Pesquisar este blog

quarta-feira, setembro 09, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 62

 

O carnavalesco Shangai metendo a mão na massa

62. Em 1989, a Reino Unido resolveu provar que nem sempre um desfile de carnaval começa na avenida. Às vezes, começa numa sessão de descarrego. O barracão da escola, na rua Duque de Caxias, parecia construído sobre um antigo cemitério indígena. 

O carnavalesco Shangai, contratado a peso de ouro da Beija-Flor de Nilópolis, já estava à beira de pedir aposentadoria por invalidez emocional. Nenhum carro alegórico ficava pronto. Quando terminavam um, quebrava o outro. Consertavam aquele, despencava uma escultura. Era um efeito dominó patrocinado pelo além.

Os diretores Adib Mamede, João Thomé, Zé Picanço e Bosco Saraiva convocaram uma reunião de emergência. Se o enredo era uma homenagem aos orixás, por que os homenageados estavam sabotando o desfile? A resposta veio de dona Ápia, mãe de santo respeitadíssima e mãe do Mestre Calama.

– Tem gente aqui muito carregada...

Silêncio.

– E muito amarrada...

Mais silêncio.

As suspeitas recaíram imediatamente sobre Adib Mamede, cuja vida social de sábado era tão movimentada que faria um sultão pedir férias, e sobre João Thomé, deputado federal, profissão que, por si só, já obriga qualquer cidadão a conviver diariamente com uma fauna de picaretas. Bosco Saraiva e Zé Picanço entraram na dança apenas por espírito de equipe.

Dias depois, os quatro apresentaram-se no terreiro para o descarrego. O Preto Velho incorporou em dona Ápia, olhou para os dirigentes e deu a primeira ordem:

– Tira a roupa, zifio...

Os quatro se entreolharam com a expressão de quem descobriu que o tratamento não era coberto pelo plano de saúde. Mas carnaval é carnaval. Pior do que pagar esse mico seria perder o desfile. Minutos depois, os dirigentes mais importantes da Reino Unido estavam completamente nus, perfilados como se posassem para um calendário beneficente.

Cada um foi colocado dentro de um círculo de pólvora e recebeu uma pequena cabaça contendo uma receita que dificilmente apareceria num programa de culinária: sangue fresco de bode e duas doses generosas de Velho Barreiro.

A recomendação era simples:

– Bebe tudo. E não vomita. Exu não gosta.

Os quatro engoliram aquilo com a mesma expressão de quem descobre que o uísque importado era, na verdade, óleo de fígado de bacalhau.

Terminada essa etapa gastronômica, receberam alguidares com água de cheiro e ervas medicinais. Quando a pólvora queimasse, deveriam despejar o banho sobre a cabeça e esfregar as ervas no corpo.

Exu riscou um fósforo. Segundos depois, quatro círculos de pólvora explodiram ao mesmo tempo. Foi menos um ritual religioso e mais uma final de campeonato de fogos de artifício. Passado o susto, veio a última etapa: o chamado “alongamento dos orixás”.

A cerimônia parecia inocente. O Preto Velho ficava de costas para o participante, os dois entrelaçavam os braços e cada um levantava o outro sobre as costas numa espécie de alongamento espiritual. Com Adib, deu certo. Com João Thomé, perfeito. Com Zé Picanço, um primor.

Chegou então a vez de Bosco Saraiva. Bosco fez sua parte com elegância e levantou o Preto Velho sem dificuldade. Quando chegou a vez do Preto Velho retribuir a gentileza...

Bem... Nem toda entidade espiritual consegue desafiar a Lei da Gravidade. O pobre guia tentou erguer Bosco, fez um esforço digno de halterofilista olímpico, tremeu da cabeça aos pés e, no segundo seguinte, os dois despencaram juntos como um piano lançado do décimo andar. Foi um estrondo. Dona Ápia quebrou um braço, machucou gravemente as pernas e Bosco saiu com o punho deslocado e a mão tão esfolada que dava para estudar anatomia sem abrir um livro.

Como tragédia pouca é bobagem, na queda eles acertaram em cheio a garrafa de Velho Barreiro. A cachaça espalhou-se pelo chão, encontrou um resto de pólvora ainda acesa e resolveu participar da gira. Uma língua de fogo subiu em direção ao congá. Velas, flores, colares, toalhas... Em poucos segundos, o altar parecia disputar um concurso de fogueira junina.

Zé Picanço colocou dona Ápia e Bosco no carro e saiu rumo ao hospital dirigindo apenas de cueca, provavelmente convencido de que aquele detalhe já não fazia a menor diferença naquela noite. Enquanto isso, Adib Mamede e João Thomé ficaram no terreiro combatendo o incêndio, sem saber se chamavam os bombeiros ou mais um orixá.

No fim das contas, apesar do braço quebrado, da explosão, do incêndio, do bode, da pólvora, da cachaça, da nudez coletiva e do maior alongamento fracassado da história da Umbanda amazonense, alguma coisa realmente deu certo. Naquele ano, a Reino Unido entrou na avenida como se tivesse recebido uma bênção VIP do céu. Ganhou o carnaval com nota dez em todos os quesitos.

Depois dessa epopeia, ficou difícil saber se o título veio pelo talento da escola ou porque, depois de tanta confusão, até os santos acharam que estavam em dívida com ela.

Nenhum comentário: