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quinta-feira, outubro 20, 2011

Everything But The Girl


Via email, o maragato brizolista e engenheiro José Teomário Nunes (aka “Teo Macanudo”), lá da distante Passo Fundo (RS), faz algumas indagações pertinentes:

Carálio, Simon People, mas fiquei com vontade de me acolherar com os guris na festança do teu irmão caçula.

Bah, que deve ter sido trilegal, tchê!

Não sabia que aí se faz creme de murici, apesar de sempre ter achado o técnico santista meio frutinha.

Só não entendi o seguinte: que diabo é piracuí? É parente do pirarucu?

E que diabo de entrevero foi esse que leva o nome da minha banda favorita?

Ficou parecendo coisa de RPG para iniciados, caro poeta!

Tem mãe no meio? Ou tem no meio da mãe?

Pelo sim, pelo não, eu, no seu lugar, teria sacado a guasca e dado umas relhadas no matungo pra ele não confundir tareco com tererê!

Grandiabraço do brodão de sempre e lembranças para a indiarada

Teo Nunes


Caríssimo Teo Macanudo, faz tanto tempo que não tenho notícias suas (15? 20? 25 anos desde nosso último porre no Bar Calígula?) que nem imaginava você usando uma roupinha de escafandrista, lenço vermelho no pescoço e vindo mergulhar nesse humilde blog, tendo mais de 200 milhões de similares a sua disposição na nossa imensa blogosfera.

Mas abarque-se e sinta-se em casa, bagual.

Para ter ideia do imbróglio, imagine a seguinte cena.


No decadente saloon de uma empoeirada cidadezinha do velho Oeste, a mocinha está no palco cantando alguma antiga balada, sendo acompanhada por um sujeito idoso em um piano do tempo do Onça.

Alguns dos presentes prestam atenção na música, mas a maioria está concentrada no carteado que rola nas mesas.

Num canto do balcão gorduroso, um sujeito de chapéu enfiado até os olhos, com aspecto de vaqueiro, alheio a tudo e a todos, bebe solitariamente seu copo de leite (de tigre, evidentemente), de costas para o palco.


De repente, fazendo o maior escarcéu, adentra no saloon uma corja de vagabundos, dando tiro nas garrafas expostas nas prateleiras, virando mesas de jogos, derrubando quem estiver na frente, enfim, tocando terror.

O mais abusado deles grita para o saloon inteiro ouvir alguma coisa que, mal traduzindo, seria:

– Nós vamos pegar tudo e botar fodendo!

O sujeito solitário levanta um pouco a aba do chapéu e, enquanto se vira lentamente para encarar o bonde sem freio da urubuzada, avisa ao motorneiro:

– Tudo, menos a garota!

E antes que o desordeiro pudesse abrir a boca, ele já recebe uma descarga de chumbo na cara, porque o vaqueiro solitário atirava bem pra caralho e era rápido no gatilho.

O resto do bando sai correndo apavorado.


A mocinha desce do palco e dá um beijo na boca do vaqueiro.

The End.

Pois então, caro Téo, foi mais ou menos isso que aconteceu.


Um convidado de um convidado, que nem eu nem o Simas conhecíamos, entrou na festa como se estivesse com o rei na barriga, se sentou em minha mesa na maior sem-cerimônia e resolveu se engraçar da Madame Butterfly.

Minha moleca estava comigo desde o início do fuzuê e era a única presença feminina em uma mesa onde só estavam espadas matadores.

A Madame Butterfly não bebe, não fuma e nem sabe contar piadas de sacanagem, de forma que ela estava se sentindo meio deslocada no ambiente.

Quando suas amigas chegaram, ela me pediu para ficar na mesa delas e concordei.

A partir daí, o penetra começou a não tirar os olhos da mesa onde Madame Butterfly conversava com sua turma.

Não dei a mínima: reconheço que ela é meiga, bonita, carinhosa e gostosa.


Muito gostosa.

De repente, o penetra se levantou de nossa mesa e sumiu.

Achei que ele tivesse ido pegar bebidas.

Porra nenhuma.

