Pesquisar este blog

quarta-feira, setembro 09, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 63

 

Carrel Benevides, Silvia, Amazonino e Gilberto

63. Fevereiro de 1976. Faixa-preta de jiu-jítsu e vereador nas horas vagas, o advogado Carrel Benevides resolveu testar, no baile Despedida da Kamélia, do Olímpico Clube, se os golpes aprendidos no tatame também funcionavam ao som de marchinhas de carnaval. Funcionavam. Em poucos minutos, meia dúzia de foliões já tinha conhecido o chão de perto, e Carrel, por cortesia da Polícia Militar, conheceu a delegacia.

Quando a notícia chegou aos ouvidos do empresário Zeca Guerra e do publicitário Edgard Alecrim, também presentes no baile, os dois concluíram que aquilo era uma afronta à amizade. Resolveram libertar o companheiro na base do argumento mais usado pelos foliões depois da meia-noite: a confusão.

Entraram na delegacia distribuindo desaforos em todas as direções. Discutiram com os soldados, elevaram o tom de voz, baixaram o nível da conversa e, quando apareceu o delegado para descobrir que terremoto era aquele, ele também recebeu sua cota de carinho. O elogio mais delicado foi “gorila fascista a serviço da ditadura militar”. O restante não convém reproduzir nem em livro de humor.

O delegado, que não era adepto da liberdade de expressão naquele horário, mandou recolher os dois heróis ao xadrez.

Enquanto eram conduzidos para a cela, ainda protestando como se estivessem na tribuna da Câmara Municipal, avistaram Carrel tranquilamente ao telefone. Ele cobriu o bocal com a mão e sussurrou:

– Fiquem calmos. Estou falando com o coronel Souza. Já expliquei tudo. Daqui a pouco ele chega e tira a gente daqui.

Era a primeira frase sensata da noite. Pena que os dois não acreditaram nela. Continuaram reclamando até serem acomodados numa cela onde outros quarenta carnavalescos involuntários já faziam o esquenta do bloco dos encarcerados.

Meia hora depois, a porta da delegacia se abriu com pompa. Entrou o coronel Souza, impecável em sua farda de gala, acompanhado de três oficiais. Conversou reservadamente com o delegado, trocou alguns cumprimentos e, em seguida, saiu dali levando... Carrel Benevides. Só Carrel Benevides.

Zeca Guerra e Edgard Alecrim permaneceram hospedados pela Secretaria de Segurança até a Quarta-feira de Cinzas, quando finalmente ganharam a liberdade – e, de quebra, a carteirinha honorária do bloco “O Que Qui Eu Vou Dizer em Casa?”, formado exclusivamente pelos foliões que passaram o carnaval atrás das grades. Aprenderam, da maneira mais pedagógica possível, que amizade é uma virtude. Mas, antes de tentar salvar um faixa-preta, convém verificar se ele já não providenciou o próprio resgate.

Nenhum comentário: