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sábado, outubro 20, 2018

Kepelé e o cigarro de índio



O descolado Kleper Evandro, mais conhecido como Kepelé

            Fevereiro de 1986. A quadra do GRES Andanças de Ciganos está botando gente pelo ladrão por conta do desfile no Sambódromo, que vai se realizar dali a duas horas. Para diminuir o nervosismo, Ailton Santa Fé convoca alguns brincantes para dar um rolê básico de carro pelas ruas da cidade, em busca de oxigênio puro. Luiz Lobão, Sici Pirangy, Arlindo Jorge, Kepelé, Airton Caju e Mazinho embarcam no veículo. Ailton Santa Fé pilota o buggy Selvagem em alta velocidade, pela Rua Silves, em direção ao Distrito Industrial. O vento na cara dos ocupantes do carro é oxigênio puro.

Próximo da Bola da Suframa, Ailton Santa Fé para o carro, puxa do porta luvas um “francês” (um charo da grossura de um baguette), acende o charuto e começa a passar de mão em mão. Quando a sessão de descarrego termina, Ailton Santa Fé liga o buggy e pega à direita, rumo ao Aeroporto de Ponta Pelada.

Único neófito da turma, Kepelé é o primeiro a sentir o tapa da pantera. Ele tem um acesso de riso de perder o fôlego. Luiz Lobão fica preocupado:

O que qui tá pegando, parceiro, o que qui tá pegando?...

Sem parar de rir, Kepelé, em novo surto de gagueira, não deixa por menos:

Que... que... quem diria!... Ke... Ke... Kepelé maconheiro, Luiz! Ke... Ke... Kepelé maconheiro!

Ailton Santa Fé riu tanto da presepada que quase capotava o carro nas imediações do Posto 3. Choses.

Armando Nahmias 4Ever




O Fast Club, uma das eternas paixões do meu brother Felix Valois. Em pé: Antônio Piola, Casemiro, Pompeu, Marialvo, Zezinho e Zequinha Piola. Agachados: Paulo Pernambucano, Rangel, Edson Piola, Simão e Adinamar. (foto by blog Bau Velho, do estimado Carlos Zamith)

Outubro de 1969. Dois anos mais velho do que eu, Armando Nahmias morava ao lado da casa do seu Aluysio Silva e foi um dos primeiros moleques com que fiz amizade quando fui morar na Rua Parintins. 

Fanático pelo futebol estiloso do ponta de lança Edson Piola, uma das glórias do futebol amazonense de todos os tempos, Armandinho era um dos poucos peladeiros que participava de “rachas” no meio da rua irradiando o jogo, como se tivesse incorporado o próprio craque fastiano: “Bola com Edson Piola. Driblou o primeiro, driblou o segundo. Tocou para Fuinha. Recebeu de volta na entrada da área. Vai chutar. Chutou. É gol. Goooollll de Edson Piola! Ele vai pra Copa! Em 70!”. 

Acabou se tornando conhecido como Armandinho Edson Piola.

Nessa época, a imprensa amazonense estava forçando a barra para que Edson Piola fosse convocado para a Seleção Brasileira, como reserva do Tostão. Não colou, apesar de ele ser melhor, na época, do que o Tostão. Sem bairrismos. De qualquer forma, o craque amazonense foi convidado para viajar ao México e ser comentarista esportivo de uma das rádios locais. Quer dizer, Edson Piola iria para a Copa do Mundo de qualquer jeito.

Armandinho aproveitava o mote para ironizar uma família de ribeirinhos pálidos e magricelas, tangidos pela cheia do Rio Solimões, que estavam morando no bodozal da Rua Maués e, salvo engano, eram parentes do Rui Assunção. Sempre que via um deles caminhando pela rua, Armandinho detonava: “Esse não vai ver o Edson Piola na Copa do México, em 70!”. E caía na gargalhada.

Artilheiro do campeonato amazonense de 1963, com 23 gols, quando tinha apenas 19 anos, Edson Piola foi o grande craque de uma família de craques em que se destacaram seus irmãos Antonio e Zequinha Piola e seu pai Antônio Petrúcio, atacante do Fast Club no período 1936-1946, que ganhou o apelido de “Piola” porque seu futebol lembrava muito o do atacante Piola, um dos destaques da seleção italiana campeã do mundo em 1938.

Campeão e artilheiro pelo Nacional, Paissandu e Fast Club, Edson Piola driblava maravilhosamente bem, chutava com precisão e suas cabeçadas eram quase sempre indefensáveis. Ele é registrado na CBF como autor de um dos gols mais rápidos do Brasil, marcado aos 10 segundos, num jogo entre Fast Club e Tuna Luso. Edson Piola largou o futebol em 1972, aos 28 anos, sendo posteriormente eleito presidente do Fast, cargo que exerceu por seis anos.

Primo da Fátima Loura e do Antônio José (aka “Anzol”), Antônio Aluísio era um moleque de 14 anos que morava no final da Rua Borba e pilotava uma motocicleta Honda C-125 com a disposição suicida de um praticante de “Freestyle” encharcado de anfetaminas. Saindo de sua casa na Rua Borba em direção à Rua Parintins, a 100 km/h, ele soltava as mãos do guidão e ficava em pé em cima da motocicleta, enquanto cortava todas as ruas transversais do bairro (Ajuricaba, Ipixuna, Santa Isabel, Silves, Manicoré, Itacoatiara e Tefé) sem dar confiança para os semáforos.

Em frente ao Top Bar, ele se sentava de novo sobre a moto e sem tocar no guidão, apenas com o auxílio do corpo, dobrava à direita, na Rua Parintins, e ia até a Rua Urucará na mesma velocidade. Só então ele colocava as mãos no guidão, freava, fazia o retorno na Parintins, subia até a Borba, e embicava de novo em direção à sua casa em alta velocidade repetindo a mesma presepada.

Quando estava de bom humor, ele parava a moto em frente ao bar e convidava algum dos moleques presentes para subir na garupa. Luiz Lobão, Chico Porrada, Rubens Patinete, Sidão Ribeiro, Kepelé, Fábio Costa, Petrônio Aguiar e eu próprio foram alguns dos suicidas que encararam aquela experiência kamikaze indescritível. O bailado que ele fazia sem tocar no guidão, apenas inclinando o corpo para um lado e para outro fazendo com que a motocicleta em alta velocidade quase roçasse o chão, era verdadeiramente de tirar o fôlego. Antônio Aluísio desafiava a morte umas 50 vezes por dia. Era um louco.

Morador da COHAB-AM do Parque Dez, Marcus Lima (aka “Markito”) tinha 15 anos, possuía uma motocicleta Honda C-90 e também fazia as mesmas lambanças de Antônio Aluísio – apenas em uma velocidade menor. Quando os dois se encontravam em frente ao Top Bar para se desafiarem mutuamente sobre duas rodas, a molecada ia à loucura porque aquele era um duelo de titãs. Os dois eram exímios motoqueiros e, por incrível que pareça, jamais haviam se envolvido em acidentes.

No começo de uma noite de domingo daquele mês de outubro, entretanto, a ema gemeu no tronco da jurema. As cocotinhas Silane e Edna pediram ao Antônio Aluísio para dar um passeio de moto até o aeroporto de Ponta Pelada. O motoqueiro concordou e colocou as duas na garupa.