O aloprado praticamente invadiu o banheiro feminino tentando obter o número do telefone celular da minha garota.


Foi contido na entrada do banheiro pela invocada Paloma:

– Qualé, porra? Deixa a menina em paz que ela é namorada do irmão do aniversariante!

O sujeito voltou para a minha mesa com a cara mais lambida do mundo, como se nada tivesse acontecido.

Só fui saber da presepada umas duas horas depois, quando Madame Butterfly veio se despedir de mim com um beijão de língua na frente do otário.

Achei estranho, já que nenhum de nós dois é dado a esses arrebatamentos em público.

Enquanto esperávamos pelo seu táxi em frente de casa, a minha princesa me falou sobre a tentativa de assédio sexual sofrida no banheiro.

Meu colhões, obviamente, foram parar na garganta.


Depois que a moleca foi embora, voltei pra mesa e paguei geral para o aloprado galã de subúrbio.

– Meu irmão, você pode beber, comer, dançar e pegar tudo, até os meus cigarros, que está tudo liberado. A casa é farta e a hospitalidade não tem preço. Agora tem o seguinte: você pode pegar tudo, menos a garota, entendeu?

Ele riu meio sem graça, o Simas, totalmente emputecido com a presepada, já quis lhe dar um couro, mas acabamos tirando por menos.

Se a alcateia avançasse em cima do infeliz, a gente ia acabar a nossa festa de confraternização na Delegacia de Homicídios.

Meia hora depois, o penetra foi embora. Pode?

Na verdade, só não parti para o pugilato explícito porque estava usando o meu boné vascaíno, o que sempre me transforma em um pacifista radical.

Se estivesse usando meu chapéu de Indiana Jones, a história teria sido outra.

Afinal de contas, não custa nada lembrar de vez em quando – mesmo para os aloprados – que respeito é bom e conserva os dentes.


Mas falando na sua dupla inglesa favorita, aí vai uma dica do Carlinhos, do supimpa andnowblog.blogspot.com, publicada no ano passado:

Depois de três anos sem gravar, Tracey Thorn volta com um disco de dez inéditas e dois covers: “Come On Home To Me” e “You Are a Lover” dos obscuros Lee Hazlewood e The Unbending Trees, respectivamente.

O álbum “Love And Its Opposite” sai dia 17 de maio, e segundo Tracey é “um registro sobre a pessoa que sou agora e as pessoas ao meu redor, sobre a vida real depois dos quarenta”.

Casada com Ben Watt – a outra metade do Everything But The Girl – desde 2009, o casal tem três filhos e uma vida mais do que privada ao norte de Londres.

O Everything But The Girl existe desde 1982, mas foi só em 1995 que a dupla experimentou o sucesso planetário quando o DJ americano Todd Terry remixou a faixa “Missing”, que foi relançada e se tornou o primeiro single a permanecer um ano ininterrupto na parada Hot 100 da Billboard.

A música acabou mudando o direcionamento musical da dupla, que passou do pop jazzístico sofisticado dos seus trabalhos anteriores à injeção de fartas doses de eletrônica nos seus trabalhos seguintes, “Walking Wounded” (1996) e “Temperamental” (1999), ambos ótimos.

Não espere, entretanto, ouvir qualquer resquício de drum’n’bass ou house em “Love And Its Opposite”.

Aqui o sentimentalismo bate forte nas interpretações cristalinas de Thorn, uma das vozes mais abençoadas da história.

Nota: 6

Recomendado pra quem gosta de Burt Bacharach, dias chuvosos, Annie Lennox.

quarta-feira, outubro 19, 2011

SWU Festival: line up do dia 14 de novembro


Faith No More


Alice in Chains


Stone Temple Pilots


Megadeth


Primus


Sonic Youth


311


Down


Black Rebel Motorcycle


Duff McKagan's Loaded

SWU Festival: line up do dia 13 de novembro


Peter Gabriel


Lynyrd Skynyrd


Duran Duran


Chris Cornell


Tedeschi Trucks Band


Ultraje a Rigor

SWU Festival: line up do dia 12 de novembro


The Black Eyed Peas


Kanye West


Snoop Dogg


Damian Marley (Jr. Gong)


Soja


Marcelo D2


Michael Franti & Sperhead

É pra esse que eu vou!


