do Peter Drucker quanto pelas teorias do Carlos Castañeda, gostava tanto da filosofia de Taylor e Fayol quanto das teorias de Niezstche e Hegel. Acrescente a isso um verniz de anarquismo tardio via leituras apressadas de Proudhon, Bakunin e Malatesta e uma paixão desmedida por heavy metal, funk, dance music, birita, futebol e mulheres, e a hecatombe estava feita.

Meu ex-parceiro de trabalho no Departamento de Controle de Qualidade da Sharp, Engels agora estava trabalhando no Departamento de Engenharia da Philips. Daí que ele me telefonou explicando que não iria poder assistir à primeira aula na FUA, no primeiro tempo, mas que eu desse um jeito de marcar sua presença. Na seqüência, me passou as coordenadas da sua (dele) classe. Como eu não teria aula no primeiro tempo, resolvi quebrar aquela castanha.

A disciplina era “Introdução à Filosofia”. Já fiquei invocado quando entrei na sala do Engels. Os universitários tinham idade suficiente para serem meus pais. A maioria tinha jeito (roupas, gestos, atitudes) de funcionário público. Levei um susto. Afinal de contas, dos 40 alunos de nossa turma na Utam, apenas seis tinha mais de 25 anos. Nessa turma da FUA, apenas seis tinham menos de 30 anos – incluindo o professor de Filosofia. Não dava pra entender.

A merda é que, antes de ir pra sala de aula, eu havia feito uma “blitzkrieg” no entorno do ICHL para descobrir os botecos onde valia à pena encher a moringa. Dos quatro que visitara, tinha gostado muito do “Boteco do Reitor”, que ficava na Leonardo Malcher canto com a Major Gabriel, defronte onde era a Embratel (hoje edifício Samuel Benchimol, da UEA). Detonei meia dúzia de cervejas Antarctica em 40 minutos. Saí de lá alegre e inteligente feito o Einstein

Na sala de aula, no segundo andar do prédio, me sentei na turma do fundão. O professor iniciou a chamada. Quando ele falou “Engels Lomas de Medeiros”, limitei-me a levantar a mão. Ele anotou a presença. Pronto. Era só arranjar uma desculpa qualquer e escafeder-se dali. Mas a besta aqui resolveu continuar na sala de aula. Birita é uma desgraça! Ainda mais com o cara se sentindo alegre e inteligente feito o Einstein.

Acho que o professor estava falando dos filósofos pré-socráticos, quando levantei a mão para fazer uma pergunta. Ele assentiu. Mandei ver (não foi exatamente isso, mas foi nessa linha):

– Professor, Hegel afirmava que buscar a morte do outro implica em arriscar a própria vida. Por conseguinte, a luta entre duas consciências de si é determinada do seguinte modo: elas se experimentam a elas próprias e entre si por meio de uma luta de morte. Mesmo que queiram, não podem evitar essa luta, pois são forçadas a elevar ao nível da verdade sua certeza de si, sua certeza de existir para si. Cada uma deve experimentar essa certeza em si mesma e na outra. Porque, veja bem, só arriscando a própria vida é que se conquista a liberdade. Só assim é que alguém se assegura de que a natureza da consciência de si não é o ser puro, não é a forma imediata de sua manifestação, não é sua imersão no oceano da vida. Essa luta prova que nada existe na consciência que não seja perecível para ela, prova que ela, portanto, não é senão puro ser para-si. O indivíduo que não arriscou sua vida pode certamente ser reconhecido como pessoa, mas não atingiu a verdade desse reconhecimento como consciência de si independente. O que o senhor acha disso?...

O professor tomou um susto. Ficou branco como uma vela de defunto. Tartamudeando, ele tentou explicar que aquilo seria discutido na disciplina “Filosofia Moderna”, e retornou para seus pré-socráticos. A turma inteira ficou me olhando como se eu fosse um serial killer armado com um facão de cozinha na cintura.

O professor retomou a aula, explicando que Parmênides defendia que o ser é o ser e o não-ser é o não-ser, sustentando a tese de que nenhuma mudança acontecia, era tudo ilusão. Depois passou a falar de Heráclito, que dizia que tudo era mutável, extremamente incerto e inconstante. Que ninguém poderia banhar-se num mesmo rio duas vezes, pois o rio já seria diferente. E tome blá-blá-blá. Quinze minutos depois, levanto a mão novamente. Nervoso, o professor assentiu com um quase imperceptível movimentar de cabeça. Mandei ver:

– Professor, disso tudo que o senhor está falando, o que me chama a atenção é o seguinte. Na luta de duas consciências, Hegel examina simultaneamente a relação de dois “eu” e a relação de cada eu com sua própria vida. O “senhor”, aquele que é vitorioso no combate, aceitou arriscar a vida. Por conseguinte, ele é mais valoroso do que a própria vida, porque por sua coragem colocou-se acima dos objetos comuns da necessidade e da existência empírica. O vencido, aquele que se rendeu, tem medo de perder a vida. Por conseguinte, ele é, de início, escravo da vida e de seus objetos empíricos. Com certeza vai se tornar também escravo do senhor que o conserva a fim de ler em seu olhar temeroso e submisso o reflexo de sua vitória, a fim de se fazer reconhecer como consciência. Não é isso?...

Dessa vez, o professor quase enfartou. A turma inteira (dava pra ler nos olhos) queria me encher de porrada. Aqueles medíocres funcionários públicos, que estavam fazendo uma faculdade para ganhar 10% de aumento ou colocar o diploma emoldurado na mesa de trabalho, começaram a se incomodar com o moleque petulante (de camiseta “tye-dye”, macacão Lee, alpercatas nordestinas, cabelão encaracolado, sem um caderno, caneta ou livro nas mãos) que se divertia frescando com o insigne professor. Ele se safou legal:

– Sim, é isso mesmo. Mas, como já falei antes, essa discussão vai ser mais bem aprofundada quando vocês estudarem Filosofia Moderna. Por enquanto, vamos nos ater aos paradoxos de Zenão de Eléia sobre o movimento...

E começou a explicar que se Aquiles apostasse corrida com uma tartaruga, ambos correndo em linha reta com velocidades constantes, e desde que a tartaruga, por ser mais lenta, começasse a corrida por primeiro, Aquiles jamais voltaria a lhe alcançar.

O que despertava a fúria dos barnabés era o fato de eu fazer a pergunta, me debruçar pra trás e fechar os olhos, como se estivesse saboreando deliciosamente a possível resposta do mestre. Explicar que aquilo era reflexo de meia dúzia de cervejas ingeridas apressadamente seria convite certo para um linchamento.

Nessa época, as aulas duravam 50 minutos (uma eternidade!) e havia 10 minutos para o recreio. Faltando alguns minutos para a sirene tocar anunciando o fim da tortura, levantei a mão pela terceira vez. O professor fez que não viu, empolgado com sua descrição sobre os teoremas desconcertantes de Tales de Mileto. Fiquei de pé, de mão levantada. Ele me viu e abaixou a cabeça, resignado. Mandei ver:

– Professor, imagine Rousseau, Voltaire, Heine e Hegel reunidos numa mesma e única pessoa – e estou dizendo reunidos e não justapostos – e o senhor vai ter o filósofo Karl Marx. Então, me explique, como é que um apátrida de relacionamentos planetários, um pessimista com extrema confiança na humanidade, um homem sozinho – perseguido pelas polícias de todas as nações, desterrado até em seu campo de conhecimento – e cuja obra se encontrava ainda em estado de esboços desordenados no momento de sua morte, pode ser tão importante nos dias de hoje?...

O professor quase caiu pra trás. Ele começou a gaguejar de novo, as mãos tremendo como se estivesse diante do Capiroto em pessoa, quando tocou a sirene. Foi salvo pelo gongo. Sai da sala, sem olhar pra trás. Os impropérios da turma eram dignos de estivadores do cais do Porto. Foda-se. Nunca mais iria conviver com eles. O Engels que se virasse depois.

Desci para a cantina do ICHL, onde, no “mercado negro”, era possível descolar cervejas em lata. Tomei umas três e subi para, oficialmente, assistir minha primeira aula no curso de Administração. Encontrei no corredor o mesmo professor de Filosofia, sozinho e pensativo, diante da sala ainda vazia.

Meti a mão no bolso do macacão, tirei minha lista de disciplinas, e estava lá: “Introdução à Filosofia”, sala tal, horário tal. Era ali mesmo. Antes de eu entrar na sala, o professor me indagou:

– Você gostou tanto da minha aula que vai querer assistir de novo?...

Tive que explicar a presepada.

Ele riu e deu um toque definitivo: “Você não precisa assistir nenhuma das minhas aulas. Faça apenas as provas. Se depender de mim, você já está passado. A gente volta a se encontrar em Filosofia II, no próximo ano.”

