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segunda-feira, maio 22, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (6)


Por Jefferson Peres

Grande parte da minha infância foi marcada pela Segunda Guerra Mundial. Embora muito criança, fui contagiado pelo entusiasmo do meu pai, ardoroso partidário da causa aliada, que se mantinha informadíssimo através da leitura de revistas e jornais, e da escuta diária da BBC. Ainda me lembro de sua expressão fúnebre quando a França se rendeu e as tropas alemãs ocuparam Paris. Como não esqueço a sua vibração, certo dia, quando entrou em casa com o jornal em umas das mãos, gritando a manchete: A queda de Bardia foi sensacional! Tratava-se de uma pequena cidade da Líbia, tomada pelas tropas de Montgomery em perseguição ao Afrika Korps de Rommel.

Fiquei deliciado quando o velho me presenteou um grande mapa colorido da Europa, que preguei com tachas na parede da sala de visitas, através do qual acompanhava atentamente a marcha das operações. A menção a uma cidade ou a um acidente geográfico me levava imediatamente ao mapa, para conferir, e ficava muito desapontado quando não fazia a localização.

Criança ainda, eu acompanhava cuidadosamente as operações de guerra em todas as frentes: no Pacífico, no norte da África, na Itália, na França e na Rússia. Sofri com a derrota dos Aliados, na fase inicial, e vibrei com seus grandes triunfos a partir de 1943. De manhã cedo eu ficava ansioso à espera do jornaleiro com um matutino, e à tarde aguardava a chegada de meu pai com um vespertino. E então me lançava, sôfrego, à leitura do noticiário telegráfico da Reuters, da Associated Press e do International News Service.

Como disse, qualquer referência à ocupação de uma cidade, à travessia de um rio ou ao desembarque numa ilha, me fazia correr ao mapa para conferir. Frequentemente os jornais publicavam esboços das frentes de batalha, nos quais eram assinalados os avanços das tropas aliadas, e que eu recortava cuidadosamente. Às seis horas da tarde, junto com meu pai, sintonizava a BBC, em transmissões cheias de interferências, que, para minha irritação, às vezes se tornavam quase inaudíveis. Mas, no outro dia, lá estava eu a postos, para ouvir, emocionado, o locutor anunciar com sua voz bem impostada: “Estação de Londres da BBC”.

Leitura obrigatória era a de Seleções de Reader’s Digest que meu pai comprava religiosamente, todos os meses, mesmo com grande atraso. Eu me deliciava com as suas descrições de batalhas, suas histórias de espionagem e seus relatos de operações de guerrilhas e de comandos nas zonas ocupadas pelos alemães. Creio que todo esse meu interesse pelo assunto – inusitado num garoto ainda impúbere – se devia em grande parte à minha paixão pela geografia.


Era com enorme prazer, também, que recebia a revista “Em Guarda”, distribuída pelo consulado americano, fartamente ilustrada e com noticiário variado sobre a guerra. Assim como lia com avidez as revistas em quadrinhos, com histórias em que os heróis enfrentavam os sinistros espiões nazistas e japoneses.

Mas, emocionante mesmo era ouvir a sirene de O Jornal anunciando alguma notícia importante de última hora. Era o nosso Repórter Esso. Tão logo soava, uma pequena multidão se aglomerava para ler a notícia afixada a giz num quadro negro em frente à redação. Foi assim que tomamos conhecimento de todos os grandes lances. Pearl Harbour, El- Alamein, Stalingrado, o Desembarque Americano no Norte da África, o Dia D, o Fuzilamento de Mussolini, o Suicídio de Hitler, a Rendição da Alemanha, Hiroshima e, finalmente, a Capitulação Japonesa.

Foram dias de expectativa dramática e, sem nenhuma retórica, podemos dizer que tínhamos consciência – no meu caso, intuitivamente – de que eram momentos decisivos para os destinos da humanidade. Por isso, até hoje sou fascinado por tudo que se relaciona com a Segunda Guerra.

Em 1942, o conflito, que até então parecera tão distante, finalmente chegou até nós. O alargamento da guerra submarina alemã no Atlântico e a fulminante ofensiva japonesa no Sudeste Asiático provocaram ondas de choque que vieram agitar as águas remansosas em que nos embalávamos.

Um dia fomos abalados pela notícia do afundamento do Baependi, um navio que há muitos anos fazia a cabotagem Rio-Manaus. Entre os mortos, um punhado de amazonenses bastante conhecidos na comunidade. Divulgada a lista, logo surgiram ajuntamentos espontâneos que rapidamente se transformaram em comícios. Oradores exaltados verberavam não apenas a ação dos submarinos nazistas, mas também os próprios alemães e, por extensão, os italianos e japoneses. Daí para os atos de violência foi um passo. Em poucas horas a cidade foi tomada por um bando de desordeiros que se entregou livremente à depredação a ao saque, como há muitos anos não se via.

Como ainda não havia japoneses, concentrados que estavam no baixo Amazonas, a fúria popular se abateu sobre os bens de italianos, alemães e pessoas de qualquer nacionalidade conhecidas como germanófilas. O primeiro alvo foi o consulado da Alemanha situado na Joaquim Nabuco, nos altos do prédio de dois pavimentos, que ainda hoje existe, próximo à Avenida 7 de Setembro, onde vi muitas vezes desfraldas a bandeira alemã com a suástica.

Fui testemunha ocular do saque ao consulado, que é das mais remotas lembranças da minha infância. Morava bem perto, em casa dos meus avós maternos, a três quarteirões de distância, na atual Rua Huascar de Figueiredo. Ao tomar conhecimento do que acontecia, corri para o local, em companhia de outros garotos, a tempo de ver homens e mulheres apressados conduzindo baixelas de prata, bacias, panelas, cadeiras e outros objetos, enquanto os móveis pesados, como cristaleiras e guarda-roupas, atirados pelas janelas, vinham estatelar-se na calçada. Quando finalmente chegou uma patrulha do exército, quase nada restava para ser salvo.


Na mesma hora, outro bando saqueava o escritório de representação da Bayer, na Quintino Bocaiúva, entre as ruas Marechal Deodoro e Guilherme Moreira. O depósito foi inteiramente pilhado, com os saqueadores levando medicamentos em tal quantidade que supriram farmácias domésticas por meses ou anos. Afinal, o que era Bayer era bom, como dizia o comercial. Quanto ao representante, que era o próprio cônsul alemão, chamado Fluger, refugiou-se no porão, sendo removido mais tarde para a Penitenciária, à guisa de proteção.

Um outro grupo tentou invadir a Semper, Fáber, uma firma de aviamento situada na Marechal  Deodoro, ao lado de J.G. Araújo. Foram enfrentados por dois alemães, Fáber e Kremer, que saíram levemente feridos do entrevero, mas conseguiram contê-los até a chegada dos soldados do exército.

Frustrados nessa tentativa, dirigiram-se para a firma Bhering, de exportação, instalada um pouco adiante, num edifício de três pavimentos, com frentes para a Marechal Deodoro e a Eduardo Ribeiro, ao lado do antigo telégrafo. Depois de arrasar os escritórios, subiram para o último pavimento, onde residia o gerente, o alemão Lindenberg, destruindo tudo que puderam. Praticamente nada sobrou. Os donos da casa, refugiados no quarto do casal, foram salvos pelo exército no último minuto, quando a porta do cômodo já tinha sido arrombada.

Ao mesmo tempo, ocorria a tentativa de invasão da Joalheria Pelosi, a maior da cidade, localizada na 7 de Setembro, ao lado da loja 4.400, atual Marisa; foi repelida por uma tropa do exército, que feriu alguns manifestantes a coronhadas. Mas a residência do proprietário, Giulio Roberti, não escapou. Foi literalmente pilhada e os móveis incendiados no meio da rua.

Roberti, em companhia do seu irmão Giusepe Vulcani, vice cônsul da Itália, buscou refúgio no convento dos frades capuchinhos, na Praça de S. Sebastião, de onde saíram para a casa do professor Agnello Bittencourt, na qual ficaram homiziados por três dias. Ironicamente –segundo nos conta o professor Agnello –, Giulio Roberti fora vice-cônsul do seu país, posto ao qual resignara por discordar do regime fascista.

