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sexta-feira, julho 08, 2016

Os bois-bumbás de Manaus


Em primeiro plano, o boi de fugida do bumbá Tira Prosa, no fundo o boi original

O momento mais aguardado da brincadeira do boi-bumbá, entretanto, acontecia depois do período junino, às vezes no começo de agosto: a “fugida” do boi. Para essa parte final da festança, era providenciada uma réplica do boi original, mais pobre e mais tosca. O bumbá “fugia” do curral em uma noite de sábado.

No domingo pela manhã, os vaqueiros saíam do curral em busca do boi fujão. Dois ou três miolos se revezavam na fuga para não dar vida mansa aos vaqueiros, que precisavam obrigatoriamente prender o boi fujão pelo laço. A criançada, evidentemente, torcia pelo boi. E haja correria desenfreada do bumbá pelas ruas dos bairros, freadas bruscas, avanços, recuos, com o boi se desviando milagrosamente o tempo todo dos laços jogados pelos vaqueiros.

Quando, finalmente, o boi era laçado (o que ocorria por volta das cinco horas da tarde), os vaqueiros o conduziam até o curral. O boi era “sangrado” no centro do curral (o miolo despejava de dentro do boi um garrafão de vinho Tinto Raposa, que era recebido pelo Rapaz do Amo em uma bacia de alumínio e depois servido aos brincantes) e o Amo começava a fazer a repartição das partes do boi com versos endereçados aos moradores da comunidade (“O mocotó é da Maria Timbó, a chã de dentro é do compadre Bento, a costela é da dona Isabela, o coração é do seu João”, e assim por diante).

Na sequência, o boi genérico era incinerado em uma fogueira, seguido por uma grande queima de fogos de artifício. A festa da morte do boi prosseguia noite adentro com uma farta distribuição de churrasco, aluá, vatapá, maionese, farofa, cachaça e vinho tinto para os presentes.


Boi Caprichoso com o amo Come Feio

De acordo com o historiador Alvadir Assunção, no mais bem documentado trabalho sobre o assunto (“O Auto do Bumbá Corre Campo e Outros Famas”, Ed. Valer, 2008), o boi Caprichoso foi fundado no dia 14 de janeiro de 1913, em Manaus, pelo maranhense Raimundo Nascimento Fonseca (aka “Mestre Raimundo”), avô do saudoso advogado Nestor Nascimento, com o apoio dos também maranhenses Mestre Atanásio, Mestre Horácio Nascimento, Estevão e Ramiro Marcolino da Silva. 

O curral foi armado na Rua Nhamundá nº 1563, quase no canto com a Rua Visconde de Porto Alegre, na Praça 14. Após o falecimento de Mestre Raimundo, o bumbá ficou sob a responsabilidade de Ramiro até o início dos anos 60, quando passou a ser comandado por Luiz Gadelha. 

O bumbá Caprichoso encerrou suas atividades em 1971, quando era dirigido por Alberto Orelhinha.


O bumbá Mina de Ouro foi fundado no dia 22 de abril de1922, pelos senhores Cipriano Moraes Vieira (aka “Mestre Cepetiba”), Pedro Albano, Vicente e Sandoval (filhos de Pedro Albano), Faustino Jovito Serra (pai do “Mestre Serra”) e Elias, responsável pela confecção do primeiro boi. 

O curral do Mina de Ouro foi armado em um terreno de Pedro Albano, localizado na esquina do Boulevard Amazonas com a Rua Tapajós e, alguns anos depois, passou a ser armado no terreiro do batuque Santa Bárbara, no Seringal Mirim. Com o falecimento de Mestre Cepetiba, em 1962, o bumbá passou a ser comandado por José Pereira Serra (“Mestre Serra”). 

Por falta de apoio, o bumbá deu uma parada estratégica de 1965 a 1968, só voltando a sair a partir de 1969. Nesse meio tempo, Mestre Serra se dedicou a uma vitoriosa carreira de juiz de futebol, se transformando no melhor árbitro do Amazonas. 

O bumbá encerrou suas atividades em meados dos anos 70.


O bumbá Tira Prosa foi fundado no dia 13 de maio de 1945, pelos senhores Francisco Santiago de Oliveira (“Tutu”), José Ribamar Ferreira (“Zeca Pepira”), Raimundo Ferreira de Oliveira e Alberto Ferreira Martino (“Mestre Alberto Orelhinha”). 

O curral do boi foi armado na Avenida Leopoldo Peres, em frente à Delegacia de Polícia, no “Imboca”, sendo transferido no ano seguinte para o campinho da Igreja de Santa Luzia. A partir de 1950, o bumbá passou a ser comandado pelos irmãos Rock e Lucilo Mesquita. Em 1962, o comando passou para Raimundo Guanabara, em 1966, para Lauro Chibé, e, a partir de 1968, para Antônio Barroso. 

No primeiro ano em que desfilou no carnaval em Manaus, em 1976, ainda como bloco de embalo, o atual GRES Andanças de Ciganos, da Cachoeirinha, utilizou a batucada do bumbá Tira Prosa como bateria, mostrando que a colaboração entre grupos folclóricos não era uma exceção, mas a regra. 

O bumbá Tira Prosa continua na ativa até hoje. Seu responsável é o microempresário Ronaldo Matos, que faz o papel de Mãe Catirina na brincadeira.


O bumbá Corre Campo foi fundado em 1º de maio de 1942, na casa de Astrogildo Pereira dos Santos (“Mestre Tó”), irmão mais velho de Wandi Guaromiro Santos (“Mestre Miro”), ambos ex-brincantes do garrote Tira Teima. A residência dos dois, localizada na Rua Ajuricaba, quase canto com a Rua Borba, na Cachoeirinha, funcionou como primeiro curral do boi. 

Entre os fundadores estavam Antônio Altino da Silva (“Ceará”), Dionísio Gomes (“Tucuxi”), Mauro Cruz (“Pelica”), Tiziu e Pedro Beira-mar (tio do sambista Jairo Beira-mar, presidente do GRES Reino Unido da Liberdade), que se transformou no primeiro amo do boi. Fabricado pelo próprio Mestre Tó, o primeiro boi era feito de pernamanca, cipó e coberto de flanela amarela. 

Na primeira oportunidade, o bumbá Mina de Ouro ironizou a papagaiada com uma toada de desafio: “Eu nunca vi boi amarelo/ Quero o couro desse boi/ Pra fazer o meu chinelo”.

Nascido e criado no Boulevard Amazonas, Jorge Macaco era um dos amos do bumbá Mina de Ouro, mas com a mudança de sua mãe para o bairro da Cachoeirinha (ela era mãe-de-santo e foi morar no terreiro da ialorixá Dona Esperança), ele abandonou o bumbá do Seringal Mirim para ser um dos amos do boi Corre Campo. 

Para a moçada do Mestre Cepetiba aquilo soou como uma deslavada traição e os brincantes do bumbá Mina de Ouro resolveram aplicar um corretivo no “trairão” na primeira oportunidade que surgisse.

Em junho de 1943, o bumbá Corre Campo estava se apresentando no campo do Ypiranga (onde hoje está localizado o Palácio Rodoviário), em um arraial promovido pelo clube, quando surgiu o bumbá Mina de Ouro para fazer sua apresentação. Sabendo das promessas de vingança do boi adversário, Mestre Tó deu logo um toque pro Mestre Cepetiba:

– O bumbá Corre Campo é uma grande família. Se for pra bater em um brincante, vocês vão ter que bater em todo mundo!

Claro que não houve acordo e o Mina de Ouro resolveu pagar pra ver. O pau comeu solto entre os dois bumbás, sendo necessária a intervenção da polícia para serenar os ânimos. Era o início de uma rivalidade histórica movida à pancadaria e toadas de desafio, que duraria pelas três décadas seguintes.


O amo Pedro Beira-mar recebendo o título do bumbá Corre Campo de 1º campeão do Festival Folclórico do Amazonas entregue pelo então prefeito de Manaus Gilberto Mestrinho

Além dos amos do boi Pedro Beira-mar e Jorge Macaco, os demais destaques do bumbá Corre Campo ficavam por conta dos “miolos” Sunguinha, Ferrolho e Jaburu – este último ficava irritadíssimo quando a molecada o chamava de “Cheira peido”, porque ele ganhava a vida como carroceiro. O Pai Francisco era Antônio Queiroz, e a Mãe Catirina, o despirocado Pelica. 

A invencível barreira de índios era formada por Miro, De Raça, Tiziu, Arrepiado, Idalino, João da Santa, Zé Vieira, Nego Waldir, Eduardo Farinha D’Água e Tabaco.

Os índios vestiam uma espécie de saiote feito de penas de avestruz e um peitoral ricamente adornado com pedrarias multicoloridas (o do Tiziu estampava um escudo do Fast Clube). As lanças eram feitas de cumaru e ostentavam uma afiada ponta de ferro. 

Apesar de disfarçadas por dezenas de fitas coloridas, ninguém tinha dúvida: tratava-se de uma arma de guerra. Os cocares escondiam protetores de cabeça. A barreira dos índios protegia o boi e os demais brincantes durante as brigas de rua com os bumbás adversários.

