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terça-feira, junho 26, 2012

Quase uma declaração de amor



Minha flor-de-lis resolveu me visitar na última sexta-feira. Estava deprimida, ansiosa e irritada. Achou que dormir comigo lhe faria bem.

Conversamos sobre isso e aquilo outro, sendo isso e aquilo outro as vicissitudes de permanecer vivo. Ela se acalmou.

Custa crer que uma garota de 21 anos tenha crises existenciais. A Camila tem. 

Eu vou morrer sem saber de nada.

Crise? Que crise?!

– Eu me olho no espelho, acho que estou ficando feia e que você não gosta mais de mim! – disparou, tentando segurar o choro.

Eu olhei para aquele corpo perfeito, para aquela potranca incrivelmente bela diante de mim e não resisti a uma ironia vulgar:

– Caraco! Se você ficar melhor do que isso, apodrece! Na minha época, essa sua crise existencial se chamava TPM...

Ela ficou cabreira pelo pouco caso que dei à sua vontade de morrer, entendeu o meu quase riso como uma confirmação de seus demônios interiores e começou a chorar copiosamente. 

Foi um parto desfazer o mal entendido.

Eu vou morrer sem entender as mulheres.


A primeira vez em que dormimos juntos, dois-anos-ontem, eu, só um pouquinho menos apaixonado do que hoje, notei que a Camila não cobria os pés.

Peguei uma colcha e improvisei uma espécie de ninho para aquelas duas aves morenas que se abraçavam loucamente, como se uma necessitasse do calor da outra.

Alguns meses depois, coloquei no quarto um Split de 18 mil BTUs – o que transformou o mocó em uma espécie de câmara criogênica –, mas notei que os pés da Camila continuavam sempre fora das cobertas.

Então, entendi que, mais que um hábito, os pés desnudos eram uma declaração de princípios, um gesto simbólico de insubmissão.

Ao longo de todos esses meses, ou seja, de ontem pra hoje, perdi a conta das vezes em que sentei, silenciosamente, para contemplar, como que enfeitiçado, o mistério dos pés dela, procurando descobrir que segredos eles poderiam estar me contando na imobilidade aparente do sono.


Na semana passada, eu os cobri com um edredom dobrado e entrei em pânico ao ver que eles se agitavam como se estivessem sufocando.

Livrei-os depressa do cativeiro, cobri minhas avezinhas de beijos e jurei que nunca mais violaria o direito delas à liberdade.

E de repente, como no soneto do Vinicius, não mais que de repente, compreendi que se um dia, no futuro próximo-distante, essas duas aves morenas quiserem bater asas, eu morro.

2 comentários:

Alberto Iron disse...

Pedófilo!

Tony Jefferson disse...

Parabens pela Gostosa!