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sexta-feira, agosto 14, 2015

“O medo das ruas” e outras seis notas de Carlos Brickmann


Dilma, ao contrário do que diz a sabedoria popular, está pronta a ceder os dedos para manter os anéis. Aliás, o que Dilma mais teme é a sabedoria popular, aquela que vem das ruas e que deve se manifestar no domingo, 16: para sobreviver, chegou a pedir socorro a Renan Calheiros. Ele tem experiência: foi um dos principais articuladores de Collor, o primeiro a perder legalmente a presidência.

Dilma solicitou a Renan que, no Senado, bloqueie os torpedos disparados da Câmara por Eduardo Cunha. Como os dois são correligionários, pediu-lhe também que neutralize o poder de Cunha no PMDB. Renan concordou e apresentou-lhe um programa de governo, em que o que é bom não é novo e o que é novo não é bom. Se este é o seu programa, ainda bem que não é o presidente.

Dilma almoça hoje com Lula e com o vice Michel Temer ─ de quem não gosta, a quem sempre tratou com descaso e que foi obrigada a engolir fazendo cara boa (o máximo possível). Por Lula, tem o temor reverencial, tem a paixão por ele de todo petista, mas tem o medo de que Lula passe por cima dela. Dilma, embora faça uma força danada para não governar, odiaria ser rainha da Inglaterra.

Dilma busca a saída. Mas deveria reler (ou ler) Alice no País das Maravilhas.

Alice ─ Poderia me dizer, por favor, onde está a saída?

─ Isso depende muito de para onde quer ir ─ responde o Gato de Cheshire.

Alice ─ Para mim, acho que tanto faz… – disse a menina.

─ Nesse caso, qualquer caminho serve ─ afirmou o Gato.

A dona da ideia

Quem lembrou Alice, um delicioso clássico da literatura, foi uma excelente jornalista, Bety Costa.

E ela nem citou a Rainha Louca, a que cortava cabeças.

Renan em ação

Em 1962, eleito governador de São Paulo, Adhemar de Barros chamou o professor Delfim Netto e encomendou à sua equipe um programa de governo. Delfim, antes da posse, entregou-lhe o texto completo. Adhemar mandou traduzir tudo para o inglês, encadernou as duas versões e disse a Delfim: “Vou botar na biblioteca do palácio. Quero ver agora quem diz que não tenho programa”.

As sugestões de Renan não foram bem trabalhadas como as de Delfim, estão apenas em português, mas seu destino é o mesmo: a prateleira. Não são para valer: apenas servem para dar base à distribuição de cargos e benefícios. Se fossem aplicadas, resultariam em boa melhora das finanças, mas não das públicas.

Socorro, Janot

A melhor saída da crise para Dilma, neste momento (só neste: mais tarde a coisa até pode piorar), depende do promotor Rodrigo Janot. Se ele fizer a denúncia contra Eduardo Cunha, enfraquecerá o presidente da Câmara, hoje líder inconteste da oposição. Mas pode atingir também Renan Calheiros, e tudo muda ─ menos a situação da presidente.

Porque, vale repetir, seu problema não é a crise, não é a política, não é Cunha: seu problema é que ninguém mais a leva a sério.

Do sarcasmo ao deboche

O Piauí Herald (http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/herald), publicação humorística sofisticada, está tratando assim os problemas da presidente Dilma:

“A nova propaganda do PT começou a circular hoje:

“CASAS BRASÍLIA ─ Ciente da gravidade crescente da crise política, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, enviou um recado para toda a base aliada. ‘A presidenta enlouqueceu! Queima total de estoque de cargos comissionados! Garanta o futuro de três gerações de afilhados políticos!’, narrou o petista pelo alto-falante do Congresso, provocando alvoroço.

“O governo prometeu lançar na semana que vem outras propostas gestadas pelo gabinete de crises. ‘Não há tempo para mais nada! Começou o Mandato Maluco! Toda sexta-feira, um promoção enlouquecedora para quem fizer o cartão de fidelidade’, explicou, pausadamente, Edinho Silva num megafone emprestado pela CUT”.

Humor involuntário

Ainda mais estranho que o comportamento da presidente em crise é o da oposição ─ não a oposição real, comandada por Eduardo Cunha, mas a que se proclama oposição, do PSDB. O presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, disse que cabe ao governo, não à oposição, buscar soluções para as crises política e econômica enfrentadas pelo país. O governador paulista Geraldo Alckmin disse que Dilma “não pode responsabilizar os outros por problemas que ela própria criou”.

Isso explica por que as candidaturas presidenciais de Alckmin e Aécio deram em água de chuchu: se a oposição não tem sugestões para resolver a crise, por que colocá-la no lugar do governo? Por que trocar seis por meia dúzia? A propósito, se a oposição real nasceu dentro do governo, para que oposição?

Atenção ao Supremo!

O Supremo Tribunal Federal inicia amanhã um julgamento da maior importância: decide se é crime ou não portar drogas para uso pessoal. É uma questão constitucional (se o Estado tem o direito de se envolver na vida íntima dos cidadãos) e tem repercussão geral: a decisão vale para todos os casos, em todo o país.

O escândalo é único


José Nêumanne

Que WikiLeaks, que Swissleaks, que cartéis mexicano e colombiano de drogas, que Fifagate, que nada! O escândalo top do mundo hoje é outro. Nada se lhe compara em grandeza aritmética, ousadia delituosa ou desrespeito a valores éticos. E é coisa nossa! Embora nada tenhamos a nos orgulhar de que o seja. Ao contrário!

Após se ter oposto ferozmente à escolha de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral para dar início à Nova República; à posse e ao governo de José Sarney, a Fernando Collor, que ajudou a derrubar; ao sucessor constitucional deste, Itamar Franco, de cuja ascensão participou; e a Fernando Henrique Cardoso, o Partido dos Trabalhadores (PT) chegou ao governo federal com seu maior líder, Luiz Inácio Lula da Silva, e se lambuzou no pote de mel do poder sem medo de ser feliz.

O primeiro objetivo caiu-lhe no colo como a maçã desabou sobre a cabeça de Newton. Era de uma obviedade acaciana. Sob crítica feroz da oposição, que o PT comandava, os tucanos privatizaram a Telebrás e, devidamente desossado, o filé apetitoso das operadoras de telefones foi devorado na nova administração. Sob as bênçãos e os olhos cúpidos do padim Lula, a telefonia digital foi entregue a consórcios nos quais se associaram algumas operadoras internacionais, com a experiência exigida no ramo, burgueses amigos e fundos de pensão, cujos cofres já vinham sendo arrombados pelos mandachuvas das centrais sindicais. Nunca antes na história deste país houve chance tão boa para mergulhar na banheira de moedas do Tio Patinhas.

Só que o negócio era bom demais para ser administrado em paz. Logo os concessionários se engalfinharam em disputas acionárias, que mobilizaram a Polícia Federal (PF), a Justiça nacional, os órgãos de garantia de combate a monopólios e até instrumentos de arbitragem internacional. No fragor da guerra das teles, os primeiros sinais de maracutaia dividiram as grandes rotas com os aviões de carreira. Sabia-se que naquele pirão tinha caroço. Mas quem ficou com a parte do leão?

Impossível saber, pois este contencioso está enterrado sob sete palmos de terra. Desde o Estado Novo, os sindicatos operários ou patronais administram sem controle externo caixas que têm engordado ao longo do tempo com a cobrança da Contribuição Sindical, que arrecada um dia de trabalho de todo trabalhador formal no Brasil, seja ou não sindicalizado. Sob a égide de Lula, as centrais sindicais foram incluídas na divisão desse bolo gordo e açucarado. E o sistema financeiro, acusado de ser a sanguessuga do suor do trabalhador, incorporou a esse cabedal os fundos de pensão. Sob controle de dirigentes sindicais, estes ocultam uma caixa-preta que ninguém tem poder nem coragem para abrir.

