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quinta-feira, novembro 18, 2010

Um time totalmente alucinado


Em pé, da esquerda pra direita: Marlon, Pira, Luiz Lobão, Jacó, Dinho, Nego Gel, Simas, Clodoaldo e Junior. Agachados: Nelsinho, Cid Lopes, Belmiro, Bó, Juarez, Deucimar e Amarildo. Sentados: os irmãos Jorginho e Julio Almeida. 

Agosto de 1992. O invocadíssimo Juarezinho resolve colocar um time para disputar o “Peladão”. 

Comandante-em-chefe da esquadrilha da fumaça que tinha como base operacional o entorno do Top Bar, Juarezinho escolhe pro novo time só rastafaris de responsa: Simas Pessoa, Cid Lopes, Belmiro, Nego Gel, Jorginho, Amarildo, Dinho, Clodoaldo, Nelsinho, Bó, Deucimar, Pira, Junior, Marlon, Julio e por aí afora. 

Nome do time: Força Unida da Cachoeirinha (FUC).

Apelido carinhoso para os não iniciados na filosofia de Bob Marley: “Fukiuself”, o nosso velho e conhecido “Vá se foder!”.

O primeiro jogo do FUC era contra o Cruz Vermelha, da Betânia, no campo da Base Aérea. 

Como sabiam que iria haver militares na parada, eles trataram de se aquecer antes de entrar em campo. 

Pararam no Bar Caveira, na entrada da Lagoa Verde, e consumiram um quilo de erva maldita.

Rebateram a larica com várias doses de cachaça Velho Barreiro. 

Entraram em campo nas pontas dos cascos, mas levemente “bolados”. 

O sujeito chutava com violência e a bola levava uma eternidade para cair nos pés do companheiro, mesmo que ele estivesse a dois metros de distância. 

O Cruz Vermelha se aproveitava desses vacilos, mas era incapaz de transformar a superioridade técnica em gols. 

O primeiro tempo terminou em um prosaico zero a zero.

No segundo tempo, Juarezinho partiu para o tudo ou nada. 

Escalou Amarildo, o mais marombado da turma, para ser o centroavante matador e fez a recomendação de praxe: 

– Pegou na bola, mete na área pro Amarildo, que ele resolve. 

Dito e feito. E haja bolas sendo centradas na área. Amarildo nem aí. 

Faltando uns cinco minutos pro jogo terminar, Nelsinho driblou dois zagueiros, tocou pra Junior, que rolou a bola limpa para Amarildo, entretido num bate papo interminável com o goleiro adversário, cuja principal característica era ter lábios leporinos. 

Ele nem percebeu a bola passando na sua frente, pedindo para ser empurrada para dentro do gol. 

O jogo terminou como começou. Zero a zero. 

Juarezinho foi cobrar explicações do centroavante matador:

– Caralho, bicho, o Junior colocou a bola na tua frente... Era só empurrar pro gol e a gente ganhava o jogo. O que qui faltou?

– Calma, meu treineiro, calma! – devolveu Amarildo, com a tranquilidade de uma beata octogenária recebendo a extrema-unção. “Aquele goleiro é o Beiço de Anta, o maior boqueiro da Betânia. Ele ficou de dar um abatimento de 50% quando a gente for fazer as paradas. Não ficava bem eu meter um gol nele...” 

O FUC deixou a Base Aérea comemorando o empate de zero a zero como se houvesse ganho uma final de Copa do Mundo. 

E, no trajeto até a Cachoeirinha, consumiram mais um quilo de erva maldita em ritmo de carnaval.

Mind Games from Paulo Leminski


Na primeira vez em que esteve em Manaus, Hélio Leites (que na época se chamava “Hélio Lete”) me deixou a xerox de um artigo do Paulo Leminski intitulado “Helio Lete: significador de insignificâncias  – Mind games, diria John Lennon”, que transcrevo a seguir:   

Isso que se chama criatividade, a capacidade de produzir formas não práticas, esgota-se toda no quadro das chamadas “artes”? Em outras palavras, só há arte no interior das “artes”?

Essa questão já foi resolvida na prática pela arte do século XX, que desenvolveu modalidades de manifestação “artística” que não cabem mais dentro do quadro das artes tradicionais.

Nas mostras e Bienais, que precisam de rótulos, essas manifestações são classificadas como “performances”, “interferências”, os “happenings”, muito em voga nos anos 60.

O quadro das artes, tal como as entendemos hoje, foi cristalizado no Renascimento, as Belas Artes, pintura e escultura, música e dança, teatro e literatura. Ao lado destas “grandes artes”, outras foram relegadas a um plano secundário, “menor”. O desenho, a gravura, a cerâmica, a ourivesaria, a xilogravura, a caligrafia, a tecelagem, a mímica...

Esse quadro hierárquico foi explodido no século XIX e XX pelo impacto da técnica e da indústria, da fotografia, do cinema, do rádio e da TV, do laser e do holograma.

Dessas técnicas, só teria nascido uma “Grande Arte”, o cinema, neste século que Glauber Rocha chamou, no nome do seu livro, o “Século do Cinema”. A fotografia ainda não adquiriu foros de “grande arte”, ninguém vai colocar um Man Ray ou um Cartier Bresson no mesmo plano que um Picasso ou um Orson Welles. E a criação publicitária, síntese de várias artes e técnicas, por seu caráter prático, esta excluída da arca propriamente “artística”.

Na área do artesanato, que não desaparece diante da indústria, o que temos é o aproveitamento de materiais não nobres, “esculturas” feitas em cordas, papel de jornal, raízes de árvores, lixo, o diabo. Hoje, admiti-se, qualquer material pode servir de suporte para a existência artística ou de veiculo para a expressão.

É da fusão de duas características da arte do século XX que nasce a original experiência de HelioLete, a Botanica (não confundir com Botânica), a arteciência dos botões. O gesto (a performance) e o uso de material reles.

Botão, aqui, é botão de roupa mesmo.

Para promover a Botanica, Lete fundou a “Assintão”, estranha associação dedicada a pesquisar e valorizar o papel do botão na história humana, da pré-história (botões de pedra e de osso) ate o botão do Apocalipse: o botão na Guerra Nuclear.

No afã de chamar a atenção da humanidade pra a importância do botão (tão usado e tão pouco visto...) a Assintão emite com certa frequência boletins jocosérios, redigidos por Lete, alguns deles verdadeiras obras-primas de humor, deboche, fantasia e senso poético.

A associação (que se quer internacional...) opera preferencialmente através de cartas hilariantes que Lete envia a centenas de associados (eu sou um), o que aproxima a experiência da chamada “mail-art”, arte postal.

Os envelopes da Assintão já chegam como não podia deixar de ser com vários botões pregados, não raro cheiros de...adivinhem o quê.

Alice conheceu Lete no Rio e delo trouxe curiosas impressões.

Belo dia, Lete me visita em casa e já chega dizendo que veio me ver por dois motivos, ambos importantes: me converter à causa botânica, claro, e me pedir algum botão que eu não usasse mais. Já chegou me perguntando quantos botões eu tinha na roupa, naquele exato momento. Confesso que embasbaquei. Quem não embasbacaria? A gente não presta atenção nessas coisinhas (e em tantas outras coisinhas). 

De imediato, percebi que estava diante de um mestre zen. Alguém que, através do humor, nos chama a atenção para as pequenas coisas da vida que a própria vida não deixa que a gente perceba. Me converti na hora. Aliás, nem foi preciso. Descobri que eu era um botanico nato. 

Como todo mundo, aliás, que é capaz de entrar nessa brincadeira inteligente em que Lete procura engajar todo mundo que encontra. Uma brincadeira que é, ao mesmo tempo, um exercício de liberdade, de humor e de crítica, um convite à fantasia.

