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terça-feira, novembro 09, 2010

Desapresentação ou tá todo mundo loco?

Zemaria Pinto (*)

A ficção sempre andou à frente da história. Testemunha viva do seu tempo, a ficção é um inventário de atos e fatos que a história, sempre escrita depois, esqueceria, se não se valesse do registro ficcional. Por outro lado, a crônica é um gênero essencialmente marginal: misto de ficção e história, não tem com esta o compromisso da verdade, nem com aquela as sutilezas da linguagem. Mas é preciso que haja verossimilhança – isto é: pode até não ter acontecido assim ou assado, mas, do jeito como é contado, até que poderia ser verdadeiro...

E o que uma outra tem a ver com a coisa? Elementar, meu caro Sancho: o leitor tem nas mãos um livro de crônicas – que registram acontecimentos com personagens reais, muitos ainda vivos (aliás, muito vivos!), passados num tempo recente –, mas que pode ser lido como pura ficção, salientando-se o estilo soberbo do autor, sem nenhum exagero, radicalizando entre a rudeza de um Plínio Marcos e a alegre amargura de um Nelson Rodrigues – que, antes de serem grandes dramaturgos, eram putas cronistas. Numa palavra: ironia, escárnio, deboche – escolha. Mas não é só isso: Sanatório Geral é um belo livro de história, embora alguns historiadores barés torçam seu nariz de cera a ele e prefiram ignorar os “causos” que humanizariam as personagens que eles insistem em endeusar.

Projetado para ser lançado em seis volumes, Folclore Político foi apenas até o terceiro, paralisado pelo olho gordo e pelos despachos (em todos os sentidos) dos desafetos, “ofendidos” com as historinhas capazes de deixar nu em pelo qualquer candidato a rei. E como tem rei nu nesta imensidão amazônica! Daí que Simão Pessoa, por dúvida das vias, depois de muitos processos e ameaças de morte, foi procurar inspiração em reis de outras freguesias, o que só aumentou a abrangência deste Sanatório, que deixa de ser meramente paroquial para ser supranacional.

Mesclando casos clássicos da história política brasileira com inimagináveis, sórdidas, engraçadíssimas e tristes picuinhas regionais, que cairiam no esquecimento se não fosse pela verve de Simão, Sanatório Geral é um autêntico tratado sobre essa arte tão abandalhada da política. Anarquista, Simão não livra a cara da direita nem da esquerda, muito menos dos muristas (não confundir com muralistas) – onde se classifica a supremacia dos políticos do Amazonas, mais preocupados em inflar suas gordas contas bancárias e massagear seus egos de baiacu que em melhorar minimamente as condições de vida do povo.

E para quem ainda não entendeu o título, esclareça-se: “dormia a nossa pátria-mãe tão distraída / sem perceber que era subtraída / em tenebrosas transações... / palmas pra ala dos barões famintos / o bloco dos napoleões retintos / e os pigmeus do boulevard... / o estandarte do Sanatório Geral vai passar!” Trata-se de um falso samba-enredo do inexorável e inoxidável Chico Buarque; mas essa metáfora do sanatório me parece que é bem mais antiga: Machado de Assis? Lima Barreto? Oswald de Andrade? Seja de quem for, agora é do Simão, porque concretiza o intertexto perfeito entre continente e conteúdo: a política brasileira é mesmo isso – um imenso hospício, onde os loucos mais safados se fazem de doidos incuráveis para ser tomados pelos mais doidões como menos loucos, capazes, portanto, de guiá-los no escuro labirinto de sua crônica insanidade. Entendeu?


(*) Zemaria Pinto, escritor e blogueiro, é doido manso.

Nota do editor do blog: esse texto acima é a apresentação do livro Sanatório Geral, que eu pretendia publicar antes do final do ano. Missão impossível. Como ainda não pintou um patrocinador decente para bancar a impressão do livro, vou começar a publica-lo aqui no mocó. Sorria, periferia!

Sanatório Geral (1)

Álvaro Maia nasceu no seringal Goiabal, no rio Madeira, em Humaitá, mas veio criança para Manaus, onde fez primário e secundário.

Começou a trabalhar no Jornal do Comércio com 16 anos.

Fez o serviço militar no 26.º Batalhão de Caçadores, tendo como companheiros de caserna o artista plástico Branco e Silva e o poeta Américo Antony.

Alguns anos depois, Álvaro Maia foi cursar Direito no Ceará, mas depois se mudou para o Rio de Janeiro, onde acabou se formando.

Quando retornou a Manaus, se tornou jornalista militante, ativista político e poeta nativista por conta da famosa Canção de Fé e Esperança, publicada no início dos anos 20.

Após a Revolução de 1930, foi nomeado interventor federal, tendo se exonerado do cargo no ano seguinte.

Em 1935, foi escolhido senador pela Assembleia Estadual e, depois, também em eleição indireta, virou governador.

Com o golpe político do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, foi nomeado outra vez interventor federal, mantendo-se no poder até a queda de Getúlio Vargas, em 29 de outubro de 1945.

Assim que assumiu o latifúndio amazonense, Álvaro Maia escolheu os prefeitos, promotores e juízes entre seus amigos mais chegados, despachou cada um deles para a sua respectiva cidade e ficou em Manaus cuidando do governo.

Do governo e da poesia. Gostava de perpetrar versos e promover saraus literários no Palácio Rio Negro.

Publicou livros, alguns elogiados pela crítica, como Buzina dos paranás.

Para ele, um bom verso valia mais do que um bom despacho.

Um dia chega a Manaus o prefeito de Lábrea, lá no infinito do rio Purus, quase no Acre.

– Senhor interventor, vim solicitar-lhe a demissão ou transferência do promotor Dr. Américo Antony. Está dando escândalos na cidade. Ele bebe muito e outro dia ficou nu na beira do rio. E há coisa pior, muito pior, senhor interventor! Além de todos esses vexames, o Dr. Américo Antony também é poeta e vai acabar levando nossos jovens para esse mau caminho...

O interventor nem pensou duas vezes.

O promotor foi mantido no cargo, mas o prefeito foi exonerado na mesma hora.

É pra isso que servem os amigos de caserna e os cultores de poesia, não necessariamente nesta ordem.

Sanatório Geral (2)

Fevereiro de 1985. Eleito pelo PDS, o prefeito Raimundo Sobrinho, de Boa Vista do Ramos, estava tendo dificuldades para “rolar” a dívida do município e pediu ajuda ao deputado estadual Átila Lins, para agendar um encontro dele, Sobrinho, com o governador Gilberto Mestrinho.

O ajuste fiscal que o boto navegador estava promovendo no Estado estava tirando o sono dos alcaides.

Na manhã de uma sexta-feira, o telefone do prefeito tocou.

Do outro lado da linha, Átila Lins:

– Prefeito, estou aqui em Urucurituba. Pega uma voadora e se manda pra cá, que o governador vai lhe receber em audiência.

No início da tarde, Sobrinho chegou a Urucurituba, debaixo de um temporal diluviano.

As ruas de barro haviam se transformado em cachoeiras de lama.

Para não sujar a imaculada calça de linho, o prefeito enrolou a bainha da calça até o meio da canela.

Quando o prefeito entrou na sala da prefeitura, onde o governador estava realizando as audiências, o deputado percebeu que ele ainda estava com as calças enroladas.

Átila Lins se aproximou discretamente do prefeito e sussurrou no seu ouvido:

– Abaixe a calça, prefeito!

Sobrinho levou um susto.

– Já?!! – reagiu. “Eu pensei que a gente pudesse primeiro negociar...”.

O deputado teve um trabalho do cão para desfazer o mal-entendido.

Sanatório Geral (3)

Nascido em Humaitá, Plínio Ramos Coelho era o líder de maior importância entre os políticos amazonenses que se tinham revelado com a queda da ditadura getulista em 1945.

Advogado e jornalista, ele levantava as massas com a sua oratória brilhante e a sua posição firme e vigilante em defesa dos interesses dos trabalhadores e da moralidade da administração pública – o que lhe valeu ser chamado de “o Ganso do Capitólio”.

Elegera-se sucessivamente deputado estadual constituinte em 1947 e deputado federal em 1950, sempre sob a bênção de Álvaro Maia, mas não tardaria a romper a aliança com o pessedismo e tornar-se o mais duro crítico do seu ex-mentor.

Ao assumir a liderança da oposição comandando o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ele se lançou candidato ao governo contra Ruy Araújo, o candidato da situação.

A futura consagração de Plínio Coelho nas urnas sinalizaria o ocaso da longa trajetória política de Álvaro Maia.

Em agosto de 1954, Plínio Coelho realizou um gigantesco comício no bairro da Praça 14, cujas ruas esburacadas, sem iluminação e tomadas pelo mato eram uma fonte permanente de dor de cabeça para os moradores.