Markito resolveu acompanhá-los no passeio e Armandinho Edson Piola, que estava de bobeira me esperando para irmos juntos ao cinema das 20h (a gente havia armado uma parada com duas molecas na sessão das 13h), se aboletou na garupa do Markito.

Como a Honda C-90 estava com os faróis queimados, Markito sugeriu que Antônio Aluísio dirigisse um pouco mais devagar para ele aproveitar a iluminação da Honda C-125, já que a iluminação pública das ruas de Manaus deixava muito a desejar.

Os dois motoqueiros seguiram pela Rua Borba, contornaram a Boca do Imboca, em Educandos, embicaram pela Leopoldo Peres e seguiram pela Presidente Kennedy até o aeroporto Ponta Pelada, sem sobressaltos. Na volta, fizeram o mesmo trajeto.

Em frente à igrejinha do Pobre-Diabo, na Rua Borba, Antônio Aluísio percebeu que o semáforo da Rua Silves havia ficado no modo “laranja” e resolveu aproveitar o mesmo. Ele acelerou ao máximo e conseguiu passar pelo sinal na hora em que ele ficava “vermelho”.

Markito, que vinha um pouco mais atrás numa moto de menor potência e de faróis apagados, tentou fazer o mesmo. Infelizmente, embaixo do semáforo, a sua motocicleta foi atingida por um ônibus em alta velocidade, que estava indo do Japiim em direção ao centro da cidade.

Com o impacto da batida, Markito foi cuspido a uns cinco metros de distância e fraturou as duas pernas. Armandinho ficou preso na motocicleta embaixo do ônibus e foi arrastado por quase 50 metros, o tempo necessário para o ônibus parar.

Apesar de ter sido socorrido na mesma hora, ele não resistiu aos ferimentos e faleceu na mesa de operação da Beneficente Portuguesa. Seu corpo começou a ser velado na casa de seus pais na madrugada da segunda-feira.

Minha mãe me acordou com o dia amanhecendo, perguntando se eu não ia velar o corpo do meu parceiro. Quase morri do coração. Armandinho não viu o Edson Piola em ação, na Copa do México, em 70.

E pela primeira vez na vida eu percebi que a dama de negro não estava para brincadeiras. Até então, eu acreditava piamente que moleques da nossa idade eram imortais. Não eram.

Mestre Carioca 4Ever


Outubro de 1986. Vivendo numa permanente pindaíba financeira que só era amenizada um pouco no período do carnaval, Mestre Carioca procurou o bicheiro Ivan Chibata para pedir um emprego de segurança na Banca do Chibata em tempo integral. Depois de ouvir pacientemente o relato angustiado do sambista, Ivan Chibata marcou uma entrevista com Mestre Carioca em seu escritório informal, no Bar da Alzira, numa noite de sábado, dali a duas semanas.

Crioulo alto e esguio, de cabeça seca do tipo sarará, encoberta permanentemente por um surrado quepe de diretor de cinema, sempre muito risonho e brincalhão, o sujeito se chamava Edir Pedro Batista e apareceu na Cachoeirinha, pela primeira vez, ao lado do advogado Vilson Benayon, presidente do GRES Andanças de Ciganos. Ele havia sido contratado para ser o novo mestre da bateria. Como havia nascido no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, passou a ser chamado de Mestre Carioca ou, simplesmente, de Carioca.

Mestre Carioca costumava comandar os ensaios da bateria na quadra dos Ciganos usando uma folgada calça de linho branco, camisa de seda abotoada nos punhos encimada por um colete de crochê na cor rubro-negra e sapatos brancos, munido de um apito e um inseparável pandeiro. Além disso, se gabava de suas habilidades no manejo da navalha e se dizia um experimentado capoeirista, iniciado nas quebradas dos morros pelo lendário Mestre Veludo.

Dotado de um talento sobrenatural para o suingue, Carioca era um exímio instrumentista de percussão, capaz de fazer seu pandeiro soar como uma autêntica bateria de escola de samba. Foi ele quem ensinou aos batuqueiros ciganos o bê-á-bá do surdo de primeira, surdo de segunda, caixinha de guerra, tarol, frigideira, cuíca, tamborim, repique, cuíca, pandeiro e agogô. Um de seus melhores discípulos foi Mestre Pajé, que começou a ensaiar com ele quando tinha apenas oito anos.

Carioca também era um passista de alto coturno, fazendo malabarismos dignos de um mestre-sala que lhe valeram o título de “Senhor Samba 1982”, conquistado após uma primorosa exibição no ginásio Renê Monteiro, durante o carnaval daquele ano. Suas elegantes piruetas lembravam um pouco o estilo do inesquecível Delegado, o lendário mestre-sala da Mangueira que durante 47 anos seguidos recebeu nota 10 nas suas apresentações. Depois que entregou o comando da bateria cigana para Mestre Louro, Carioca passou a fazer parte da Ala Show da escola, levantando as arquibancadas do sambódromo com suas piruetas fantásticas.

No dia combinado para a entrevista, Carioca apareceu no bar vestido como um autêntico malandro da velha-guarda: chapéu de palha, camisa de seda, paletó de linho branco e sapato bicolor. Ivan Chibata já estava com a cabeça cheia de truaca. Sempre sorridente, Carioca ouviu com atenção as ponderações iniciais do bicheiro:

– Você já sabe que eu trabalho na contravenção, não é mesmo? E nesse trabalho não tem vaga para bocoió nem pra vacilão, porque é um jogo pesado, muito pesado. Pra entrar no movimento o cabra tem de ser sujeito homem...

Carioca concordou.

– Vamos ver se você é sujeito homem! – insistiu o bicheiro. – Descalça um pé do sapato e coloca o pé aqui do meu lado!

Carioca não estava entendendo nada, mas obedeceu. A penúria financeira tem razões que a própria razão desconhece.

Ivan Chibata tirou um revólver 38 da cintura e deu um tiro à queima-roupa no meio do pé do infeliz. Carioca deu um grito. O pessoal que estava bebendo no boteco saiu correndo do lugar pensando tratar-se de um assalto. Carioca segurava o tornozelo com as duas mãos e espinafrava a genitora do bicheiro, enquanto saía um rio de sangue do seu pé esburacado.

Impassível, Ivan Chibata chamou um dos seus seguranças e deu o toque:

– Leva esse crioulo folgado para uma clínica particular, paga as despesas médicas com dinheiro vivo e explica que ele se acidentou quando brincava com uma arma de fogo. Se ele não der com a língua nos dentes pra delatar o que realmente aconteceu, pode colocar ele na folha de pagamento a partir de hoje!

Dito e feito. Uma hora depois, Carioca estava de volta ao bar ostentando uma vistosa bota de gesso no pé baleado. No mesmo dia, ele entrou na folha de pagamento da Banca do Chibata e deu adeus ao tempo das vacas magras. Diz a lenda que até o dia em que Ivan Chibata foi finalmente derrotado pela cirrose hepática, Carioca recebeu da contravenção um salário mensal pago religiosamente.

Alguns anos depois da morte de seu preceptor, Carioca estava participando de uma roda de pagode em um bar-flutuante, nas imediações da Ponte de Ferro da Cachoeirinha, provavelmente em mais um “bico” para driblar a paúra financeira. Já era madrugada, com todo mundo cheio da manguaça, quando começou uma briga entre os pagodeiros.