Outros bumbás famosos do folclore manauara: Rica Prenda (Praça 14), Veludinho (Educandos), Coringa (Aparecida), Estrela Dalva (Praça 14), Galante (Rua Leonardo Malcher), Dois de Ouro (Educandos), Guanabara (Santa Luzia), Flor do Campo (Praça 14), Mineirinho (Santa Luzia), Brinquedinho (Cachoeirinha), Prenda Fina (São Raimundo), Brilhante (Estrada da Panair), Prenda do Areal (Santa Luzia), Treme Terra (Rua Santa Isabel), Mina de Prata (São Raimundo), Canarinho (Morro da Liberdade), Dominante (Santa Luzia), Malhado (Visconde de Porto Alegre), Pai do Campo (Matinha), Teimozinho (Matinha), Ponta de Ouro (Educandos), Pingo de Ouro (Petrópolis), Gitano (Vila Mamão), Sete Estrelas (Petrópolis), Ás de Ouro (Matinha), Diamante (Igarapé de Manaus), Guerreiro (Vila Mamão) e Amazonas (Raiz).


quinta-feira, julho 07, 2016

O Auto do Boi-Bumbá


Uma das histórias mais conhecidas para o auto do Boi-Bumbá tem o seguinte enredo: o negro Pai Francisco, um velho caipira, cultiva o seu roçado e, em seguida, volta à sua palhoça para seu repouso com sua amada esposa Catirina, que se achava em adiantado estado de gestação. Em dado momento, ele olha para fora de sua palhoça e vê um boi comendo sua plantação. Enfurecido e atendendo ao desejo de sua esposa de comer “língua de boi”, ele pega a espingarda, se junta ao compadre Cazumbá e atira à queima roupa no animal. Supondo ter morto o boi de estimação do Amo, ele foge atemorizado e refugia-se em sua palhoça.

O Amo, sentindo falta do seu boi de estimação, chama seus vaqueiros e manda procurá-lo. Saem à procura e o encontram caído na malhada à beira de um bebedouro. Os vaqueiros voltam dando a triste notícia. O Amo manda chamar o seu Rapaz de Confiança para dar a notícia de quem poderia ter morto seu boi. O Rapaz, por meio de boatos e diz-que-diz-que, soube que tinha sido o Pai Francisco. Enfurecido com a presepada, o Amo manda o Rapaz ir prendê-lo. Este chega à casa do pai Francisco e é recebido à bala. Ele volta então a seu Amo e conta como foi recebido.

Mais enfurecido ainda, o Amo manda o Rapaz levar uma carta ao Diretor dos Índios, pedindo-lhe para prender Pai Francisco, Catirina e seu compadre Cazumbá. O Diretor dos Índios exige um Padre para batizar seus caboclos, antes de prender a trinca de arruaceiros. Preso e levado amarrado à presença do Amo, Pai Francisco confessa ser o autor da morte do boi. Compadecido da má sorte e do castigo que espera pelo Pai Francisco, um Pajé reúne seus índios para realizar uma pajelança onde pretende ressuscitar o boi, mas não obtém bom resultado.

Como último recurso, o Amo sugere ao Pai Francisco que vá procurar o Dr. Da Vida, famoso curador da região para tentar curar o boi. Chega o Dr. Da Vida e constata que o boi não está morto, está apenas ferido, e depois de passar a receita o boi levanta-se para alegria do Amo e de todos os vaqueiros.


Na região amazônica, salvo pequenas variações, era mais ou menos assim que transcorria uma apresentação do boi-bumbá tanto no terreiro das casas dos contratantes quanto nos tablados dos festivais populares, nos velhos tempos de antanho:

O cortejo caminha pela rua em direção ao local de apresentação. Na frente vai a Barreira de Índios, empunhando lanças, arcos e flechas. Sua principal função é proteger o boi da possível investida de bumbás adversários. Logo atrás da Barreira de Índios, vem o Boi-bumbá, o Amo do Boi e o Rapaz do Amo, circundados pelos Vaqueiros e suas burrinhas.

Pai Francisco, Mãe Catirina e Cazumbá vão fazendo estripulias ao seu bel prazer, principalmente assustando as crianças que acompanham o cortejo com a intenção de amolar a faca em suas bundas. A batucada segue no final, junto com os demais personagens do auto, os rapazes dos candeeiros, os seguranças e a multidão de simpatizantes do boi. Durante o percurso, os brincantes vão cantando as toadas de rua mais tradicionais de cada boi-bumbá.

O Amo do Boi se posiciona em frente à residência do contratante e canta a toada de chegada: “Senhora dona da casa / agora que eu cheguei / cheguei, cheguei, cheguei / não me deram notícias suas / de saudade quase que chorei”

O boi começa a evoluir no meio de um círculo formado pelos demais brincantes, enquanto o Amo vai cantando várias toadas.


De repente, o Amo canta uma toada diretamente endereaçada ao boi: “Vem cá meu boi / vai morrer ao redor das campinas / assim faz quem pode / vai morrer nos braços das meninas”

Pai Francisco atira no boi. O boi estrebucha e cai no chão. Catirina canta uma toada: “Atirou, atirou, atirou, meu amo / atirou, mas não foi pra matar / foi a arma que disparou / arreia no chão bem devagar”

O Amo canta: “Morreu, morreu / morreu, já caiu no chão / já morreu meu boi formoso / este boi era a prenda do meu coração”

O Amo fala pra Pai Francisco: “Chico, caba safado, já que fizeste essa maldição, agora desossa o boi e começa a repartição!”

Os vaqueiros começam a cantoria para Pai Francisco amolar a faca: “Olelê, olelê, olalá / Nego Chico agora / a faca vai amolá”

Pai Francisco procura uma criança para fazer rebolo (segurar os dois chifres do boi e ficar rebolando para ele amolar a faca na bunda da vítima. Se não agarrar nenhum moleque, Mãe Catirina faz o rebolo)

Pai Francisco amola a faca e diz: “Pronto, meu amo, já amolei a faca!”

Amo responde: “Já que amolaste a faca, vai me tirar a língua do boi e vender pra dona da casa!”

Vaqueiros começam a cantar a toada para Pai Francisco tirar a língua: “Ô Chico tira a língua / ô Chico tira a língua / ô Chico tira a língua / se quer tirar”

Após ter tirado a língua, Pai Francisco canta: “Catirina, nega velha / meu amor, meu bem querer / a língua do boi, Catirina / é pra nós ir já vender”

Pai Francisco vai vender a língua: “Boa noite, dona da casa / como vai como passou? / eu vim vender a língua do boi / que meu amo me mandou”

Pai Francisco canta após vender a língua pra dona da casa: “Eu já vendi / eu já vendi / falta receber / quem comprou a língua do boi / o meu amo tem que saber”

O Amo fala pra Pai Francisco: “Agora aproveita e faz a repartição do boi!”


Pai Francisco chama Mãe Catirina e os dois começam uma toada de chamada e resposta, enquanto fingem estar desossando o boi.

Pai Francisco “Vô reparti o boi, como meu amo pediu...”
Mãe Catirina: “E quem não gostá... que vá pra puta que pariu...”
Pai Francisco: “E a tripa mais fina?”
Mãe Catirina: “É de comadre Serafina!”
Pai Francisco: “E a tripa mais grossa?”
Mãe Catirina: “É de compadre Zé da Roça!”
Pai Francisco: “E repartindo os rins?”
Mãe Catirina: “É do Neco Martins!”
Pai Francisco: “E repartindo a banha?”
Mãe Catirina: “É do Chico Piranha!”
Pai Francisco: “E o corredô?”
Mãe Catirina: “É do seu dotô!”
Pai Francisco: “Pra se arreparti?...”
Mãe Catirina: “Com o seu promotô!”
Pai Francisco: “E a chã de dentro?”
Mãe Catirina: “É de compadre Zé Sarmento!”
Pai Francisco: “E a chã de fora?”
Mãe Catirina: “É de compadre Zé da Hora!”
Pai Francisco: “Lado do cangote?”
Mãe Catirina: “É de Chico Onofre!”
Pai Francisco: “E o lado de trás?”
Mãe Catirina: “É do Chico Tomáz!”
Pai Francisco: “E a rabada?”
Mãe Catirina: “É da rapaziada!”
Pai Francisco: “Pra se arreparti?...”
Mãe Catirina: “Com a Chica Pelada”
Pai Francisco: “Pedaço da mão?”
Mãe Catirina: “É do Kleber Romão!”
Pai Francisco: “Pedaço do pé?”
Mãe Catirina: “É do Pedro Tomé!”
Pai Francisco: “E o chifre de quem é?”
Mãe Catirina: “De quem tiver mulher...”

Pai Francisco e Mãe Catirina vão embora. O Amo recita uma toada, como se estivesse muito emocionado: “Grande paixão tenho eu / dentro do meu coração / de ver meu boi morto / deitado neste frio chão / que conta darei, meu pai, / quando chegar no sertão! / oh, vaqueiro, meu bom vaqueiro, / vaqueiro de minha estimação”


Vaqueiro canta: “Eu sou um triste vaqueiro / que vive na vaquejada / dei falta de meu boizinho / achei morto na malhada”

Amo pergunta: “Vaqueiro, meu bom vaqueiro, pra que te tenho, vaqueiro?”

Vaqueiro responde: “Pra sua defesa, meu amo!”

Amo pergunta: “Vaqueiro, não sabe dizer quem matou meu boi?”

Vaqueiro responde: “Meu amo, já procurei muito, porém não procuro mais, quem deve saber é o primeiro rapaz”

Amo fala: “Então me chama o primeiro rapaz”

Vaqueiro canta: “Ô rapaz do amo, ô rapaz / meu amo te chama, ô rapaz / meu amo, rapaz, te chama / vai falar com ele, ô rapaz”

Rapaz canta: “Sou eu rapaz do meu amo / vaqueiro pra que me quer? / tô pronto para a batalha / a cavalo e não a pé”

Amo pergunta: “Rapaz, ô meu bom rapaz, pra que te tenho?”