Só que o noticiário sobre tais episódios foi soterrado pela avalanche de denúncias provocada pelas revelações da Ação Penal (AP) 470, já julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e conhecida popularmente pela denominação que lhe foi dada pelo delator, Roberto Jefferson – o mensalão. Agora, após seu julgamento ter sido concluído e com os réus condenados, este é visto quase como lana-caprina desde a eclosão de outro mais espetacular: a roubalheira do propinoduto da Petrobras devassada pela Operação Lava Jato. Mas a cada dia fica mais claro que os dois casos se conectam e se explicam.

A importância de elucidar um crime ao investigar outro foi comprovada quando, na Operação Lava Jato, a PF encontrou nos papéis de Meire Poza, contadora do delator premiado Alberto Youssef, a prova de que o operador do mensalão, Marcos Valério, deu R$ 6 milhões ao empresário Ronan Maria Pinto, como tinha contado em depoimento referente à AP 470. Segundo Valério, essa quantia evitaria chantagem de Ronan, que ameaçava contar o que Lula e José Dirceu tinham que ver com o sequestro e a morte de Celso Daniel, que era responsável pelo programa de governo na campanha de 2002.

Mas nem essa evidência da conexão Santo André-mensalão-petrolão convence o PSDB a dobrar a oposição do relator da CPI da Petrobras, Luiz Sérgio (PT-RJ), e levar Ronan a depor, como tem insistido a deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP). É que os tucanos articulam uma aliança com o atual dono do Diário do Grande ABC para enfrentar o petista Carlos Alberto Grana na eleição municipal de Santo André. E este corpo mole pode dificultar o esclarecimento da verdade toda.

A Lava Jato já produziu fatos antes inimagináveis, como acusações contra os maiores empreiteiros do País e até a prisão de vários deles. É o caso de Otávio Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez, que presidia o Conselho de Administração da Oi na guerra das teles. Isso revela mais um investigado em mais de um escândalo. Como Pedro Corrêa e José Dirceu, acusados de receber propina da Petrobras quando cumpriam pena pelo mensalão.

A Consuelo Dieguez, em reportagem da revista Piauí, publicada em setembro de 2012, Haroldo Lima, que tinha sido demitido por Dilma da presidência da Agência Nacional de Petróleo, disse que, no Conselho de Administração da Petrobras, ele, a presidente e o ex-presidente da estatal José Sérgio Gabrielli só votavam como o chefe mandava. E agora Lula é investigado por eventual lobby para a Odebrecht no exterior em obras financiadas pelo BNDES, a ser devassado em breve numa CPI na Câmara.

E a Lava Jato chegou à eletricidade. Walter Cardeal, diretor da Eletrobrás que acompanha Dilma desde o Rio Grande do Sul, foi citado na delação de Ricardo Pessoa, tido como chefe do cartel do petrolão, acusado de ter negociado doação de R$ 6,5 milhões à campanha da reeleição dela. Othon Silva, presidente licenciado da Eletronuclear, foi preso ontem, sob suspeita de ter recebido propina.

Teles, fundos de pensão, Santo André, mensalão, BNDES, eletrolão e petrolão não são casos isolados. Eles compõem um escândalo só, investigado em Portugal, Suíça e EUA: é este Brasil de Lula e Dilma.

quinta-feira, agosto 13, 2015

Domingo é dia de bater lata, moçada!


Manuel Bandeira escreveu um dos refrões nacionais quando ansiou por estar em Pasárgada, onde era amigo do Rei. É o que todos nós queremos. Até dispensaríamos os outros atrativos da terra sonhada pelo poeta – ginástica, bicicleta, burro brabo, pau-de-sebo, banho de mar, beira de rio e mulher desejada na cama escolhida – se tivéssemos a consideração de nosso amigo, o Rei.

Para alguns, ser amigo do Rei significa ter influência no governo, qualquer governo. Para outros, significa ter dado o passo mágico com o qual, no Brasil, os que estão por fora passam para dentro. Ter transposto o balcão que separa os que atendem mal dos que são mal atendidos pelo Estado.

O serviço público é a Pasárgada de muita gente, mesmo que, ao contrário da Pasárgada de Bandeira, não tenha tudo nem seja outra civilização – seja um serviço mal pago com poucos privilégios. Não importa – está-se ao lado do Rei, livre da danação de ser apenas outro cidadão brasileiro.

A amizade do Rei é desejável justamente porque, num país como o Brasil, não basta ser cidadão para ter direitos de cidadão. Nossa grande ânsia por Pasárgada vem desta consciência do Estado não como algo que nos serve, mas como um clube de poucos, do qual é preciso ser membro porque a alternativa é ser sua vítima. Outra Pasárgada é a terra do dinheiro e do pistolão, dos que podem olhar as filas do SUS e a miséria à sua volta como se olhassem outro país, no qual felizmente não vivem.

Agora, Pasárgada mesmo, Pasárgada além da sonhada, é não ser só amigo do Rei, é ser da sua corte. Ser da minoria dentro da minoria que desmanda no país. Estar no centro dessa teia de cumplicidade tácitas que sobrevive a toda retórica reformista e enreda, suavemente, quem chega a ela, por mais bem-intencionado que chegue. É uma confraria sem estatutos ou regras claras, uma confraria que nem bem conhece a si mesma. Você só sabe que está em Pasárgada, e que é bom.

Como existem cemitérios de boas intenções, descartadas na entrada da corte! O truísmo que todo poder corrompe tem sua versão brasileira: aqui o poder, além de corromper, ameniza. Até os meliantes presos são considerados “guerreiros da nação” porque são amigos do Rei.

Para os inimigos do Rei, os fodidos e mal pagos, nosotros que nos chamamos legião, resta apenas o artifício de bater latas, para perturbar a paz da realeza. Domingo é o dia!

quarta-feira, agosto 12, 2015

O verdadeiro técnico da Seleção Canalhinha


Todo brasileiro é um técnico de futebol frustrado. Deus é brasileiro. Logo, Deus é um técnico de futebol frustrado?... Errado. Como Deus tudo pode, é provável que Ele seja o verdadeiro e eterno técnico da seleção, e os mortais que assumem a função apenas suas fachadas.

Todos os técnicos da seleção brasileira seriam, na realidade, prepostos de Deus, o que explica o seu ar arrogante e sua recusa em aceitar nossos palpites. Só a certeza de terem uma delegação divina explica que os técnicos da seleção ignorem, sistematicamente, os conselhos dos que entendem de futebol mais do que eles – nós – e se julguem os donos da verdade. Nenhum ainda confessou que recebe orientações diretamente de Deus, mas isso está implícito na sua soberba.

Que Deus é o técnico vitalício do Brasil pode ser provado, e não apenas pela quantidade de Copas que vencemos e pela nossa superioridade incontestada no futebol em priscas eras. As próprias derrotas do Brasil são da responsabilidade de Deus, para não dar muito na vista e manter a ficção da sua neutralidade. A derrota de 7 a 1 para a Alemanha foi o jeito que o Todo-Poderoso encontrou para nós voltarmos a encontrar a humildade perdida.

Além disso, Deus, nas alturas, está na posição que todos os técnicos consideram a ideal para ver o jogo. Mas como é onipresente pode estar lá em cima e falando com o seu auxiliar do lado do campo ao mesmo tempo, sem a necessidade de walkie-talkie ou celular.

Se Deus precisa disfarçar, de vez em quando, que é o verdadeiro técnico do Brasil, seus delegados na Terra nem sempre têm esse cuidado. O ar de auto-satisfação do Dunga que tanto irrita seus colegas, o resto da população, é na verdade uma falha no disfarce.

Está na cara do Dunga que ele se reúne periodicamente com Deus para tratar da estratégia da seleção e que nós podemos estrilar à vontade, porque ele só deve satisfações ao seu Chefe.

