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segunda-feira, setembro 17, 2012

Medo e delírio em Copacabana



Eu entrevistando Fausto Wolff com uma miratinga, na casa do radialista Joaquim Marinho

Allan Sieber
Especial para a FOLHA

Estávamos eu, Arnaldo Branco e Leonardo – o “nightmare team” da finada revista F (2004-06) – descendo o Cosme Velho rumo ao Posto 6, em Copacabana, mais precisamente para o apartamento do escritor e hooligan Fausto Wolff (1940-2008), que comemorava o aniversário naquela noite.

Eis que o celular de Arnaldo deu sinal de vida (ele era o único de nós a possuir tal aparato do demônio). Era minha amiga Denise, ele atendeu e me passou o aparelho: “Ela quer falar com você.”

“Oi, Dedê. É, acabou aqui, a gente tá indo para a casa do Fausto. Você já tá aí? (...) Hã?? Sério? Por quê?(...) Entendi (...). Valeu por ter avisado. Beijo.”

Desliguei e devolvi o celular para o Arnaldo.

“Fodeu. Dedê falou que o Fausto está possuído. Ele viu a F impressa e leu na frente de todo mundo a entrevista com ele. Ficou puto. Ele quer arrancar nossas cabeças e pisar em cima.”

Diante dessa notícia, não tivemos outra opção senão abortar o plano de aparecer na casa dele e ir beber em outro lugar. Ninguém em sã consciência peitaria Fausto Wolff, mistura de urso com geladeira dos anos 50.

No começo de 2006, decidimos entrevistá-lo para o quarto – e derradeiro – número da F. Fazíamos parte da seleta lista das pessoas em quem ele ainda não queria bater, Faustin von Wolffenbüttel era nosso ídolo, e ainda havia o fato de ele estar tramando uma insana campanha para presidente nas eleições daquele ano e querer nossa ajuda.

Armados de duas garrafas de White Horse – e algumas doses já na cabeça –, chegamos no apartamento do Mito.

A ideia era eu, Arnaldo, Leonardo e nosso amigo André Dahmer, também cartunista, entrevistá-lo, e João Cabral – meu sócio na época e o único Comunista de Verdade em todo o Rio, junto com o próprio Fausto – registrar tudo em vídeo.

Tinha tudo para dar errado, e obviamente deu.

Apesar de uma isquemia meses antes, o velho lobo estava mais sedento do que nunca, e nós, “amiguinhos gentis e amadores”, como ele gostava de frisar, tentando acompanhar o seu ritmo viking.

Duas horas e três garrafas depois, Fausto tentava fumar uma nota de R$ 50 e nos xingava sem perdão, “vocês sãos uns merdas, a revista de vocês é uma merda, vocês só entrevistam merdas”, enquanto pensávamos numa maneira de sair do apartamento da avenida Atlântica sem hematomas e com a câmera intacta.

Por dias um sentimento de frustração tomou conta dos outrora bravos editores da minúscula F. Tínhamos fracassado na aparentemente simples missão de entrevistar nosso ídolo e faltava pouco para entregar a revista na gráfica.

Sem esperança, Arnaldo começou a decupar as fitas. Surpresa: estava muito melhor do que lembrávamos (?). Com um pouco de esforço, dava para dizer inclusive que foi uma ótima entrevista, dada as condições, os entrevistadores e o entrevistado.

Fausto tinha falado sobre os seis meses em que pescara sardinhas no mar do Norte; o fato de que não declarava Imposto de Renda fazia 30 anos; o dia em que bateu o temível Mariel Mariscot numa queda de braço; a ocasião em que comeu Brigitte Bardot em Búzios sem saber que era Brigitte Bardot; a sessão de LSD em 1962 supervisionada por um médico loucão; e, por fim, suas desavenças – muitas, a maioria impublicáveis – com o velho amigo Ziraldo, quando este era editor do Caderno B, no JB.

A certa altura, Fausto falou: “Olha, essa vai ser a primeira entrevista que não vou pedir para ler antes de ser publicada, confio em vocês.” Mas fizemos questão de mandar o texto editado para ele.

Para nosso espanto, ele nos devolveu a entrevista reeditada, com perguntas e respostas que nunca existiram – dava uma aliviada em Ziraldo, colocava na nossa boca questionamentos com “segundo dados do IBGE” etc. Por algum motivo obscuro – talvez seu tamanho e peso –, ele acreditava piamente que publicaríamos a versão dele, e por isso ficou tão transtornado ao encontrar a entrevista verdadeira na revista.

Meses depois ele estava nosso amigo de novo, é claro. Minha maior recordação de todo o episódio é a inspiradora frase:

“Eu vou explicar para vocês, porque sou jovem há muito mais tempo que vocês...”

2 comentários:

Rodrigo Junqueira disse...

Que delícia essa história da entrevista, Simão. Teu blog é que nem padaria, sempre tem algo quente esperando pela gente.

Marcelo disse...

essa entrevista é antológica.

por que não relata esse encontro com o LOBO em Manaus?