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sexta-feira, agosto 24, 2012

O complexo de vira-latas dos amazonenses



Na última sexta-feira, 17, o governador tucano Geraldo Alckmin ajuizou uma intempestiva Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin nº 4832/2012) contra dispositivos da Lei n. 2826/2003 e do Decreto Estadual n. 23.994/2003 que criam o “crédito estimulo” e o “corredor de importação”, com incentivos fiscais para a integração, expansão, modernização e consolidação dos setores industrial, agroindustrial, comercial, de serviços, florestal, agropecuário e afins da Zona Franca de Manaus.

Por que o governador de São Paulo demorou nove anos para ajuizar essa Adin?

Porque, além de ser sabidamente um caipira provinciano e mentalmente fronteiriço, Alckmin está jogando para a plateia.

Ele sabe que a Adin será fulminada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas, nesse meio tempo, poderá falar em alto e bom som para o eleitorado paulista que fez o que era possível para defender os interesses do seu estado.

Até aí, morreu o Neves. O papel de cada governador é puxar a brasa para a sua sardinha.

O que não dá para entender é essa cacofonia de gritos histéricos que toma conta da cidade cada vez que uma “ameaça” ronda a ZFM.

Parece que ninguém, em sã consciência, percebe a oportunidade histórica de questionar de verdade esse enclave multinacional incrustrado em nosso território que, ao longo de 45 anos, apenas aumentou assustadoramente a desigualdade econômica entre Manaus e os municípios interioranos, condenando à miséria metade da população amazonense.

“Manaus não pode ficar sem a ZFM”, berra um vereador mais afoito do que um bandeirinha de várzea marcando um impedimento.

“O fim da ZFM significa jogar na miséria 100 mil trabalhadores!”, dispara um deputado da base governista, mais sério do que cu de vaca gir durante a inseminação artificial.

“Precisamos nos unir contra mais esse crime de lesa pátria”, desconversa um empresário sulista, enquanto confere o plano de milhagem que o fará ir embora de graça dessa comédia e descobrir locais melhores para investir o lucro auferido na mal afamada zona franca.

Porto de lenha, tu nunca serás... aquilo tudo que o poeta Aldisio Filgueiras falou com propriedade já se vão algumas décadas.

Continuamos tabaréus por nossa culpa, nossa máxima culpa.


Pois é esse complexo de vira-latas, de coitadinhos, de menores abandonados ou permanentemente abrigados sob a saia encardida do governo federal, que torna os amazonenses dependentes químicos dessa verdadeira aberração chamada ZFM.

Por causa da ZFM, a capital do estado concentrou 95% das atividades econômicas do Amazonas e condenou os outros 61 municípios a uma vida em morte severina.

Do ponto de vista social, essa gritante concentração de renda não significa porra nenhuma: Manaus possui um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, ou 0,774.

A capital paraense, Belém, que nunca teve Zona Franca, tem um IDH de 0,806.

Cuiabá, capital do Mato Grosso, que também nunca teve Zona Franca, tem um IDH de 0,821.

Idem, Palmas, capital do Tocantins, com IDH de 0,800.

Não estou chutando, macacada: os números estão disponíveis no Portal ODM, que faz o acompanhamento municipal dos objetivos de desenvolvimento do milênio.

“E se a ZFM acabar, o que será de nós?”, geme um operário, como se tivesse sido pego sem calças se preparando para detonar um padreco dentro do confessionário.

Eu, particularmente, não faço a menor ideia.

Desconfio, entretanto, que a gente descobriria alguma coisa pra fazer.


Sergio Machline e seu pai, o saudoso Mathias

Eu posso falar de cadeira sobre a ZFM porque fui funcionário da Sharp do Brasil (de agosto de 1973 a agosto de 1978), da Electra Industrial (de novembro de 1978 a fevereiro de 1980) e da Philco da Amazônia (de março de 1980 a novembro de 1991).

Quer dizer, dos 17 aos 35 anos eu estive no olho do furacão.

A Sharp do Brasil foi a segunda empresa a se instalar no Distrito Industrial (a primeira foi a Electra), ambas na rua Acará.

Para se ter uma pálida ideia do pioneirismo, nós (eu, Engels, Pauderney, Pauderley, Ivaldo, Alexandre, Reinildo, Edmilson, Salgado, Augusto Cézar, etc), todos finalistas da ETFA, tivemos que pegar no pesado e montar as esteiras manualmente, uma por uma, no gigantesco galpão construído pelo engenheiro José Moura, da Coencil.

Em cinco anos, a Sharp do Brasil já faturava anualmente US$ 1 bilhão e o Grupo Machline possuía 25 empresas – todas sediadas em São Paulo.

Ou seja, o lucro era gerado em Manaus, mas reinvestido em São Paulo.

Para os tapuias nativos ficavam os salários (1% do faturamento, ou US$ 10 milhões) e os impostos (25% do ICMS ou US$ 50 milhões).

Multipliquem isso pela quantidade de empresas multinacionais que estavam implantadas no DI e terão uma boa ideia do tamanho da sangria.

Quer saber mais? Clica aqui.

Não foi a toa que uma leva de pequenos comerciantes paulistas se transformou em empresários milionários num piscar de olhos à custa do trabalho semiescravo dos nossos nativos.

Leo Kryss, por exemplo, era dono de uma lojinha de confecções na rua 25 de Março quando resolveu montar a Evadim no Distrito Industrial, com generosos empréstimos do BNDE.

Atualmente dono do banco Tendência, Leo Kryss coleciona jatinhos, iates e campos de golfe.

Leiam o que a revista Veja escreveu sobre o empresário, na matéria “Mordendo a maçã”, em agosto de 1997:

“Tímidas excentricidades se comparadas ao tríplex do empresário Leo Kryss, dono de uma indústria de produtos eletrônicos.

Cada um dos três andares de seu apartamento, avaliado em 4 milhões de dólares, tem um estilo de decoração diferente.

“Os corrimãos das escadas são folheados a ouro”, descreve uma amiga de Kryss.

Há colunas de mármores nobres, banheiros cor-de-rosa do teto ao chão e pesadas cortinas de veludo.

A cozinha, com equipamentos industriais, lembra a de um grande hotel.

O apartamentaço conta ainda com três quartos só para abrigar empregados.

As más línguas dizem que ficaria melhor em Miami.”

A Evadim nunca investiu um único centavo em Manaus.


Leo Kryss e o príncipe herdeiro Joseph, que nunca colocou os pés em Manaus

Fundada pelo remediado engenheiro eletricista Affonso Brandão Hennel, a Sociedade Eletro-Mercantil Paulista (Semp) era uma fabriqueta de fundo de quintal especializada na montagem de rádios valvulados, vendidos exclusivamente no interior de São Paulo.

 Em 1977, a empresa fez uma joint-venture com a gigante japonesa Toshiba e, graças aos generosos empréstimos do BNDE, se instalou no Distrito Industrial.

A Semp-Toshiba chegou a faturar mais de US$ 1 bilhão por ano – e com o lucro auferido em Manaus abriu novas unidades industriais em Salvador, Cajamar e São Paulo.

Em Salvador, por exemplo, a empresa produz 300 mil notebooks por ano, mas pretende elevar essa produção para 1 milhão de unidades no prazo de cinco anos.

Ou seja, a Semp-Toshiba transformou Afonso Hennel em um novo milionário, está gerando emprego e renda para os baianos e pouco se lixando para essa histeria tardia que ainda grassa nos arraiais da terra de Ajuricaba.

Sim, porque nesses 35 anos a Semp-Toshiba também nunca investiu um único centavo em Manaus.


Affonso Brandão Hennel, fundador da Semp, e Norio Sasaki, presidente da Toshiba

Eu poderia citar dezenas de exemplos semelhantes aos dos dois empresários já citados, mas não pretendo me alongar.

Mudou alguma coisa de 1991 pra cá? Acredito que não.

No ano passado, segundo dados da Suframa, o Polo Industrial de Manaus faturou US$ 40 bilhões.

Desse montante, quanto ficou no estado?

Levando-se em conta que o orçamento total do governo do Amazonas está estimado em US$ 3 bilhões, sobra menos de 10% do faturamento do DI para custear nossas demandas crescentes e perpetuar a miséria dos grotões no interior.

Portanto, somente energúmenos de galochas ou com complexo de vira latas podem continuar a defender esse esdrúxulo “modelo de desenvolvimento” que serviu (serve) apenas para enriquecer a tripa forra uma centena de empresários alienígenas.

Quando ouço essa propaganda eleitoral apelativa da nova-cristã Vanessa, em que um desajustado locutor berra, com a voz embargada de emoção, que ninguém vai nos tirar a Zona Franca, porque “a Zona Franca é nossa, a Zona Franca é de Manaus”, tenho vontade de perguntar: “Nossa de quem, cara pálida?...”

Brincadeira tem hora.

quarta-feira, agosto 22, 2012

O Artur Neto que eu conheço! (1)



Filho do advogado e jornalista Artur Virgílio Filho e da pedagoga Isabel Vitória, Artur Neto nasceu em Manaus, em 15 de novembro de 1945.

Em 1959, após seu pai ter sido eleito deputado federal pelo PTB no ano anterior, Artur Neto e a sua família foram morar no Rio de Janeiro, na época capital federal do país.

Em 1964, Artur Neto foi aprovado no concorrido vestibular de Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e logo começou a militar no movimento estudantil que combatia a ditadura.

No emblemático livro “1968: O Que Fizemos De Nós” (Editora Planeta, 2008), o jornalista Zuenir Ventura falou sobre esse período:

Em 68, Artur Virgílio Neto era militante do então clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB) e diretor de Relações Institucionais do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (Caco Livre), da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. Seu pai, o então senador Artur Virgílio Filho, por também combater a ditadura, teve os direitos políticos suspenso por dez anos pelo AI-5, aos 48 anos de idade.

Esse pai nacionalista e legalista, mais do que de esquerda, ainda que sempre ligado a ela, líder do PTB e do governo João Goulart, que acreditava mais nas reformas que na revolução, foi quem influenciou na adolescência Virgílio Neto.

“Eu gostava do simpático Jango, que, vez por outra, nos visitava – ele era vice-presidente da República; admirava a bravura de Leonel Brizola, meu herói de capa e espada da Cadeia da Legalidade, de 1961, e considerava JK o caminho mais justo para o Brasil de 1965. A figura de Luís Carlos Prestes surgia distante, um pouco mártir; Fidel inspirava-me forte simpatia, e Guevara incitava ao sonho, soando-me menos político do que ídolo da contracultura”.

O golpe militar de 64, o seu ingresso no curso de Direito da então Faculdade Nacional, a repressão, a polícia invadindo seu apartamento e obrigando a mãe e os irmãos a cantar o Hino Nacional virados para a parede, tudo isso levou o jovem a se aproximar do Partido Comunista Brasileiro, o PCB – ou Partidão.

Nomeado diretor de Relações Institucionais do Caco Livre, Virgílio Neto passou a ter uma ativa militância política. “Sofri e pratiquei violência nas ruas do Rio, apanhei e bati. Ajudei a queimar carros da polícia e a derrubar cavalos espalhando bolinhas de gude pelo asfalto. Em compensação, meu curso foi retardado e padeci algumas prisões rápidas, felizmente sem tortura física”.

O senador Artur Virgílio guarda dessa época agitada muitas histórias, uma das quais o marcou até hoje. Depois do golpe de 64, refugiou-se em sua casa no Rio um jovem líder sindical, quase analfabeto, mas extremamente inteligente e corajoso. E radical. Era quem mais agitava. De repente, sumiu e nunca mais foi visto.

“Certo dia”, conta o líder do PSDB, “o centro do Rio virara praça de guerra, e me vi encurralado na rua Buenos Aires, achando que tinha chegado a minha hora”. Carros da polícia em chamas, gente machucada dos dois lados, eis que Virgílio ouve uma voz: “Deixem esse comunista filho da puta comigo. Este é meu. Cuidem dos outros”.

Com palavrões, mandou que o estudante caminhasse. Chegando à avenida Rio Branco, sussurrou: “Neto, sai correndo, vou dizer aos outros que te perdi. Não olha para trás. Devo isso à dona Isabel, tua mãe. Na próxima, você não terá perdão”. Era o rapaz que fora acolhido em sua casa. “Chamava-se Wellington Uchoa do Nascimento, e tinha virado agente da repressão”.

quarta-feira, agosto 15, 2012

Era da Modernidade versus Era da Mediocridade


Quem está mais preparado para representar Manaus durante um evento internacional do porte da Copa do Mundo de Futebol – FIFA 2014?


Um diplomata e advogado que fala inglês, francês e espanhol (Artur Neto)


Um engenheiro que fala inglês (Pauderney Avelino)


Um economista que arranha inglês (Serafim Corrêa)


Uma farmacêutica monoglota (Vanessa Grazziotin)


Um radialista monoglota (Henrique Oliveira)


Um radialista analfabeto funcional (Sabino Castelo Branco)

Dependendo da sua escolha, Manaus poderá avançar rumo à Era da Modernidade ou então se cristalizar na Era da Mediocridade.

Você decide.

segunda-feira, agosto 13, 2012

Artur Virgílio Filho, um amigo inesquecível



Em pé, o Desembargador Artur Virgílio do Carmo Ribeiro. Sentado, o Senador Artur Virgílio Filho. No colo, o atual candidato a prefeito Artur Virgílio Neto

Durante uma reunião do Congresso Nacional em dezembro de 1968, nas vésperas da publicação do AI-5, o senador Artur Virgílio Filho, ex-líder do PTB no Senado e então vice-líder do MDB, ocupa a tribuna para fazer um discurso emocionado, denunciando os horrores da ditadura militar e repetindo o que já havia dito três anos antes.

– Que nos fechem hoje, mas com o povo que nos assiste ao nosso lado, e não nos fechem amanhã, ingloriamente, com o aplauso do povo brasileiro, como aconteceu em 1937! – vociferava o senador.

Vice-líder do MDB na Câmara e amigo de Artur Virgílio de longa data, o deputado Paes de Andrade pede-lhe um aparte, para se solidarizar com ele.

Artur Virgílio faz que não vê. Paes insiste. Artur Virgílio não dá a mínima.

Quando desceu da tribuna, Paes foi lhe cobrar:

– O que é isso, Virgílio? Como é que você me negou o aparte?...

– Paes, eu hoje não fiz um discurso, fiz um requerimento. Esse discurso é um requerimento de cassação. Você não tinha nada que entrar no meu requerimento. Cumpri meu dever de trabalhista e vice-líder da oposição e sei que eles vão me cassar. Estou indo embora, mas você precisa ficar para, junto com os outros companheiros, continuarem lutando pela volta da democracia.

Dito e feito. Dois meses depois, em fevereiro de 1969, o senador Artur Virgílio Filho foi cassado e teve seus direitos políticos suspensos por dez anos por força do Ato Institucional nº 5, publicado em 13 de dezembro de 1968.


O senador Artur Virgílio Filho (em pé), durante uma reunião com o presidente João Goulart e o senador Filinto Muller

Era disso que eu estava me lembrando dentro do elevador, na noite da véspera do Natal de 1978, quando, na companhia do jornalista Mário Adolfo, estava indo ao encontro do ex-senador, que morava então, solitariamente, no edifício Antônio Simões, no centro de Manaus.

Aquela história do senador já havia ganhado contornos de lenda entre os militantes da esquerda amazonense.

Nos últimos cinco meses, minha vida havia virado de ponta-cabeça.

Em agosto, liderei uma greve na Sharp, cujo desfecho teve ampla cobertura do jornal A Crítica graças ao empenho do jornalista Mário Adolfo, mas depois de uma semana de paralisação, eu e o engenheiro Geraldo Nogueira (irmão do ex-secretário estadual de Educação Vicente Nogueira) fomos sumariamente demitidos.

Uma semana depois, as demissões atingiam mais de seis dezenas de pessoas.

Em setembro, vários amigos meus foram demitidos de outras fábricas sob a alegação calhorda de que “a primeira turma de engenheiros eletrônicos da Utam queria transformar o pacato Distrito Industrial no conflagrado ABC paulista”.

Rolaram cabeças na Evadim, Semp-Toshiba, Sanyo, CCE e Gradiente, entre outras.

E o pior é que a greve na Sharp tinha sido provocada por um problema interno da empresa...

Nas duas ocasiões (na minha demissão e na demissão dos companheiros de outras fábricas), por obra e graça do engenheiro Adalberto Mello Franco (demitido da Semp-Toshiba), amigo de longa data da família do senador, fomos nos aconselhar com Arthur Virgílio Filho.

Em novembro, o engenheiro Carlos Almeida (demitido da Evadim) foi preso autoritariamente, sem ordem judicial, quando conversávamos no bar Farol das Batidas, em frente à sede da TV Amazonas, na Cachoeirinha, numa tarde de sábado, e levado pela Tropa de Choque da PM para lugar incerto e não sabido.

E tudo por conta de um mal-entendido: Carlos confundiu um sujeito vestido de pinguim (paletó de linho branco, calça preta e gravata borboleta) com o garçom e pediu uma “caipirinha”.

O sujeito não disse nada e se dirigiu para o balcão do bar.

Dez minutos depois, ele surgiu na varanda do boteco comandando uma tropa de choque da PM armada de metralhadora e escopetas.

Era um coronel aposentado ligado à 2ª Seção.

Os meganhas não quiseram nem saber dos nossos pedidos de desculpas.

Colocaram Carlos no “alçapão” de uma camionete veraneio com extrema violência, bateram a porta e as duas camionetes com os meganhas saíram cantando pneus em direção ao bairro da Praça 14.

Foi um deus-nos-acuda.


Novamente o senador foi convocado para nos livrar da enrascada.

Graças a um bilhete e a uma série de telefonemas endereçados aos advogados do famoso escritório jurídico “Simonetti, Paiva e Valois”, conseguimos localizar e libertar o engenheiro já na madrugada de domingo.

O incidente serviu para mostrar que os pit-bulls da ditadura continuavam dando as cartas.

Agora em dezembro, eu e Mário Adolfo estávamos indo pela primeira vez visitar o senador sem nenhum “problema” guardado na algibeira.

Pelo contrário. Eu estava levando um livro do Pablo Neruda (“20 Poemas de Amor e uma Canção desesperada”) e uma dúzia de cervejas em lata.

Mário levava um livro do Vinicius de Moraes (“Antologia Poética”), uma “Carta dos Direitos Humanos”, xerocopiada, em que habilmente desenhara uma nova capa, alguns LPs e duas latinhas de castanhas de caju.

Moleques de famílias pobres, nascidos e criados na Cachoeirinha, não tínhamos a menor ideia de que “presente de Natal” dar a um senador.

Os livros tinham sido a única opção condizente com a nossa precária situação financeira.

As cervejas e as castanhas era o que havia dado pra comprar com o “troco” dos presentes.

O senador (que a gente, num arroubo de intimidade além da conta, já chamava de “tio Ártur”, acentuando a primeira sílaba, como na pronúncia inglesa, talvez porque ele tivesse a educação esmerada de um verdadeiro lorde) ficou visivelmente emocionado.

Acostumado com a solidão (seus familiares moravam no Rio de Janeiro), para ele aquela véspera de Natal seria apenas mais uma noite igual às outras. Não foi.

Conversamos sobre isso e aquilo outro, mas, principalmente, sobre política, e secamos algumas garrafas de vinho (depois que nossas cervejas foram para o espaço).

O senador era um pote de erudição e ali estavam dois ouvintes dispostos a saborear, com uma indisfarçável admiração, aquele jorro vulcânico de quem sempre pautara a vida fazendo “o bom combate”.

Quando Arthur Virgílio Filho, recitando de cabeça um dos muitos poemas de Neruda que sabia de cor, se aproximava da janela do 11º andar para observar a cidade, Mário Adolfo, automaticamente, se levantava da poltrona e ia atrás, possivelmente com medo de ver o senador se jogando pelo vazio – e o jornalista não estar a postos para evitar a tragédia anunciada.

Mas era uma preocupação infundada. Arthur Virgílio Filho amava a vida.

Deixamos o apartamento do senador, já com o dia amanhecendo, completamente em êxtase.


No ano seguinte, acho que em março de 79, o senador patrocinou uma feijoada em seu apartamento para nos apresentar seu filho mais velho, o ex-senador e atual candidato a prefeito Artur Virgílio Neto.

No ano anterior, havíamos feito campanha para Artur Neto, candidato a deputado federal pelo MDB, mas apesar da boa votação recebida ele acabara na primeira suplência.

Eu e Mário Adolfo não o conhecíamos pessoalmente, mas bastava ser filho do “tio Ártur” para ser um verdadeiro homem de bem.

Ficamos “amigos de infância” na mesma hora.

Artur Neto, que na época era militante do clandestino PCB, trazia nas veias o idealismo do pai.

Praticar “o bom combate”, vimos logo, fazia parte da carga genética da família.

Diplomata de carreira e orador brilhante, Neto ainda trazia um outro diferencial que nos enchia de inveja: era professor de inglês e de francês.

Quer dizer, ele tinha intimidade com o idioma e sabia o significado das letras cantadas pelos Beatles, Bob Dylan, Pink Floyd, Rolling Stones e tantos outros roqueiros que “traduzíamos” com uma dificuldade da gota serena.

Em junho do mesmo ano, o senador Artur Virgílio Filho, na companhia do Adalberto Mello Franco, me fez uma visita de cortesia.

Ainda desempregado, fiquei com vergonha de recebê-lo na “tapera” de madeira carcomida em que estava morando – e, o que é pior, servindo de “babá” para meus filhos gêmeos, Marcelo e Marcel, que mal haviam completado dois anos, num dia-a-dia angustiante e completamente ocioso.

Tal como ele havia previsto, meu nome estava na “lista negra” do Distrito Industrial.

Durante a tarde inteira em que ficamos conversando, o senador falou das prisões arbitrárias que sofrera como quem fala de um acontecimento fortuito, sem demonstrar uma ponta de mágoa ou ressentimento.

Para ele, aquilo tinha sido apenas um “acidente de percurso”.

E traduziu magistralmente sua disposição de continuar o “bom combate”, arriscando, se preciso, a própria vida, com uma frase inesquecível do Che Guevara: “Prefiero morir de pie que vivir siempre arrodillado” (“Prefiro morrer de pé do que viver sempre ajoelhado”).

Aquela lição de otimismo e desprendimento tem sido meu norte ao longo da vida.

– Um dia você ainda vai rir muito disso tudo, meu filho! – vaticinou, quando nos despedimos.

Acertou na mosca.

Em 28 de agosto de 1979, o presidente Figueiredo sancionou a Lei n.º 6.683, de iniciativa do governo e aprovada pelo Congresso, anistiando todos os cidadãos punidos por atos de exceção desde 9 de abril de 1964, data da edição do AI-1.

Entre presos, cassados, banidos, exilados ou simplesmente destituídos dos seus empregos, a Lei de Anistia beneficiou 4.650 pessoas, entre as quais os ex-governadores Gilberto Mestrinho, Leonel Brizola e Miguel Arraes, os ex-líderes estudantis Vladimir Palmeira e José Dirceu, e o ex-senador Artur Virgílio Filho.

Em dezembro daquele ano, durante nossa tradicional celebração natalina, Tio Ártur levantou uma interessante hipótese para “justificar” sua cassação pelos militares.


Em 1967, um dos mais badalados futurólogos internacionais, Herman Kahn, 150 quilos, QI de 130, calmo, extremamente feio, vaidoso e arrogante, esteve no Brasil defendendo a transformação da Amazônia num grande lago (ou isso ou a internacionalização da região).

Diretor do Hudson Institute, um organismo que congregava dezenas de cientistas de renome internacional, Herman Kahn defendia a construção de barragens edificadas ao longo dos grandes rios da planície amazônica.

O projeto de Kahn resultaria na interligação de cinco nações sul-americanas por meio da inundação das bacias dos principais rios (a barragem do rio Amazonas seria no estreito de Óbidos, no Pará), possibilitando o tráfego direto e permanente em toda a região.

A equipe do cientista chegou a sobrevoar trechos imensos da Amazônia colombiana, estudando a sua execução.

A criação do “grande lago” melhoraria o potencial de navegação e levaria a um grande desenvolvimento econômico na região, determinado pela circulação fácil dos produtos e mercadorias.

Isso soava como música no ouvido de muitos militares brasileiros, cada vez mais paranoicos com a necessidade de colonizar a Amazônia.

Legítimo representante da região amazônica no Congresso Nacional, o senador Artur Virgílio Filho foi uma das primeiras vozes a se insurgir contra a “ideia estapafúrdia de meia-dúzia de cientistas de araque” e logo a briosa imprensa nacional caiu de pau no lombo do futurólogo.

A ideia do “grande lago” foi abortada num piscar de olhos.

– Bom, mas aquilo não era motivo para provocar a cassação política de alguém, senador – eu intervinha.

– Pois é. Mas, quem sabe o que se esconde na cabeça desses gorilas fardados? – dizia.

Aí, enquanto acendia mais um cigarro, encerrava o assunto:

– Um dia a gente ainda vai rir muito disso tudo, meu filho!

Só então a ficha caía: por mais paradoxal que fosse, a violência contra o senador tinha sido tão absurda que ele buscava uma “justificativa” plausível em fatos surrealistas.

Era um iluminista. Ou, quem sabe, um iluminado.


Eu, Mário Adolfo e o resto dos “meninos” continuamos a frequentar a casa do tio Ártur ao longo dos anos seguintes e se embebedando daquele humanismo tão pródigo e generoso.

Quando, em 1984, a “Oposição Sindical Metalúrgica” ganhou a eleição daquele ano e fui eleito vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, telefonei para ele, para dar a notícia.

– Só estou nessa luta por causa daquela nossa conversa de 79 – avisei.

– Faça o que tem que ser feito, meu filho, só não traia seus princípios – aconselhou.

Em maio de 1985, ele foi nomeado pelo presidente Sarney para dirigir o INPS e se mudou para o Rio de Janeiro.

Foi a última vez que falei com ele, outra vez em companhia do Adalberto Mello Franco.

O senador me presenteou com um livro do Neruda, “Memorial de Isla Negra”, que tenho até hoje.

Em novembro daquele ano, para não “trair meus princípios”, renunciei ao cargo de vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, que havia se transformado em um pestilento antro de corrupção – e nunca mais deixou de ser.

Foi uma grande oportunidade de colocar em prática mais um dos tantos generosos e pródigos ensinamentos recebidos do senador.

Dois anos depois, no dia 31 de março, o senador Artur Virgílio Filho foi se encontrar pessoalmente com Pablo Neruda.

Estava com apenas 66 anos de idade.

Tenho (temos) saudade.

quarta-feira, agosto 08, 2012

Bob Marley queimando tudo em HQ



A trajetória de Bob Marley (1945-1981), músico jamaicano que revelou o reggae para o mundo, acaba de ganhar uma versão em quadrinhos.

Em “Bob Marley: O Guerreiro Rasta”, graphic novel assinada pelos argentinos Diego Agrimbau e Dante Ginevra, a história do músico, símbolo internacional da cultura rastafari, é revista.

A biografia apresenta a vida de Marley, sua origem humilde na Jamaica e sua busca pela fama internacional.

A história lembra ainda a infância do músico e o início do Wailing Wailers, banda que formou com Peter Tosh e Bunny Wailer.

Fruto da união de uma afro-jamaicana com um britânico, Bob cresceu na pobreza de uma Jamaica que buscava se libertar do domínio inglês enquanto construía sua própria identidade social e racial.

A obra será um dos destaques da V&R Editoras na 22ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que acontece de 9 a 19 de agosto, no Pavilhão de Exposições do Anhembi.


O talento somado a sua coragem e fé permitiram que Bob Marley se tornasse uma lenda do reggae e ícone dos valores rastafári.

Suas mensagens de amor e paz são até hoje multiplicadas entre seus fãs, mesmo após 30 anos de sua morte.

Decepções, sofrimento, fé, paixões, violência, obstinação, preconceito, doenças, drogas, separações, superações, dinheiro, a ilusão da fama e um atentado – a vida de Bob Marley não poderia deixar de virar livro.

A graphic novel dos argentinos conta desde a infância do cantor, na Vila de Nine Mile, na Jamaica, durante a década de 1950 – quando acreditavam que ele podia ler o futuro das pessoas através das mãos – até a sua morte, em 1981, em um hospital em Miami.

As homenagens a Bob Marley não param por aí: um documentário sobre a vida do cantor está para chegar aos cinemas.

O futuro blockbuster “Marley”, ainda inédito no Brasil e cujo trailer você confere abaixo, dirigido por Kevin MacDonald (“O último Rei da Escócia”), foi lançado no último Festival de Berlim.


Integrante do grupo MPB4, Magro morreu aos 68 anos



O compositor, arranjador, instrumentista e vocalista Antônio José Waghabi Filho, ou Magro como era mais conhecido, faleceu nesta quarta-feira, 8, aos 68 anos, em São Paulo, onde estava internado devido a um câncer.

Magro era integrante do MPB4, o mais importante grupo vocal masculino da música popular brasileira, ao lado de Dalmo, Miltinho e Aquiles.

A morte do músico foi anunciada no site oficial do grupo: “Depois de longa luta pela vida, Antonio José Waghabi Filho, o Magro do MPB4, nos deixou. Com ele vai junto uma parte considerável do vocal brasileiro. Com ele foi a minha música”, lamentou Aquiles.

O corpo de Magro será velado até às 21h no Hospital Beneficência Portuguesa.

Amanhã, às 11h, será cremado no crematório da Vila Alpina, também em São Paulo.

A última apresentação de Magro com o grupo foi no dia 8 de junho.

O músico deixa mulher e dois filhos.

Natural do estado do Rio de Janeiro, Magro começou sua carreira musical em 1962, como vibrafonista da banda Praia Grande, um grupo que se apresentava em bailes na cidade de Niterói.


Em 1963, ao lado de Miltinho, Ruy Faria (Dalmo Medeiros entrou em seu lugar em 2004) e Aquiles, ele formou o Quarteto do CPC – que um ano depois virou MPB4, devido à extinção dos Centros Populares de Cultura (CPCs).

