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quinta-feira, janeiro 18, 2018

O cão chupando manga e a sobremesa divina


Por Marcos de Vasconcellos

Carlos Augusto Camargo, arquiteto, foi visitar um amigo e, diante da insistência da mãe, ficou para jantar, mesmo contrariado. Quem não conhece mãe de amigo, que é obcecada para agradar? Mas não é comum, por cortesia. É derramamento de agrado, catadupa de atenções, cachoeiras de Jocastas. No ensarilhar de talheres:

– Foi bem servido. Carlos Augusto?

– Fui, sim senhora. Um esplêndido jantar.

– Tem certeza que não quer mais um peitinho de frango?

– Não senhora. Muitíssimo obrigado. Estou repleto.

– Uma saladinha?

– Não, D. Zilu. Realmente comi como um abade. Não me cabe uma isca.

– Não me faças cerimônia, hein! A casa é sua como se fosse de um filho. Aqui é assim. Tudo é de todos. Vamos, coma mais um franguinho! Você está muito magrinho!

O filho tenta acudi-lo:

– Mamãe. O Camargo não quer mesmo.

A mãe atropeladora, amuada, manda tirar a mesa. A contragosto naturalmente; gostaria que o Camargo lhe lambesse as migalhas.

Sobremesas, preparem-se. Mãe de amigo, as gordotas mais afoitas babam-se por oferecer doces. D. Zilu, então, para exibir-se ao visitante, ativou todos os doces da geladeira, mesmo os da semana passada. O pudim de pão foi remontado às pressas, ganhou calda nova e carapuça de ameixa. E, presidindo a mesa (o destino bate à sua porta): o doce de mamão verde!

Interrompo esta singular narrativa para uma informação necessária. Conheço o Camargo há muitos anos. Fizemos o vestibular juntos, cursamos a faculdade juntos, partilhamos muito tempo o mesmo escritório. É uma pessoa extremamente afável, decerto, pelo que se depreende do diálogo acima reproduzido, jamais ergue a voz, anda invariavelmente de terno, é educadíssimo. Para se ter uma ideia, é um dos raros brasileiros que não usam secretária para chamados telefônicos e marca visita com antecedência.

Duas coisas, porém, transtornam o Camargo. Duas coisas que ele abomina com todas as forças dos nervos, com todo o ardor do coração: jogador que perde pênalti – e exatamente! – doce de mamão verde.

Ninguém sabe porquê, mas suspeita-se de um trauma infantil, como a história do primeiro porre: se foi de gin, diz-se, nunca mais pronuncia-se essa palavra maldita. Tudo, menos doce de mamão verde.

Entra de volta D. Zilu, a boca encharcada de prazer insopitável:

– Um docinho, Carlos Augusto?

– D. Zilu, agradeço muito, mas não costumo comer sobremesa. Vou esperar pelo cafezinho.

Até aquela hora o Camargo não tinha reparado no cardápio rico de doces, à sua frente, entretido que estava, bem à vontade, falando sobre o fim dramático de uma aventura na serra: a morte trágica do gato Pimpão.

D. Zilu:

– Um pedacinho de pudim de coco? De pão?

– Não senhora. Obrigado, D. Zilu. Mas aí, o Chaffic propôs uma partida de pingue-pongue. Eu sou fissu...

– Vou botar um pouquinho pra você provar.

– D. Zilu, eu realmente não como sobremesa. Só vou tomar o cafezinho.

– Ora, Carlos Augusto, não seja enjoado, pára como essa cerimônia. Pelo menos um pouquinho de doce de mamão verde. Fiz especialmente para você. Vá.

Camargo fingiu que não ouviu para não ter que acreditar.

– Mas aí, começou a partida. Eu e o Chaffic. Em volta, a criançada brincado com o gato, o Pimpão. O Chaffic joga muito bem e...

– Olha, Carlos Augusto, botei um pouquinho para você.

  Camargo ainda tentou apelar, justiça lhe seja feita.

– D. Zilu! Sou diabético!

D. Zilu trila o apito:

– Ah, ah, ah, ah, ah, essa é boa! Você é uma bola! Ah, ah, ah, Carlos Augusto! Vá! Experimente só um bocadinho! Não me faça desfeita.

Na frente do Camargo o desgraçado do prato de doce de mamão verde, igual à abominável iguaria servida em sua casa, provavelmente com aquele mamão vindo do sítio de Correas, trazido na mala do carro, colhido fora de tempo, disentérico.

Confusas lembranças de infância somaram-se à matraca que à sua frente ria e empurrava-lhe, goela e moral abaixo, aquela abominação.

Camargo levantou-se, esgazeado, empunhou a colher, segurou o prato com a pasta verde translúcida e deu a primeira colherada. O projétil pegou o pescoço do pato sangrando, natureza morta de Oswaldo Teixeira. A segunda, melou os cristais do lustre cintilante comprado com sacrifício em S. Simon. A terceira, compôs estalactites na alvura do teto recém- pintado e a quarta inutilizou o lorgnon que madame assestara para, horrorizada, acompanhar a melação do jogo, o jogador desvairado.

Esgotada a munição do pratinho, Camargo atacou o paiol, a terrina com o resto do TNT verde. Sobraça o pirex e, com a catapulta de prata na outra mão, vai saindo aos berros, varejando bocados de doce de mamão verde em tudo que encontrava pelo caminho: no Lacoonte de bronze, no espelho de cristal bisotado, na cara de Roberto Carlos, no Graff-Zeppelin, no dó, no dó sustenido, no ré, no fá, no Lello Universal, na Santa Ceia...

– Eu detesto doce de mamão verde! Eu odeio doce de mamão verde! A senhora pega seu doce de mamão verde e enfia no cu!

...colherada no Juscelino dedicado, no Genaro, no Kirmã e foi saindo porta afora. Na rua ainda gritava:

– Velha maluca! Olha aqui o doce de mamão verde!

E arrepanhava as partes, sacudindo-as.

Pra encurtar: secou a terrina, varejou tudo na calçada, deixando atrás de si um rastro verde e inesquecível que vinha desde o campo da batalha principal – onde derrotou as travessas de D. Zilu – ultrapassava a soleira e parava no coração aliviado, na infância restada e nos intestinos vingados.

Heróis de antologia: os mágicos magiares


Por Sílvio Lancellotti

Em 1949, Gustav Sebes, ministro de Esportes da Hungria, decidiu construir um time de futebol invencível. Depois de viajar a sua pátria, por 12 meses, na procura de jovens talentos, Sebes congregou todos os seus descobertos num único clube, o Honved de Budapeste. Deu-lhes postos militares, moradia, salários generosos, farta alimentação, assistência médica, apoio psicológico. Em 1950, o Honved conquistou o título nacional.

Em 1952, desenhada à sua imagem e à sua semelhança, a seleção da Hungria levou o ouro da Olímpiada de Helsinque, na Finlândia. Em 1953, numa excursão pela Europa, a Hungria ignorou a pompa do templo sagrado de Wembley e dilacerou o time da Inglaterra: 6 a 3. Numa revanche, em Budapeste, em 1954, reprisou a humilhação: 7 a 1. Os nomes dos craques magiares, como Ferenc Puskas, Sandor Kocsis e Zoltan Czibor, logo viraram sinônimo da categoria – numa época sem muitas estrelas. Naqueles idos, o elenco da Hungria era o único que se aquecia com antecedência antes das pelejas.

Mesmo sem nenhuma conexão com o chamado soccer, o governo dos EUA determinou que a sua incipiente CIA negociasse a defecção dos magiares. A Federação da Hungria, então, tinha um dirigente de dupla face, Janos Kantos, ou Janos Molgar, um provável espião. Caberia a Kantos/Molgar convencer Puskas & Cia a escapulirem para o Ocidente. Desconfiados, Puskas & Cia optaram por aguardar uma chance melhor. Além disso, desejavam conquistar a Copa da Suíça. Perderam a decisão por 3 a 2, fisicamente dilapidados pelo campo pesadíssimo e pela violência da Alemanha.

Dois anos depois, quando os tanques da URSS invadiram a Hungria, Puskas & Cia, em excursão com o Honved, ludibriaram a segurança da sua delegação e se refugiaram na Espanha. Puskas só retornaria à sua pátria em 1987. Kocsis e Czibor soçobraram em destinos mais cruéis. Artilheiro da Copa da Suíça, 11 tentos em cinco prélios, Kocsis se suicidou. E Czibor morreu louco. Ah, nunca mais a Hungria reuniria um elenco tão precioso...

A hospitalidade carioca na terra do acarajé


Por Marcos de Vasconcellos

Por força de uma transferência de cargo, um casal carioca mudou-se para Salvador, carregando filharada e teréns. Depois do incêndio da mudança, ainda no rescaldo, mal tinham assentado o rabo na casa nova, bate-lhes à porta um companheiro de escritório, de passagem pela Bahia.

Era um sujeito corpulento e vinha resfolegante, suado, reclamando do calor desgraçado. Estava de avião marcado para dali a três horas, a visita era rápida, entregar uns papéis mandados do Rio e algumas explicações. Entrou, abancou-se. Dadas as instruções, tomado o café e o copo d’água, meia hora depois, levantou-se para ir embora.

Os donos da casa encresparam:

– Mas ir esperar duas horas pelo avião naquele calor insuportável do aeroporto de Salvador? Não faça isso não. Fiquei aqui em casa mais um pouco, é mais fresco, mais agradável. Você devia é tomar um banho. Com este maldito calor, vai se sentir bem melhor.

Tanto insistiram que o visitante, agradecido, aceitou o convite e alegremente foi para o banho restaurador.

Quando faltavam quarenta minutos para a viagem, o casal resolveu chamar o cidadão que, com certeza, dormira no banheiro pois o ocupava há mais de uma hora.

Não houve meios de acordá-lo, por mais que esmurrassem a porta, por mais que gritassem. Sem outra alternativa, o anfitrião involuntário abriu a porta do banheiro e, de fato, o cavalheiro estava dormindo na banheira: o sono eterno. Qual Marat esfaqueado pelo coração, o defunto jazia com pose de escândalo. Aí, começou o inferno.

Polícia civil, investigadores, delegados, legistas, polícia técnica, peritos, repórteres, a privacidade do lar conspurcada por um cadáver e uma multidão de curiosos. A boataria, tão ao gosto baiano, fervilhou no prédio, desceu à portaria, saiu para a rua, invadiu o quarteirão, a cidade, quase o país. Houve até um vizinho meio surdo que garantiu ter ouvido tiros.

Quando conseguiram serenar as situações policiais, restaram o casal e o cadáver a ser despachado para o Rio, encargo que coube ao feliz hospedeiro do maldito cardíaco.

Depois de dias de peregrinação, sem conseguir localizar nenhum parente do falecido ou sequer um amigo e aconselhados por um servente do Instituto Médico Legal da terra do acarajé, experimentando no métier, despacharam o morto num engradado de laranjas. Destinatário: o patrão. Remetente: o Mercado Modelo.        

A bunda mais bonita da cidade


A indiana Sumeet Sahni, considerada a dona da bunda mais bonita do planeta

Por Samy Wursman

Os dois tapinhas que o Dr. Freitas lhe deu no bumbum, assim que nasceu, fizeram Lucinha chorar pela primeira vez. Doze anos depois, o bumbum já era bunda, e o Dr. Freitas a faria chorar novamente, quando cedeu a um ímpeto desenfreado de deslizar suas mãos pelas nádegas da menina, enquanto ela dormia. Por este tempo, Lucinha já sabia a diferença entre um carinho afetuoso, uma apalpada clínica e um sarro. Já havia lido O Médico e o Monstro, e encarou o gesto do Dr. Freitas com repugnância.

E a bunda crescia... Por debaixo das calças cada vez mais apertadas, um gigante adormecido ia se insuflando sem ser notado. Enquanto todos dormiam, na mansidão da noite, células adiposas e epidérmicas se agitavam freneticamente, dando relevo, volume, textura e cor ao traseiro que estaria sempre à frente, conduzindo por onde passasse as outras partes do corpo, como um comboio que segue o líder para não descarrilar.

Foi depois de umas palmadas do severo pai, por conta de alguma nota baixa na escola, que ela se revelou ao mundo em todo o seu esplendor. No terceiro tapa desferido, seu Moacir mirou mais fixamente a bunda da filha, e teve a sensação de que estava cometendo um pecado. Lembrou-se de Carla Perez, Tiazinha, Feiticeira... “Esta bunda vai ser patrimônio nacional, tombado. Como eu ouso tocar nela?”, ele pensou. “Se ontem eles comiam nossas bananas, hoje eles querem comer nossas bundas”.

Seu Moacir encheu-se de sonhos sobre o futuro da filha. Tirou-a da escola, matriculou-a em aulas de dança de “axé music”, em academias de lambaeróbica, em cursos de canto, e fazia arguição oral para checar se ela sabia as letras de todas as músicas de pagode. Como explicar para o leitor a perfeição daquela bunda? Era mais que o contorno. Era mais que a maciez e o colorido. Era mais que a rigidez e firmeza. Como uma obra de arte, a bunda de Lucinha podia ser apreendida pelos sentidos, mas não pela razão.

Apesar de provocar os homens usando shortinhos justos, biquínis encravados ou saias curtas que se suspendiam com um mero suspiro masculino, Lucinha jamais deixava homem algum tocar em sua bunda. “Esta bunda é uma dádiva do Senhor, sua criação sublime. Seria uma heresia alguém tocá-la”, dizia o pai zeloso. O Dr. Freitas ainda tinha o consolo de poder aplicar-lhe injeções quando ela estava gripada, mas era só.

Foi-se a virgindade e a bunda permanecia intacta. Podiam beijá-la na boca, acariciar-lhe os seios, possuí-la no maior fervor, mas que não encostassem um dedo na região sacra! E todos respeitavam a restrição imposta. Lucinha resolveu que também os objetos não poderiam mais tocar em sua bunda. Nenhuma cadeira. Nenhuma roupa. Nenhuma toalha. Só a chuva, o vento e os raios do Sol é que teriam o privilégio de estabelecer contato. Lucinha chegou a usar repelente, para afugentar os mosquitos mais excitados.

O sucesso chegou quando Lucinha foi convidada a rebolar num grupo de pagode e a posar em revistas masculinas. Ficou rica e famosa. Elegeu-se deputada, com o discurso de que toda mulher brasileira deveria ter acesso a uma alimentação básica que lhes desse o direito de ter uma bunda saudável e em forma.

Em uma de suas viagens pela África, foi coroada rainha de uma tribo local. Lá, então, comeram a bunda de Lucinha! Foi um grupo de canibais famintos. Que, posteriormente, se tornaram vegetarianos, para manterem eternamente o sabor daquela bunda em suas bocas...

A origem das milagrosas garrafadas nordestinas


Por Marcos de Vasconcellos

Essa história me foi contada pelo senador Ruy Palmeira (PFL-AL). Havia no interior de Pernambuco um conhecido boticário que juntava às funções de aviador de receitas, as de médico, cirurgião, conselheiro técnico e matrimonial. Tal prática é costumeira no Nordeste sobretudo nos municípios mais carentes, ou seja, todos.

Chegou na farmácia, carregado numa padiola improvisada, um cidadão que tinha levado uma carga de chumbo nos peitos e carga das mais competentes: cartucho 12, caroço 3.

O peito do infeliz era uma pasta de carne, sangue, pano e chumbo, beirando o desengano, mas o factótum mandou que o levassem para os fundos da botica. Lá, esvaziou um cartucho do mesmo calibre que esbagaçou o injuriado e laboriosamente o foi reenchendo com os grãos retirados da ferida. Horas depois, o cartucho cheio até a boca, deu por finda a catação.

O ferido gemeu cinco dias, afogueou-se em febre e delírio mais oito, deu por tenência de si no nono, convalesceu, sarou. A cicatriz restante não fazia jus ao estrago, tão bom foi o trabalho de restauração do boticário. O homem foi-se embora como novo para voltar uma semana depois com queixa:

– Ainda tem chumbo no ferimento, dotô...

– Não tem.

– Tem.

O doutor apalpou o peito do ressuscitado por desencargo de consciência. De fato, não tinha chumbo nenhum, mas o homem queria um remedinho. O dono da casa encheu um vidro médio com água destilada, coloriu com um pouco de azul-de-metileno, macerou erva-de-santa-maria e misturou mode ficar com gosto ruim, mode dar fé na cura. Recomendou: uma colher de manhã e uma de tarde, quando o sol se for. Até acabar o vidro. Nome do “remédio” escrito à mão na etiqueta: Chumbol.

Três meses depois, o doutor não tinha mãos a medir, tantas as encomendas do milagroso Chumbol. Em terra de muito tiroteio, a poção mágica fez extraordinária sucesso e logo foram acrescentados parentes na família: Facol, Porretol, Peixerol.

Mais tarde, contou Ruy Palmeira, o boticário, já riquíssimo, vendeu tudo e mudou-se para o Recife.