Considerado o verdadeiro “Woodstock brasileiro”, o SWU (iniciais de “Starts With You”, “Começa Com Você”) Music & Arts Festival teve sua 1ª edição nos dias 9 a 11 de outubro de 2010, na Fazenda Maeda, em Itu (SP).

O evento foi idealizado pelo publicitário Eduardo Fischer e, diferente do badalado e cafona Rock In Rio, tinha a pretensão de juntar música de qualidade, com o melhor do rock, do hip hop, do reggae e da world music, associada a palestras sobre sustentabilidade e meio ambiente, no mesmo clima “paz & amor” dos anos 60.

No item qualidade musical, ele deu um banho no Rock In Rio 2011.


Entre outras coisas, o festival contou com a presença de Joss Stone, Dave Matthews Band, Kings of Leon, Regina Spektor, Avenged Sevenfold, Rage Against the Machine, Mutantes, Black Drawing Chalks, The Twelves, Killers on the Dance Floor, Linkin Park, Pixies, Cavalera Conspiracy, Macaco Bong, Cidadão Instigado, Mombojó, Cansei de Ser Sexy, Queens of the Stone Age, BNegão & Seletores de Frequência, Anderson Noise, Mallu Magalhães, Jota Quest, Capital Inicial e DJ Marky, além de um público estimado em mais de 150 mil pessoas.

De acordo com o próprio site do SWU, o movimento trouxe também, durante os três dias de festival, o Fórum Global de Sustentabilidade, arena onde especialistas, pensadores, políticos, empresários e representantes de entidades não governamentais discutiram com o público alguns dos principais temas da sustentabilidade no século 21.

Na área do público foram colocadas varias latas para a reciclagem, além de vários “blocos” onde o lixo deveria ser colocado de forma correta para ser feita a coleta.


Isso quer dizer que o SWU Music & Arts Festival 2011 promete ser ainda melhor.

Afinal, sejamos docemente realistas, trata-se do maior evento musical do país.


A cidade paulista de Paulínia foi escolhida este ano como sede do festival – que será realizado no Parque Brasil 500 – em função do compromisso do município de transformar a área do fuzuê no primeiro Distrito de Sustentabilidade, Tecnologia e Entretenimento do País.


Com 1,7 milhão de m², o distrito será um piloto para implementação das melhores práticas de sustentabilidade e urbanismo: contará com captação de energia solar, sistema de refrigeração com tecnologia baseada em água (redução do uso de ar-condicionado), sistema de vácuo para coleta de lixo nas áreas de lazer e cultura, processos de construção e operação de edifícios certificados no nível platinum do Green Building Council – LEED Neighborhood Development, redução no consumo de água com uso de grey water/ água reciclada, uso extensivo de ciclovias e Rapid Bus Transit (BRT), conectado ao sistema de transporte já existente na cidade, ampliação das áreas verdes e criação de “trilhas” para bicicletas.

De acordo com o plano, os primeiros investimentos acontecem já nos próximos 12 meses.


“A proposta do SWU vem ao encontro do projeto de desenvolvimento de Paulínia, que tem investido fortemente na cultura e na indústria criativa, em especial na produção cinematográfica, reduzindo a dependência econômica do pólo petroquímico. Ao sediar o SWU, a cidade não só consolida essa nova vocação cultural como assume publicamente o compromisso de implementar um modelo de desenvolvimento sustentável que possa servir de exemplo para outras cidades”, diz Emerson Pereira Alves, Secretário de Cultura de Paulínia.


Paulínia tem 140 km², 82 mil habitantes e é a 13ª cidade no ranking dos municípios paulistas pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano – classificação adotada pela ONU para medir qualidade de vida).

Com 944 mil m² de parques e bosques, é um dos mais ativos pólos culturais do país (de cada três filmes feitos no Brasil, um é de Paulínia; a cidade conta com um Teatro Municipal que recebe mais de 160 mil pessoas por ano).