Além de seu significado de descoberta do óbvio oculto, o botão tem outras subconotações, que a botânica já detetou: o significado libertário (o botão fecha a roupa, e tranca a fechadura, um instrumento de opressão física do corpo), o significado erótico (“os botões da blusa”, da música de Roberto Carlos), o significado lúcido (futebol de botão), o significado poético verbal (botão é a palavra “botão”: Lete já explorou todos os jogo de palavras que o botão permite, botão, botânica, botão de flor, botão do verbo, “botar”, aumentativo de “bota”, rebotalho, o Botafogo, Botticelli).

Os desativados e preconceituosos podem pensar que o inventor da botanica não passa de um louco. Mas passa sim. Dos loucos, Lete, pessoa gentilíssima, só tem a doce obsessão de que persegue uma idéia. Mas é a obsessão dos artistas ou dos cientistas, uma obsessão construtiva.

Modernismo, fundindo gesto e performance com o emprego de material neles (perdão, meus botões!) e “mail-art”, Lete (e a Assintão) vai conduzindo uma das experiências criativas mais importantes que tenho visto por ai, bem mais instigante e original que muitas vemissages de artes plásticas que não vão além do simples artesanato (ou industrianato, em muitos casos...).

Expandindo seus negócios, a Assintão acaba de fundar recentemente o FiuFiu Esporte Clube que vai procurar levar para o território tão negligenciado de assobio, esse primo pobre do “bel-canto” as descobertas fundamentais da Botanica: a importância do reles, a relevância do desperdício, a significância do insignificante.

Para tanto, Lete e a Assintão estão recolhendo por toda a cidade, com um pequeno gravador amostragens de assobios de todas as pessoas no sentido de construir a primeira assobioteca da história. 

Ontem, o botão, Hoje o assobio. Amanhã o mundo.

terça-feira, novembro 16, 2010

A história do grupo Legião Urbana, segundo Renato Russo

Urbana Legio Omnia Vincit. Legião Urbana a tudo vence.

Renato Russo adaptava a frase do estadista romano Júlio Cesar (Romana Legio Omnia Vincit) para assinar os textos sobre a Legião que sempre escrevia.

Ele adorava desfiar a verve genial em histórias sobre a sua "tchurma".

Os três textos inéditos e ricos em detalhes que você vai ler aqui foram concebidos durante o segundo semestre de 1982, a partir de uma necessidade de Renato de registrar o momento em que o Legião Urbana dava seus primeiros passos.

Você sabia que a Legião teve um tecladista na formação original?

Muito bem, aqui, você vai poder aprender tudo sobre essa fase da banda, segundo a ótica de seu criador. Aproveite.


Música Urbana

"Era uma vez a gente. Depois, mais gente e mais gente e muito mais gente (não é tanta gente assim; tem muito mais gente do que tem na verdade); era uma cidade. Quer dizer, antes, uma colina. Só que a colina era pequena e era uma panela.

Descemos da colina tal qual bandeirantes (essa frase horrível foi idéia do Dinho) onde é que a gente está mesmo? No porão do Cafofo, lutando contra tudo e contra todos - principalmente contra os microfones. Aparece M. Bonfá (que país é este?), estamos em 1979.

Alguns espécimes voltam do velho continente e trazem boas novas; formam-se novas bandas: AE, Blitx 64, Metralhaz, Vigaristas De Istambul, Dado E O Reino Animal, confusão geral. Muitas entradas e bandeiras e finalmente do caos nascem: Plebe Rude, Sia Trecho II, o novo Blitx, Bambino E Os Marginais, Capital Inicial e Legião Urbana.

É mais ou menos isso. Uma tribo longínqua também tinha muitos planos que se perdiam dentro de um plano só. E da Erva Maldita e Boca Seca aparece E. Paraná que, também insatisfeito, procurava algo novo. Enquanto isso, R. Russo, trovador exilado planejava voltar a fazer música elétrica.

Estamos em 1982. Somos três: Legião Urbana. Nossa primeira apresentação foi no Festival Rock Na Arena, em Patos de Minas. A segunda, um grande acontecimento tribal no Guará. A terceira, na Ciclovia, Lago Norte. Não vamos desistir. Só queremos nos divertir - ‘tá tudo muito bem’, tá tudo bom demais, mas realmente não iremos esquecer a música urbana."

Raio X

Eduardo Paraná – Tudo começou quando, em dezembro de 1980, fui convidado por um amigo para tocar em sua loja de discos, show que aconteceria em Janeiro de 1981.

Formei o grupo Boca Seca e o seu tipo de música era um rock progressivo bastante trabalhado (instrumental). Embora fossem dadas várias apresentações, o grupo se desfez em julho de 1981.

Cada um foi para o seu lado e logo depois Eduardo Paraná foi convidado para montar um grupo de rock ‘brasiliense’ que tocaria músicas de Brasília para dançar, ouvir, e principalmente gostar. Um metal pesado seria a base do grupo, formado por Bonfá, bateria; Renato, baixo; Paraná, guitarra; Paulo, teclados.

Paulo Paulista – ‘Onde é que fica o Brasília Rádio Center?’ Libriano, 16, mora em Brasília há seis meses. Como seu nome indica, é de um Estado ao sul de Minas Gerais. Universitário. É o tecladista da Legião mas também toca baixo, percussão, gaita e sabe manejar o rhythm-machine muito bem.

Esta é a primeira vez que participa de um grupo de música elétrica. (Antes tocava com o Quarteto de Cordas de Sttutgart, na Alemanha, onde ganhou o Rischenbachen, prêmio máximo para músicos jovens). Decidiu entrar para a banda para distrair-se de seus estudos. Gosta de cantar, solo, ‘Rock Around The Clock’ e aquela música da Ana Maria que comprou um biquíni.

Renato Russo – Teve idéia de formar Aborto Elétrico, que JAERA. Acabou, fim, adeus, goodbye. Continuou escrevendo e cantando músicas para quem quisesse ouvir. Sabe de cor mais de 42 músicas dos Beatles (o que não é um grande feito) e é fã incondicional dos Vigaristas de Istambul (a banda mais honesta a aparecer e depois desaparecer).

Escreve uma peça de teatro, é professor. ‘Todos os professores e professoras, sejam bem-vindos!’ Áries descendente Peixes. Não gosta de dentistas, filas de espera, música de elevador, nem de gente falsa e/ou sem criatividade.

Gosta muito de cinema e está atualmente preocupado com boatos de que a III Guerra pode começar antes que ele cumpra sua promessa de ir a Mogi das Cruzes para se encontrar com seres extraterrestres.

Como todo ser humano, é falso em casos de emergência e todos sabem que não é nem um pouco criativo. Ninguém sabe, mas foi ele quem matou Sid Vicious em 1432 a.C.

Marcelo Bonfá – Baterista. Aquário. Gosta de natação, de acampamentos, de se divertir (muito). Era do Blitx 64 (também) e tocou junto ao SLU, Autonomia Limitada, Metralhaz e o supergrupo Dado e o Reino Animal. Faz desenhos e visuais para a banda.

Aprendeu a tocar bateria logo depois da primeira quinzena de vida. Sabia dançar o pogo bem, enquanto no berço. Mais tarde, tornou-se o terror das menininhas: primeiro na Asa Norte, depois na Asa Sul, depois na Asa Leste e agora na Asa Oeste, onde reside atualmente.

Os quatro personagens acima estavam, um dia, procurando por alfinetes perdidos no chão da Rodoviária (Paraná procurava seu logotipo do Led) quando, de repente, decidiram aprender a tocar samba.

Após seis meses de tentativas frustradas em busca de apresentações (‘Não meu filho, aqui a gente não quer grupo de samba, a moda é funk. Funk, entendeu?’), descobriram que é impossível ganhar dinheiro fazendo música no país e decidiram tocar música então. Apareceu a LEGIÃO.

Arriscaram a sorte se apresentando ao vivo pela primeiríssima vez na cidade de Patos, nas Geraes, quando ninguém sabe o que aconteceu porque ninguém se lembra.