É como diz o Mauritônio Meira: o mundo se acaba e o Nordeste não se rende.

quarta-feira, janeiro 17, 2018

Quantos nomes de Bandas Nacionais vocês conseguem identificar nesta cena?


Revista FLASHBACK nº 10 - janeiro de 2006

Por Marcivaldo Lira

Em janeiro de 2006, comprei a edição nº 10 da revista Flashback que, como o nome sugere, relembrava vários programas, filmes, desenhos, bandas e eventos já antigos na época, iniciando a onda de Nostalgia que vem crescendo cada vez mais.

Pois bem, entre muitas matérias, uma página dupla me chamou a atenção por mostrar uma grande cena com diversos elementos estranhos e com a seguinte proposta: Cada grupo de figuras representa uma banda nacional. Você consegue identificar todas?

Lógico que passei um bom tempo verificando e consegui descobrir a maioria, porém algumas continuaram muito estranhas para mim. A resposta poderia ser vista no site ou na edição seguinte.

O problema é que essa foi a última edição da Flashback, e eu não possuía acesso à internet na época. Resultado: ainda não solucionei toda a imagem.




CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR

Por isso que, ao reencontrar recentemente esse meu exemplar, gostaria de compartilhar esta brincadeira. Quantos vocês identificaram?

NOTA DO EDITOR DO MOCÓ:

Por enquanto, já consegui identificar as seguintes bandas:


Catedral. Júpiter Maçã. Legião Urbana. Vulcano. Hanói Hanói. Barão Vermelho. 14 Bis. Angra. Nenhum de Nós. Blitz. Cachorro Grande. O Rappa. Lobão e seu Ronaldos. João Penca e os Miquinhos Amestrados. Cólera. Velhas Virgens. Jota Quest. Los Hermanos. Patrulha do Espaço. Capital Inicial. Skank. Pato Fu. Camisa de Vênus. Ratos de Porão. Placa Luminosa. Os Replicantes. Os Mutantes. Planta e Raiz. Detonautas. TNT. Roupa Nova. Engenheiros do Hawai. Móveis Coloniais de Acaju. Picassos Falsos. Ira. Made in Brasil. Os Titãs. Língua de Trapo. Metrô. A Cor do Som. Acústicos & Valvulados. Sempre Livre. Nação Zumbi. Garotos Podres. Kid Abelha e as Abóboras Selvagens. Biquíni Cavadão. Cidade Negra. Tianastácia. Grafite. Rádio Táxi. Dominó. Polegar. Magazine. Mukeka di Rato. Joelho de Porco. Lulu Santos. Inimigos do Rei. Ultraje a Rigor. Lixo de Luxo. Paralamas de Sucesso. Cidadão Instigado.

terça-feira, janeiro 16, 2018

A História do Paradise Garage


Quatro DJs que viveram os tempos áureos do mais emblemático clube de Nova York contam por que uma noite por lá era considerada uma experiência espiritual

Por Adam Bychawski

“Missa de Sábado” era como as pessoas chamavam os sets do DJ Larry Levan no clube mais lendário de Nova York, o Paradise Garage. “Da cabine, Larry pregava através da música dele exatamente como um padre ou pastor faz do púlpito”, diz o DJ David DePino, amigo próximo de Levan. Aliás, Levan fez seu sermão todo santo fim de semana da abertura do clube, em 1977 (quando ainda estava em construção), até o dia em que ele fechou as portas para sempre, no verão de 1987.

Localizado, como o nome indica, em uma garagem na 84 King Street, em Manhattan, o Garage foi um dos poucos clubes a ser construído para um DJ específico. O local em si não era particularmente digno de nota, mas o que faltava em decoração era compensado pelo seu reverenciado sistema de som e apaixonados membros.

A lenda do Garage é interligada com a de Levan, que era o DJ residente no sentido mais literal: a certa altura, ele chegou mesmo a morar no clube. Ele tratava o Garage com a reverência concedida a um lugar de culto, reposicionando o sistema de som durante a noite, parando o seu set às duas da manhã para polir os globos espelhados e até mesmo se certificando de que as lixeiras tivessem sido cuidadosamente limpas. Tudo isso parece impensável para um DJ hoje, mas, na época, o Garage era mais do que um clube – era a visão de Levan do paraíso.

Para a congregação do Garage, a política de acesso restrito a sócios oferecia uma sensação de santuário e propriedade. Era um dos poucos clubes de Nova York que os gays e, predominantemente, os afro-americanos e latinos podiam verdadeiramente chamar de seu. “O Garage era um lugar para as pessoas que não eram aceitas na sociedade, um lugar para elas serem livres, serem elas mesmas”, diz Victor Rosado, que trabalhou no clube.


A ferveção na pista em 1979

Mesmo depois da Rebelião de Stonewall, a violência homofóbica nas ruas e a repressão policial continuavam implacáveis. “Levou um tempo para conquistarmos a confiança da comunidade gay”, diz DePino. Eventualmente, as noites gay de sexta decolaram junto com os sábados, já populares, atraindo um público mais diversificado.

Rosado, que deu continuidade ao legado do Garage através da sua própria carreira como DJ, foi um dos poucos seletos para quem Levan deu a oportunidade de tocar no clube. “Foi uma grande surpresa para mim, era meu aniversário. Já tínhamos falado sobre música, mas eu definitivamente não esperava que o Larry fosse me pedir para tocar daquele jeito, do nada”, ele diz.

Levan se divertia pregando peças tanto nos seus amigos quanto no público, fosse tocando a mesma música várias vezes seguidas, durante uma hora inteira, ou bombardeando a pista com uma explosão súbita de graves. Mas a técnica que era a sua marca, era criar uma narrativa a partir dos sentimentos e letras das faixas que tocava, descrevendo cada uma delas como uma nova frase ou parágrafo das histórias que tentava contar ao longo dos seus sets de 12 horas.

Num domingo no final de novembro, Rosado, junto com DePino, Danny Krivit e Joey Llanos – todos os quatro ex-DJs do clube – chegam ao Ministry of Sound, em Londres, para um reencontro especial que buscava arrecadar dinheiro para duas instituições de caridade de combate ao HIV: o Gay Men's Health Crisis (GMHC), de Nova York, e o Terrence Higgins Trust, do Reino Unido. Então pedimos a Rosado, DePino, Krivit e também ao Justin Berkmann, do Ministry – que se inspirou nas suas experiências no Garage para montar o seu próprio clube – que nos falassem das suas memórias do Garage.


A fila para entrar no paraíso

ENTRANDO

Victor Rosado: A primeira vez que fui lá, esperei horas na rua na esperança de que alguém fosse me perguntar se eu queria entrar. Então conheci este cara, conversamos, acho que ele meio que gostou de mim, perguntou se eu queria entrar, e isso foi o começo de tudo.

Justin Berkmann: A primeira vez que fui lá era uma sexta, que eu não sabia que era a noite hétero. Era o único cara branco no lugar, estava levando esbarrões e solavancos e não entendia o porquê de toda aquela hostilidade. Eu já estava de saída quando um garoto apareceu e disse: Você não devia ter vindo hoje à noite, mas fique à vontade para voltar amanhã.

Rosado: Eu meio que passei por um interrogatório na minha primeira vez no clube, mas eles sossegaram depois de um tempo. Acho que eles só encrencam se nunca te viram antes.

Berkmann: Depois de três tentativas frustradas, finalmente consegui entrar numa noite de sábado [inicialmente, era uma noite exclusivamente gay]. Estava com o meu amigo Jimmy de Los Angeles. Ele acampou de um jeito escandaloso na porta. Não acho que eles tenham caído nessa, mas provavelmente pensaram: Se eles estão dispostos a ir tão longe, então devem querer mesmo entrar. Começamos a ir lá toda semana e, quando vimos, já tínhamos nossos cartões de sócio.


A pista lotada em 1981

O LUGAR

Danny Krivit: Era dentro de uma garagem de caminhões de dois andares. Você entrava subindo esta rampa iluminada por luzes coloridas dos dois lados, com um grande letreiro de neon com o logotipo do Paradise Garage em cima.

David DePino: Não era glamuroso, foi construído pensando primeiramente e acima de tudo no som e no conforto absoluto dos membros. Tinha dois lounges onde você podia relaxar e um cinema. Tinha até um piso de madeira com amortecimento para que os seus pés não ficassem cansados, porque queríamos que você ficasse até o fim.

Berkmann: Não tinha bebida ou bartenders, só um self-service com vasilhas de ponche. Também tinha um cinema com 80 lugares, e você podia assistir a filmes que estavam em cartaz em outros lugares na época. Não tenho ideia de como eles conseguiram isso. Me lembro de assistir a Três Amigos! completamente chapado, acho que nunca ri tanto na vida. É um bom filme, mas parecia ainda mais engraçado naquela noite.