Rapaz responde: “Pra sua defesa, meu amo!”

Amo fala: “Não sabe dizer quem matou meu boi?”

Rapaz responde: “Entrei pela várzea grande / saí pela vau do risco / ouvi uma voz dizer / que foi Catirina e Pai Francisco”

Amo fala: “Então vai me buscar esse nego preso e amarrado”

Rapaz responde: “Meu amo, eu não sei o caminho...”

Amo dá uma relhada no lombo do Rapaz e fala: “Vai buscar esse nego preso e amarrado e é agora...”

Rapaz canta: “Cantando e chorando / meu amo me bateu / por causa do nego Chico / o meu boi morreu”

Rapaz vai à casa de Pai Francisco tentar prender ele, mas Chico não se entrega e ainda xinga o Amo do boi de ser um cabra ladrão e safado.

O Rapaz retorna à fazenda e conta o sucedido: “Ô senhor meu amo / Chico me atirou / nem bala nem chumbo / nada me pegou”

Amo canta: “Ô rapaz, pega o nego / que o nego é atrevido / o nego matou meu boi / e já está escondido”

Rapaz canta: “Ô senhor meu amo / eu vou lhe contar / só quem traz o nego / é os caboco rear”

Amo canta: “Venha cá rapaz / venha me dizer / o que o nego disse / que eu quero saber”


Depois de ouvir de novo o relato do rapaz, o Amo canta: “Rapaz da minha fiança / venha cá faça favor / vá me levar essa carta / na casa do Diretor”

Rapaz vai à casa do Diretor dos Índios e canta: “Boa noite, seu Diretor / como vai, como passou? / vim só trazer essa carta / que meu amo lhe mandou”

Diretor lê a carta e responde: “Rapaz, diz lá pro teu amo / Tô pronto pro que quiser / que me mande um bom cavalo / que não posso andar a pé”

Rapaz retorna à fazenda e diz a resposta do Diretor para o Amo. O Amo manda selar um cavalo e o Rapaz leva ao Diretor dos Índios. Depois que chega à fazenda, o Diretor indaga: “Boa noite, amo do boi / por que mandou me chamar? / estava na minha aldeia / com meus cabocos rear”

Amo canta: “Senhor Diretor dos Índios / fui eu que mandei chamar / pra prender o nego Chico / com seus cabocos rear”

Diretor canta: “Boa noite, amo do boi / como vai, como passou? / estou pronto preparado / para as ordens do senhor”

Amo fala, em tom ríspido: “Senhor Diretor dos Índios, mandei chama-lo em minha casa para prender o nego Chico, que matou meu boi. Ele está em cima da serra, não há meio de vim cá”

Diretor avisa: “Meus cabocos só vão à guerra se forem batizados...”


O Amo, o Rapaz e o Diretor vão falar com o Padre da aldeia. Depois que fica a par da situação, o Padre pede ao Diretor para reunir os cabocos que serão batizados.

Padre fala: “Caboco se ajoelha, caboco se espoja no chão, manda os brutos ficar de joelhos, que estou com a Bíblia na mão”

Diretor chama os cabocos: “Pein, Pery, Tupã, Paraguaçu, Tupinambá, Caramuru”

Padre canta: “Batizo os cabocos / ao som do tambor / pra irem à guerra / com Nosso Senhor / batizo os cabocos / ao som da viola / pra irem à guerra / com Nossa Senhora”

Quando acaba o batismo, o Diretor dos Índios dá um tiro de espingarda pro céu.

Pai Francisco fica assustado: “Que grande estrondo deu na aldeia / Catirina, o que será? / será Diretor dos Índios / com seus cabocos rear?”

Diretor dos Índios dá o ultimato: “Pai Francisco, nego velho / lá de cima do outeiro / prepara teu bacamarte / lá vai caboco guerreiro”

Amo canta: “Ecoou, ecoou, / bota nego no chão / esse nego é malvado / não tem medo não”

Os índios prendem Pai Francisco e o Diretor canta: “Já chegou meus cabocos / todos eles baleados / houve sangue na guerra / trouxero o nego amarrado”

Pai Francisco canta: “Cabocos me prenderam / foi com muita da razão / eu era um pobre sozinho / eles eram uma porção”

Diretor fala ao Amo: “Pronto, meu amo, nego Chico valentão, trouxe preso e amarrado de pé e mão, assim que o nego me viu, cachimbo caiu no chão”

Amo fala: “Este é o nego ladrão de boi?...”

Diretor responde: “É, meu amo!”


Amo fala: “Chico, eu mandei te buscar pra me contares porque motivo mataste meu boi. Se me contares direitinho, eu te dou uma prenda, mas se tu falhar eu mando te surrar...”

Pai Francisco fala: “Meu amo, eu só conto se o sinhô mandar me desamarrar e devolver os carregamento!”

Amo fala: “Senhor Diretor dos Índios, mande desamarrar o nego e lhe devolver as armas”

Pai Francisco conta a história: “Meu amo, é o seguinte! Eu tinha um roçado muito grande, lá eu plantei muita coisa. Então, apareceu o boi. A Catirina tava grávida, desejou comer um pedaço do boi. Eu não queria matar, dizia pra ela que o boi podia ser do meu amo e de estimação e que depois eu podia me enrascar. Mas o sinhô sabe como é pedido de mulher... E ela pediu e pediu e pediu e eu matei o boi!”

Amo fala: “Já que mataste meu boi, quero ver ele em ponto de bala dentro de alguns minutos dançando fandango em cima da pedra virgem ou tua Catirina vai se vestir luto. A teu favor, tem o Dr. da Vida.”

Amo canta: “Na Paraíba / dona Maria casou / com grande fortuna / pra Chico chamar doutor / chama doutor / pra curar boi / chamai Chiquinho / pra contar como foi”

Depois de chamar o Dr. da Vida, Pai Francisco fala pro Amo: “O doutor diz que o boi não está morto, foi só baleado. Ele passou a receita e mandou chamar os vaqueiros pra soprar três aboios no berrante, que o boi levanta”

Um dos vaqueiros chama o boi três vezes fazendo aboios no berrante e então o boi urra.


O Amo canta: “Urrou! urrou!/urrou que ouvi! / boi mais bonito que este / garanto que nunca vi!/ urrou! urrou! / urrou o fama reá! / boi de fama como este / no sertão não  haverá / urrou! urrou! / urrou, voltou a urrar! / urra meu boi na campina / canta sereia no mar”

O boi se levanta e recomeça a bailar.

O Amo canta: “Levantou o maiorá / levantou pra vadiá / levantou meu boi de fama / o melhor boi do lugar”

Os brincantes começam a cantar a toada de despedida: “Nosso boi se despede e vai embora / moça bonita que fica não vá chorar / eu me despeço é morrendo de saudade / e sofro de pena de não poder te levar”.

A apresentação durava cerca de 45 minutos. O bumbá então seguia pela rua em direção à nova residência onde se apresentaria pela segunda vez. Em média, cada bumbá se apresentava de três a quatro vezes na mesma noite.

Do Bumba-meu-boi ao Boi-Bumbá


Alguns historiadores associam o surgimento da brincadeira do Bumba-meu-boi à expansão, no Nordeste, do chamado “Ciclo do Gado” – quando, a partir do século 17, o animal ganhou grande importância nas fazendas da região. Apesar de o Bumba-meu-boi ser uma manifestação típica do folclore brasileiro, ele lembra um pouco os autos medievais – encenações simples, com linguagem popular e, em geral, falando da luta do bem contra o mal.

“O boi é um dos folguedos mais representativos da cultura brasileira, pois reúne traços de três grandes ramos da formação do nosso povo: europeu, indígena e afro-negro”, afirma Américo Pellegrini Filho, folclorista da Universidade de São Paulo (USP). A apresentação, que ocorre principalmente em festas juninas, mostra as relações desiguais entre senhores de engenho, escravos e indígenas, numa sutil crítica social.

Contado e recontado através dos tempos, na tradição oral nordestina, e depois espalhada pelo Brasil, a lenda adquire contornos de sátira, comédia, tragédia e drama, conforme o lugar em que se inscreve, mas sempre levando em consideração a estória de um homem e um boi, ou seja, o contraste entre, por um lado, a fragilidade do homem e a força bruta do boi e, por outro lado, a inteligência do homem e a estupidez do animal.

Do ponto de vista teatral, o folguedo deriva da tradição espanhola e da portuguesa, tanto no que diz respeito ao desfile como à representação propriamente dita, tradição de se encenarem peças religiosas de inspiração erudita, mas destinadas ao povo para comemorar festas católicas nascidas na luta da Igreja contra o paganismo. Esse costume foi retomado no Brasil pelos jesuítas em sua obra de evangelização dos indígenas, negros e dos próprios portugueses aventureiros e conquistadores, por meio da encenação de pequenas peças.


No seu livro “Folclore do Brasil”, Luís da Câmara Cascudo joga um pouco mais de luz sobre o surgimento da brincadeira:

“Bumba-meu-boi, Boi Kalemba, Boi de Reis, Folguedo do Boi, Boi-Bumbá no Maranhão, Pará, Amazonas, Três Pedaços em Alagoas (Porto da Rua, Porto de Pedras), Boi de Mamão em Santa Catarina e Paraná, é um dos mais tradicionais autos, conservados pelo povo do norte e nordeste do Brasil. Está decadente, mas continua ambientado pela assistência mais humilde, competente nos aplausos, seguindo o grupo para contemplar o espetáculo secular. Irradiou-se das zonas açucareiras e pastoris para o extremo norte, onde a pastorícia ausente pareceria incompreendê-lo na primária e sugestiva movimentação temática. 