Agora dizem que a perspectiva de enfrentar o Chile deixa até Deus preocupado. “Essa nem Eu arrisco um palpite”, costuma dizer o Todo-Poderoso, encurvado sobre os seus esquemas. É esperar pra ver! (LFV)

terça-feira, agosto 11, 2015

Breve catecismo para o amor de perdição


Da série “Mil e uma maneiras de dizer eu te amo, porra!!!” – sem carecer do consumismo idiota da data dos pombinhos neoliberais:

1. Admirá-la, sempre na paudurescência, enquanto ela se olha no espelho para conferir a roupa.

2. Beijar os pés da moça em público, sempre que possa, como numa crônica de Antonio Maria.

3. Se for liso, pobre de marre-marré, dar uma bijuteria de R$ 1,90 com a devoção e a dramaturgia de uma jóia da Tiffany´s – vide “Bonequinha de Luxo”, o filme.

4. Levar chá de erva-cidreira na cama e ler um conto-fábula de Ítalo Calvino para niná-la.

5. Conduzi-la ao jantar num restaurante bem farto, com sobremesa idem, para mostrar que ela é linda, foda, uma formosura, e não precisa emagrecer nem mesmo as 21g do peso da morte.

6. Acompanhá-la nas compras e agarrá-la pra valer nos provadores, se possível fodê-la pelo cantinho das calcinhas novas (de algodão) recém-adquiridas.

7. Aplicar a lição do vinil: 1) passar a mão nas costas dela, a noite toda, carinhosamente, como se fosse o braço de uma velha radiola; 2) de manhã passar a mão na bundinha dela como se fosse um DJ fazendo scratch.

8. Comprar, vez em quando, um patê especial para o felino dela – os gatos estão para o amor assim como os cães para a amizade.

9. Pedir de presente, sempre que possa, uma linda golden-shower – forma de mostrar que ama tudo – glândulas, tripas & coração – que seja ou tenha origem no corpo dela.

10. Ser firme na hora em que ela for melindrada ou agredida por alguém, seja o guardador de carro, seja o garçom, seja o Mike Tyson, o Renan Calheiros, seja quem for.

11. Não cobiçar a mulher do próximo quando estiver ao lado dela. Pode parecer o mínimo, mas é um puta presente. Além do mais, você, velho cabrón, evitará aqueles insuportáveis torcicolos que não curam nem mesmo com os milagrosos emplastos Sabiá ou Brás Cubas.


12. Conhecer todos os riachinhos da sua xana em chamas e explorá-los com devoção oral, manual e escrita.

segunda-feira, agosto 10, 2015

Como abater lebres usando o Tinder


Se você tem um smartphone e muita vontade de abater novas lebres, com certeza já ouviu falar do Tinder, um aplicativo gratuito que tem feito muito sucesso entre a macharada. Trata-se de uma plataforma de geolocalização onde você pode encontrar garotas interessantes querendo dar.

O Tinder funciona da seguinte forma: você se cadastra, recebe uma relação de mulheres que estão próximas de você e aí dá a elas um voto de confiança. Se essas mesmas mulheres também votarem em você, existe um “match”, e vocês podem começar uma conversa de forma privada a partir de então.

O grande sucesso do Tinder é que ele tem facilitado muitos os encontros para um sexo casual básico – e isso faz com que o primeiro encontro não seja de conversa fiada ou de alguma das partes não sabendo onde o encontro vai terminar, por exemplo. Se você estiver à procura de piriguetes com furor uterino pode apostar no Tinder. Mas é preciso saber usar bem a ferramenta para não queimar seu filme.

O aplicativo permite que você coloque três fotos suas: então, é bom caprichar. Nada de colocar aquelas fotos de longe em que mal dá pra te ver ou selfies bizarras que você acha engraçadas. Isso pode afugentar as lebres. Coloque fotos do seu rosto em evidência, de preferência com um belo sorriso.

Se for colocar alguma foto de corpo inteiro, cuidado com a roupa. Ela deve refletir muito bem sua personalidade. Não adianta colocar uma foto de terno e gravata no Tinder, mostrando um perfil de executivo, se na vida real você só anda de bermuda e chinelo. Outra dica importante: evite postar fotos com outros amigos, senão a mulher pode acabar gostando mais do seu amigo ou achar que você é fresco…


Sim, gafanhoto, o Tinder é uma ótima forma de filtrar os tipos de lebres que você quer abater, então não deixe essa oportunidade passar em branco – e, principalmente, não dê o seu “curtir” pra todo mundo. É bom ter um critério na seleção das mulheres que te interessam para evitar encontros que acabem dando em nada. A não ser que você seja impotente e morra de medo de encarar um coração blue...

domingo, agosto 09, 2015

A primeira a gente nunca esquece!


Não sei de que material é feita a bola de futebol, hoje. Quando ganhei a minha primeira bola, ela era feita de couro. Tinha uma câmara dentro, como nos pneus. Enchia-se a câmara de ar com uma bomba de bicicleta – ou com os pulmões mesmo, naquele tempo se tinha fôlego – e ajeitava-se o mamilo da câmara dentro do couro da melhor maneira possível, antes de amarrar os cordões da bola, que tinham cadarços como as chuteiras.

Minha primeira bola tinha o tamanho regulamentar, ou seja, era uma “número cinco” autêntica. Os locutores de rádio chamavam a bola de futebol de “a número cinco”, além de “o esférico”, “a pelota”, “ a gorduchinha”, etc. O couro da bola tinha cor de couro, ou então era um pouco mais vermelho. A bola pintada de branco só era usada em jogos noturnos, não era a verdadeira. O couro reluzia.

Hesitava-se muito antes de dar o primeiro chute na bola nova, pois o couro começaria a ficar arranhado no primeiro toque. Era um dilema, você não conseguia resistir ao impulso de levar a bola para a calçada e começar a narrar seus próprios movimentos com ela como um locutor entusiasmado – “domina a número cinco, atenção, vai marcar, dá de charles... goooool! Sensacionaaaaaal!” – e ao mesmo tempo queria prolongar ao máximo aquela sensação do couro novo, intocado, em suas mãos. A compulsão de sair chutando ganhava.

Depois de dois dias de futebol na calçada, a bola nova estava irreconhecível. O couro ia empalidecendo como um doente. E a primeira coisa que desaparecia era o que depois mais perdurava na memória, o cheiro de novo. Nenhum prazer do mundo se igualava ao do cheiro do couro de uma bola de futebol recém-desembrulhada latejando em suas mãos. (Ainda não se tinha descoberto a revistinha de sacanagem do Carlos Zéfiro.)

Imagino que o nosso antepassado que pela primeira vez meteu a mão no buraco de uma árvore e depois lambeu o mel nos seus dedos tenha tido uma sensação parecida, a de que a criação é difícil, mas dadivosa, e há mais doçuras no mundo do que as que se têm em casa.

Quase tão bom quanto o cheiro da primeira bola era correr atrás dela, mesmo que só fôssemos craques na nossa própria apreciação (“Que lance, senhoras e senhores!” eu gritava, mesmo que só estivesse fazendo tabela com a parede). Correr atrás da primeira bola é o que nós todos continuamos fazendo, tamanhos homens, até hoje. E continua bom. (LFV)

A missa negra celebrada para salvar o moribundo apressou a extrema-unção


Augusto Nunes

O dia e a hora da encenação, o elenco bisonho, o roteiro mambembe, o mestre-de-cerimônias repulsivo, a arrogância dos parteiros da obra – tinha tudo para dar errado o programa partidário de 10 minutos exibido pelo PT na noite desta quinta-feira. E deu. Mas o que se viu superou as previsões mais catastróficas do mais radical antipetista.

As agressões ao Brasil indignado começaram com a entrada em cena de José de Abreu. Cicerone do passeio pelo lixão do PT, o rei de lixão de novela puxou o desfile de ameaças e insinuações belicosas. “O caminho do pessimismo nos leva a lugares bem sombrios e o alçapão mais perigoso é o que nos lança no conflito, com final sempre trágico para todos”.

Um porta-voz do bloco da barba abriu o cortejo de figurantes escalados para recitar cretinices sobre coisas que ignoram. “Durante seis anos, os governos do PT conseguiram retardar a chegada da crise econômica no (sic) Brasil”, mentiu. “Hoje o país vive problemas passageiros em (sic) economia”, mentiu a representante da elite branca. “E tem gente tentando se aproveitar disso para criar uma crise política”, mentiu o terceiro destaque do grupo de jovens robotizados.