O nome do professor? Amecy Souza, que na época devia ter uns 27 anos.

Muitos anos depois, durante um porre monumental em um dos ensaios da BICA, recordei a história para ele. O outro lado da história que ele me contou foi que quase me matou de susto.

Naquela época, ele lembrou, a gente estava no apogeu dos anos de chumbo. O exército brasileiro estava acabando de esmagar a guerrilha do Araguaia. Os arapongas do SNI estavam caçando colaboradores da guerrilha nos centros urbanos. Seu pai, Jamaxi Souza, ex-presidente do Sindicato dos Gráficos, era membro do Pecebão, camarada do velho Romeu Medeiros, pai do Engels. Ele conhecia a família toda (Romeu, Alice, Romeuzinho, Laiton, Sigrid, Engels e André). Quando me identifiquei como sendo Engels, ele começou a esperar pelo pior. Mas não passou recibo.

Quando insisti em discutir questões idealistas, a partir da ótica de Hegel, ele sentiu que estava diante de um “agente provocador” e se fechou em copas. Na hora em que enveredei pela discussão sobre Karl Marx, querendo que ele se posicionasse a respeito, ele deduziu que sairia dali algemado. Mesmo porque já haviam lhe avisado que havia quatro “arapongas” em sua sala de aula. O primeiro que ele identificara tinha sido eu, um moleque cabeludo, cheio de conversa fiada e jeitão de maconheiro.

Ele estava ali, sozinho, no corredor, antes da segunda aula, porque se os “homens da lei” chegassem para lhe prender, ele poderia gritar para o pessoal lá de baixo, denunciando o que estava acontecendo. Quando lhe expliquei a presepada, ele ficou aliviado.

Na mesma noite, em sua casa, Amecy falou do “incidente” para o seu pai. O velho Jamaxi falou com o velho Romeu. Não deve ter sido uma conversa amistosa.

No almoço dominical da família, o saudoso Romeu Medeiros cobrou explicações do Engels, que quase foi excomungado. Brincar com um assunto sério daquele em tempos tão sombrios, era um pedido formal de encrencas pesadíssimas com o Deops, Doi-Codi, Cenimar, Cisa, SNI e outras siglas que, só de pronunciar o nome, davam arrepios.

Em vez de me contar o acontecido, Engels passou uns seis meses me evitando. Depois, como soe acontecer, esquecemos o assunto. Éramos jovens, pois não.

A sorte é que, por alguma força superior do destino (na época, as turmas eram divididas por letras. Os alunos da letra “A” à letra “M”, estudavam numa turma. Os alunos da letra “N” à “Z”, em outra), acabei tendo como professor de “Filosofia II” o inefável escritor, poeta e padre L. Ruas.

Só voltei a rever o Amecy Souza dez anos depois, durante a fundação da banda da BICA, em 1987. Mas somos amigos de sangue desde aquele primeiro encontro. Acontece.

A playboizada da Caxuxa nos anos 60



Em pé, da esquerda pra direita:

Wilson Fernandes – Tinha uma banca de verduras na Feira Livre da Cachoeirinha, onde arrumei meu primeiro emprego. Nos anos 80, foi dono do Barraka’s Drinks, o boteco mais charmoso do bairro. Faleceu em agosto do ano passado, aos 59 anos, em decorrência do diabetes. Era torcedor do Fluminense.

Roberto Amazonas – Fundador do cursinho de pré-vestibular Vector, ao lado de Sergio Figueiredo e Vicente Nogueira. Engenheiro civil, ex-diretor do DER-AM, é um dos assessores informais do prefeito Amazonino Mendes desde os anos 80, principalmente para assuntos de tucumã arara. Flamenguista roxo.

João Eletricista – Era irmão da Carminha, casada com Antonio, um dos fundadores da quadrilha Cabras do Lampião. João morreu precocemente, nos anos 70, ao tentar consertar um quadro elétrico trifásico debaixo de chuva. Era torcedor do Botafogo.

Oscar Almeida – Dono de uma corretora de câmbio, foi campeão do Peladão como goleiro da Ótica São Paulo derrotando o nosso Atlântida, da Cachoeirinha, na disputa por pênaltis. Seu irmão, Jorge, mora em Miami. O mais velho, Quinho, é cônsul das Filipinas. O mais novo, Orlando, é dono de uma construtora. Oscar torce pelo Botafogo.

Ruizinho – Funcionário aposentado da Fuam, foi um dos fundadores e primeiro presidente do bloco Andanças de Ciganos, que depois se transformou em escola de samba. Flamenguista roxo.

Quinho – Era dono de uma sapataria, no canto da Parintins com a Borba, onde a molecada se reunia para falar da vida alheia. Tinha uma mão verdadeiramente abençoada para remendar as miseráveis bolas de futebol (de couro, marca Drible) que usávamos no campo do Penarol. Vascaíno da gema.

Epitácio Almeida – Funcionário do setor de importação de várias empresas do Distrito Industrial, casou com a Marília, irmã do Mário Adolfo, com quem teve duas filhas. Torcedor do Fluminense.

Nego – Sócio do Wilson Fernandes na banca da Feira Livre da Cachoeirinha, ele permanece tocando o negócio até hoje. Torcedor do Fluminense.

Agachados;

Bazan – Irmão do Antídio Weil, ele se aposentou como funcionário da gráfica Calderaro. Se quisesse, teria sido um dos melhores jogadores profissionais do estado, pois talento não lhe faltava. Flamenguista doente.

Celso – Engenheiro e professor de Matemática, foi um dos fundadores do curso pré-vestibular Boechat, que concorria com o Vector e o Transplante em número de alunos aprovados. Vascaíno roxo.

Carlito – Aposentado como funcionário do DER-AM, foi campeão de futebol amador pelo Náutico umas trocentas vezes. Encerrou sua carreira como cabeça de área do Murrinhas do Egito. Torcedor do Vascão.

João Bosco – Filho mais velho do “seo” Aristides, dono do famoso Top Bar, João Bosco tem uma empresa de despachos e foi o cara que me ajudou a tirar minha primeira carteira de habilitação, no final dos anos 70. Seu irmão, Arizinho, atualmente mora em Angola. João Bosco é vascaíno fanático, enquanto Arizinho torce pelo Botafogo.

sexta-feira, abril 10, 2009

Só pra lembrar que eu e o velho temos as armas de Jorge



Os caras: Jorge Aragão, Jorge Ben Jor, Jorge Vercilo e Jorge Mautner

No próximo dia 19, a partir das 21h, o canal Brasil (canal 55, Net-Vivax), vai exibir o show gravado ao vivo na Praia de Copacabana. A letra desbundada é essa aí. Agendem, pra ouvir e se divertir:

Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo Brasileiro, Brasileiro guerreiro
São Jorge cavaleiro da flor,
São Jorge protetor, protetor, protetor

Oxóssi da mata, Ogum do Ferro
Salamâleico, âleicon, salamalan

Estórias de um Santo lutador
Líder soberano dos templários
No povo a sua força se perpetuou
E hoje vive em nosso imaginário,
E hoje vive em nosso imaginário

Mas todo imaginário tem valor
E pode transformar esse cenário
A mente criadora é um dom maior
Naqueles que são revolucionários
Naqueles que são revolucionários

Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo Brasileiro, Brasileiro guerreiro
Eu sou cavaleiro da flor,
São Jorge protetor, protetor, protetor
São Jorge protetor, protetor, protetor

O terreno ambíguo
Por que ele é um herói
Ele tem pulsações humanas

E é por isso que ele á tão querido
Em todos os lugares,
Pelas, crianças, pela população

Estórias de um Santo lutador
Líder soberano dos templários
No povo a sua força se perpetuou
E hoje vive em nosso imaginário,
E hoje vive em nosso imaginário

Mas todo imaginário tem valor
E pode transformar esse cenário
A mente criadora é um dom maior
Naqueles que são revolucionários
Naqueles que são revolucionários

Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo brasileiro, brasileiro guerreiro
Eu sou cavaleiro da flor
São Jorge protetor, protetor, protetor

São Jorge protetor, protetor, protetor

São Jorge protetor, protetor, protetor

De Camões a Fernando Pessoa
Nos somos resultado
Dessa peregrinação longínqua
De combates e de glórias
De afirmação do bem contra o mal,
E mesmo na era cibernética,
No mundo digital, no holograma
Ali está São Jorge
Triunfante lá na frente de todos nós,
É a pipoca da pororoca da imaginação

Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo brasileiro, brasileiro guerreiro,
Eu sou cavaleiro da flor
São Jorge protetor, protetor, protetor

Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo brasileiro, brasileiro guerreiro
São Jorge cavaleiro da flor
São Jorge protetor, protetor, protetor

São Jorge protetor, protetor, protetor

São Jorge Guerreiro

Santo Salvador

SARAVA, colofé, motumbá

Vem nos ajudar
Vem curar a dor
Vem nos ajudar

Salamâleico, âleicon, salamalan
Shalon shalon
Amém

Santo Salvador

quarta-feira, abril 08, 2009

Porque é batendo que a gente faz o bolo crescer...