Um pouco adiante a turba conseguiu invadir a casa do alemão Schultz, genro do cônsul, situada na Praça da Saudade, onde ainda se encontra, quase na esquina da Avenida Epaminondas. A poucos passos do quartel do 27º. BC, os soldados ainda conseguiram salvar alguma coisa, mas não um belo piano de meia cauda, completamente destruído.


Também não foram poupados, como já disse, os simpatizantes do Eixo, independentemente da nacionalidade. Eram chamados, com muita propriedade, de germanófilos, porque sua posição decorria menos de uma adesão ideológica ao nazismo do que uma exaltada admiração pela Alemanha. Uma atitude emocional, como a de um torcedor de clube. Pelo menos, foi a impressão que me ficou de tantas discussões que presenciei. Inclusive em família, entre meu pai, intransigente anglófilo, e um de meus tios, seu concunhado, germanófilo doente, o primeiro exaltando as qualidades britânicas e o segundo louvando as virtudes do povo alemão. Antes destes acontecimentos, ninguém fazia segredo de suas convicções, de sorte que os partidários de um e de outro lado eram notórios, o que facilitou a caça às bruxas.

Uma das primeiras vítimas foi o advogado Levon Rumian, de origem armênia e perfeitamente integrado à sociedade local, que teve inteiramente saqueada a sua residência, nos altos de um prédio de dois pavimentos, na Praça Heliodoro Balbi, quase esquina da Rua Dr. Moreira.

Nesta mesma rua, no ferro de engomar que a separa da Floriano Peixoto, quebraram o botequim de um espanhol, que escapou do linchamento refugiando-se no telhado, de onde atirava pedaços de telhas sobre os seus perseguidores. Outro espanhol, o velho Gil, já falecido, foi salvo pela intervenção providencial de uma patrulha militar. Já o português Alhadas, que tinha uma loja de redes, perto do Mercado Central, teve seu estabelecimento totalmente arrasado.

Dentre os brasileiros, a maior vítima foi o jornalista Aristóphano Antony, diretor e proprietário do jornal A Tarde, que por pouco não teve sua redação invadida e empastelada. Em compensação, foi ele mesmo preso e recolhido ao quartel da Polícia Militar, de onde foi solto seis meses depois, sem julgamento, após um inquérito que apurou a improcedência da denúncia que o levara à prisão. Afinal, estávamos em pleno Estado Novo.


Vale registrar um fato, pouco conhecido, mas importante, porque bastante esclarecedor. Na véspera do quebra-quebra, D. Márcia Coelho, proprietária da Foto Alemã, um dos principais estúdios da cidade, foi procurada por um professor do Ginásio, seu amigo, que a alertou para o que iria acontecer. Imediatamente, antes mesmo de proceder legalmente à mudança da razão comercial, mandou trocar o nome, pintado na placa da fachada, para Foto Artístico. Graças a essa providência, não foi molestada no dia seguinte.

Esse furacão durou apenas algumas horas. Antes de findar o dia e a ordem fora restabelecida e nunca mais as violências se repetiram. Mas italianos, alemães e germanófilos continuaram a sofrer por algum tempo a hostilidade de uma parte da população. Manifestava-se na forma do insulto aberto, da negativa de cumprimento, ou de denúncias anônimas e nunca provadas, sobre atividades de quinta-colunismo com mensagens enviadas através de transmissores clandestinos.

Contou-me o meu amigo Stefano Gennaro Novellino que seu pai, italiano imigrado há alguns anos, com excelente relacionamento com brasileiros, foi procurado por um respeitável cidadão que, algo envergonhado, comunicou-lhe sua decisão de fingir não conhecê-lo até o fim da guerra. Ao que o bom italiano replicou, tranquilamente, que lhe agradeceria se assim o fizesse pelo resto da vida.

Outros trataram de se defender do jeito que fosse possível, como o proprietário da Vila Itália, conjunto de casas situado na rua 24 de Maio, quase esquina com a Costa Azevedo, que logo mudou o nome para Vila Baependi, afixado na forma de um letreiro de ferro ainda existente.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (7)


Por Jefferson Peres

Depois, os torpedeamentos, ao virarem rotina, deixaram causar emoção. Mas passaram a incomodar a todos, na medida em que a interrupção do suprimento regular privava a população, com frequência, de gêneros essenciais. Toda vez que era afundado um navio com grande carregamento de determinado produto, o mesmo escasseava ou desaparecia totalmente durante semanas. Estabelecia-se o racionamento, com a distribuição de cupons, e formavam-se filas imensas para a aquisição da mercadoria. Ou então apelava-se para o mercado negro, pagando preço muito mais elevado.

Às vezes o desaparecimento era total e tínhamos de recorrer aos sucedâneos. Perdi a conta das ocasiões em que, à falta de café, tomamos chá-mate ou preto; em lugar de pão, comemos batata-doce, cará ou macaxeira; e não raro, adoçamos o café ou o chá com sacarina, pela absoluta impossibilidade de encontrar açúcar. Suplício maior era o dos fumantes, privados durante meses dos cigarros da Souza Cruz, como o Elmo, o Astória, o Continental e o Hollywood, substituídos pelo mata-ratos de fabricação local, especialmente o Princesa e o Duquesa, que nada tinham de aristocráticos, com o seu tabaco escuro e de gosto intragável.

Ao desconforto da falta de gêneros somava-se o temor fantasioso de possíveis ataques aéreos alemães. Foi levado tão a sério por alguns, que se organizou uma Liga de Defesa Passiva Anti-aérea, com voluntários de capacetes e braçadeiras, que instruíam a população sobre o que fazer em caso de bombardeio. Distribuíam-se os folhetos recomendados abrigar-se em porões ou atirar-se ao chão, se surpreendidos na rua e ensinando a prática dos primeiros socorros.

Realizaram-se também exercícios de blackouts, com a cidade completamente às escuras, porque nos cômodos em que as luzes permaneciam acesas as janelas eram veladas por grossos panos improvisados de cortinas. Ainda hoje me pergunto, ao recordar esses fatos, como alguém poderia acreditar que os Heinkels e Junkers da Luftwaffe, com sua pequena autonomia de voo, um dia atravessariam o Atlântico para despejar bombas sobre Manaus.

De parte das autoridades talvez visasse ao efeito psicológico, a fim de manter mobilizada a população. Que, aliás, sempre demonstrou um grande fervor patriótico, como ocorreu na campanha do ferro-velho, à qual se engajaram milhares de crianças, jovens e adultos, em resposta ao apelo para que se ajudasse o esforço de guerra dos Aliados.


Andávamos aos bandos, vasculhando quintais, terrenos baldios e covões, em busca de pedaços de ferro usados. Reuniram-se quantidades imensas, acumuladas em diferentes lugares, como a rampa de acesso à Catedral e a Rua Barcelos, ao lado do Cine Popular, depois removidos não sei para onde. Até hoje ignoro se toda aquela sucata foi parar realmente nas siderúrgicas de Pittsburgh ou se foi atirada em algum depósito, inútil, até que a ferrugem a consumisse.

Nesse mesmo ano ocorreu a ruidosa invasão ianque. Com a ocupação dos seringais da Malásia e da Indonésia pelos japoneses, os Aliados se viram privados de suas principais fontes de borracha natural. Embora a produção de borracha sintética já fosse expressiva, o produto vegetal ainda era indispensável para a produção de artigos como pneumáticos de aviões. Tornava-se imperiosa, assim, a reabertura dos seringais da Amazônia.

Veio em seguida a assinatura dos famosos Acordos de Washington, que davam à borracha e outras matérias-primas garantia de preço fixo e compra de toda a produção pelo governo americano que se comprometia, ainda, a dispensar amplo apoio técnico e financeiro para aumentar a oferta desses produtos.

Em consequência, foi mobilizado um enorme aparato de agências americanas e brasileiras, que logo se instalaram em Manaus e Belém. Entre elas, o Banco da Borracha (atual BASA), o Serviço Especial de Saúde Pública e a Rubber Reserve (depois, Rubber Development Corporation). O primeiro, obviamente, para assegurar o indispensável suprimento de crédito; o segundo, para promover o saneamento da região; e a última, como dizem os economistas, para emprestar apoio logístico aos seringais.

Com isso, a economia do Estado venceu a inércia, ganhando novo impulso, e quebrou-se a rotina da cidade. Estava iniciada a Batalha da Borracha, que não pretendo, aqui, avaliar, porque tal avaliação fugiria inteiramente aos propósitos deste livro.