O município fica a apenas 18 km de Campinas, cuja região metropolitana tem o quarto maior pólo hoteleiro do sudeste brasileiro.

Paulínia detém ainda o título de melhor serviço de Saúde da Região Metropolitana de Campinas, de acordo com o IQS (Índice de Qualidade em Saúde) 2010 – elaborado pela Prefeitura Municipal de Campinas em parceria com o Sindicato dos Médicos de Campinas.

E aí, vamos nessa?

terça-feira, outubro 18, 2011

Biscoitos finos para as massas


O poeta curitibano Helio Leites continua sendo uma grata caixinha de surpresas.

Há alguns meses, para ser exato no Dia de Santo Antônio, ele escreveu uma carta a mão e me enviou, junto com seu novo livro, “Mínimos”.

A missiva dizia o seguinte:

Simão, querido compadre, recebi seu blog “feitiço do tempo” via carta por meio de Comadre Rita e, como sempre, fico feliz quando consigo recontatar uma pessoa amiga e especial como o Sr.

Recebi seus livros e, por falar em livros, aí vai mais um.

Não sou ativista, mas sou atirado, não por acaso sou tímido feito uma fimose, mas se for preciso arregaço.

O guarda da Câmara Municipal não queria deixar eu entrar na solenidade de homenagem do Carlos Careqa, só porque eu estava com o boné do Diógenes, o do barril, o pai da honestidade, só porque tem uma lamparina de verdade na aba.

Fez não com o dedo na altura da cintura pra ninguém notar, só eu.

Não aguentei e chamei o Careqa em tom de socorro.

O Careqa levantou e todo mundo olhou a nossa psicoluta.

Quando todo mundo olhou, ele fez com a mão sinal pra mim entrar.

Na hora nem lembrei do Diógenes, mas depois ficou tudo explicado: o pai da honestidade não pode entrar na Câmara Política por incompatibilidade moral.

Na página 6 do “Mínimo”, São Sebastião, tem uma curiosidade.

Ele se desenvolveu naquela viagem que fiz a Manaus, acho que é Igreja de São Sebastião aquela que falta uma torre.

Lá ganhei um livrinho com a história do Santo que trago até hoje, contando a história do Santo e seu sofrimento.



O escritor Domingos Pellegrini escreveu uma crônica intitulada “Hélio Leites, um gracioso demolidor de preconceitos”, que transcrevo em seguida:

Seu nome é de grande astro, Hélio, que em grego é sol.

Mas, superando preconceitos e desconcertando rotuladores, Hélio Leites tornou-se reconhecido como grande artista lidando com pequenices: botões, palitos, confetes, caixas de fósforos, alfinetes, recolhidos da rua e até do lixo.

Agora, o livro “Mínimos” preserva em fotos as delicadas obras de Hélio, permitindo visão ampla, em painel, e visão miúda, em detalhes, de sua arte única.

Cada uma de suas mini-esculturas é uma construção de molequice e ternura, e uma demolição de preconceitos, como se dizendo:

– Grande arte não precisa ser de grande tamanho! Não precisa ser de material “nobre”, não pode é ser pobre de espírito... e tudo que parece facilmente descartável, pode ser artisticamente reciclável.



Hélio chega, assim, à excelência do reciclável, transformando em arte o que seria lixo.

Palitos tornam-se asas, caixas de fósforos fazem-se palcos, uma lasca de vidro vira uma estrela.

Mas o melhor é que Hélio nem precisou morrer, como Leonilson, ou enlouquecer como Bispo do Rosário, para ver sua arte reconhecida pelas pessoas de mente e coração abertos.

Um crótico – um crítico escroto – tentou espinafrar Hélio num jornal, e eu defendi “com unhas e dentes”, como disse depois a ele, que disse apenas:

– Nem precisava os dentes, pra piolhos bastam as unhas...


Com seu fino humor, Hélio é também anarcartista, através de criações como a Associação Internacional de Colecionadores de Botão, ou seu clube dos assobiadores, ou seu desfile de mini-escolas de samba, assim satirizando com graça as grandezas institucionais.