No meio do fuzuê, um sujeito pegou o pandeiro do Carioca e jogou dentro d’água. Ele mergulhou no rio em busca de sua obra-prima, que supostamente afundara nas águas escuras. Dizem que ele conseguiu resgatar seu inseparável companheiro do fundo do rio, mas quando emergiu, saiu debaixo do assoalho do bar-flutuante – e não conseguiu ter fôlego suficiente para fugir da armadilha. Morreu afogado, agarrado ao pandeiro velho de guerra. 

sexta-feira, outubro 19, 2018

Wilson Fernandes 4Ever


Fevereiro de 1988. A Comissão de Frente do GRES Andanças de Ciganos (Sadok Pirangy, Maurílio, Zé Alfaia, Ivan Chibata, Juarez Tavares, Almeida, Antídio Weil, Petroba, Nelito, Galúcio, Luluca, Ruizinho, etc) está posicionada na área de concentração da Av. Djalma Batista. 

Todos estão elegantemente vestidos de coronéis de barranco: paletó de linho branco, colete de cetim negro e chapéu panamá. O que chama mais atenção é o fato de eles estarem descalços. É que o responsável pelos sapatos da turma, o desencanado Wilson Fernandes, ainda não deu o ar de sua graça.

Na semana anterior, durante uma reunião no Barraka’s Drinks, Wilson Fernandes anotou pacientemente o número do pé de cada um e se prontificou a doar pra escola os sapatos de verniz exigidos pelo carnavalesco para garantir a nota dez pra Comissão de Frente. Sem os sapatos de verniz, explicou o sujeito, o enredo “O Grande Baile” estaria seriamente comprometido. 

Como o Simona não costuma se atrasar e tem como característica principal sempre honrar seus compromissos, a turma está mais apreensiva do que de costume. Alguma coisa de muito grave ter acontecido.

O carro abre-alas começa a ser empurrado para a avenida para dar início ao desfile. A apreensão da Comissão de Frente se transforma em princípio de pânico. Desfilar descalço na passarela do samba não estava no script de “O Grande Baile”, mas parece que vai ser o jeito.

De repente, surge Wilson Fernandes, esbaforido, atravessando as alas já posicionadas para o desfile, trazendo um gigantesco saco pendurado nas costas:

– Porra, meus irmãos, desculpem o atraso, mas é que esse trânsito hoje estava de lascar!

Antes que alguém abrisse a boca, ele abre a boca do saco e descarrega a carga no chão: trinta pares de sapatos de verniz, tal como exigira o carnavalesco.

O problema é que os sapatos estavam soltos e, evidentemente, acabarm se misturando dentro do saco. Foi um salve-se quem puder. Na pressa para calçar o sapato e correr pra começar o desfile, aconteceu de tudo: neguinho com sapato dois números menor do que o pé, neguinho calçando dois pés esquerdos, neguinho com um número maior do que o outro, uma zorra total.

Apesar de a Comissão de Frente ter desfilado como um cortejo de pinguins-imperiais (tinha componente que simplesmente arrastava os pés na avenida, como Antídio Weil, por conta das bolhas de calo surgidas instantaneamente nos pés em virtude dos sapatos de verniz extra-apertados), ela conquistou nota dez.

Naquele ano, o GRES Andanças de Ciganos terminou em quarto lugar. Vítima de complicações decorrentes da diabetes, Wilson Fernandes faleceu em outubro de 2008. Era um guerreiro!

Ivan Chibata 4Ever


Fevereiro de 1984. A Philco resolveu compensar a segunda-feira gorda de carnaval dos mensalistas nos fazendo trabalhar em regime de hora extra no sábado magro. Ninguém protestou. Por volta das 18h do referido sábado, depois que deixei a fábrica, resolvi passar no Top Bar para beber umas cervejas antes de ir pra casa, lá em Adrianópolis. A cachorrada toda estava reunida no boteco: Lúcio Preto, Nei Parada Dura, Frank Cavalcante, Luiz Lobão, Chico Porrada, Áureo Petita, Rubens Bentes, Nego Walter, Mestre Louro, Chico Costa, Arlindo Jorge, Jones Cunha, etc. Me aboletei na mesa do Ivan Chibata e ficamos conversando. Estranhei o fato de ele estar de smoking branco, mas não disse nada. Devia ser alguma moda entre os chefões do “jogo do bicho” da cidade.

Por volta das 21h, quando me preparava pra ir embora, Ivan Chibata jogou a isca:

– Poeta, estou com uma mesa para o carnaval no Clube da Caixa, que vai começar daqui a pouco. Vou levar duas potrancas de parar o trânsito, uma loura e outra morena. Estou precisando de um parceiro. Você não topa ir comigo nessa parada? Não se preocupe com as despesas porque será tudo por minha conta...

Apesar de já estar com a moringa cheia de álcool, tentei uma saída honrosa:

– Bicho, eu agradeço o convite, mas fica pra outra oportunidade. Passei o dia inteiro trabalhando, estou morto de cansado. Vou sair daqui direto pra casa porque estou querendo mesmo é dormir...

Ele meteu a mão no bolso do smoking, retirou uma minúscula pílula vermelha de um pequeno estojo plástico e me passou:

– Isso aí é um novo complexo de vitaminas e sais minerais, importado dos States. Acaba na hora com qualquer cansaço, estresse ou mal estar. Experimenta...

Engoli a pílula com um gole de cerveja e, alguns minutos depois, o cansaço realmente havia passado. Desconfio que era anfetamina.

Ivan Chibata sugeriu que eu deixasse meu Corcel II estacionado em frente da casa do Simas, ali perto, e que fôssemos para o baile de carnaval no seu jipe Gurgel Carajás (“igualzinho ao do coronel Khadaffi”, ele gostava de repetir, orgulhoso). Foi o que fiz.

Algumas horas depois, duas garotas fantasiadas de odaliscas desceram de um táxi em frente ao Top Bar e se sentaram conosco. Elas eram realmente deslumbrantes. A loura era uma espécie de Carla Perez no auge de sua forma física. O corpo sinuoso da morena lembrava muito o da Suzana Alves (aka “Tiazinha”). Nem preciso dizer que os machos do pedaço ficaram babando no colarinho.

Depois de detonarmos mais meia dúzia de cervejas, embarcamos as duas meninas no jipe do Khadaffi e nos mandamos para o Clube da Caixa. Em estado de graça, Ivan Chibata começou a distribuir gorjetas cabulosas a começar pelos porteiros. Para sermos tratados como verdadeiros marajás dentro do clube foi conta de multiplicar. Um garçom e três seguranças ficaram permanentemente à nossa disposição. E haja baldes de champanhe, doses generosas de uísque, caipifrutas de todos os tipos e canapés variados sendo despejados a cada 15 minutos em nossa mesa. Quando as duas odaliscas começaram a rebolar ao lado da mesa, acompanhando as marchinhas de carnaval, me senti um autêntico califa de Bagdá.

Só que algo de muito estranho estava acontecendo. Eu já havia detonado quase uma garrafa de uísque e dezenas de caipifrutas, mas permanecia completamente lúcido. Aquela anfetamina tinha parte com o cão. Por volta da 3h da madrugada, dei um toque para o meu parceiro:

– Vamos rebocar as meninas para um motel e seja o que Deus quiser...

Ivan Chibata pediu a conta e, enquanto aguardava o retorno do garçom com a dolorosa, as duas odaliscas foram ao banheiro. Ele me segredou:

– Não vamos gastar dinheiro com motel não, poeta. Nós vamos pra casa da loura. A casa tem dois quartos com ar-condicionado. Além disso, sou eu que banco o aluguel e a despesa das duas. Você fica com a morena no primeiro quarto, depois da sala de visitas, que eu vou pro segundo, lá perto da sala de jantar. Quando o dia estiver amanhecendo, a gente se manda...

Não discuti. As odaliscas voltaram pra mesa exatamente na hora em que Ivan Chibata havia retirado uma bolada de dinheiro do bolso (em valores de hoje, talvez uns R$ 15 mil) e começado a fazer o pagamento das despesas, em torno de R$ 3 mil. Sim, os sujeitos do bar haviam metido a mão. Ivan Chibata nem ligou. Vai ver que naquele dia tinha dado avestruz na cabeça e a banca dele havia lavado a égua. Na sequência, ele colocou o resto da grana em um dos bolsos internos do smoking, pegou delicadamente a loura pela mão, eu abracei a morena pela cintura e saímos do clube, com os seguranças indo na frente abrindo caminho (a festa de carnaval estava colocando gente pelo ladrão). Cada um deles recebeu R$ 500. O Ivan Chibata estava mesmo em estado de graça.

Chegando à casa da loura, ali na Rua Borba, nas proximidades do Terminal da Cachoeirinha, o Ivan Chibata foi até a cozinha e voltou com duas latinhas de Heineken. Fizemos um brinde rápido. Ele foi para um dos quartos com a loura e eu entrei em outro com a morena. Eu já estava apenas de cueca e a morena só de calcinha, no começo das preliminares, quando escutei um barulho de espelho sendo quebrado e alguns gritos de pânico vindos dos fundos da residência.

De repente, o Ivan Chibata dá duas batidas na porta do nosso quarto, que quase jogaram a porta no chão, e dá um berro aterrorizante do corredor:

– Vamos embora, poeta, que aquela vagabunda tentou me roubar. Eu estou indo ali no carro pegar minha arma pra acabar com a folga dessas duas muquiranas...

Vesti minha calça rapidamente, apanhei o tênis e a camisa com uma das mãos e fui ver que merda era aquela. A morena saiu correndo só de calcinha para o quarto da loura, que chorava copiosamente.

Ivan Chibata estava transtornado, procurando freneticamente sua arma dentro do jipe do Khadaffi. Enquanto eu acabava de me vestir na frente da casa da loura, questionei:

– Porra, bicho, que onda foi essa? Eu já estava quase faturando a menina...

– Rapaz, eu fui pro banheiro urinar e quando saí vi a loura com o meu smoking na mão. Ela só podia estar querendo me roubar. Vou matar as duas muquiranas!

Entrei no jipe do Khadaffi e me sentei no banco do carona. Ivan Chibata, depois de mais alguns minutos procurando inutilmente pela arma, deu partida no veículo e saiu dirigindo em direção à Praça 14, até encontramos um bar aberto. Aparentemente, seu ímpeto homicida estava de novo sob controle. Começamos a beber e a conversar sobre a presepada. Eu não escondia o meu desapontamento: a Tiazinha havia escapado entre os meus dedos por causa de uma simples paranoia do meu parceiro. Aquilo era o fim do mundo.

Por volta das 5h da manhã, o dono do bar avisou que estava fechando. Ivan Chibata pagou a despesa e voltamos para a Cachoeirinha. Depois de muito rodar pelas ruas desertas, resolvemos nos instalar em uma mesa no Bar da Dolores, que agora estava instalado no cruzamento da Rua Tefé com a Castelo Branco, e só fechava as portas com mandado judicial.

Eu continuava puto. “Foda adiada é foda perdida”, já dizia Nei Parada Dura, filosofando sobre a impossibilidade real de se recuperar aquele momento perdido. Ivan Chibata não estava nem aí. Era difícil de entender como alguém cheio da grana e com um carango nos trinques preferia amanhecer o dia num boteco sórdido em vez de na cama de uma vadia.

Continuamos enchendo a cara e conversando sobre futilidades, incluindo antigas partidas de futebol da seleção brasileira. Meus pensamentos ainda focados na Tiazinha. Por volta das 8h da manhã de domingo, com o sol já a pino, ele meteu a mão no smoking, tirou duas cápsulas de “vitamina” e me ofereceu uma. Recusei. Ele tomou as duas. Aí, como se estivesse lendo meus pensamentos, argumentou:

– Meu poeta, eu sei que você ficou fissurado por aquela morena, mas, pô, a parceira dela tentou me roubar... São duas muquiranas... Mas daqui a pouco, eu vou te levar na casa da Mercinha, lá na Vila Felicidade, ali perto da Ceasa, pra te apresentar umas comadres... Você vai ficar amarradão na Nara Bebezinha, uma mulata de bunda de tanajura que é passista da Sem Compromisso...

– Bom, se a gente se apressar talvez ainda dê tempo de pegar o motel Beira-rio com a promoção de sábado... – ironizei.

– Calma, poeta, você é muito apressado! – explicou ele, enquanto pedia mais uma cerveja pra mesa. – Nós vamos pegar a Mercinha e a Nara Bebezinha em casa e aí vamos comer uma caldeirada de tambaqui no Bar da Loura, ali no Tarumã, pra recuperar as energias. De lá, a gente vai tomar um banho na Praia Dourada e beber uísque com água de coco, acompanhado de isca de camarão sete-barbas cozinhado no vapor. Por volta das quatro da tarde, a gente vai curtir o show do Reginaldo Rossi no balneário Meu Xodó...

Comecei a achar que o bicheiro havia enlouquecido. Meu único interesse imediato era rechear um pastel de pelo, mas o cabra queria continuar farreando. Aquilo era programa de índio. Me levantei da mesa, lhe dei um aperto de mão e um abraço, agradeci pela noitada magnífica e fui embora, a pé, até a casa do Simas. Chegando lá, encharcado de suor, entrei no carro e me mandei.

Na segunda-feira à noite, relatando o ocorrido para a galera do Top Bar, Ivan Chibata não perdoou:

– Além de me abandonar em pleno tiroteio, o poeta é um incompetente. No lugar de chamar um táxi pra eu pagar a corrida até a casa do Simas, ele preferiu subir a pé essa ladeira da Tefé, debaixo de um sol senegalês. É um incompetente! O poeta é um incompetente!

Uns dois anos depois, eu encontrei casualmente a odalisca loura na quadra do GRES Andanças de Ciganos e relembrei o quiproquó. Ela me explicou o ocorrido.

– Sempre que o Ivan Chibata mistura “bolinha” com birita, ele cola o platinado. Naquela noite, ele estava todo amoroso e gentil, dizendo que ia casar comigo, essas coisas. Aí tirou o smoking, jogou no chão e entrou no banheiro para urinar. Eu apanhei o smoking pra colocar no encosto de uma cadeira. Ele saiu do banheiro, me viu colocando o smoking na cadeira e ficou doido! O sacana atirou com violência a lata de cerveja no espelho da penteadeira, me deu uma tapa no pé do ouvido e começou a me chamar de ladra... Depois, disse que ia pegar o revólver no carro pra me matar... Coisa de louco, de doido varrido!... Ainda bem que você levou ele embora...

Como eu sempre havia suspeitado, deixei de finalizar a Tiazinha por uma simples paranoia do meu parceiro. E como foda adiada é foda perdida, nunca mais tive uma segunda chance. Rei das vitaminas importadas, o inesquecível Ivan Chibata faleceu no início dos anos 90, vítima de cirrose hepática. Era um figuraço!

Nei Parada Dura 4Ever


Outubro de 1988. Eu ainda estava meio de ressaca, numa manhã de sábado, quando recebi um telefonema da minha irmã Simone. Ela queria saber se eu conhecia algum médico ortopedista que pudesse emprestar seus pensos cirúrgicos para uma emergência. Eu sequer sabia que diabo eram “pensos cirúrgicos ortopédicos”.

– São uns equipamentos que servem para tracionar e esticar os ossos de uma perna! – ela tentou explicar.

Continuei boiando.

– É que o irmão de uma amiga minha sofreu um acidente de carro nesta madrugada e precisa ser operado com urgência, mas os pensos cirúrgicos ortopédicos do Hospital Getúlio Vargas estão todos sendo usados – insistiu.

Falei que iria falar com Rogelio Casado, Manuel Galvão e Eugênia Turenko, já que a maioria dos meus amigos médicos eram psiquiatras. Talvez eles pudessem me dar alguma dica, sei lá. Só no começo da tarde, ainda sem localizar os tais pensos cirúrgicos ortopédicos, é que fiquei sabendo que o irmão da amiga da Simone era o Nei Parada Dura. Foi um choque.

Há alguns anos,  o boêmio Nei Parada Dura tinha um novo amigo de gandaia que nunca soube como se chamava. A gente, lá no Bar do Aristides, o chamava de “Cabeludo” (porque ele parecia um hippie tardio com a cabeleira na altura dos ombros) ou de “Maria Bonita” (porque o sacana era bonito como um travesti imitando a Raquel Welch, apesar de ser espada matador registrado em cartório). Era um bom jogador de sinuca e bebia como gente grande.

Numa noite sexta-feira, os dois foram farrear com uma meninas sapecas lá pras bandas do Bar Xorimã. Por volta das 5h de sábado, já com o dia quase amanhecendo, resolveram tomar a saideira em um boteco no início da Avenida Noel Nutels, na Cidade Nova. De repente, as meninas pediram pra ir pra casa. Em vez de chamar um táxi e despachar as garotas, Nei Parada Dura, um eterno cavalheiro de fina estampa, resolveu levá-las em casa, no final da Cidade Nova, no seu próprio carro. Cabeludo ficou esperando pelo parceiro no boteco.

Quando estava voltando pro boteco – provavelmente em alta velocidade, imagino, já que o sacana gostava de correr –, Nei Parada Dura, morto de bêbado, aparentemente dormiu na direção do carro e entrou na traseira de um caminhão da Brahma, que estava parado na frente de um bar, com os operários descarregando os vasilhames de cerveja para um boteco. Com o impacto, os ossos das pernas se quebraram e foram parar em seus quadris, provocando uma hemorragia interna.

Ele foi levado para o Hospital Getúlio Vargas, onde os médicos conseguiram estancar a hemorragia. Mas o hospital não possuía os tais pensos cirúrgicos. Salvo engano, ele foi removido do HGV para um outro hospital, onde também não havia os tais pensos cirúrgicos. Na tarde de domingo, sem ainda ter sido operado, Nei Parada Dura atravessou o espelho. Menos de um ano depois, Cabeludo estava participando de um “racha” na estrada da Ponta Negra, perdeu a direção do carro e se esborrachou num poste. Morte instantânea. 

Os dois devem estar continuando a gandaia no Paraíso, já que nunca foram mesmo de ficar parados. Saudade miserável de vocês, homeboys!

sábado, outubro 13, 2018

A Origem das Espécies: Os Clãs Pessoa, Sampaio e Dourado


Simão, Silane, Selane, Pai Simão, Silene, Simas e Simone

Os primeiros habitantes de Breves (PA), a principal cidade da Ilha de Marajó, foram os índios Bocas, uma etnia praticamente extinta em pouco mais de 200 anos. 

Em 1738, o capitão geral do Pará, João de Abreu Castelo Branco, concedeu aos irmãos portugueses Manuel Breves Fernandes e Ângelo Fernandes Breves uma sesmaria, localizada nas proximidades do Rio Parauhaú. 

Com a instalação de um engenho e a expulsão dos nativos, o lugar passou a ser chamado de “Engenho dos Breves”, em homenagem aos seus fundadores. 

Em 1851, foi criado o município de Breves, que, atualmente, é constituído pela cidade de Breves e pelos distritos de Antônio Lemos, Curumu e São Miguel dos Macacos.

Filha caçula do português Simão Teixeira Sampaio com a paraense Philomena Sabino Sampaio, minha avó paterna, Paulina Teixeira Sampaio, nasceu em Breves, em 1897. 

Completava o pequeno clã familiar, seus dois irmãos Mateus e Cezário. 

Meu bisavô era originário de uma pequena aldeia da Galiza, em Portugal. Herdeiro da cultura celta (“a boca do ambicioso só se fecha com a tampa da sepultura”), o galego havia vindo tentar a vida no além-mar sob o patrocínio do governo português, que até então acreditava que a quartelada do marechal Deodoro no dia 15 de novembro de 1889 não passava disso: de uma simples quartelada.

Para os portugueses, a Província do Maranhão e Grão-Pará (equivalente à Região Norte do país), subordinada diretamente ao reino português, tinha ficado de fora do território da nova República do Brasil recém-implantada. 

Mais realistas do que o rei, os fidalgos portugueses, donos de imensos lotes de terra na Amazônia, estavam se desfazendo de tudo, a preço de banana, vendendo a perder de vista para os brasileiros. 

Não foi à toa que várias famílias tradicionais de comerciantes manauaras se transformaram, da noite pro dia, em poderosos latifundiários da região. 

O meu bisavô havia recebido uma escritura oficial dada pelo governo português que o nomeava dono de vários alqueires de terra na comunidade Rio Branco, entre o Lago Grande e a Cachoeira do Aruã, no alto do Rio Arapiuns, no município de Santarém (PA).

Meus bisavôs acreditavam que iriam ficar ricos com a exploração das drogas do sertão no coração da floresta amazônica, mas acabaram descobrindo que, na realidade, tinham recebido um presente de grego. 

A terra era inóspita e selvagem. No máximo, com muito esforço, conseguiram estabelecer uma horta de subsistência e uma pequena criação de animais domésticos (porcos, bodes e galinhas). O suficiente para sobreviver. 

O português Simão Teixeira Sampaio não aguentou as intempéries tropicais e faleceu quando vovó Paulina ainda era criança. 

Minha bisavó Philomena se casou pela segunda vez com um primo, o comerciante Francisco Gomes Dourado, com quem teve cinco filhos: Corina, Leonila (aka “Leuca”), Francisca, Temístocles (aka “Tio Velho”) e Thereza (aka “Floriza”).

Meu tio-avô Cezário casou com Georgina e teve quatro filhos: Macário, Manuel, Marciano e Raimundo. 

Macário casou com Zolina e teve sete filhos: Ronaldo, Rosinaldo, Rosenildo, Rosenilda, Rosemilda, Renato e Rosinei. 

Manoel casou com Zeneida e teve uma filha: Rita de Paula. 

Marciano casou com Maria e também teve uma filha: Geany Sampaio. 

Raimundo faleceu quando ainda era rapazola.