– Se for eleito, minha gente humilde da Praça 14, eu prometo iniciar o saneamento das finanças públicas do Estado para readquirirmos nossa capacidade de investir na infraestrutura e avançarmos rumo à justiça social – vociferou Plínio. “Para tanto, vou criar uma série de empresas de economia mista, como Celetramazon, Papelamazon, Alimentamazon, Telamazon, Cimentamazon e Transportamazon. Essas empresas vão significar a redenção do homem da capital e de nossos irmãos desassistidos nos grotões do interior”.

O discurso seguiu nesse diapasão, entre o técnico e o messiânico.

O povão não entendia direito, mas aplaudia com fervor quase religioso.

Um assessor discretamente cochichou para o orador sobre aquilo que a população realmente desejava ouvir: uma solução para o problema das ruas do bairro.

Plínio não contou conversa:

– Por último, meus amigos, eu quero reafirmar que uma das minhas primeiras medidas como governador será fazer um arruamento à altura deste bairro tão querido e bonito. Quem votar no PTB vai ficar de cima! Podem anotar! Quem votar no PTB, quem votar comigo, vai ficar de cima! Vai ficar de cima!

Os urros e vivas da multidão davam pra ser ouvidos no Seringal-Mirim.

O bairro da Praça 14 votou maciçamente em Plínio Coelho, que acabou sendo eleito.

Em junho de 1955, uma patrulha mecanizada do DER-AM se estabeleceu no bairro para começar a fazer o arruamento.

Seis meses depois, quando a patrulha se deslocou para repetir a dose no bairro da Cachoeirinha, a Praça 14 estava completamente mudada.

As casas da rua Nhamundá, por exemplo, estavam agora a três metros de altura do nível da rua.

Idem as casas das ruas Tarumã, Japurá, Apurinã, Afonso Pena etc.

O novo governador havia cumprido a promessa: fez um arruamento profundo, à altura da expectativa dos eleitores, e o povão agora estava “de cima”...

Sanatório Geral (4)

Polêmico. Este é o adjetivo mais utilizado e que geralmente acompanha o nome de Carlos Lacerda.

Eloquente, sagaz, intempestivo, passional, dono de uma oratória admirável, Lacerda foi o último dos grandes nomes da política brasileira capaz de inflamar paixões por meio de um discurso.

O nariz aquilino, os olhos vivos e a voz que assustava os adversários – para ficarmos nas explicações mais leves – lhe valeram o apelido de “o Corvo”, dado por seus desafetos.

Nascido no dia 30 de abril de 1914, no Rio de Janeiro, Lacerda foi jornalista, escritor, empresário e político – vereador, deputado federal, governador e candidato à Presidência da República –, além de ser um importante personagem durante três décadas de História brasileira.

Fundador do jornal Tribuna da Imprensa, Carlos Lacerda também ficou conhecido como “Demolidor de Presidentes”. Foi pivô da morte de Getúlio, e dos afastamentos de Café Filho, Jânio e Jango.

Suas obras? Foram mais de mil realizadas. Quase uma para cada dia de seu governo. Lacerda governava da rua. Ele gostava de dizer que podia ouvir o que lhe diziam e o que dele falava o povo.

Construiu o Parque do Flamengo e a Praia do Flamengo, que até hoje as pessoas chamam de “Aterro do Flamengo”.

Removeu favelas, construiu a Vila Kennedy, por intermédio da Cohab – Companhia Estadual e Habitação, que abrigou na época 12 mil famílias.

A Adutora do Guandu – 43 quilômetros de túneis por onde corre água, que até hoje abastece a população do Rio – foi construída em seu governo.

Com um empréstimo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) investiu maciçamente em Saúde e Educação. Sucesso total.

Em quatro anos e meio foram construídas 282 escolas com 1.552 salas de aula para mais de cem mil crianças, entre oito e 14 anos, que anteriormente não encontravam vagas.

Os hospitais públicos estavam aos pedaços. Além de reaparelhar os hospitais, ele duplicou o Hospital Miguel Couto que se tornou padrão de qualidade.

Abriu os túneis Rebouças e Santa Bárbara, criou a Sala Cecília Meireles, construiu os trevos dos Marinheiros e o Faria-Timbó, recuperou o Teatro Municipal, abriu 600 quilômetros de esgotos.

Deixou projetados na prancheta os traçados da Linha Vermelha e da Amarela.

Governou com uma equipe enxuta de profissionais.

No último dia de seu governo requisitou um canal de TV e ficou 24 horas no ar prestando contas de seus atos.

Além de grande governador e grande tribuno, também era grande jornalista.

Na ocasião em que dirigia seu jornal, Tribuna da Imprensa, não tolerava duas expressões usadas à exaustão nas redações brasileiras, principalmente na hora da preguiça: “via de regra” e “por outro lado”.

Lacerda ficava furioso:

– Via de regra pra mim é boceta! – vociferava. “E por outro lado é cu!”.

O jornalista que usasse essas expressões era demitido sumariamente.

Essa lição deveria ser ensinada à exaustão nos cursos de Comunicação da cidade.

Sanatório Geral (5)

Junho de 1994. Ex-secretário estadual de Educação, o deputado federal José Melo (PFL), candidato à reeleição, está fazendo uma reunião com pais, alunos e professores na cidade de Benjamin Constant, em uma das escolas públicas do município.

A quadra da escola está completamente lotada.

José Melo começa um discurso inflamado sobre a necessidade de manter nas escolas as crianças entre sete e 14 anos, mas percebendo a indiferença da plateia resolve mudar de tática:

– Aqui vocês têm escola digna do nome? – vocifera

– Não! – a plateia berra, num coro ensurdecedor.

– Aqui vocês têm fardamento decente?

– Não! – a plateia responde, cada vez mais animada.

– Aqui vocês têm merenda escolar?

– Não!

– Aqui vocês têm atividades extracurriculares?

– Não!

– Aqui vocês têm professores qualificados?

– Não!

Desolado, José Melo encerra seu discurso derrubando o rei:

– Também, quem manda vocês estudarem nessa merda...

Foi o deputado federal mais votado no município.

Mordida de cobra

Numa fazenda em São Paulo – onde se cria gado Tabapuã, raça eminentemente brasileira –, Maria Elisa, Alberto e Carlos Artur, filhos do proprietário, recebiam para um grande almoço em torno de uma só mesa, ricos fazendeiros do Sul (interessados na compra de touros para reprodução) e outros visitantes ilustres, diplomatas estrangeiros, gente finíssima.

Lá pelas tantas, invade a sala uma cachorrona intrusa, imediatamente expulsa pelos anfitriões que se desculparam com os convivas alegando que a cadela estava muito carente, pois tinha perdido o companheiro na véspera, picado por cobra.

Cobra? Naquela fazenda limpíssima, cuidadíssima, bacanérrima?

Explicou-se. Caso raro. Às vezes uma ou outra cobra escapa dos cuidados da peonada.

Percebendo que os comensais já estavam ficando à beira de um ataque de nervos por causa da história, disseram que a mordida fatal foi a quilômetros de distância da casa grande.

Entrou uma das criadas e Maria Elisa, para reforçar o clima de segurança do almoço, perguntou:

– Fátima, onde foi que a cobra mordeu o Ringo?

Serena e precisa, a moça informou:

– Nos culhão.

Causos de Bambas: Millôr Fernandes

O avião faz um pouso técnico em Lisboa que duraria umas três horas.

Dois passageiros do vôo, Millôr Fernandes e Paulinho Mendes Campos, resolveram aproveitar o tempo para dar uma volta pela cidade e para isso perguntaram a um policial qual o procedimento legal.

– Há duas maneiras! – respondeu o gajo. “A primeira, os senhores entrem naquela bicha (fila), carimbem os passaportes, assinem uns papéis e, na volta, entram de novo na fila, mais um carimbo, mais uns papéis.”

– E a segunda? – perguntou Millôr Fernandes.

– É à brasileira. Saiam e retornem por aquele portão.

Causos de Bambas: Assis Chautebriand

Assis Chateaubriand passando pela Avenida Atlântica viu uma belíssima mulher, muito alinhada, acenando para os táxis que passavam lotados.

Mandou o chofer dar a volta, encostar e oferecer condução á senhora que, diante da confiabilidade do trio – motorista, patrão, automóvel – aceitou de bom grado.

Apresentações, conheço de nome, para onde a senhora está indo, papos corriqueiros, intenções idem.

– Aceita? – a madame abre uma cigarreira de prata, oferece a Chateaubriand que recusa num gesto e num gesto ordena que o chofer regresse ao ponto inicial da carona, onde expulsa a passageira.

Gostava de mulher, mas tinha horror a cigarro.

Causos de Bambas: Milton Ilha Rasa

Os olhos ambos esbugalhados à força não de disfunção da tiroide, mas de agentes externos mesmo (a popular diamba, birra, bengue, pango, jererê, maria joana, kaya, mato, surema, pererê, fumacê, dirijo. Vocês sabem).
Chamavam-no Milton Ilha Rasa, sutil referência ao farol que lá se ergue.

O Milton era uma espécie de São Cristovão: grandalhão e santificado, só queria dar os tainhas dele e cantar samba raiado a pedido de João Gilberto, que adora cutucar folclore.

Uma noite, João está reunido no Bar Restaurante Zeppelin, central de atividades gratuitas da extinta Ipanema, com dois empresários interessados em lhe engordar os ganhos, na época ainda magros.

Entra Milton, vê o João, encaminha-se na sua direção. O cantor corta a investida do Milton com um olá gelado, distante, irreconhecível.

O visitante, desapontado, senta-se duas ou três mesas adiante e se põe, na cara de pau, a enrolar lentamente um charo.

Quando termina a fase industrial da operação, passa ao consumo.

Acende a beata, escancara mais os olhos e ocupa todo o espaço do bar com a voz colossal, voz de assombração, e oferece ao vizinho:

– Ô João! Vai num fuminho?

Isso alto. Apesar de usuário de carteirinha, João empalidece, pede licença, levanta-se, aproxima-se do Milton e diz baixo:

– Muito obrigado, Milton. Obrigado por mim, pela Astrud, pelo Marcelo.

O Milton arremata a grossura:

– Atacando de Santíssima Trindade é, bicho?

Causos de Bamba: Adolfo Bloch

Almir, um dos motoristas da Manchete, não recolheu a caminhonete à garagem, como era sua obrigação, e a viatura sob sua responsabilidade foi roubada de noite, na porta da casa onde ele dormia, no subúrbio.

Cientificado do fato, Adolfo Bloch convocou a presença do empregado e, naturalmente, disse-lhe as últimas, expulsou-o do emprego e mandou a secretária chamar a polícia.

O Almir arranjou uma brecha e explicou:

– Seu Adolfo, é o seguinte. Minha patroa está doente há quatro meses e devez em quando, o senhor sabe como é, eu vou dormir na casa de uma criatura para quem dou uma situação. Aí, aconteceu essa desgraça.

Adolfo, furibundo, não quis papo e fez um sinal para que o outro se retirasse, já não havia nada a dizer.

O Almir chegou à porta da sala, foi interrompido pelo Adolfo, meio hesitante, mas já predisposto ao perdão, precisando só de uma desculpa:
– A foda foi boa?...

quinta-feira, novembro 04, 2010

25 discos de Blues para você ouvir antes de morrer


ROBERT JOHNSON - The Complete Recordings
Todas as 41 músicas gravadas pelo maior mito do blues estão reunidas nesta caixa com dois CDs, lançada em 1990. O grande lance desta reedição é a restauração digital das masters. Todas as músicas que inspiraram lendas como Eric Clapton, Jimmy Page, Mick Jagger e Keith Richards estão Lá: “Crossroads Blues”, “Rambling on my Mind”, “Sweet Home Chicago”, “Walking Blues”, “Traveling Riverside Blues”, “Love in Vain”... Mais do que fundamental.
BESSIE SMITH - Empress Of The Blues
Esta soberba coletânea da Imperatriz do Blues, apelido oficial de Bessie Smith, mostra porque as mulheres tiveram importância total nos primeiros anos do estilo. Com faixas gravadas entre 1923 e 1933, Empress Of the Blues é de emocionar até pedra no deserto. Só “Nobody Knows When You’re Down And Out” e “Baby Won’t You Please Go Home” já valem o investimento.   
 HOWLIN’ WOLF, MUDDY WATERS & BO DIDDLEY -The Super Super Blues Band
Um encontro de três gênios do blues elétrico. Gravado em Chicago em 1967, o álbum registra uma jam session histórica, com a ajuda do jovem Buddy Guy no baixo. Enquanto isso, Bo, Muddy e Wolf revezam-se nas guitarras e vocais. Versões poderosas de “Long Distance Call”, “Sweet Little Angel” e “The Red Rooster”. 
 B.B. KING - Live In Cook County Jail
Gravado durante uma festa numa prisão em 1971, este é um dos mais contundentes discos ao vivo já gravados. B.B. bate papo e mexe com a emoção dos presos e suas mulheres, que respondem aos lamentos do bluesman com o coração na mão. Releituras sensacionais de “Everyday Have the Blues”, “How Blue can you Get?”, “3 O’Clock Blues” e “Sweet Sixteen” são os destaques.
 STEVIE RAY VAUGHAN - Texas Flood
Primeiro e mais tosco disco do grande bluesman dos anos 80, Texas Flood abriu as portas do saloon para Stevie Ray. Com a produção do lendário John Hammond e litros e litros de bourbon goela abaixo, o guitarrista chegou chutando tudo. Seu estilo selvagem influenciou toda uma geração e balançou o mundo do blues. A faixa titulo, “Dirty Pool” e os instrumentais “Testify” e “Rude Mood” são um aperitivo do estrago que o selvagem Stevie Ray causaria.
 THE ROBERT CRAY BAND – Who’s Been Talkin’
Ótima estréia do bluesman que daria novo fôlego ao estilo nos Estados Unidos a partir de 1980. Seu timbre vocal de soulman e sua guitarra cristalina conquistariam o mundo na sequência. Neste disco, Cray ainda não havia sido contaminado pelo pop fácil que quase o derrubou depois e mostrava que entende muito de blues. 
 JOHN LEE HOOKER - Chill Out
Lançado em 1995, Chill Out revela um John Lee Hooker adaptado aos novos tempos sem deixar de ser fiel às suas raízes. A saborosa “Chill Out (Things Gonna Change)” é pontuada pela guitarra temperada do discípulo Carlos Santana, enquanto “Annie Mae” e “One Bourbon, One Scotch, One Beer” remetem ao Lee Hooker das antigas. 
 WILLIE DIXON - The Big Three Trio
Antes de tornar-se o principal parceiro de Muddy Waters, o baixista Willie Dixon tentou a sorte com dois de seus melhores amigos, o guitarrista Bernardo Dennis e o cantor e pianista Leonard “Baby Doo” Caston, tocando standarts do blues e composições próprias. Um ótimo registro do talento em formação do grande compositor de “Walking Blues”, “Mannish Boy” e “Hoochie Coochie Man”.
 BUDDY GUY & JUNIOR WELLS - Play The Blues
O casamento perfeito entre a guitarra de Buddy Guy e a gaita de Junior Wells viveu seu apogeu neste álbum. Temperado com a dose certa de soul music, o disco é uma festa do começo ao fim, com destaque para o suingue de “Man of Many Words” e “Messin’ with the Kid”. Uma ótima oportunidade para lembrar o grande Junior Wells, morto em 1998, aos 63 anos.
 JANIS JOPLIN - Live At Winterland’ 68
O mais cultuado CD póstumo de Janis a pintar nas lojas, Live at Winterland’ 68 é o registro de um show inspirado da maior cantora branca de blues da História. Mesmo acompanhada pela fraquinha Big Brother and the Holding Co., Janis brilha em “Summertime”, “Ball and Chain” e “Down on Me”.
 CREAM - Those Were The Days
Caixa com quatro CDs imprescindível para quem quer entender o blues psicodélico. Seja nas gravações em estúdio ou nos registros ao vivo, quando Jack Bruce (baixo), Ginger Baker (bateria) e Eric Clapton resolviam mergulhar no blues, o resultado era de babar.
 B.B. KING - Lucille & Friends
Esta coletânea traduz de forma perfeita o lado “universal” da carreira de B.B. King. O disco traz parcerias com figuras de todo tipo: U2, Stevie Wonder, Vernon Reid (Living Colour), Ringo Starr e os bluesmen John Lee Hooker, Albert Collins e Robert Cray. Chega a soar comercial, mas sem perder um pingo da sinceridade. 
 JOHN MAYALL - Blues Breakers With Eric Clapton
Quando Clapton largou os Yardbirds, que considerava comercial demais, só havia um lugar para ele na efervescente cena do blues londrina: ao lado de John Mayall, pianista, cantor e profundo estudioso do estilo. Juntando a fome com a vontade de comer, os dois gravaram um álbum histórico, uma espécie de embrião do blues vigoroso que Clapton faria com o Cream. 

JOHN LEE HOOKER -The Very Best Of
Caixa com dois CDs reunindo a nata da produção do “Boogie Man”, com músicas gravadas entre 1955 e 1992. Com suas guitarradas em cima de um único acorde e sua voz gutural, Lee Hooker arrasa em “Mambo Chillun”, “Hobo Blues”, “Boom Boom”, “Drug Store Woman” e “Big Legs, Tight Skirt”.

JIMI HENDRIX - Blues
Muito antes de revolucionar o rock’n’roll, James Marshall Hendrix sabia de cor o idioma do blues. Presente em todos os discos de Jimi, o estilo era a principal matéria-prima do seu som, seja na estrutura musical ou nas letras. Blues traz momentos brilhantes do herói da guitarra, como a poderosa versão do clássico “Red House” e a voz-e-violão de “Hear My Train A Comin’”. Jimi sabia como poucos que, na verdade, o blues é um sentimento. 

ZZ TOP - One Foot In The Blues
Coletânea de primeira linha com gravações feitas pela banda do folclórico guitarrista Billy Gibbons ao longo de mais de vinte anos. Detalhe: nenhum desses blues e rhythm’n’bLues haviam sido lançados anteriormente. Um presente e tanto para a legião de fãs do grupo. 