A primeira novidade foi a presença dos Catalinas, os primeiros aviões anfíbios que conhecíamos, ideais para as condições da região. Os cargueiros aquatizavam na ilha de Monte Cristo, onde a RDC instalou um grande terminal de carga. Lá, eram guinchados para a terra, recebiam o carregamento de borracha, depois manobravam para a água, de onde decolavam rumo a Miami.

Os aviões de passageiros e militares utilizavam o aeroporto de Ponta Pelada, pioneiro no Estado, construído em semanas pelos americanos, com sua costumeira eficiência. Dotado de uma estação de passageiros de madeira, modesta, mas confortável, passou a ser visitado como uma curiosidade pela população, habituada, até então, aos velhos hidroaviões da Panair, que atracavam no cais de cimento baixo, à esquerda do roadway.

Depois da guerra, a Panair incorporou os Catalinas, que serviram à região durante muitos anos, em suas linhas comerciais. Tal como aconteceria com a pequena frota de navios flutuantes trazida igualmente pelos americanos. Lembro-me bem de três grandes, o Cambridge, o Vírginia Lee e o State of Delaware, e outro de menor porte, o Cel. James Moss, empregados no transporte de cargas e passageiros, também incorporados, no pós-guerra, com outros nomes, ao acervo da SNAAPP. Foi um reforço à navegação regional, servida em grande parte por uma frota envelhecida de vaticanos, gaiolas e chatas.

Com eles vieram, também, transportadas por navio, creio, as pesadas máquinas de construção rodoviária, usadas inicialmente na abertura da pista do aeroporto e, mais tarde, cedidas à prefeitura para obras de terraplanagem em vários pontos da cidade, como a Avenida Getúlio Vargas, que teve finalmente aterrado o covão usado como lixeira. Ficávamos durante horas contemplando as evoluções de tratores e bulldozers que, manejados habilmente pelos tratoristas, movimentavam enormes volumes de terra e avançavam como monstros rugidores em direção ao abismo, onde nunca despencavam.

Mais curiosidade, porém, despertavam os próprios americanos. Acompanhávamos fascinados aqueles grupos de gringos altos, brancos, corados, de olhos azuis, falando uma língua completamente desconhecida para nós, meninos, e para quase toda a população. Porque só a partir daí começou entre nós a mania de falar inglês. Quando nada, aprendíamos logo a dizer give me a cigarrete, na esperança de ganharmos um Lucky Strike, um Camel, um Chesterfield ou um Philip Morris, disputadíssimos pelo seu gosto suave e cheiro agradável e que se tornavam especialmente preciosos nos períodos de falta de produto nacional.


Os amazonenses que trabalhavam na RDC chegavam a dominar tão bem o inglês que alguns, por esnobação, passavam a falar o português com sotaque. Dizem mesmo que certo cidadão bastante conhecido na cidade, vestindo roupa cáqui, capacete de explorador na cabeça, à semelhança de muitos americanos, pegou um bonde e dirigiu-se ao motorneiro, perguntando: Ó seo condutor, o senhorr sabe me dizerr onde ficarr avenida Joaquim Nabuco? Ao que o motorneiro, medindo a figura de alto a baixo, fuzilou: Ora, fulano, vai à merda!

Mas conquanto nem todos os manifestassem esse fanatismo, pode-se dizer que os americanos foram acolhidos com simpatia pela população. Geralmente bem-humorados e extrovertidos, chocavam apenas os mais velhos pela sua irreverência, como, por exemplo, ao se refestelarem nas cadeiras dos bares com os pés apoiados sobre as mesas. Em compensação, graças ao seu alto nível de renda, podiam dar-se o luxo da generosidade. Não apenas os garotos os cercavam na busca de cigarros e barras de chocolate. Também os garçons disputavam o privilégio de atendê-los, de olho nas elevadas gorjetas, que davam espontaneamente, num tempo em que ainda não se instituíra a obrigatoriedade dos 10%.

Outras que se encarniçavam para serem contratadas pelos gringos eram empregadas domésticas, atraídas por ofertas de salários irresistíveis, especialmente se considerarmos que a grande maioria não recebia salário algum nas casas em que trabalhavam. Da mesma forma, as lavadeiras tiveram seus serviços muito valorizados. Assim como os proprietários de imóveis se lançaram numa corrida para alugá-los aos ianques por preços duas a três vezes superior aos praticados no mercado local. Felizmente para a classe média, o número de americanos era relativamente pequeno, e sua permanência não ultrapassou três anos. Do contrário, a mini-inflação que provocaram teria desestabilizado seriamente seus limitados orçamentos.


Sucesso também causaram algumas de suas mulheres. Pois nem todas eram coroas vermelhonas e sardentas, campeãs de deselegância com seus vestidos de cores berrantes e seus sapatões de solas de borracha. Havia umas poucas que entusiasmavam não apenas pela beleza, mas também pela indiferença com que exibiam seus encantos. Nas ruas andavam apenas com o vestido sobre o corpo nu, em casa ficavam inteiramente peladas, sem ter sequer a preocupação de fechar as janelas.

Lembro que um grupo delas, residente numa casa de sótão, ainda hoje existente, na Rua 10 de Julho, entre a Epaminondas e a Ferreira Pena, desfilava tranquilamente sua nudez, no alto do mirante. E quando rapaziadas, ansiosa, se atropelava nos telhados vizinhos, para observá-las, ainda ganhavam das ladies godivas adeusinhos de gozação.

Segundo versões correntes, que não pude confirmar, essas moças figuravam nas folhas de pagamento da RDV como secretárias, mas seriam na verdade profissionais do sexo, contratadas para amenizar a vida dos executivos e técnicos, em seu exílio numa distante região tropical. Faria parte de uma política destinada a reduzir, quando o possível, o envolvimento com as nativas, evitando problemas com a comunidade.


A partir de 1945, ao término da guerra, a RDC foi desativando seus serviços paulatinamente e a presença dos americanos se fez cada vez menos ostensivas, até cessar completamente.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (8)


Por Jefferson Peres

Em contraste com os americanos, mas ao mesmo tempo que eles, chegavam outros adventícios. Feios, macilentos, sofridos, desembarcavam aos montes, dos porões dos navios, para se alojar na Hospedaria do Pensador, em Flores, ou no Trapiche Teixeira, um enorme galpão existente na Marquês de Santa Cruz, em terreno hoje ocupado pela Portobras.

Eram os nordestinos, ou arigós, isto é, aves de arribação, como lhes chamava o povo depreciativamente. Acontecia a segunda grande transumância amazônica, após a primeira, ocorrida no ciclo da borracha. Quantos vieram desta vez? As estimativas variam: 30, 50, 70 mil, nunca se saberá exatamente. Recrutados pelas agências do governo, muitos se fixaram em Manaus, no refluxo dos seringais, aos quais não conseguiam adaptar-se.

Os que aqui permaneciam não gozavam de boa fama entre a população. Por coincidência ou não, com a sua chegada cresceu sensivelmente o índice de criminalidade. E dos crimes ocorridos nessa época, dois deles chocaram a todos pela brutalidade com que foram praticados.

O primeiro, o latrocínio dos irmãos Lopes, dois portugueses proprietários de uma pequena taberna na Vila Municipal, misteriosamente trucidados em seu estabelecimento; outro, o assassínio do Periquito, jardineiro do advogado Aristides Rocha, morto a facadas na garagem da residência, com entrada pela Rua 10 de Julho, embora a casa fique situada na Eduardo Ribeiro.

Os dois crimes permaneceram insolúveis, conquanto fosse aceita pelo povo, como verdade inconclusa, a versão de que teriam sido praticados por nordestinos que serviam como soldados na Polícia Militar.


Quase dez anos mais tarde, a cidade foi sacudida pelo caso Delmo Pereira, cujo sequestro, ocorrido a poucos metros da minha casa, deixei de testemunhar por questão de segundos. Quando lá cheguei, só encontrei a ambulância vazia e cercada de curiosos.

Pouco depois Delmo era assassinado no mesmo varadouro em que perdera a vida o motorista de cuja morte era acusado. Por ocasião do julgamento de seus assassinos, o interesse do público era tão grande que meu pai, então presidente do Tribunal de Justiça, teve de distribuir fichas para controlar o ingresso na sala do Júri.