Foi um momento histórico, e de hoje em diante Roberto Carlos não recebe mais visitantes em seu túmulo: todas as pessoas estão em casa, dentes cerrados, nervosismo à flor da pele, perguntando: Mas quando será a próxima apresentação da LEGIÃO URBANA."

Legião

"A banda foi formada em agosto de 1982, por Marcelo Bonfá e Renato Russo. Bonfá vinha de uma experiência com o Dado E O Reino Animal, grupo único no sentido de ter um tecladista (Pedro Thompson-Flores), dois guitarristas (Loro Jones, ex-Blitx 64 e atualmente no Capital Inicial; e a guitarra ritmo de Dado Villa-Lobos, neto do famoso compositor australiano).

Isto sem falar no bass-man, o incrível Dinho, que, de ex-baterista e ex-heavy metal, passou a ser o líder intelectual do movimento em Brasília, com a dissolução do Aborto Elétrico.

A música de Dado E O Reino Animal era primitiva e tribal (a primeira banda a seguir esse estilo): a rica estrutura dos muitos instrumentos, muitas vezes dissonante, lembrava algo entre Doors, Velvets, com muito dos padrões repetitivos dos conjuntos avant-garde de então (principalmente Joy Division).

Mas a banda não durou. Embora fosse a que tivesse o maior número de membros instrumentais, apresentaram-se apenas uma vez, na Expoarte-VII da UnB.

Insatisfeito com problemas de ensaios e com a aparente indecisão do Loro, que na época não tinha conjunto fixo, Marcelo Bonfá volta a treinar sozinho, aprimorando seu estilo e assimilando influências - tanto do reggae como de música computadorizada (Human League, no-wave alemão e Cabaret Voltaire).

Dado Villa-Lobos desiste momentaneamente e só voltaria a pegar na guitarra mais tarde.

Enquanto isso, Renato Russo (que havia abandonado o Aborto Elétrico por motivos de insatisfação pessoal) seguia uma turbulenta carreira solo, abrindo as inúmeras apresentações dos conjuntos da época.

Deixa de lado o ataque elétrico para revelar suas composições folk-urbanas, como ‘Eduardo e Mônica’, ‘Faroeste Caboclo’ e ‘Dado Viciado’. Eram baladas com uma história (começo, meio e fim) bem diferentes do seu estilo junto ao AE.

Inevitavelmente, essa mudança começou a chamar a atenção de pessoas menos ligadas - havia os que detestavam de verdade - ao movimento elétrico da cidade.

Agora era possível compreender as letras das músicas, o que tinha sido impossível até então, devido a problemas com microfones e volume alto demais.

Além das novas composições, Russo se dedicava a transcrever para o violão de doze cordas a maioria das músicas do Aborto Elétrico (incluindo ‘Veraneio Vascaína’, ‘Que País É Este’, ‘Anúncio de Refrigerante’ entre os blues e as love-songs que passara a cantar).

Esta foi a época de ascensão dos ‘Vigaristas de Istambul’ (banda hardcore/ska, liderada pelo carismático Bernardo Mueller, e com o ska-man Jeová Stemller na guitarra, além dos iugoslavos Sava e Jovan; um pensando que era Jean-Jacques Burnel e o outro igual ao baterista dos Ramones, mas antes deste aprender a tocar bateria. Foram as bandas mais autênticas a aparecer na cidade).

Foi também a época de mudanças no Blitx-64. Bateristas que entram e saem, brigas entre irmãos por causa dos inúmeros carros que eram comprados a preço de compacto (um Maverick, um gigantesco Galaxie preto e o ‘walkie-talkie do Fred’, um absurdo Gordini vermelho, que parecia saído direto de algum disco dos B-52’s).

Era tempo também do Caos Construtivo, em que Felipe Seabra começava a aprender a destruir the eletric guitar.

Após quase um ano e meio de acontecimentos (entre loucuras, apresentações, ‘Bambino e os Marginais’, filmes super-8, exposições, festivais e acampamentos), tanto Marcelo Bonfá como Renato Russo decidiram voltar à música elétrica, dado o espetacular sucesso do Plebe Rude, banda que seria um modelo a ser seguido em termos de energia e talento (por mais que isso seja motivo de aw-shucks por parte dos Plebeus e Plebetes jóia).

Metade do Blitx-64 se junta à metade do ‘Istambul’ (os iugoslavos vigaristas voltam para casa), e aparece o XXX.

Fê e Flávio formam o Capital Inicial, junto com o Loro e, com tanta movimentação, não poderia ser diferente: a Legião Urbana é formada às pressas, com Eduardo Paraná (fã de Jeff Beck, Hendrix e Focus) tocando guitarra e Paulo Paulista nos teclados.

A experiência dá certo, mas sempre há uma corrida contra o tempo. A primeira apresentação, em um Festival de Rock em Patos de Minas, é feita com apenas três ensaios (ou quatro).

O que fica é o agito no ônibus (ida e volta), Tatiana e Tânia indo de carona até lá, para chegarem na hora da volta, os solos intermináveis do Paraná e o stage-flight do Paulista, que permaneceu imóvel durante toda a apresentação.

O segundo gig (no estádio do Cave) foi já sem Paulista, que foi ligeiramente sugestionado por Eduardo Paraná a deixar a banda. Uma pena, já que a Legião na época possuía um estilo musical invejável, como comprovam as fitas que sobreviveram.

Mais duas apresentações, sempre em estado de emergência e sem ensaios: na Ciclovia, no VI Concerto do Lago Norte (sucesso de crítica e público) e como convidados especiais da Blitz do Rio (‘Geme-Geme’), também sucesso tanto crítico como entre adeptos e não-adeptos do movimento.

Mas a inconstância de Paraná, aliada a seus intermináveis solos estilo Jimmy Page, acabou fazendo com que surgisse uma vaga para guitarrista e, então, entra outro inconstante, só que um caso pouco mais sério.

Enquanto Paraná não compreendia as nuances do estilo experimental da banda (PiL, Cure e Young Marble Giants como influências), Ico Ouro-Preto, guitarrista da fase final do AE, as compreendia muito bem; seu estilo era puro e único - em outras palavras: ideal.

Mas a falta de um ritmo fixo de ensaios, além do lendário medo de palco do artista em questão, fez com que saísse da Legião Urbana sem ao menos ter se apresentado ao vivo.

Na verdade, Ico Ouro-Preto se demitiu, um mês apenas antes da Temporada de Rock Brasiliense, deixando Russo e Bonfá na mão.

Após várias tentativas (seguir como um duo, usar percussão eletrônica, desistir, aparece das sombras Dado Villa-Lobos, grande amigo e excelente guitarrista. Só sua energia vale por todos os guitarristas que a Legião já teve. Viva Dado!"

 PS. do PS.: "Com a saída de Ico Ouro-Preto, após incidentes curiosos que, um dia talvez, serão revelados aos verdadeiros fãs da banda, Marcelo Bonfá entrou em desespero suave (que, junto com sua crise existencial momentânea, lhe deu inspiração para criar não só novos padrões rítmicos, como uma série de desenhos e badges, quase superados pela produção neo-industrial de Bernardo XXX Mueller.

Aliás, aqui cabe uma nota de interesse aos adeptos deste nosso movimento: você sabia que, tanto ‘009’ como ‘Caneta Esferográfica’, sucessos do Blitx-64 e do XXX, foram escritos por Bonfá?) O que fazer? Os ensaios continuaram, mas destes, de produtivo, só apareceu ‘A Dança’ - em sua primeira versão.

E desistir estava out-of-question. A vinda de Pedro Ribeiro do Rio (coincidentemente, um ex-aluno de inglês do Renato Russo), que se instalou permanentemente em Brasília, traz nova inspiração.

Suas histórias sobre o recente súbito sucesso dos PDS - Os Paralamas do Sucesso - fazem com que todos da banda voltem a acreditar no seu potencial, que na época se resumia a seis instrumentais ainda sem letra, um reggae que nunca dava certo e uma música inacabada: ‘Ainda É Cedo’ (a linha vocal dessa foi composta por Ouro-Preto).

