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domingo, dezembro 23, 2012

Mazelas de um quase goleiro



Paulo Caramuru, Áureo Petita e Juarezinho Tavares discutindo futebol

Massagista do Santos, de São Francisco, o estabanado Renato “Chora Viola” é um poço de sensibilidade, se enfeza com tudo e chora por qualquer bobagem, o que lhe valeu o clássico apelido.

Num jogo entre Santos e Ferroviário, no campo do Penarol, nenhum dos dois goleiros santistas apareceu.

Capitão de equipe, o volante Renan resolveu improvisar o massagista como goleiro. “Chora Viola” topou.

Na preleção inicial, quando os jogadores fazem um círculo, com cada um colocando os braços sobre os outros, todos de cabeça inclinada para o chão, ouvindo atentamente as instruções finais do capitão de equipe, Renan começou agradecendo a prestimosa colaboração de “Chora Viola”, que havia aceitado jogar como goleiro do time mesmo sem ter experiência na posição.

O quarto-zagueiro Paulo Caramuru cochichou para o meia-armador Fabinho:

– O cara que aceita jogar de goleiro sem ser goleiro ou é viado ou é doido...

Do outro lado do círculo, quase na frente do Paulo Caramuru, “Chora Viola” escutou a presepada e devolveu a bola pro quarto-zagueiro, também em forma de cochicho, para não atrapalhar a preleção de Renan:

– Eu sou doido...

Ainda cochichando pro Fabinho, Paulo Caramuru bateu de três dedos:

– Doido pra dar o cu...

Foi o suficiente. Chorando copiosamente, “Chora Viola” começou a tirar a camisa de goleiro e a xingar todo mundo:

– Tá vendo, Renan? Tá vendo, Renan? Ninguém me respeita! Já estão me chamando de viado! Eu não quero mais jogar nessa porra não! Vão se foder! Vão tomar no cu! Vão pra puta que pariu! Eu não preciso dessa merda de time não!

Foi um custo Renan convencer o massagista a entrar em campo como goleiro do time.

Depois de muita conversa, “Chora Viola” entrou em campo, fechou o arco com meia dúzia de defesas milagrosas e o Santos ganhou de 2 a zero.

Foi a primeira e última vez na vida que ele quis ser goleiro.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Pérolas musicais para celebrar o fim do mundo



Por Claudio Campos

The Gathering é uma banda holandesa de trajetória única, embora muitos grupos como eles se iniciaram também no Doom Metal e foram mudando de estilo com o passar dos anos.

No caso deles, em vez de irem para o pop ou rock progressivo, preferiram fazer uma interessante mistura de trip hop, rock alternativo e rock progressivo.

Porém, a evolução do estilo musical, coincidência ou não, ocorreu de acordo com as mudanças de vocalistas.

De início, na época em que praticavam o Doom Metal, havia vocais guturais com o vocalista Bart Smits (“Always…”,1992), depois o reforço com a primeira cantora da banda, Martine van Loon, e outro cantor, Niels Duffhuës (“Almost a Dance”, 1993), e, por fim, Anneke van Giersbergen, responsável pela popularização da banda e as influências de trip hop.

Depois dos longos anos de sucesso com Anneke (de 1995 a 2007), que saiu da banda para iniciar uma carreira solo, a difícil tarefa de substituí-la caiu nas mãos da norueguesa Silje Wergeland (ex- Sperati Octavia), que mesmo seguindo à sombra do estilo de Anneke no álbum “The West Pole” (2009), focou o estilo musical da banda com um apelo mais para o rock alternativo e progressivo.


Agora The Gathering lança “Disclosure”, segundo álbum com Silje Wergeland e décimo da discografia da banda.

Desta vez, eles conseguem trazer outras influências para o grupo – e temos uma banda se afastando cada vez mais da era Anneke van Giersbergen.

A primeira faixa é “Paper Waves”, com sua atmosfera serena e voluntariamente mais leve.

Em seguida, “Meltdown” e sua forte influência eletrônica.

No entanto, o que surpreende nesta música é que o tecladista Frank Boeijen (que escreveu a maioria das músicas) começou a cantar, dividindo o vocal com Silje.

“Heroes For Ghosts”, com seus 11 minutos, é outro destaque.

Embora um pouco arrastada, porém percebe-se acentos de Anneli Drecker (“Bel Canto”), uma pérola, provavelmente uma das obras primas do grupo.

“Missing Seasons” se destaca pelo uso de cordas (violino e violoncelo), enquanto “Gemini II” é calma e serena.

Não há mudanças radicais, e como sempre, a banda evolui lentamente.

O fato é que The Gathering não perdeu o fogo sagrado e se mantém, sem muita dificuldade, como uma das melhores bandas holandesas.

Laurel Halo contra o marasmo pop


Explorar várias modalidades da música eletrônica como o house, ambient, dub e até mesmo dream pop, é o que propõe Laurel Halo, um exemplo daqueles músicos que rejeitam a inércia que tomou conta da atual música pop e tenta mudar essa situação, criando música que além de ser um veículo de expressão pessoal, tenta proporcionar uma reflexão subjetiva.

Artistas recentes, como Oneohtrix Point Never, Tim Hecker, Andy Stott e How To Dress Well, entre outros, são alguns exemplos de gente que quer acrescentar algo novo e discursivo na música pop.

A cantora Laurel Halo se junta a eles com o lançamento de seu primeiro álbum através do selo Hyperdub.

Em “Quarantine”, Halo, de apenas 24 anos e natural de Michigan, lida com o conceito de confinamento e alienação, mas com uma rota possível de fuga da distopia atual em que vivemos e nos coloca como meros números que vivem simplesmente para o consumo.


A busca da fusão homem-máquina não é nova, porém, no geral, oferece uma perspectiva romântica em coexistência com tecnologia moderna.

“Quarantine” parece uma proposta de um novo som, uma nova trilha sonora para a ficção científica, com uma vaga sensação de que as coisas vão funcionar, eventualmente, apesar de seu som claustrofóbico a meio caminho entre o orgânico e o plástico.

Uma interação de elementos biológicos e humanos com cabos, circuitos e chips em um espaço confinado.

Um casamento perfeito entre máquina e humanos.