Em 1859 Avé-Lallemant encontrava-o em Manaus, “enorme e leve arcabouço de um boi, com chifres verdadeiros”. Baila, seguido de fantasias indígenas, guiado por um pajé. Morre ao estrondar do batuque e vão enterrá-lo para que volte a viver e repetir a farsa noutra parte, “morrendo cinco ou seis vezes na mesma noite”, anota o alemão. 

Aparece num breve, leve, singelo e grotesco bailado, como começou o boi guaque ou boi huaco, em Nicarágua.

A mais antiga menção encontro num mal-humorado registro do padre Miguel do Sacramento Lopes Gama, no Carapuceiro, janeiro de 1840, no Recife: 

“De quantos recreios, folganças e desenfados populares há neste nosso Pernambuco, eu não conheço um tão tolo, tão estúpido e destituído de graça, como o aliás bem conhecido bumba-meu-boi. Em tal brinco não se encontra um enredo, nem verossimilhança, nem ligação: é um agregado de disparates. Um negro metido debaixo de uma baeta é o Boi; um capadócio, enfiado pelo fundo dum panacu velho, chama-se o Cavalo-Marinho; outro, alapardado, sob lençóis, denomina-se Burrinha; um menino com duas saias, uma da cintura para baixo, e outra da cintura para cima, terminando para a cabeça com uma urupema, é o que se chama a Caipora; há além disto um outro capadócio que se chama Pai Mateus. O sujeito do Cavalo-Marinho é o senhor do Boi, da Burrinha, da Caipora e do Mateus.

Todo o divertimento cifra-se em o dono de toda esta súcia fazer dançar, ao som das violas, pandeiros e de uma infernal berraria, o tal bêbado Mateus, a Burrinha, a Caipora e o Boi, que com efeito é o animal muito ligeirinho, trêfego e bailarino. Além disso o Boi morre sempre, sem quê nem para quê, e ressuscita por virtude de um clister, que o pespega Mateus, coisa muito agradável e divertida para os iudiciosos espectadores.

Até aqui não passa o tal divertimento de um brinco popular e grandemente desengraçado, mas de certos anos para cá não há bumba-meu-boi, que preste, se nele não aparece um sujeito vestido de clérigo, e algumas vezes de roquete e estola, para servir de bobo da função. Quem faz ordinariamente o papel de sacerdote bufo é um brejeirote despejado e escolhido para desempenhar a tarefa até o mais nojento ridículo; e para complemento do escárnio, esse padre ouve de confissão ao Mateus, o qual negro cativo faz cair de pernas ao ar o seu confessor, e acaba, como é natural, dando muita chicotada no sacerdote!”

Começaria nos engenhos, entre negros, mamelucos, mestiços, na forma inicial boi canastra, armação de vime, coberta de pano pintado, cabeçorra bovina, ampla cornadura, unicamente destinado a dispersar e afugentar os curiosos atrapalhantes de uma função representada ao ar livre. Era assim na Espanha e Portugal, o falso boi chifrando diante dos cortejos mascarados e mesmo fazendo rir ao monarca. Havia touradas cômicas com esses touros de junco, as tourinhas. 

É o que se observa nos velhos autos que Sílvio Romero coligiu, como o Reisado da Borboleta, do Maracujá e do Pica-Pau. É o boi que Max Schmidt vê em Rosário, Mato Grosso, no derradeiro ano do século XVIII. Que Alceu Maynard Araújo encontra em 1951 afastando os foliões de São Luís de Paraitinga, São Paulo, resguardando a gravidade hirta da gigantesca Miota. Foi a forma primária que tivemos da Península Ibérica, o boi amedrontador dos meninos inquietos. É uma tradição também sertaneja e viva no vocabulário dos cantadores de desafio: “Esse véio Serradô / De apelido João Festino / Quando se vê agastado / E fica no seu destino / Faz mais medo a cantado / Do que boi faz a menino”


Mesmo na segunda metade do século XIX muitos outros autos concorriam na popularidade da assistência. O Cavalo-Marinho, que vemos na informação de Lopes Gama, sendo o dono do folguedo, denominava a função, e Sílvio Romero ainda diz o mais apreciado de Pernambuco. Ora, o bumba-meu-boi, já em janeiro de 1840, aliás bem conhecido, na catilinária d’O Carapuceiro recifense, dominava o Maranhão, como registou Celso de Magalhães. Derrotara o Cavalo-Marinho. Fora aglutinando as personagens mais favoritas dos autos vulgares, criando assunto, determinando episódios. Como o "rancho" da burrinha era o predileto na Bahia. Em janeiro de 1840 estava autônomo e o Cavalo-Marinho, embora dono, não batizava o auto que era o bumba-meu-boi. Seguiu atraindo outros elementos, ampliando a área de função, seduzindo as atenções populares, alistando-se como uma homenagem à festa da Natividade, habeas corpus do pagode verbal.

No Dicionário do Folclore Brasileiro, verbete bumba-meu-boi, está uma exposição que julgo suficiente de como o auto se formou e veio vivendo, pela assimilação incessante de temas vitais de outros autos mais permeáveis, incorporando damas e galantes que bailavam nas procissões do Corpo de Deus em Portugal, fazendo surgir os vaqueiros negros, Birico ou Fidélis, e Mateus, centros de comicidade plebéia, ficando horas em cena, improvisando diálogos calorosos, monologando, dizendo disparates, sacudindo o riso do auditório, inesgotáveis da verve que o povo ama e festeja. Depois, à volta de 1910, apareceu a negra Catirina, faladeira, destabocada, respondona.

As figuras do bumba-meu-boi variam de província para província e, nas próprias regiões da exibição, sofrem modificações, desaparecimentos, substituições, acréscimos, novidades, experiências que duram ou não resistem ao desgaste do contato popular, eliminando-se por insuficientes. Damas e galantes dizem loas, versos sérios, declamados monótona e dignamente, sempre na intenção religiosa, indo e vindo numa marcha mecânica e superior aos companheiros burlões. Mateus e Birico são sempre funcionalmente divertidos, arremedadores, caricaturando a solenidade das damas e galantes, espavorindo os monstros que aparecem, enfrentando a longa série humana e zoológica realizadora do programa do bumba-meu-boi. Nos velhos alagoanos havia Rei e Rainha.

Auto do Natal (exceto no Pará onde o boi-bumbá é pelo São João) preenche para o povo as horas longas de espera da Missa do Galo, à meia-noite. Dispunha do tempo, não apreciável para o povo. Os papéis eram estudados, ouvidos ou explicados, mas a dupla negra, ou pintada de negro, era surpreendente de vivacidade, prontidão nas respostas à participação anônima do auditório, na graça picante e clara da vulgaridade legítima. Todos ou quase todos os acontecimentos reapareciam nos diálogos dos dois vaqueiros, Pasquino e Marfório, nos limites da tolerância policial, fazendo rir sem rancor e mágoa.

Há bois dançantes por todas as regiões pastoris do mundo, África, Ásia, América Austral, Central e do Norte, pela Europa inteira. O bumba-meu-boi, na espécie, auto-formação, intenção, força defensiva e valorizadora popular, anti-demagógica pela ausência do plano político imediato e útil a uma facção, existe sozinho; lirismo, sinceridade, arrojo, no mais pobre, simples e natural dos autos brasileiros. No Maranhão o folguedo tem uma indumentária de alto gosto. É o único made in Brazil em quase todas as suas peças e no próprio dinamismo lúdico. 

Só a figura do boi é que viajou de Portugal, mas no Brasil pastoril desdobrou-se, infinitamente longe da limitada habilidade de espalhar os curiosos às cornadas, como começara sua existência no folclore nacional, meados do século XVIII, segundo deduzo. Inútil, para mim, expor o boi como expressão religiosa, mítica, cultos da força fecundadora, acordando os colegas egípcios, o Boef Gras francês, o boi processional dos vanianecas do sul de Angola, o boi bento de São Marcos, o boi estudado por Gubernatis. Outros desígnios e destinos diversos na intenção popular, modeladora de suas preferências no plano da função divertida.

Quando reaparece o Cavalo-Marinho, espécie de centauro, cavalo da cintura para baixo, tratado por Capitão! e dando ordens, já se sabe que é o velho auto pernambucano ainda autônomo mas agregado ao bumba-meu-boi.

Ao lado das figuras permanentes passam as novas e morrem as velhas, Capitão de Campo, o Padre-Vigário, a Caipora, o Arlequim, o Bate-Queixo, o Corpo-Morto, Zé do Abismo, o Cobrador de Imposto, o Doutor-Médico, antigos ajustes de contas, anônimos e ferozes. Até certo ponto o bumba-meu-boi, boi kalemba, funciona como as antigas revistas de costumes, sacudindo o teatro nas gargalhadas comunicantes. Ninguém se revia na exposição maliciosa. Nenhum outro auto popular possui essa vocação satirizante, incontida, lógica, realizada no meio da mais pobre das assistências compreensivas. Até há poucos anos, Birico e Mateus eram profissionalmente analfabetos. Daí a originalidade das imagens, conclusões psicológicas, o inesperado depoimento coletivo nas vozes autênticas dos dois vaqueiros, engraçados e rústicos. 