É verdade que a Legião tinha vinte e tantas composições antigas para usar, mas isto seria contra a idéia básica da banda. Ao passo que, com Paraná e Paulista (e depois, sem este último), o estilo era decididamente heavy metal (para desespero de Russo e agonia mal disfarçada de Bonfá), quando da entrada de Ico Ouro-Preto a tendência foi suavizar tudo, com músicas de títulos como ‘O Grande Inverno Na Rússia’ e ataque intelectual/melódico, sans energie.

Ao entrar Dado Villa-Lobos, logo se chegou à conclusão de que seria impossível, em apenas três semanas, inventar e aprender músicas experimentais, como era o plano original.

O que fazer? Dado tem a resposta: hardcore! Três acordes!

Então, com muitos ensaios e muitas doses de energia, começaram a aparecer as bases para: ‘Petróleo do Futuro’, ‘Teorema’, ‘O Reggae’ (em fase final - Dado aprendeu em três dias o que outros levaram três semanas para aprender) e ‘A Dança’.

As letras para estas músicas foram escritas por Russo, em estado inspiradamente próximo ao da coma alcóolica, numa noite só (ou duas). ‘Química’, música recusada pelo AE (horrível, diziam eles), e também ‘Tédio’ e ‘Conexão Amazônica’ foram resgatadas por absoluta falta de tempo. ‘Ainda É Cedo’ ganhou novo estilo e o repertório básico da Legião ficou completo.

Desde a Temporada de Rock Brasiliense a banda não tem tido tempo para ensaios e músicas novas como ‘1977’, ‘Perdidos No Espaço’, ‘Setor de Diversões Sul’ e ‘Revoluções Por Minuto’ ainda não estão completas: vieram mais apresentações.

Na QL 8 Sul (onde, de acordo com as más-línguas, mas nem tanto, a banda salvou a festa), no III Festival de Windsurf, na Lagoa Formosa, e esta, no Teatro Galpão pela Expoarte VIII da UnB, todas razoavelmente bem-sucedidas.

O estilo e o ataque da Legião surpreendeu a todos, ao mesmo tempo em que ficou claro que cada uma das quatro bandas principais do movimento (Plebe Rude, XXX, Capital Inicial e Legião Urbana) já tem estilo e dinâmica próprios, sem que haja competição ou intrigas musicais.

Há uma nova força, o que é uma direção a ser seguida. Já sabem, os que sempre diziam que éramos falhos, que estamos aqui para ficar. É interessante observar como os ‘anônimos’ da cidade têm apresentado uma tendência a não dar crédito ao movimento, ao mesmo tempo em que nos copiam e insistem em freqüentar os mesmos lugares que freqüentamos.

Outro fator digno de nota aqui, é que os brasilienses só aceitam o que é canonizado pelo eixo mídia impressa - TV - juventude Rio/Sampa. Antes de Bivar e Os Inocentes, antes do Circo Voador e punks no Fantástico e Lixomania, ninguém, ninguém nos dava uma ajuda sequer aqui na cidade.

Éramos obrigados a esperar até que alguma futura estrela brasiliense da MPB nos deixasse subir ao palco (e de graça, ainda por cima), para tocar uma canção ou duas. E isso sem mencionar o pouco-caso dos técnicos de som e organizadores etc., que se achavam no direito de decidir o que deveria ou não ser ouvido pelo público jovem da cidade.

Não deixaremos que se esqueça que somos nós mesmos desde ’78, rótulos ou não-rótulos; new-wave, punk ou no-wave. O que acontece? A quem estamos enganando? Qual o verdadeiro papel do artista, n’uma cidade como Brasília, a nossa cidade? Qual o papel da imprensa; do público?

Sempre fizemos questão de ir até o público e isso ninguém poderá negar - carregávamos amps e guitarras, bateria e microfones e, só com uma tomada emprestada, uma extensão, armávamos tudo, em lanchonetes, colégios, sempre de graça para quem quisesse e pudesse ouvir.

Poucos queriam e esses, os visionários, já estão conosco agora. Estão participando, agindo, em vez de discutirem práxis em auditórios. Estão fazendo alguma coisa em vez de criticar e sorrir com o despeito próprio dos falsos membros da avant-garde.

Temos de ir em frente e para isso é necessário, ao menos, assimilar o esquema sórdido que é o meio artístico brasileiro. Principalmente quanto a aspectos ligados à produção.

Vamos ter que cobrar ingressos do público: para manter equipamento, pagar aluguel, taxas de sindicato e também da Ordem dos Músicos (que, aliás, foi muito compreensiva com a gente. Thanks, Edgard e Mr. Antunes).

Mas vamos também sempre tocar de graça, como hoje. Em resposta à música ‘Petróleo do Futuro’. O importante é você fazer o que você quer fazer.

Esqueçam os rótulos. Só não se esqueçam que amizade ainda é muito importante e que tribos são o único meio de sobreviver individualmente, sem se perder no meio de tanta informação, tanta moda e tantas mentiras. Essa é a nossa tribo. E a sua?"

domingo, novembro 14, 2010

Virada Cultural terá lançamento do livro "Manaus-Meu Sonho" de Joaquim Marinho


A Prefeitura de Manaus, por meio do Conselho Municipal de Política Cultural e da Fundação Municipal de Cultura e Artes – ManausCult, lança o livro “Manaus- Meu Sonho”, do jornalista, radialista e escritor Joaquim Marinho.

O lançamento acontece neste domingo (14), às 19h, na Livraria Saraiva, com a presença do autor, além de autoridades, membros das academias, intelectuais, pesquisadores e universitários. O evento faz parte da “Virada Cultural” promovida pela prefeitura que vai levar espetáculos e shows de música, teatro, dança e cinema a cinco palcos simultâneos na cidade.

Obra

O livro de Joaquim Marinho foi publicado pela Editora Valer e “dá a dimensão de quanto o jornalista, escritor, apresentador e colecionador ama a cidade de Manaus e a defende das agressões que se praticam contra ela todos os dias", diz o prefácio escrito pelo jornalista Milton Cordeiro que acrescenta, ainda, que o livro "nos leva a um passeio de recordações para os que aqui vivem há mais de 50 anos, pelas crônicas e, sobretudo, pelas fotos e gravuras ilustrativas”.

O livro reúne artigos de celebridades e jornalistas do cenário cultural amazonense, como Ulisses de Azevedo Filho, Aldísio Filgueiras, Luiz Ruas, José Seráfico, Márcio Souza, Renan Freitas Pinto, Tenório Telles, Domingos Demasi, Ediney Azancoth, Ornan Corrêa, Trícia Cabral e João Bosco Araújo; além de texto do jornalista, escritor e pensador mineiro Fernando Sabino e do poema ribeirinho "Encontro das Águas", do cearense Quintino Cunha, que encerra com paixão e elegância a publicação.

Manaus - Meu Sonho

“Manaus – Meu Sonho” é ilustrado com fotografias e cartões postais da Belle Époque da coleção do autor; desenhos “feitos à caneta BIC" pelo artista chileno Mateluna; e ilustrações do dramaturgo, jornalista e cartunista mineiro Ziraldo.

Joaquim Marinho explica que "merecemos continuar a ser a cidade sorriso e, mesmo com tantos milhões de carros, aparelhos de ar-condicionado e toneladas de asfalto para atender os quase dois milhões de habitantes, nos dias de hoje, temos que preservar a floresta, os rios, os animais e a nossa gente, sem intervenções estrangeiras".

Marinho finaliza dizendo que o livro levou dois anos para ficar pronto, em decorrência do extravio de seus originais, só reencontrados há alguns meses; e promete que já está a caminho uma segunda versão.

José Joaquim Marques Marinho

Joaquim Marinho, amazonense de corpo e espírito, nasceu na Cidade de Porto, Portugal, em 1946. É advogado, radialista, jornalista, empresário, colecionador e – como ele próprio se define – um agitador cultural. Apresenta há 40 anos o programa radiofônico "Zona Franca", que já foi transmitido pelas emissoras Baré, Rio Mar, Difusora e Novidade. Atualmente, o "Zona Franca" vai ao ar pela Amazonas FM, aos domingos, das 09h às 12h.