Talvez seja melhor dizer que Hélio é anarco-minimalista, mas também esse conceito parece pífio para definir quem é mestre em desconceituar, quebrar fórmulas mentais, dessacralizar com graça o sagrado.


Ele terminou recentemente o curso de Artes, mas o certo mesmo é que passe a fazer parte do currículo, para ser estudado, se é que estudar Hélio não será uma forma de trair sua arte, em vez de apenas se engraçar com ela.


Pois bem, esta semana o Hélio me enviou pelo correio um espetacular livro do cartunista Solda, com dupla dedicatória: “Simão Pessoa, um grande abraço! Se não for divertido não tem graça. Solda.” e “Um grande abraço de novo, do Solda e do Helio Leites.”

Quer dizer, fiquei duplamente emocionado.


Luiz Solda é paulista de Itararé, onde nasceu em 1952, mas foi em Curitiba que iniciou sua carreira como cartunista.

Com passagens pelos principais jornais do Paraná, colaborou com O Pasquim, revista Bundas e o jornal A Raposa, entre outros.

Premiado em vários salões de humor do país, o cartunista lançou o livro “Solda”, prefaciado por Jaguar, com o apoio cultural do banco HSBC.

A obra traz um resumo de sua carreira, com cartuns de várias épocas.


Vejamos o que diz o cartunista Jaguar no seu prefácio:

Quem tem currículo tem medo; Solda não, é uma das poucas exceções.

Nasceu em 52, em Itararé, interior de São Paulo, onde, segundo o Barão do mesmo nome, travou-se a maior batalha que não houve da História.

Por razões ainda obscuras mudou-se com mala e cuia de chimarrão para a capital do Paraná quando tinha 13 anos.

Não esperou a maioridade para entrar em cena no primeiro teatro que lhe apareceu pela frente, onde fez de tudo: foi autor, ator, sonoplasta, músico, cenógrafo, faxineiro, bilheteiro e cartazista, tendo inventado o teatro do eu sozinho.

Mas como esqueceu de ser também espectador, foi à falência por falta de público.


A gente se conheceu em 74, no Primeiro Salão de Humor de Piracicaba, eu como jurado, ele como um dos concorrentes premiados.

Daí pra frente dedicou-se a atividades subversivas e anti-sociais, cartum, literatura e propaganda, não necessariamente nesta ordem.

Voltou em 92 ao seu torrão natal, para a mostra “100 anos de Itararé” e constatou que Aparício Torelly, o Barão de Itararé, estava certo: a tal famosa batalha não houve mesmo.

Na verdade o fato mais importante que aconteceu na cidade foi ele, Solda, ter nascido lá.

Voltou à base e só não se naturalizou curitibano para não magoar sua avó.


Sempre pensei que Solda era codinome e não sobrenome.

Só agora fiquei sabendo que se chama, na carteira de identidade, Luiz Antonio Solda.

“Solda”, ensina o dicionário, “significa ligar, unir com solda, por fusão parcial obtida por maçarico”.

Pois é, pensei que era a solda das múltiplas coisas que ele faz.

Seu cartum fatalmente teria que desaguar nas letras.

Ele é um cartunista de letras.


Nuvens de letras pairam sobre os calungas que desenha, jorram da telinha da tevê, se derramam dos chapéus, das gavetas, dos livros entreabertos, de todas as fendas, buracos e orifícios.

Seus textos são cáusticos e certeiros como o de outro grande cartunista que também escrevia primorosamente, o Fortuna.

São ao mesmo tempo absurdos e lógicos. E vice-versa.

E não me pergunte por que, leia o Solda que você vai saber do que estou falando.

Quer que eu mostre o pau depois de matar a cobra?

Segure este hai-kai: “é só entrar no banheiro / levar um choque no chuveiro/ e sair limpo/ pra se sujar o dia inteiro”.


Foi amigo e parceiro – de trabalho e mesa de bar – do maior poeta do Paraná, quiçá do Brasil, Paulo Leminski, invejado por todos os alcoólicos anônimos por ser notório.