DUANNE ALLMAN - An Anthology
CD duplo com o melhor do guitarrista ao lado da Allman Brothers Band e de amigos como Wilson Pickett, Aretha Franklin, John Hammond, Johnny Jenkins e Eric Clapton, com quem Duanne gravou o fundamental Layla And Other Assorted Love Songs. 

HOWLIN’ WOLF - The London Sessions
No final dos anos 60, várias lendas do blues americano passaram por uma experiência quase religiosa. Figuras como Muddy Waters, Bo Diddley, Chuck Berry e Howlin’ Wolf cruzavam o Atlântico para participar de jam sessions com alguns dos maiores popstars do planeta. Para se ter uma idéia, a banda de apoio desse disco de Howlin’ Wolf era formada pela cozinha dos Stones (Charlie Watts e Bill Wyman), Steve Winwood (do Traffic) e Eric Clapton.. 

JOHNNY WINTER AND - Live
Discaço ao vivo que registra uma das melhores fases do albino mais alucinado da história do blues, que então contava com a ajuda do grande guitarrista Rick Derringer. Versões impecáveis de “It’s My Own Fault” e a nervosa “Mean Town Blues” são os pontos altos da bolacha.

ERIC CLAPTON - From The Cradle
Depois de recolher os milhões faturados com o seu Unplugged, Clapton resolveu pagar um tributo definitivo aos seus heróis. From the Cradle traz 16 clássicos gravados ao vivo no estúdio, ou seja, com todos os músicos tocando juntos numa tacada só, sem overdubs. O repertório é uma covardia para os fãs de blues, com “I’m Tore Down”, “Hoochie Coochie Man” e “Five Long Years”, além das acústicas “How Long Blues”, “Driftin’” e “Motherless Child”. Obrigatório.

ALBERT COLLINS, ROBERT CRAY & JOHNNY COPELAND - Showdown!
Lançado em 85, o álbum repete a fórmula das Super Blues Bands formadas por Muddy Waters, Howlin’ Wolf e outros gigantes nos 60. Apesar de dividir espaço com dois de seus professores, Cray não se intimida e joga pra ganhar. Uma aula de blues e camaradagem de três caras que curtiam muito tocar juntos.

BLUES TRAVELER - Four
Maior êxito do grupo neo-bicho-grilo liderado pelo gorducho John Popper, cantor, gaitista virtuoso e idealizador do H.O.R.D.E., festival itinerante que reúne bandas de pegada semelhante. O som maduro do Blues Traveler aponta para uma tentativa de renovação do estilo, com ingredientes do rock’n’roll aliados a uma gaita de timbre tradicional. Para quem não torce o nariz para experimentalismos. 

JONNY LANG - Lie To Me
Segundo disco do blues-boy-com-pinta-de-cantor-do-Hanson, Lie To Me foi lançado quando Jonny tinha apenas 16 anos. Principal destaque da novíssima geração, o cantor e guitarrista mostra que aprendeu a lição direitinho nas regravações de “Matchbox” e “Good Morning Little School Girl”, esta última gravada pelos Stones e Johnny Winter, entre outros. 

MUDDY WATERS - Folk Singer
Gravado em 1964, Folk Singer marcou a evolução do bluesman do Delta do Mississipi. Assumindo as rédeas como compositor, missão que antes ficava nas mãos do baixista Willie Dixon, Muddy subverte a ordem e inventa um novo rótulo para sua arte: não quer mais ser chamado de cantor de blues, e sim, de folk. Se você estiver à procura de clássicos como “Hoochie Man”, “Got my Mojo Working” e “Manish Boy”, fique com a alguma das várias coletâneas do bluesman.

ERIC CLAPTON - Crossroads
Caixa com quatro CDs que cobre a carreira do maior bluesman branco de todos os tempos do início dos anos 60 até o final dos 80. Um item de necessidade básica para qualquer fã do blues, ingrediente fundamental em qualquer gravação de Clapton. A caixa ainda traz músicas inéditas e raríssimas, praticamente impossíveis de se achar em outro lugar.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Quem tem medo de Pedrinho?

Marcos Guterman

O Conselho Nacional de Educação recomendou que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, não fosse distribuído a escolas públicas ou, se for, que venha acompanhado de um aviso de que se trata de obra “racista”, informa a Folha da última sexta-feira.

Segundo o parecer, o racismo estaria caracterizado no tratamento de Tia Nastácia e de animais como urubu e macaco, cuja menção, diz o texto do conselho, é “revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano”.

Para o CNE, os professores da rede pública não estão preparados para lidar com esse tipo de mensagem em sala de aula.

O autor da denúncia, o mestrando em relações raciais da UnB Antonio Gomes da Costa Neto, acredita que o livro de Lobato “deixou para trás as regras de políticas públicas para as relações etno-raciais” e tenha o potencial de “ensinar a criança a ser racista”.

Quando Monteiro Lobato é considerado danoso para as crianças, por supostamente conter mensagens ou estereótipos de caráter racista, perdeu-se completamente a noção da importância dos clássicos para a formação intelectual.

“Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram”, explica Italo Calvino em seu livro “Por Que Ler os Clássicos”.

Ou seja, um livro desse porte não é apenas texto; é uma revelação. A obra, como toda a saga do Sítio do Pica-Pau Amarelo, é exatamente isso.

Publicado em 1933, “Caçadas de Pedrinho” sofreu de fato alguma influência do pensamento racial de sua época – em que o racismo não era considerado necessariamente negativo.

Mas não é possível qualificar de “racista”, por causa de um punhado de frases descontextualizadas, um autor que criou protagonistas negros tão bondosos e formidáveis como Tia Nastácia e Tio Barnabé.

Ademais, esse não é, nem de longe, o aspecto central de sua obra – tanto é assim que milhares de crianças a leram e certamente não se tornaram racistas por causa dela.

Em primeiro lugar, os pequenos leitores são apresentadas de modo bem humorado e excitante ao universo rural brasileiro, com seu rico folclore.

Enquanto Dona Benta relata as aventuras da ficção como tal, as crianças do Sítio são, elas mesmas, personagens de suas fantasias, convidando os leitores a abstrair-se e entrar em suas epopeias.

Mas o que torna “Caçadas de Pedrinho” uma obra significativa – e atual – é a crítica feroz aos excessos da burocracia estatal.

Para relembrar: a segunda parte de “Caçadas de Pedrinho” relata a divertida história de Quindim, um rinoceronte que escapou de um circo carioca.

Diante disso, o governo cria um “Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte”, um monstro burocrático com um chefe e 12 auxiliares, muito bem remunerados, além de “um grande número de datilógrafas e encostados”.

Todo esse pessoal se esforça ao máximo para não encontrar o bicho, uma vez que, se isso acontecesse, todos eles perderiam a boquinha.

Quindim acaba se incorporando à família do Sítio, como parceiro das crianças e em desafio ao Estado que o caça.

Ao ousar colocar os meninos como protagonistas dessa “rebeldia”, a obra de Lobato chegou a ser classificada de “comunista” pelo padre jesuíta Sales Brasil, em 1959.

O livre pensamento e a fantasia a serviço da reflexão política e social são os piores inimigos da “ordem” de um Estado crescentemente hostil à crítica.

Assim, não admira que haja burocratas no Estado brasileiro que, a título de impedir o “racismo” de “Caçadas de Pedrinho”, queiram evitar que as crianças o leiam.

Carmem, doida pra viver - Jornalismo verdade nos anos de chumbo


Texto: Plinio Valério

Foto: Antonio Menezes

A vida de Carmem era perambular pelas ruas da cidade. Sua ocupação preferida: fazer carretos para algumas pessoas que compravam no mercado Adolpho Lisboa e correr atrás dos meninos que mexiam quando ela passava. Tudo que pedia e tudo que ganhava era para levar ao Hospício Eduardo Ribeiro e repartir com suas colegas. Juntava tudo e diariamente ia ao hospício dividir o apanhado. Todos que aqui vivem, pelo menos na faixa de vinte e dois anos em diante, se lembram de “Carmem Doida”. As crianças se divertiam com ela e os adultos dela gostavam pois sempre foi uma pessoa prestativa e solidária.

De repente Carmem sumiu. Dela não se ouviu mais falar. Morreu – pensaram todos. Mas Carmem vive, só que paralítica. Está nesta situação desde 74, vítima de um guarda que a colocou para fora de um ônibus. Ela caiu, bateu a cabeça e o joelho e dali por diante começou a ter problemas até ficar paralítica. Reclama, mas se conforma com seu destino. Agora, que o Natal se aproxima, ela fica indócil, pois para ela o Natal era e continua sendo a mais bela festa de todas. Carmem vive o Natal. Ela até já fez seu pedido a Papai Noel: quer ganhar dois cadernos e um lápis com borracha, de cores preto e vermelho. Um pedido simples para quem vive como ela vive.

Descobrindo Carmem

A primeira surpresa: “Carmem Doida” está viva. Mora com uma senhora numa rua perto da prefeitura. Fomos até lá.