Batizado simplesmente de “MPB4”, o primeiro álbum do grupo veio em 1966 e apoiava-se sobretudo no repertório de Chico Buarque – nome que norteou a carreira do quarteto durante todo o tempo.

A partir de então, passaram a lançar discos quase anuais – rareando um pouco a partir dos anos 1990.

Os mais cultuados são “Deixa Estar” (1970), “De Palavra em Palavra” (1971) e “Cicatrizes” (1972), criados no período em que o grupo se tornou mais militante no embate conta a ditadura.

O talento de Magro como arranjador vocal ganhou repercussão nacional em 1967, quando ele criou a complexa trama que unia a voz de Chico Buarque às dos quatro meninos do MPB4 em “Roda Viva” (Chico Buarque), canção defendida pelos cinco no III Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record.

Também é dele o arranjo vocal da gravação original de “Cálice” (Gilberto Gil/ Chico Buarque), cantado por Chico e Milton Nascimento no álbum “Chico Buarque” (1978).

Em 1977, aceitou o convite de Chico para interpretar – não apenas cantando, mas também interpretando – o Jumento no álbum “Saltimbancos”, clássico instantâneo que alimenta até hoje o imaginário infantil.

Ali, Chico vertia para o português as canções do argentino Luis Enríquez Bacalov e do italiano Sergio Bardotti.

Na versão nacional, Miúcha interpretou a Galinha, Nara Leão, a Gata e Ruy, também do MPB4, fez o Cachorro.

Dedicado a boleros, “Contigo Aprendi”, trabalho mais recente do MPB4, foi lançado em junho passado.

terça-feira, agosto 07, 2012

Vascão perde mais um torcedor fervoroso!



O cantor Celso Blues Boy morreu na manhã desta segunda-feira, 6, em Joinville, no Norte de Santa Catarina. 

Segundo a central funerária de Joinville, o músico faleceu às 8h50.

O corpo já foi encaminhado para Blumenau para ser cremado.

O músico tinha 56 anos e sofria câncer de garganta.

Blues Boy era cantor, compositor e guitarrista.

Celso Ricardo Furtado de Carvalho nasceu no Rio de Janeiro, em janeiro de 1956.

Na década de 1970, com apenas 17 anos, começou a tocar profissionalmente com Raul Seixas, além de acompanhar nome da MPB como Sá & Guarabyra e Luiz Melodia.

Seu nome artístico é uma homenagem ao seu ídolo B.B. King, com quem chegou a tocar na década de 1980.

O vascaíno foi guitarrista das bandas Legião Estrangeira e Aero Blues, considerado o primeiro grupo de blues do Brasil.


Em 1980 passou a ser mais conhecido, quando mandou uma fita para a Rádio Fluminense, no Rio, voltada para o repertório roqueiro.

Quatro anos depois gravou seu primeiro disco, Som na Guitarra, que inclui seu maior sucesso: “Aumenta Que Isso Aí É Rock’n Roll”.

Entre 1986 e 2011, Celso lançou mais nove álbuns, como Marginal blues (1986), Quando a noite cai (1989), Indiana Blues (1996) e Vagabundo errante (1999).

Em 2008, foi lançado seu primeiro e único DVD ao vivo, Quem foi que falou que acabou o rock ‘n roll?, gravado no Circo Voador, no Rio de Janeiro, que também saiu em CD.

Seu último CD foi lançado ano passado.

Intitulado Por um monte de cerveja, o álbum possui 13 canções, como “Beth Carvalho Quer Comprar O Meu Fuscão” e “Odeio Rock’n’Roll”, com participação dos Detonautas.

Celso Blues Boy morava há 15 anos em Joinville.


Músicos e outros artistas publicaram mensagens em redes sociais para lamentar a morte do cantor e guitarrista.

“Foi-se Celso Blues Boy: uma vez fomos induzidos a tocar Coqueiro Verde numa festa e o resultado foi hilário... Saudades”, escreveu Erasmo Carlos em seu perfil no Twitter.

O apresentador Serginho Groisman também se manifestou em seu perfil no site: “Morreu Celso Blues Boy. Tive o prazer de assistir ele tocando sua furiosa guitarra. Seu encontro com B.B.King é antológico.”

Já Humberto Gessinger, líder do grupo gaúcho Engenheiros do Hawaii, afirmou: “Putz... Segunda Feira Blues... RiP”.

O cantor Ritchie, do sucesso “Menina veneno”, foi outro comentar a morte de Celso Blues Boy: “R.I.P. Celso Blues Boy :(“.

Tico Santa Cruz, do Detonautas Roque Club, mencionou uma recente colaboração com o músico: “É com muita tristeza que recebo a noticia da morte de meu querido amigo Celso Blues Boy!! Muita muita muita! Nós fizemos o último disco dele”.

O guitarrista e vocalista do Ultraje a Rigor, Roger Moreira postou: “Noticia triste. Celso Blues Boy se foi...”.

Pelo Facebook, o cantor Leoni disse: “A Música Brasileira perdeu um de seus grandes nomes e eu perdi um amigo querido. Valeu, Celso Blues Boy!”.

Caetano Veloso faz 70 anos e ganha disco tributo de presente



Caetano Veloso, que completa 70 anos nesta terça-feira, é presenteado com o lançamento de um disco tributo inédito, uma homenagem que traz cantores de diversos países interpretando algumas de suas músicas mais clássicas.

Intitulado “A Tribute to Caetano Veloso”, o disco, que conta com 16 músicas assinadas pelo musico baiano, começa a ser distribuído hoje pela gravadora Universal Music.

Entre os convidados do disco aparecem: o uruguaio Jorge Drexler (“Fora da Ordem”), o espanhol Miguel Poveda (“Força Estranha”), a cantora portuguesa Ana Moura (“Janelas Abertas nº 2”), o americano Beck (“Michelangelo Antonioni”), a banda londrina The Magic Numbers (“You Don’t Know Me”) e Chrissie Hynde (“The Empty Boat”).

Marcelo Camelo, que interpreta “É de Manhã”, Seu Jorge, com “Peter Gast”, Os Mutantes, com “London, London”, e Mariana Aydar, com “Araçá Azul”, também fazem parte deste disco tributo.

A homenagem citada é a mais importante em uma data que Caetano decidiu não festejar publicamente.

Ao invés de celebrar seus 70 anos, o músico aproveitou para adiantar a gravação de um disco de músicas inéditas, que possui lançamento previsto para novembro.

Além do disco tributo, Caetano receberá outra homenagem da Academia Latina das Artes e Ciências da Gravação, que anunciou o cantor baiano como a personalidade do ano durante a cerimônia de entrega do Grammy Latino.


“Caetano Veloso se transformou em um verdadeiro embaixador da música e da cultura brasileira. É difícil encontrar alguém com tanto talento, paixão e dedicação a seus projetos criativos, tanto na música e nas letras como no social”, afirmou o presidente da Academia, Gabriel Abaroa, ao anunciar a homenagem há algumas semanas.

A Universal também festejou o aniversário do artista com o lançamento de uma página na internet, na qual toda sua discografia pode ser ouvida gratuitamente.

Aos 70 anos, Caetano continua bastante ativo. Além da gravação de um novo disco, o cantor, ao lado da família Caymmi, participará de um show de homenagem ao centenário do escritor Jorge Amado, que será realizado nesta sexta-feira.

Nascido no dia 7 de agosto de 1942 em Santo Amaro da Purificação, no interior da Bahia, Caetano teve sua carreira marcada pelo Tropicalismo, movimento que inovou a música brasileira em épocas de ditadura.

Diante deste contexto, o cantor teve várias músicas censuradas e chegou a ser acusado de subversão, sendo obrigado a se exilar em Londres por alguns anos.