Siba e a Fuloresta: por que diabos eles não tocam nas rádios?

Recebo do brodão Iram Alfaia esse textículo via e-mail:

Simão, desse jeito não dá pra preferir o alzheimer. Puta de memória. Aprendi muito com aquela experiência. Ainda acho que é o melhor formato para FM, ou seja, as notícias permeando a programação musical, mas isso não impediu, por exemplo, que pudéssemos entrevistar ao vivo o FHC e Lula na primeira disputa eleitoral. Quanto ao Rogério, não há como esquecer aquele fato, uma gafe com a qual ele deve ter aprendido muito, afinal há pouco improviso no texto jornalístico da tevê. Já adicionei teu endereço no favorito. Parabéns também ao teu pai pelos quase 86. Ah! Além da Vanessa, agora trabalho no portal vermelho.org.br na sucursal de Brasília. Abraços e quando chegar por aí ligo para continuarmos o livro (risos)

Iram

Pois é, grande Iram, também acho que aquele formato ainda dava um bom caldo, principalmente agora que há tantas coisas interessantes acontecendo no mercado musical.

Por exemplo, é comum alguém falar de maracatu, coco-de-roda e frevo como manifestações folclóricas, antigas. Mas tudo isso está vivo, transformando-se e gerando novidades. A prova é o trabalho de Siba e a Fuloresta, que só conheci recentemente graças ao fabuloso site Som Barato. Se fosse na nossa época, ele já teria “estourado” na cidade.

No som dessa banda, a música de rua e a poesia cantada da Zona da Mata Norte pernambucana dividem espaço com dub, rock e jazz.

– As pessoas me rotulam como músico regional antes de me ouvir. Mas eu me oponho ao tradicionalismo arraigado. Enxergo essas tradições com olhos de hoje – comenta Siba, que lidera os outros sete músicos – de sopro e percussão –, todos da pequena Nazaré da Mata.

Filhos legítimos de Pernambuco, os músicos de Siba e a Fuloresta já estão no terceiro disco, “Toca Brasil” (2008), que une versos de sabedoria popular com o som dos carnavais nordestinos.

– A música de rua é a base de tudo que faço. O instrumental dá suporte à poesia, às letras, que são minha prioridade – diz Siba.

Nascido na cidade cosmopolita do Recife, em uma família que até hoje mantém sua forte ligação com suas origens rurais, Siba cresceu entre a cidade e o interior, dois mundos que fazem parte de um mesmo todo, ouvindo rock e aprendendo a rimar versos da zona rural.

Foi membro da banda Mestre Ambrósio e, após morar em São Paulo por sete anos, mudou-se para Nazaré da Mata, uma pequena cidade com 30 mil habitantes, distante 65 km de Recife, onde começou a Fuloresta, em 2003.

A banda serviu de centrífuga para fundir as origens de Siba com elementos tão geograficamente distantes quanto o pop africano e o som das fanfarras dos Bálcãs.

– O frevo e o som do Leste Europeu têm raízes nas fanfarras militares. Eu cultivo as tradições, mas sem ver nisso uma prisão – define o músico.

Desde seus primeiros contatos com as tradições da Mata Norte, ele começou uma longa história de aprendizado e colaboração, exercitando ao longo dos anos os fundamentos da poesia ritmada para se tornar um dos principais mestres da nova geração do maracatu e dos cirandeiros.

Ao mesmo tempo, como membro da banda Mestre Ambrósio, desenvolveu um estilo musical inovador e singular, da qual o diálogo entre o tradicional e o contemporâneo, o passado e o presente, a rua e o palco são marcas distintas.

Seu álbum de estréia, “Fuloresta do Samba”, foi gravado com uma unidade móvel perto de Nazaré, e lançado em 2003, seguido de apresentações em todo o Brasil.

O grupo também fez três turnês européias entre 2004 e 2006, desenvolvendo com o tempo sua habilidade de adaptar uma música que dura a noite inteira para o formato mais conciso dos palcos.

– Nunca entendemos nosso passado ou nossas tradições como uma gaiola. Pelo contrário, nossa tradição nos oferece um vasto vocabulário, e nós nos esforçamos para usá-lo todo dia e a noite toda –, diz ele. “É impossível reproduzir a maneira como envolvemos toda a comunidade na poesia e nas danças durante a noite toda, mas na hora ou nos 90 minutos que os festivais oferecem temos uma grande oportunidade de mostrar nosso impacto musical”.

O disco “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar” (2007) foi o segundo lançamento de Siba e da Fuloresta: letras diretas de uma poesia intensa, cirandas, cocos-de-roda e frevos misturados com dubs, guitarras e pianos elétricos e uma orquestra de sopros executando arranjos inovadores, junto a convidados muito especiais, como CéU, Beto Villares, Marcelo Pretto, Fernando Catatau, Isaar França e o cirandeiro Zé Galdino.

Um álbum com um inesperado tom cosmopolita, que extrapola e questiona as barreiras entre cultura popular e música pop, poesia oral e literatura e o já desgastado contraste entre tradição e modernidade.

A faixa que dá nome ao CD fala da velocidade do mundo hoje e tem a ver com a releitura que Siba faz das tradições sem perder o bonde das mudanças. “Será” brinca com o excesso de impostos no nosso país. Já “Meu time”, uma das melhores do álbum, ironiza a devoção exagerada do torcedor de futebol brasileiro.

– Os músicos são artistas de rua, e a Fuloresta precisou de uns dois anos para se adaptar, levar para o palco e para o estúdio toda essa bagagem – conta o músico recifense.

Além de Siba (voz e percussão), a Fuloresta (“uma floresta de fulô”) conta com Biu Roque (percussão e voz), Mané Roque (percussão e voz), Cosmo Antônio (percussão e voz), Zeca (percussão), Roberto Manoel (trompete), Galego (trombone) e Bolinha (tuba).

Uma das melhores músicas deles, “A velha da capa preta”, será a trilha sonora do meu enterro. A grande novidade da música está no “caco” sob medida. Quando começam os primeiros acordes, um popular grita “não é enterro não, meu irmão... não é enterro, não...” E aí começa a rolar um coco-quase-frevo. Com um pouco de imaginação, você se sente participando de um enterro pelas ruas de New Orleans...

A velha da capa preta

A morte anda no mundo
Vestindo a mortalha escura
Procurando a criatura
Que espera a condenação
Quando ela encontra um cristão
Sem vontade de morrer
Ele implora pra viver
Mas ela ordena que não
Quando o corpo cai no chão
Se abre a terra e lhe come
Como uma boca com fome
Mordendo a massa de um pão

A morte anda no mundo
Espalhando ansiedade
Angústia, medo e saudade
Sem propaganda ou esparro
Sua goela tem pigarro
Sua voz é muito rouca
Sua simpatia é pouca
E seu semblante é bizarro
A vida é como um cigarro
Que o tempo amassa e machuca
E a morte fuma a bituca
E apaga a brasa no barro

A morte anda no mundo
Na forma de um esqueleto
Montando um cavalo preto
Pulando cerca e cancela
Bota a cara na janela
Entra sem ter permisão
Fazendo a subtração
Dos nomes da lista dela
Com a risada amarela
É uma atriz enxerida
Com presença garantida
No fim de toda novela

Disse a morte para a foice:
Passei a vida matando
Mas já estou me abusando
Desse emprego de matar
Porque já pude notar
Que em todo lugar que eu vou
O povo já se matou
Antes mesmo d’eu chegar
Quero me aposentar
Pra gozar tranqüilidade
Deixando a humanidade
Matando no meu lugar


Para baixar os três discos de Siba e a Fuloresta, clique em Som Barato

É de graça, rapá!

Volver a los 17, despues de vivir un siglo


A primeira formação do Raíces de América: Enzo Merino, Oscar Segovia, Julio Peralta, Isabel Ribeiro, Celso Ribeiro, Tony Osanah, Mariana Avena, Fred Goés e Willy Verdaguer


David Almeida, Fred Góes e o bucho desse vosso escriba. Literalmente


Em meados dos anos 70, o talentoso músico parintinense Fred Góes se mudou para São Paulo, na busca do velho sonho de se transformar em músico profissional e viver da própria arte. Em Sampa, ele se juntou a alguns músicos chilenos e argentinos no “Grupo Chasky”, cujos integrantes eram o próprio Fred, Guillermo Noriega, Enzo Merino, Carlitos Demutti e Oscar Segovia. Paralelamente, Enzo, Oscar, Fred e Celsinho Ribeiro formaram o “Grupo Machitún”. Os dois grupos tocavam a chamada “música folclórica latino-americana de raiz”.

