62. Em 1989, a Reino Unido resolveu provar que nem sempre um desfile de carnaval começa na avenida. Às vezes, começa numa sessão de descarrego. O barracão da escola, na rua Duque de Caxias, parecia construído sobre um antigo cemitério indígena.
O carnavalesco Shangai,
contratado a peso de ouro da Beija-Flor de Nilópolis, já estava à beira de
pedir aposentadoria por invalidez emocional. Nenhum carro alegórico ficava
pronto. Quando terminavam um, quebrava o outro. Consertavam aquele, despencava
uma escultura. Era um efeito dominó patrocinado pelo além.
Os diretores
Adib Mamede, João Thomé, Zé Picanço e Bosco Saraiva convocaram uma reunião de
emergência. Se o enredo era uma homenagem aos orixás, por que os homenageados
estavam sabotando o desfile? A resposta veio de dona Ápia, mãe de santo
respeitadíssima e mãe do Mestre Calama.
– Tem gente
aqui muito carregada...
Silêncio.
– E muito
amarrada...
Mais silêncio.
As suspeitas
recaíram imediatamente sobre Adib Mamede, cuja vida social de sábado era tão
movimentada que faria um sultão pedir férias, e sobre João Thomé, deputado
federal, profissão que, por si só, já obriga qualquer cidadão a conviver
diariamente com uma fauna de picaretas. Bosco Saraiva e Zé Picanço entraram na
dança apenas por espírito de equipe.
Dias depois, os
quatro apresentaram-se no terreiro para o descarrego. O Preto Velho incorporou
em dona Ápia, olhou para os dirigentes e deu a primeira ordem:
– Tira a roupa,
zifio...
Os quatro se
entreolharam com a expressão de quem descobriu que o tratamento não era coberto
pelo plano de saúde. Mas carnaval é carnaval. Pior do que pagar esse mico seria
perder o desfile. Minutos depois, os dirigentes mais importantes da Reino Unido
estavam completamente nus, perfilados como se posassem para um calendário
beneficente.
Cada um foi
colocado dentro de um círculo de pólvora e recebeu uma pequena cabaça contendo
uma receita que dificilmente apareceria num programa de culinária: sangue
fresco de bode e duas doses generosas de Velho Barreiro.
A recomendação
era simples:
– Bebe tudo. E
não vomita. Exu não gosta.
Os quatro
engoliram aquilo com a mesma expressão de quem descobre que o uísque importado
era, na verdade, óleo de fígado de bacalhau.
Terminada essa
etapa gastronômica, receberam alguidares com água de cheiro e ervas medicinais.
Quando a pólvora queimasse, deveriam despejar o banho sobre a cabeça e esfregar
as ervas no corpo.
Exu riscou um
fósforo. Segundos depois, quatro círculos de pólvora explodiram ao mesmo tempo.
Foi menos um ritual religioso e mais uma final de campeonato de fogos de
artifício. Passado o susto, veio a última etapa: o chamado “alongamento dos
orixás”.
A cerimônia
parecia inocente. O Preto Velho ficava de costas para o participante, os dois
entrelaçavam os braços e cada um levantava o outro sobre as costas numa espécie
de alongamento espiritual. Com Adib, deu certo. Com João Thomé, perfeito. Com
Zé Picanço, um primor.
Chegou então a
vez de Bosco Saraiva. Bosco fez sua parte com elegância e levantou o Preto
Velho sem dificuldade. Quando chegou a vez do Preto Velho retribuir a
gentileza...
Bem... Nem toda
entidade espiritual consegue desafiar a Lei da Gravidade. O pobre guia tentou
erguer Bosco, fez um esforço digno de halterofilista olímpico, tremeu da cabeça
aos pés e, no segundo seguinte, os dois despencaram juntos como um piano
lançado do décimo andar. Foi um estrondo. Dona Ápia quebrou um braço, machucou
gravemente as pernas e Bosco saiu com o punho deslocado e a mão tão esfolada
que dava para estudar anatomia sem abrir um livro.
Como tragédia
pouca é bobagem, na queda eles acertaram em cheio a garrafa de Velho Barreiro.
A cachaça espalhou-se pelo chão, encontrou um resto de pólvora ainda acesa e
resolveu participar da gira. Uma língua de fogo subiu em direção ao congá.
Velas, flores, colares, toalhas... Em poucos segundos, o altar parecia disputar
um concurso de fogueira junina.
Zé Picanço
colocou dona Ápia e Bosco no carro e saiu rumo ao hospital dirigindo apenas de
cueca, provavelmente convencido de que aquele detalhe já não fazia a menor
diferença naquela noite. Enquanto isso, Adib Mamede e João Thomé ficaram no
terreiro combatendo o incêndio, sem saber se chamavam os bombeiros ou mais um
orixá.
No fim das
contas, apesar do braço quebrado, da explosão, do incêndio, do bode, da
pólvora, da cachaça, da nudez coletiva e do maior alongamento fracassado da
história da Umbanda amazonense, alguma coisa realmente deu certo. Naquele ano,
a Reino Unido entrou na avenida como se tivesse recebido uma bênção VIP do céu.
Ganhou o carnaval com nota dez em todos os quesitos.
Depois dessa
epopeia, ficou difícil saber se o título veio pelo talento da escola ou porque,
depois de tanta confusão, até os santos acharam que estavam em dívida com ela.

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