Joaquim Marinho foi secretário de Cultura e secretário de Turismo do Estado do Amazonas. Em 1996, como diretor da Fundação Cultural do Amazonas, trouxe a Manaus o renomado tenor José Carreras, para as comemorações alusivas ao centenário do Teatro Amazonas.

(fonte:Portal Amazônia)

terça-feira, novembro 09, 2010

Desapresentação ou tá todo mundo loco?

Zemaria Pinto (*)

A ficção sempre andou à frente da história. Testemunha viva do seu tempo, a ficção é um inventário de atos e fatos que a história, sempre escrita depois, esqueceria, se não se valesse do registro ficcional. Por outro lado, a crônica é um gênero essencialmente marginal: misto de ficção e história, não tem com esta o compromisso da verdade, nem com aquela as sutilezas da linguagem. Mas é preciso que haja verossimilhança – isto é: pode até não ter acontecido assim ou assado, mas, do jeito como é contado, até que poderia ser verdadeiro...

E o que uma outra tem a ver com a coisa? Elementar, meu caro Sancho: o leitor tem nas mãos um livro de crônicas – que registram acontecimentos com personagens reais, muitos ainda vivos (aliás, muito vivos!), passados num tempo recente –, mas que pode ser lido como pura ficção, salientando-se o estilo soberbo do autor, sem nenhum exagero, radicalizando entre a rudeza de um Plínio Marcos e a alegre amargura de um Nelson Rodrigues – que, antes de serem grandes dramaturgos, eram putas cronistas. Numa palavra: ironia, escárnio, deboche – escolha. Mas não é só isso: Sanatório Geral é um belo livro de história, embora alguns historiadores barés torçam seu nariz de cera a ele e prefiram ignorar os “causos” que humanizariam as personagens que eles insistem em endeusar.

Projetado para ser lançado em seis volumes, Folclore Político foi apenas até o terceiro, paralisado pelo olho gordo e pelos despachos (em todos os sentidos) dos desafetos, “ofendidos” com as historinhas capazes de deixar nu em pelo qualquer candidato a rei. E como tem rei nu nesta imensidão amazônica! Daí que Simão Pessoa, por dúvida das vias, depois de muitos processos e ameaças de morte, foi procurar inspiração em reis de outras freguesias, o que só aumentou a abrangência deste Sanatório, que deixa de ser meramente paroquial para ser supranacional.

Mesclando casos clássicos da história política brasileira com inimagináveis, sórdidas, engraçadíssimas e tristes picuinhas regionais, que cairiam no esquecimento se não fosse pela verve de Simão, Sanatório Geral é um autêntico tratado sobre essa arte tão abandalhada da política. Anarquista, Simão não livra a cara da direita nem da esquerda, muito menos dos muristas (não confundir com muralistas) – onde se classifica a supremacia dos políticos do Amazonas, mais preocupados em inflar suas gordas contas bancárias e massagear seus egos de baiacu que em melhorar minimamente as condições de vida do povo.

E para quem ainda não entendeu o título, esclareça-se: “dormia a nossa pátria-mãe tão distraída / sem perceber que era subtraída / em tenebrosas transações... / palmas pra ala dos barões famintos / o bloco dos napoleões retintos / e os pigmeus do boulevard... / o estandarte do Sanatório Geral vai passar!” Trata-se de um falso samba-enredo do inexorável e inoxidável Chico Buarque; mas essa metáfora do sanatório me parece que é bem mais antiga: Machado de Assis? Lima Barreto? Oswald de Andrade? Seja de quem for, agora é do Simão, porque concretiza o intertexto perfeito entre continente e conteúdo: a política brasileira é mesmo isso – um imenso hospício, onde os loucos mais safados se fazem de doidos incuráveis para ser tomados pelos mais doidões como menos loucos, capazes, portanto, de guiá-los no escuro labirinto de sua crônica insanidade. Entendeu?


(*) Zemaria Pinto, escritor e blogueiro, é doido manso.

Nota do editor do blog: esse texto acima é a apresentação do livro Sanatório Geral, que eu pretendia publicar antes do final do ano. Missão impossível. Como ainda não pintou um patrocinador decente para bancar a impressão do livro, vou começar a publica-lo aqui no mocó. Sorria, periferia!

Sanatório Geral (1)

Álvaro Maia nasceu no seringal Goiabal, no rio Madeira, em Humaitá, mas veio criança para Manaus, onde fez primário e secundário.

Começou a trabalhar no Jornal do Comércio com 16 anos.

Fez o serviço militar no 26.º Batalhão de Caçadores, tendo como companheiros de caserna o artista plástico Branco e Silva e o poeta Américo Antony.

Alguns anos depois, Álvaro Maia foi cursar Direito no Ceará, mas depois se mudou para o Rio de Janeiro, onde acabou se formando.

Quando retornou a Manaus, se tornou jornalista militante, ativista político e poeta nativista por conta da famosa Canção de Fé e Esperança, publicada no início dos anos 20.

Após a Revolução de 1930, foi nomeado interventor federal, tendo se exonerado do cargo no ano seguinte.

Em 1935, foi escolhido senador pela Assembleia Estadual e, depois, também em eleição indireta, virou governador.

Com o golpe político do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, foi nomeado outra vez interventor federal, mantendo-se no poder até a queda de Getúlio Vargas, em 29 de outubro de 1945.

Assim que assumiu o latifúndio amazonense, Álvaro Maia escolheu os prefeitos, promotores e juízes entre seus amigos mais chegados, despachou cada um deles para a sua respectiva cidade e ficou em Manaus cuidando do governo.

Do governo e da poesia. Gostava de perpetrar versos e promover saraus literários no Palácio Rio Negro.

Publicou livros, alguns elogiados pela crítica, como Buzina dos paranás.

Para ele, um bom verso valia mais do que um bom despacho.

Um dia chega a Manaus o prefeito de Lábrea, lá no infinito do rio Purus, quase no Acre.

– Senhor interventor, vim solicitar-lhe a demissão ou transferência do promotor Dr. Américo Antony. Está dando escândalos na cidade. Ele bebe muito e outro dia ficou nu na beira do rio. E há coisa pior, muito pior, senhor interventor! Além de todos esses vexames, o Dr. Américo Antony também é poeta e vai acabar levando nossos jovens para esse mau caminho...

O interventor nem pensou duas vezes.

O promotor foi mantido no cargo, mas o prefeito foi exonerado na mesma hora.

É pra isso que servem os amigos de caserna e os cultores de poesia, não necessariamente nesta ordem.

Sanatório Geral (2)

Fevereiro de 1985. Eleito pelo PDS, o prefeito Raimundo Sobrinho, de Boa Vista do Ramos, estava tendo dificuldades para “rolar” a dívida do município e pediu ajuda ao deputado estadual Átila Lins, para agendar um encontro dele, Sobrinho, com o governador Gilberto Mestrinho.

O ajuste fiscal que o boto navegador estava promovendo no Estado estava tirando o sono dos alcaides.

Na manhã de uma sexta-feira, o telefone do prefeito tocou.

Do outro lado da linha, Átila Lins:

– Prefeito, estou aqui em Urucurituba. Pega uma voadora e se manda pra cá, que o governador vai lhe receber em audiência.

No início da tarde, Sobrinho chegou a Urucurituba, debaixo de um temporal diluviano.

As ruas de barro haviam se transformado em cachoeiras de lama.

Para não sujar a imaculada calça de linho, o prefeito enrolou a bainha da calça até o meio da canela.

Quando o prefeito entrou na sala da prefeitura, onde o governador estava realizando as audiências, o deputado percebeu que ele ainda estava com as calças enroladas.

Átila Lins se aproximou discretamente do prefeito e sussurrou no seu ouvido:

– Abaixe a calça, prefeito!