Até mesmo a voz de Halo é muito coerente com as intenções do disco.


As músicas “Carcass”, “Years” e “MK Ultra” (fazendo referência a um projeto secreto do governo dos EUA na década de 50 para controlar o comportamento humano através de medicamentos e métodos de tortura) são os exemplos de desconforto que o disco expele.

Por outro lado, Halo também injeta muitas passagens de sons delicados e agradáveis como a delicada e etérea introdução do álbum “Airsick”.

“Thaw” também se destaca por seu arpejo calmo, que progressivamente invade o ambiente com um colorido arsenal de brilhantes sons de lenta oscilação.

“Quarantine” é pop-art futurista, também conflituoso, ambivalente, complexo.

Ela sabe que esta é a situação em que nos encontramos e se propõe a explorá-la sonoramente.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

A molecagem parida por um octogenário atesta que o perigo mora no Congresso



Augusto Nunes, da revista Veja

O país que aplaude o Supremo pela condenação dos mensaleiros é o mesmo que elege um Congresso com cara de clube dos cafajestes, que trata a pontapés a honestidade. 

O país que promoveu Joaquim Barbosa a herói popular é o mesmo que, a cada quatro anos, ratifica a supremacia dos casos de polícia no Poder Legislativo. 

O país que admira a face clara contempla a escura com bovina mansidão. 

Decididamente, o Brasil não é para amadores.

E surpreende até quem acha que já viu tudo, informa o espetáculo do absurdo encenado na Praça dos Três Poderes. 

A sucessão de espantos chegou ao clímax nesta quarta-feira, com a molecagem arquitetada por um octogenário: foi José Sarney o pai da ideia de votar numa única sessão mais de 3 mil vetos presidenciais acumulados desde o começo do século. 

Para derrubar o veto de Dilma Rousseff que modificou a nova distribuição dos royalties do petróleo, o Congresso mais preguiçoso do mundo resolveu fazer em algumas horas o que não fez durante 12 anos.

Os gerentes da Casa do Espanto e da Mansão dos Horrores primeiro tentaram furar a fila. 

Barrados pela liminar do ministro Luiz Fux que proibiu a esperteza inconstitucional, Sarney sucumbiu a um ligeiro surto de coragem. 

“A decisão usurpa prerrogativa do Poder Legislativo e o deixa de joelhos frente a outro Poder”, protestou no recurso encaminhado ao STF. 

Como se o Congresso não estivesse de joelhos diante do Executivo desde que foi amestrado por Lula. 

Como se não vivesse de quatro para os próprios interesses corporativistas.

Por saber disso, Sarney voltou no mesmo dia ao estado normal. 

Em vez de desafiar o Supremo, preferiu torturar a lógica, estuprar a sensatez e enterrar 3 mil vetos na mesma cova rasa. 

O cansaço chegou antes do começo do trabalho. 

Exauridos pela fabricação de tantas pilantragens em tempo tão curto, o chefão do Senado e Marco Maia, presidente da Câmara, resolveram armazenar energias para as festas do fim do ano. 

Fechado o picadeiro, a noite no circo ficou para 2013.

“Temos o vício insanável da amizade”, ensinou em fevereiro de 2009 o deputado Edmar Moreira, dono de um castelo de R$ 20 milhões que escondeu na roça para escapar do imposto de renda. 

Esse vício explica, por exemplo, a resistência do presidente da Câmara, Marco Maia, à cassação dos mandatos dos deputados condenados no julgamento do mensalão. 

Também ajuda a entender por que tramitam no Legislativo tantos projetos concebidos para suprimir poderes e amputar atribuições do Supremo ou do Ministério Público. 

Um deles proíbe promotores de Justiça e procuradores de contribuírem para o esclarecimento de crimes e a identificação dos culpados.

Há outros vícios, favorecidos pela erradicação da vergonha consumada por todos os partidos. 

Nesta terça-feira, por exemplo, o sepultamento da CPI do Cachoeira foi o desfecho de uma missa negra celebrada em conjunto por sacerdotes companheiros, aliados e oposicionistas. 

O PT conseguiu livrar do relatório final o governador Agnelo Queiroz. 

O PMDB,  interessado em proteger a Construtora Delta e o governador Sérgio Cabral, juntou-se ao PSDB, decidido a resgatar o governador Marconi Perillo, para rejeitar o papelório produzido pelo relator Odair Cunha. 

Os três partidos logo estarão de mãos dadas para instalar Renan Calheiros na presidência do Senado.

A desfaçatez do Legislativo, que age de mãos dadas com o Executivo, ameaça o equilíbrio entre os Poderes que o Judiciário tenta preservar. 

Os inimigos do Estado Democrático de Direito estão cada vez mais atrevidos. 

Para eles, o perigo mora no Supremo. 

Para quem vê as coisas como as coisas são, o perigo está acampado em instituições controladas por figuras e partidos que se julgam acima e à margem da lei.

Graças ao julgamento do mensalão, o ano terminou com a derrota dos carrascos da verdade, castigados nesta quarta-feira por outra má notícia: o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu ao STF a imediata prisão dos condenados.  

“Em 2013, o bicho vai pegar”, miou Gilberto Carvalho em nome dos vilões que querem mudar o fim do filme. 

É bom que venham preparados. 

O Brasil decente vai reaprendendo a vencer.

Guerra e a Guerra dos Sexos



O eterno playboy Odivaldo Guerra e seu carango da hora
  
Localizada na Rua Parintins, a Vila Aurora era uma espécie de cabeça-de-porco pertencente à dona Domingas, mãe da Dorinha, e onde moravam os homeboys Nonato Índio, Fátima Morcego, Zena e Ruth.

Meus primos Rubem e Maria José Pessoa também moraram lá durante algum tempo.

Salvo engano, eram quatro conjugados (sala-quarto-banheiro), dois de um lado, dois do outro, separados por um pequeno corredor, que terminava em um bonito terreiro na frente de uma casa magnífica, esta pertencente à proprietária da vila.

Um belo dia, alguns dos homossexuais mais conhecidos da cidade (Pelé, Astrid, Baleia, Arroz, Mococa, Chiquinha, etc.) foram morar na referida cabeça-de-porco.

Discretos, educadíssimos, solidários, eles não aprontavam nenhum tipo de escândalos e eram tratados com civilidade pelos vizinhos.

Só soltavam a franga quando viam aqueles saudáveis adolescentes disputando animadas partidas de futebol no meio da rua.

De repente, eles começaram a deixar seus afazeres de lado para assistir às nossas partida e, evidentemente, se apaixonaram por alguns atletas.

Pelé ficou louco pelo Mário Adolfo. O Astrid queria namorar comigo. Baleia era fissurada pelo Chico Porrada. Mococa morria de amores pelo Luiz Lobão. Chiquinha paquerava o Heraldo Cacau. Arroz, o mais bonito de todos, paquerava o Rubens Bentes.

Sou capaz de jurar sobre a Bíblia que eu e Mário Adolfo fomos os únicos a não chegar às vias do fato.


Bosco Fonseca (“Arroz”) e Luiz Gaudêncio (“Mococa”), como destaques da Tribo dos Andirás

Alguns meses depois, o playboy Odivaldo Guerra chegou à sua casa no começo da noite e soube pela sua irmã que um dos boiolas da Vila Aurora havia ofendido sua sobrinha Hedy Lamar, na época uma moleca de 12 anos.

Para provocar ciúmes em uma das bichas, um dos bofes da casa soltou meia dúzia de gracejos para Hedy Lamar e outras duas garotas da mesma idade.

As três molecas estavam conversando alegremente em um banco de madeira do outro lado da rua e nem deram atenção aos gracejos do bofe.

A bicha, entretanto, rodou a baiana.

Ela foi pro meio da rua e, dirigindo-se às três infantes, pagou geral:

– Vocês não tem o que fazer não, suas putinhas safadas! Querendo tomar o meu marido?! Vão rodar a bolsinha na Rua Itamaracá, suas piranhas de uma figa, que esse macho aqui já tem dono! Não estou dizendo...

As três garotas entraram na casa da Hedy Lamar em pânico e aos prantos, por terem sido espicaçadas daquele jeito sem terem feito absolutamente nada.


Bia Leite e Hedy Lamar vestidas pra matar, em um baile de carnaval, em 1982

Aos 33 anos, corpo atlético, versado em judô e jiu-jitsu, campeão de natação e abatedor de lebres em tempo integral, o eterno playboy da Cachoeirinha era uma flor de pessoa, mas se transformava em um homicida qualificado quando alguém pisava nos seus calos.

Ofender sua sobrinha favorita, por exemplo, era como se alguém tivesse feito a ele um requerimento protocolado em três vias para ser trucidado em praça pública.

Assim que ficou sabendo da história, Guerra estacionou sua Vespa azul anil, entrou em casa e apanhou um cabo de embreagem, que ele havia encastroado uma das pontas para se transformar em empunhadura e desfiado a metade da outra ponta para parecer um chicote de açoite.

Ele enfiou a arma em uma das mãos, atravessou a rua e começou a bater na porta do primeiro conjugado.

– Para de bater na porta que eu estou ocupada, ignorante! – berrou uma voz afetadíssima, de dentro da casa.

O eterno playboy não pensou duas vezes.

– Bando de baitolas, aqui quem fala é o Guerra. Eu vou entrar aí dentro e ensinar vocês a respeitarem as mulheres da Cachoeirinha! – vociferou.


Dito isso, ele meteu o pé na porta, que, com a violência, foi bater do outro lado da parede, derrubando mesinha de centro, ventilador, televisão, petisqueira, bibelôs, o diabo a quatro.

A bicharada entrou em pânico.

O primeiro baitola a tentar sair correndo da casa foi a esquelética Baleia.

Levou uma lambada de cabo de aço no meio das costas e deu um grito tão medonho que acordou metade do bairro.

Enquanto Baleia se contorcia de dor no meio da rua, dando gritos lancinantes que prenunciavam o fim do mundo, Guerra entrou na casa para terminar o serviço.

Cada lambada que ele desferia alguém uivava de dor e caía no chão, se contorcendo feito um pião “cangula” e berrando todos os palavrões imagináveis e inimagináveis contra aquele verdugo sanguinário.

O pandemônio se instalou no conjugado.

Bichas e bofes tentavam sair pelas janelas, mas eram abatidos em pleno voo pelo implacável Odivaldo Guerra.

Em menos de dez minutos, o conjugado parecia ter sido vítima de um tsunami, com dezenas de corpos estendidos no chão aguardando angustiadamente pelo tiro de misericórdia.

Antes de se retirar para sua residência, o eterno playboy deu um ultimato:

– Amanhã à noite eu vou voltar aqui. Se encontrar ainda um de vocês, eu vou repetir a dose!

Naquela mesma madrugada, as bichas e os bofes embalaram seus teréns e tomaram rumo incerto e não sabido.

Os adolescentes da Rua Parintins perderam seus torcedores mais animados.

terça-feira, dezembro 18, 2012

O dia em que Manaus foi Liverpool



Por Mário Adolfo

Liverpool – “Daqui em diante, nada de fotografias”, avisa o sorridente guia Collins Roll, um inglês sorridente que quando descobre que somos do Brasil ergue os pinhos e grita “Neymar”.

Depois do aviso, ele abre lentamente os portões de ferro da casa da Menlove Avenue, em Woolton, o bairro de classe média de Liverpool.

Você pode não acreditar, mas um grupo de nove emocionados amazonense estão entrando na casa de John Lennon, o ousado, carismático e imortal líder da banda The Beatles, que fez uma revolução no mundo sem disparar um tiro.
  
Depois de voar de Manaus para São Paulo, de São Paulo para Roma e de Roma para  Londres,  numa viagem de quase 18 horas, seguimos de trem para Liverpool, uma cidade portuária do noroeste da Inglaterra, que, graças ao seu porto foi considerada no passado “mais dinâmica que Londres”.

O dia é 9 de novembro de 2012. São 11hs da manhã e o termômetro registra 5ºC.


Eu, minha namorada Maria Raposo, meus filhos Mário Adolfo Filho, com sua mulher Mônica Mota, Marcus Vinícius Aryce, com sua namorada Natasha Omena, Adna Raposo, que viaja em companhia do filho Rafael Valentim e sua namorada Lívia somos levados por uma Van ao endereço famoso da Menlove Avenue.