Público mix: hétero, gay, negros, amarelos, brancos e latinos

O SOM

DePino: É o melhor som que ouvi até hoje. As pessoas seguidamente falam sobre o The Loft, que ele tinha o melhor sistema de som, mas o The Loft tinha um som bonito. O som do Garage era violento. À medida que as horas iam passando, o sistema de som se aquecia e as pessoas enchiam o ambiente, a acústica do lugar mudava. Então o Larry ajustava o som ao longo da noite para que ele permanecesse bom a noite inteira. De tempos em tempos, ele ia até o centro da pista para ver como estava o som. No dia seguinte, tinha que ser equalizado de novo, porque soava mal com o lugar completamente seco e vazio.

Rosado: O volume era absurdamente alto, e você podia sentir os graves pressionando o seu peito e ondulando pela pista. Eu não conseguia ficar bem na frente de uma caixa de som, não conseguia aguentar a pressão do som. 

Berkmann: Para mim, o som era o princípio e o fim de tudo. Acho que era a filosofia por trás dele que o tornava tão incrível. O Richard Long e o Levan estavam constantemente tentando melhorá-lo, afinando-o o tempo todo. Em vez de equalizar o sistema, equalizavam o ambiente. Então eles pegaram todo o conceito de sistema de som e o viraram de cabeça para baixo, fazendo o ambiente se adequar ao som e não o contrário.

Rosado: O Larry estava sempre mexendo no sistema. Ele era como um cientista maluco, fazendo experiências constantemente para tentar melhorar as coisas.


O DJ Larry Levan e seu fã-clube

A EXPERIÊNCIA

Rosado: As noites de sábado eram mais terra de ninguém, tinha algumas faixas que ele tocava aos sábados, que eram gay-friendly. As sextas eram mais mainstream, enquanto no sábado o céu era o limite.

DePino: Ao longo da noite, você podia ir para a pista, dançar umas duas ou três músicas e depois ir para os ambientes nos fundos e falar com os seus amigos, assistir a um filme, talvez, e depois socializar um pouco mais. Dançar não era o centro do clube, ele era uma experiência completa. 

Rosado: Era um refúgio, um lugar para ficar em paz. Parecia que o Larry estava falando com você através da música, as mensagens dele eram muito claras, e ele flutuava de uma mensagem para outra – isso era muito poderoso. É o mais próximo que se pode chegar de uma experiência religiosa, eu acho.

LARRY LEVAN

DePino: Eu sempre disse que as pessoas vinham para o Garage, mas era o Larry quem as levava para o paraíso. Aquele momento de êxtase vinha depois de cinco ou seis faixas, ou talvez duas, mas quando acontecia, era tipo: ‘Ah... Meu... Deus’. Desculpe o meu vocabulário, mas é como quando um homem se masturba [risos] e consegue o que está tentando alcançar... Algumas pessoas descrevem isso como uma experiência religiosa, mas para outras, é sexual. E algumas vezes parecia que o sermão dele estava falando diretamente com você, talvez você tivesse terminado com o seu namorado e ele estivesse tocando quatro ou cinco músicas sobre ser magoado. Se o Larry estava de mau humor... Ah, garoto, se ele estava apaixonado, então a música era linda, mas se ele estava irritado, a música era pesada.

Berkmann: Ele era um cara contando uma história, não tinha nada a ver com qual faixa soa bem mixada com aquela outra, tinha a ver com criar uma narrativa através do sentimento e das letras das próprias faixas. Então ele contava uma história com começo, meio e fim, depois a música parava, todo mundo aplaudia e ele começava outra história. Era totalmente diferente do que se faz hoje. 

Rosado: Ele tinha muito culhão e não tinha medo mostrar isso [risos]. Ele não aceitava desaforo de ninguém. Ele não dava a mínima para o que os donos pensavam ou diziam, não ligava para o que ninguém pensava ou dizia. Ele sempre fazia o que queria. E se isso significava tocar duas faixas ao mesmo tempo ou tocar a mesma música repetidamente, era o que ele fazia. 


Larry na cabine, comandando a massa

Berkmann: Ele era muito brincalhão, um cara muito engraçado. Adorava provocar as pessoas. Quando discotecou no Ministry [depois do fechamento do Garage], tocou “Finally”, da CeCe Peniston, em loop por 45 minutos. Isso mostra o tipo de cara que ele era, ele provocava o público tocando a porra de um disco por 45 minutos. Depois, quando ele trocou a música por outra coisa, todo mundo disse “Finally” [“finalmente”], e essa era a piada. Tudo isso por uma recompensa de dez segundos.

Rosado: Ele era o mestre da manipulação. As pessoas vinham querendo ser manipuladas por ele. Como Larry costumava dizer: ‘Eles querem que eu foda com eles, então é melhor que eu faça um bom trabalho’ [risos]. E às vezes as pessoas se sentiam assim literalmente, gritavam ‘Quero ter filhos com você’ da pista quando ele tocava certas faixas, sabe.

DePino: Mas a coisa toda era muito estratégica também, ele se adaptava à recepção do público. Era como se estivesse jogando xadrez com a pista: ‘Ah, você fez essa jogada, então só espere para ver o que eu vou fazer em seguida’. Em momentos como esse, Larry tinha o maior sorriso do mundo no rosto porque a pista o estava desafiando, e ele sabia que o público estava esperando uma reação dele.


Som de preto, mas sem preconceito

TOCAR NO GARAGE

Krivit: O Larry só me avisava casualmente: ‘Vou descer para dançar, toque algumas faixas, está bem?’

Rosado: Era como se ele me passasse o controle de um avião, eu podia ter feito o troço bater e explodir – mas graças a Deus isso não aconteceu. Quando toquei minha primeira faixa e o público gritou, a energia era tanta que tive que me afastar dos decks porque achei que ia ter um infarto.

DePino: Eu acabei entrando por acaso. Trabalhava no Garage e comecei a tocar no lugar do Larry quando ele estava atrasado, e o público me aceitou porque eu trabalhava ali e era amigo dele. Eu tinha respeito, se tocava pelas primeiras duas ou três horas, sabia que era só para aquecer o público e não tocava as faixas que sabia que o Larry tocaria.

Berkmann: Eu o trouxe para o Ministry porque o clube dele e ele próprio me inspiraram a criar o meu clube. Então eu queria o carimbo de autoridade dele, era o meu sonho fazê-lo tocar lá. Era para ele ficar só por um fim de semana, mas em vez disso ele chegou oito dias atrasado e ficou três meses.


A 84 King Street hoje

POR QUE O CLUBE ERA ESPECIAL

DePino: Toda casa noturna é um refúgio, e eu acho que o Garage também era. Você não ia para o Garage todo arrumado para pegar um garoto ou garota, ia de jeans e até levava uma muda de roupa para se trocar se ficasse suado – o clube tinha até vestiários. Então todo mundo era bem-vindo, você podia ter 18 ou 80 anos, ser branco ou negro, asiático ou hispânico, hétero ou gay, iam cadeirantes também. Se você vinha para se divertir, era tudo o que importava.

Rosado: Era como estar em casa, um refúgio, e essa experiência compartilhada nos reuniu. Tinha gays, héteros, drag queens, brancos, negros, asiáticos. Era um caldeirão. Todos eles vinham para se expressar.

DePino: As noites de sexta demoraram mais para decolar porque levou um tempo até que se espalhasse que o Garage era um lugar seguro para os gays, e levou um tempo até as pessoas perceberem que a polícia não ia entrar no clube. A comunidade gay tinha que ser mais cuidadosa, eles nunca sabiam o que esperar. Mas quando finalmente rolou, era como entrar em um mundo de aceitação, um mundo onde as pessoas não julgavam.


Siga o Adam no Twitter: @adambychawski


Tradução: Fernanda Botta

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual


Em texto publicado no “Le Monde”, com o título deste post, um coletivo de 100 mulheres, incluindo Catherine Millet, Ingrid Caven e Catherine Deneuve, afirma sua rejeição a um certo feminismo que expressa um “ódio aos homens”. Leiam o texto completo e tirem suas próprias conclusões:

Na sequência do caso de Weinstein, houve uma consciência legítima da violência sexual contra as mulheres, particularmente no local de trabalho onde alguns homens abusam do seu poder. Ela era necessária. Mas essa libertação do discurso torna hoje o seu oposto: somos intimadas a falar corretamente, silenciar o que incomoda e aquelas que se recusam a cumprir tais injunções são consideradas traidoras, cúmplices!