Em fins de 1979, o visionário empresário Enrique Bergen, argentino radicado no Brasil, teve a feliz idéia de formar um grupo de música latino-americana que se sobressaísse dos padrões corriqueiros da época, quando os grupos do gênero mantinham características primordialmente folclóricas em seus repertórios e formações. Surgia o grupo “Raíces de América”, formado por Fred Góes, Enzo Merino, Oscar Segovia, Julio Peralta, Isabel Ribeiro, Celso Ribeiro, Tony Osanah, Mariana Avena e Willy Verdaguer.

O grupo Raíces de América nasceu praticamente junto com a gravadora Eldorado, unindo músicos encantados com a proposta de resgatar a música latina produzida na região e que falasse da vida e dos problemas latino-americanos, de um povo vivo e de cultura vibrante, sem buscar os estereótipos fáceis que reforçam a região como subdesenvolvida e eternamente bucólica e atrasada. No repertório, ao lado de composições próprias, o grupo cantava Violeta Parra, Vinícius de Moraes, Gilberto Gil, Chico Buarque e Milton Nascimento.

Em 1980, tendo a lendária Mercedes Sosa como madrinha, o Raíces de América estreou em São Paulo, com direção de Flávio Rangel, um espetáculo maravilhoso que contava com performances e arranjos ricos e modernos, iluminação, figurino e cenografia elaborados especialmente para o show. As músicas eram permeadas por leitura de poemas feitas pela atriz Isabel Ribeiro, já falecida.

Durante os ensaios, Rangel sugeriu ao grupo que incluíssem no repertório dois de seus primeiros sucessos: “Guantanamera”, de José Marti, e “Disparada”, de Theo de Barros e Geraldo Vandré. Do primeiro disco, gravado com o sucesso do espetáculo, os destaques eram, além das duas canções citadas, a pastoral “El Condor Pasa”, de Daniel Robles, valorizada pela voz melancólica da cantora portenha Mariana Avena, e “Cantor de Ofício”, de A. Morelli.

O sucesso de público conquistado pelo Raíces de América foi imediato. Não custa lembrar que o início dos anos 80 foi marcado, no Brasil, pelos processos de reabertura política e pela reintrodução das eleições diretas, o que aproximou a proposta do grupo às demandas da população brasileira. Um novo disco foi gravado no ano seguinte, que trazia pérolas como “Los Hermanos”, de Atahualpa Yupanqui, “Volver a Los 17”, de Violeta Parra, “Guajira Para Esperança de América”, de Oswaldo Avena e Enrique Bergen, “La Ciudad”, de Enzo Merino, Oscar Segovia e Fred Góes, e “Pássaro Cativo”, de Celso Ribeiro.

Em 1982, o grupo conquista o segundo lugar no Festival MPB Shell promovido pela Rede Globo de Televisão com a música “Fruto do Suor”, de Tony Osanah e Enrique Bergen. A canção cativou principalmente os imigrantes latinos radicados no Brasil e foi o carro-chefe do terceiro álbum do grupo, também chamado “Fruto do Suor”. Além da faixa título, o álbum continha “Pedro Nadie”, de Piero e José, “O que Será”, de Chico Buarque e “Soy Loco Por Ti América”, de Gilberto Gil, Capinam e Torquato Neto.

Com a saída das vozes de Mariana Avena e Tony Osanah, substituídos respectivamente por Lídia Tolaba e Jota Mariano, o grupo grava “Dulce América”, com destaque para as versões de “O Cio da Terra”, de Milton Nascimento e Chico Buarque, “Nada Será Como Antes”, de Milton e Ronaldo Bastos e “Rosa de Hiroshima”, de Vinícius de Moraes e Gérson Conrad.

Depois desse disco, Fred Góes deixa o grupo e retorna a Parintins, para assumir a coordenação artística do boi Garantido e ajudar a transformar o Festival dos Bumbás nesse mega-espetáculo em que acabou se transformando. Foi Fred que introduziu o charango (espécie de cavaquinho típico dos Andes) no acompanhamento das toadas – o que fez muito brincante tradicionalista torcer o nariz. Ele também contribuiu decisivamente para que as letras das toadas se tornassem mais poéticas, melódicas e criativas.

Em 1994, com o festival de Parintins entrando no seu momento mais criativo e se transformando em referência internacional, Fred Góes dá outra tacada de mestre: junto com o também músico Sidney Resende, ele arregimenta um grupo de músicos da ilha e cria o Regional Vermelho e Branco, o primeiro grupo a se apresentar em shows acústicos antes e depois do festival de Parintins e o primeiro grupo a gravar um CD de toadas. Para Fred, aquela era uma maneira legítima de os músicos permanecerem em atividade independente da sazonalidade do festival. E pelo número de “grupos de boi” que surgiu depois do Regional Vermelho e Branco, essa também foi uma iniciativa vitoriosa.

Um ano depois, Fred estava em casa, compondo uma nova toda, quando toca o telefone. Do outro lado da linha, num portunhol sofrível, um sujeito entabula uma conversa esquisita:

– Señor Fred Góes?... Ah, si, como no... Acá quem fala es mister Pablito Milongués... Soy empresário del noche em Chile... Yo quiero contratar usteds para duas semanas de espetaculos em Viña del Mar... Si, si... Estoy em hotel Imperial, acá en Manaus... Vienam, vienam... Yo voy pagarle 5 mil dólares por cada show en el Casino Viña del Mar... Si, si, como no... Si, si, es invierno... Mucho, mucho frio... Abajo de 10 graus, quiero crer... Pero, por supuesto, em Manaus ahi muy buenos agasalhos... Si, si, vienam, vienam... El contrato vos espiera... Si, si, muchas gracias, señor Fred Góes... Estay agendado... Saluto para vosotros.... Gracias, gracias!

Fred ficou em estado de graça. E correu para contar a boa nova pros parceiros. No mínimo, aquilo era o início de uma carreira internacional. Duas semanas na capital turística do Chile por certo geraria dividendos para, depois dali, ganharem o mundo. Era pegar ou largar. O músico Paulinho du Sagrado quis largar.

– Porra, meu irmão, a gente aqui é tudo um bando de liso. A gente não tem grana nem pra chegar em Manaus. Cumé qui a gente vai custear uma viagem até o Chile?...

Fred não se fez de rogado.

– O nosso papo agora é chegar até Manaus para assinar o contrato com o gringo. Depois, talvez a gente descole um adiantamento com ele para as passagens. Só que a gente não pode chegar junto do cara com jeito de esfamiado, que pega mal. Vamos levantar a grana que a gente puder e fazer bonito. O resto vem na seqüência.

Dito e feito.

Fred Góes vendeu dois violões de estimação, quase aos prantos. Sidney Resende vendeu um três-em-um da Sony, novinho em folha, pela metade do preço. Paulinho du Sagrado pegou emprestado uma grana da irmã – sem ela saber. Buião meteu a mão na poupança que a duras penas estava economizando para pagar a faculdade do filho, então com quatro anos. Os outros músicos fizeram a mesma coisa. A grana apurada era suficiente para pagar as passagens de barco até Manaus e, com sorte, comprar meia dúzia de casacos de esquimós em liquidação na loja Oriente. Era aquilo ou morrer enregelado no sul do Chile. Determinados como um grupo de vikings, eles foram à luta.

Chegando em Manaus, enquanto os músicos iam às compras na loja Oriente, Fred Góes foi na casa de seu irmão, o advogado Wander Góes, procurador-geral e plenipotenciário da Assembléia Legislativa do Amazonas há mais de três décadas. Com certeza ela teria umas merrecas acumuladas e não se negaria a ajudar o irmão naquela empreitada internacional.

Enquanto Wander enchia os copos de uma legítima “branquinha” mineira, Fred começou a contar o motivo da odisséia (ele não pisava em Manaus há quase duas décadas).

Como se fosse a coisa mais natural do mundo, Wander lhe estendeu um dos copos, fez o brinde tradicional, e caprichou na pronúncia:

– Señor Fred Góes?... Ah, si, como no... Acá quem fala es mister Pablito Milongués... Soy empresário del noche em Chile... Yo quiero contratar usteds para duas semanas de espetaculos em Viña del Mar... Si, si...

Quase que sai porrada entre os dois irmãos.

E a loja Oriente não aceitou a devolução dos casacos de pele nem pelo caralho.