Meu tio-avô Matheus Teixeira Sampaio casou com Virgília Medeiros Sampaio e teve 13 filhos: Atarcílio, Almiro, Antônia, Francisca (aka “Chiquinha”), Raimunda, Miguel, Maria José (aka “Zeca”), Maria das Dores (aka “Dorinha”), Maria Clotilde (aka “Coló”), Lenira Rosa, Raimunda Nonata (aka “Dondô”), Maria do Socorro e Manuel Daniel.

Almiro casou com Francisca Assis (aka “Chicuta”) e teve cinco filhos: José Océlio, Oséias, Ieda Maria, João Olivar e Iracema. 

Miguel casou com Francisca Pires (aka “Chicó”) e teve sete filhos: Jairo, Manuel Jair, Jacirema, Jacilene Maria, Jailson, Cleuton e Jandira. 



Maria José casou com Manuel Braz e teve dois filhos: Gleuson e Surama. 

Francisca teve seis filhos: Alberto, Abelardo José, Anamor, Altemar, Manuel Altair e Alcimar. 

Maria das Dores teve uma filha: Siomara. 

Maria Clotilde teve cinco filhos: Wallace Rogério, Wandria Patrícia, Amaury, Ângelo e Alessandra. 

Lenira Rosa casou com Cosme Fernandes de Moura e teve quatro filhos: Almir, Aldenis, Ana Lígia e Alba Leda. 

Raimunda Nonata casou com Manoel Marinho e teve dez filhos: Mara Virgília, Márcio Roberto, Mazzio Ronald, Márlia Valéria, Márlio Ranieri, Márlon Rudson, Manoel Marinho Filho, Matheus Sampaio Neto, Márlison Rudney e Marne Rodrigo. 

Manoel Daniel casou com Maria e teve quatro filhos: Danilo, Douglas, Dirceu e Daniel. 

Maria do Socorro Sampaio casou com Alberson Sousa (aka “Anízio”) e teve cinco filhos: Alderbruno (aka “Bruno”), Ádria Soyara, Alderson, Aldercley e Adna Synara.

Dos meus tios-avôs do segundo casamento de minha bisavó, Corina casou com Fidelis e teve quatro filhos: José Guilherme, Maria da Luz, Osvaldina (aka “Bebé”) e Terezinha (aka “Tetê”). 

José Guilherme casou com Dinair e teve seis filhos: Gilberto, Dinarte, Dilma, Eremar, Jovane e Dinamar. 

Maria da Luz casou com Ermínio e teve três filhos: Adry, Aldinan e Aldenora. 

Osvaldina casou com Noquinha e teve nove filhos: Pedro Antônio, Helena Maria, Valdina, Luiz Antônio, Valdir, Valdenilson, Valdenira, Vania, Vladimir e Vlamir. 

Terezinha casou com Jarito e teve nove filhos: Filomena, Jair, Pedro Paulo, Jorge, Jairo, Tânia, Jerry, Telma e Jane.

Leonila casou com Prudêncio Fonseca e teve cinco filhos: Reinaldo, Rosinaldo, Maria de Fátima, Marcina e Rubens José. 

Reinaldo casou com Maria Belém Costa e teve duas filhas: Izabelly e Luciana. 

Rosinaldo casou com Elcy Oliveira e teve quatro filhos: Marta Silvia, Gilda Elizabeth, Rosinaldo Júnior e Jefferson. 

Maria de Fátima teve uma filha: Ana Cláudia. 

Rubens José casou com Rosemary Barros e teve três filhos: Rubens Júnior, Ricardo Bruno e Rafaela.

Teresa casou com Vicente Alves e teve nove filhos: Maria do Carmo (aka “Mimi”), Claudina (aka “Didica”), Raimundo Dourado (aka “Diquito”), Dulcila, Zezuíla (aka “Zizi”), Raimundo Cassiano (aka “Didico”), Francisca, Pedro e Maria de Nazaré (aka “Mariinha”).

Claudina casou com Salustiano Fonseca e teve onze filhos: Maria Ivanilda, Ivacilda, Ivailton, Nilza, Gorete, Ivando, Ivan, Erotildes, Ivaldo, Ivanilce e Ivanderlucia.

Raimundo Dourado casou com Quitéria Guimarães e teve quatro filhos: Maria Glorita, Paulo Raimundo, Tereza Nelma e Maria de Nazaré. 

Dulcila casou com Oséias e teve dois filhos: Denise e Oséias Júnior. 

Raimundo Cassiano casou com Oleda Said e teve sete filhos: Dilberto, Salim, Dilma, Aparecida, Dinamor, Dilete e Dilson. 

Francisca casou com Estevão e teve dois filhos: Neuma e Estevão Júnior. 

Maria do Carmo (aka “Mimi”) teve um filho: Raimundo Solano. 

Raimundo Solano casou com a Conceição e teve três filhos: Núbia, Junior Solano e Marcelo.

Francisca viajou para Portugal onde casou com Inocêncio e teve quatro filhos: Zizito, Madalena, Helena e Inocência (aka “Filó”).

O Temístocles ficou solteiro a vida inteira, o que lhe originou o apelido de “Tio Velho”.

No dia 16 de julho de 1916, minha avó Paulina, então com 21 anos, se casou com um jovem cearense de 26 anos chamado Raymundo Monteiro Pessoa, na capela de Mucajá, no Lago Grande, em cerimônia oficiada pelo Frei Sandoval Electo.

Nascido em Aurora (CE), terra natal do artista plástico Aldemir Martins, meu avô Ray era oriundo de uma pequena família de agricultores da Chapada do Araripe, no sertão do Cariri, que migraram para o Pará em busca de um futuro melhor.

Raymundo e Paulina tiveram quatro filhos: João, Maria, José e Simão Monteiro Pessoa (nascido em 9 de julho de 1923). 

Acostumado a prear bodes na caatinga nordestina, meu avô Ray não resistiu às malárias da região amazônica. Um cearense da cepa vencido pelo mosquito anofelino. 

Morreu na flor da idade, com pouco mais de 35 anos. Meu pai tinha apenas dois anos.

Em função da morte prematura do marido, Paulina abandonou a região do Lago Grande e conduziu o seu pequeno clã para Alter do Chão, nas proximidades de Santarém, permanecendo lá durante alguns anos. 

Quando papai tinha 15 anos, nossa avó mudou de pouso mais uma vez para tentar a vida em Belterra, aonde acabou falecendo no ano de 1940. 

A grande perda fez com que os laços entre os quatro irmãos se fortificassem ainda mais, a despeito de cada um deles ter de iniciar a construção de sua própria lenda pessoal.

Pai Simão, o caçula, então com 17 anos, optou em ir para Fordlândia, uma cidade-industrial projetada e habitada por americanos (o que lhe possibilitou dominar os rudimentos da língua inglesa) e que tinha como principal base econômica o cultivo de seringais. 

Nesta cidade, ele trabalhou em uma filial das célebres Lojas Pernambucanas e depois na “Companhia”, nome genérico que os nativos davam para a Ford Motor Company, a empresa americana dona do empreendimento. 

Algum tempo depois, ele foi convidado pelo comerciante Zé Moraes para trabalhar em seu comércio varejista a partir das 16 h, término de seu expediente na Companhia.

Nesse meio tempo, tia Maria se apaixonou por um príncipe misterioso chamado Jovino Dantas Batista, que a desposou e a levou para morar no reino encantado de Boa Vista (RR). 

Eles tiveram cinco filhos: Raquel, Rossicler, Rosinete, José Alberto (aka “Cazuza”) e Socorro.