Curioso é que o boi kalemba tratado, vestido e limpo, organizado, com um conjunto musical audível, ensaiado, recomendado, é de uma banalidade automática e roncante. E quando arrastam o elenco aos microfones, todo o humor esfuziante daqueles atores que representam descalços e pisando na areia, ao ar livre, pintados, rasgados e sujos, desaparece, e se tornam gagos e tristes, como malandros iniciantes depondo na polícia. 

De um desses bumba-meu-boi, maravilhoso e legítimo, fazendo as alegrias do auditório de todas as categorias, por mim levado a uma estação emissora, para programa anunciado com ampla "cobertura" entusiástica e ansiosa, assisti o mais completo desmoronamento das memórias, vivacidade e graça feiticeira nos remoques e perguntas. O estúdio retirou-lhes a faculdade de respirar normalmente. Prometi jamais reincidir.

O enredo desse legitimíssimo auto popular gira em torno de um boi, guardado pelos vaqueiros e por eles sacrificado, por variadas razões. Morto o animal, tendo antes dançado e espalhado a gente, aplicam remédios e fazem promessas e oferecimentos para restituir-lhe a vida. Algumas vezes ocorre esse episódio, voltando o boi a viver e bailar. Noutras regiões, fazem a partilha, original e cômica, das vísceras, peça por peça, em versos, destinando-as aos figurantes do auto ou pessoas estranhas mas conhecidas pelo auditório. 

Esse pormenor existe em autos e festas populares pela Europa e América Latina, sem nenhuma relação com o enredo do nosso folguedo. São, lá fora, cenas hilariantes, independentes de sequência temática, partilhas de asnos, galos, pássaros insignificantes, convergindo no Brasil para o boi kalemba, mas tendo vivido anteriormente em situação autônoma, como vemos no Reisado de Antônio Geraldo, que Sílvio Romero registou em Sergipe (Cantos populares do Brasil, I, 347, Rio de Janeiro, 1954). 

Naturalmente articulam a partilha do bumba-meu-boi com um repasto totêmico, divagação erudita dispensável para quem recorda o tantas vezes milenar costume da divisão convencional da peça de caça aos caçadores, conforme a maior ou menor intervenção no êxito cinegético. Creio, anotando o citado Reisado, ter exposto suficientemente o assunto. O mito etólio de Meleagro responde, numa antecipação milenar, a W. Robertson Smith.

Durante o decorrer do auto os compères, variando topograficamente, dialogam e recepcionam os incontáveis participantes que vão aparecendo, todos cantando e dançando. Vez por outra, comedidos e graves, vêm as damas e os galantes, entoando loas a lo divino, imperturbáveis às facécias, vestidos de branco. Birico e Mateus são os "permanentes". Mateus é mais nacional; do Pará a Santa Catarina e pelo interior de Pernambuco e Alagoas ambos os vaqueiros são Mateus. Catirina era velha figura na Bahia e recente no Nordeste. Em Alagoas denominava uma réstia de cebolas com que Mateus se armava.

O auto finda, como no século XVI, por uma dança geral, em que todos os personagens voltam ao público para a farândola terminal. Noutras paragens, acabam todos bailando em forma de carrossel, tear, moenda ou cantando desafios.”


Pelo texto do folclorista Luís Câmara Cascudo, chegamos à conclusão de que o Bumba-meu-boi, tal como o conhecemos hoje, era apenas uma parte menor do auto do Cavalo Marinho, mas que acabou evoluindo por conta própria e se transformou em uma brincadeira autônoma.

O certo é que, ao espalhar-se pelo país, o Bumba-meu-boi adquiriu nomes, ritmos, formas de apresentação, indumentárias, personagens, instrumentos, adereços e temas diferentes. Dessa forma enquanto no Maranhão, Rio Grande do Norte e Alagoas é chamado Bumba-meu-boi, no Pará e Amazonas é Boi-Bumbá ou Pavulagem, em Pernambuco é Boi Calemba ou Bumbá, no Ceará é Boi-de-Reis, Boi Surubim e Boi Zumbi, na Bahia é Boi Janeiro, Boi-Estrela-do-Mar, Dromedário e Mulinha-de-Ouro, no Paraná e em Santa Catarina é Boi-de-Mourão ou Boi-de-Mamão, em Minas Gerais e Rio de Janeiro é Bumba ou Folguedo do Boi, no Espírito Santo é Boi-de-Reis, no Rio Grande do Sul é Bumba, Boizinho, ou Boi-de-Mamão, e em São Paulo é Boi-de-Jacá ou Dança do Boi.

Figura mitológica nas mais diversas culturas, o boi era visto por escravos negros e indígenas como companheiro de trabalho, símbolo de força e resistência. É por isso que toda a encenação gira em torno dele. A pessoa que veste a fantasia do animal é chamada de “miolo” ou “tripa”.

Grupo de lesados da grande literatura masculina


Maria João Marques

Queria escrever sobre a mais recente polémica com o Facebook: empresa tão moderna, tão hipster, tão tecnológica, tão universo-aos-nossos-pés que não deixa as senhoras que lá trabalham vestirem-se de forma sexy. A propósito disso fui reler as notícias de Tim Hunt, o Nobel que acha uma maçada as mulheres cientistas: que os cientistas e as cientistas apaixonam-se e as mulheres choram quando são criticadas. Aqui, apanhei a verborreia de V.S. Naipaul sobre mulheres escritoras, vi tudo encarnado e decidi alargar o arco deste texto.

A saber: a mania que alguns egos masculinos têm de que a forma de agir, de trabalhar, de pensar, de escrever, de o que quer que seja masculina é a forma correta, o padrão, a ordem natural do mundo funcionar. E que a maneira feminina – e sim, eu voto sempre na existência de diferenças entre os sexos e nunca na igualdade intrínseca entre os xy e as xx (o que é muito diferente de assumir que há papeis, profissões, talentos predeterminados para cada sexo) – é um desvio à norma, fruto de emoções desordenadas e irracionalidades várias, sobretudo algo que as mulheres têm de corrigir se querem ser levadas a sério pelos guardiães da seriedade (também conhecidos como elementos do sexo masculino).

Este padrão masculino vai ao ponto das alucinações de Naipaul: a maneira de escrever certa e com qualidade é a masculina. O curioso é que este tipo de opiniões é levado a sério ou, pelo menos, reproduzido sem ser em tom de escárnio em jornais decentes. Quando merecia a zombaria que oferecemos a sugestões estrambólicas como a de retirar dos cursos de literatura as obras dos escritores masculinos, brancos e das potências colonizadoras. Os maluquinhos esquerdistas americanos querem extirpar os cursos de Shakespeare e Chaucer. 

Naipaul, porventura com o ego insuflado de que padecem os temperamentos artísticos e políticos, como aqui bem ilustrou Paulo Tunhas, opina que a escrita de Jane Austen ou das Brontë ou de George Eliot é ‘unequal to him’ (vá, vamos todos desmaiar ao mesmo tempo de comoção pelo tamanho do talento másculo de Naipaul).

Eu percebo que um homem goste mais do estilo literário de outro homem. Eu, (não) por acaso, tendo a apreciar mais a escrita feminina. Venero Thackeray e Evelyn Waugh e P.G. Wodehouse e Somerset Maugham, ando atrás de Julian Barnes e Peter Carey e disputo quem quer que diga que em Portugal há quem escreva melhor que o Bruno Vieira Amaral (que até sobre futebol é bom de ler). 

Mas, e estou pronta a constituir uma claque literária feminina, pegando por exemplo nos colegas nobelizados de Naipaul, os meus Nobel da literatura preferidos são Alice Munro e Doris Lessing. Munro – além de um talento para juntar umas palavras às outras que Naipaul invejaria se tivesse juízo – tem uma escrita, pela forma e pelos temas, que nunca viria de um homem. E o machismo da gente esclarecida dos movimentos comunistas anticoloniais que é descrito por Lessing dificilmente seria relatado no masculino.

O que V.S. Naipaul diz – sonsamente – é que o ponto de vista feminino só tem lugar na grande literatura se for apresentado (e distorcido) por um homem. Em boa verdade, as mulheres, se fossem inteligentes, tratariam de imitar as figuras femininas idealizadas pela literatura masculina. Esta mania de decidirmos por nós como somos, em vez de aceitar a recomendação masculina, será a nossa perdição.

O pior é que o padrão masculino não se fica pela literatura. Na empresa Facebook, segundo o folclore, as indumentárias são informais e os homens trabalham de calções e t-shirt. É o melhor dos mundos: os homens estão cómodos e as mulheres – como vários escritores masculinos já asseveraram – são seres assexuados incapazes de perderem uns minutos dos seus dias a escrutinar um agradável par de pernas do sexo oposto visíveis debaixo de uns calções. 

Já os homens, pobres almas, têm de ser protegidos deles próprios e das distrações causadas pelas minissaias e decotes femininos. Como os homens são impetuosos e não se conseguem conter – os escritores masculinos (e os extremistas islâmicos também) garantem que sim – têm de mudar as mulheres para acomodar o mundo às necessidades masculinas.

Nos laboratórios de investigação, como Tim Hunt escancarou, os contributos das mulheres são vistos (pelos ‘porcos chauvinistas’, como orgulhosamente se apresentou) como menores que os constrangimentos que a interação entre os sexos causa ao trabalho dos verdadeiros cientistas: os xy. 

Acho também piada ao mito do choro feminino. É ver nas redes sociais e na comunicação social como as mulheres são imensamente mais criticadas e insultadas pelos valentes que se escondem atrás do teclado do computador; e como somos inundadas de lixo sexista constantemente. Nunca dei por ataques de choro. Já tantos homens – como Tim Hunt – quando levam como resposta a liberdade de expressão daquelas que, fazendo uso dessa mesma liberdade de expressão, ofenderam, correm a vitimizar-se e a dizerem-se mártires do feminismo fundamentalista e do politicamente correto.