As notícias da crônica policial, sobre ocorrências envolvidas por imigrantes, eram frequentes. Se bem que os envolvidos fossem em número percentualmente insignificante, a pecha de marginais foi estendida a todos, uma generalização injusta para com a dezena de milhares que vegetavam em condições desumanas no interior dos seringais. Ou mesmo para com aqueles que, em condições apenas um pouco melhores, trabalhavam duramente na cidade.

Mas a guerra não acabaria sem que o outro acontecimento provocasse forte comoção na cidade. Ao final de 1944, os reservistas amazonenses começaram a ser convocados para integrar o último contingente da FEB a seguir para a frente de batalha.


Em muitas famílias a convocação era recebida como uma sentença de morte, com choros e lamentações, em meio à presença de vizinhos e amigos que acorriam em solidariedade a mães e irmãs inconformadas.

No dia da partida, em dezembro, o pranto foi coletivo, com patéticas cenas de despedida em frente ao quartel do 27º. BC, na Praça General Osório, e, mais tarde, no Roadway, de onde zarparam no Cambridge para fazer o transbordo em Belém, rumo ao Rio de Janeiro, e de lá seguir para a Itália, onde desembarcariam em fevereiro de 1945.

Depois de algumas semanas de treinamento, foram finalmente encaminhados ao front, às vésperas da rendição da Alemanha. Em dezembro, um ano depois da partida, estavam de volta a Manaus, recebidos por uma pequena multidão.


Do cais se dirigiram à Catedral, para a missa de ação de graças, mandada celebrar pelos parentes, com a igreja lotada. Em seguida, desfilaram pela Eduardo Ribeiro rumo ao quartel, por entre alas de povo, aclamados como heróis, embora muitos deles nem sequer tivessem entrado em combate.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (9)


Por Jefferson Peres

Pode-se dizer que a escola, pelo menos em nível do curso primário, tinha um caráter essencialmente democrático. Os Grupos Escolares, de ensino público e gratuito, eram frequentados por crianças de todas as classes sociais, que se irmanavam no uso do uniforme azul e branco e do sapato de tênis marrom ou branco. Não o tênis de hoje, sofisticado e variado, mas o de antigamente, simples e de modelo único.

No centro da cidade havia sete Grupos: o Marechal Hermes, o José Paranaguá, o Barão do Rio Branco, o Saldanha Marinho, o Nilo Peçanha, o Farias Brito e o Ribeiro da Cunha, com exceção dos dois primeiros, todos ainda existentes. Difícil encontrar uma pessoa com mais de quarenta anos que não tenha estudado em um deles. Eu não fugi à regra e fiz as cinco séries do antigo primário e mais um ano de pré-escolar, que então se chamava de maternal, no velho Barão, à época instalado no pavimento térreo do atual quartel da Polícia Militar. No pavimento superior funcionava a Escola Normal, antes de sua mudança par ao prédio que hoje ocupa.

Eu gostava daquelas salas amplas e arejadas, que mais pareciam salões. Mas gostava ainda mais da minha professora. D. Lucila Freitas, cuja aparência severa ocultava uma alma boníssima. E que tinha especial predileção por mim. Tanta, que me dedicou um livro de H. Van Loon, História da Humanidade, nestes termos: ao Jefferson, o primeiro de sua classe e o primeiro, também, no coração de sua professora. Creio que só a segunda parte da dedicatória era verdadeira; a primeira ficava por conta do seu confessado amor. Pobre D. Lucila, desaparecida tão cedo e injustamente esquecida nas homenagens que o governo presta aos mestres do passado.

O material escolar era conduzido em pasta de couro marrom, com alça. O livro-texto, “Nosso Brasil”, continha narrativas curtas sobre as diferentes regiões do país que um simpático avô ia contando a seus deslumbrados netos. O livro, adotado, oficialmente por muitos anos, passava de um irmão a outro, para alívio do orçamento dos pais. Havia mais um caderno grosso, para todas as disciplinas, um outro para desenho e um terceiro de caligrafia. Para escrever, usávamos lápis ou canetas das antigas, que embebíamos em tinteiros de marca “Pelikan”.


As canetas eram permanentes, mas as penas tinham de ser trocadas com frequência, porque enferrujavam ou se abriam ao meio, tornando-se imprestáveis. Os dedos ficavam sempre manchados de azul, e às vezes, também cadernos, livros e roupas, quando os tinteiros eram acidentalmente emborcados. Só no curso ginasial ganhei uma caneta-tinteiro, das comuns, que levava alguns dias para ser recarregada.

Mas, foi ao ingressar na faculdade que meu pai me presenteou com uma bela “Parker 51”, de corpo bege e tampa dourada, que eu exibia vaidosamente. Além do material escolar, levávamos também, na bolsa, o embrulho de merenda, quase sempre um simples pão com manteiga, às vezes enriquecido com uma fatia de goiabada.

O curso médio, à época, se subdividia em ginasial, com quatro anos, e científico ou clássico ou, ainda, pedagógico, com três anos. Era ministrado nos dois colégios públicos tradicionais, a Escola Normal e o Ginásio Pedro II, e em três grandes colégios católicos, ainda hoje existentes: D. Bosco, Auxiliadora e Santa Dorotéia.

Havia, ainda, as escolas com cursos profissionalizantes, como a Escola Técnica de Manaus e a Escola de Aprendizes Artífices do Paredão que não atraíam a classe média. E, ainda, os pequenos colégios particulares leigos, mantidos, a duras penas, graças ao esforço de seus fundadores e proprietários.

Eram três: o S. Francisco de Assim, do professor Fueth Paulo Mourão, que se manteve alguns anos após a sua morte, dirigido pela viúva e por seus filhos; o Rui Barbosa, dos professores Hamilton e Natércia de Brito, que não sobreviveu a seus proprietários; e o Colégio Brasileiro, que conheci modestíssimo, instalado numa velha casa a da Rua Dr. Moreira, nada fazendo suspeitar que Pedro Silvestre o transformaria num dos maiores colégios da cidade, antes de desaparecer, alguns anos após a sua morte.

Fiz todo o curso médio, do primeiro ginasial ao terceiro científico, no colégio Dom Bosco, onde ingressei através de um exame de admissão feito com certo rigor, porque as vagas eram muito disputadas, devido a sua boa reputação. Já instalado no prédio onde se encontra até hoje, na Avenida Epaminondas, era talvez o maior colégio da cidade, com alunos exclusivamente do sexo masculino, da mesma forma que os colégios de freiras só admitiam moças. Era norma das escolas católicas, que não permitiam mistura de sexos.


Estranhei muito a mudança de ambiente. A disciplina era rigorosa e os horários bastante rígidos. Às sete horas as portas eram fechadas e nos dirigíamos para a capela, situada à direita do prédio principal, onde assistíamos obrigatoriamente à missa, geralmente cantada, e ouvíamos um sermão, proferido pelo oficiante ou pelo próprio diretor, padre Stélio Dalison. Ainda hoje sei de cor musicas como Queremos Deus, Com Minha Mãe Estarei e o Tantum Ergum inteiro, em latim.

Após a missa seguíamos em fila para as salas de aula. No meio da manhã tínhamos quinze minutos de recreio, ao fim do qual nos reuníamos no pátio, e, depois de breve oração, retornávamos às salas novamente em fila. Ao término do último tempo, ainda uma prece ligeira, antes de sermos liberados. Qualquer infração às regras era punida implacavelmente e negado ao acusado o direito de defesa.

Em cada sala de aula havia um decurião, aluno da confiança do padre-conselheiro, encarregado de espionar os colegas. Ao final das aulas o moço entregava ao padre uma lista com os nomes dos companheiros que, à sua discrição, haviam-se comportado mal. Estes ficavam retidos para o castigo, que consistia em permanecer de pé por trinta ou sessenta minutos.

Muitas vezes sofri a punição, junto com outros, no velho barracão, ao lado do campo de futebol. Ficávamos, às vezes, até uma hora da tarde, mortos de fome, sob a vigilância do padre Agostinho que, sentado, lia tranquilamente o jornal. Nos casos considerados mais graves aplicava-se a pena se suspensão e, excepcionalmente, de expulsão. Inútil qualquer tentativa de defesa, sempre repelida com palavras grosseira, às vezes seguidas de sinetadas na cabeça. Isso quando se tratava do padre Agostinho, porque com outros podia ser pior.

Jamais poderei esquecer do padre João Rotini, um italiano de físico avantajado, cujas mãos, semelhantes a manoplas, costumava cair pesadamente sobre o rosto ou a nuca dos que ousavam desafiar-lhe a autoridade. No caso do padre Agostinho é preciso fazer-lhe a justiça, como eu e muitos outros fizeram, por ocasião do seu centenário. É que, além de não chegar a esses extremos de violência, diferentemente dos outros, sentia e demonstrava um grande amor pelos seus alunos. Deu inúmeras provas disso, mas vou recordar apenas uma, que me parece bastante expressiva.


Naquele tempo, o comunismo era a bête noire da Igreja, para quem os comunistas eram a própria encarnação do Anticristo. E os salesianos não fugiam à regra. Ao contrário, enfileiravam-se entre os mais exaltados e intolerantes. É preciso ter isto em mente para compreender a grandeza do padre Agostinho no episódio que vou narrar.

No imediato pós-guerra chegava a Manaus Ivan Ribeiro, filho de Ribeiro Jr., candidato a deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro, então na legalidade. Como ex-aluno salesiano, Ivan mandou um emissário perguntar ao padre Agostinho se poderia visitá-lo, ouvindo em resposta que seria recebido com todo o carinho, como efetivamente aconteceu.

Não preciso dizer que o gesto do bom padre foi antes de tudo um ato de coragem, pelas reações que provocou em seus colegas de ordem, tomados de um espírito de intolerância a que não escapavam mesmo aqueles mais intelectualizados. Lembro que o padre Stélio, de enorme talento e extraordinário orador sacro, durante uma aula de religião, contestado timidamente por mim, sobre uma questão de teologia, respondeu com ironia e rispidez e, em seguida, abandonou a sala, sem disfarçar a irritação. Pude compreender, naquele momento, que um educador salesiano daquele tempo, por sua formação, não estava preparado para aceitar como normal o livre debate com alunos.

Tudo isso não impedia, porém, que reinasse um ambiente de grande camaradagem em cada turma. Entre os meus colegas, alguns se tornaram meus amigos, como o Luiz Maximino de Miranda Correa, Mário Alberto Monteiro, Luiz Alberto Couto e Gilberto Alexandre Barbosa, o Gil, pioneiro do moderno colunismo social no Amazonas.

Outros daqui se foram e não mais vi, a não ser em rápidos e eventuais encontros, como Pompeu Martinho, Rafael Gil Blanco, Cláudio Marçal Mendes. Com outros, também, apesar de não pertencer à minha turma, estabeleci laços de amizades que consolidaram ao longo dos anos, tais como Augusto Lacerda, o Gutinho, e Mário Jorge Morais, pra citar apenas dois.

Com os professores, igualmente, a convivência foi boa e até mesmo cordial. Eram leigos, em sua maioria, recrutados entre os melhores da cidade. Muitos já se foram, levados pela indesejada das gentes, como o velho Carneiro, de Geografia Geral, Sebastião Norões, de Geografia do Brasil, Herbert Palhano, de Português, Júlio Valois Ferreira, de Francês, Fueth Paulo Morão, de Matemática, Paulo Jobim, de História do Brasil e Mário Jorge do Couto Lopes, que lecionou História Geral.


Os demais eram padres salesianos, quase todos estrangeiros, de passagem por Manaus, onde ficavam por pouco tempo. Dos brasileiros que eu consigo lembrar, apenas os padres Severo e Pereira Neto, e efetivamente aqui radicados, os padres Stélio e Agostinho. O tratamento dispensado aos mestres era respeitoso, a começar pela saudação obrigatória que lhe fazíamos, ao nos levantarmos à sua entrada na sala. Muitos gozavam de nossa estima e por eles tínhamos um respeito natural. Outros, apenas aturávamos e não hostilizávamos unicamente por temor à punição.

Mas nem todos eram poupados, vítimas de colegas nossos que não se intimidavam com o severo regime disciplinar. Augusto Lacerda, o Gutinho, era um desses. Rebelde, indomável, gaiato, era frequentador habitual das listas dos decuriões. Não perdia a oportunidade de atenazar a vida dos colegas e professores.

Como aconteceu certa vez com o padre Orlando, nosso professor de Latim, com um método de ensino sui generis, que consistia em nos fazer cantar em coro as desinência e terminações verbais. Por isso, embora não tenha aprendido Latim, nunca mais esqueci, por exemplo, o presente do indicativo do verbo SER, pois cansei de gritar, com os outros, as letras e/ou sílabas finais: M,S,T,MUS,TIS,NT. Essas cantorias às vezes degeneravam em chacota e bagunça, que o padre, irritadiço, não vacilava em punir.

Foi o que aconteceu no dia do seu aniversário, que Gutinho descobriu não sei como. Quando o padre surgiu, ele pediu licença para lhe dirigir algumas palavras de saudação e entregou-lhe o presente num vistoso embrulho. Surpreendido com a homenagem, principalmente porque prestada por um dos alunos mais indisciplinados, Orlando, que tinha uma careca lustrosíssima, tipo bola de bilhar, começou a desembrulhar o presente, quase às lagrimas. E teve uma surpresa ainda maior, ao deparar, no fundo da caixa, com um pente de bom tamanho. Infelizmente, o padre não tinha o mesmo senso de humor, e aos gritos, expulsou o gozador da sala.

Outra vez, Gutinho implicou com um funcionário leigo do colégio, que eventualmente ministrava aulas. Era extremamente carola e tinha vozinha fanhosa que em nada o ajudava, em termos de simpatia. Um dia Gutinho o provocou, discutiram e ele adotou uma postura agressiva, que levou o primeiro a desafiá-lo para uma briga, com ou sem armas, à sua escolha. Imediatamente, o homenzinho meteu a mão no bolso do paletó e exclamou: “Esta é a minha arma!”, ao mesmo tempo em que exibia, não um revólver, mas um enorme rosário de contas negras. Desta vez o surpreendido foi Gutinho, com a briga frustrada de maneira tão incomum.


Mas a grande maioria dos alunos preferia evitar confrontos com os padres. E muitos descarregavam suas mágoas e energias naquela grande explosão diária que o Canindé proporcionava. Jamais consegui descobrir a origem desse nome, aplicado à gigantescas pelada, que se caracterizava pela total ausência de regras. Apenas, como exceção, não se podia carregar a bola com a mão. No mais, valia tudo. A começar pelo número de participantes, sem limite, e pela inexistência de times organizados.

No início do recreio, os aficionados corriam, em grande algazarra, sem direção ao campo, ao lado da Saldanha Marinho, e davam início à partida. Sem a presença de árbitro, cerca de uma centena, talvez, de peladeiros chutavam a bola de qualquer maneira, livrando-se dos adversários aos trancos e empurrões, numa louca correria que durava até o toque do sino anunciando o fim do recreio.

Tínhamos um derivativo, também, nas sessões de cinema e espetáculos realizados no teatrinho que se erguia à esquerda do edifício principal, ao nível do primeiro andar, com o qual se ligava através de um passadiço. Ali, muitas vezes, se exibiu a dupla Lulu & Mourão que nos arrancava boas gargalhadas com seu talento histriônico.

O Mourão não era outro senão Fueth Paulo Mourão, nosso professor de Matemática e diretor do Colégio S. Francisco de Assis; e o Lulu era aquele que mais tarde se transformaria no sisudo desembargador Luiz Furtado de Oliveira Cabral. Lamentavelmente, aquele pequeno espaço cultural desapareceu e nada foi feito para substituí-lo.

Fora do colégio, quando nos sentíamos saturados de aula, formávamos grupos para melhor aproveitamento da gazeta, um salutar exercício de higiene mental. Quando previamente combinada, já vestíamos por baixo da farda o calção de banho, porque o destino era o Parque 10 de Novembro, onde passávamos o resto da manhã.

Quando a gazeta era improvisada, saíamos a esmo, para namorar, jogar sinuca, conversar fiado em alguma praça ou, então, por desfastio, dar espeto em algum botequim. Com dinheiro curto, fazíamos despesas relativamente pequenas, mas superiores às nossas parcas mesadas.