O espetáculo do cinismo encomendado por Lula e dirigido por João Santana estava quase na metade quando irrompeu o bordão ilustrado por imagens de políticos oposicionistas: “Não se deixe enganar por aqueles que só pensam em si mesmos”. E então chegou a vez da trinca de protagonistas. Cada vez mais parecido com um agente funerário que furta o relógio do defunto, Rui Falcão invadiu a tela para repetir a tapeação do momento.

“Tem gente dizendo que só existe crise no Brasil, mas as manchetes provam que há crise em toda a parte”, mentiu o presidente do PT, amparado por dois recortes de jornal. O primeiro noticiava um soluço na bolsa de valores da China, cujo PIB vai crescer além de 6% neste ano. O segundo tratava do agravamento da crise da Grécia, uma espécie de Brasil da Europa.

Além de gregos e brasileiros, só estão aflitos com crises os russos e os venezuelanos. O resto do mundo está muito melhor que o paraíso tropical castigado pela alta da inflação, pela ampliação do desemprego e pela paralisia nos investimentos, fora o resto. Nada disso foi mencionado no programa, que também contornou cuidadosamente a corrupção de dimensões amazônicas, a segunda prisão de José Dirceu ou a destruição da Petrobras.

“Eu sei que a crise já chegou na nossa casa”, fingiu condoer-se Lula já na primeira linha do palavrório. (Não na dele: o chefão de tudo não sabe o que é problema financeiro desde que virou gigolô de empreiteira). Mas tudo vai melhorar, prometeu o mágico de picadeiro que não para de pensar “naqueles que mais precisam”. (O tempo que sobra é consumido na proteção a parentes e amigos multimilionários, como o filhote Lulinha ou os quadrilheiros do Petrolão).

A Ópera dos Malandros foi encerrada por Dilma Rousseff: “Quem pensa que nos falta (sic) ideias está muito enganado”, gabou-se a recordista de impopularidade sem apresentar uma única ideia. Ao som da lira do delírio, os idiotas no poder despediram-se dos espectadores zombando dos 71% de brasileiros exaustos de ladroagem e incompetência. Em vez de pedir desculpas ao país que presta, o exército brancaleônico preferiu chamar para a briga a imensidão de descontentes.

O maior panelaço da história do Brasil foi o ensaio geral para o resposta dos afrontados, que virá em 16 de agosto. A missa negra celebrada para salvar o governo moribundo apressou a extrema-unção. A data do enterro será determinada pelo povo nas ruas.

sábado, agosto 08, 2015

UATAFAC?


Vlady Oliver

Quer dizer que isso aí é isso aí mesmo? A canalhada quer a volta de ninefingers pelo atalho de um ministério picareta? Quer o nojento-chefe escondido num carguinho qualquer que lhe garanta a blindagem de um foro privilegiado? Isso aqui só pode ser o Brasil mesmo. O país da impunidade rampeira. O país dos inimputáveis. O país dos elogios rasgados a tudo o que é essa pilantragem nojenta que nos empurram dia sim e dia também por aqui.

Não é para menos que o brasileiro — qualquer brasileiro — esteja a ponto de explodir. Não é saudável termos no poder gente com essa índole cortejando uns aos outros numa festinha indecente; siameses na rapinagem do Estado elefante que nos gatuna o futuro do país. Lembro muito bem das lições que tive de minha advogada — uma das melhores do país, mas que nunca defendeu bandidos — sobre a tal “consciência jurídica” que se forma num processo. Os caras querem fugir, dissimular, mentir, provocar, negociar com as autoridades, de modo a continuarem inimputáveis, reincidentes, criminosos e servidores públicos.

É um escárnio. Em que lugar decente deste planeta um programa de partido como o de ontem teria voz e vez, escoiceando a plebe rude? O Goebells em compota — mais conhecido como Santanão — bem que tentou dourar o supositório antes de expô-lo ao mundo. Não colou. Ocupado com minhas panelas, não vi, não li, nem entendi do que se tratava aquela tramóia. Vendo depois, tudo fica claro.

O PT quer provocar o país. Quer assustar o cidadão. Quer dissimular. Esconde a roubalheira endêmica com a peneirona da ideologia rombuda e os eufemismos de quem é mestre na prestidigitação. Que eu saiba, toda a história da humanidade está recheada de calhordas que, mais cedo ou mais tarde, revelaram sua reaL natureza. O que vai por aqui é a tentativa mais torpe e pusilânime de enganar a plebe rude mais uma vez.

Não há um cretino agora, daqueles pagos pela mortadela oficial com o nosso dinheiro público, que venha defender o legado desses bandidos. Estão todos assustados com o banho de imersão que pode matá-los, grudados que foram na bolsa de gônadas dos chefes de toda essa vigarice. E a mulher-erectus continua lá, grudando velcro no Planalto. Alheia aos gritos inclementes da nação danada, que pede que a rendição se dê em condições de civilidade.

O partido vem à público desafiar a sociedade, meus caros. Bem se vê de que forja foram feitas essa fundas picaretas, que atiram no cidadão comum a pedrada da indecência na política. Ontem foi o dia de muitas lideranças cacarejarem em coro. Foi o dia de pedir entrevista até com o porteiro do Congresso. Todos juntos e irmanados numa tal de governabilidade, que nada mais é que a senha para roubar mais um pouco, enquanto ainda há tempo. Pouco tempo.

Não há contemporização que chegue com essa gente no poder, meus caros. A carta-renúncia da mamulenga já foi escrita. Num país tão louco que a dona pediu ajuda aos universitários — com diplomas falsos como o dela — para redigir o documento que ela não pretende entregar a ninguém. O que ela quer mesmo é se vestir para a guerra, tal qual um Rambo fora de esquadro, brandindo sua baionetinha velha nos transeuntes, de modo a mostrar quem ainda manda por aquelas paragens e paredes.

Vá cuidar do netinho superfaturado. Aproveita enquanto a cabeçona manca ainda se sustenta sobre o pescoço. A do meu sobrinho, por exemplo, foi abatida a pauladas recentemente. Encara esse país que vocês governam, uma farsa gigantesca chamada Brasil, agora que ele tá lá fora do palácio, te esperando.

JD quer dar uma razão de viver a um criminoso sem caráter


Valentina de Botas

Como o jeca não precisa de ninguém que não seja mais útil ao projeto pessoal travestido de causa nacional, o ex-capitão de Lula sumiu até mesmo da nota do PT. O futuro não é mais como era antigamente para José Dirceu, aquele cujo telefonema era o telefonema e que, dobrando a meta, consegue ser preso pela segunda vez por corrupção. Depois das delícias da roubalheira, lida com as dores dela: não consigo ter compaixão pelo drama pessoal de quem foi útil ao PT para imolar o país no altar das imposturas de dois presidentes ao custo de um pedaço do nosso futuro.


Com o desassombro em cometer o petrolão enquanto era julgado pelo mensalão – já um escárnio com o país –, JD aprofundou-se nos crimes por opção e, agora, milhares de brasileiros vivem dramas pessoais consequentes a ela. Convicto da própria inocência, o condenado pelo STF avisou: “minha sede de justiça será minha razão de viver”. Se ao paranoico, toda sutileza é um pleonasmo; aos sonsos, todo pleonasmo sempre será sutil; aos cínicos, a verdade só se impõe quando lhes interessa; aos lúcidos e honestos em seus propósitos, a verdade se revigora na repetição.

Por isso também, há seis anos esta coluna repete, numa luxuosa lavoura arcaica incansável, a verdade sobre José Dirceu. O risco inerente à repetição é tornar a coisa familiar, promovendo a conciliação com o irreconciliável. A coluna não sucumbe a ele porque segue a lição de José de Alencar: só a ignorância aceita e só a indiferença tolera o reinado da mediocridade. Assim, flagra JD encurralado pela escolha entre o até ontem útil ele mesmo e o personagem de si, já descartado.

