61. Em 1997, Beth Carvalho entrou para a história da humanidade quando a Nasa programou a música “Coisinha do Pai” para acordar um robô em Marte. Graças à engenheira brasileira Jacqueline Lyra, a Madrinha do Samba tornou-se, oficialmente, a primeira sambista interplanetária.
Pena que, dez anos antes, ela já havia feito uma experiência semelhante em
Manaus: conseguiu desaparecer da Terra antes mesmo de subir ao palco.
O palco do
sumiço foi o réveillon de 1987 no Olímpico Clube. Presidente do clube,
Almerinho Botelho contratou a estrela, que fez uma exigência bem terrestre:
metade do cachê na assinatura do contrato e a outra metade depois do show.
Negócio fechado.
No sábado do
réveillon, Beth desembarcou em Manaus e hospedou-se no Tropical Hotel, onde
quem cantaria seria Eliana Pittman. Às quatro da tarde, ligou para Almerinho
com um pedido quase humanitário. Os músicos haviam conhecido os amplificadores
Fender da Importadora Mundial e estavam apaixonados. Amor à primeira vista.
Será que ele poderia adiantar o restante do cachê para que a banda não sofresse
essa dor da separação?
Almerinho,
homem de bom coração e pouca experiência em golpes carnavalescos, topou.
Dinheiro na
mão, problema resolvido. Beth instalou-se confortavelmente à mesa do parque
aquático do hotel e iniciou um massacre gastronômico. Lagostas desapareciam
numa velocidade industrial. Garrafas de uísque iam tombando uma atrás da outra
como integrantes de escola de samba depois da apuração.
Às onze da
noite, Eliana Pittman subiu ao palco do Tropical. Beth continuava firme na
missão de reduzir o estoque mundial de scotch. No Olímpico, Almerinho e o
diretor Tito Magnani começaram a desconfiar que alguma coisa não estava
exatamente dentro do cronograma.
Meia-noite.
Fogos explodindo em Manaus inteira. O novo ano chegava pontualmente. Beth
Carvalho, não. Quem salvava a festa era a bateria da Reino Unido, reforçada por
Caio do Cavaco e Edu do Banjo, tocando sem a menor ideia de que aquele
“esquenta” entraria para o Guinness Book.
De dez em dez
minutos, o radialista Paulo José agarrava o microfone e anunciava, com um
entusiasmo que só a esperança explica:
– Dentro de
mais alguns minutos... a grande Madrinha do Pagode... Beeeeeth Carvaaaalho!
A essa altura,
“mais alguns minutos” já era uma unidade de tempo tão elástica quanto promessa
de político em ano eleitoral.
Por volta da
uma da manhã apareceu um micro-ônibus trazendo os músicos da cantora. Eles mal
começaram a passar o som quando caiu uma chuvinha. Foi o bastante para o
empresário – completamente afogado em uísque – descobrir uma súbita vocação
para engenheiro eletricista.
– O palco fica
perto da piscina. Se chover mais, pode dar um curto-circuito e eletrocutar a
cantora. Acho melhor cancelar...
Almerinho
respondeu com a delicadeza de um estivador:
– Nem pelo
caralho! Ela já recebeu até o último centavo. Se for preciso, eu trago essa
mulher escoltada pela Polícia Militar!
Três da manhã.
Os ritmistas da Reino Unido já tocavam por instinto. As mãos pareciam lixas.
Caio do Cavaco estava sem voz. Edu do Banjo já havia arrebentado três jogos de
cordas. Tinham sido contratados para um pré-show de meia hora e já estavam
oferecendo uma pós-graduação em resistência física.
Quatro da
manhã. Boa parte do público já tinha ido embora, convencida de que Beth
Carvalho talvez estivesse se apresentando em outro planeta.
Foi então que
Almerinho e Tito Magnani resolveram partir para a diplomacia amazônica. Cada um
colocou um três-oitão na cintura, entrou no carro e seguiu para o Tropical
Hotel disposto a convencer a cantora – nem que fosse por excesso de argumentos.
Na recepção
veio a notícia que enterrou de vez o réveillon. Beth, completamente derrotada
pela mistura de lagosta com uísque, passara mal, vomitara tudo o que havia
ingerido desde o desembarque e fora embarcada às pressas para São Paulo por
volta da meia-noite. Ou seja: enquanto Paulo José ainda anunciava “dentro de
mais alguns minutos”, a atração principal já devia estar sobrevoando Brasília.
Almerinho fez o
que qualquer presidente de clube faria diante de tamanho samba do crioulo
doido: entrou na Justiça com uma queixa-crime por estelionato. Ganhou a causa
por unanimidade. Dizem que, anos depois, Beth conseguiu acordar um robô em
Marte. Em Manaus, porém, não conseguiu acordar nem a própria consciência. E
nunca mais colocou os pés na cidade, sob pena de ir em cana.

Nenhum comentário:
Postar um comentário