Sir Collins explica que na simpática casa, Lennon foi criado por tia Mimi , irmã de Júlia, a mãe de John que resolveu não ficar com o filho porque seu novo namorado, Dicks, não aceitava o garoto.

O pai de John, Alfredo “Freddy” Lennon havia se separado de Júlia e desaparecido em Nova Zelândia.

Mimi, autoritária e conservadora tentou moldar John ao seu modo, com uma rígida educação, mas não conseguiu.

Quando Paul McCartney, ainda adolescente visitou o futuro parceiro, Mimi o obrigou a entrar pelas portas dos fundos, porque ele era filho de operários.


Ao abrir os portões, Collins comenta para os amazonenses.

– Para não contrariar Mimi, esteja ele onde estiver, vamos entrar também pelos fundos – avisa o guia, nos mostrando logo em seguida o muro que separava o quintal da casa do reformatório Strawberry Fields, para onde John Lennon pulava e passava horas brincando com os garotos nos jardins internos do antigo internato do Exército da Salvação.

Mais tarde, já famoso, o beatle reviveu esse tempo compondo a música autobiográfica em que recorda o tempo de infância, dando-lhe o  nome de “Strawberry Fields Forever”.

Encantados com a narraiva de Collins Call – que é traduziada simultaneamente por Rafael, Marcus e Mário –, estamos no interior da casa de Mimi.

Foi aqui, entre essas paredes, no sofá da sala, que John e Paul compuseram algumas de suas canções famosas, entre elas “Love Me Do”.

Foi aqui também que certa vez Tia Mimi jogou fora os poemas de John.

Revoltado, ele apenas responde que “um dia vou ser famoso e você vai se arrepender por ter feito isso”.

Foi ainda nesta casa que Lennon viu sua mãe Júlia retornar a seu convívio depois que ela se mudou para uma casa perto da casa de Mimi.

É ela que ensina o filho a tocar violão.

Mas, em 15 de julho de 1958, Júlia morre atropelada por um carro de um policial bêbado.

A partir daí John passa a adotar um comportamento rebelde e amargo.


No segundo andar, sir Collins nos apresenta o quarto de John.

Ainda estão colados nas paredes posters de Brigite Bardot e de Elvis Presley.

Sob a cama, rabiscos de desenhos e letras de poemas, que (a história agradece) não foram destruídos por Mimi.

Certa vez, acompanhado de Yoko Ono, Jonh parou o carro em frente à casa de sua infância.

Depois de contemplar o cenário de sua infância, disse à mulher: “Minha casa era aquela, mas não sei se anda posso entrar, pois ela não é mais nossa”.

Ano depois que o marido foi assassinado, em Nova York no dia 8 de dezembro de 1980, Yoko comprou a casa e doou para a National Trust, para que ela a explorasse turisticamente.

Revivendo a saga mítica dos 4 garotos de Liverpool


Naquele mesmo dia, o grupo de Manaus visitaria ainda a casa de Paul McCartney, localizada no 20 Forthlin Road, um bairro pobre habitado pela classe operária de Liverpool.

O pai de Paul, Jim McCartney, era um vendedor de algodão e a mãe, Mary, uma enfermeira. 

“Eu sempre pensei que Paul fosse de classe média alta, e John e menos favorecido socialmente”, comenta Adna Raposo, ao receber uma cópia em português com o resumo da infância de Paul na casa de Forthlin Road.

De acordo com a guia Myriam Roll (mulher de Collins), da National Trust, que hoje administra a casa, a antiga moradia do clã McCartney é a única que mantém as mesmas características de quando o beatle morou lá, entre 1955 e 1963.
  
Ao entramos na casa, vamos observando aos poucos vários detalhes da infância de Paul, fotos expostas sobre os móveis, ou em pequenos quadros de parede, instrumentos musicais, como piano e saxofone, já que os McCartney sempre foram muito ligados à música.

Conta Myriam Roll que Paul guarda belas e amargas lembranças da casa de sua infância.

Conta a guia que ali ele aprendeu a tocar os primeiros instrumentos, compôs a primeira música e viveu a sua primeira grande dor.

Aos 14 anos de idade, perdeu a mãe repentinamente, vítima de câncer.

Na lápide de Eleanor Rigby


Paul costuma visitar a casa quando está em Liverpool.

Certa vez, relata a nossa guia, foi convidado por um produtor para fazer umas fotos no local, mas reagiu:

– Não gosto de ir lá, A casa vive sendo visitada por turistas e quando eu chego gera o maior tumulto, querem autógrafos, fotos... Melhor não!

Mesmo assim o ex-beatle parou o carro com os vidros fechados a poucos metros da casa e ficou observando.

Logo um homem de meia idade bateu no vidro.

– Viu só, ele vai bem querer um autógrafo! – disse Paul, baixando os vidros.

O homem se inclina na janela e pergunta:

 – O senhor quer saber onde ele morava? É bem ali!

Às 14h30m, já sob o comando de uma terceira guia, Jackie Stencer, os beatlemaníacos amazonenses percorrem outro lugares históricos as saga mítica dos quatro rapazes de Liverpool: a histórica Penny  Lane, a rua famosa que inspirou a canção que fala sobre as coisas e as pessoas do lugar que marcaram a vida dos Beatles; a igreja de St. Peter, onde, no dia 6 de junho de 1956, Paul McCartney foi apresentado a John e ouviu pela primeira vez a banda The Quarrymen tocar; e, pasmem, estivemos no túmulo de “Eleanor Rigby”, a morta desconhecida que inspirou a canção de Paul.

A lápide com o nome Eleanor Rigby também está na lápide que aparece no clip “Free As A Bird”, conta a guia provado o que diz com a ajuda de um tablet mostrando o filme.

Uma noite no Cavern Club


O roteiro dos manauaras por Liverpool foi fechado com chave de ouro.

Uma noitada no The  Cavern Club, o lendário pub que registrou os primeiros passos da maior banda de todos os tempos – The Beatles.

Ali, entre junho e agosto, a banda tocou 30 vezes, fazendo até dois shows por dia.