O guerrilheiro que não guerrilhou; o lojista que só descobriu balcão na Casa Civil; o stalinista que não realizou o sonho totalitário; o deputado que não concluiu o mandato; o ministro interrompido; o sucessor abortado de Lula; o líder que não mobilizou as massas; aos 60 e poucos anos, esse farsante de si mesmo tem a chance de finalizar uma identidade e mitigar a tal sede de justiça contando o que só um capitão sabe. Ser perfecto, então, a escolha realizaria a tal razão de viver.

Mas tem essa história de o diabo morar nos detalhes e tal, conforme John Adams ensinou: a fala é de Samuel Wainer. Bater a carteira de uma expressão é moleza para quem esbulhou um país, mas tudo o que JD carregará, insistindo no silêncio culpado, é uma carga vazia de significado. Ora, Wainer assumiu pecados, assenhorou-se dos próprios erros, admitiu deslizes nada honrosos atribuindo um caráter ao pecador que foi; JD quer dar uma razão de viver a um criminoso sem caráter.


Todos procuramos uma razão de viver, muitos morrem tentando; a de JD pela inocência não é nem possível nem impossível: é fictícia. Combina com o personagem, mas, olha o diabo aí, a esse não é cobrado provar nada e ao outro, o real, é inútil tentar. A realidade não precisa fazer sentido, só a ficção; JD empreste o sentido que quiser a essa ficção debochada; a realidade não se importa. Nem Lula.

A devassa do porão de um site 171 vai antecipar a dedetização da esgotosfera


Leonardo Attuch, dono do site Brasil 247 (2 + 4 + 7 = 13)

Está pronta para sair do forno da Câmara uma CPI dos Crimes da Internet, proposta pelo deputado Sibá Machado, líder da bancada do PT. Como essa raridade da fauna amazônica ainda não foi devassada pela ciência, ignora-se o que pretendia o parlamentar do Acre ao disparar o tiro no pé: comandada pela maioria antigovernista, a comissão não poupará a máquina montada pelo governo para insultar adversários, louvar incompetentes e absolver criminosos.

A rajada da Lava Jato que inundou o porão do site Brasil 247 (podem chamar de 171 que ele atende) acabou antecipando a dedetização da esgotosfera, um amontoado de cortiços infestados de ex-jornalistas que prosperam como comerciantes de textos e “eventos”. Apresentam-se como “blogueiros progressistas”. São apenas canalhas.

Todos foram editores de economia ou diretores de publicações especializadas em assuntos econômicos (Luís Nassif, Franklin Martins, Paulo Henrique Amorim, Kennedy Alencar, etc). Todos perderam a pouca vergonha para ganhar muito dinheiro. Todos se tornaram esquerdistas desde criancinha assim que o lulopetismo chegou ao poder. Todos são financiados por empresas estatais. Todos enriqueceram com “seminários” patrocinados pela Petrobras e pela Caixa Econômica Federal. Por tudo isso e muito mais, todos merecem cadeia.

Não acompanhou essa história pelos jornais?! Então, deixa eu te relembrar os fatos.


Em um despacho proferido na última segunda-feira, 3 de agosto, o juiz Sérgio Moro afirma que o dinheiro do petrolão foi usado para bancar o site Brasil 247 a pedido do Partido dos Trabalhadores. Os repasses foram feitos pela Jamp, uma empresa de consultoria controlada pelo lobista Milton Pascowitch.

“Considerando que a Jamp era, como afirma seu próprio titular, empresa dedicada à lavagem de dinheiro e repasse de propinas, parece improvável que o conteúdo do documento em questão seja ideologicamente verdadeiro, pois difícil vislumbrar qual seria o interesse de empresa da espécie em anunciar publicidade ou patrocinar matérias em jornal digital”, afirma o juiz.

A conclusão é reforçada por um depoimento do próprio Pascowitch. Ele disse aos investigadores da Lava Jato ter repassado dinheiro do petrolão para financiar o site Brasil 247 e, assim, assegurar o apoio da página ao PT. O autor do pedido foi João Vaccari Neto, ex-tesoureiro da sigla.

Pascowitch firmou um contrato de consultoria com o Brasil 247 utilizando a Jamp, uma empresa de fachada. Pascowitch admitiu que não havia serviço a ser prestado e que o contrato serviria apenas para dar uma aparência de legalidade às transferências financeiras, que somaram 120 000 reais entre setembro e outubro do ano passado - no auge do período eleitoral. O Brasil 247 é comandado por Leonardo Attuch.

A transcrição do depoimento de Pascowitch não deixa margem para ambiguidades: Vaccari o encaminhou para uma reunião com Attuch e pediu que o valor pago ao site fosse descontado da empresa Consist, outro braço do esquema de lavagem de dinheiro do petrolão.

Diz um trecho da transcrição: “Que João Vaccari não estava presente na reunião, mas foi indicado a procurar o declarante por João Vaccari; que na reunião entre o declarante e Leonardo ficou claro que não haveria qualquer prestação de serviço, mas que era uma operação para dar legalidade ao ‘apoio’ que o Partido dos Trabalhadores dava ao blog mantido por Leonardo; Que o valor pago foi 'abatido' no valor que estava à disposição de João Vaccari referente ao contrato da Consist”.

Antes da confissão, os investigadores já haviam apreendido anotações em que o lobista detalhava transferências financeiras para o site de Attuch. Agora só está faltando fisgar do mar de lama petista os sites “Conversa Afiada”, do Paulo Henrique Amorim, “Blog do Kennedy”, do Kennedy Alencar, e o “Jornal GGN”, do Luís Nassif. O castelo de cartas da esgotosfera começou a cair. Êparrei!

Dirceu ainda não descobriu que nada é tão absurdo quanto morrer na cadeia por Lula


Conforme as circunstâncias e as conveniências, o companheiro José Dirceu jura ter feito o que nunca fez ou nega ter sido o que comprovadamente foi. Despejado da Casa Civil em junho de 2005, por exemplo, o doutor em luta armada que só atirou com balas de festim caprichou na pose de guerrilheiro condecorado para proclamar-se “camarada de armas” de Dilma Rousseff. Em novembro de 2010, no trecho do Roda Viva reproduzido no vídeo acima, amputou um bom pedaço da biografia com a frase espantosa: “Eu não era deputado no governo Fernando Henrique”.

“Eu fui eleito em 78″, acrescentou sem ficar ruborizado. Só se foi eleito Comerciário do Ano de Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná, onde se entrincheirou na caixa registradora do Magazine do Homem entre 1975 e 1979, quando a decretação da anistia animou o falso Carlos Henrique Gouveia de Mello a restaurar o nome de batismo e retomar a militância política. Elegeu-se deputado federal em 1990. Derrotado na disputa pelo governo federal em 1994, assumiu no ano seguinte a presidência do PT.

Durante o primeiro mandato de FHC, o comandante do partido fez o diabo para impedir que o inimigo vitorioso governasse. De volta à Câmara em 1998, liderou a mais raivosa bancada oposicionista da história do Congresso: todos os projetos e propostas do presidente tucano foram rejeitadas pela tropa em permanente estado de beligerância. A menos que um gêmeo univitelino tenha assumido o papel do irmão durante esse largo período, as fotos que aparecem no fim do vídeo comprovam que o ex-deputado federal José Dirceu é capaz até de negar que José Dirceu foi deputado federal.

Coerentemente, o chefe da quadrilha do mensalão continua jurando que não chefiou a quadrilha do mensalão. Previsivelmente, o reincidente sem cura alcançado pela Operação Lava Jato agora faz de conta que conhece só de vista os diretores da Petrobras que nomeou, que nunca ouviu falar nos empresários que extorquiu disfarçado de consultor e que soube do Petrolão pelos jornais. Muita gente anda recuperando a memória em Curitiba. E se o guerreiro abandonado por oficiais e soldados rasos revogasse a opção pela amnésia?

“É mais fácil matarem Dirceu do que ele fazer uma delação”, garantiu nesta terça-feira seu advogado Roberto Podval. Aos 69 anos, José Dirceu pode descobrir que nada é mais difícil e mais absurdo que morrer na cadeia por Lula.

quinta-feira, agosto 06, 2015

Sejamos pornográficos (docemente pornográficos)!