E, por fim, vemos o mesmo na política. Hillary Clinton. Péssima política, deve a carreira ao marido – é proibido dizer o contrário. E com essa característica imperdoável numa mulher decente: é ambiciosa. O desejo de poder e de dinheiro está, com abundante ‘grande’ literatura masculina a argumentar para este lado, reservado aos homens e às pérfidas vamps dos romances oitocentistas. 

Não interessa nada que muitos herdeiros políticos tenham falhado – Ted Kennedy, Jeb Bush,… –, que as vitórias tenham sido engendradas pela própria e que os escândalos sexuais de Bill Clinton sejam um flanco fácil de atacar. Hillary é mulher, faz discursos que são o cúmulo da sanidade numa campanha de candidatos que parecem alimentados a alucinogénios, pelo que é péssima. 

Já um trauliteiro com expressão verbal sub-humana, que se vê como o principal tema das eleições presidenciais (e do universo), nos discursos passa três quartos do tempo a referir as audiências que trouxe aos programas onde participa e a insultar os jornalistas que o criticaram – esse, bem, é um génio político que vai revolucionar a política mundial.

Descansem em paz, neurónios.



Fonte: site Observatorio.PT

Condenado o assassino de Víctor Jara, 43 anos depois da morte do cantor chileno


Victor Jara foi assassinado quando tinha 40 anos

Víctor Jara foi um cantor, compositor e ativista político chileno torturado e assassinado em 1973. Passados 43 anos, Pedro Pablo Barrientos Nuñez foi condenado nesta segunda-feira, 4, por ter assassinado o cantor.

O veredicto foi dado por um júri da Florida, naquela que está sendo considerada como “uma das maiores vitórias dos direitos humanos contra criminosos estrangeiros num tribunal americano”, segundo o jornal inglês The Guardian.

Barrientos, que era militar e continua em liberdade, poderá até ser extraditado para o Chile, onde enfrenta acusações que o ligam ao golpe apoiado pela CIA que afastou Salvador Allende e colocou Augusto Pinochet no governo do país durante 17 anos, regime que é responsabilizado pela morte de mais de 3.000 pessoas.

Segundo a acusação de Barrientos, este teria assassinado Jara em setembro de 1973, quando o cantor tinha 40 anos, depois de o artista socialista ter passado três dias detido e ter sido mutilado e espancado.

Jara estava preso, juntamente com milhares de suspeitos de serem comunistas, no Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos, em Santiago do Chile, quando foi assassinado. Depois de morto, o corpo do músico foi deixado na rua, perto do recinto. O Estádio Nacional do Chile foi usado como centro de detenção de milhares de pessoas durante o processo revolucionário que levou Pinochet ao poder.

O homem condenado por ter assassinado Jara, atualmente com 67 anos, fugiu do Chile em 1989 e estabeleceu-se na Florida, tendo-se tornado um cidadão americano depois de ter casado com uma americana. 

Em 2012, Barrientos foi acusado de homicídio no Chile, juntamente com outros oito oficiais reformados. No entanto, o Departamento de Justiça dos EUA não respondeu ao pedido do governo chileno para proceder à sua extradição.

O Centro para a Justiça e Responsabilização é o grupo de direitos humanos que lançou uma ação civil em nome da família de Jara, Segundo Kathy Roberts, a diretora da organização, este processo foi intentado para conseguir justiça para a família Jara e também para as famílias de todos os que perderam a vida durante os massacres no Estádio Nacional do Chile.

O júri americano composto por cinco mulheres e um homem deliberou ainda que Barrientos devia pagar seis milhões de dólares à família de Jara como indemnização e ainda outros 22 milhões de dólares como castigo, depois de ter sido condenado de tortura e homicídio.

No entanto, a família de Jara é capaz de não receber nada, depois do advogado de defesa ter dito que Barrientos não tinha meios de pagar o valor estabelecido.

A morte de Victor Jara

No dia 12 de setembro, Victor Jara foi preso no Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos, ou Estádio Nacional do Chile e ficou detido juntamente com outros 6.000 presos. O cantor foi torturado e morto à frente de milhares de testemunhas, no estádio. Embora a maior parte dessas testemunhas tenham morrido, o jornalista chileno Miguel Cabenzas descreveu os acontecimentos da morte de Jara à America’s University Review.

Segundo o jornalista, cujo artigo é citado pelo The Guardian, os presos eram colocados nas arquibancadas do Estádio Nacional, com os militares apontando as armas para as pessoas a partir do campo. Periodicamente eram disparados tiros contra a multidão e “os corpos rolavam pela arquibancada”. 

O jornalista disse que os corpos eram deixados nas arquibancadas e que aqueles que não comiam há dias vomitavam sobre os cadáveres. Jara andava pelo estádio tentando consolar os presos e levantar sua moral.

Depois de uma tentativa para animar os presos, Jara foi trazido para o meio do campo onde foi colocada uma mesa. O cantor foi obrigado a pôr as mãos sobre a mesa e cortaram-lhe as pontas dos dedos com um machado. 

Víctor Jara ainda se dirigiu às arquibancadas onde se sentou em silêncio até que alegadamente, teria dito: “Bem, camaradas, vamos fazer o favor ao oficial” e começou a entoar o hino da Unidade Popular, o partido do presidente chileno deposto, Salvador Allende.

Vários presos juntaram-se para cantar, até serem interrompidos por uma rajada disparada por um militar que teria acertado com uma bala na cabeça de Jara levando à sua morte, no dia 15 de setembro, dois dias depois de ele ter sido detido. O autor dessa rajada foi Pedro Pablo Barrientos Nuñez.

O corpo de Jara apresentava 44 ferimentos causados por balas, as pontas dos dedos cortadas e várias escoriações, quando foi deixado perto do Estádio Nacional do Chile. O cantor chileno tornou-se um símbolo internacional e em Portugal até existe uma banda de música chamada Brigada Víctor Jara que foi criada em 1975.


Fonte: site Observador.PT

quarta-feira, julho 06, 2016

Que apelidos eles merecem?


Por Mouzar Benedito

Embaixador 6%. Assim era conhecido um embaixador brasileiro na França, num período em que sobrava dinheiro nos países ricos e muitas empresas se interessavam em aplicar no Brasil. Segundo se contava, os franceses interessados em investir no Brasil o procuravam e ele cobrava 6% de propina para apoiar o investimento.

Lembrando dele, fico imaginando possíveis apelidos de certos políticos e empresários brasileiros. Poderia ser Fulano Incompetente, Cicrano Ladrão, Beltrano Corrupto, Dudu Fora da Lei, Zé Amigo do Alheio, Beltrano Trouxa Só 5%, Mané Cobra de Chifre, Doutor 171, Diretor Meio a Meio, Fulaninho Mão Leve, Edu Malevão, Zé Esfola-caras, Fulano Nefando, Beltrano Viperino, Gegê Mordaz, Paulo-que-de-pato-não-tem-nada…

Mas poderiam ser também apelidos numa linha mais irônica: Fulano Honesto, Beltrano Bom Caráter, Cicrano Dentro da Lei, Doutor Correto, Fefê Imaculado, Altruísta da Fiesp, Fulano Magnânimo, Beltrano Mavioso, Zé Santo Homem… Esse tipo de apelido, invertendo as “qualidades” das pessoas não são incomuns no Brasil

Saindo do universo dos políticos e poderosos, uma linha de apelidos é de mostrar alguma característica física das pessoas, como os baianos Paulinho Boca de Cantor e Odair Cabeça de Poeta. Uma vez, em Barra, cidade localizada onde o Rio Grande da Bahia deságua no São Francisco, vi um sujeito brigão, mal-ajambrado e com os lábios cheios de feridas. O apelido dele era Renato Boca de Hemorroida.

Já em Minas Gerais, alguns recebem apelidos contrários às características físicas das pessoas, assim como os já citados apelidos ironizando as “qualidades” morais. Por exemplo: na minha terra tinha um sujeito com um pescoço bem comprido, cujo apelido era Zé Pescocinho. Um magrelinho era o Dito Peitudo. Toda a família dele era de magrelos, e todos recebiam o “sobrenome”, quer dizer, o apelido Peitudo.

Mas não é só lá que acontece isso. Em São Paulo tinha um rapazinho com os pés enormes, conhecido como Pé de Anjo (por sinal, esse é o nome de um samba carioca, com o mesmo sentido).

Quando eu estudava Geografia, na USP, havia muitas meninas com o mesmo nome, e eram diferenciadas por apelidos. Teresa, por exemplo, havia muitas. Então, aí vão apelidos de duas delas: Teresa Portuguesa e Teresa Boca Larga. Duas tinham o nome de Keiko. Uma delas, com o queixo meio avançado pra frente, era chamada de Keiko Buldoguinha; a outra, bonita, esbelta, parecida com o que antigamente chamavam de “japonesa de folhinha”, era a Keiko Bonita.

Entre as de nome Bete, lembro-me de uma que ficava mais jogando pingue-pongue do que na sala de aula, era conhecida como Bete Pingue-Pongue. Entre as chamada Vera, tinha uma que cantava no Coral da USP e por isso era chamada de Vera Coral; outra, que nos intervalos das aulas ficava na rampa que desce das salas de aula para a lanchonete, para grudar em algum professor que descia por ela e ficar puxando-saco, era chamada de Vera Declividade.