Dona Zizi, a dona da casa, nos recebe bem e fala um pouco a respeito de Carmemao mesmo tempo que nos conduz ao seu quarto.

– Carmem. Esses dois rapazes são de um jornal. Vieram conversar contigo.

– Eu vou sair no jornal, é? Minha cara vai aparecer?

– Vai sim, é só você concordar...

Ela concordou e começou a falar. O jeito, o modo de falar e as palavras que usa são as mesmas, só não os gestos. As pernas imóveis cobertas por um lençol e as mãos também imóveis colocadas por sobre o peito. Só os olhos se movimentam. Enormes e espertos, como esperto é o seu modo de falar.

Segunda surpresa: Carmem sempre teve um lar. Desde os três anos de idade vive com a mãe de Dona Zizi, com quem foi criada e que depois de doente chama de mãe. Passava o dia inteiro na rua, mas dormia em casa. Não precisava de nada, pois dispunha de tudo. Se deixavam ela perambular pelas ruas era porque o médico pedia para não impedi-la. Esteve internada algumas vezes, mas sempre soube o que fazia. Adorava correr atrás dos meninos pelas ruas e conversar com as donas de casa quando fazia a faxina nas casas. Ganhava dinheiro, comida, roupas e outras coisas mais, juntava tudo num saco e rumava para o hospício, lá dividia com a turma. Ela adquiriu este hábito desde a primeira vez que esteve por lá. Levava até tabaco escondido debaixo da roupa pra distribuir. Tem uma queixa: ninguém a visita.

– Na rua era Carmem, Carmem, Carmem... Todo mundo gostava de mim. Mas hoje ninguém vem aqui me ver...

Terceira surpresa: Carmem tem 59 anos e Anjos como sobrenome. É natural do Cacau Pirera e nasceu no dia 18 de abril de 1918. Jamais esqueceu a data de seu aniversário e sempre fez questão de ganhar presente. Tem um calendário na grade de sua cama com duas datas assinaladas: 25 de dezembro e 18 de abril. Ela está indócil.

– Já fez minha carta, sobrinha?

– Ora, Carmem, você já está muito grande para ganhar presente de Papai Noel.

– Mas eu quero...

– O que você quer ganhar?

– Eu quero ganhar (pausa) dois cadernos grandes e dois lápis com borracha. Vermelho e preto!

Dona Zizi diz que ela ainda tem o hábito de anotar tudo que faz. Só que não escreve. Risca uns números e chama isso de tarefa. Qualquer coisa que faça ou diga, pega o caderno e anota (risca).

– Você só quer isso de Papai Noel?

– Só. Só quero isso... Será que ele me dá?

– Pode ficar tranquila, ele vai dar sim.

Diariamente Carmem ia ao Mercado Adolfo Lisboa a fim de fazer carretos. Num dia – ela não lembra qual – do ano de 1974, foi chamada por uma senhora. Pegou a encomenda e rumou para a Estação de Ônibus. Como sempre fazia, entrou pela porta da frente. Nunca pagou ônibus na vida. Um guarda viu ela entrando e botou-a pra fora dizendo:

– Sai daqui. Lugar de doido é no hospício!

E a empurrou. Ela caiu. Bateu a cabeça e joelho. Chegou em casa e não contou nada. Escondeu. Com o passar do tempo foi sentindo uma dor esquisita no joelho. Levada ao médico foi receitada, mas não havia tempo. Acabou ficando paralítica. Vive recolhida a um quarto desde 1974 e até para tomar banho tem que ser carregada, trabalho que é feito diariamente pelas empregadas de Dona Zizi.

Lucidez

Apesar de tudo ela ainda é lúcida:

– Sou doida, mas tenho juízo – diz ela.

A verdade é que Carmem sempre soube o que fazia. Nunca fez nada que não soubesse explicar. A uma brincadeira, responde com outra:

– O Bombalá mandou lembranças pra você...

– Êta! Aquele doido?! (risos)

Dona Zizi diz que os médicos nunca souberam explicar ao certo qual o problema de Carmem, já que ela sempre agiu direito. Gostava de correr atrás de meninos, fazer carreto, faxina e andar de ônibus.

– Seu negócio era perambular pelas ruas e nós não podíamos impedi-la – conta Dona Zizi.

Mas todas as noites, por volta de seis e meia, o mais tardar sete horas, ela voltava.

Natal e aniversário

Duas datas tem significado especial para Carmem: Natal e seu aniversário. No tempo que podia andar, dia de seu aniversário ia às rádios colocar melodia para ela mesma e exigia presente das pessoas conhecidas. Não sabe explicar porquê, mas ainda gosta.

O Natal para ela é a data máxima da humanidade. Faz festa, vive, adora a comida de Natal. Aqui, um lamento:

– Ah, meu Deus! Que saudade de andar. Que saudade das minhas colegas. Das vitrines, dos meninos, das festas, das ruas... Saudade de tudo.

O assunto é desviado. Poupamos este sofrimento a Carmem.

– Você nunca quis casar não?

– Êta! Pra lá. Sou doida, mas tenho juízo.

Doida, tendo juízo ou não, Carmem ainda vive. Sente prazer em falar das coisas que fez. Conta coisas incríveis e ri, tal qual uma criança traquina. Fica feliz da vida quando recebe uma visita e lamenta não ter sido visitada ultimamente. Se perde em pensamentos quando alguém cita o nome de Bebel, um motorista de ônibus que ficava lá pela estação:

– Você gostava do Bebel?

Ela responde com um sorriso malicioso. E quando nos despedimos, ela diz:

– Já vão, queridos?



(publicado no jornal A Crítica, em 21 de novembro de 1977)

O primeiro campeão moral do Peladão

No dia 25 de junho de 1968, o Fast enfrentou o Vasco da Gama na Colina e venceu por 1X0, gol de Amaro. O time foi esse aí. Em pé: Antônio Piola, Pompeu, Nonato, Pedro Brasil, Luizinho e Zequinha Piola. Agachados: Alfredo, Edson Piola, Amaro, Santana e Zezinho.

Agosto de 1977. Dono da companhia de despachos Atlântica, o eterno playboy da Cachoeirinha e fastiano roxo Odivaldo Guerra resolveu colocar uma equipe de futebol no 5º Peladão.

O objetivo dele, claro, era fazer merchandishing de sua empresa – o que viesse depois, seria lucro.

Para realizar a tarefa, ele convidou vários dirigentes de peso: Nelito Bandeira, Frank Cavalcante, Olíbio Trindade, Jorge Almeida, Roberto Amazonas e Wilson Fernandes, todos, como ele, fundadores do bloco Andanças de Ciganos, que naquele ano tinha se sagrado bicampeão do carnaval amazonense.

O goleiro Pompéia, ex-Santa Rita, foi contratado para ser o técnico. O colored Pompeu, ex-lateral esquerdo do Fast Clube, foi contratado para ser cabeça de área e capitão de equipe.

O resto do time era formado por ex-jogadores do Sancol, Murrinhas e Inútil.

O time base do primeiro jogo da competição era formado por Erivam Cabocão, Luiz Lobão, Lucio Preto, Petroba e Arquimedes; Pompeu, Paulo César e Silva; Cassianinho, Manuel Augusto e Áureo Petita.

No banco estavam Pompéia (goleiro), Zeca Boy, Irineu, Petrônio Aguiar, Orlando, Kepelé e o próprio Odivaldo Guerra, entre outros craques.

Nesta primeira fase, a Atlântica venceu o Dulima por 2X0, gols de Manuel Augusto e Cassianinho, o Havaí por 2X0, gols de Paulo César e Áureo Petita, o Skorpius por 4X1, gols de Manuel Augusto (2), Pompeu e Silva, o Grêmio Airão por 3X0, gols de Cassianinho, Áureo Petita e Zeca Boy, e o Palmeiras do Parque 10 por 4X0, gols de Manuel Augusto (2), Paulo César e Silva.

Campeão da chave 4, o time se transformou em uma das sensações do Peladão por ter feito 15 gols em cinco partidas e sofrido apenas um.

Não virou manchete do jornal A Crítica porque na mesma fase o Torpedo, do Japiim, do centroavante André, havia feito 32 gols em cinco partidas e sofrido apenas dois.

Na segunda fase, a Atlântica venceu o Juruá por 3X0, gols de Manuel Augusto (2) e Cassianinho, empatou com o Ana Nery em 2X2, gols de Áureo Petita e Paulo César, venceu o Tropical por 3X1, gols de Cassianinho (2) e Silva, venceu o Palmeiras de São Jorge por 3X0, gols de Manuel Augusto, Áureo Petita e Zeca Boy, venceu o Barcelona por 2X0, gols de Manuel Augusto e Cassianinho, venceu o Major Gabriel por 1X0, gol de Áureo Petita, e venceu o Arrisca Tudo por 6X0, gols de Manuel Augusto (2), Cassianinho (2), Áureo Petita e Zeca Boy.