“Oh! Sejamos pornográficos (docemente pornográficos)”, ainda ecoam no juízo os versos do respeitável e seriíssimo poeta mineiro Carlos Drummond. Agora atire o primeiro mouse caliente aquele que nunca deu uma espiadinha em um site pornô. Até o mais pudico ou pudica dos navegadores, suspeita-se, já viu filmes ou fotos do gênero durante uma insônia internética ou sem desculpa alguma mesmo – por puro e legítimo prazer.

Foi-se o tempo em que precisávamos nos humilhar nas locadoras, escondendo as fuças diante da presença de amigos e vizinhos, quando nos flagravam na condenável estante das fitas pornográficas. Lembro ainda de como disfarcei um tempão, zanzando nas prateleiras de filmes-cabeças, para levar “Garganta Profunda” e “O Diabo na Carne de Miss Jones”, hoje clássicos, sem ser notado por uma priminha que catava inocentes comédias de amor.

Hoje basta um clic e adentramos na maravilhosa camada da pornosfera. E para quem achava o hábito condenável, seja por questão moral ou psíquica, um estudo do Center for Sex and Society (Universidade do Havaí) desmistifica geral os males de tal prática. Além de não afetar em nada a mente do sujeito(a), a pornografia pode até torná-lo um melhor homem, uma mulher mais saudável. É falsa, por exemplo, a premissa de que o adepto tende a um comportamento de agressivo sexual ou qualquer associação com os casos de estupro. 
   
O relatório lança uma ideia contrária: com a superoferta pornô na rede de computadores, países como EUA, Japão, Dinamarca, Croácia, China, Alemanha e Polônia, entre outros, registraram uma queda de cerca de 30% nos episódios de violência sexual em comparação com o período pré-Internet. Segundo o mesmo estudo, a maioria dos criminosos sexuais teve menos acesso a filmes e fotos pornôs durante as suas trajetórias de vida do que as ditas “pessoas normais”.

É, amigo, foi-se o tempo em que precisávamos sair das bancas de revistas escondidos com os catecismos do Carlos Zéfiro debaixo da camisa. A pornosfera está ai a serviço do desopilamento das mentes e do alivio do stress. Além do farto material disponível, tem ainda quem prefira o modo punk na linha “faça você mesmo”. É a turma das “ereções, ejaculações e exibicionismos”, como diz um título de um livro do velho safado e genial Charles Bukowski.

Nada contra, amigo voyeur, amiga da webcam. Pode ajudar até a quebrar o tédio e manter os casamentos, não acha? Ou acredita que a prática se constitui uma traição, mesmo sem a chamada conjunção carnal? Você ai que aproveita o sono justo e profundo dele(a) para encontrar o(a) amante virtual, o que me diz dessa história?

Enquanto isso o desalmado e pobre cronista aqui, humildemente, põe um ponto final e lava suas mãos. (XS)

quarta-feira, agosto 05, 2015

Viva a Sociedade Alternativa!


Um dos gurus de Raul Seixas e Paulo Coelho, o famoso Aleister Crowley (1875-1947) foi um inglês malucão, debochado, mágico e sacana. Ninguém percebeu isso até os seus 23 anos, pois até então o bicho só se interessava em escalar montanhas, escrever maus poemas e estudar os clássicos. Mas aos 23 anos alguém o convenceu a entrar para a Ordem Hermética do Crepúsculo Dourado, que mexia com mágica. A partir desse dia, Crowley manteve um diário: “O Diário Mágico da Besta 666”. Além disso, publicou uma revista, “O Equinócio”, e se especializou em caratê boliviano, ou seja, cheirava cocaína pacas.

Em 1912 ele foi apresentado a um outro malucão, que o convenceu a entrar para a Ordem dos Templários Orientais, que trabalhava no ramo de mágicas sexuais. Vocês já sentiram que vem sacanagem por aí, pois não? Não foi difícil convencer o Crowley a entrar para a ordem e, a partir do dia da sua entrada, passou a anotar no diário as suas sessões (análise, minha senhora? Análise é grupo) de masturbação de grupo, a manibus plenis e uma variedade de sacanagens com nada menos que sessenta e oito mulheres diferentes, sempre neste lance de mágica.

Um tópico bastante comum em seu diário: “Três putinhas de vinte e poucos anos nada especiais. Ainda assim a orgia durou das onze da noite às dez da manhã com raros e rápidos intervalos”. A Primeira Guerra Mundial obrigou Crowley a se refugiar na América, pois as suas guerras eram outras. Lá ele reiniciou as suas sessões de mágicas sexuais para um público cada vez maior. Ele tinha um show que chamava de Opus XIII, no qual atuava uma prostituta mulata. Eis o que escreveu no diário: “A operação foi tremendamente orgíaca, levando-se em conta a mediocridade da minha assistente. Foi, porém, muito difícil recolher o elixir da cocurbite”. A  cocurbite era a vagina e o elixir o seu próprio esperma que, depois de recolhido, era tratado como merenda diante da plateia.

Em 1919, Crowley retornou à Inglaterra e se viciou em heroína e não estou falando de Anita Garibaldi nem da Mulher Maravilha. Mais taradão que nunca, se mudou para a Sicília, onde fundou a Abadia de Thelema, um centro de ocultismo que difundia sua doutrina: “Faça tudo que quiseres que é tudo da lei”. Uma porrada de maluquinhos se juntou à volta do malucão que era chamado de mestre e, entre eles, a sua amante Leah Hirsing, a mulher escarlate, Ninette Fraux, a segunda concubina da Besta e o irmão Chenestai, um jovem marinheiro que Crowley trouxe da América.

Sentiram a jogada? Cansado de tanta mágica com mulher, Crowley acabou virando mágico mesmo!!! É isso aí: passou a esconder, fazer desaparecer o cheio de varizes do marinheiro. As orgias eram públicas, pois segundo a Besta 666, como Crowley gostava de ser chamado, “eles têm que ser treinados na falta de vergonha. Eu mesmo me culpo por ainda ter vergonha em me prostituir publicamente com o irmão Chenestai”. Eventualmente, os discípulos envelheceram ou encheram o saco e acabaram por se dispersar. O jovem marinheiro enlouqueceu de vez e Crowley voltou para a Inglaterra, onde morreu aos 72 anos numa pensão vagabunda, lendo um livro de sacanagem.

terça-feira, agosto 04, 2015

Por onde andará April Ashley?


Hoje em dia é moda. Bichona não gosta da inútil paisagem, acha que não serve pra nada, economiza uma grana, vai a um cirurgião e manda tirar fora. Chato é o cara depois da operação – já sem a iguaba – descobrir que está apaixonado pela enfermeira. Passa de viado a sapatão. Destino marcado pela deusa Éphoda!

Mas, como eu ia dizendo, na época da Ashley – princípio dos anos 50 – era preciso ser muito macho para mandar cortar o pau fora. Pois o rapazinho, depois de passar algum tempo engajado na Marinha Mercante Inglesa – o que terão feito com ele os velhos lobos-do-mar, hein? –, chegou à conclusão, de que não gostava de mulheres. Ou – quem sabe? – gostava tanto que até decidiu ser uma.

No princípio se limitou a vestir roupas de mulher. Foi descoberto numa boate londrina de terceira pelo empresário Ali Burnett, que o contratou para trabalhar em seu inferninho, então conhecido no mundo inteiro, chamado Pigalle, em Londres. Mas o jovem Ashley se atormentava sempre que ia fazer pipi. Se perguntava: “O que é que eu faço com esta inútil paisagem?” Aconselhado pelo empresário, foi até Casablanca e mandou cortar.

Em 1963 se realizou como mulher ao se casar com Mr. John Corbett. Viveram felizes durante seis anos, ocasião em que o marido pediu a anulação do casamento porque “ele, apesar da operação, continua homem”. Alegou que April mijava de pé e molhava o banheiro todo. Levou um tempão para descobrir isso, o sacana, hein?

De qualquer modo, durante dois meses foram consultados endocrinologistas, andrologistas, ginecologistas, psicologistas (são psicólogos que nas horas vagas atendem no balcão como lojistas) e outros entendidos nessas sacanagens. Depois de ouvi-los, o juiz Carl Ormerod decidiu: “Pelas evidências apresentadas até agora, as cirurgias para a mudança de sexo não são o suficientemente radicais (cáspite!!!) para que se modifique o sexo que a criança tinha ao nascer”.

Quer dizer: mesmo sem pau, Ashley, então com quase quarenta anos, foi considerado homem pela justiça inglesa e Mr. Corbett deixou de pagar a pensão que ele deveria receber caso fosse ela. Onde andará a idosa bicha nos dias de hoje? Eis um assunto à espera dos nossos jovens Tennessee Williams da Silva. Conselho às bichinhas apressadas: pensem bem na triste história do Veado de Abril antes de se decidirem a dar o piu-piu pro gato.

segunda-feira, agosto 03, 2015

O incrível poder do sexo pago


Por que os homens, mesmo os que têm mulheres incríveis, mulheres maravilhosas, procuram as prostitutas ou garotas de programa? É uma pergunta tão antiga quanto a humanidade. Segundo o meu pequeno repertório sobre o caso, uma das melhores respostas em torno do assunto foi a do monstro sagrado, o gênio, o homem, o mito, o ator Jack Nicholson. Quiseram saber do velho lobo do cinema o motivo pelo qual pagava para que belezuras o servissem, sempre em domicílio. Por que, afinal, um cara charmoso e interessante como ele, capaz de ficar, transar, comer, amar, dormir com as melhores mulheres desse mundo, ainda apelava para tal expediente?

Nicholson não titubeou um segundo sequer. “Ora”, disse, “não pago somente para que essas respeitáveis mulheres se desloquem até a minha casa. Pago caro, sim, pela possibilidade de poder mandá-las embora na hora em que eu bem entender”. Essa liberdade, na versão do ator, seria a grande vantagem do comércio do sexo sobre as ditas “mulheres normais”. Assim como essa, existem várias respostas possíveis. Todas com o chamado fundo de verdade, todas deliciosamente furadas, todas porcamente machistas.

Aí é que entra em cena Nickie Roberts, uma ex-stripper de Londres, autora do mais vasto ensaio sobre as mulheres de vida fácil: “As Prostitutas na História” (editora Rosa dos Tempos). O livro é um show de experiência própria e compilação de dados antropológicos, com finas citações de intelectuais de responsa como o Hobsbawm, por exemplo, sobre as chamadas “trabalhadoras do sexo” – como são politicamente tratadas.

O calhamaço, com 430 páginas, pode até não responder a nossa dúvida, mas certamente nos ajudará a entender melhor essas moças e o poder que exercem e sempre irão exercer sobre nós. Sem esquecer, é claro, a fantasia de vocês, queridas leitoras, de pelo menos por uma noite – uma noitezinha e nada mais – vivenciarem este papel tão sedutor e fetichista. 

Seja sob a luz do poste da Rua Augusta, em São Paulo, nos bregas em extinção no interiorzão do Brasil ou nos inferninhos pulverizados de eucalipto de todas as saunas. Não importa. Seja puta por vocação ou apenas as Brunas Surfistinhas da vida que desejam descolar um troco por uma temporada. Do New Sagitarius em BH ou o do Ladylaura, lá do Crato.  

O que faz o homem, repito, amigo, mesmo o mais bem-sucedido dos dons Juans, historicamente procurar as Séverines – para lembrar aqui a personagem da atriz Catherine Deneuve na película “A Bela da Tarde” (Belle de Jour, 1967, do gênio Luis Buñuel)?

Séverine, aliás, era uma burguesa, riquíssima, tinha de tudo, nada lhe faltava. Procurou um fino bordel por desejo mesmo. Tudo bem, a liberação sexual alterou um pouco essa história, mas a prostituição, pelo que se vê, resiste firmemente. A hipocrisia em relação ao tema, no entanto, segue a mesma, óbvio, não acham? (XS)

domingo, agosto 02, 2015

Melhorando o nível das conversas de botequim (1)


Se você não tem mais saco pra frequentar as rodas de botequim e ficar conversando sobre a crise política, o Petrolão, o Eletrolão e os demais aumentativos escandalosos que corroem implacavelmente o governo da presidenta Dilma, está na hora de turbinar seu repertório. Decore os fatos seguintes, surpreenda seus amigos e arrase na próxima vez que for encher a cara de manguaça.

1. A palavra ébrio vem do vocábulo celtíbero bria, uma grande caneca de cerveja consumida nas tavernas da Península Ibérica, na época dos romanos: os que tomavam mais de uma caneca eram os ex-bria, porque iam além da caneca. Do mesmo modo, sóbrio vem de sub-bria, aqueles que se contentavam com menos de uma caneca.

2. No Marrocos, as mulheres berberes dizem aos homens com quem querem casar: “Você roubou meu fígado”. Em vez do coração, o fígado é considerado, pelos berberes, como o centro do amor.

3. Pasteur formou-se com nota “medíocre” em Química. Einstein foi reprovado na Academia Politécnica. Thomas Edison foi tão mau aluno que a própria mãe o retirou do colégio. Darwin não conseguiu entrar na Faculdade de Medicina de Cambridge nem Verdi no conservatório de Milão. “Beethoven – dizia seu professor de composição, Albrechtberger – nunca aprendeu nem aprenderá coisa alguma. Como compositor é um caso perdido”.

4. Um telescópio que capte, rotineiramente, a luz de um quasar, a 12 bilhões de anos-luz, capta uma luz que já percorrera 50% de sua viagem antes que houvesse qualquer sinal do sistema solar. E que quando estava quase chegando – já tendo completado 98,5% da viagem – a Terra ainda estava povoada de dinossauros. E que só quando já perfizera 99,9995% de sua viagem é que surgiu na Terra a espécie capaz de observá-la: o Homo sapiens sapiens...

5. A Segunda Guerra Mundial custou ao governo dos Estados Unidos US$ 9 mil por minuto. A guerra do Vietnã custou US$ 22 mil por minuto. Hoje, na guerra do marketing, custa a qualquer anunciante US$ 300 mil por minuto para vender seu produto num show como o Super Bowl, que pode alcançar 60% dos lares dos Estados Unidos.

6. Abatido pela morte da esposa grávida, Pompéia – fato atribuído pelas más línguas a um pontapé do marido no seu ventre, durante uma discussão –, Nero perambulava pelas ruas de Roma quando descobriu um jovem, um certo Esporo, cujo rosto lembrava estranhamente o da morta: conduziu-o ao palácio, fê-lo castrar e o desposou.

7. Os chimpanzés oferecem a mão como sinal de submissão, tornando-a assim extremamente vulnerável às dentadas: este gesto suplicante apazigua o animal dominante, visto que um chimpanzé agressivo jamais correria tal risco (talvez seja esta a origem do nosso aperto de mão).

8. A energia liberada pelo terremoto que, em 1989, devastou as Ilhas Macárias, no Pacífico, acelerou a rotação da Terra: a duração do dia diminuiu 0,06 milionésimos de segundo. Já o terremoto do Alasca, de 1964, ao contrário, fez a duração do dia aumentar 7 milionésimos de segundo.

9. O papa Clemente II ordenou que todas as pessoas que estivessem, de algum modo, obtendo lucro com a prostituição deveriam deixar metade de suas propriedades para a Igreja.