Uma moça que andava sempre de nariz empinado ganhou um apelido bem safado: Cheira Peido. Puxa! Vejo uns políticos pomposos, que se julgam acima de todo mundo, e também acima do bem e do mal, que poderiam bem herdar esse apelido.

Rapazes com o mesmo nome também recebiam apelidos, em vez de serem chamados pelo sobrenome. Um evangélico que andava com uma bíblia debaixo do braço, ficou conhecido como Ronaldo Bíblico. Tinha também o Fernando Calçudo e um João que, para diferenciar dos xarás veteranos, foi apelidado de João Calouro e ficou sendo João Calouro até terminar a faculdade. Um ganhou o apelido de Ricardo Tripé, numa festa junina, e o adotou para sempre, pois servia como propaganda, já que o tripé era formado pelas duas pernas e…

Como surgiram alguns apelidos

Numa cidade do Sul de Minas, numa partida de futebol, um atacante foi derrubado dentro da área e o juiz não apitou. Ele partiu furioso pra cima do juiz, gritando: “Isterrégui? Isterrégui?”. Ele queria dizer “Isto é regra?”, e por isso ganhou o apelido de Isterrégui, que se tornou hereditário: seus filhos ficaram sendo o Fulano Isterrégui, Beltrano Isterrégui… Até os netos continuaram com o apelido Isterrégui. Esta é uma característica de certos lugares.

Na minha família mesmo, há casos assim. Até a geração anterior à minha havia gente com “sobrenome” Ourives, herdado de uns pioneiros de mais de duzentos anos atrás. O sobrenome real era Torres, mas só usado em documentos. Uns outros, herdaram o apelido Barulho, como sobrenome, por causa do ancestral que chegou por ali no final do século XIX e gostava de dar uns tiros pra cima. Assim, tenho parentes como Dito Barulho, Zeca Barulho, Tião Barulho…

No Triângulo Mineiro, meu cunhado deu um apelido bastante apropriado a um sujeito que era calmo demais: Paulo Neblina. Perguntei por quê?, e meu cunhado explicou: ele é muito sereno.

Os moleques são maus no exercício de apelidar. Na minha infância homem não usava cabelo comprido, mas um menino nasceu doente e a mãe dele fez uma promessa: não cortaria o cabelo dele até que fossem agradecer a padroeira do Brasil no Santuário de Aparecida, quando ele já estivesse bem crescido. Aos sete anos, único menino de cabelos longos na cidade, era conhecido como Zé Marcolina. Marcolina era o nome da principal cafetina local

Na Zona Leste paulistana, numa escola, um menino era todo desengonçado, com o rosto torto, e os colegas o chamavam de Chiclete de Vaca.

Bom… São muitas as causas dos apelidos. Poderia continuar um tempão lembrando deles, alguns muito indecentes. Mas para terminar vou contar apenas a história de quando conheci o compositor baiano apelidado Batatinha. Eu era fã dele, lembrava bastante daquela música: “Todo mundo vai ao circo / menos eu, menos eu. / Por não poder pagar ingresso / fico de fora escutando as gargalhadas…”

Em 1971, eu e uma turma de amigos em férias na Bahia ficamos hospedados numa república perto da TV Itapuã, onde o Elso, um dos moradores da casa, trabalhava como câmera. Uma noite, fui beber cerveja com ele numa birosca ao lado da sede da emissora e ele já estava bebendo com um colega que tinha um carguinho braçal na TV. Ele me apresentou: era o Batatinha. Fiquei emocionado. Logo depois chegou o Mário, um dos amigos de São Paulo, e eu sabia que ele também era fã do Batatinha. Apresentei: “Esse aqui é o Batatinha”. O Mário, sujeito completamente avacalhado e anárquico, ficou mais emocionado do que eu, balbuciava, não conseguia falar nada. Travou. Finalmente falou todo formal, estendendo a mão: “Muito prazer, Mário Pires”.

Ficou um clima esquisito e para voltarmos ao papo informal, falei: “Mas pode chamar ele de Janete, como ele é conhecido depois da meia-noite”. Acreditaram. Até morrer, há dois anos, quando ia à Bahia o Mário era chamado de Janete.

Ah, como eu gostaria de apelidar certos personagens do noticiário político e econômico, e que eles fossem eternizados, como o do Mário, quer dizer, Janete.

Chupa que é de uva, FB!


Na semana passada, fui excluído do Facebook por postar essa resenha antiga (de 2008), feita no site Centro Cultural DoSol, sobre o disco “The Charque Side Of The Moon”, de uma galera amiga de Belém do Pará. Aparentemente, alguma alma sebosa não gostou da capa do disco, denunciou o fato aos capangas do Mark Undeberg e eles me expulsaram do cabaré. Foda-se. Estou reproduzindo a resenha aqui no meu mocó:

Em tempos de tecnologia e misturas, já está se tornando até comum um artista pegar um álbum clássico e reinventá-lo. Foi assim com Dangermouse e seu “Grey Album” um mash-up do “Álbum Branco” dos Beatles com o “Black Album” do rapper Jay-Z. Depois veio o DJ BC juntando Beatles e Beastie Boys. A tendência de misturar sons as vezes opostos, recriar em cima de obras já prontas, ganhou espaço e cada hora surge uma novidade.

No Brasil os mash-ups já fazem sucesso em determinados meios, mas agora um grupo de músicos paraenses resolveu ir além e recriou um clássico do Pink Floyd em uma versão bem particular. A idéia surgiu da cabeça de Luiz Félix, guitarrista, percussionista e vocalista da banda La Pupuña, do Pará, que logo convidou o baixista da banda, Fabrício Jomar, para regravar o álbum “Dark Side of the Moon” com pegada paraense, a base de guitarrada, cumbia, lundum, brega e surf music.

O resultado é impressionante. Estão lá todos os sons, os detalhes e a sequência das músicas do original, todo o clima, todas as invencionices, toda a viagem do clássico álbum de 1973, numa fidelidade até assustadora. Tudo certinho, como quase se fosse o original, mas é tudo com um tempero especial.

O disco foi gravado com a banda La Pupuña e um time de convidados que alteraram o DNA do disco e injetaram música e elementos paraenses no universo progressivo. Logo no início os sons do carimbó e dos barcos popopô fazem a introdução de “Speak to me Breath” para logo entrar ao mesmo tempo um irresístivel suingado e o espirito do Pink Floyd da década de 70. “On the Run” traz a competência de Pio Lobato e Guilherme Guerreiro do Cravo Carbono.


Os sinos e o despertador de “Time” permanecem mas na verdade eles estão substituídos pelos sinos da Basílica de Nazaré e pelo despertador de Luiz Félix. Cantada por Roosevelt Bala, vocalista do Stress, banda pioneira no heavy metal brasileiro, com reforço da cantora de brega Denise Lima, a mais conhecida música do disco segue bem fiel até aos poucos se transformar num carimbó pelas mãos percussivas do grupo regional Os Baioaras. Sacrilégio? Pelo contrário, uma homenagem marcante e especial que trafega por todas as faixas do disco.

Quem imaginaria Gabi Amarantos, cantora de Tecnoshow, soltando a voz em uma vesão de “The Great Gig in the Sky”? Mais ainda, a reconstrução de outra clássica como “Money”, que começa alterada com uma base de percussão suingada, segue com as vozes da própria Denise Lima e da vocalista da banda Madame Saatan, Sammliz, e termina desconfigurada genialmente com solos de guitarrada de Mestre Vieira e um transe percussivo paraense.

A viagem segue durante “Us and Them”, “Any Colour You Like”, que ganha uma percussão merengue, “Brain Damage”, com direito a risadas sampleadas de Fafá de Belém, e a incrível versão quase lambada de “Eclipse”. É como se o Pink Floyd tivesse gravado o mesmo disco de 35 anos atrás, mas que no sangue de Roger Waters e David Gilmour, além de rock progressivo, psicodelia, texturas sonoras, jazz fusion e art rock, corresse uma sonoridade latina.

Um quem é quem da música paraense atual, com convidados de estilos diversos abrilhantando um trabalho de alto nível que já chamou atenção de gravadoras estrangeiras que devem lançar o álbum na Europa. O “Charque” do título se refere mesmo a carne-do-sol, mas também a como é chamada a genitália feminina lá no Pará (daí a capa do disco). Um trabalho para ouvir e reouvir, pegar o original e ficar comparando, notando as diferenças e curtindo a criatividade dos músicos paraenses. Um dos lançamentos mais interessantes do ano desde já.

terça-feira, maio 31, 2016

Ou Temer se comunica ou se estrumbica


Arnaldo Jabor

Converso com muita gente culta, de gravata, e concluo: três milhões de pessoas foram protestar nas ruas, mas pouca gente entende realmente o que está acontecendo no Brasil profundo. Profundo no sentido de detalhes contábeis, dos segredos de gaveta que só os carunchos conhecem. Ninguém sabe nada. Essa deficiência da opinião pública é que os petistas usarão para arrasar o governo do Temer.

Como o presidente em exercício tem pouco tempo, e como a cagada deixada por Dilma e PT foi imensa, teremos dois anos (se Deus ajudar) para reorganizar a economia, que teve perda quase total. É difícil, por causa das sabotagens e da lentidão brasileira. Por isso, Lula está adorando o impeachment de Dilma. É a melhor coisa que podia lhe ter acontecido.