Ao entrar no Cavern é quase impossível não sentir o mesmo que sentiu Brian Epstein, o empresário que assistiu os Beatles pela primeira vez em 9 de novembro de 1961, tocando naquele palco apertado .

“O interior do clube era escuro feito um túmulo, frio, úmido e malcheiroso”, relembrou o empresário.

De qualquer forma estamos no lugar histórico onde pisaram John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr.

O pub foi aberto em 1957, mas entrou para a história apenas em 1961, quando os Beatles ali fizeram uma primeira apresentação e acabaram por se tornar uma das bandas da casa.


Depois de descer dois lances de escadas, finalmente estamos diante do palco histórico e de vitrines que exibem a bateria de Ringo, a guitarra de John e George e o famoso contrabaixo de Paul.

Como não foram apenas os quatro que fizeram sucesso no Cavern, também podemos observar fotos de outros astros do rock, como Jimi Hendrix, Fred Mercury e Eric Clapton. 

Com o preço da cerveja a 2,5 libras, a aventura na casa dos Beatles acaba se tornando uma longa jornada noite adentro.

Para alegria de todos nós, beatlemaníacos, bandas cover se revezam no palco, nos transportando para a época que inspirou e influenciou os garotos de Liverpool. 









segunda-feira, dezembro 17, 2012

Samba, conversa fiada e cerveja



No último sábado, o advogado Juarezinho Tavares abriu as portas de sua mansão para uma nova sessão de biritagem homérica a partir do meio dia.

Abstêmio convicto há 12 anos, Juarezinho agora se diverte fazendo seus parceiros se encharcarem de álcool e apostando em quanto tempo um deles vai começar a pagar o maior mico tentando filosofar em alemão.

Para evitar surpresas desagradáveis, Juarezinho comprou duas grades de Antarctica e duas grades de Brahma e convidou somente 20 parceiros (dez da velha Cachoeirinha no time da Antarctica e dez da Amazonas Energia no time da Brahma) para uma animada disputa etílica.

Como soe acontecer nessas ocasiões, só compareceram ao evento metade dos cachorros.

Pior para os faltosos, que deixaram de detonar alguns pratos fantásticos como bobó de camarão, pato no tucupi, galinha à cabidela, salada russa com caviar Beluga, salada verde, arroz carreteiro, feijão tropeiro e um sem-número de assados (picanha, maminha, fraldinha, costelas, contrafilé, bisteca e coração de frango).

O Juarezinho é abusado.


Honrando as tradições da velha Cachoeirinha, Simas Pessoa, João Ricardo, Áureo Petita, Sici Pirangy (que deu uma de carapanã: encheu, voou), Odivaldo Guerra e esse vosso escriba.

O Careca Selvagem ainda reforçou o nosso esquadrão de aço com seus dois filhos, Samis Gabriel e Ícaro Michel, mas, desgraçadamente, os dois safados não bebem.

Pelo time da Amazonas Energia perfilaram-se Paulo Caramuru, Oswaldo Bustamante (acompanhado da esposa, a lovely Ruth Miranda), Sildomar, Abrahão e Hamilton.

O eterno playboy Odivaldo Guerra havia chegado de Vitória (ES) no dia anterior, onde passara 20 dias em companhia do seu casal de filhos para fazer uma pequena cirurgia nos olhos (bem-sucedida, diga-se de passagem), de forma que ele acabou se transformando involuntariamente no centro das atenções.


Além disso, seu exuberante sapato metrossexual virou objeto de culto de alguns parceiros que teimam em não sair do armário.

Engenheiro de segurança da Amazonas Energia, o peruano Oswaldo Bustamante garantiu que o Corinthians seria campeão mundial de clubes com um gol do peruano Guerreiro.

Como ele acertou sua previsão na mosca, estou tentando convencê-lo a me dizer os números da “Mega-Sena da Virada”, já que pretendo passar meu próximo aniversário em Macchu Picchu.

Lá pelas tantas, Odivaldo Guerra contou o real motivo de nossos festivos torcedores de adolescência (os homossexuais Baleia, Pelé, Astrid, Mococa, Paulete, etc.) terem abandonado às pressas a Vila Aurora, da dona Domingas, no começo dos anos 70.

Relato a presepada qualquer dia.

Aliás, assim que eu colocar um ponto final no livro “No Tempo das Diligências”, vou começar a escrever a biografia não-autorizada do eterno playboy da Cachoeirinha.

Aos 75 anos, mas com um corpinho de 60, o Odivaldo Guerra deve ter muito o que contar.

Resultado do placar final às 21h, quando resolvi tirar o time de campo: 48 garrafas de Antarctica detonadas contra 15 garrafas de Brahma.

Em termos de birita, esse pessoal da Amazonas Energia não está com porra nenhuma.

Deve ser por isso que continuam acontecendo “apagões” na cidade toda vez que há ameaça de chuva.

Abaixo, algumas fotos do panavueiro:















domingo, dezembro 16, 2012

Notting Hillbillies, já ouviram falar?



Ele tardou, mas não falhou. Foi só em meados de 77, prestes a completar 28 anos de idade, que o ex-crítico musical e professor de literatura Mark Knopfler registrou em uma fita demo os primeiros trabalhos dos Dire Straits – grupo formado por ele e seu irmão David nas guitarras, John lllsley no baixo e Pick Withers na bateria.

A repercussão destas gravações não demorou a acontecer, com a banda sendo convidada no ano seguinte para abrir a tour europeia dos Talking Heads e, logo em seguida, apresentar seu álbum de estreia homônimo (o primeiro de uma série de campeões de vendagem, encabeçado pelo hit marca registrada do grupo, “Sultans Of Swing”).

A fórmula do sucesso era simples, mas eficaz: uma base instrumental de country music com sutis inclinações para o rock’n’roll servia de moldura para os riffs e solos cristalinos da guitarra de Mark – herdeira direta do som de J.J. Cale –, em constante diálogo com seus vocais dylanescos.

O segundo álbum dos Straits, “Communiqué” (79), seguiu a mesma trajetória vitoriosa do anterior e consolidou a reputação do grupo como uma grande promessa para os anos 80.