Quando Leminski morreu de cirrose Solda parou de beber quando, muito pelo contrário, deveria estar bebendo em dobro, por ele e pelo Leminski.

Mas ainda pode se redimir.

Estou guardando o seu lugar na turma do funil.



NOTA DO EDITOR DO MOCÓ

O Solda mantem um site ducaraálio, chamado “Solda Cáustico”, que já está aí na minha lista de blogs favoritos. Curtam.

segunda-feira, outubro 17, 2011

O endiabrado Sadok Pirangy


Sadok me garantiu que vai estar em forma para o Super Master de Futebol, no campo do Penarol, exclusivo para jogadores acima de 60 anos, com previsão de início agora em dezembro

Agosto de 1965. No final da rua Tefé, quase no cruzamento com a rua Urucará, funcionava o campinho do Sidônio, um humilde operário da Fitejuta.

A pelada oficial acontecia no sábado, com o time do Sidônio entrando em campo às 15h, contra uma adversário escolhido previamente para uma “partida de dez”.

Isso significa dizer que não havia tempo a ser cronometrado: ganhava quem conseguisse fazer primeiro dez gols no adversário, durasse a partida quinze minutos ou 72 horas.

As substituições também eram inesgotáveis – qualquer pessoa podia vestir a camisa do time e entrar em campo, na hora em que o técnico mandasse.

Era um campo de futebol society: sete na linha e um goleiro.

O Cruz Alta, time do Sidônio, que ele orgulhosamente dizia ser do bairro da Raiz, estava invicto há 32 partidas.

Foi quando eles convidaram o time do Barcelona, da Cachoeirinha, que estava estreando um novo centroavante, Sadok Pirangy, um exímio driblador, brilhante cabeceador e chutador invocado, que jogava no infanto-juvenil do Fast Club.

Detalhe: Sadok, que tinha um canhão nas pernas, era ambidestro – metia o foguete com as duas pernas.

Com dois minutos de jogo, Sadok recebeu uma bola de costas para o gol, fez que ia passar para o lateral, o marcador foi na onda, ele girou sobre o próprio corpo e deu uma canetada.

A bola bateu com tanta força na rede que foi parar no meio campo.

Barcelona 1X0.

Sidônio ficou visivelmente perturbado.

Na mesma hora, ele colocou três zagueiros para marcar o estiloso centroavante.

Acabou desguarnecendo os flancos, o que é fatal no futebol-society.

Com quinze minutos de jogo, o Barcelona já estava ganhando de 3X0 - graças a duas assistências primorosas de Sadok.

Sidônio entrou em desespero.

Refez a estratégia de marcação, com dois homens colados em Sadok e o terceiro jogando de líbero, para partir rápido, em contra-ataques, rumo ao gol adversário.

Também não deu certo.

Com meia hora de jogo, o Barcelona já estava ganhando de 5X1.

Foi quando uma senhora mirradinha se aproximou da beira do campo e disparou:

– Sidônio, meu filho, hoje é o casamento do teu primo Zé Geraldo. Você é um dos padrinhos, não se esqueça! A gente tem que estar na igreja às 18h!

– Já ouvi, mãezinha, fique fria que daqui a pouco a gente vai pra igreja...

O jogo recomeçou.

Sidônio conseguiu fazer uma retranca quase impossível de ser transposta, com todo mundo no campo de defesa.

O diabo é que toda vez que o Barcelona cruzava uma bola na área, o Sadok estava lá, subindo de cabeça, pra mandar pros fundos da rede.

Com duas horas de jogo, o Barcelona já estava ganhando de 7X2.

Foi quando a senhora mirradinha se aproximou da beira do campo pela segunda vez e disparou:

– Sidônio, meu filho, hoje é o casamento do teu primo Zé Geraldo. Você é um dos padrinhos, não se esqueça! A gente tem que estar na igreja às 18h!

– Já ouvi, mãezinha querida, fique fria que daqui a pouco a gente vai pra igreja. É só uma questão de tempo...

O jogo começou a esquentar.

Qualquer sujeito com corpo de halterofilista entrava em campo pelo Cruz Alta, com a incumbência específica de quebrar as duas pernas do centroavante.