Mas é característico do puritanismo pedir emprestado, em nome de um suposto bem geral, os argumentos da proteção das mulheres e sua emancipação para melhor vinculá-las ao status de vítimas eternas, coitadinhas sob a influência dos falocratas demoníacos, como nos bons velhos tempos da feitiçaria.

Delações e acusações

De fato, #metoo iniciou na imprensa e nas redes sociais uma campanha de denúncia e acusação pública de indivíduos que, sem ter a oportunidade de responder ou se defenderem, foram colocados exatamente no mesmo nível que os agressores sexuais. Esta justiça expeditiva já tem suas vítimas, homens impedidos do exercício de sua profissão, obrigados a demitir-se, etc., quando seu único erro foi terem tocado um joelho, tentado roubar um beijo, falado sobre coisas “íntimas” em um jantar de negócios ou enviado mensagens sexualmente explícitas para uma mulher com a qual a atração não era recíproca.

Essa febre de enviar “porcos” ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a se emancipar, na verdade serve aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários e daqueles que acreditam, em nome de uma concepção substancial do bem e da moral vitoriana que o acompanha, que as mulheres são seres “à parte”, crianças com rosto de adulto, exigindo proteção.

Diante disso, os homens são convocados a vencer sua culpa e encontrar, no fundo de sua consciência retrospectiva, um “comportamento mal colocado” que eles poderiam ter tido dez, vinte ou trinta anos atrás, e dos quais eles deveriam se arrepender. É a confissão pública, a incursão de promotores autoproclamados na esfera privada, que instaura um certo clima de sociedade totalitária.

A onda purificatória parece não ter limites. Aqui, censuramos um nu de Egon Schiele em um cartaz; ali pedimos a remoção de uma pintura de Balthus de um museu com base em que seria uma apologia à pedofilia; na confusão do homem e da obra, pedimos a proibição da retrospectiva Roman Polanski na Cinémathèque e obtemos o adiamento daquela dedicada a Jean-Claude Brisseau. Uma acadêmica considera o filme de Michelangelo Antonioni Blow Up “misógino” e “inaceitável”. À luz deste revisionismo, John Ford (The Prisoner of the Desert), e até mesmo Nicolas Poussin (The Abduction of the Sabines) não estão numa situação melhor.

Alguns editores já estão pedindo a algumas de nós que façamos nossos personagens masculinos menos “sexistas”, que falemos sobre sexualidade e amor com menos desmedida ou ainda que deixemos o “trauma sofrido pelas personagens femininas” mais óbvio! À beira do ridículo, um projeto de lei na Suécia quer impor um consentimento explicitamente notificado a qualquer candidato para relações sexuais! Só mais um esforço e dois adultos que quiserem dormir juntos deverão preencher via um “App” em seu telefone celular um documento em que as práticas que eles aceitam e aquelas que eles recusam serão devidamente listados.

Indispensável liberdade de ofender

Ruwen Ogien defendeu uma liberdade de ofender indispensável à criação artística. Do mesmo modo, defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual. Somos hoje suficientemente conscientes para admitir que a pulsão sexual é por natureza ofensiva e selvagem, mas também somos suficientemente clarividentes para não confundir paquera desajeitada e assédio sexual.

Acima de tudo, temos consciência que a pessoa humana não é monolítica: uma mulher pode, no mesmo dia, liderar uma equipe profissional e gostar de ser o objeto sexual de um homem, sem ser uma “vagabunda” ou uma vil cúmplice do patriarcado. Ela pode cuidar para que seu salário seja igual ao de um homem, mas não se sentir traumatizada para sempre por um esfregador no metrô, mesmo que isso seja considerado um delito. Ela pode até mesmo considerar isso como a expressão de uma grande miséria sexual, como um não-evento.

Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além da denúncia de abusos de poder, toma forma de ódio aos homens e à sexualidade. Acreditamos que a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar. E consideramos que é preciso saber responder a essa liberdade de importunar de outra forma que se encerrando no papel de presa.

Para aquelas de nós que escolhemos ter filhos, sentimos que é mais sensato criar nossas filhas de modo que sejam suficientemente informadas e conscientes para viver suas vidas sem se deixar intimidar ou culpabilizar.

Os acidentes que podem tocar o corpo de uma mulher não atingem necessariamente sua dignidade e não devem, por mais difíceis que possam ser, necessariamente torná-la uma vítima perpétua. Porque não somos redutíveis ao nosso corpo. Nossa liberdade interior é inviolável. E essa liberdade que estimamos não vem sem riscos ou responsabilidades.

As redatoras deste texto são Sarah Chiche (escritora, psicóloga clínica e psicanalista), Catherine Millet (crítica de arte, escritora), Catherine Robbe-Grillet (atriz e escritora), Peggy Sastre (autora, jornalista e tradutora) e Abnousse Shalmani (escritora e jornalista).

Assinam também: Kathy Alliou (curadora), Marie-Laure Bernadac (curadora geral honorária), Stephanie Blake (autora de livros infantis), Ingrid Caven (atriz e cantora), Catherine Deneuve (atriz), Gloria Friedmann (artista visual), Cécile Guilbert (escritora), Brigitte Jaques-Wajeman (diretora), Claudine Junien (geneticista), Brigitte Lahaie (atriz e apresentadora de rádio), Elisabeth Lévy (editora-chefe da Causeur), Joëlle Losfeld (editora) Sophie de Menthon (presidente do movimento ETHIC), Marie Sellier (autora, presidente da Société des gens de lettres).


Viva a França!

Frevos e marchinhas ‘politicamente incorretas’ causam polêmica no carnaval


Por Isabelle Barros

Durante décadas, as músicas que fizeram a alegria do Carnaval passaram longe do que se convencionou chamar de politicamente correto. Foliões de todo o Brasil já cantaram com todas as forças músicas com letras que se tornaram desconfortáveis à luz dos direitos conquistados por mulheres, negros e do segmento LGBT. No Rio de Janeiro, no período pré-carnavalesco deste ano, blocos já se tornaram foco de bate-boca por cantarem músicas como Maria Sapatão, Teu cabelo não nega ou Cabeleira do Zezé. Mesmo no frevo, há canções caracterizadas por apresentarem um conteúdo que parece incompatível com a militância social observada nos dias de hoje. Mas boicotar esse tipo de música é a solução ou é inútil, dada a longevidade dessas canções?

Para o premiado compositor J. Michiles, autor de sucessos como Diabo louro, é o povo quem tem de escolher. “Eu sempre digo o seguinte: é difícil fazer o fácil, ou seja, uma música que se ouve pela primeira vez e já se sai cantarolando. Quanto ao tema, cada um tem seu gosto. Essa coisa de temas mais engraçados e de duplo sentido é mais vista em marchinhas cariocas, apesar de existirem frevos com essa característica. Eu não gosto de compor canções assim porque esse tipo de música geralmente passa logo. Se você refinar mais sua composição, ela dura mais na mente das pessoas. Um compositor que não frequenta o Mercado de São José, os becos, as calçadas, as festas de Olinda, não pode fazer música. Eu simplesmente sinto essa emoção e retribuo”.

O médico, ator e compositor Reinaldo de Oliveira, por sua vez, afirma que o carnaval atual precisa ter uma palavra que já se tornou clichê quando se fala do período momesco: irreverência. Assim como J. Michiles, Reinaldo identifica motivos simples e fatos cotidianos como grande fonte de inspiração, tanto dos frevos quanto das marchinhas cariocas que fizeram tanto sucesso em carnavais passados. “O duplo sentido cabe sim hoje em dia, mas a poesia ainda tem o seu lugar.  As músicas eram inocentes, não eram ofensivas. Dou o exemplo com uma marcha de Jorge Veiga: A história da maçã / é pura fantasia / maçã igual àquela / o papai também comia / eu li num almanaque / que um dia de manhã / Adão tava com fome / e comeu a tal maçã / comeu com casca e tudo / não deixou nem a semente / depois botou a culpa / na pobre da serpente. Este duplo sentido é francamente aceito e foi muito cantado".

Há 50 carnavais, Reinaldo, junto com Gildo Branco, também deram sua contribuição às marchinhas politicamente incorretas, ao compor a música Ela sabe. A letra era uma resposta ao sucesso Cala a boca, menino, de Capiba, lançada em 1966. Os dois primeiros versos já traziam palavras polêmicas: o homem tem que dar todo dia na mulher / para ela ficar do jeitinho que ele quer. “Fizemos a música em duas partes e, na segunda, havia a resposta feminina com o Duo Aymoré, senão eu ia apanhar das mulheres”, lembra o ator e compositor. “Havia uma marcha em um ano e, no carnaval seguinte, havia uma resposta. Assim, as pessoas se entendiam sem se desentender. Éramos todos amigos, havia essa procura por um bom sentido das músicas”, completa.