Mas as coisas não iam tão bem como pareciam e, ainda durante as sessões de gravação do LP “Making Movies” (80), David Knopfler abandonou a banda, no que foi logo seguido pelo baterista Withers.

O esfacelamento da formação original dos Straits não aparentava, a princípio, ter importância maior, mas a longo prazo mostrou-se letal para a verve criativa do grupo.

Recrutando outros músicos e dando mais espaço para os teclados nos shows e discos posteriores, Mark sofisticou a música dos Straits, mas ao mesmo tempo matou aquilo que os primeiros trabalhos da banda tinham de mais precioso: a espontaneidade.

Foi talvez em busca dessa qualidade perdida que Mark mergulhou de cabeça no projeto dos Notting Hillbillies.

Depois da incrível projeção alcançada pelos Straits, do longo hiato que se sucedeu ao último LP da banda, “Brothers In Arms” (85), e de suas incursões pela música cinematográfica, nada mais justo que ele tentasse voltar à simplicidade e à magia das seis cordas de guitarras e violões.

Foi o que ele começou a fazer com Brendan Croker, Steve Phillips e o dire strait Guy Fletcher nos Notting Hillbillies.


Nessa entrevista, distribuída feito release pela Polygram, em agosto de 1990, Mark Knopfler e Brendan Croker falaram a respeito do novo grupo.

Como foi que os Notting Hillbillies surgiram?

Mark Knopfler – O que aconteceu é que eu ia produzir um disco do Steve (Phillips). Logo depois, ele estava pensando numa parceria com Brendan (Croker), o que me agradou muito porque nessa época eu já estava totalmente encantado pelo trabalho da banda de Brendan, The Five O’Clock Shadows – até tocava com eles de vez em quando. Ao mesmo tempo, Guy (Fletcher) e eu vínhamos trabalhando em trilhas sonoras como “The Last Exit To Brooklin” e, mais recentemente, num álbum com músicas de Chet Atkins. Tivemos essa ideia de fazer um disco com Steve e Brendan, começamos a discutir ideias e acabamos rapidamente nos transformando numa pequena banda. Passamos de dois para quatro, pois no fim também decidi tocar e, é claro, tivemos a enorme colaboração de Guy em todos os teclados, Synclavier e bateria eletrônica. Assim, todos participaram e interferiram no disco.

Brendan Croker – Isto foi um ponto-chave.

O álbum foi todo gravado em Londres?

Mark – Todo, a não ser a pedal steel.

Brendan – Ela foi gravada em Nashville, por Paul Franklin.

Quem é ele?

Mark – Foi Chet Atkins que me apresentou a ele. Paul é muito bom e eu sabia que daria certo. Queria um som de pedal steel em grande parte do material e ele se revelou também uma pessoa muito legal. Vai fazer parte do grupo e excursionar conosco.

E quanto ao repertório?

Mark – Nós passamos tanto tempo com outros projetos que, ao fazer esse disco, nos pareceu natural que quiséssemos incluir nossas músicas nele. Mas também tentamos fazer algo com certas coisas que nunca receberam a devida atenção...  Coisas dos anos 20,30 e 40. Nunca quis me prender a reconstituir estas melodias como eram originariamente. Este nunca foi o meu estilo e Brendan não é assim também. Jogamos uma influência diferente ali, marimbas mais adiante, o que sentíssemos que havia necessidade... Outra coisa boa é que o disco foi gravado em etapas. Eu saía para fazer outras coisas, Steve e Brendan partiam em turnê e depois voltávamos para escutar mais algum material com Guy. Em vez de usarmos só três semanas, isso levou meses!

Brendan – Acho que ao todo uns dezoito meses.

Quando a banda começou a tocar?

Brendan – Ah! Eu me lembro do dia... Foi no aniversário da Corinne, não foi? 

Mark – Isso mesmo.

Brendan – A filha do Steve. Ele tinha acabado de voltar para casa e pensamos: “Que boa desculpa para estarmos reunidos!” Então organizamos esse pequeno evento. Cada um trouxe seu equipamento, carregamos aquelas caixas de som, e nós dois, sendo de Yorkshire, cobramos entrada de todo mundo, lembra? Afinal, não íamos deixar ninguém entrar de graça só porque era aniversário da Corinne.

Mark (sério) – Não sei nada sobre isso, Bren...

Brendan – Você ganhou 22 libras e gastou tudo em cerveja! (Risos).

E quanto ao Steve? Quando vocês o conheceram?

Mark – Eu era e sou um fã de country blues. E Steve estava tocando num pub, pensei: “Isso é para mim!” Acabei conhecendo-o, não sei como, não me lembro... Simplesmente nos ligamos quase que imediatamente.

Brendan – Eu vou contar praticamente a mesma história que você. Me mudei para Leeds para fazer um trabalho sobre estradas de ferro. Um dia, fui a um show. E lá estava aquele cara tocando alucinadamente. Era o Steve Phillips. Quando eu o vi naquela época, ele era o líder da Juke Band, que é uma das melhores bandas rockabilly que já vi. Tinham o maior swing, lembra Mark?

Mark – É... Mais tarde Steve teve uma banda rockabilly fantástica, eram só três integrantes, mas era ótima.

Vocês já haviam feito um trabalho nesse estilo, não é?

Mark – Sim, fazíamos, embora eu não tocasse muito, estava mais ligado ao blues e R&B, um som mais elétrico. Depois, Steve e eu formamos uma dupla acústica chamada The Duolian String Pickers. O nome era tirado de uma marca de violão do tipo National, o Duolian. Para nós, o National sempre foi uma coisa meio mágica, sempre associado basicamente ao blues e à country music. Nessa última, o equivalente ao National é o dobro – um violão de madeira que tem um ressonador de metal, aquela coisa circular que você vê. Mas a maioria do pessoal que toca nas ruas usa o National, pois o ressonador joga o som para fora e você pode usá-lo com um bottleneck, um tubo de metal, ou mesmo tocá-lo deitado sobre os joelhos, no estilo havaiano.

E sobre suas músicas gravadas pelo pessoal da country music?

Mark – Algumas coisas que compus foram gravadas pelo pessoal de Nashville, The Judds e Waylon Jennings e por aí afora... Chet Atkins e os Everly Brothers gravaram coisas minhas, mas eles não gravariam “Tunnel Of Love” ou “Sultans Of Swing”, nem fariam “Money For Nothing”. Mas tem algumas músicas que compus que eles fariam e “Your Own Sweet Way” parece ser o tipo de música que eles poderiam gravar. E achei que também funcionava com o Hillbillies. Até o Dire Straits poderia fazê-lo. Posso fazer com que a banda a grave sem qualquer problema, e provavelmente vamos fazê-lo. Mas tenho certeza de que quando acabarmos com ela, no Dire Straits, será uma coisa totalmente diferente. 
 
Como vocês definem o som do Notting Hillbillies?

Mark – São companheiros curtindo uns aos outros. Não é estritamente a reconstrução de material antigo. O que queremos na música, encaixamos. Assim, algumas coisas soam como tradicionais, porque achamos que era a melhor maneira de fazer tais músicas. Mas não é uma banda ligada a raízes. Os puristas não vão gostar muito do que fazemos. Não é uma banda hillbilly (caipira). Não tem banjo, bandolim, nem rabeca.


NOTA DO EDITOR DO MOCÓ:

Os Notting Hillbillies gravaram apenas um disco, o desbundante “Missing Presumed Having A Good Time”. Em compensação, de lá pra cá, Mark Knopfler lançou uma dúzia de discos ducarálio entre os quais destaco “Golden Heart”, “The Princess Bride”, “Sailing To Philadelphia”, “Wag The Dog”, “The Ragpicker’s Dream” e “Shangri-La”. Sem contar que o disco duplo “The Twelfth Night”, fruto do encontro dele com Eric Clapton, tem uma das mais invocadas versões de “I Shot The Sheriff” que já ouvi na vida.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Nunca fomos tão japoneses



Por Maurício Melo Junior

Fui a um show de Caetano Veloso. No final, na hora do bis, ele veio vindo em direção à plateia, cantando Força Estranha à capela, quando, não mais que de repente, termina o palco e ele despenca. Com uma agilidade impressionante, cai em pé, tomba, mas logo levanta e segue cantando sob o aplauso encantado do público.

Passado o susto, Caetano volta ao palco, aos bastidores.

E assim findou o espetáculo.

Deixe o teatro e voltei para casa, não gastando mais que meia hora.  Nem bem abri a porta já meu filho veio saber como tinha sido a queda de Caetano.

- Como você já sabe disso?

- Acabei de ver as imagens na internet.

Não que eu seja do tempo em que as notícias acontecidas no Rio de Janeiro somente chegavam ao Recife no dia seguinte, via aérea. Quando me dei conta de assistir telejornais já a modernidade havia inventado as transmissões via satélite. Mesmo assim me surpreendo com as urgências da contemporaneidade. 

E surpresa maior é com o vício hodierno de transformar tudo em imagem e logo postar em redes sociais, blogs, youtube, o escambau. Já quase ninguém assiste, mas filma e fotografa espetáculos. E de nada adianta um locutor de voz empostada alertar que é proibido filmar e fotografar, sempre há uns viciados incuráveis.

O fato é que nos transformamos numa imensa gama de japoneses com pequenas máquinas filmadoras e fotográficas à tiracolo.

E assim já não conseguimos viver longe de instrumentos simplesmente impensáveis há alguns anos. A internet virou gênero de primeira necessidade e parece que, paradoxalmente, somente aumentou a incomunicabilidade das gentes. Todos falam de si e pouca importância dá aos outros. Crescemos hoje à sombra imensa do individualismo, um fenômeno que remonta há séculos, mas que ganhou dimensões imensuráveis.

Outro dia, no café da manhã de um hotel, ainda antes das sete horas, uma senhora desancava o estabelecimento. Acontecera um absurdo. Ela ficara até uma hora da madrugada navegando por seus sites preferidos, mas ao acordar, pouco antes das seis, já a internet não funcionava. E ela estava ali, àquela hora, sem ler seus e-mails, sem ler seus jornais, sem fazer sei lá o quê mais.

E já não adiante fugir para os sertões, onde quer que estejamos nos seguem uma multidão virtual.

Jessier Quirino foi vítima disso.

Estava passando por um cafundó nas brenhas mais profundas do Ceará quando foi reconhecido. “O senhor não é o poeta Jessier?”, quis saber um matuto. “Sou eu mesmo”, respondeu o poeta. “Posso fazer uma foto com o senhor?”, “Pode sim, amigo.” E o cabra sacou o celular e se fez fotografar com o ídolo. Examinou o produto e sentenciou: “Ficou muito boa. Vou botar no seu Orkut.” Rápido no gatilho, Jessier saltou de lado: “Bote no seu, cabra, no meu você não vai botar porra nenhuma.”

Hoje um amigo me disse que o Orkut envelheceu, está quase desativado. Parafraseando Caetano Veloso, neste espaço tudo se constrói e já é ruína. Ainda ontem houve uma febre das salas de bate-papo que eram uma inovação de um antigo disk-amizade.

Esta forma arcaica de comunicação dava mais trabalho e era mais caro, afinal o cristão tinha que pegar o telefone, discar um certo número e esperar encontrar pessoas com quem conversar. Naturalmente que isso nem sempre dava certo.

Luiz Berto, convidado a flanar pelos Estados Unidos, resolveu testar o próprio inglês. Ligou para um disk-amizade onde somente se falava igualzinho a Frank Sinatra. Havia um casal conversando e nosso papa entrou na prosa, mas disse apenas uma frase. Foi o que bastou. 

No outro lado da linha o cidadão, em claro português, rebateu: “Fulana, vamos desligar que entrou um Paraíba na linha.” Perdendo sua sacrossanta calma papal Berto bradou: “Paraíba é a puta que o pariu!!!” E nunca mais se arriscou nestas aventuras telefônicas.

Agora até o telefone está se tornando obsoleto. Eu mesmo me enchi de dúvidas diante de uma atendente no balcão de uma telefônica. Precisava trocar meu aparelho celular e parei na primeira pergunta da moça: “O que o senhor espera de um celular?” 