Campeão invicto da segunda fase, a Atlântica começou a atrair uma legião de torcedores da Cachoeirinha para acompanhar seus jogos.

Na fase do “mata mata”, a Atlântica derrotou o Tiradentes por 1X0, gol de Zeca Boy, derrotou o Sport Club Recife por 2X0, gols de Manuel Augusto e Irineu, derrotou o Baioque 4X1, gols de Zeca Boy (2), Áureo Petita e Paulo César, derrotou o Príncipe de Gales por 3x1, gols de Manuel Augusto (2) e Cassianinho, derrotou o Academia por 2X0, gols de Paulo César e Silva, e derrotou o Lavor por 1X0, gol de Irineu.

Seis times estavam classificados para as quartas de final: Atlântica, Einstein, Banik, Transmovéis, Consag e Imperial.

O campeonato foi suspenso para essas equipes enquanto era decidido a chave “Pelamor de Deus”, considerada a repescagem da repescagem, com 64 times disputando duas vagas para a última fase.

Acabaram se classificando os times do Lavor e Ótica São Paulo.

Pelo sorteio, a Atlântica enfrentou o Banik no estádio Vivaldo Lima. Foi um dos melhores jogos do campeonato.

O timaço do Banik fez 2X0 no primeiro tempo, mas com Áureo Petita em uma noite inspirada (fez dois gols), acabou cedendo o empate e só não perdeu a partida no tempo normal porque Zeca Boy, já nos descontos, acertou no travessão um voleio sensacional.

Pelas regras da competição, não havia disputa em pênaltis. Em caso de empate, passava para a fase seguinte a equipe de melhor campanha. A Atlântica despachou o Banik.

Nos demais jogos, o Lavor venceu o Transmóveis por 6X1, a Ótica São Paulo ganhou do Einstein por 2X1, e o Consag empatou com o Imperial em 2X2.

Como o Imperial havia feito uma campanha melhor do que o Consag, o time do técnico Arturzinho foi despachado.

Nas semi-finais, a Atlântica venceu o Imperial por 1X0, gol de Manuel Augusto, e a Ótica São Paulo derrotou o Lavor por 5X1.

O jogo decisivo entre Atlântica e Óticas São Paulo foi marcado para a noite do dia 4 de janeiro de 1978, uma quarta-feira, no estádio da Colina, em São Raimundo.

Em pé: Roberto Amazonas (todo de branco), Sicy Pirangy, Petroba, Luiz Lobão, Erivan Cabocão, Pompeu, Arquimedes, Silva, Lucio Preto, Pompéia, Orlando e Irineu. Agachados: Paulo César, Manuel Augusto, Zeca Boy, Kepelé, Áureo Petita, Dorval, Cassianinho e Odivaldo Guerra.

No dia 6 de janeiro de 1978, sexta-feira, o jornal A Crítica publicou uma matéria intitulada “Ótica São Paulo conquista o título do Peladão”, que transcrevo a seguir:

A Ótica São Paulo é o novo campeão do Peladão, conseguindo o título na madrugada de ontem, depois de uma luta que começou às 22 horas de quarta-feira.

A vitória só surgiu nos pênaltis, depois de 0X0 no tempo regulamentar e nas duas prorrogações que se seguiram.

O estádio da Colina ficou quase totalmente lotado, com uma torcida entusiasmada que vibrou com as jogadas sensacionais de lado a lado.

No tempo regulamentar de 60 minutos, a Atlântica foi mais time, dominando as ações, mas nos 30 minutos de prorrogação a Ótica, que tem um time mais novo, tomou conta da partida e esteve a ponto de garantir a vitória, só não conseguindo graças a estupenda atuação do goleiro Pompéia e de toda a zaga Atlântica.

A Atlântica tentou decidir o jogo de saída. O centroavante Manuel Augusto, em grande noite, levava perigo constante a meta de Oscar, que esteve muito feliz na partida.

Logo aos 2 minutos, Cassianinho perdeu um gol feito, não concluindo com êxito um bom trabalho de Manuel Augusto.

Notou-se no começo do jogo que a Atlântica queria afogar a Ótica.

O volante Pompeu, melhor do que nunca, caiu em cima do craque Julio Cesar e conseguiu anulá-lo em quase todo o tempo regulamentar.

Com seu melhor jogador em campo sem poder fazer nada, o time da Ótica permaneceu o tempo todo em seu próprio campo de defesa.

A marcação individual, a atenção constante para os deslocamentos do irrequieto ponta de lança Costa, a cobertura precisa do central Lucio Preto e o perfeito entrosamento da zaga, mostrava a Atlântica bem posicionada na colocação em campo e senhora absoluta das ações ofensivas.

A Ótica não tinha espaço para realizar seu costumeiro jogo de toques rápidos.

Entretanto, havia um erro muito grande no time da Atlântica: a falta de chutes a gol, já que os atacantes teimavam em levar a bola até dentro da pequena área, com firulas e dribles desnecessários.

E, por mais paradoxal que possa parecer, apesar do amplo domínio da Atlântica foi a Ótica que esteve mais perto de marcar.

Numa cabeçada de Costa, o quarto zagueiro Petroba salvou em cima da linha depois do goleiro Pompéia já estar vencido.

Depois foi o excelente zagueiro Luiz Lobão que parou com a barriga uma bola que ia entrando, oferecendo condições para Pompéia voltar e contornar o perigo.

No final do tempo regulamentar, a Atlântica já mostrava muito cansaço. E as modificações foram se sucedendo, acabando com o ritmo e o entrosamento da equipe.

Enquanto isso, a Ótica mantinha o mesmo time em campo e aos poucos ia tomando conta da partida.

Quando foi iniciada a primeira prorrogação de 20 minutos, a Ótica já era dona das ações. Lucio Preto havia saído contundido e Pompeu teve de recuar um pouco para fortalecer a zaga, diminuindo a marcação individual em cima de Julio Cesar.

Aí, a Ótica se liberou e começou a rolar a bola, chegando ao ponto de entusiasmar sua pequena torcida.

Era evidente a queda do último invicto do Peladão.

A Atlântica, porém, resistiu heroicamente no final da primeira prorrogação e nos 10 minutos da segunda prorrogação.

Quase a uma hora da manhã de quinta-feira, ainda com o estádio lotado, o muito bom árbitro Manuel de Jesus encerrou a partida.

Nos pênaltis, a Ótica faturou 5, a Atlântica 3.

Ótica, campeã, Atlântica, vice-campeã invicta.

O presidente da Atlântica, Odivaldo Guerra, estava inconformado:

– A gente monta um time, vence todas as partidas, aí perde na final em pênaltis para um time que havia passado por duas respecagens, não dá pra entender! O certo seria marcar um novo jogo! – dizia Guerra. “O regulamento era bem claro ao falar que não haveria disputa por pênaltis, que passaria para a fase seguinte o time de melhor campanha, aí eles rasgam tudo e inventam novas regras. Isso é casuísmo!”

Outro dirigente da Atlântica que também estava inconformado era o engenheiro Roberto Amazonas:

– Eu fiquei afônico de tanto gritar para os jogadores chutarem em gol, mas eles não me ouviam por causa do barulho da torcida. A gente perdeu meia dúzia de gols feitos e isso mostra a superioridade do nosso time. A Atlântica, único time invicto da competição, é a campeã moral do Peladão! – desabafou.

Mais de 6 mil torcedores do Atlântica saíram da Cachoeirinha para torcer pelo seu time no bairro de São Raimundo. Os torcedores da Ótica São Paulo eram pouco mais de 1.500.

Na saída do estádio da Colina, a marcha silenciosa de quase mil veículos em direção a zona sul de Manaus era sinônimo da tristeza dos torcedores, jogadores e dirigentes da Atlântica.

Eles já haviam preparado uma festa na quadra do GRES Andanças de Ciganos, mas o brilhante goleiro Oscar Almeida colocou água no chope.

Pra completar, Oscar Mão de Onça, o carrasco da Atlântica, é nascido e criado na Cachoeirinha. Ele é irmão de Jorge e Orlando Almeida, ambos jogadores do Atlântica.

Craque do ano do Peladão em 1974, quando defendia o Murrinhas do Egito, o meia-armador Áureo Petita saiu de campo chorando.

Ele havia sido escalado para bater o último penâltido Atlântica e, depois, continuar fazendo as cobranças individuais até ser conhecido o vencedor. Não deu tempo.

Pelo sorteio, coube a Ótica São Paulo iniciar as cobranças das penalidades.

O zagueiro Salustiel converteu a primeira cobrança. Manuel Augusto empatou para a Atlântica.

O ponta de lança Costa colocou a Ótica em vantagem. Petroba empatou para a Atlântica.

Sarará converteu para a Ótica São Paulo. Zeca Boy empatou para a Atlântica.

A disputa estava em 3X3.

Zé Raimundo colocou a Ótica São Paulo novamente em vantagem.

Pompeu desperdiçou o penâlti, graças a uma defesa sensacional de Oscar Mão de Onça.