O Sarney disse outro dia na gravação que Lula estava muito deprimido. Deve estar, mas não é uma melancolia inócua, passiva, sem rumo; não, Lula está se preparando para sapatear em cima dos erros e dificuldades inevitáveis desse governo.

Agora, ele e seu PT podem partir para a oposição, contando com uma população imensa de imbecis que serão convencidos de que o impeachment foi só para acabar com a Lava Jato.

A narrativa deles será a de que todo mundo sempre roubou e que eles só entraram na regra do jogo. Mentira. A corrupção do PT inventou algo novo: corromper para governar, pois revolucionário pode roubar em nome do Bem. E, assim, bateram um recorde mundial: nunca na história do mundo houve uma roubalheira organizada como essa.

Temer tem a difícil tarefa de andar na corda bamba, no fio da navalha entre uma equipe econômica de primeiro time e um restolho de vagabundos, que aparelharam ministérios e repartições em geral. Se bobear, Temer pode eleger o Lula em 18, se o ‘grande líder do povo’ não for em cana.

Uma transição de governo intempestiva gera medo, mas também uma esperança de mudança imediata. “Ahhh…, acabou o PT, o ‘petrolão’ – agora seremos felizes.” Auriverde ilusão de minha terra…

O problema é que a herança maldita dessa terrível senhora é um emaranhado infernal para se consertar. Em dois anos, seríamos uma Venezuela. E esta é a felicidade do Lula: a expectativa dos mal informados (que são a maioria) vai se esfarinhar e o Temer será culpado pela cagada que o PT deixou no meio-fio. A culpa vai ser dele em pouco tempo.

Brasileiro ‘assiste’ ao Brasil. Brasileiro assiste à política como um Fla x Flu, torcendo, xingando juiz, mas quer que o Estado resolva tudo, pois não sabe que o Estado é o problema e não a solução. A sociedade protesta, mas não sabe como tomar as rédeas.

Este governo tem um só caminho: conquistar um apoio da sociedade, para que ela entenda que não se trata de ideologias e, sim, de uma tragédia contábil. “É a economia, estúpidos!” (citando o refrão batido do James Carville.)

Temer vai ter de arrumar as contas. Só. E, aí, vem a esparrela: como expulsar 100 mil vagabundos aparelhados no governo? Como impedir que volte a lama debaixo do tapete? Nosso complexo de impotentes renasce feito rabo de lagarto. Debaixo de nossos olhos, a máquina da sordidez nacional ressuscita, como um monstro de ficção científica, um “Alien”.

Os escândalos, cada vez maiores, não podem encobrir o dano nas contas públicas. E tem mais: vai haver aumento de impostos, sim. Não adianta chorar. É impossível, só com ajustes e cortes, resolver o buraco da Dilma de R$ 170 bilhões jogados no lixo. E aí? Como explicar?

Esse é o maior perigo: a teia de escândalos pode mascarar os urgentes acertos da República devastada.

Precisamos que o Temer dê certo, ao menos na economia. Porque ninguém vai às ruas apoiá-lo. Todo mundo tem medo de apoiar governos. É impossível imaginar que brasileiros vão às ruas para defender o ajuste fiscal: “Queremos ajustes!”. É mais fácil ser contra. A oposição enobrece, a adesão é humilhante.

Por outro lado, os militantes pagos da CUT, do MST e outras siglas vão para as ruas, gritar contra. Rolam boatos fortes de que o PT está reunindo muita grana para comprar uns três senadores. É possível.

Por isso, acho que uma das coisas mais sérias que este governo tem de buscar é a comunicação com o país.

Vi outro dia o Temer falando e achei que ele está imbuído de um desejo real de entrar para a história como um cara que ajudou a consertar o Brasil. Houve momentos em que ele mostrou uma virilidade legal. Por exemplo, quando disse que já tinha sido secretário de Segurança em SP e que não tinha medo de bandido. Ali, o povo gostou.

Acho que gostou também quando ele disse que não tem medo de errar e que, se errar em algo, consertá-lo-á. Acho ótimo um presidente falando em mesóclises. Melhor que a Dilma na mandioca. Temer tem de falar, muito, explicar para a população o que significa esta fase de nossa vida, muito além de corrupção ou ideologias.

Tem de explicar. Olho no olho. Sem propaganda. Tem de conquistar um carisma. Tem de explicar, como numa gramática, o que é dívida pública, gastos inúteis, aparelhamento do Estado; as pessoas têm de saber contra o que estão gritando ou marchando.

A corrupção imensa, pavorosa, não é o núcleo da questão. Ela nasce das condições arcaicas de dentro da organização política e administrativa. Nossa formação patrimonialista está explodindo agora, depois de séculos. É preciso criar um espaço simbólico para esta presidência transitória.

FHC não explicou com clareza o que estava fazendo em seu governo. FHC não conseguiu criar um espaço reconhecível pela opinião pública, que não pode ser confundido com propaganda ou marketing.

Por isso, seu excelente governo, que acabou com a inflação e nos jogou num novo mundo administrativo, acabou arrasado pela oposição do PT diante de uma opinião pública desinformada, aérea. É preciso que as pessoas se sintam passageiras no trem do seu governo.

É importante que o lado ‘espetaculoso’ das denúncias não crie uma institucionalização da zona. Há um velho hábito de acharmos que o Brasil não tem jeito. O perigo é ficarmos cínicos, fatalistas e desesperados. Se não der certo, estamos fodidos.

Por que Dilma não pode voltar


A presidente Dilma Rousseff parece acreditar que, ao se manifestar sobre seu governo e seu afastamento, angaria simpatia e, assim, afasta a hipótese altamente provável de seu impeachment. Sempre que a petista abre a boca, porém, fica claro para o País que, se seu governo já foi desastroso, seu eventual retorno à Presidência seria um cataclismo, pois a administração seria devolvida a quem se divorciou completamente da realidade.

No mundo em que vive, Dilma se confunde com Poliana: não cometeu nenhum erro, não é responsável pela pior crise econômica da história brasileira e só foi afastada em razão de um complô neoliberal operado pelo deputado Eduardo Cunha, e não porque a maioria absoluta dos brasileiros exige seu impeachment.

“Temos que defender o nosso legado”, disse à Folha de S.Paulo a presidente responsável por recessão econômica, desemprego crescente, inflação acima da meta e contração da atividade, do consumo e do investimento, além de um rombo obsceno nas contas públicas.

Foi essa herança, maldita em todos os sentidos, que criou o consenso político em torno do qual o Congresso faz avançar o impeachment.

Assim, quando fala em seu “legado”, não é à dura realidade que Dilma está se referindo, mas sim à farsa segundo a qual seu governo beneficiou os mais pobres – justamente aqueles que mais sofrem com a crise que ela criou.

Na entrevista, Dilma sugere que seu “legado” é a manutenção de programas sociais, o que estaria sob risco no governo de Michel Temer, instituído como parte de uma conspiração para instalar no Brasil uma “política ultraliberal em economia e conservadora em todo o resto”. A desmontagem da rede de proteção aos mais pobres seria, segundo ela, o objetivo dos “golpistas”.

Dilma atribui aos adversários a intenção de fazer o que ela própria já estava realizando na prática: todos os principais programas sociais de seu governo sofreram cortes nos últimos anos, em razão da falta de dinheiro.

Especialista em destruir os fundamentos da economia, Dilma achou-se autorizada a comentar as possíveis medidas do governo Temer para tentar recuperar um pouco da racionalidade econômica que ela abandonou. Dilma disse ser “um absurdo” a possibilidade de que a imposição de um teto para os gastos públicos atinja áreas como educação.

Para ela, “abrir mão de investimento nessa área, sob qualquer circunstância, é colocar o Brasil de volta no passado”. Foi esse tipo de pensamento, segundo o qual há gastos que devem ser mantidos “sob qualquer circunstância”, que condenou o Brasil a um déficit público superior a R$ 170 bilhões.

Ainda em seu universo paralelo, Dilma disse que em 2014 ninguém notou que o País já passava por uma crise, embora o descalabro estivesse claro para quem procurou se informar. “Quando é que o pessoal percebeu que tinha uma crise no Brasil, hein? A coisa mais difícil foi descobrir que tinha uma crise no Brasil”, disse ela, desafiando a inteligência alheia de forma grosseira até para seus padrões.

Bastaria ler os documentos de análise da economia produzidos regularmente pelo Banco Central para constatar o desastre desde sua formação até o seu fiasco final com o episódio Joaquim Levy. Ela prefere imputar as mazelas da economia em seu governo à desaceleração da China, à queda do preço do petróleo, à seca no Sudeste e a um complô da oposição e de Eduardo Cunha, que, segundo suas palavras, é “a pessoa central do governo Temer”. Ou seja: para Dilma, se Cunha por acaso não existisse, ela ainda estaria na Presidência, e a crise, superada.

“A crise econômica é inevitável”, ensinou Dilma na entrevista. “O que não é inevitável é a combinação danosa entre crise econômica e crise política. O que aconteceu comigo? Houve uma combinação da crise econômica com uma ação política deletéria.”

Segundo a petista, o Congresso, dominado por forças malignas que tinham a intenção de criar um “ambiente de impasse propício ao impeachment”, sabotou todas as “reformas” que ela queria aprovar.

Ou seja, Dilma teima em não reconhecer que o clima hostil que ela enfrentou no Congresso foi resultado de sua incrível incompetência administrativa, potencializada por descomunal inabilidade política e avassaladora arrogância. Prefere denunciar a ação de “inimigos do povo” contra seu governo.

Finalmente, convidada a dizer quais erros acha que cometeu, Dilma respondeu: “Ah, sei lá”.