Sobrinho levou um susto.

– Já?!! – reagiu. “Eu pensei que a gente pudesse primeiro negociar...”.

O deputado teve um trabalho do cão para desfazer o mal-entendido.

Sanatório Geral (3)

Nascido em Humaitá, Plínio Ramos Coelho era o líder de maior importância entre os políticos amazonenses que se tinham revelado com a queda da ditadura getulista em 1945.

Advogado e jornalista, ele levantava as massas com a sua oratória brilhante e a sua posição firme e vigilante em defesa dos interesses dos trabalhadores e da moralidade da administração pública – o que lhe valeu ser chamado de “o Ganso do Capitólio”.

Elegera-se sucessivamente deputado estadual constituinte em 1947 e deputado federal em 1950, sempre sob a bênção de Álvaro Maia, mas não tardaria a romper a aliança com o pessedismo e tornar-se o mais duro crítico do seu ex-mentor.

Ao assumir a liderança da oposição comandando o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ele se lançou candidato ao governo contra Ruy Araújo, o candidato da situação.

A futura consagração de Plínio Coelho nas urnas sinalizaria o ocaso da longa trajetória política de Álvaro Maia.

Em agosto de 1954, Plínio Coelho realizou um gigantesco comício no bairro da Praça 14, cujas ruas esburacadas, sem iluminação e tomadas pelo mato eram uma fonte permanente de dor de cabeça para os moradores.

– Se for eleito, minha gente humilde da Praça 14, eu prometo iniciar o saneamento das finanças públicas do Estado para readquirirmos nossa capacidade de investir na infraestrutura e avançarmos rumo à justiça social – vociferou Plínio. “Para tanto, vou criar uma série de empresas de economia mista, como Celetramazon, Papelamazon, Alimentamazon, Telamazon, Cimentamazon e Transportamazon. Essas empresas vão significar a redenção do homem da capital e de nossos irmãos desassistidos nos grotões do interior”.

O discurso seguiu nesse diapasão, entre o técnico e o messiânico.

O povão não entendia direito, mas aplaudia com fervor quase religioso.

Um assessor discretamente cochichou para o orador sobre aquilo que a população realmente desejava ouvir: uma solução para o problema das ruas do bairro.

Plínio não contou conversa:

– Por último, meus amigos, eu quero reafirmar que uma das minhas primeiras medidas como governador será fazer um arruamento à altura deste bairro tão querido e bonito. Quem votar no PTB vai ficar de cima! Podem anotar! Quem votar no PTB, quem votar comigo, vai ficar de cima! Vai ficar de cima!

Os urros e vivas da multidão davam pra ser ouvidos no Seringal-Mirim.

O bairro da Praça 14 votou maciçamente em Plínio Coelho, que acabou sendo eleito.

Em junho de 1955, uma patrulha mecanizada do DER-AM se estabeleceu no bairro para começar a fazer o arruamento.

Seis meses depois, quando a patrulha se deslocou para repetir a dose no bairro da Cachoeirinha, a Praça 14 estava completamente mudada.

As casas da rua Nhamundá, por exemplo, estavam agora a três metros de altura do nível da rua.

Idem as casas das ruas Tarumã, Japurá, Apurinã, Afonso Pena etc.

O novo governador havia cumprido a promessa: fez um arruamento profundo, à altura da expectativa dos eleitores, e o povão agora estava “de cima”...

Sanatório Geral (4)

Polêmico. Este é o adjetivo mais utilizado e que geralmente acompanha o nome de Carlos Lacerda.

Eloquente, sagaz, intempestivo, passional, dono de uma oratória admirável, Lacerda foi o último dos grandes nomes da política brasileira capaz de inflamar paixões por meio de um discurso.

O nariz aquilino, os olhos vivos e a voz que assustava os adversários – para ficarmos nas explicações mais leves – lhe valeram o apelido de “o Corvo”, dado por seus desafetos.

Nascido no dia 30 de abril de 1914, no Rio de Janeiro, Lacerda foi jornalista, escritor, empresário e político – vereador, deputado federal, governador e candidato à Presidência da República –, além de ser um importante personagem durante três décadas de História brasileira.

Fundador do jornal Tribuna da Imprensa, Carlos Lacerda também ficou conhecido como “Demolidor de Presidentes”. Foi pivô da morte de Getúlio, e dos afastamentos de Café Filho, Jânio e Jango.

Suas obras? Foram mais de mil realizadas. Quase uma para cada dia de seu governo. Lacerda governava da rua. Ele gostava de dizer que podia ouvir o que lhe diziam e o que dele falava o povo.

Construiu o Parque do Flamengo e a Praia do Flamengo, que até hoje as pessoas chamam de “Aterro do Flamengo”.

Removeu favelas, construiu a Vila Kennedy, por intermédio da Cohab – Companhia Estadual e Habitação, que abrigou na época 12 mil famílias.

A Adutora do Guandu – 43 quilômetros de túneis por onde corre água, que até hoje abastece a população do Rio – foi construída em seu governo.

Com um empréstimo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) investiu maciçamente em Saúde e Educação. Sucesso total.

Em quatro anos e meio foram construídas 282 escolas com 1.552 salas de aula para mais de cem mil crianças, entre oito e 14 anos, que anteriormente não encontravam vagas.

Os hospitais públicos estavam aos pedaços. Além de reaparelhar os hospitais, ele duplicou o Hospital Miguel Couto que se tornou padrão de qualidade.

Abriu os túneis Rebouças e Santa Bárbara, criou a Sala Cecília Meireles, construiu os trevos dos Marinheiros e o Faria-Timbó, recuperou o Teatro Municipal, abriu 600 quilômetros de esgotos.

Deixou projetados na prancheta os traçados da Linha Vermelha e da Amarela.

Governou com uma equipe enxuta de profissionais.

No último dia de seu governo requisitou um canal de TV e ficou 24 horas no ar prestando contas de seus atos.

Além de grande governador e grande tribuno, também era grande jornalista.

Na ocasião em que dirigia seu jornal, Tribuna da Imprensa, não tolerava duas expressões usadas à exaustão nas redações brasileiras, principalmente na hora da preguiça: “via de regra” e “por outro lado”.

Lacerda ficava furioso:

– Via de regra pra mim é boceta! – vociferava. “E por outro lado é cu!”.

O jornalista que usasse essas expressões era demitido sumariamente.

Essa lição deveria ser ensinada à exaustão nos cursos de Comunicação da cidade.

Sanatório Geral (5)

Junho de 1994. Ex-secretário estadual de Educação, o deputado federal José Melo (PFL), candidato à reeleição, está fazendo uma reunião com pais, alunos e professores na cidade de Benjamin Constant, em uma das escolas públicas do município.

A quadra da escola está completamente lotada.

José Melo começa um discurso inflamado sobre a necessidade de manter nas escolas as crianças entre sete e 14 anos, mas percebendo a indiferença da plateia resolve mudar de tática:

– Aqui vocês têm escola digna do nome? – vocifera

– Não! – a plateia berra, num coro ensurdecedor.

– Aqui vocês têm fardamento decente?

– Não! – a plateia responde, cada vez mais animada.

– Aqui vocês têm merenda escolar?

– Não!

– Aqui vocês têm atividades extracurriculares?

– Não!

– Aqui vocês têm professores qualificados?

– Não!

Desolado, José Melo encerra seu discurso derrubando o rei:

– Também, quem manda vocês estudarem nessa merda...

Foi o deputado federal mais votado no município.

Mordida de cobra

Numa fazenda em São Paulo – onde se cria gado Tabapuã, raça eminentemente brasileira –, Maria Elisa, Alberto e Carlos Artur, filhos do proprietário, recebiam para um grande almoço em torno de uma só mesa, ricos fazendeiros do Sul (interessados na compra de touros para reprodução) e outros visitantes ilustres, diplomatas estrangeiros, gente finíssima.