O craque Julio Cesar fez 5X3 para a Ótica São Paulo e saiu para comemorar o título correndo em direção ao goleiro Oscar, o grande herói da noite.

Sem acreditar direito no que havia acontecido, o time da Atlântica deixou o campo cabisbaixo.

A Cachoeirinha tinha o primeiro “campeão moral” do Peladão, argumento que a Seleção Brasileira também utilizaria naquele mesmo ano, durante a Copa do Mundo na Argentina.

Inútil. A gente somos Inútil!

Eu, Nilton Torres e a rainha Silene Pessoa no desfile de abertura do 3º Peladão

No início de 1975, Mário Adolfo viajou para Goiânia (GO), para morar com Ademar e Mércia Arruda, sua irmã mais velha, e estudar para o vestibular de jornalismo da Universidade Federal de Goiás.

Para o time do Murrinhas do Egito, aquilo foi o prenúncio de uma tragédia anunciada.

As defesas milagrosas de Mário Adolfo, principalmente durante as cobranças de pênaltis, tinham sido responsáveis em 50% pela bonita campanha do time no Peladão do ano anterior.

Os outros 50% nos creditávamos ao meia-armador Áureo Petita, eleito o craque do ano da competição.

Sem eles dois, o nosso time não passava de uma equipe modesta condenada a uma existência vil no baixo clero do campeonato mais importante da cidade.

Faltando um mês para começarem as inscrições do 3º Peladão, Áureo Petita nos comunicou que havia recebido uma proposta irrecusável da Escola de Datilografia Santa Rita, que tinha como presidente a Dona Norma, e também resolveu picar a mula. De quebra, levou junto com ele o estiloso Kepelé.

As brigas internas no Murrinhas não tardaram a explodir. Para o lugar do Mário Adolfo, a gente precisava decidir entre os goleiros Erivan Cabocão e Walter Doido. O ex-goleirofastiano levou a melhor e Erivan Cabocão deixou o time cuspindo cobras e lagartos.

Para o lugar de Aureo Petita, convocamos Marco Aurélio, um excelente meia-armador do Náutico, um dos melhores times da 2ª divisão do campeonato amazonense.

Para a ponta esquerda, convocamos AzamorBobô, ex-Rosa com Amor. Por sugestão do Petrônio Aguiar,eu fui deslocado para a zaga, na posição de quarto zagueiro.

O centroavante Mazinho, que havia perdido o posto para o centroavante Nilson Torres, também resolveu ir embora cuspindo cobras e lagartos. De quebra, levou junto com ele o presidente do time, Olíbio Trindade.

Eu assumi a presidência do Murrinhas e comprei um novo equipamento semelhante ao do Fluminense. Sem técnico (Mazinho ocupava o cargo), passamos a escalar o time por consenso numa espécie de “pré-democracia corintiana”.

Nesse meio tempo, Mazinho, Erivan e Olíbio resolveram fundar um novo time, chamado Inútil, e, só pra me sacanear, compraram um equipamento semelhante ao do Vasco da Gama.

Eles também convocaram vários craques do futebol amador, como Zezinho, na época juvenil do Nacional, mais tarde jogador profissional do Rodoviária, de Manaus, e do Sporting, de Portugal,os irmãos Cacheto, Bebeto e Dinho, todos juvenis do Rio Negro, e o endiabrado Zeca Boy, ex-ponta direita do Racing, do Vieralves.

Depois de repaginado, o novo Murrinhas do Egito era um time sem grandes estrelas, mas bem compactado, de toque rápido e envolvente, bastante aplicado taticamente e com preparo físico e garra suficiente para enfrentar de igual para igual qualquer um dos grandes times da competição.

O goleiro Walter Doido, apesar da baixa estatura, tinha a agilidade de um gato e era um verdadeiro paredão. Na lateral direita, a experiência de Carlito Bezerra. De beque central, Petrônio Aguiar, um verdadeiro xerife da área. Eu estava na quarta zaga e na lateral esquerda Gilmar Velhota. O volante era o competente e raçudo Almir Português.

O estilista Marco Aurélio era o meia armador. Luiz Lobão era o ponta de lança. Na ponta direita, Gilson Cabocão. Nilton Torres comandava o ataque e, na ponta esquerda, o driblador minimalista AzamorBobô.

O banco de reservas ainda contava com Wilson Fernandes, Fábio Costa, Chico Cavalinho, Airton Caju, Heraldo Cacau, Chico Porrada e Rubens Bentes. O Inútil que nos aguardasse.

Na primeira fase do Torneio Início, em um sábado à tarde, o Murrinhas e o Inútil caíram na mesma chave, no campo do Penarol.

Havia oito times na chave, disputando uma única vaga. Eram partidas de dois tempos de quinze minutos, com intervalo de cinco minutos.

No caso de empate no tempo normal, a decisão seria nos penâltis.

A gente disputou a primeira partida contra o Manicoré e ganhamos de 2X0, gols de Nilson e Bobô.

O Inútil ganhou de 1X0 do BiluTetéia, gol do Zezinho.

No segundo jogo, nós enfrentamos o Corintians, que havia ganho nos pênaltis do Show Ball. O Inútil ia jogar com o Stage, que havia ganho de 2X0 do Tefé.

Estava na cara que Murrinhas e Inútil iam decidir a vaga. Mas não foi o que aconteceu.

A gente enfiou 2X0 no Corintians, gols de Nilson e Marco Aurélio, e, em vez de aproveitar a maré alta para encher o paneiro, o time subiu no salto agulha. Era toque de calcanhar pra cá, balãozinho pra lá, firulas aqui, totozinhos ali.

Resultado: o Corintians, que estava o tempo todo acuado no seu próprio campo, fez dois contra-ataques mortíferos em alta velocidade no segundo tempo e empatou o jogo.

O goleiro Walter Doido enlouqueceu de vez: ele nunca havia tomado dois gols em quinze minutos.

Com o coração na ponta da chuteira nós fomos pra cima e ainda carimbamos o travessão deles por duas vezes, mas a disputa foi para os pênaltis.

Perdemos de 2X1 (Walter Doido defendeu três pênaltis, nós conseguimos chutar quatro pra fora).

Só nos restava torcer pelo Inútil, que não fez feio. Ele venceu o Stage por 1X0, gol do Roberto, e depois enfiou 3X0 no Corintinas, gols de Zezinho e Roberto (2).

No dia seguinte, domingo pela manhã, eu, Petrônio Aguiar, Chico Cavalinho e Rubens Bentes, todos do Murrinhas do Egito, engrossamos a torcida do Inútil, que acabou conquistando o título do torneio.

Era a primeira vez que um time de futebol da Cachoeirinha alcançava essa façanha.

Em pé: eu, Olíbio Trindade, Zé Carlos, Erivan Cabocão, Sargento Roberto, Cacheto, Boanerges, Jones, Chico Cavalinho, Aldemir e Petrônio Aguiar. Agachados: Mazinho, Zeca Boy, Bebeto, Zezinho, Roberto, Dinho e Rubens Bentes.

No dia 15 de setembro de 1975, segunda-feira, o jorna A Crítica publicava uma matéria intitulada “Inútil mostra seu valor. Ele exige mais respeito”, que transcrevo a seguir:

Uma briga interna no Murrinhas do Egito acabou gerando o Inútil, time que ontem fez o seu nome e que tão logo as emissoras de rádio e televisão o anunciaram como campeão do Peladão passou a ser olhado com admiração.

O esquisito nome fez o grande público perguntar aqui e ali detalhes sobre o time que em verdade surgiu na última hora depois que a direção do time Murrinhas resolveu dispensar alguns jogadores considerados excedentes, e estes, com raiva, decidiram formar um outro quadro.

– Juro que decidimos formar um outro time só para mostrarmos que nós tínhamos futebol – disse Bebeto, autor do gol que deu o título de campeão do Inútil.

– O nome Inútil foi escolhido para associar o fato de ser um time formado só por gente considerada inútil pelo Murrinhas. Acho que essa vontade de vencer, mostrar o nosso valor, mostrar que não éramos apenas pernas de pau, é que nos deu ânimo para chegar a esse título - comentou Zezinho, que em toda a campanha marcou 5 gols.

Do Murrinhas, time da rainha Silene Pessoa, saíram brigados os craques Mazinho, Zeca , Erivan, Zezinho, Roberto e Bebeto, além do presidente Olíbio e do próprio Mazinho, que era o técnico.

Olíbio, aliás, no primeiro Peladão, foi presidente do Arranca Toco, no segundo comandou o Murrinhas e agora, no terceiro, está a frente do Inútil.

– Quando eu entro num trabalho, gosto de vê-lo frutificar. Vi que o pessoal tinha condições, conversei com todos os que haviam sido dispensados e resolvemos fundar o Inútil. Ano passado ganhamos o concurso de rainha pelo Murrinhas, este ano ganhamos o Torneio Início. Acho que desse jeito vamos acabar sendo o campeão do campeonato – falou entusiasticamente o presidente Olíbio, enquanto parabenizava seus jogadores e anunciava uma grande festa para festejar o título construído com amor e dedicação.

O Inútil começou sua campanha contra o BiluTetéia, a quem venceu em jogo por 1X0, gol de Zezinho. Depois venceu o Stage por 1X0, gol de Roberto, e, logo em seguida, golearam o Corintinas por 3X0, gols de Zezinho e Roberto (2). O Corintinas tinha acabado de vencer o Murrinhas quando o Inútil (filial do Murrinhas) descontou a surra.

Saindo campeão do campo do Penarol, o Inútil foi domingo de manhã para o campo do Departamento Rodoviário Municipal (DRM), onde, depois de empatar de 1X1 com o poderoso DRM, gol de Zezinho, acabou vencendo os rodoviários em penalidades por 3X0.

Depois o Inútil venceu ao São Francisco por 1X0, gol de Zezinho, e ganhou também da Ótica São Paulo por 1X0, gol de Roberto.

Vencendo a chave do campo do DRM, o Inútil foi pra o campo da Coca-Cola, onde se encontraria com os outros três campeões das demais chaves eliminatórias.

O Inútil empatou no tempo normal com o Fabiano por 1X1, gol de Zezinho, e venceu o time dos oficiais da Base Aérea nos pênaltis por 3X0.

Na decisão do Torneio Início, o Inútil venceu o D. Pedro por 1X0, gol de Bebeto, numa cabeçada sensacional.

O time campeão formou com Erivan, Zé Carlos, Boanerges, Cacheto e Roberto; Careca e sargento Roberto; Jones, Zezinho, Bebeto e Dinho, entrando depois Osmar, um bom ponta direita, no lugar de Jones.

A reportagem não disse que Osmar, na verdade, era o nome oficial do Mazinho, mas quem entrou no jogo decisivo e deu o passe pro Bebeto fazer o gol foi o Zeca Boy, que jogou malandramente com a carteira do Mazinho porque seu time, o Racing, havia sido eliminado no dia anterior. Depois do torneio início, Zeca Boy foi inscrito oficialmente no Inútil.

Nossa esperança de enfrentar o Inútil no campeonato foi por águas abaixo depois que perdemos o mando de campo para o Canarinho, de Petropólis. Em vez de jogar no campo do Penarol, fomos obrigados a jogar no campo do Holanda, no Aleixo, e no campo do Esusa, ao lado da Cidade Jardim, na Chapada.

Na primeira partida da 1ª fase, derrotamos o Soccer por 5X0, gols de Nilson (3) e Luiz Lobão (2). Depois empatamos com a Casa dos Vidros em 1x1, gol do Marco Aurélio, ganhamos do Serra Grande por 3X0, gols de Nilson (2) e Bobô, ganhamos do Palmeiras de 4X1, gols de Nilson, Luiz Lobão, Gilson Cabocão e Chico Cavalinho, ganhamos do Sulanapo de 1X0, gol de Luiz Lobão, perdemos do Socon de 1X0 e empatamos com o Travessa em 2X2, gols de Wilson Fernandes e Heraldo Cacau.

Nos classificamos em terceiro lugar, atrás da Casa dos Vidros e Socon. Nessa fase, se classificavam quatro times e quatro eram eliminados.

Em pé: Julio Almeida, Kepelé, Petronio Aguiar, Almir Português, Walter Doido, Heraldo Cacau, Gilmar Velhote, eu, Chico Porrada e Mestre Louro. Agachados: Gilson Cabocão, Nilton Torres, Marco Aurélio, Luiz Lobão, Azamor Bobô e Carlito Bezerra

Na segunda fase, nossos problemas começaram. O goleiro Walter Doido era um excelente jogador, mas tinha um gênio temperamental.

Durante nosso primeiro jogo contra a Escola de Datilografia Santa Rita, time do Áureo Petita, no campo do Penarol, ele começou a discutir com o Petrônio Aguiar por causa de um lance banal, aí, subitamente, tirou a camisa de goleiro e jogou na cara do zagueiro central.

O juiz, evidentemente, o expulsou na mesma hora. A gente estava vencendo a partida por 1X0, gol do Luiz Lobão, quando aconteceu a presepada.

Eu resolvi ser substituído para a entrada do improvisado goleiro Mestre Louro. O volante Almir Português assumiu meu posto de quarto zagueiro.

Com um homem a mais em campo, o time do Áureo foi pra cima, empatou o jogo com um gol de Kepelé e se não fossem duas defesas milagrosas do Mestre Louro em chutes a queima-roupa de Aureo Petita e João Carlos a gente teria perdido o jogo.

O temperamental Walter Doido pegou dois jogos de suspensão.

No segundo jogo, contra o Espantalho, no campo do Holanda, enfiamos 6X1, gols de Wilson Fernandes (2), Nilson (2), Luiz Lobão e Bobô.

O gol que sofremos foi uma piada: um sujeito bateu uma falta no ângulo, Mestre Louro fez um vôo acrobático e conseguiu espalmar a bola pra cima, numa defesa sensacional.

Só que ele ficou deitado no chão, deslumbrado com os aplausos da torcida.

A bola, movida pela força da gravidade, desceu displicentemente do espaço, bateu em sua nuca e foi se alojar no fundo das redes.

Esquecidos da defesa espetacular de alguns segundos atrás, mais da metade do time queria estripa-lo na mesma hora. Mestre Louro, com razão, ficou injuriado. E não apareceu para jogar no último jogo.

O arrojado centroavante Nilton Torres, que também era um goleiro de mão cheia, foi escalado para o jogo contra o Barcelona, da Cidade Nova.

Perdemos em potencial ofensivo, mas conseguimos reorganizar de novo o sistema defensivo.

Foi um jogo catimbado, murrinha, pegado, safado, digno de peladeiros suburbanos. Uma falta a cada dois minutos, discussões dos dois lados, enfim, uma grande aporrinhação.Ainda assim ganhamos de 1X0, gol do Carlito Bezerra, de penâlti, e fomos campeão da chave.

O Barcelona ficou em segundo lugar. O time do Áureo Petita foi para a repescagem.

Nessa fase, se classificavam dois times e dois eram eliminados. Dos 420 times iniciais, só restavam 105. Outros 15 viriam da repescagem para completar os 120 melhores. Começaria a chave do “mata mata”, com todos os jogos sendo eliminatórios.

Nosso primeiro jogo foi contra o forte time do Santa Rita, formado por homeboys que moravam no entorno da Igreja de Santa Rita, na Cachoeirinha.

Os destaques do time eram os irmãos Helder e Wandi, este ex-jogador profissional do Olímpico, o goleiro Pompéia e seu irmão e dono do time, o meia armador Agostinho, e o primo de ambos, Ely, que depois jogou profissionalmente no Nacional e no Clube do Remo, em Belém.

Era um domingo de manhã de muita chuva. O jogo foi marcado para o campo da Base Aérea.

O campo era de barro e, por causa da chuva, havia se transformado em uma pista escorregadia de motocross.

Em comum acordo, as duas equipes decidiram não disputar o jogo naquelas condições.

Saímos em busca de um campo melhor para realizar a partida.

Por volta das 10h, nós invadimos na marra o campo principal da Suframa, onde dois times (Cruz Azul, da Betânia, e Independente, de São Lázaro) disputavam uma partida do “mata mata”.

Expulsamos as duas equipes de campo, sob o argumento calhorda de que “éramos da Cachoeirinha e tínhamos carta branca para jogar em qualquer campo por determinação do vereador Messias Sampaio”.

Os sujeitos protestaram uma barbaridade, nos xingaram de todo jeito, mas acabaram deixando o campo dizendo que iam se queixar na coordenação.

Indiferente aos protestos, os times do Murrinhas do Egito e Santa Rita entraram em campo e iniciaram por conta própria a partida.

Apesar de todo mundo ser do mesmo bairro, foi um jogo violento de parte a parte por causa do aguaceiro que não parava de cair

Ganhamos o jogo de 1X0, gol de Luiz Lobão, mas quando estávamos preenchendo a súmula para levar para a coordenação do Peladão, apareceu o vereador Messias Sampaio em pessoa, visivelmente puto.

Messias era o coordenador geral da competição e trazia a tiracolo os dirigentes das duas equipes que a gente havia expulso de campo.

– Eu logo vi que essa desordem só podia ser coisa do Murrinhas! – vociferou ele.

Tentamos explicar o que havia nos levado a realizar o nosso jogo ali no campo gramado da Suframa e não no campo de barro da Base Aérea, mas o coordenador não quis muito papo.

Ele estava simplesmente possesso.

Resultado: Murrinhas e Santa Rita foram desclassificados por indisciplina na mesma hora.

Foi a minha última participação no Peladão.

Alguns dias depois, renunciei à presidência do Murrinhas, doei o equipamento do time para uma instituição de caridade e dei os trâmites por findos.

No ano seguinte, Mestre Louro fez um arremedo do Murrinhas, que virou saco de pancada nos três primeiros jogos e não passou da primeira fase.

A gente só daria a volta por cima, nos anos 80, com o imbatível Setembro Negro. Mas essa é uma outra história.