Grandes Mestres da AMOAL na terra do Tio Sam


O Tucker Max é autor do clássico “Espero que vendam cerveja no inferno” e também tem um site invocadíssimo, que pode ser acessado no link abaixo:

tucker


O Maddox é autor do best-seller o ABC da Masculinidade e tem um site pra lá de escrachado, que você pode conferir no link abaixo:

maddox

Os dois livros, que ainda não foram traduzidos no Brasil, podem ser baixados de graça, no formato pdf, no site 4shared

Abaixo tem um link para um artigo sobre o maior polemista da atualidade, Harvey C. Mansfield, um professor de Harvard que também defende uma nova masculinidade nos moldes antigos e tem comprado brigas hilárias com Camile Paglia e outras feministas mal comidas.

mansfield

sábado, abril 04, 2009

15 anos sem Kurt Cobain


Neste domingo, 5 de abril, marca-se 15 anos da morte de Kurt Cobain. O cantor, guitarrista, compositor e líder do Nirvana, que havia se tornado ícone do rock dos anos 90 desde o sucesso mundial do disco Nevermind, em 1991, se imortalizou nos bastiões do rock e da cultura popular depois de suicidar-se com um tiro em sua casa, em Seattle.

Foi a partir daí que Cobain coroou o legado de sua banda, que, com Nevermind, apagou a linha que dividia o rock alternativo daquele promovido pelo mercado – separação fortificada ao longo dos anos 80, depois da cisão promovida pelo punk no final dos anos 70. Depois que o Nirvana irrompeu limites e barreiras de rótulos, não era mais preciso acompanhar o rock para ouvir “Smells Like Teen Spirit”.

Kurt Donald Cobain, nascido no dia 20 de fevereiro de 1967 em Aberdeen, estado de Washington (o mesmo de Seattle), foi dado como desaparecido no dia 4 de abril de 1994. Ele havia sido internado na Califórnia, poucos dias antes, em coma depois de uma overdose – uma semana após o último show do Nirvana, em Munique, na Alemanha.

No dia 30 de março, o cantor acordou do trauma e deixou o hospital. Voltou para Seattle no mesmo dia, comprou uma espingarda, foi para sua casa e não se comunicou com ninguém. Cobain foi encontrado pela polícia em 8 de abril, três dias após sua morte, na estufa localizada no andar acima da garagem. Uma carta de suicídio foi achada no topo de uma montanha de terra – o bilhete estava atravessado pela caneta vermelha com que fora escrito.

“O fato é que eu não posso enganar vocês, ou qualquer um, simplesmente não é justo para mim nem para vocês. O pior crime que eu posso pensar seria o de enganar as pessoas ao fingir que estou me divertindo 100%”, escreveu Cobain em seu bilhete suicida. “Sou uma pessoa de humor muito errático e não tenho mais a paixão. Paz, amor, empatia – Kurt Cobain.”

Alma feminina

Antes de ter puxado o gatilho com a sua mão esquerda, canhoto que era, Cobain havia ingerido grande quantidade de heroína, mas não o suficiente para matá-lo. Kurt já havia tido uma overdose de heroína em 1993 e outra no dia 4 de março de 1994 em Roma, à base de champanhe e Rohypnol (ou flunitrazepam, nome genérico de um comprimido usado como sedativo em casos graves de insônia).

No episódio italiano, Cobain supostamente estaria tentando se separar de Courtney Love. Ele, que ficou traumatizado na infância por conta do divórcio de seus pais, já havia dito à esposa que “preferia morrer a se separar”.

Em entrevista ao jornalista inglês Everett True, publicada no dia 18 de julho de 1992 na revista Melody Maker, Kurt declara: “Eu respeito aqueles que agem como idiotas quando são realmente inteligentes. É uma declaração niilista, como se eles estivessem tentando dizer que não há mais razão para tentar ser humano, porque as coisas saíram totalmente do controle. É uma atitude muito punk, mas acho também que seria entediante ser Johnny Rotten depois desses anos todos. Não estou falando sobre sexismo, mas sobre aquele tipo de atitude negativa quando você não está mais apto a apreciar a paixão ou a beleza.”

Sobre esse sexismo do trecho, Kurt diz, no início da mesma entrevista, que sempre foi uma pessoa mais feminina quando era jovem. Para Everett True, um dos primeiros jornalistas a divulgar a banda na Inglaterra, Cobain foi alguém que carregou uma sensibilidade diferente no mundo “macho” do rock e do punk – um dos fatores que o diferenciou de outros artistas de sua época e o colocou entre os grandes do gênero.

O começo do Nirvana

Kurt Cobain teve uma infância pobre. Criado por outros membros da família que não pai e mãe, era criança hiperativa a quem foram dados remédios para se concentrar melhor nos estudos e para dormir à noite. Odiava os estudos e passava seu tempo pintando, cantando e ouvindo Beatles, Monkees, Kiss, Black Sabbath, Sex Pistols, Black Flag e Clash.

Ganhou sua primeira guitarra aos 14 anos e formou o Nirvana em 1986, com 19 anos, junto de Krist Novoselic e vários bateristas diferentes. O primeiro disco, Bleach, saiu em 1989 e a banda foi ganhando reconhecimento por conta das apresentações enérgicas.

O trio, depois de efetivar o baterista Dave Grohl, gravou o segundo disco e pedra de toque dos anos 90: Nevermind. O clamor de crítica e público e o sucesso comercial de “Smells Like Teen Spirit” e “Come As You Are” catapultaram a banda para o grande mercado, levando-os a apresentações em programas de TV como o Saturday Night Live. Seus shows, antes em espaços menores, ganharam os estádios. O som que faziam também estava embalado em um rótulo próprio que o Nirvana fez por perpetuar: o grunge.

Kurt se casou com a cantora Courtney Love em 1992, no Havaí, e com ela teve uma filha, Frances Bean. Em 1993, o Nirvana lançou seu último álbum de estúdio, In Utero, e gravaram o acústico da MTV em 1994 – que teve lançamento póstumo, no dia 1º de novembro do mesmo ano.

Cifras da obra

As vendas dos discos do Nirvana não deixam de impressionar e de reforçar a força da música do grupo. Só Nevermind já teria vendido aproximadamente 14 milhões de cópias, cinco milhões antes de Cobain ter cometido suicídio. Bleach, o primeiro disco, na época havia vendido 300 mil cópias – alcançando hoje aproximadamente 1,7 mi. In Utero fica com 4,5 milhões de cópias. O acústico MTV Unplugged In New York chega a 5 milhões.

Somando todos os discos, junto da coletânea de raridades e lados B Incesticide e o ao vivo From the Muddy Banks of Wishkah, obtêm-se quase 30 milhões de discos vendidos. Em média, por ano, vendem-se 230 mil cópias de Nevermind e 120 mil do Acústico MTV.

Smells Like Teen Spirit

Load up on guns and bring your friends
It's fun to lose and to pretend
She's overbored and self assured
Oh, no, I know a dirty word

With the lights out its less dangerous
Here, we are now, entertain us
I feel stupid, and contagious
Here, we are now entertain us
A mulatto, An albino, A mosquito
My libido, Yeah!

I'm worse at what I do best
And for this gift I feel blessed
Our little group has always been
And always will until the end

And I forget just why I taste
Oh yeah, I guess it makes me smile
I found it hard it's hard to find
Oh well, whatever, nevermind


Cheira Como Espírito Jovem

Arme-se e traga seus amigos
É divertido perder e fingir
Ela está chateada e segura
Oh não, eu sei um palavrão

Com as luzes apagadas é menos perigoso
Aqui estamos agora nos divirta
Me sinto estúpido e contagioso
Aqui estamos agora nos divirta
Um mulato, um albino, um mosquito,
Minha libido, Yeah!

Sou pior no que faço melhor
E por este presente e eu me sinto abençoado
Nosso grupinho sempre foi
E sempre será até o fim

E eu esqueço por que eu provei
Oh sim, acho que me faz sorrir
Achar é difícil e é difícil de achar
Bem, que seja, não se preocupe

quinta-feira, abril 02, 2009

Pra não dizer que não falei de flores


Silane, eu, o velho Simão, Dulce (minha madastra), Simone, Selane e Simas, no aniversário de 85 anos do cabra da peste. A Silene não pôde ir porque estava participando de um cruzeiro no Caribe. Choses.

Meu pai, Simão Monteiro Pessoa, está com 85 anos. Daqui a três meses, se Deus quiser, no dia 9 de julho, ele completa 86. É uma idade que, só de imaginar alcançar, me dá calafrios e vertigens. A memória começa a trair o dono, o corpo começa a fraquejar, as dores se instalam em um vaivém, como se fossem um carrossel infantil permanente, o lá de baixo não obedece aos comandos do daqui de cima, os alemães (Alzhemeir e Parkinson) começam a disputar o espólio, enfim, a terceira idade é uma grande merda.

Um dia desses, durante uma cachaçada no Snoopy, falei pro Simas que, se algum dia atingisse mais de 60 anos (não falta muito), preferiria sofrer de Alzhemeir (perda total de memória) do que de Parkinson (corpo se tremendo sem controle). Porque, sinceramente, é muito melhor se esquecer de pagar o dono do bar (mal de Alzheimer) do que ficar jogando birita no chão (mal de Parkinson). Meu velho, felizmente, vem conduzindo discretamente sua canoa entre esses dois rochedos.

Apesar de tudo isso, ou por isso mesmo, eu continuo admirando meu pai mais do que ninguém e mais do que tudo na vida. Desde que soube que arrebentei meu ombro em Borba, no ano passado (darei detalhes qualquer dia), ele não pára de se preocupar, como se eu ainda fosse uma criança. Nem parece que já sou responsável por quatro bisnetos dele (Marcelli e Manuelli, filhas do Marcel, Mathews, filho da Maíra, e Vinicius, filho do Marcelo).

Hoje à tarde, por exemplo, ele me ligou para saber se estou bem. Expliquei de novo o problema do ombro. Não vai dar para eu ser halterofilista ou jogador de vôlei – o braço, em relação ao ombro, não passa da linha horizontal. Os músculos não reagem ao meu comando ou, quando reagem, é preciso suportar muita dor. Não tenho mais idade pra isso. Nem vontade. Ele ri, como se eu estivesse contando uma piada do Bocage. E eu acabo rindo com ele.

Com tantos amigos morrendo assim, tão precoce e inexplicavelmente, comecei a me dar conta dessa benção que é ter o velho Simão ainda vivo. E comecei a sentir medo – ou talvez angústia – pela sua ausência. Que vai acontecer a qualquer momento. Alguém consegue se preparar para aceitar essa contingência humana chamada finitude? Duvido.

Meus seis queridos filhos (Marcelo, Marcel, Márcio, Maíra, Marcus e Marisa) dificilmente me ligam para saber como estou. Eu pago na mesma moeda. A gente se encontra nos encontros de família (e sou extremamente impermeável a essas presepadas) ou quando alguém necessita de alguma coisa. No mais, é cada um por si e Deus por todo mundo. Se é ruim? Não sei. Só sei que é assim.

Na próxima semana, a convite do Márcio, que é professor da UniNorte, vou dar uma palestra sobre a dicotomia jornalismo-publicidade. Desde que ele me fez o convite – e eu topei – nunca mais me procurou. Sim, a “ação” toda ocorreu por meio de e-mails. A modernidade – ou a corrida de obstáculos pela sobrevivência – nos fez desse jeito. Culpa dele? Não. A culpa é minha, que nunca soube ser como meu pai.

Confesso que não é sempre, mas de quando em vez me pego nessas bobagens. Será que, algum dia, um dos meus filhos vai me ligar para perguntar simplesmente se está tudo bem comigo? Ou serei eu que terei de dar esses telefonemas? Ou, de repente, essa tarefa ficará a cargo de meus netos? E isso, de repente, vai mudar a profunda estima e amor que sinto por todos eles? Não. Claro que não.

O que quero sublinhar é esse amor do meu velho, capaz de pegar um telefone aos quase 86 anos, ligar para um filho em um dia qualquer da semana e perguntar: “e aí, meu filho, está tudo bem?”.

Já não se fazem mais pais como antigamente.

Benção, meu pai. Tenho cada vez mais um puta orgulho de ser seu filho.

Saravá! Ogum é de lei! Oxóssi nos protege! Xangô nos guarda! Sem contar, que a gente ainda tem as armas de Jorge. E as armas de Jorge são as armas de Jorge...

Nas ondas do rádio


Em abril de 1998, o DJ e produtor musical Armandinho Mendes, dono da rádio Novidade FM, me convidou para dar uma guaribada na programação jornalística da emissora. Na verdade, ele queria que os locutores parassem de improvisar (leia-se falar bobagens, como ocorre na maioria das rádios FM) antes, durante ou depois dos blocos musicais.

Para ser franco, o jornalismo da emissora já era tocado com extrema competência pelo meu brother Iran Alfaia, que tinha como braço direito a saudosa Elaine Lima. Na programação musical havia dois caras fantásticos, Marco Antonio Ribeiro e Chacal Coletti, que extraíam o supra-sumo do que havia de melhor, mais recente e mais quente nas pistas de dança do planeta.

Para se ter uma idéia do poder de fogo da dupla, os hits “novidadeiros” das outras rádios locais já haviam saído da programação da Novidade FM há, pelo menos, uns seis meses, depois de terem sido veiculados ad nauseaum. Primeira rádio a tocar Radiohead? Novidade FM. Primeira rádio a tocar Armand Van Helden? Novidade FM. Primeira rádio a tocar Farofa Carioca? Novidade FM. Primeira rádio a tocar Eliana Printes? Novidade FM.

Os locutores também eram da melhor competência: Julio Roberto, Carlão, Walze, Rogério. As locutoras (Tatiana Sobreira e Andressa Belmont) além de competentes, eram qualquer coisa além de gostosas... Ou seja, não havia em que mexer, até porque a rádio já era líder de audiência no segmento jovem.

O problema é que o Armandinho encasquetou com a “folga” dos locutores, que adoravam falar abobrinhas. Aliás, deixei de ouvir rádio (com exceção do programa do Joaquim Marinho, “Zona Franca”, que nessa época era veiculado na Novidade FM e hoje está na Amazonas FM) por causa disso. Chatice por chatice, ainda prefiro as minhas.

Para escapar da sinuca de bico, eu e Iran combinamos o seguinte: nos primeiros 15 ou 20 segundos de cada bloco musical, quando só rola os primeiros acordes dos hits, os locutores leriam uma pequena notinha musical. Podia ser a posição da música na parada da Billboard, a inspiração do músico para compor a letra, alguma curiosidade sobre o artista, enfim qualquer coisa que impedisse os locutores de “improvisar”.

Os programadores musicais, evidentemente, ficaram putos porque aquilo dava uma trabalheira da moléstia. Eles tinham que nos informar, com a antecedência de um dia, a seqüência das músicas e o tempo orquestrado no início de cada bloco de três músicas para que a gente encaixasse os “minicomerciais” de 15 segundos.

Agora calculem distribuir cerca de 220 músicas (sem repetir, claro!), divididas em blocos de três, ao longo do dia (das 7 da manhã às 19h), que era quando rolava a programação “oficial” da rádio. E haja “notinhas” quentes para caber naqueles míseros segundos orquestrados. Minha capacidade (e a do Iran Alfaia) de escrever textos sintéticos foi testada ao limite.

No período noturno, logo depois da “Voz do Brasil”, os locutores, todos “cobras criadas”, eram donos de seus programas e falavam o que bem entendiam. O programa “Um toque de bar”, do Ney Amazonas, rolava das 19 às 20h, só com MPB de raiz, que nem mandioca. O Fernando Araújo entrava em seguida, com o famoso “Speedback”, das 20h às 22h, com os melhores hits de dance music dos anos 70, 80 e 90. Logo em seguida entrava o João Cury, com o charmoso “Hi-Fi”, das 22h à meia-noite, somente com clássicos pop/rock dos anos 50, 60 e 70.

Por último, entrava o DJ Augusto Omena, de meia-noite às 2h, com o programa “Megamix”, onde desfilavam os últimos lançamentos mundiais de house, garage, techno, trance, drum’n’bass, trip hop, raggamuffin’ e o escambal. A partir das 2h até às 6h, quando começava o jornal diário ancorado pelo Carlão, rolavam músicas classudas sem praticamente “break” comercial. Nessa época e nesse horário, 90% dos táxis de Manaus sintonizavam a Novidade FM.

No início, os locutores se atrapalhavam um pouco ao ler as notícias com a ênfase correta, mas com algumas semanas pegaram a “manha”. E, graças à web, era possível acessar sites de revistas eletrônicas sobre música e cultura pop atualizadas diariamente (Billboard, Rolling Stone, Vibe, NWE, Wired, Cash Box), pegar uma notícia legal, traduzir, sintetizar ao máximo e colocar no ar. Mais de 70% das notícias que os cadernos de culturas dos jornais dariam no dia seguinte, a gente dava em primeira mão. Uma farra do boi!

A estrela da casa era o apresentador Rogério, um locutor de pouco mais de 20 anos, nascido em Santarém, com passagens pela TV Liberal, de Belém do Pará, e pela BBC, de Londres. Seu inglês era fluente, sua voz, aveludada, sua dicção, impecável. Ele reconhecia que não tinha muita cultura musical e eu o municiava emprestando livros e revistas sobre música. Ficamos amigos de infância (em parte, porque meu pai também nasceu em Santarém), se bem que ele tivesse idade para ser meu filho. Seu programa ia ao ar das 14h às 16h.