Lá pelas tantas, invade a sala uma cachorrona intrusa, imediatamente expulsa pelos anfitriões que se desculparam com os convivas alegando que a cadela estava muito carente, pois tinha perdido o companheiro na véspera, picado por cobra.

Cobra? Naquela fazenda limpíssima, cuidadíssima, bacanérrima?

Explicou-se. Caso raro. Às vezes uma ou outra cobra escapa dos cuidados da peonada.

Percebendo que os comensais já estavam ficando à beira de um ataque de nervos por causa da história, disseram que a mordida fatal foi a quilômetros de distância da casa grande.

Entrou uma das criadas e Maria Elisa, para reforçar o clima de segurança do almoço, perguntou:

– Fátima, onde foi que a cobra mordeu o Ringo?

Serena e precisa, a moça informou:

– Nos culhão.

Causos de Bambas: Millôr Fernandes

O avião faz um pouso técnico em Lisboa que duraria umas três horas.

Dois passageiros do vôo, Millôr Fernandes e Paulinho Mendes Campos, resolveram aproveitar o tempo para dar uma volta pela cidade e para isso perguntaram a um policial qual o procedimento legal.

– Há duas maneiras! – respondeu o gajo. “A primeira, os senhores entrem naquela bicha (fila), carimbem os passaportes, assinem uns papéis e, na volta, entram de novo na fila, mais um carimbo, mais uns papéis.”

– E a segunda? – perguntou Millôr Fernandes.

– É à brasileira. Saiam e retornem por aquele portão.

Causos de Bambas: Assis Chautebriand

Assis Chateaubriand passando pela Avenida Atlântica viu uma belíssima mulher, muito alinhada, acenando para os táxis que passavam lotados.

Mandou o chofer dar a volta, encostar e oferecer condução á senhora que, diante da confiabilidade do trio – motorista, patrão, automóvel – aceitou de bom grado.

Apresentações, conheço de nome, para onde a senhora está indo, papos corriqueiros, intenções idem.

– Aceita? – a madame abre uma cigarreira de prata, oferece a Chateaubriand que recusa num gesto e num gesto ordena que o chofer regresse ao ponto inicial da carona, onde expulsa a passageira.

Gostava de mulher, mas tinha horror a cigarro.

Causos de Bambas: Milton Ilha Rasa

Os olhos ambos esbugalhados à força não de disfunção da tiroide, mas de agentes externos mesmo (a popular diamba, birra, bengue, pango, jererê, maria joana, kaya, mato, surema, pererê, fumacê, dirijo. Vocês sabem).
Chamavam-no Milton Ilha Rasa, sutil referência ao farol que lá se ergue.

O Milton era uma espécie de São Cristovão: grandalhão e santificado, só queria dar os tainhas dele e cantar samba raiado a pedido de João Gilberto, que adora cutucar folclore.

Uma noite, João está reunido no Bar Restaurante Zeppelin, central de atividades gratuitas da extinta Ipanema, com dois empresários interessados em lhe engordar os ganhos, na época ainda magros.

Entra Milton, vê o João, encaminha-se na sua direção. O cantor corta a investida do Milton com um olá gelado, distante, irreconhecível.

O visitante, desapontado, senta-se duas ou três mesas adiante e se põe, na cara de pau, a enrolar lentamente um charo.

Quando termina a fase industrial da operação, passa ao consumo.

Acende a beata, escancara mais os olhos e ocupa todo o espaço do bar com a voz colossal, voz de assombração, e oferece ao vizinho:

– Ô João! Vai num fuminho?

Isso alto. Apesar de usuário de carteirinha, João empalidece, pede licença, levanta-se, aproxima-se do Milton e diz baixo:

– Muito obrigado, Milton. Obrigado por mim, pela Astrud, pelo Marcelo.

O Milton arremata a grossura:

– Atacando de Santíssima Trindade é, bicho?

Causos de Bamba: Adolfo Bloch

Almir, um dos motoristas da Manchete, não recolheu a caminhonete à garagem, como era sua obrigação, e a viatura sob sua responsabilidade foi roubada de noite, na porta da casa onde ele dormia, no subúrbio.

Cientificado do fato, Adolfo Bloch convocou a presença do empregado e, naturalmente, disse-lhe as últimas, expulsou-o do emprego e mandou a secretária chamar a polícia.

O Almir arranjou uma brecha e explicou:

– Seu Adolfo, é o seguinte. Minha patroa está doente há quatro meses e devez em quando, o senhor sabe como é, eu vou dormir na casa de uma criatura para quem dou uma situação. Aí, aconteceu essa desgraça.

Adolfo, furibundo, não quis papo e fez um sinal para que o outro se retirasse, já não havia nada a dizer.

O Almir chegou à porta da sala, foi interrompido pelo Adolfo, meio hesitante, mas já predisposto ao perdão, precisando só de uma desculpa:
– A foda foi boa?...

quinta-feira, novembro 04, 2010

25 discos de Blues para você ouvir antes de morrer


ROBERT JOHNSON - The Complete Recordings
Todas as 41 músicas gravadas pelo maior mito do blues estão reunidas nesta caixa com dois CDs, lançada em 1990. O grande lance desta reedição é a restauração digital das masters. Todas as músicas que inspiraram lendas como Eric Clapton, Jimmy Page, Mick Jagger e Keith Richards estão Lá: “Crossroads Blues”, “Rambling on my Mind”, “Sweet Home Chicago”, “Walking Blues”, “Traveling Riverside Blues”, “Love in Vain”... Mais do que fundamental.
BESSIE SMITH - Empress Of The Blues
Esta soberba coletânea da Imperatriz do Blues, apelido oficial de Bessie Smith, mostra porque as mulheres tiveram importância total nos primeiros anos do estilo. Com faixas gravadas entre 1923 e 1933, Empress Of the Blues é de emocionar até pedra no deserto. Só “Nobody Knows When You’re Down And Out” e “Baby Won’t You Please Go Home” já valem o investimento.   
 HOWLIN’ WOLF, MUDDY WATERS & BO DIDDLEY -The Super Super Blues Band
Um encontro de três gênios do blues elétrico. Gravado em Chicago em 1967, o álbum registra uma jam session histórica, com a ajuda do jovem Buddy Guy no baixo. Enquanto isso, Bo, Muddy e Wolf revezam-se nas guitarras e vocais. Versões poderosas de “Long Distance Call”, “Sweet Little Angel” e “The Red Rooster”. 
 B.B. KING - Live In Cook County Jail
Gravado durante uma festa numa prisão em 1971, este é um dos mais contundentes discos ao vivo já gravados. B.B. bate papo e mexe com a emoção dos presos e suas mulheres, que respondem aos lamentos do bluesman com o coração na mão. Releituras sensacionais de “Everyday Have the Blues”, “How Blue can you Get?”, “3 O’Clock Blues” e “Sweet Sixteen” são os destaques.
 STEVIE RAY VAUGHAN - Texas Flood
Primeiro e mais tosco disco do grande bluesman dos anos 80, Texas Flood abriu as portas do saloon para Stevie Ray. Com a produção do lendário John Hammond e litros e litros de bourbon goela abaixo, o guitarrista chegou chutando tudo. Seu estilo selvagem influenciou toda uma geração e balançou o mundo do blues. A faixa titulo, “Dirty Pool” e os instrumentais “Testify” e “Rude Mood” são um aperitivo do estrago que o selvagem Stevie Ray causaria.
 THE ROBERT CRAY BAND – Who’s Been Talkin’
Ótima estréia do bluesman que daria novo fôlego ao estilo nos Estados Unidos a partir de 1980. Seu timbre vocal de soulman e sua guitarra cristalina conquistariam o mundo na sequência. Neste disco, Cray ainda não havia sido contaminado pelo pop fácil que quase o derrubou depois e mostrava que entende muito de blues. 
 JOHN LEE HOOKER - Chill Out
Lançado em 1995, Chill Out revela um John Lee Hooker adaptado aos novos tempos sem deixar de ser fiel às suas raízes. A saborosa “Chill Out (Things Gonna Change)” é pontuada pela guitarra temperada do discípulo Carlos Santana, enquanto “Annie Mae” e “One Bourbon, One Scotch, One Beer” remetem ao Lee Hooker das antigas. 
 WILLIE DIXON - The Big Three Trio
Antes de tornar-se o principal parceiro de Muddy Waters, o baixista Willie Dixon tentou a sorte com dois de seus melhores amigos, o guitarrista Bernardo Dennis e o cantor e pianista Leonard “Baby Doo” Caston, tocando standarts do blues e composições próprias. Um ótimo registro do talento em formação do grande compositor de “Walking Blues”, “Mannish Boy” e “Hoochie Coochie Man”.
 BUDDY GUY & JUNIOR WELLS - Play The Blues
O casamento perfeito entre a guitarra de Buddy Guy e a gaita de Junior Wells viveu seu apogeu neste álbum. Temperado com a dose certa de soul music, o disco é uma festa do começo ao fim, com destaque para o suingue de “Man of Many Words” e “Messin’ with the Kid”. Uma ótima oportunidade para lembrar o grande Junior Wells, morto em 1998, aos 63 anos.
 JANIS JOPLIN - Live At Winterland’ 68
O mais cultuado CD póstumo de Janis a pintar nas lojas, Live at Winterland’ 68 é o registro de um show inspirado da maior cantora branca de blues da História. Mesmo acompanhada pela fraquinha Big Brother and the Holding Co., Janis brilha em “Summertime”, “Ball and Chain” e “Down on Me”.
 CREAM - Those Were The Days
Caixa com quatro CDs imprescindível para quem quer entender o blues psicodélico. Seja nas gravações em estúdio ou nos registros ao vivo, quando Jack Bruce (baixo), Ginger Baker (bateria) e Eric Clapton resolviam mergulhar no blues, o resultado era de babar.
 B.B. KING - Lucille & Friends
Esta coletânea traduz de forma perfeita o lado “universal” da carreira de B.B. King. O disco traz parcerias com figuras de todo tipo: U2, Stevie Wonder, Vernon Reid (Living Colour), Ringo Starr e os bluesmen John Lee Hooker, Albert Collins e Robert Cray. Chega a soar comercial, mas sem perder um pingo da sinceridade. 
 JOHN MAYALL - Blues Breakers With Eric Clapton
Quando Clapton largou os Yardbirds, que considerava comercial demais, só havia um lugar para ele na efervescente cena do blues londrina: ao lado de John Mayall, pianista, cantor e profundo estudioso do estilo. Juntando a fome com a vontade de comer, os dois gravaram um álbum histórico, uma espécie de embrião do blues vigoroso que Clapton faria com o Cream. 