O jornalista e historiador Leonardo Dantas Silva, por sua vez, contemporiza a questão afirmando que as músicas tidas como politicamente incorretas foram produzidas a partir da dinâmica social do passado. “Isso relembra uma época específica e não vejo motivo para tanto cerceamento. Nem nos anos de chumbo se via isso. Infelizmente, querem que o Brasil tenha esse ranço e censure tudo. Acho essa uma falta de criatividade da atual geração, pois nunca mais se viu um compositor popular encher a boca de todo o país. Os sucessos do Carnaval ainda são canções compostas nos anos 30 e uma forma de medir essa aceitação eram as paródias criadas”.

Leonardo exemplifica as composições de duplo sentido voltadas para o Carnaval com criações dos Irmãos Valença. “Eles eram craques nisso. Fizeram músicas como Quem furou sua cuíca, referência a uma moça que foi pular carnaval e perdeu a virgindade. Outra deles tinha o verso Vou pedir a papai para casar com você, referência a uma vizinha de ambos. Era uma maneira de dizer, de forma cifrada, que ela estava grávida”. Segundo o pesquisador, as diferenças entre as marchinhas e o frevo, por exemplo, têm mais a ver com a antiga posição de centralidade política do Rio de Janeiro, um dia capital do país. “Havia uma tendência para fazerem marchinhas e paródias de figuras políticas, como Washington Luiz”.

O pesquisador musical Renato Phaelante, por sua vez, chama à reflexão sobre o teor das músicas carnavalescas de forma mais equilibrada. “Cantar músicas como essa é uma faca de dois gumes. As opiniões sobre o certo e o errado sempre vão existir na humanidade, mas no Carnaval tudo aflora. Acho muito difícil uma censura a esse tipo de música funcionar, embora haja componentes nelas impossíveis de se aceitar hoje em dia. Como historiador e como pesquisador, acho importante elas serem tratadas como algo de seu tempo. O frevo também tinha o mesmo processo. Nelson Ferreira, por exemplo, era um repórter do cotidiano”.

O fator mobilizador das canções lançadas para o período momesco, segundo Phaelante, é importante para entender o quanto elas conseguiram atravessar gerações, mas o pesquisador aponta que também é preciso abrir espaço para uma visão mais contemporânea a respeito dessas composições. “A música é uma forma de opinar sobre a política e o social e o Carnaval é época das sátiras, de despertar o humor. Se a música faz parte da história da MPB, por que omitir? Disseram que Rui Barbosa mandou rasgar documentos da escravatura e isso foi prejudicial para a história. Acho que a música, em si, é um documento, e pode vir a interferir na sociedade em seu tempo. Era uma coisa natural do começo ou de meados do século 20. O que não faz sentido é compor, nos dias de hoje, uma música naqueles mesmos moldes, porque estamos em um tempo no qual os preconceitos estão sendo derrubados”.

MULATA E MARIA SAPATÃO?

O carnaval parecia ser o último refúgio para palavras como “mulata” ou “sapatão”, que ainda sobrevivem nas marchinhas mas passaram a ser malvistas no resto do ano. A primeira, por ter uma conotação racista e de objetificação da mulher. A segunda, por depreciar a orientação sexual das homossexuais femininas. Os compositores, ao menos de marchinhas cariocas ou de samba, passaram a levar essa questão em conta na hora de criar, mas este ainda não é um ponto pacífico para quem tem o auge de suas atividades no período momesco.

No Rio de Janeiro, a escola de samba Porto da Pedra, que vai desfilar no sábado de Carnaval no Grupo de Acesso, vai homenagear as antigas marchinhas de carnaval – até mesmo as mais polêmicas – este ano. “Carnaval é brincadeira e deboche, as pessoas estão ficando muito chatas”, afirmou ao jornal O Globo O carnavalesco Jaime Cezário. O desfile deste ano, com o samba-enredo Ó abre alas que as marchinhas vão passar. Porto da Pedra é quem vai ganhar…seu coração, terá alas como as da Maria Sapatão, no qual mulheres de jaqueta de general, botina e saia nas cores do arco-íris. Já a música O teu cabelo não nega, composta pelos Irmãos Valença e levemente modificada por Lamartine Babo, vai ganhar um carro alegórico só para ela.

Até a cantora Ivete Sangalo entrou em uma brincadeira proposta pelo humorista Marcelo Adnet, em um programa de TV, relacionada às marchinhas de carnaval. Músicas famosas como Cabeleira do Zezé receberam um “raio empoderador”, ou seja, foram parodiadas para atenderem a critérios mais humanistas. A letra original (“será que ele é?”) virou “ele pode ser o que ele quiser”. O grupo É o Tchan e a cantora Fafá de Belém também foram convidados a cantar versos como “Esse é o som do século 21/não tem duplo sentido e nem assédio algum/eu tô falando do axé politicamente correto/que não trata mulher como objeto”.

A discussão sobre o limite para a brincadeira nas composições de Carnaval chegou não apenas às marchinhas ou ao samba-enredo, mas também foi abraçada pelas rodas de samba. O compositor carioca Fernando Procópio compôs a canção Eu vos declaro, e parte dela tem os seguintes versos: “Eu vos declaro marido e marido / Eu vos declaro marido e mulher / Hoje a união tem um novo sentido, tudo é permitido, casa quem quiser / O filho da mãe não é filho do pai / tem dois pais, duas mães / quem é quem ninguém diz / Olha, eu aprendi com a vida / Família bonita é família feliz”.

Já o compositor carioca Thiago Vasconcelos criou a Marchinha do fim das marchinhas. O tema é justamente a mudança da percepção dos foliões sobre o significado das antigas músicas carnavalescas: “Mamãe, eu não quero mais nada / devolveram o coração do jacaré / As águas que iam rolar secaram / e até cortaram a cabeleira do Zezé / Pedi desculpas à mulata / E dos carecas elas não vão gostar / Marchinha com hoje em dia não combina”.

AXÉ

Na Bahia, existe uma lei estadual, sancionada em 2012, conhecida como Lei Antibaixaria. O texto prevê fiscalização, com circulação pelos blocos a desfilarem no Carnaval e multa de R$ 10 mil para gestores públicos estaduais que contratarem artistas com letras ofensivas às mulheres. Outro alvo de polêmica foi um dos maiores sucessos da axé music, Fricote, dos baianos Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, lançada em 1985 contendo os versos “Nega do cabelo duro / que não gosta de pentear”. O teor da música, apontado por movimentos sociais como racista, chegou até a ser alvo de protesto em festas em Salvador.

O Viver também selecionou algumas canções com letras consideradas, atualmente, como politicamente incorretas. Veja:

ELA SABE – Gildo Branco/Reinaldo de Oliveira/Irmãs Aimoré, em resposta a Cala a boca menino)

O homem tem que dar todo
dia na mulher
pra ela ficar do jeitinho que ele quer
Ele pode nem saber porque está dando
mas ela sabe porque está apanhando

Sou obrigada a lhe censurar
pois a mulher foi feita pra se amar
fale quem quiser
eu não faço alarde
mas o homem que bate na mulher
é um covarde

QUEBRA CANELA (1931) – Música de Nelson Ferreira e letra de Samuel Campelo

Se tu não quebra mulata
Na tua venta que é chata
dou tanto rela
que estira como embuá
Dou-te um tapa, mulata
Na venta chata
Que mais se achata
E até se encaixa
Como bolacha
Dentro da lata

Mulata quebra a canela
Se não eu te dou mais nela

Se não me dás esse enlevo
Na tua venta me atrevo
Dou tanto nela
Que espicha como socó
Faço-te um alto relevo
Na venta chôcha
Mulata frouxa
E te escrevo
Com tinta roxa
Mesmo no frevo

Mulata quebra a canela
Se não eu te dou mais nela

NEGA MALUCA – Linda Batista

Tava jogando sinuca
Uma nêga maluca me apareceu
Vinha com um filho no colo
E dizia pro povo que o filho era meu

Não, senhor!
Toma que o filho é seu
Não, senhor!
Guarde que Deus lhe deu

Não, senhor!
Toma que o filho é seu
Não, senhor!
Guarde que Deus lhe deu

Há tanta gente no mundo
Mas meu azar é profundo
Veja você, meu irmão
A bomba estourou na minha mão

Tudo acontece comigo
Eu que nem sou do amor
Até parece castigo
Ou então influência da cor


DÁ NELA – Ary Barroso

Esta mulher
Há muito tempo me provoca
Dá nela! Dá nela!

É perigosa
Fala mais que pata choca
Dá nela! Dá nela!

Fala, língua de trapo
Pois da tua boca
Eu não escapo

Agora deu para falar abertamente
Dá nela! Dá nela!

É intrigante
Tem veneno e mata a gente
Dá nela! Dá nela!


O TEU CABELO NÃO NEGA – Irmãos Valença/Lamartine Babo

O teu cabelo não nega mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega mulata
Mulata eu quero o teu amor

Tens um sabor bem do Brasil
Tens a alma cor de anil
Mulata mulatinha meu amor
Fui nomeado teu tenente interventor

Quem te inventou meu pancadão
Teve uma consagração
A lua te invejando faz careta
Porque mulata tu não és deste planeta

Quando meu bem vieste à terra
Portugal declarou guerra
A concorrência então foi colossal
Vasco da Gama contra o batalhão naval


A reportagem foi publicada originalmente na Superedição do Diario de Pernambuco dos dias 11 e 12 de fevereiro do ano passado

sexta-feira, janeiro 05, 2018

BICA anuncia tema para 2018: o troca-troca de governadores


Por Juan Gabriel

A tradicional Banda Independente Confraria do Armando (BICA) já divulgou o tema escolhido para o carnaval de 2018 que será “Amazonas é um Circo de Horrores, em um ano teve três Governadores”, uma forma de satirizar as sucessivas trocas no comando do Estado ao longo de 2017.

“É difícil escolher só um tema em um ano em que aconteceu tanta coisa. A gente parte dos assuntos locais, o que de relevante aconteceu por aqui e depois vê assuntos nacionais. Nós sentamos, discutimos e resolvemos focar na troca de governadores que só em 2017 tivemos três, é uma situação atípica”, destaca a empresária e organizadora da banda, Ana Cláudia Soares em relação a escolha para o carnaval do ano que vem.

O anúncio foi feito como forma de antecipar a divulgação do bloco que tem previsão para acontecer no dia 3 de fevereiro. Apesar da escolha do tema já ter sido anunciada, Ana Cláudia, que também é filha do português Armando Soares, fundador do “Bar do Armando” e um dos criadores da BICA, que faleceu em 2012, destaca que a marchinha oficial ainda está em fase de finalização e que tem previsão de ser lançada em meados de janeiro.

Precursora

A Banda da BICA tem um parágrafo considerável na hora de contar a história do carnaval amazonense. Fundada em 1987 por um grupo de amigos frequentadores do Bar do Armando, o bloco, que todo ano toma conta da Avenida 10 de Julho, Centro, se destacou a princípio por ser um dos primeiros a fomentar o carnaval de rua na cidade de Manaus.

“Eu acho que a banda representa muito pra Manaus. É a segunda de maior expressão e a mais antiga de rua. Quando ela surgiu a gente não tinha carnaval de rua, era tudo restrito aos clubes. Quem queria pular carnaval tinha que ir para os clubes, pagar, fazer fantasias, era uma festa mais elitizada. A primeira banda de rua que surgiu foi a do Mandy’s Bar, que não existe mais, e em seguida fomos nós que seguimos até hoje fortalecendo o carnaval de rua para todos. É uma festa que não precisa de dinheiro, é de graça, é o carnaval pra todo mundo”, destaca Ana Paula Soares.

Sempre polêmica, a banda traz em sua essência a destreza em satirizar assuntos pertinentes no cotidiano amazonense, em especial no meio político, onde contornos bem-humorados se misturam a rebeldia de quem não tem vergonha em fazer graça com os governantes. O tema de 2018 segue o molde, mas não é o primeiro. Em 2017, o tema foi “Tem dinheiro. Se não roubar, dá pra fazer”, em alusão ao bordão que marcou a disputa pela prefeitura em 2016.

quarta-feira, janeiro 03, 2018

Mais do mesmo: alguns possíveis caminhos dos caciques barés na Eleição 2018


Por Durango Duarte

O “novo” MDB de Eduardo Braga possui um único objetivo em 2018: reelegê-lo para mais oito anos como senador. Esqueçam de qualquer ideia sobre uma terceira tentativa de ele concorrer ao governo do Estado.

Uma nova derrota exporia Braga ao nível do que vive José Melo hoje. O mandato é o berço encantado da impunidade, vide o caso de Aécio Neves.

O pragmatismo de Braga é altíssimo. Após a eleição suplementar, já conversou com Amazonino mais de uma vez. Com a influência do governo, seu mentor poderá ajudá-lo em sua vitória, independentemente de Mendes ser ou não candidato à reeleição.

Intimamente, Eduardo torce para que Omar Aziz e Arthur Virgílio Neto rompam com Amazonino, o que facilitaria seu projeto. Amazonino também alimentará essa possibilidade, pois sabe que o tempo do MDB e as relações de Braga poderão substituir os aliados que, possivelmente, iriam trilhar outro caminho.

Braga fará alianças explícitas – ou não – com candidatos de todos os partidos, para as eleições de deputados federais e estaduais. O MDB é um peso e um custo que não vale a pena bancar exclusivamente. Então, cuidado aos emedebistas com seus sonhos de uma eleição proporcional.

O PT (de tantos grupos e matizes) depende 100% do rumo que a vida de Lula terá a partir de 24 de janeiro. No Amazonas, o partido deve, provavelmente, lançar alguém para o Senado e abrir mão de um nome para governador.

O melhor quadro para senador é Francisco Praciano, e, para ajudar na manutenção de uma boa bancada na Câmara Federal, o nome do deputado estadual José Ricardo Wendling desponta.

Assim, os petistas precisarão, obrigatoriamente, de uma coligação com consistência e apelo popular. Lula candidato ganhará fácil no Amazonas, mas não transferirá votos. No plano da Assembleia Legislativa, o PT repetirá o modelo das últimas eleições: um monte de ingênuos reelegendo o seu atual presidente estadual, Sinésio Campos.

O PP terá um papel importante na aliança com o deputado estadual David Almeida, eventual e mais forte adversário de Amazonino neste momento. Cada chapa ao governo terá dois nomes para as duas vagas de senador, e a pessoa de Rebecca Garcia é a melhor opção nessa colocação. Ela fechou 2017 liderando as pesquisas, produto natural do recall de ter sido candidata ao cargo de governador.

A deputada federal Conceição Sampaio deverá ficar no partido com esse arranjo. Do contrário, usará a janela da troca partidária em março e assumirá uma legenda para chamar de sua. O PP ficou enfraquecido no parlamento estadual, com o fim do projeto de ter nomes populares na grade da TV Rio Negro (Band Amazonas).

Arthur Virgílio Neto enfrentará as prévias do PSDB contra Geraldo Alckmin em março. Não é o favorito, mas já colocou todo o partido refém, ao expor, nos debates internos e para a grande mídia, uma visão diferenciada do puritano e insosso governador de São Paulo.

O prefeito de Manaus, no mínimo, deixará sua marca e voltará à cena política nacional, que já conhece bem. Caso Alckmin seja escolhido o candidato do PSDB à presidência da República, não passará da quarta posição no Amazonas.

Após essa batalha entre os tucanos, Arthur terá o dia 6 de abril para tomar sua maior decisão pessoal: continuar ou não à frente da Prefeitura de Manaus.

Se escolher sair, o caminho natural, e mais adequado após sua presença nas prévias, é o de concorrer a uma das vagas ao Senado. Seu principal aliado no plano estadual é o senador Omar Aziz. Eles encontrarão um caminho novo neste ano.

Se Arthur optar por concluir seu mandato, colocará Marcos Rotta numa das disputas majoritárias, e seu filho, Arthur Bisneto, será candidato a deputado estadual.

O PSD de Omar Aziz terá seu primeiro grande momento logo em março, com uma renovação significativa: a saída da turma que optou por não seguir a orientação partidária na eleição passada e a entrada de um novo grupo.

Omar terá três situações para definir seu caminho: aguardará o desempenho do atual governador, a decisão de Arthur e como ficará a sua imagem junto à opinião pública.

Apoiará fortemente, pelo menos, um nome para o Senado e dois para deputado federal. A relação com Amazonino Mendes é uma incógnita, e nisso reside um dos principais movimentos do jogo eleitoral.

As falas do atual governador, em reuniões e conversas pessoais com o mundo político e empresarial, são de quem não anda muito preocupado com as consequências do que diz sobre todos. Deputado Pauderney é um bom exemplo.

Até a próxima parte.