Mandávamos servir refrigerantes, refrescos, cerveja, croquetes, pastéis e cigarros, e esticávamos o papo durante horas. À certa altura, e a um sinal combinado, saíamos em desabalada carreira, dispersando-nos em várias direções, a fim de dificultar a perseguição, quase sempre infrutífera.

Um dos grandes calotes que demos foi no Pimpão, dono de um barzinho situado na esquina de Epaminondas com 24 de Maio, em frente ao colégio. A partir daí, o português, gato escaldado, passou a exercer a severa vigilância sobre os grupos que lá apareciam, o que nos obrigou a procurar novas vítimas.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (10)


Por Jefferson Peres

Mas o nosso grande momento de satisfação ocorria mesmo durante o desfile da Semana da Pátria, quando o Dom Bosco era sempre o mais aplaudido. Tínhamos orgulho da vistosa farda de gala, que fazia com que nos sentíssemos integrantes de um regimento imperial. Na cabeça o quepe alto, com a pala caindo sobre os olhos e o barbicacho circundando o rosto. Sobre os ombros, as platinas azuis, com as divisas em ouro. A túnica branca, de mangas compridas, com botões dourados e as mãos calçadas com luvas de algodão. Na parte inferior, a calça azul-marinho caía sobre os sapatos pretos, parcialmente cobertos por polainas brancas. Isoladamente, o uniforme já fazia efeito, e muito mais ainda no conjunto de cerca de 1.200 desfilantes.

À frente, uma afinada banda com dezenas de tambores e cornetas, seguida de um pelotão a cavalo e, logo após, por um contingente de uma centena ou mais de ciclistas, aos quais se seguiam os pelotões a pé, entre os quais se intercalavam um cavaleiro e um porta-bandeira.

Nossa apresentação era sempre aguardada com ansiedade pelo público, que explodia em aplausos tão logo o nome do colégio era anunciado. Descíamos a Eduardo Ribeiro em estado de graça, com a mesma sensação que deviam experimentar os participantes de um triunfo romano.
         
Terminado o desfile, exaustos mais felizes, íamos saborear o êxito junto às alunas dos colégios femininos, especialmente da Auxiliadora, que reunia as garotas mais bonitas da cidade e pelas quais tínhamos especial, e recíproca, predileção.

Afinal, chegou o dia em que, concluído o científico, tive de dar adeus – apesar de tudo, com saudade – ao velho colégio. Posteriormente, nas poucas vezes que lá voltei, não pude conter uma funda emoção ao rever aqueles extensos corredores que percorri durante sete longos anos da minha juventude.

Chegava o momento crucial da escolha de uma profissão. Por algum tempo me senti atraído pela Medicina. Um engano, a que fui levado, talvez, pelo prestígio social de que gozava o médico naqueles anos. Ainda cheguei a estudar o programa do vestibular, que logo abandonei, ao verificar que não possuía nenhum talento para Matemática, Física e Química, todas as matérias eliminatórias.

Assim, antes de começar, dei adeus à arte de curar, fazendo meu pai economizar um gasto inútil com a minha viagem a Salvador, e poupando à classe médica o acréscimo de mais um profissional medíocre. Logo descobri que minha vocação era mesmo para a área de humanidade e cuidei de ingressar na nossa Faculdade de Direito. O que, aliás, consegui sem muita dificuldade e sem cursinhos que, ainda, não existiam. Eu havia feito um curso médio regular; a disputa não era acirrada, com a proporção de três a quatro candidatos por vaga, de forma que passei sem esforço na primeira tentativa.


A velha Jaqueira, como lhe chamávamos carinhosamente – esvaziada a palavra do sentido pejorativo original – era conservadora e tranquila. Ainda no regime seriado, o curso se escalonava em cinco turmas, cada uma correspondendo a uma série, da 1ª a 5ª. Com trinta alunos, em média, por turma, o total não ia além de cento e cinquenta. Todos se conheciam e a maioria se relacionava entre si. Não havia curso noturno.

Geralmente tínhamos duas aulas de manhã e duas à tarde, a última encerrando às 18 horas, com o sino da Igreja dos Remédios tocando o Ângelus. Os professores somavam cerca de duas dezenas e constituíam um corpo de elite, alguns deles em condições de lecionar em qualquer curso jurídico do país.

O transcurso do tempo não me fez esquecer as aulas brilhantes de Aderson de Menezes, Manuel Barbuda, Oyama Ituassú e Francisco Xavier de Albuquerque, o Xavico, este ainda muito moço, mas já mostrando o dedo do gigante. Ainda durante os meus anos de Faculdade, eles tiveram de se submeter ao crivo do concurso para o preenchimento das respectivas cadeiras, e todos se saíram bem, com exceção de Barbuda, vítima de circunstâncias adversas.

O regime seriado, então vigente, matinha os mesmo alunos juntos durante cinco anos, com pequenas modificações causadas por transferências, mortes, desistências ou reprovações. Por outro lado, como o período letivo se estendia por um ano, e não por um semestre, o convívio com os professores também era prolongado. Em algumas disciplinas se estendia por dois anos o contato com o mesmo professor que, no caso de Direito Civil, chegava a quatro anos. Como é natural, essa convivência criava fortes laços de camaradagem dos alunos entre si e com os professores.


Ao final do ano, por ocasião da última aula, a turma apresentava suas despedidas ao professor, através de um aluno designado para saudá-lo. Coube a mim, por exemplo, na primeira série, saudar Aderson de Menezes, professor de Teoria Geral do Estado, o que fiz com muita alegria porque ele era um mestre realmente fora de série.

A amizade com os professores, no entanto, era respeitosa e formal, porque o formalismo marcava o comportamento de quase todo o corpo docente. A começar pelo traje, obrigatoriamente paletó e gravata, assim como pelo tratamento que davam aos alunos, sempre polido, às vezes cordial, jamais, porém, caloroso. Intimidade, então, nem pensar.

Da formalidade no trajar não escapavam os próprios alunos, obrigados também ao uso do paletó, embora sem gravata. Para alguns a exigência constituía um pesado ônus, fosse por carência financeira, fosse por aversão ao paletó.

Um dos nossos colegas atravessou os cinco anos com um único casaco, guardado na portaria, onde ele o vestia apenas para entrar na sala de aula. No fim do curso promoveu-se uma tocante “cerimônia de adeus”. Na calçada fronteira à Faculdade, a turma inteira presente, foi solenemente incinerado o velho e amarfanhado jaleco.

Emprestava-se formalidade até às provas parciais. Os alunos não podiam entrar livremente nas salas. Tinham de aguardar no corredor, até que se procedesse à chamada, quando iam entrando e tomando assento, um a um. Em seguida, entrava a banca examinadora, composta de três professores que mandavam o bedel fazer a distribuição dos papéis de provas, e ficava-se na expectativa ansiosa do sorteio do ponto.


Este era feito pelo secretário, já então meu amigo Arnaldo Rosas, que entrava na sala sopesando a urna. Com a meticulosidade habitual, Arnaldo colocava dentro as papeladas numeradas, sacudia a caixinha e chamava um aluno para sortear o ponto, que ele anunciava com o seu conhecido vozeirão. Só então a prova era iniciada.

Soleníssima era a cerimônia de formatura, geralmente no Teatro Amazonas, com mesa armada no palco, onde marcavam presença altas autoridades, inclusive o governador do Estado e toda a congregação em vestes talares.

O senso de ordem e disciplina se achava estampado no próprio edifício da faculdade, o velho casarão da Praça dos Remédios, antigo mais bem cuidado, o que se notava logo ao entrar em seu amplo vestíbulo de assoalho impecavelmente encerado.

Minha turma era coesa, com os seus integrantes mantendo um relacionamento amistoso, o que nos permitia agir quase sempre em bloco, com poucas dissensões. É curioso que, apesar disso, depois de sairmos da Faculdade jamais nos tenhamos reunido numa festa de congraçamento. Mas sei que a amizade se conservou entre quase todos.

Dentre outros, faziam parte da turma Francisco Queiroz, Arlindo Porto, Maury Bringel, Pedro Soriano de Mello, Eduardo Donald, Lucio Cavalcante, Aristóteles Mello e João Chrysóstomo de Oliveira, o mais velho de todos. O contingente feminino, formado por Yole Diniz, Moema Rabello, Elza Araújo, Maria de Lourdes Guerra, Josefina Dias e Dulce Freitas, era o mais numeroso da Faculdade, onde havia turmas que não contavam com uma só mulher. Essa presença feminina acabou provocando o surgimento de dois romances que resultaram em casamento: o de Hélio Lima com Elza, e o de Pedro Mello com Moema, a doce Moema, tão cedo desaparecida.