Um belo dia, para a introdução da música “I Belong To You”, do Lenny Kravitz, eu escrevi alguma coisa sobre seu último disco. Era um texto curto, de 10 segundos. Como o Lenny Kravitz insistisse em não abrir a boca, Rogério resolveu improvisar:

– Pra se ter uma idéia, ela esteve recentemente no Japão, divulgando o disco “Five”, e foi aplaudida de pé. A garota está com tudo e não está prosa....

Eu estava na sala de redação, em uma sala na frente do estúdio, ouvindo a rádio, e levei um susto.

Na hora em que começou o break comercial, entrei no estúdio.

– Que porra é essa, Rogério? Onde foi que você leu que esse negão é viado? O cara tá pegando a Vanessa Paradis, uma tremenda ninfeta, e você me vem com essa... Que porra é essa?...

Dessa vez, quem levou um susto foi o Rogério:

– Negão?... Eu li aqui Lenny... Pensei que fosse o nome de uma mulher...

Bom, era esse o nível intelectual de nossos locutores há 10 anos. Mudou muito pouco. Sim, o Armandinho tinha razão em não querer que eles improvisassem. O ouvido do ouvinte não é penico.

É evidente que o Rogério Vaughan nunca mais cometeu alguma gafe semelhante. Nem ele nem os demais locutores, que se esmeravam cada vez mais por dar informações na medida certa, inclusive sugerindo textos introdutórios.

Quase no final do ano, depois de eu passar vários meses reclamando que era um desperdício de talento ele continuar em Manaus, Rogério criou coragem, pediu as contas da Novidade FM e da TV Cultura, onde apresentava o Jornal da Noite, e se mandou pra São Paulo.

Ele ralou um pouco na Rádio Globo e na Band FM, mas depois passou a integrar a equipe de narradores da ESPN Brasil, onde está até hoje. Vaughan também é a voz-padrão dos canais Discovery Channel e History Channel no Brasil, além de já ter sido locutor dos jogos FIFA Soccer. Uma bela e vitoriosa carreira de locutor!

Eu ainda permaneci na rádio Novidade FM até junho de 2000, quando tive que viajar para Manacapuru para ajudar na campanha de reeleição do prefeito Ângelus Figueira.

O Iran Alfaia continuou tocando a rádio, no mesmo formato, mas, algum tempo depois, se mudou para Brasília, onde assessora até hoje a deputada Vanessa Grazziotin (PCdoB). Nossos porres na capital federal dariam para escrever um livro!

Marco Antonio Ribeiro, que trabalhava à noite na engenharia de fábrica da Nokia, resolveu virar executivo, passou alguns meses na Finlândia, e só retornou a Manaus depois que foi promovido a gerente. A gente se encontra de vez em quando.

Armandinho se mudou para a Espanha, para fazer mestrado em engenharia de som, passando mais tempo na ponte aérea Barcelona-Nova York do que em Manaus. Dávamos notícias um do outro por meio de e-mail. No começo do ano passado, ele retornou a Manaus e está tocando a rádio, que virou Radio Mix.

Bom, mas naquele início de década, sem os feitores no pedaço, os amotinados se aproveitaram das circunstâncias para dominar o navio. Em resumo, menos de dois anos depois, a rádio havia voltado ao formato pasteurizado que domina as FMs do país – e haja abobrinhas vomitadas ininterruptamente por locutores metidos a “expertos”. Fazer o que?

MAIS DO MESMO

1. Fiquei sabendo hoje de manhã que no último domingo faleceu a esposa do meu mano Ozimar, funcionário da ALE e presidente perpétuo da agremiação cultural Jovens Livres, da Cachoeirinha, atual campeão de futebol na categoria Masters, do “Peladão”, promovido pelo jornal A Crítica. Não conheci a esposa do Ozimar, que faleceu jovem, aos 45 anos. Soube que ela era doente renal crônica e que se submetia àquelas inenarráveis sessões de hemodiálise três vezes por semana. Tenho alguns amigos que convivem com esse pesadelo há mais de 15 anos. É um sofrimento indescritível, pros paciente e pros seus familiares, totalmente impotentes diante do problema. Espero, de coração, que a esposa do Ozimar tenha, finalmente, encontrado a paz ao lado do Criador. E me irmano a ele e aos seus filhos nessa dor dilacerante. Minhas condolências sentidas, querido Ozimar. E que sua esposa vele por nós.

2. A Thalita Rocha Borges me deu esse toque:

Sou filha de Caio Borges, e em uma de minhas navegadas em busca de algo que matasse a minha saudade, achei seu blog que falava sobre ele! Caio (era assim que gostava de ser chamado até pelos filhos) era um homem maravilhoso, inexplicavelmente irreverente. Gostaria de agradecer seus sentimentos, e convidar a todos os amigos para a missa de 7° dia que será realizada na próxima sexta-feira, dia 3, na Capela São João Batista, ali na Manaus Moderna, próximo da Montanna (Centro) às 19hs. A presença de todos é indispensável. Mais uma vez, obrigada pelo carinho!!!

So sorry, Thalita, mas, infelizmente, nesta sexta-feira ainda vou estar em Manacapuru, acompanhando o deputado Ângelus Figueira nessa sessão itinerante da ALE. De qualquer maneira, vou estar junto com vocês em espírito e pensamento. Meu brodão Caio Borges vai entender e perdoar. Beijão no coração. (SP)

quarta-feira, abril 01, 2009

Na rádio da onda


Érika Tatiana no primeiro dia em que entrou na BICA, com Mario Toledo no gogó, Cid, meio encoberto, de backing vocal, e Arnaldo estraçalhando o sete cordas


Uma gazela sensual desfilando na cova dos leões


Érika Tatiana exibindo sua segunda fantasia para a turma do gargarejo


Chicão Cruz, Érika Tatiana, Jomar Fernandes e Joana Meireles colocando a BICA pra zoar

Era uma quarta-feira, no início de novembro de 1998. De repente, um dos diretores de bateria do GRES Andanças de Ciganos, Mestre Bá, me procurou na rádio Novidade FM para tratar de um assunto da maior gravidade. Além de ser meu amigo de adolescência desde os tempos heróicos da Cachoeirinha, de vez em quando o Bá trabalhava como meu “motorista particular”, em virtude de possuir um táxi. A conversa soou meio esquisita.

Ele tinha uma candidata a rainha do Carnaval que, inexplicavelmente, havia sido “limada” pelo presidente da escola, meu velho amigo Edson Jaburu. Como, pela primeira vez, a Associação do Grupo Especial de Escolas de Samba de Manaus (Ageesma), promotora do evento, estava aceitando inscrições avulsas, ele queria saber se a rádio Novidade FM poderia apadrinhar a candidata.

Argumentei que não era diretor da rádio, que precisava primeiro falar com o Armandinho, etc e tal, mas ele não se deu por vencido. Praticamente me levou à força para conhecer a candidata, que aguardava na recepção da emissora. Bom, foi colocar meu olhar clínico em cima da menina para perceber que estava diante de um verdadeiro monumento.

Fiquei tão empolgado com o que vi que, na mesma hora, invadi a sala do Armandinho com a menina a tiracolo. Armandinho ficou mais empolgado ainda. Expliquei rapidamente a situação. Começamos a conversar com a menina. Apesar das medidas exuberantes (1,75cm, 56 kg, 90 de busto, 65 de cintura e 98 de quadris), ela era estudante da oitava série do Colégio Militar e tinha somente 14 anos. Depois de meia hora de conversa, nos despedimos da garota. Ela e Bá foram embora.

Armandinho, que nessa época havia descoberto os prazeres eflúvios do narguilé e queria me iniciar na prática, acendeu o tabaco, colocou a piteira na boca, deu uma longa baforada na minha direção e abriu seu coração de sufi naqshbandi:

– Velho, isso aí é encrenca na certa... No mínimo, vão nos acusar de pedofilia... Os caras (leia-se “a imprensa de Manaus”) vivem querendo acertar o passo do meu pai (leia-se “o então governador Amazonino Mendes”)... Pra evitar problemas, não aceito nem mídia paga do governo... Se a gente entrar nessa, escreve aí, eles vão nos sacanear... É uma pena, porque ela é muito bonita, simpática, desinibida e tem tudo pra ganhar o concurso...

Contra-argumentei. A gente podia criar a Banda da Novidade FM. Seria um lance de carnaval, igual a tantos outros. Tipo a Banda do Coração Blue. Ou a Banda da Difusora. Armandinho se mostrou irredutível. Fiquei tão puto que nem toquei no narguilé.

No dia seguinte, liguei pro Bá, pra dar a má notícia. O meu motorista ficou desolado. Na realidade, ele precisava apenas de umas merrecas pra pagar a fantasia da menina, que já havia sido confeccionada. Falei que, quanto a isso, ele ficasse despreocupado que eu arranjaria a grana.