Lulu Santos critica música popular e fãs de Anitta reagem


Por Christiana Lemos

No começo de dezembro, a cantora Anitta lançou seu novo clipe, “Vai Malandra”, e em menos de 24 horas, a estreia deu o que falar. Poucos minutos antes do clipe ser divulgado, Lulu Santos foi ao Twitter fazer seu comentário sobre a música brasileira e, ao que tudo indica, alfinetar o clipe de Anitta: “Caramba! É tanta bunda, polpa, bumbum granada e tabaca que a impressão que dá é que a MPB regrediu pra fase anal. Eu, hein?”, escreveu o também cantor.

Diversas pessoas começaram a discutir – alguns concordando com Lulu, enquanto outros o criticavam, alegando que seria uma crítica não apenas a um determinado tipo de letras de música, mas a todo o gênero do funk e até mesmo a moradores de periferia.

Muito criticado pelos seguidores, Lulu Santos abriu espaço para dialogar e conversou com um seguidor, tentando expor seu ponto de vista. Contudo, a discussão não deu muito certo e o músico decidiu colocar um ponto final na conversa publicando que sua crítica não tinha nada a ver com Anitta.

Com a polêmica, até mesmo o funkeiro Buchecha posicionou-se a favor de Lulu, que falou mais sobre o comentário posteriormente: “Que fique bastante claro que minha opinião sobre as letras escatológicas, pessoal, intransferível e soberana, nada tem a ver com Anitta, de quem gosto e a quem respeito, muito menos com as periferias onde se continua fazendo excelente arte e vida. Respeito! Grato”, escreveu Bochecha.


Vai, malandra: os Lulus ladram e a caravana de Anitta passa


Por Nathalí Macedo

Deve ser difícil, no mínimo, ser a Anitta. Todos opinam sobre seu cabelo — dread é “apropriação cultural”, bleh! –, sobre seu discurso, sobre sua bunda. Talvez ela nem se incomode tanto, porque está ocupada produzindo clipes sensacionais.

O último, da música “Vai Malandra”, foi, por si, a resposta afiada que a cantora costuma direcionar aos haters: trancinhas no cabelo, com apropriação cultural e tudo, uma bunda brasileiríssima sem correção nas celulites e um Brasil muito brasileiro escancarado numa superprodução pro mundo inteiro.

Anitta, que prometia, com os rumos estéticos de sua carreira, uma abordagem artística cada vez menos brasileira, surpreendeu, de novo. Só a linguagem do clipe é meio gringa (e faz mal?): o resto é Brasil, nu e cru.

Lulu Santos, que aparentemente não entende nem de Brasil nem de música, criticou nas redes o clipe, a cantora e a bunda. Pfff.

Aqui cabe um parêntese: nem a bossa nova, careta por tradição, comungaria da chatice da persona Lulu Santos, que compete com a chatice de suas músicas. Talvez fosse mais facilmente aceito no rock, que se tornou um velho careta e conservador, mas até pra isso lhe falta musicalidade.

Não, Lulu, não é só uma bunda: O funk de Anitta tem gerado discussões sociais contemporâneas e importantíssimas, e não é de hoje. Assim caminha a humanidade, graças a gente como você, a passo de formiga e sem vontade.

Aliás, não foram só a bunda e as tranças que incomodaram: a esquerda progressista (risos) não brinca em serviço quando o assunto é cagação de regra.

Reclamaram — e muito — do olhar masculino do produtor do clipe, acusado de assédio, como se isso tirasse o mérito empoderador do clipe e da música.

Spoiler: se o olhar fosse verdadeiramente masculino, as tais celulites teriam sido apagadas na edição.

Não foram, porque a última palavra é dela, e eu não sei vocês, mas eu tenho um orgasmo mental só de imaginar uma mulher impondo as próprias celulites diante de um produtor assediador metido a importante.

Vai, malandra. Os cães ladram e a caravana passa.

Empoderamento feminino: que diabéisso?


Por Mariana Santos

Cada vez mais é comum escutarmos sobre o empoderamento feminino ou até mesmo falarmos sobre ele no nosso dia a dia. Mas você sabe o que significa? Já parou para pensar no impacto deste conceito em seu cotidiano?

Vamos começar falando um pouco sobre o tal empoderamento, o que ele significa? Segundo o dicionário, empoderar significa “conceder ou conseguir poder; obter mais poder; tornar-se ainda mais poderoso.” Paulo Freire foi o primeiro a traduzir o termo para o português e para ele empoderamento é a “capacidade do indivíduo realizar, por si mesmo, as mudanças necessárias para evoluir e se fortalecer”.

Assim, podemos definir o empoderamento feminino como o movimento em que a mulher toma poder para si, buscando se fortalecer e promover ações pela igualdade de gênero. Também podemos considerar o empoderamento como uma maneira da mulher tomar as rédeas da sua vida, tomando as decisões sobre ela e fazendo suas próprias escolhas.

Quando olhamos para a criação da maioria das mulheres, percebemos que muitas vezes o outro (em sua maioria, do gênero masculino), acaba por tomar as decisões referentes à vida delas e assim, por diversas vezes fazem as “escolhas” por elas, de acordo com o que consideram mais adequado. 

Com essa falta de autonomia sobre as nossas vidas, crescemos e mesmo na vida adulta deixamos que o outro tome as decisões sobre o nosso dinheiro, carreira, vestimentas, entre outros. E assim, nos apagamos enquanto protagonistas da nossa história. 

Por isso o movimento do empoderamento feminino se torna tão importante para o protagonismo das mulheres, pois ele devolve à mulher o poder sobre as suas decisões, deixando-as livres para que façam suas escolhas.

Ao falarmos de mulheres empoderadas, não estamos falando apenas das mulheres em cargos de liderança ou de mulheres empreendedoras, aqui entra aquela famosa frase “lugar de mulher é onde ela quiser”, ou seja, se é uma escolha da mulher ser dona de casa, médica, engenheira, caminhoneira, eletricista ou psicóloga, isso a torna uma mulher empoderada, pois sua decisão foi baseada em suas escolhas e no que ELA considera que é o melhor para sua realização pessoal.

O empoderamento feminino não é apenas um movimento interno da mulher, é um movimento social, para que este movimento seja realmente efetivo e assim se conquiste a igualdade de gênero, é necessária a contribuição de todas e todos. É necessário que toda a sociedade participe e passe a empoderar a mulher seja na família, faculdade, trabalho, etc. 

A ONU Mulheres criou uma cartilha com os princípios para o empoderamento das mulheres e para alcançar a igualdade de gênero no Brasil. Segundo a cartilha, os 7 princípios para o empoderamento das mulheres são:

1. A liderança promove a igualdade de gênero: Estabelecer liderança corporativa de alto nível para a igualdade de gênero.

2. Igualdade de oportunidades, inclusão e não-discriminação: Tratar todos os homens e mulheres de forma justa no trabalho – respeitar e apoiar os direitos humanos e a não-discriminação.

3. Saúde, segurança e fim da violência: Garantir a saúde, a segurança e o bem estar de todos os trabalhadores e as trabalhadoras.

4. Educação e formação: Promover a educação, a formação e o desenvolvimento profissional das mulheres.

5. Desenvolvimento empresarial e práticas da cadeia de fornecedores e de marketing: Implementar o desenvolvimento empresarial e as práticas da cadeia de suprimentos e de marketing que empoderem as mulheres.

6. Liderança comunitária e envolvimento: Promover a igualdade através de iniciativas e defesa comunitária.

7. Transparência, medição e relatórios: Mediar e publicar os progressos para alcançar a igualdade de gênero.

Embora seja necessário que toda a sociedade participe e passe a empoderar cada vez mais as mulheres para alcançarmos a igualdade de gênero, muitas mulheres não conseguem assumir o empoderamento. 

Esta dificuldade muitas vezes está ligada com a baixa autoestima, pois como somos criadas com o outro tomando nossas decisões e muitas vezes não acreditamos que somos capazes, não conseguimos assumir uma postura empoderada. 

Assim, buscar uma psicóloga ou psicólogo pode auxilia-la a trabalhar sua autoestima e se fortalecer para que assim se torne protagonista da sua própria história.

Fontes:
https://www.dicio.com.br/empoderar/
http://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2016/04/cartilha_WEPs_2016.pdf
http://www.mulheresconectadas.com.br/10021-2/


Mariana Santos
CRP 06/126116
Psicóloga Clínica, graduada em Psicologia pela UNIP.
Conhecimento avançado em LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais (Derdic/PUC-SP).
Atende na Chácara Santo Antônio – São Paulo/SP
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