Ele viveu no exílio em Londres de 1968 a 1972.

Nos anos 80, ampliou seu público. Gravou mais de 40 discos, publicou cinco livros, dirigiu um longa e ganhou vários prêmios.

Em 2003, participou da cerimônia do Oscar, em performance ao vivo com Lila Downs em “Burn It Blue”, do filme “Frida”, pelo qual recebeu a indicação de Melhor Canção Original.

No Grammy Latino, ele passa a integrar uma lista de homenageados que inclui Placido Domingo, Gloria Estefan, Julio Iglesias, Carlos Santana e Shakira, entre outros.

Escritora brasileira lança campanha contra pirataria com pintura corporal



Lívia Machado
Do G1, em São Paulo

A escritora brasileira Vanessa de Oliveira fará um novo protesto contra a pirataria de livros. Desta vez, mostrará seus atributos físicos em território nacional, a começar por fotos para ilustrar a campanha por ela idealizada.

A autora ganhou fama após aparecer nua em frente ao palácio do governo do Peru, em Lima, em julho. Ela descobriu que uma de suas seis obras – “O diário de Marise - A vida real de uma garota de programa” – era vendida em barraquinhas clandestinas nas ruas da cidade.

O novo topless está programado para domingo (12), na livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, na Zona Sul de São Paulo, às 15h30. O evento faz parte da nova agenda da escritora.

A ex-garota de programa, de 37 anos, encabeçou uma campanha contra a cópia e venda ilegal de livros e pretende usar seu corpo para fazer piquetes internacionais.


O protesto em um ambiente privado foi sugestão de Vanessa à editora Martins Fontes, que comercializa seus livros. De volta ao Brasil, ela aproveitou a repercussão no país vizinho para arrebatar aliados mundiais.

“Fiz a oferta de autografar meus livros e falar sobre os danos da pirataria, e eles toparam na hora. Estarei apenas de calcinha, com os dizeres escritos pelo corpo, tentando conscientizar as pessoas”, conta ao G1.

Na próxima semana, deve retornar ao Peru após convite da editora Help.

Em dezembro, participará da Feira do Livro de Guadalajara, no México.

Antes de embarcar em viagens internacionais, Vanessa recrutou amigos e profissionais interessados na causa e produziu fotos e vídeo para a campanha que elaborou sozinha.

Nas imagens, usou tinta branca, preta e vermelha para colorir o próprio corpo com os dizeres “Pirataria não” em diferentes idiomas. “Amo a cor vermelha. O preto simboliza o mercado negro, e o branco é a cor usada para ilustrar a caveira, no logo da campanha”, justifica.


As nacionalidades estão representadas nas pernas, nos braços, na barriga, no colo e no quadril. Para traduzir a expressão, pediu ajuda aos amigos e fãs que residem fora do Brasil via Facebook e Twitter. Por fim, checou as grafias nos dicionários e na internet.

O material teve apoio de uma fotógrafa, maquiadora, publicitários e um produtor de vídeos. Todos os profissionais aderiram de forma voluntária.

Para a sessão de fotos, a escritora dormiu com uma cinta modeladora e amargou mais de 24 horas em jejum. Também suportou as baixas temperaturas do inverno catarinense em prol da revolução literária.

“Queria estar com a barriga bonita no vídeo. Na foto dá pra usar o Photoshop, mas no vídeo não tem como. Dormi com cinta na barriga pra ficar com a cinturinha bem fininha e passei um dia sem comer.”

Vanessa foge de tabus e preconceitos. Para ela, a nudez é uma bandeira coerente com seu estilo de vida. São raras as vezes em que está vestida dentro de sua casa. “Gosto de ficar pelada. A maior parte dos meus livros eu escrevo sem roupa.”

Ela não teme que o excesso de exposição renda uma repercussão negativa, tampouco pretende mudar sua estratégia para se fazer ouvir. “Você fica pelada e o povo para, chama atenção. O que significa se expor demais? Não tenho problema com isso. Se tivéssemos um clima bom, e todo mundo ficasse nu, seria bem melhor”, convoca.

domingo, agosto 05, 2012

Jamaica: cinquentona e bem acesa



Um típico sound system jamaicano dos anos 60: música nas ruas

Na música “Forward march”, Derrick Morgan celebrava, em agosto de 1962, o novo status de seu país, após mais de três séculos como colônia britânica, cantando: “Vamos nos juntar, irmãos e irmãs/ Somos independentes”.

Mas foi o jovem Jimmy Cliff, então com 14 anos, quem conquistou o topo das paradas com “Miss Jamaica”, o primeiro hit daquele período de euforia.

Na letra, carregada de simbolismos, ele comparava a pequena ilha caribenha, de praias paradisíacas, a uma beleza que o mundo iria conhecer: “Embora você não tenha um tamanho fabuloso/ Comparado ao resto do mundo/ Você é do meu tamanho/ É tudo o que eu preciso/ Você é minha Miss Jamaica/ Estou te coroando agora”.


Na próxima segunda-feira, aquela “miss” completa 50 anos, sendo conhecida do mundo não apenas pelas suas belezas naturais, mas também pelo incrível poder da sua música.

Do ska ao ragga, passando pelo enfumaçado dub e pelo seu maior produto de exportação, o reggae, a Jamaica — cujos sons serão celebrados ao longo dos próximos 12 meses em shows, discos e exposições — influenciou decisivamente muito do que se ouviu e do que se ouve no planeta, fertilizando a disco, o rock, o hip-hop, a eletrônica e a MPB.

De quebra, deu ao mundo um dos seus maiores ícones, Bob Marley, de adoração comparável a Elvis Presley e aos Beatles, e cujos discos não param de vender, mesmo após a sua morte, em maio de 1981, de câncer. A compilação “Legend”, de 1984, por exemplo, já vendeu 25 milhões de cópias em todo mundo, tornando-se o maior sucesso da história do reggae.

– É realmente incrível pensar que uma ilha, pequena daquele jeito, tenha tido essa importância para a contemporanidade musical do planeta – diz Gilberto Gil, possivelmente o artista brasileiro mais associado ao reggae e aos ritmos da Jamaica, onde gravou, em 2002, o disco “Kaya n’Gand Daya”. “Mas a cultura musical do país é muito rica. E foi ela que nos deu Bob Marley, um talento extraordinário, um gênio que eu comparo a Tom Jobim e João Gilberto”.


No jubileu da Jamaica, a figura de Marley é lembrada na exposição “Messenger”, em exibição até 22 de outubro, no museu interativo The British Music Experience, em Londres.

A capital inglesa – onde os sons jamaicanos encontraram uma segunda casa – recebe também, durante os Jogos Olímpicos, a Jamaica House e o festival Respect Jamaica 50, ambos na Arena O2, onde até 12 de agosto vão se apresentar DJs como Jah Shaka e David Rodigan e artistas como Lee Perry, U-Roy, Damian Marley e Jimmy Cliff.

– A influência da música jamaicana na Inglaterra é imensa. E, a partir dali, ela se espalha pelo mundo – conta David Katz, autor do livro “Solid foundation: an oral history of reggae”. “Isso remonta aos anos 1960, quando o ska foi adotado pelos mods e, mais tarde, pelos skinheads. Depois, foi Bob Marley conquistando o público do rock e os punks se apaixonando por roots reggae. As conexões se estendem até o lovers rock e à influência dos MCs no surgimento do jungle. É uma união bastante antiga e rica.”

Nas próximas semanas chega às ruas uma série de lançamentos também celebrando a data. A gravadora VP Records vem com “Out of many: 50 years of reggae music”, com três CDs, cada um trazendo um hit de cada ano na Jamaica, de 1962 até 2012.

A Trojan surge com “Freedom sounds: a celebration of Jamaican music”, com cinco CDs.