JOHN LEE HOOKER -The Very Best Of
Caixa com dois CDs reunindo a nata da produção do “Boogie Man”, com músicas gravadas entre 1955 e 1992. Com suas guitarradas em cima de um único acorde e sua voz gutural, Lee Hooker arrasa em “Mambo Chillun”, “Hobo Blues”, “Boom Boom”, “Drug Store Woman” e “Big Legs, Tight Skirt”.

JIMI HENDRIX - Blues
Muito antes de revolucionar o rock’n’roll, James Marshall Hendrix sabia de cor o idioma do blues. Presente em todos os discos de Jimi, o estilo era a principal matéria-prima do seu som, seja na estrutura musical ou nas letras. Blues traz momentos brilhantes do herói da guitarra, como a poderosa versão do clássico “Red House” e a voz-e-violão de “Hear My Train A Comin’”. Jimi sabia como poucos que, na verdade, o blues é um sentimento. 

ZZ TOP - One Foot In The Blues
Coletânea de primeira linha com gravações feitas pela banda do folclórico guitarrista Billy Gibbons ao longo de mais de vinte anos. Detalhe: nenhum desses blues e rhythm’n’bLues haviam sido lançados anteriormente. Um presente e tanto para a legião de fãs do grupo. 

DUANNE ALLMAN - An Anthology
CD duplo com o melhor do guitarrista ao lado da Allman Brothers Band e de amigos como Wilson Pickett, Aretha Franklin, John Hammond, Johnny Jenkins e Eric Clapton, com quem Duanne gravou o fundamental Layla And Other Assorted Love Songs. 

HOWLIN’ WOLF - The London Sessions
No final dos anos 60, várias lendas do blues americano passaram por uma experiência quase religiosa. Figuras como Muddy Waters, Bo Diddley, Chuck Berry e Howlin’ Wolf cruzavam o Atlântico para participar de jam sessions com alguns dos maiores popstars do planeta. Para se ter uma idéia, a banda de apoio desse disco de Howlin’ Wolf era formada pela cozinha dos Stones (Charlie Watts e Bill Wyman), Steve Winwood (do Traffic) e Eric Clapton.. 

JOHNNY WINTER AND - Live
Discaço ao vivo que registra uma das melhores fases do albino mais alucinado da história do blues, que então contava com a ajuda do grande guitarrista Rick Derringer. Versões impecáveis de “It’s My Own Fault” e a nervosa “Mean Town Blues” são os pontos altos da bolacha.

ERIC CLAPTON - From The Cradle
Depois de recolher os milhões faturados com o seu Unplugged, Clapton resolveu pagar um tributo definitivo aos seus heróis. From the Cradle traz 16 clássicos gravados ao vivo no estúdio, ou seja, com todos os músicos tocando juntos numa tacada só, sem overdubs. O repertório é uma covardia para os fãs de blues, com “I’m Tore Down”, “Hoochie Coochie Man” e “Five Long Years”, além das acústicas “How Long Blues”, “Driftin’” e “Motherless Child”. Obrigatório.

ALBERT COLLINS, ROBERT CRAY & JOHNNY COPELAND - Showdown!
Lançado em 85, o álbum repete a fórmula das Super Blues Bands formadas por Muddy Waters, Howlin’ Wolf e outros gigantes nos 60. Apesar de dividir espaço com dois de seus professores, Cray não se intimida e joga pra ganhar. Uma aula de blues e camaradagem de três caras que curtiam muito tocar juntos.

BLUES TRAVELER - Four
Maior êxito do grupo neo-bicho-grilo liderado pelo gorducho John Popper, cantor, gaitista virtuoso e idealizador do H.O.R.D.E., festival itinerante que reúne bandas de pegada semelhante. O som maduro do Blues Traveler aponta para uma tentativa de renovação do estilo, com ingredientes do rock’n’roll aliados a uma gaita de timbre tradicional. Para quem não torce o nariz para experimentalismos. 

JONNY LANG - Lie To Me
Segundo disco do blues-boy-com-pinta-de-cantor-do-Hanson, Lie To Me foi lançado quando Jonny tinha apenas 16 anos. Principal destaque da novíssima geração, o cantor e guitarrista mostra que aprendeu a lição direitinho nas regravações de “Matchbox” e “Good Morning Little School Girl”, esta última gravada pelos Stones e Johnny Winter, entre outros. 

MUDDY WATERS - Folk Singer
Gravado em 1964, Folk Singer marcou a evolução do bluesman do Delta do Mississipi. Assumindo as rédeas como compositor, missão que antes ficava nas mãos do baixista Willie Dixon, Muddy subverte a ordem e inventa um novo rótulo para sua arte: não quer mais ser chamado de cantor de blues, e sim, de folk. Se você estiver à procura de clássicos como “Hoochie Man”, “Got my Mojo Working” e “Manish Boy”, fique com a alguma das várias coletâneas do bluesman.

ERIC CLAPTON - Crossroads
Caixa com quatro CDs que cobre a carreira do maior bluesman branco de todos os tempos do início dos anos 60 até o final dos 80. Um item de necessidade básica para qualquer fã do blues, ingrediente fundamental em qualquer gravação de Clapton. A caixa ainda traz músicas inéditas e raríssimas, praticamente impossíveis de se achar em outro lugar.