Tive uma vida acadêmica agitada, não tanto dentro da Faculdade, onde me limitei a participar de júris simulados e concurso de oratória, além de emprestar apoio a colegas candidatos ao Diretório. Mas fora tive intensa atuação na campanha do Petróleo é Nosso, que resultou na criação da Petrobras e na instituição de monopólio estatal.

Os comícios eram convocados pelo Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional, que no Amazonas tinha como presidente de honra Djalma Batista, André Araújo e meu pai, Arnoldo Péres. Foi uma campanha que empolgou o país e, depois de vitoriosa, evoluiu para a defesa de outros temas, sob a égide da Frente Nacionalista, da qual fui o primeiro presidente no Amazonas.


Ao mesmo tempo, eu ajudava o Francisco Queiroz a criar um movimento de âmbito local, a Cruzada Amazonense de Resistência, de protestos contra a situação semicaótica da administração estadual. Depois de algum tempo, deixei de falar nos comícios da Cruzada, embora continuasse solidário ao movimento, atendendo a um apelo do meu pai que, por sua vez, atendia a pedidos de amigos comuns dele e do então governador Álvaro Maia.

Ao final do curso, como não poderia deixar de ser, tivemos uma festa de formatura rigorosamente dentro do figurino, cumprida uma programação que se iniciava com a missa solene na Catedral e terminava com o baile no Ideal Club. De permeio, a cerimônia de entrega dos diplomas, no Teatro Amazonas, presente toda a congregação, em vestes talares.
Foi orador da turma Francisco Queiroz que me vencera na disputa por uma diferença de dois ou três votos. Na ocasião, recebi um cintilante anel de ouro e rubi que, por algum tempo, exibi, orgulhosamente, no dedo anular, mas cedo arquivei, quando percebi que anel de grau não dá status a ninguém.

sexta-feira, abril 14, 2017

É o fim da picada!


A presidência do Senado mandou instalar um circuito de câmeras de TV: 
é para vigiar e pegar alguém que não esteja roubando no plenário

Por Agamenon Mendes Pedreira

Vida de político no Brasil tá difícil. Os caras são perseguidos pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pelo juiz Sérgio Moro, pelo juiz Vallisney, pelo juiz Marcelo Bretas, pela Receita Federal, pela Interpol, FBI, KGB e até pelo Mossad. Isso para não falar dos advogados, vendedores de joalheria, gerentes de banco e pelo povo na rua em geral. E agora, pra completar esse inferno, vem esse listão da Odebrecht.

Puxa vida, não foi para isso que eles fizeram caixa dois na eleição. E pior, se continuar desse jeito, eles vão ter que trabalhar.

Com medo de entrar em extinção, mesmo porque não conseguem se reproduzir em cativeiro, os mais de 30 partidos políticos brasileiros já entraram com um pedido de proteção no IBAMA e no WWF. Animal selvagem, que se alimenta da caça, pesca e coleta de propinas, o Politycus brasiliensis era topo da cadeia alimentar. Não tinha predadores. Eles alegam que, se não tiver anistia do caixa dois, vai haver um desastre ecológico nas estatais brasileiras pior que o da Samarco no ano passado. Tem muito mais lama.

Em defesa de causa própria, os políticos querem legalizar o caixa dois de campanha. Tem que separar os políticos honestos (que apenas desviaram dinheiro público para fazer campanha, se eleger e roubar com mandato) daqueles maus políticos (que roubaram direto em causa própria). Eles dizem que é preciso separar as joias do trigo: usar o trigo para fazer uma grande pizza e colocar as joias num cofre da Suíça.

Apavorados, os políticos passam o dia inteiro trancados no Congresso. Não podem nem sair para caçar as piranhas de Brasília. Estão se alimentando de verba do gabinete, que, por sinal, não está acabando. Aquilo lá parece o Titanic depois que bateu no iceberg: ninguém se entende e não vai ter caixa dois para todo mundo sair boiando.

Político brasileiro não pode mais nem dormir em casa com a mulher. A patroa já avisou que não quer acordar às 6 da matina com a PF batendo na porta de casa. Faz mal pra cútis.

(*) Agamenon Mendes Pedreira é inocente como a gente.

Barraram o Uber? Vá de Fluber...


Por Alexandre Mastrocinque, CFA

No fim dos anos 90 (acho que foi em 1997), comecei a ler algumas coisas sobre um tal de MP3 – promessa de arquivos bem menores com qualidade de CD.

Pesquisei como funcionava, instalei o Winamp e baixei Losing My Religion. O primeiro MP3 a gente nunca esquece!

Demorou um tempão – linha discada, modem de 56k, aquele barulho lindo da conexão (escorreu até uma lágrima aqui).

Depois de pouco tempo, surgiu o Napster e, para desespero do Lars Ulrich, o mundo da música nunca mais foi analógico.

Artistas e gravadoras até conseguiram barrar o “aplicativo”, mas o estrago estava feito.

Quem realmente entendeu a coisa toda foi um tal de Steve Jobs (conhece?) – o iTunes chegou e, bem, hoje você consome música com mouse e fone de ouvido.

Eu tenho menos de 40 anos (não muito menos, vai), mas já vi várias transformações como essa.

O computador acabou com a máquina de escrever, com o fax, com as cartas e um monte de outras coisas.

Fitas K7, VHS, CD, cartuchos de videogame, telegramas, calculadoras…

A Blockbuster virou o que, mesmo?... E a Kodak, faz o que hoje em dia?

Quantas pessoas andam com cheque nos bolsos?

Até dinheiro caiu em desuso – “Pode pagar no débito?"

O novo sempre vem.

Assim como as gravadoras e o Metallica, os taxistas esperneiam à toa.

Terão o mesmo sucesso de cocheiros que, em agosto de 1911, protestaram contra a chegada dos taxistas (uia!) na Estação da Luz.

Mesmo que matem o Uber, a brincadeira acabou.

A primeira vez que fui a Nova York (2009), me lembro que gritei “Taxi" no meio da chuva para parar um carro amarelo.

Foi divertido imitar a cena que vi em centenas de filmes ao longo da vida.

Ano passado, peguei meu celular e aguardei o carro preto parar à minha frente.

A cidade de São Francisco discute sobre carros autônomos enquanto o  legislativo brasileiro está “regulamentando” o Uber.

Se acabarem com o Uber, em pouco tempo vem o Fluber, ou o Gluber.

E o que dizer das operadoras de telefone?

Ainda não se conformaram com o whatsapp.

Sempre que possível tentam impedir a chamada de voz dentro do aplicativo.

Mesmo que consigam, surgirá outro aplicativo, com outra solução.

Não gostou?

Melhor ir brigar com Schumpeter.

E as TVs a cabo?

Ainda não descobriram uma forma de conter o avanço da Netflix.

A ideia brilhante foi tentar, em conjunto com as operadoras, limitar o consumo de dados para determinados aplicativos.

Eu imagino que os diretores de Vivo, Sky, Net, Claro e Oi sejam extremamente bem remunerados.

É lamentável que a saída encontrada por eles tenha sido tentar frear a inovação.

Parabéns!

É melhor se preparar para a mudança, não adianta nada brigar com novos modelos.

Isso vale para todos.

O jornalista, por exemplo, pode ficar procurando pelo em COE ovo.

Mas, talvez fosse melhor fazer seu trabalho direito e se informar.

Tribunal de Faz de Contas


Hospedados em Bangu, os conselheiros do Tribunal de Conta do Rio de Janeiro já estão cobrando propina para distribuição das quentinhas

Por Agamenon Mendes Pedreira

Lava Jato é uma espécie de Big Brother que já dura mais de três anos. A diferença é que não tem “anjo” nem “líder”. Os participantes nunca saem da Casa. Ao contrário, só entram na Casa. Casa de Detenção. A quantidade de gente que vai para o “paredão” é cada vez maior, só que ninguém precisa mandar SMS para votar em quem tem que ser preso na manhã seguinte. E o que é melhor ainda: não precisa aturar as digressões poéticas do Pedro Bial nem as análises sociológicas do Tiago Leifert.