10. Há uma moral rígida tanto entre os elefantes-marinhos como entre os leões-marinhos: uma fêmea virgem só aceita uma macho também virgem para desvirginá-la. A partir daí, ninguém é de ninguém.

sábado, agosto 01, 2015

A ressurreição dos chargistas sem medo antecipa a agonia do humorismo a favor


Augusto Nunes

Um dos mais repulsivos filhotes da era lulopetista, o humorismo a favor só não chegou aos 100% de adesão porque havia no meio do caminho um gênio indomável. A epidemia de vassalagem atingiu tais dimensões que, durante muitos anos, Millôr Fernandes pareceu o único a obedecer ao primeiro mandamento da imprensa independente, que ele próprio concebera ─ e vale para charges, cartuns, fotomontagem e demais ramificações do humor sem cabresto: “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

Por covardia, vigarice ideológica ou dinheiro, o resto decidiu que Lula e Dilma mereciam o tratamento respeitoso, reverente ou submisso negado a todos os governantes desde o Descobrimento. Em qualquer país democrático, nenhum presidente diria que sua mãe nascera analfabeta sem que lhe desabasse sobre a cabeça uma tempestade de sarcasmos, ironias, deboches e outros castigos desenhados. Sempre impunemente, Lula fez isso e muito mais. E qualquer presidente que enxergasse cachorros ocultos por trás de uma criança seria afogada pela onda de desenhos inspirados em quem implora por camisas de força. Dilma fez isso e muito mais.

Faria mais ainda se não fosse surpreendida pela ressurreição dos chargistas livres como um táxi. Os chargistas estatizados, convém ressalvar, continuam amplamente majoritários. Mas os discípulos de Millôr estão de volta à paisagem brasileira e são cada vez mais numerosos. É o que atestam os 13 exemplos extraídos da amostra reunida pela jornalista e escritora Vera Japiassu e repassada à coluna por Moacir Japiassu, grande jornalista e escritor do primeiríssimo time.

O renascimento do humor sem medo nem patrão é outra luminosa evidência de que ─ apesar de tudo, apesar de tantos ─ existe vida inteligente na terra destruída pelo estadista que não lê e arrasada pela sumidade que não sabe o que diz.













Os autoritários têm pavor do humor independente


Valentina de Botas

É a volta do humor verdade, o único que merece ser levado a sério, que respeita a risada como a vaca profana que põe os cornos para fora e acima da manada do politicamente bem remunerado. É a sagrada vocação do humor à bolinação profanando os que se pretendem intocáveis.

O bravo país de Israel não é apenas uma linda e preciosa ilha de democracia cercada de ditaduras e governos facinorosos, é também um país, erguido no deserto, com maior consumo per capita de peixe do que Cuba, a ilha cercada pelo mar e pelo regime totalitário que limita a pesca temendo que os pescadores cubanos aproveitem a amplidão do mar e o chamamento da liberdade para escapar do paraíso caribenho de onde é proibido sair.

Em 25 anos de existência do muro de Berlim, mais de cem pessoas morreram tentando fugir daquele paraíso imposto aos alemães orientais. No desespero de quem arriscou tudo pela liberdade ou libertação, o pior não era morrer para quem não se sentia vivo. Acredito que ninguém fez o trajeto inverso, afinal, o homem é bicho que só é gente se for livre.

Talvez a voluntária direção contrária fosse inédita até o florescimento dos humoristas a favor que, de livre e bem paga vontade ou por primitivas convicções ou pela soma de tudo, trancam-se em um obscuro território mental da república dona das divinas tetas, gozando da cara do país que esperou tanto por liberdade, e pariram o aberrante humor a favor em cópula com o desavergonhada e politicamente correto.

Então, porque Lula foi operário por algumas horas, é nordestino que envergonha qualquer brasileiro decente; e porque a presidência é ocupada por uma mulher nada sapiens, qualquer piada com eles era demófoba ou misógina. Só rindo. No peculiar mau humor paranoico e de dentro de suas mentiras transparentes e verdades secretas, os autoritários têm pavor do humor independente.

O humor politicamente correto, além de não prestar como humor, tem de decidir quem decidirá o acerto e o erro. Tentação autoritária de um humor encolhido, todo certinho, cheio de prosopopeias, uma coisa murcha e morta abocanhada por uma boca desdentada. Tem graça só para os caras mamando o leite bom na república imbecil e imbecilizante em que ironia tem de vir com manual de instrução.

O que houve com o Brasil?, que diabos, meu Deus do céu! Lembrando que inclusive o diabo e Deus (e falo como cristã, mas poderia não ser e ter o direito à mesma opinião) podem ser engraçados se tratados pelo humor munido de tudo o que ele precisa: cornos profanos e dentes. E há o humor canalha, sórdido, chulo – outra porcaria. Diverte só aos perversos.

Mas eu também sei ser careta: aos abusos, que se responda com a lei, que eventuais ofendidos recorram a ela por reparos morais e o que mais couber. O vigor dos chargistas que dignificam a linhagem de Millôr prova que, mesmo que rir talvez não seja um remédio, é muito mais divertido.

Por que parei de escrever


Vlady Oliver

Eu me sinto exatamente como aquele morador do morro entre duas quadrilhas, ambas trocando chumbo grosso pelo controle do tráfico no local. Tudo o que eu quero é acordar, ir pro meu trabalho e voltar em paz. Na minha porta não tem esgoto, não tem saúde, não tem escola nem poder público. Mas sobram balas perdidas e corpos amontoados por todos os cantos. O “Brasil político” que conheço é dividido em duas facções complementares, que se interseccionam e se inter-relacionam, numa frenética troca de interesses espúrios.

Temos os “sócio-comunistas” – que inventaram o Foro de São Paulo, a Pátria Grande e outras empulhações transnacionais, com o único intuito de detonar os cofres públicos e drenar dinheiro para as suas organizações paraestatais – e os “políticos da forma geral”; ladrõezinhos velhos e conhecidos da galera, cujas intenções passam mesmo é pelos pequenos roubos e desvios de conduta sem maiores consequências. É claro que quem quer ser equidistante dessas duas facções não tem amigos.

Já quem toma partido de uma delas ou está quase perdendo ou quase ganhando a batalha, no momento. Nesse caldo, é possível pensar que “assim que defenestrarmos essa quadrilha ora no poder, voltaremos ao paraíso”. Pois eu digo que vivemos num inferno e assim que essa quadrilha atual for defenestrada, entraremos num novo inferno. Ou no inferno velho de sempre; como quiserem. Simples assim.

Os milhões de indignados que saem às ruas têm representatividade zero. Os que assumem posições equidistantes das quadrilhas na blogosfera – e atiram para todos os lados – já contabilizam 30 milhões de órfãos, juntos e misturados na sensação de que o Brasil é uma soma nula; um resultado vergonhoso de tudo o que está aí. Já aqueles que se comprometem com as “forças atuais” ou com o “progressismo” nem sabem mais em quem atiram, furando o bote inflável no tiroteio e afundando com uma nação picareta.

Juntas e misturadas no poder, as duas quadrilhas parecem uma só, professando os mesmos desatinos, só buscando formas originais de fazê-lo. É nessa toada que temos um patrulhamento em nossa própria goma. Pessoas que não se furtam a usar o mais torpe dos argumentos, que é o de matar o mensageiro pela mensagem transmitida, sempre fingindo elegância, bons modos e as melhores das intenções.

São pessoas que querem doutrinar o que querem ler, para não enfrentar a própria natureza mesquinha de suas certezas edulcoradas e verdades mancas. É nesse palco de atuações comezinhas que os “profissionais da área” comemoram os nervos de aço de sempre, para terem que aturar tamanho estado de putrefação contaminando suas carreiras e mesmo assim terem que ver com lentes rosinha-bebê tudo o que estão vendo, ouvindo e fingindo acreditar.

Augusto Nunes, para mim, é o melhor jornalista brasileiro. O mais ponderado. Aquele que sabe dosar o bom texto com o soco no estômago. Generoso como sempre, permite que me expresse aqui com imensa liberdade de fazê-lo. Nenhum outro espaço da blogosfera tem esse praticável montado à disposição de seus aprendizes. É claro que isso é valioso. Ambicioso que não sou, no entanto, trocaria tudo isso que escrevi por aqui até hoje por um país que presta.

Acho que seria uma troca justa e mais que desejada. Sumiria das prateleiras feliz com meus impropérios, achando que eles realmente surtiram algum efeito prático nessa nação vigarista. Acho que meu mestre e amigo entenderia o meu sacrifício. O Nirvana, no entanto, é logo ali. Kurt Cobain que o diga.