Raquel casou com Lourenço Braga e teve três filhos: Lourencinho, Juliana e Bruno. 

Rossicler casou com Rodrigo Marques e teve três filhos: Rildo, Rossinara e Rodriguinho. 

Rosinete casou com Valdeir Azevedo e teve seis filhos: Socorrinha, Conceição, Roseana, Luciana, André e Junior. 

Cazuza casou com a Lia e teve uma filha: Lilian. 

Socorro casou com o Almir (aka “Possante”) e teve três filhas: Patrícia, Inara e Lisandra.

Tio João se transformou em comerciante e foi procurar essências de pau rosa no fim do mundo – qualquer calha de rio desconhecido que desaguasse no caudaloso Rio Tapajós. 

Ele se casou com Disteva e teve sete filhos: Francisco, Raimundinho, João, José, Maria da Luz (aka “Nena”), Maria de Jesus e Deusa.

Francisco casou com Pedrina e teve seis filhos: Sônia, Silvana, Sandra, Rita de Cássia, Silene e João Pessoa Neto. 

Raimundinho casou com Francisca e teve cinco filhos: Francinelma, Rosinelson, Rosenilson, Rosinaldo e Francilene. 

Nena teve uma filha: Michelle. 

Maria de Jesus casou com o Zequinha e teve cinco filhos: Jacira, Jandira, Nelma, Jefferson e José Augusto.

Deusa teve uma filha: Raimunda Nonata. 

Homem de sete instrumentos, tio José foi capataz de fazenda, prático de embarcação, gerente de serraria, motorista de caminhão, dono de garimpo e um incansável perseguidor das icamiabas que incendiavam sua imaginação e seus sonhos. Dos quatro irmãos, era o mais fisicamente parecido com o Pai Simão.

Ele se casou com Felismina e teve seis filhos: Ruth, Ronaldo, Rubens, Maria José, Graça e Graciete.


Ruth casou com Miguel e teve dois filhos: Mário e Márcia. 

Ronaldo casou com Ivanete e teve um filho: Renildo. 

Rubens casou com Lucilene e teve três filhos: Cíntia, Sílvia e Rubem Junior. 

Maria José casou com Luiz Sá e teve quatro filhos: Luciene, Luciane, Luciana e Luiz Junior.

Graça teve um filho: José Pessoa Neto. 

Primo do Pai Simão, Joaquim Cardoso casou com Iracema Espírito Santo e os dois se transformaram em padrinhos do Simas. Eles tiveram cinco filhos: Dagoberto, Doralice, Deise, Darcy e Joaquim (aka “Quincas”). 

Irmã da tia Iracema, tia Iracy teve três filhos: Valdemir, Valdir e Nei. 

Também irmã da tia Iracema, tia Sinfrônia Carioca da Costa teve seis filhos: Carlos, Cláudio, Clóvis, Creuza, Cleber e Cléia. 

Irmão da três, tio Francisco teve uma única filha, Rossineide Espírito Santo.

Tudo índio, tudo parente!

A Origem das Espécies: O Clã Bandeira


Dona Rosalina Bandeira – minha avó materna e a única que conheci – nasceu em Coari, no médio Rio Solimões, e era supostamente descendente de índios Apurinãs. 

Vovó Rosa tinha o perfil e a personalidade de uma autêntica guerreira apache: falava firme e não admitia contestações. 

Ela se casou com o seringalista José Bonifácio da Silva, com quem teve sete filhos: Edith (aka “Dica”), Rosalina (aka “Rosa”), Maria, Celeste, Lucas, Algemira (aka “Algima”) e José. 

Quando José Bonifácio também foi abatido pela malária, vovó Rosa abandonou as terras que possuía em Coari, colocou as tralhas (incluindo os moleques) dentro de uma canoa e se mandou para Manaus, conduzindo a embarcação no muque. 

Se não tivesse parado na cidade para comprar mantimentos era bem capaz de Vovó Rosa só acabar desembarcando em Belém. Ou na Europa. A velha era determinada. 

Aquele bando de moleques remelentos dentro de uma canoa, fazendo perguntas impertinentes (“Ainda falta muito?”, “Não vai parar não?”, “A senhora tem certeza de que é por aqui?”), devem ter contribuído para ela desenvolver uma fobia a curumins. 

Assim que pisou em terra firme, vovó Rosa se encarregou de “dar” os filhos para serem criados por famílias em melhor situação financeira do que ela e passou a morar sozinha. 

O caçula José chegou a ser entregue para adoção a um casal de missionários norte-americanos, mas foi resgatado por Edith e Rosalina algumas horas antes de embarcar no navio rumo aos EUA.

Zé Bandeira, como se tornou conhecido, nunca esqueceu esse episódio. Sempre que enchia a cara de truaca e constatava a merda de vida que estava levando, ele ficava revoltado:

– Se não fossem minhas duas irmãs mais velhas, eu hoje seria um fazendeiro no Arkansas, estaria casado com uma gringa de cabelos ruivos e teria um casal de filhos loirinhos e de olhos azuis! A Dica e a Rosa afuleilaram o meu futuro! Hoje eu não sou um cidadão do primeiro mundo por causa delas!

A casa da vovó Rosa ficava no bairro de São Francisco, na beira de um sacovão que a gente chamava de “Cafundó” porque devia ser lá que o Judas perdeu as botas. 

O acesso ao vale do sacovão exigia perícia e coragem para descer por meio de uma precária escada de barro de quase trinta metros, íngreme ao extremo (quase 90º de inclinação) e cavada no próprio morro. 

O sacrifício valia a pena: era lá que estavam as “cacimbas”, todas devidamente identificadas, que os moradores utilizavam nos seus afazeres diários. 

Eu ficava mesmerizado observando aquele quadrilátero de madeira fincado sobre uma espécie de areia peneirada de onde brotava um olho d’água. 

Meus primos não viam graça nenhuma naquilo, obrigados que eram diariamente a descer e subir a escada de barro levando uma lata d’água na cabeça.


Tia Dica e Giovani, na Praça da Matriz

Quituteira de mão cheia e dona de um coração ultra generoso, tia Dica teve um casal de filhos: Giovani e Arinéia. Durante muitos anos, ela foi a governanta oficial da casa da minha irmã Simone. 

Uma das lendas da família diz que tia Dica, para sustentar seu primeiro filho, Giovani, foi trabalhar como diarista na casa do velho Aristeu e criou gosto pelo patrão. Acabou sendo engravidada por ele. 

A mulher do sujeito, uma catimbozeira oriunda de Codó, no Maranhão, não gostou da presepada e fez um feitiço para deixar tia Dica aleijada pelo resto da vida. 

A catimbozeira não devia ser do ramo porque o feitiço acabou atingindo a vovó Rosa, que não tinha nada a ver com o peixe: um belo dia, a vovó acordou e não conseguiu flexionar a perna direita. 

Apesar dos vários exercícios de fisioterapia e dos tratamentos pouco ortodoxos (reza, massagens com banha de cobra, unguentos milagrosos, etc), vovó Rosa ficou com a perna dura pelo resto da vida.


Tia Rosa, cuja formosura enchia os olhos de milhares de admiradores e vivia permanentemente de bom humor, teve quatro filhos: Carlito, Marluce, Vera e Júlio. 

Por ser o primeiro neto, Carlito virou o xodó da vovó Rosa, tendo sido praticamente criado por ela. 

Eu gostava muito de frequentar a casa da tia Rosa, no centro histórico de Manaus, onde era sempre recebido com carinho, pudim de leite e refresco de mangarataia.