Mas, depois do Big Brother, o maior problema do Rio de Janeiro é o aumento da criminalidade, que desceu das favelas, ocupou a Baixada, dominou o subúrbio, embicou pela Zona Sul e atacou até mesmo o Palácio da Guanabara, onde a perigosa facção criminosa ADS (Amigos do Serginho) cobrava o esculacho e dividia a grana dos achaques em plena luz do dia. Pois então: desta vez os Federais estouraram mais uma quadrilha que atuava no Tribunal de Contas do Estado! Só um conselheiro não foi preso. Aliás, uma mulher, uma conselheira, a única que não participava da roubalheira. Uma atitude machista e preconceituosa dos seus colegas!

Como diria Boris Casoy: isso é uma vergonha! É uma vergonha em mais de 80 anos de jornalismo eu nunca ter arrumado uma bocada dessas! O serviço de “conselheiro” do tribunal de contas é muito simples. O “conselheiro”, como o nome já diz, só tem que dar conselhos. E os conselhos não precisam ser bons. E taí uma coisa que eu sei fazer. Aliás, como dizia o Stanislaw Porto, o Sérgio Ponte Preta: “C**!!! **##u e conselho só se dá a quem pede!”.

Além dos conselhos, o conselheiro leva um capilé caprichado só para aprovar as contas do governador. Como todo mundo sabe, Serginho Cabral sempre foi muito bom em Matemática, principalmente nas três operações: somando propinas, subtraindo verbas e multiplicando a sua fortuna. Dividir nunca foi o forte de Sérgio Cobal.

Infelizmente, a casa caiu. Deu no que deu esconder aquela grana toda numa unidade do Minha Casa, Minha Vida. Foram todos parar em Bangu, prisão de detenção premiada. Mas nem tudo deu ruim para a Famiglia Cabral. Depois das rebeliões nos presídios em janeiro, as autoridades carcerárias resolveram tomar providências para melhorar o sistema prisional.

Depois de “dar um tapa” em cada um dos “cadeiantes”, a diretoria do Complexo de Bangu resolveu inaugurar uma nova unidade no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde o(a) apenado(a) pode cumprir a sua pena tomando banho de sol na praia e mandando vir quentinha do Antiquarius. Se tiver bom comportamento, pode até tomar um chope no Jobi ou fazer compras nas joalherias do shopping.

 (*) Agamenon Mendes Pedreira é conseglieri do Tribunal de Contas da Camorra.

quarta-feira, abril 12, 2017

A alma pura de Lula foi demitida por 13 milhões de pixulecos


Por Victor Irajá

Edson Arantes do Nascimento usa a terceira pessoa para referir-se a si próprio não por soberba, mas por humildade: ele sabe que merece ser tratada com reverência a incomparável entidade que habita seu corpo há mais de 60 anos.

“O Pelé fez isso, o Pelé faria aquilo”, conjuga a terceira pessoa do singular esse mineiro de Três Corações escalado pelos deuses dos estádios para transformar-se no abrigo humano do maior gênio da bola de todos os tempos.

Como todos os que viram o Atleta do Século jogar, Edson tem consciência de que Pelé não é coisa deste mundo. Tanto assim que, longe dos gramados desde 1977, continua instalado no trono do Rei do Futebol ─ e nele permanecerá por toda a eternidade.

Faz muito tempo que Luiz Inácio da Silva botou na cabeça que o maior dos governantes desde Tomé de Souza incorporou uma entidade do tamanho de Pelé. Não pode, portanto, caber num mofino “eu”.

Depois da entrevista em que o marqueteiro João Santana anunciou que o PT tinha “um Pelé no banco”, pronto para entrar em campo tão logo terminasse o segundo mandato de Dilma Rousseff, o ex-presidente decidiu que Lula está para Luiz Inácio da Silva como Pelé para Edson Arantes do Nascimento.

É uma singularíssima sumidade que, disfarçada de pernambucano de Garanhuns, foi enviada pela Divina Providência para que o país do Rei do Futebol fosse também o berço do Monarca da Política.

Neste domingo, o velho farsante reprisou o repulsivo espetáculo do cinismo: “Nunca antes neste país alguém foi tão perseguido quanto o Lula. Mas o Lula está acostumado com isso. Podem fazer de tudo que o Lula resiste. Estão investigando todo santo dia e não apareceu nenhuma prova contra o Lula”.

Deu azar. Nesta terça-feira, num depoimento em Curitiba, Marcelo Odebrecht depositou no colo do Amigo 13 milhões de provas ─ em dinheiro vivo. É só o começo da tempestade de pixulecos que vai desabar sobre a cabeça baldia do delinquente que ousa comparar-se a Pelé.

Não há semelhanças entre o eterno Rei do Futebol e o reizinho corrupto destronado por excesso de safadeza, cupidez e cafajestagem. Fora o resto.


sábado, abril 08, 2017

Leitura recomendada para o fim de semana




Memória Viva. Seu encontro com o passado, sem ranço de nostalgia ou mimimi de que o mundo está cada vez pior. Os destaques dessa seção ficam por conta do ex-senador Jefferson Peres falando sobre a Manaus dos anos 40 e 50, o multimídia Luiz Carlos Miele falando sobre o Rio de Janeiro dos anos 60 e o escritor uruguaio Eduardo Galeano falando sobre o nascimento do Novo Mundo. Biscoitos finos em escala industrial.


Causos de Bambas. Histórias do arco da velha envolvendo artistas consagrados e pessoas anônimas, aqui da taba e do resto do mundo. Só pra distrair e pra ter assunto pra contar nas rodas de bar. Tem causos envolvendo Afonso Toscano, Paulo Mamulengo, Zeca Pagodinho, Carlos Paulain, Martinho da Vila, Chico da Silva, Aldisio Filgueiras, Gera da Portela, Mestre Marçal, Anísio Mello e grande elenco.



Boca do Inferno. As diatribes mais engraçadas, os escrachos mais abusados e as filosofias mais caricatas nas penas dos que manjam do assunto. Os textos do Millôr Fernandes, por exemplo, são de uma atualidade impressionante apesar de terem sido escritos nos anos 70 e 80. Além do supremo mandatário do humor brasileiro tem Fran Pacheco, Ivan Lessa, Xico Sá, Edson Aran e outros papas do besteirol tupiniquim.


Papo de Botequim. Entrevistas com nossos monstros consagrados da música, do teatro e da literatura. Algumas delas são imperdíveis: a do Sérgio Ricardo (o homem da violada no auditório da Record, durante um dos FICs), a do Aldir Blanc (pela primeira vez bem mais equilibrista do que bêbado), a do Mouzar Benedito (o maior contador de causos da atualidade), a do Wando (o maior colecionador de calcinhas usadas do país) e as duas do Jaguar (que, evidentemente, não precisa de apresentações).


Cabaré Chinelo. Como o próprio nome insinua, é a seção dedicada à sexolândia e suas variações mais radicais. Aqui, o buscador vai encontrar tudo o que procura: afrodisíacos, unguentos, orações, fetiches, botas de cano longo, sapatos de salto agulha, algemas, correntes, dicas, fofocas, lambanças, enfim, uma verdadeira rotisserie da putaria franciscana inventada nos mosteiros medievais. Recomenda-se navegar pelos posts usando camisinha ou luva cirúrgica.


Chumbo Grosso. É a seção mais politizada do site. Vale a pena ler (ou reler) as matérias sobre a “guerra dos turbantes”, aquela discussão bizantina entre a apropriação cultural de tradições afro feita pelos brancos desalmados, bem como os belíssimos textos desconstruindo o liberalismo e a Escola de Chicago feitos por Amyra El Khalili, professora de economia socioambiental e editora das redes Movimento Mulheres pela P@Z! e Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras.



Leia. Divulgue. Compartilhe. O saber é a soma de conhecimentos da humanidade.

quarta-feira, abril 05, 2017

Black is beatiful!

Dentro de mais alguns dias, volto a postar coisas interessantes aqui no mocó - provavelmente trechos do livro que acabei de escrever sobre a velha Cachoeirinha. 

É que como não dá para assobiar e chupar cana, estou dando prioridade ao site Candiru, que ainda está aprendendo a engatinhar.

So sorry!

Por enquanto, curtam essa colored que tem parte com a Deusa...