Espaço destinado a fazer uma breve retrospectiva sobre a geração mimeográfo e seus poetas mais representativos, além de toques bem-humorados sobre música, quadrinhos, cinema, literatura, poesia e bobagens generalizadas
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“O que é antigo é velho, o que é velho não serve mais”
A arte de enganar os "trouxas"
Por João Bosco Gomes (*)
Esse Simas Pessoa. Ou Careca Selvagem, forma iconoclasta com a qual assina o texto introdutório de seu mais recente livro, “Arte e ciência de jogar dominó”, reunião de quase tudo quanto publicou (“poemas, folhetos, cartazes, envelopes recheados de papéis de todas as formas, anotações, dicas, anedotas, resumos de partidas e até estórias parecidas com histórias”) desde 2010, e que ele lança agora pela sua – dele, Simas – Editora do Autor. Aliás, a Editora do Autor cai na vida junto com outro lançamento, a reedição que o próprio Simas faz daquele não menos desbocado “O Elixir do Pajé”, de Bernardo Guimarães, essa suma escatológica tropical. Quem comprar um, leva o outro na bagagem, de graça.
Nascido em Manaus, em outubro de 1961, poeta das alegorias gráficas, distribuidor de humor, sátira, paródia, macunaímico mais que Macunaíma, descomportado como o diabo gosta, vencedor do 1º Concurso de Poesia Falada da Cachoeirinha, lançador de ambiguidades no discurso à cotê, desfrequentador de rodas e igrejinhas (“eu nunca fiz parte de nenhum movimento”), Simas Pessoa é uma usina de desafinar. Dois pontos. Corais contentes. Fez Engenharia de Sistemas, trabalhou 20 anos no Distrito Industrial e sempre exerceu o gauche.
“O primeiro poema que escrevi foi em 1982”, diz ele. Deste poema, já canabalizando o potencial visual dos “ready made” (“os quadrinhos, as fotos, a ilustração”), Simas disparou o seu livro de estreia, “Dias sem luz e outros poemas amargos”, no ano seguinte. Desdevedor de editor, como até hoje. Mas com duas tentativas, é bom que se aclare. Uma, junto à Civilização Brasileira, recebendo o “não” de praxe. Outra, junto à Brasiliense: “além do não, recebi pelo correio um envelope cheio de panfletos sobre as diretas-já”. Recusado pelas outras, ficou com a sua, a Editora do Autor, onde rege múltiplos instrumentos.
“Como ninguém vive de literatura, fui trabalhar no Distrito Industrial e a escrita ficou em segundo plano”, recorda. “Só fui lançar um novo livro em 1996”. O livro “Forte Apache e a fabulação do Velho Oeste” era um relato biográfico da alegria que teve ao ganhar de presente de Natal de seu irmão mais velho, o também escritor Simão Pessoa, a linha completa dos produtos Casablanca: Forte Apache, Caravana do Oeste, Acampamento Apache, Fazenda Bonanza e Dodge City. “Virei o menino mais invejado da rua porque tinha mais de 100 personagens do Velho Oeste para brincar no fundo do quintal”.
Não que o escritor tenha ficado inativo por quase uma década. Neste tempo, ele participou de recitais de poemas em barzinhos, como Barraka’s Drinks, Clube da Esquina, Notívagos e Bar do Cardeal, teve poemas publicados em algumas antologias do editor Celestino Neto e chegou a lançar, com uma tiragem de apenas 100 exemplares, o poético “Elegia para os pássaros cativos”, em 1994. “Na verdade, o livro fazia parte de um projeto em parceria com o poeta Jorginho Almeida que iríamos apresentar no 1º Concurso de Poesia Falada do Amazonas, promovido pela Secretaria Estadual de Cultura, mas que acabou não rolando”.
A mediania feliz, ou dourada, esse chantilly cremoso que substitui a inteligência na vida brasileira (“este é um país do banal”), eis aí o alvo gostosamente predileto desse poeta cáustico. Não poupar a ninguém, eis a especialidade desse satírico e sátiro afiadíssimo em plena era do padrão por baixo, da mediania dos brejais. “A poesia mais difícil de fazer é a satírica”, diz Simas, lançando algumas pedras de toque para uma (sua) estética, embora diante desse termo de abotoaduras já se possa prever que seu alterego Careca Selvagem oporia uma “Ode à pústula”, por exemplo, com todos os excessos de acentos graves: “Ante tu, ó pústula/ com tua geléia amanteigada de pus...”
Escatológico? Nem importa. “A essência da poesia é política”,
afirma. Uma política ao revés, diga-se, “porque a poesia deve ser comprometida
com a inteligência”. E essencialmente demolidora. Não é à toa que neste seu
novo livro, “Arte e ciência de jogar dominó”, o que menos se vê ou lê é sobre a
brincadeira de dominó. O título é apenas uma isca para atrair os adeptos da
brincadeira. Na realidade, o poeta escreveu um dicionário enciclopédico de alto
coturno. Algo como um Bouvard e Péuchet: a compilação flaubertiana e sem
meias-palavras da estupidez humana, tal como é exercida em terras tupiniquins. Eu
recomendo.
(*) João Bosco Gomes é
poeta, cronista, jornalista e ator teatral. Apesar de nascido em Manaus, mora
no Rio de Janeiro desde 1976.