Altair, tia Maria, Cília e Sônia, na Praça São Sebastião

Tia Maria, que tinha os traços imponentes de uma rainha africana, teve seis filhos: Auxiliadora (aka “Cília”), Altair, Sônia, Ana, Dagnês e Solange. 

Durante trinta décadas, Altair foi campeão absoluto de dominó nos bairros de Petrópolis, Raiz, São Francisco e adjacências. 

Abusado ao extremo, ele costumava levantar todas as pedras nas mãos, gritava os pontos que estava fazendo e aí deixava uma das pedras cair sobre a mesa. 

Um de seus xerimbabos rapidamente pegava a pedra e colocava na “ponta” onde ele gritara os pontos. 

Se por acaso o xerimbabo errasse o posicionamento da pedra, seria brindado com um bonito tabefe no pé do ouvido. 

Meu primo Altair faleceu de câncer há alguns anos.


Tia Algima, a caçula e a mais bonita de todas, se casou com Adamor, o melhor jogador de dominó que já vi na vida, e teve sete filhos: Marcondes, Nalu, Narley, César, Lincoln, Nara e Adamorzinho. 

Pintor, bombeiro hidráulico e eletricista, Adamor era um verdadeiro homem dos sete instrumentos. 

Foi o único sujeito que conheci capaz de comer duas dúzias de pimenta malagueta com um único pedaço de jaraqui frito. 

E o único a fazer 495 pontos, sentando sozinho todas as pedras do dominó, saindo com as carroças de ás, de duque e de terno (saindo com a carroça de duque, até eu faço...). 

O tio Adamor morreu há alguns anos, de complicações decorrentes da diabetes. 

Meu primo Adarmozinho morreu ainda rapaz, durante um dilúvio que se abateu de madrugada sobre o bairro de Petrópolis. 

Adarmozinho estava ajudando seus vizinhos a fugirem da alagação quando um muro desabou sobre ele.


Tio Zé Bandeira nunca se casou, mas teve um casal de filhos: James e Joana. 

Ao longo de sua existência, foi um fervoroso pregador rastafári e seus olhos permanentemente vermelhos faziam jus ao sobrenome. 

Ele conhecia a Bíblia de trás pra frente e da frente pra trás e era capaz de citar passagens inteiras do Apocalipse sem errar na colocação de uma única vírgula. 

Fosse um pouquinho mais ambicioso, teria ficado rico como pastor de igreja neopentencostal.


Tio Lucas e meu primo Carlito, na Praça da Polícia

Tio Lucas, que na juventude tinha a compleição física de Cassius Clay, se casou com a doce Maria e teve sete filhos: Luiz Carlos, Edmilson, Lucas, Nádia, Tânia, Sandra e Clissia Greice. 

Extremamente educado, cortês, bem-humorado e um tremendo pé de valsa, tio Lucas era um dos maiores abatedores de lebres da cidade (meu primo Edmilson tem dado continuidade à saga...), mas aposentou as armas depois de casado. Não sei bem por que, mas nunca acreditei muito nessa história. 

Tio Lucas trabalhava como motorista da Prefeitura, por onde se aposentou, e teve papel decisivo na minha formação cultural. Explico melhor.

No começo dos anos 70, tio Lucas passou a dirigir a caçamba da Prefeitura responsável pela coleta e destinação final de revistas da Amazonas Distribuidora. 

Naquela época, as revistas recolhidas das bancas tinham o título da capa recortado e o miolo era descartado no lixão da Prefeitura para ser incinerado – porque era mais barato do que pagar o frete de reenvio das revistas encalhadas para as editoras do sul do país. 

A prestação de contas do “encalhe” era feita mediante envio dos títulos recortados. 

Tio Lucas começou a nos presentear semanalmente com dezenas de exemplares de gibis e revistas (Mickey, Tio Patinhas, Pato Donald, Mônica, Batman, Superman, Recreio, Veja, Capricho, Geração Pop, Placar, etc.), recolhidas diligentemente do lixão antes da incineração final.

Comecei a colecionar a revista Placar a partir dos exemplares que ganhava dele – coisa que seria impossível de fazer bancando do próprio bolso. 

Quando tio Lucas estacionava a caçamba em frente de casa e nos entregava de 30 a 40 gibis novinhos em folha de uma vez só, somente faltando o título na primeira capa, aquilo era uma verdadeira festa para os olhos. 

Até hoje não entendo por que, em vez de serem incineradas, as revistas não eram doadas para as escolas públicas da periferia, já que uma revista onde está faltando apenas o título não faz a menor diferença pra quem tem vontade de ler. Coisas do capitalismo selvagem, desconfio.


Nascida no dia 18 de maio de 1932, minha mãe foi criada por uma família de comerciantes libaneses no bairro da Cachoeirinha, onde recebeu uma educação esmerada. 

Ela conheceu meu pai quando estava com 18 anos, se casaram dois anos depois e a Simone nasceu no mesmo dia em que minha mãe completava 21 anos. A Silene nasceu em junho do ano seguinte. Eu demorei um pouco mais e só nasci em maio de 1956. Depois nasceram a Silane (dezembro de 58), a Selane (agosto de 59) e o Simas (outubro de 61). 


Tia Maria Pessoa e minha prima Raquel

Quando eu estava com sete anos de idade, tia Maria, irmã do Pai Simão, resolveu me criar. 

Minhas primas Raquel, depois esposa do advogado Lourenço Braga, ex-reitor da UEA, e Rossicler, depois esposa do centroavante matador Rodrigo Marques e uma das mulheres mais lindas que meus olhos já viram (uma Brigite Bardot nativa), acabaram virando minhas tutoras. Deu no que deu. Não as culpo por isso, claro. 

Morei com a tia Maria Pessoa durante quatro anos (de 1963 a 1966) e desconfio que foram alguns dos anos mais felizes de minha vida.

Não tive um irmão mais velho (apesar de a Simone valer por quinze), daí ter me afeiçoado tanto ao meu primo José Alberto Régis Batista, o Cazuza. 

No final dos anos 60, ele era o “endiabrado demônio louro” do juvenil do Olímpico (radialistas adoram pleonasmos), ao lado de Wandi, Calderaro, Bioca, Mário Bacuri e outros craques. 

Lembro-me dele no quintal da casa batendo sacos de cimento vazios para tirar a “sobra”, sacos esses que ele recolhia peregrinando pelos poucos canteiros de obras existentes na cidade. 

Na sequência, Cazuza preparava uma panela de goma de maisena numa fogueirinha de gravetos e eu ficava hipnotizado observando aquela alquimia poderosa. 

Depois, pacientemente, Cazuza ia lavando os sacos de cimento, secando ao sol, abrindo, dobrando, colando, costurando e transformando aquilo tudo em sacolas de papel, que no dia seguinte seriam vendidas no Mercado Adolpho Lisboa para carregar carne. Uma mão de obra federal! 


Socorro, Rossicler, Cazuza, sua esposa Lia e a filha do casal, Liliam

Também me lembro dele já vendedor da Livraria Colegial, trazendo revistas de HQ em consignação, pra ler em casa, que eu roubava na maior cara dura e depois traficava para as meninas (Simone e Silene), na casa de meus pais, sem saber que aquilo era descontado no salário do meu primo. 

Ele nunca ter me dado umas porradas por isso diz mais do caráter dele do que do meu.