Bom eu achei que ele somente servia para fazer e receber ligação telefônica, mas, diante de tanta modernidade, o bicho talvez seja uma espécie de Osmar Cardoso e eu é que sou mesmo desatualizado.   

O certo é que olhamos as telas plenas de símbolos e signos enquanto a vida, sempre sábia, continua passando sob nossa janela de Maria Antonieta, aquela rainha francesa que perdeu o pescoço ao escrever em seu diário que não acontecera nada em toda França. 

Era 14 de julho de 1789, os revoltosos estavam nas ruas, tinham tomado a Bastilha e iniciado a famosa revolução.

Antenado mesmo me parece ser um cidadão carioca que no Aeroporto Santos Dumont cuida de distribuir as malas no balcão de uma companhia aérea. Involuntariamente ouvi sua conversa com um colega de ofício.

- Cara, essas meninas estão muito por fora. Ontem, num boteco, uma delas me pediu o número do celular. Tive que botá-la no esquema: O que é isso, gata? Me acha no Face.

Modernidade é isso aí.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

A Paixão de Ajuricaba



Maio de 1997. Poucos meses depois de fazer bonito na reeleição, em que entregou dezenove votos para ajudar o governo a aprovar a emenda que permitiu a Fernando Henrique Cardoso disputar um segundo mandato em 1998, o governador Amazonino Mendes viajou para a Ucrânia.

Oficialmente, ele ia observar de perto as usinas movidas a gás existentes naquele país para, posteriormente, fazer um acordo de tecnologia visando à reconversão das usinas termelétricas de Manaus para aproveitamento do gás de Urucum.

Na realidade, Amazonino estava fugindo dos holofotes da mídia depois de ter aparecido como homem da mala no balcão da reeleição, apontado por dois deputados acreanos (João Maia e Ronivon Santiago) que venderam seus votos por R$ 200 mil, conforme matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo.

Durante uma parada técnica em Estocolmo, na Suécia, o governador ficou impressionado com a versatilidade de um militar aposentado chamado Climério Johansson, encarregado pela embaixada brasileira de ser o intérprete da delegação amazonense na terra dos vikings.

Quando partiu para a Ucrânia, Climério já havia sido incorporado à comitiva do governador como Assessor Estratégico de Assuntos Internacionais, em virtude de falar fluentemente inglês, francês, alemão, espanhol, eslavo, sueco, finlandês, russo, mandarim, japonês e javanês.

De volta a Manaus, o versátil Climério Johansson se transformou no assessor mais poderoso do governador Amazonino Mendes, despertando uma ciumeira geral no resto do secretariado (aliás, o Negão sempre incentivou alegremente esse fogo amigo em todas as suas administrações).


Um dia, Climério chamou a Manaus o artista plástico parintinense Jair Mendes e lhe incumbiu de fazer o projeto de uma estátua gigantesca do índio Ajuricaba, para ser erguida exatamente no Encontro das Águas.

Única exigência de Climério: a estátua teria que ser vista tanto da frente da Ponta Negra quanto da frente do Careiro da Várzea.

Jair Mendes e mais seis artesãos parintinenses passaram um mês fazendo cálculos de todo tipo até concluírem que, para cobrir aquele imenso campo visual, o Ajuricaba precisaria ter uma altura mínima de 48 metros (para simples comparação, o Cristo Redentor tem 28 m).

Eles levaram dois meses para esculpir em madeira uma belíssima réplica da estátua com 1,60 m (na proporção 30 pra 1) e mostraram o trabalho para Climério.

O Assessor Estratégico de Assuntos Internacionais vibrou como um menino: aquele era o mais fabuloso Ajuricaba que ele já havia visto ao longo dos seus 65 anos de existência.

Climério, Jair Mendes e os demais artesãos cobriram a réplica com tecido negro e resolveram fazer uma surpresa para o governador Amazonino Mendes.

Na época, o governador morava na mansão do empresário Otávio Raman, na estrada do Cetur, lá pras bandas do Tarumã.

Quando chegaram a casa, perceberam que Amazonino Mendes estava fazendo a sesta pós-almoço, deitado confortavelmente em uma rede de casal.

Meia dúzia de aspones se distraía espantando os insetos voadores que teimavam em atrapalhar o merecido descanso do Negão.

Pacientemente, Climério e sua turma esperaram o governador acordar.

Duas horas depois, Amazonino abriu os olhos e não entendeu que diabos estava fazendo ali ao lado aquele bizarro embrulho de tecido negro.

Climério entrou macio:

– Meu governador, o senhor se lembra daquele seu sonho recorrente de fazer um monumento ao índio Ajuricaba exatamente no Encontro das Águas?...

Antes que o governador abrisse a boca, Climério já foi dando o cheque mate:

– Pois graças ao talento desses artistas parintinenses, o seu sonho está muito perto de se transformar em realidade! Isso aqui é uma amostra proporcional da futura obra-prima!

Aí, descobriu a escultura.

O governador tomou um susto.

Nos seus 57 anos de existência, Amazonino nunca tinha visto um índio tão fabuloso e imponente quanto aquele Ajuricaba.


A escultura dos parintinenses rivalizava, em beleza, realismo e harmonia, com a famosa estátua do rei Davi prestes a lutar contra Golias, esculpida por Michelangelo.

Havia apenas uma pequena diferença: enquanto a escultura do mestre florentino possui um sexo de dimensões modestas, o Ajuricaba possuía uma jeba imensa, grossa, cabeçuda, quase alcançando os joelhos.

Detalhe: a sucuriju do tuxaua estava no modo “descanso”.

Amazonino se ajeitou melhor na rede para apreciar a escultura e fez um único questionamento:

– Ô, Jair Mendes! O Climério disse que isso aí está na proporção. Quando a estátua original estiver pronta de que tamanho vai ficar essa jeba?...

– Do tamanho de um poste de cimento de alta tensão, governador! – explicou o parintinense. “Só que com o dobro da grossura...”

O governador quase caiu da rede.

– Olha, meus amigos, não me levem a mal, mas se a gente colocar um troço desses no Encontro das Águas, a gente vai virar motivo de gozação no planeta inteiro...

O sonho recorrente do governador foi sepultado no mesmo dia e, provavelmente, para sempre.