Mas o pacote mais farto vem da Island Records. A gravadora fundada na Jamaica aparece com “Soundsystem”, caixa de oito CDs acompanhada por um livro de cem páginas.

Os dois últimos lançamentos chegam ao Brasil até o fim do mês, importados pela Universal.

– O reggae continua sendo a maior fonte de inspiração e de orgulho para os jamaicanos – diz Carolyn Cooper, professora da University of West Indies, em Kingston, e autora de livros sobre o assunto como “Sound clash: Jamaican dancehall culture”. “Mas há jovens que não conhecem sua história. Tive um aluno que me confessou só ter descoberto Peter Tosh recentemente. É trágico. O dancehall é o som dos novos tempos, é a música que ecoa junto às novas gerações. Mas há artistas de dancehall, como Queen Ifrica, I-Octane, Romaine Virgo, Etana e Tarrus Riley, que se equilibram entre a modernidade e a tradição roots.”

No Brasil, as conexões com a Jamaica – acionadas pela primeira vez no começo dos anos 1970, por artistas como Caetano Veloso e Jards Macalé – continuam à vista.

Além de notórios relacionamentos – do samba-reggae, na Bahia, ao som das radiolas, no Maranhão – novidades não param de dar na praia.


No Recife, o grupo Ska Maria Pastora, que debutou recentemente com o disco “As margens do Rio Doce”, liga o balanço jamaicano com o frevo, enquanto produtores como Bid vão ainda mais longe, aproximando baião e maracatu do ska e do dancehall, como no disco “Bamba dois”, gravado na ilha, com estrelas locais como Luciano e Sizzla.

– O reggae tem uma divisão rítmica parecida com a do forró, por exemplo. A diferença é que a gente usa triângulo, zabumba e sanfona, e os jamaicanos usam baixo e bateria para a marcação – diz Gil. “Mas são parentes muito próximos.”

Autor de “Não chores mais”, um clássico da fusão Jamaica-Brasil (versão de “No woman, no cry”, de Bob Marley), Gil completa:

– Reggae, ska, afoxé, xote, é tudo uma pulsação só. Lembro da primeira vez que mostrei um reggae para Dominguinhos, em 1975, e ele me respondeu, brincando: “Mas que xotezinho sem-vergonha, Gil”.


Adaptação local para os sound systems caribenhos, onde se dança as “pedras” (sucessos, na gíria local do Maranhão)

São Luís curte o reggae há mais de 30 anos, de um jeito bastante particular. E não há sinais de que essa conexão vá cair.

Na capital maranhense, o ritmo jamaicano ainda é o som da massa, dançado juntinho, seja nas famosas radiolas — adaptações locais para os sound systems caribenhos — ou em bares espalhados pela cidade.

Nas gigantescas caixas, nada de ritmos digitais, como dancehall ou ragga.

O que une os casais é a batida marcada, macia e envolvente do som roots, típico dos anos 1960, como se as duas ilhas tivessem parado no tempo.

Mas há algumas novidades no ar. E uma polêmica também.

Até o começo dos anos 2000, os DJs locais disputavam com ferocidade o privilégio de tocar uma “pedra” (sucesso, na gíria local) com exclusividade.


Para isso, alguns, como Edmílson Tomé, mais conhecido como Serralheiro, uma lenda local, chegavam a viajar até a Jamaica em busca de um compacto.

Era esse o combustível para animar os bailes de radiolas como Voz de Ouro Canarinho e Águia do Som.

Com as facilidades obtidas pelos avanços tecnológicos, o cenário mudou um pouco.

Agora, o que os novos DJs tocam, em seus laptops, são produções feitas em estúdios locais, com a ajuda de bases eletrônicas, o chamado “robozinho”.

É o que se escuta na domingueira Chama-Maré, realizada na beira da praia da Ponta d’Areia, frequentada por um público mais “classe média”, como explica Fauzi Beydoun, DJ e cantor do grupo Tribo de Jah, mas não o que rola em bares de “resistência” como o Kingston 777, na periferia da cidade, comandado pelo DJ Jr Black, que só toca vinil.

– O robozinho é um som muito repetitivo, por causa das programações eletrônicas, e às vezes soa artificial. Aí surgiu esse movimento de resistência, e hoje há dezenas de bares pela cidade tocando sons mais orgânicos – conta Beydoun. “A única coisa que não mudou em São Luís é que o reggae continua sendo o som do povão, a forma de lazer mais barata, a identidade cultural da cidade.”


Diversidade na 3ª edição do Terruá Pará



Daniela Dacorso, de Belém (PA)

Na imponente construção neoclássica de 134 anos, inspirada no Teatro Scala de Milão, cadeiras tropicais de madeira e palha trançada.

No palco, garotos fazem som eletrônico da periferia com roupas que simulam futuristas pinturas indígenas que brilham no escuro.

A senhora de anos canta versos que louvam, com divertida conotação sexual, o “tremor” causado na boca (e no corpo todo) pelo jambu — verdura típica da culinária local que causa dormência na língua.

Os músicos da orquestra de violoncelistas dançam com seus instrumentos como se estivessem num misto de arrasta-pé e baile de tecnobrega.

Guitarras cultivadas por décadas em bordéis fuleiros dialogam com a vanguarda da juventude classe média.

Duas musas iluminam o olhar lançado dali sobre o mundo exterior: “Ela é americana/ Da América do Sul” e “Essa ‘lorinha’ americana/ Está querendo me esculachar/ Dizendo que eu sou neguinho/ E na América eu não posso entrar”.

No fim, a diva pop pós-moderna comanda o carimbó.

Realizada entre 31 de julho e 4 de agosto no Teatro da Paz, em Belém, a terceira edição do Terruá Pará – espetáculo de quase três horas unindo artistas do estado, entre 20 e 90 anos, de diferentes gêneros – sintetiza um tanto da teia de informações que gera a força da produção cultural paraense hoje.

Uma produção cultural que não se limita à música, sua vitrine mais evidente, mostra também nas artes visuais, na moda, no teatro, na literatura e no audiovisual que pode aceitar facilmente definições-clichês como “exuberância amazônica” e “diversidade de floresta tropical”, justificando, enfim, os olhares atraídos pelo estado recentemente como o polo cultural mais interessante do país.

O terruá (termo criado pelo evento a partir do francês terroir, que indica identidade local) paraense não nasce do acaso.

Ele é fruto de uma conjunção de fatores que vão desde a formação histórica da cidade até iniciativas (de Estado ou de “guerrilha”) feitas ao longo da última década que, por um lado, permitiram que surgisse uma geração de público e artistas especialmente criativa e, por outro, deram visibilidade ao que já vinha sendo feito há muito tempo.


A cantora Lia Sophia foi uma das atrações do Terruá Pará, que aconteceu no Theatro da Paz

Avaliando o que acontece na música, Ney Messias, secretário de Comunicação do estado e idealizador do Terruá Pará, defende que na base de tudo está um resgate de um “sotaque perdido”:

– O projeto “Mestres da guitarrada”, que Pio Lobato criou em 2003, é o marco zero. Ninguém falava em guitarrada então, era como se não existisse. Mas, a partir dali, as pessoas do Pará voltaram os olhos novamente para essa bagagem, antes desprezada, e viram que havia valor ali. Não só na guitarrada, mas no carimbó e em outros gêneros locais. O que o Terruá Pará faz quando aparece em 2006 (uma segunda edição foi realizada em 2011) é sistematizar esse movimento, dar um sentido a ele.

Festivais de rock como o Se Rasgum a cada edição se abriam mais para o tal “sotaque perdido”, dando espaço para artistas locais tradicionais, o som da periferia do tecnobrega e a nova geração que aparecia misturando esses elementos. O público acompanhava a transformação.

– Lembro que meus amigos riam do Pinduca, e hoje no Se Rasgum tem roda de pogo para suas músicas – diz o cineasta Vladimir Cunha, diretor do documentário “Brega S/A”. “Essa geração que surge agora já cresceu com essa abertura. E é mais esperta com relação à produção, cresceram vendo o Se Rasgum, viajam, têm referências para saber como fazer as coisas. O resultado é algo como o Mongoloid Festival, produzido por moleques de 20 anos, que vai ter bandas indianas, mexicanas e o bregueiro Cacique Cara de Pau juntos. Totalmente diferente da Belém onde eu cresci, onde as pessoas brigavam por música. Metaleiros com punks, essas coisas.”


Gaby Amarantos no festival Terruá Pará

A efervescência da música paraense e a atenção que ela tem recebido acabam dando frutos para outros terrenos, como as artes visuais.

E oferecem oportunidades para que a obra de artistas como Berna Reale, Keyla Sobral (atualmente com a exposição “Meu livro de memórias” no Rio, na Galeria do Ateliê) e Roberta Carvalho rompam os limites do estado.

– Ser de Belém, que outrora gerava um preconceito, hoje é quase pré-requisito para você conseguir mostrar sua arte – brinca Roberta, que desenvolve um trabalho de mapping, projetando imagens em árvores, quase sempre de temas amazônicos. “Nas primeiras vezes em que estive em São Paulo, as pessoas se surpreendiam: ‘Olha, ela é do Norte e está trabalhando com tecnologia.’ Temos uma tradição forte de artes visuais, sobretudo a fotografia paraense, uma escola muito valorizada no mundo.”

Editora e fundadora da revista eletrônica de arte e cultura contemporânea “Não-lugar”, Keyla lança uma provocação:

– Há grupos como o Qualquer Coletivo, gente como Orlando Maneschy, uma grande diversidade. Podíamos ter um Terruá Pará de artes visuais.

Berna mira nas artes plásticas, mas vai além quando aponta para a questão-chave para se pensar cultura no Pará: a dependência das políticas públicas e das empresas (como a Vivo, que no projeto Conexão Vivo apoia festivais, shows e gravação de CDs):

– Infelizmente uma cidade como Belém não tem mercado para sustentar a arte – diz.


O grupo de carimbó Uirapuru abriu a programação na noite de estreia

Mesmo a falta de recursos revela soluções que mostram a força da cultura paraense.

O Teatro Cuíra é um exemplo claro: criado em 2006 para ser a casa do grupo homônimo (há 30 anos em atividade), o espaço, que fica numa região de prostituição da cidade, era um casarão centenário com as paredes internas derrubadas para virar estacionamento.

A configuração acabou favorecendo o grupo, que montou sua sala, com cadeiras compradas de um cinema fechado e arquibancadas e aparelhos de ar-condicionado doados.

Assim, surgiu um palco a mais na cidade para outras companhias e músicos, prêmios e patrocínios para projetos específicos – peças do grupo que quase sempre trazem prostitutas da região no elenco.

– Quando chegamos, a primeira pessoa a meter a cabeça aqui dentro e perguntar “o que vocês vão fazer aí?” foi uma prostituta. Vimos que tínhamos que trazer as pessoas daqui para dentro do grupo. É uma forma de interagir com a cidade, e teatro se faz assim – defende o dramaturgo e diretor Edyr Augusto Proença, insatisfeito com os rumos da política cultural de Belém.

– O Terruá Pará reúne artistas ótimos, mas a realidade da cultura paraense é essa aqui (olha em volta, mostrando as instalações simples do teatro), não é a do festival.

Escritor com vários romances publicados, Proença vê surgir na literatura uma exploração original dos cenários de Belém, longe da folclorização amazônica e mais interessada na complexidade do cenário urbano de uma cidade encravada na floresta:

– Exploro essa linguagem policial, cinematográfica, sempre em histórias passadas em Belém. Jovens escritores como Marcelo Damaso (produtor do Se Rasgum, ele tem o romance “Iracundo” pronto, à procura de editora) e Cacho Ishak conversam comigo nesse sentido, falam a mesma língua.

Ishak vê as mesmas afinidades. A vista panorâmica da varanda de seu apartamento parece reafirmar seu pensamento: prédios altíssimos acusam a especulação imobiliária de um lado, enquanto a periferia pobre se espalha rasteira do outro.


A orquestra de cellos foi uma das sensações do evento

Alguns artistas ressaltam a curiosidade e o desejo de se “amostrar” do “cabôco” (uma espécie de caboclo com a especificidade de Belém) como determinantes para o que acontece no Pará. Um traço que conversa com a formação clássica, herança da fase áurea da borracha.

O resultado aparece em trabalhos como o erudito-pop da Orquestra de Violoncelistas da Amazônia e cantoras líricas como a jovem Thaina Souza, que, oriunda do tradicional Conservatório Carlos Gomes, acaba de ganhar uma bolsa para estudar em Viena – há cantores líricos paraenses espalhados pela Europa.

O audiovisual acompanha o momento, com nomes como Vladimir Cunha, Jorane Castro, Roger Elarrat, Cássio Tavernard e Priscila Brasil.

Filha de família tradicional, com direito a aulas de francês e piano na infância, Priscila chamou a atenção como diretora do clipe de “Xirley”, de Gaby Amarantos, a cantora de origem pobre, “cabôca”, do bairro de Jurunas, que abraçou a tecnologia.

O encontro das duas – hoje a primeira é empresária da segunda – traz, de certa forma, as possibilidades oferecidas por essa cultura paraense que agora se mostra para o Brasil.

Dos salões do conservatório às aparelhagens, todos estão sob a mesma opressão da umidade e do calor, lembrada a todo tempo pelo brilho do suor nos rostos – como se diz em Belém, todos breados.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Amazon lança serviço de música digital que compete com iTunes



A Amazon.com apresentou um novo serviço de música digital nesta terça-feira, intensificando a competição com o iTunes, da Apple.

O novo serviço encontra arquivos de música digital nos computadores de seus usuários, cria cópias dessas canções e as armazena em nuvem, segundo a Amazon.

Como parte do novo serviço, a Amazon anunciou acordos de licenciamento junto a centenas de editoras e distribuidoras de música, incluindo Sony Music Entertainment, EMI, Vivendi, Universal Music e Warner Music.

As licenças permitem que a empresa crie novas versões dos arquivos digitais de música de seus clientes.

A iniciativa intensifica a competição com a Apple, que lançou um serviço semelhante, chamado iTunes Match, em 2011.

Não é a primeira vez que a Amazon invade o território da Apple.

No ano passado, a maior rede de comércio online do mundo começou a comercializar seu próprio tablet, o Kindle Fire, como uma alternativa menor e mais barata ao iPad.

A Amazon disse na terça-feira que identificará todos os arquivos de música digital comprados em sua loja online e os armazenará gratuitamente.

O serviço também poderá ser utilizado gratuitamente em até 250 arquivos de música digital transferidos a partir de CDs ou comprados da iTunes Store, da Apple, além de outras fontes, informou a Amazon.

Após 250 canções, a Amazon cobrará US$ 24,99 ao ano para identificar e armazenar até 250 mil arquivos de música digital comprados ou adquiridos a partir de outras fontes.

Uma vez armazenados na nuvem, clientes podem ouvir as canções por meio do Kindle Fire e de aplicativos da Amazon em aparelhos como iPhone, iPod Touch, tablets Android e smartphones, e em PCs, por meio de navegadores.

A Amazon disse que o serviço será disponibilizado em breve por meio de boxes Roku Internet TV e do sistema de streaming de música Sonos.