Sadok, mais endiabrado do que nunca, limitava-se a tourear as vacas brabas.

Um “chagão” aqui, um “chapéu” ali, e colocava alguém na cara do gol. Um massacre.

Com três horas de jogo, o Barcelona estava ganhando de 9X3, quando a senhora mirradinha se aproximou da beira do campo pela terceira vez e disparou:

– Sidônio, meu filho, hoje é o casamento do teu primo Zé Geraldo. Você é um dos padrinhos, não se esqueça! A gente tem que estar na igreja às 18h! E falta quinze minutos pra começar a cerimônia...

Sidônio, espumando de ódio e sentindo na pele que a invencibilidade do Cruz Alta estava indo pelo ralo, nem discutiu:

– Mamãe, vá a senhora e o Zé Geraldo pra puta que pariu! Eu quero é que aquele corno se foda! Não vou ser padrinho daquele viado, porra nenhuma! Vá se foder a senhora, o Zé Geraldo, a futura puta dele, o padre, os outros padrinhos, os convidados e a puta que pariu! Eu quero é que vocês todos se fodam e me deixem em paz! Vão tomar no cu, entendeu? Vão, vocês todos, tomar no olho do cu, que estou me lixando pra essa merda toda!

A senhora mirradinha saiu quase correndo da beira do campo e tomou chá de sumiço.

Dez minutos depois, Sadok colocou uma pá de cal na disputa, depois de driblar o goleiro e fazer Barcelona 10X4.

O Zé Geraldo nunca mais falou com o Sidônio.

Essas coisas não se diz em público.

O endiabrado Jaime Chapoca


Outubro de 1974. Estudante de Direito na FUA, Francisco Sobrinho (nessa foto, o primeiro em pé a esquerda, exibindo suíças elvispresleyanas), hoje delegado aposentado, assumiu o cargo de treinador do Areal, de Santa Luzia, que fez uma campanha admirável no 2º Peladão.

Empolgado com aquele fraseado típico dos cursos de ciências jurídicas, Sobrinho começou a utilizar aquele linguajar rebuscado para passar as instruções táticas para o seu plantel.

Quem mais sofria com aquilo era o habilidoso ponta direita Jaime (aka “Chapoca”), ainda um simples estudante do curso supletivo do 1º grau.

Depois de escalar a equipe e conversar particularmente com cada atleta, ele reunia os atacantes do time (Chapoca, Mário Gordinho, Tom e Ironilson) para as instruções finais:

– Jaime, meu filho, você é peça fundamental no nosso time! –, explicava o treinador. “Na hora em que o Mário Gordinho fizer o overlapping com o Tom, o Ironilson vai ser o nosso ponto futuro. Então, você corre pela lateral do campo, mas evita entrar em diagonal ou fazer a triangulação. No máximo, você vai cair pela perpendicular e cruzar na área. Porque na hora que o Tom entrar na diagonal, quem passa a ser o ponto futuro é o Mário Gordinho e aí você faz o overlapping com o Ironilson, entendeu?

– Perfeitamente, doutor Sobrinho! –, respondia Chapoca, sem muita convicção.

Na hora em que o time entrava em campo, Chapoca se aproximava timidamente de Mário Gordinho (nessa foto, o quarto agachado da esquerda pra direita) e abria o coração:

– Porra, Mário, eu não entendi caralho nenhum do que o nosso técnico falou...

– Ele pediu pra você driblar o lateral esquerdo, ir na linha de fundo e cruzar pra dentro da área! –, explicava Mário Gordinho.

– Ah, é só isso? –, devolvia Chapoca, meio incrédulo.

Quando a partida começava, o ponta direita se encarregava de acabar com o jogo.

Transformava qualquer lateral esquerdo em “joão”, metia quinze, vinte, trinta bolas dentro da área e Ironilson, Tom e Mário Gordinho se encarregavam do resto.

O técnico Francisco Sobrinho, rindo com as paredes, elogiava para o jogadores reservas a aplicação tática de Chapoca.

No jogo seguinte, o ritual se repetia de novo.