Na mesma noite, expliquei o acontecido pra diretoria da Banda Independente Confraria do Armando (BICA). Como o GRES Reino Unido da Liberdade resolvera homenagear Armando Soares e a BICA no enredo de 1999, para falar dos 500 anos de descobrimento do Brasil, a gente adotara o samba-enredo da escola como marchinha da banda. Daí que as atividades da diretoria limitavam-se a administrar o pardieiro e esperar pelo desfile da BICA e da Reino Unido.

Os vagabundos também não botaram fé no meu relato. Se era para inscrever alguém da BICA, que eu inscrevesse a Petronila, nossa musa sexyxagenária, que assim a gente desmoralizava de vez o evento da Ageesma.

Resolvi pegar o pião na unha (é, homeboys, eu continuava empolgado pela moleca). Autorizei o Bá a inscrever a Érika Tatiana (esse, o nome da deusa) como representante da BICA e lhe dei a grana para pagar a fantasia da menina. Com uma condição: na quinta-feira seguinte, ela ia entrar fantasiada no Bar do Armando e fazer um pré-show pra rapaziada.

Na quinta-feira seguinte, eu, Dinari, os pais da deusa (Paulo e Cristina, se não me engano), Bá e sua digníssima Marcita (cabeleireira, porta-bandeira e aderecista do GRES Andanças de Ciganos), Marcos Gomes e Érika adentramos no gramado e ficamos concentrados ao lado do boteco, no pátio da casa onde hoje funciona o Itec, do Carlos Araújo.

Quando o grupo Pró-Álcool – com o carismático Mário Toledo nos vocais, mestre Arnaldo no violão de sete cordas, Cid no repique de mão e no backing vocal, Helinho do Parque no tamborim e Ari de Castro Filho no banjo envenenado – começou a incendiar o cabaré, eu aproveitei um dos intervalos musicais para anunciar o novo desafio da BICA (disputar o título de Rainha do Carnaval amazonense) e chamei a Érika, para se exibir pra cachorrada.

A sacana entrou quebrando, mostrando muita ginga, sensualidade, samba no pé e (desculpem, mas é verdade) um popozão simplesmente magistral. Teve gente que quase enfartou. Durante meia-hora, ela hipnotizou a platéia. Me senti o próprio John Casablanca ao revelar pro mundo a Gisele Bundchen...

Deixamos o pardieiro por volta da meia-noite e fomos comemorar a belíssima apresentação da moleca no bar do Charles. Fiquei amigo íntimo dos meus futuros sogros, digo, dos pais da Érika, que eram bem mais novos do que eu. Conversei com a nossa rainha por quase duas horas (lance profissional, apenas para ter subsídios para elaborar os releases pra mídia). Fiquei encantado com sua pureza angelical (sim, era virgem). Estava noiva de um tenente do Exército e ia casar de véu e grinalda.

A diretoria da BICA resolveu apoiar integralmente a candidata, desde que toda quinta-feira ela aparecesse no mafuá e sambasse um pouquinho com a galera, no que ela concordou. Coube a Jomar Fernandes e Chicão Cruz encabeçar a cota para confeccionar mais duas fantasias para a beldade. Fiquei encarregado de representar a banda no concurso. A imprensa começou a fazer matérias do cacete sobre a nova epopéia dos biqueiros. Uma farra!

No dia do concurso, uma sexta-feira de janeiro de 1999, no Sambódromo, eu e Dinari estávamos com o coração na mão porque havíamos combinado com ela de nos encontrarmos na minha casa, às 19h, e às 20h, ela ainda não havia dado sinal de vida. Desconfiei que a Érika havia desistido. Adolescente é um bicho complicado.

Por volta das 20h30, quando a gata finalmente chegou, foi um alumbramento. Apesar de nervosíssima, ela estava simplesmente exuberante (tinha 14 anos, pois não!). Sua nova fantasia era de tirar o fôlego. A Marcita havia se superado. O ódio de não ter uma máquina fotográfica para registrar aquele momento ímpar até hoje me corrói as entranhas.

Chegando no Sambódromo, nós quatro (eu, Dinari, Bá e Marcita) falamos o básico: ela não estava ali colocando sua vida em jogo. Perder ou ganhar não significavam nada. Bastava ela relaxar e fazer o que sabia, que era sambar divinamente bem. A Érika ficou mais calma e foi para os bastidores.

Aí, quem ficou nervoso foi a gente. Pra acalmar a galera, fui ver quem eram os jurados. Os sete (não vou nomear, porque senão vira sacanagem) eram todos meus amigos do peito. Falei que a BICA tinha uma candidata (cinco deles eram biqueiros de carteirinha), mas que eles ficassem à vontade pra dar a nota que quisessem. Pela conversa que tivemos, discretamente, qualquer nota inferior a dez que a Érika tirasse seria motivo pra eu armar o maior barraco.

As candidatas começaram a se apresentar. Como eu era dirigente oficial da BICA, fiquei a dois metros de distância do palco, enchendo a cara de (argh!) cerveja Skol em lata, praticamente ao lado da mesa de jurados. Cada um deles daria três notas, de 5 a 10: simpatia, samba no pé e performance (eufemismo pra “corpão fazendo o créu”). Quando percebi o nível das outras candidatas, comecei a achar que o título estava no papo.

Além de ser, disparada, a mais novinha e exuberante entre as outras dezenove candidatas concorrentes, Érika Tatiana tinha outra virtude: era a única que sabia sambar com uma sandália-plataforma de 15 cm. Com seus 1,75cm de altura, 90 de busto, 65 de cintura e 98 de quadris, ela virava uma gigante diante das outras raquíticas candidatas. Sua vitória estava escrita nas estrelas.

A apresentação dela deixou todo mundo arrepiado. Acho (não tenho certeza) que ela me localizou ali na frente do palco e imaginou estar sambando só pra mim. O tempo todo sorrindo e sem tirar os olhos desse vosso escriba, ela fez coisas que até Deus duvida. Quebrou legal, de samba de pagode a cripto-marchinhas estilo frevo, jogando os braços com uma classe de deixar qualquer um boquiaberto.

Basta dizer que na hora do “créu”, a Érika, com a dignidade de uma princesa munduruku, deu um giro de 90 graus, ficou de costas para os jurados, segurou as pernas abaixo do joelho e fez seu popozão sacolejar em 220 volts. A galera foi à loucura. Os aplausos, ensurdecedores. Depois, deu outro giro de 90 graus e saiu sambando de costas até sair do palco. Carmem Miranda teria tirado o chapéu.

Depois de meia-hora, que pra mim demoraram um século, Edson Jaburu (sim, ele mesmo!) veio dar o resultado. Em primeiro lugar, Irlane Vasconcelos, candidata do GRES Andanças de Ciganos, com 196 pontos. A Érika havia ficado em quarto lugar com 190 pontos. Pedi pra conferir as notas dos jurados. Jaburu falou que, pelo regulamento da Ageesma, só os presidentes de escolas do grupo especial tinham acesso ao documento. Se o Mestre Bá não me segurasse, eu tinha enchido ele de porrada ali mesmo.

A Érika, claro, estava inconsolável. Chorava igual a uma criança. Decepcionadas e irritadas, Dinari e Marcita tentavam consolar a princesa, mas era inútil. Fui peitar os jurados. Todos eles juraram de pés juntos que haviam dado as notas máximas pra Érika e que não sabiam o que havia acontecido. Como eu estava meio alcoolizado (cerveja Skol em lata é uma merda!), não percebi a ladroagem primária: duas notas da Érika simplesmente não haviam sido computadas. Ela havia feito 210 pontos.

Se, na pior das hipóteses, a nossa rainha tivesse tirado duas notas mínimas nesses dois quesitos faltantes, ainda assim teria chegado aos 200 pontos e vencido o concurso – o que dá pra perceber a medida da “mão grande” desses vagabundos da Ageesma.

Na terça-feira, por meio do jornal Amazonas em Tempo, denunciei a esculhambação – inclusive mostrando uma cópia do resumo de apuração das notas, onde faltavam as duas pontuações da Érika. Os diretores da Ageesma, covardemente, se fizeram de mortos.

Em protesto, a BICA resolveu nunca mais participar dessas vagabundagens oficiais. Érika Tatiana passou a ser a primeira e única “Rainha do Carnaval da BICA” (a Petronila, claro, continua reinando soberana como musa inspiradora e rainha da banda). Na seqüência, o GRES Reino Unido ganhou o carnaval daquele ano, com a Érika Tatiana de destaque na Ala dos Biqueiros.

Não vejo a minha musa há dez anos. Soube que ela casou (não sei se com o tenente do Exército) e que agora é mãe de dois moleques. Espero sinceramente que ela esteja feliz. Noblesse oblige. Pelo destaque que deu ao nosso carnaval daquele ano, Érika Tatiana merece muito mais do que isso. O resto é história.