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segunda-feira, outubro 26, 2009

Asterix completa 50 anos em plena forma


Asterix, o pequeno guerreiro gaulês que conquistou várias gerações de leitores, celebra seu 50º aniversário no dia 29 de outubro com um novo livro, o de número 34 da série, e deve continuar resistindo à passagem dos anos.

O novo álbum tem por título "O Aniversário de Astérix e Obélix - O Livro de Ouro", e ao longo das suas 56 páginas compila diversas histórias curtas, todas inéditas assinadas por Uderzo, ao longo das quais podemos reencontrar cerca de 300 personagens que Asterix e Obélix cruzaram ao longo destes 50 anos.

A sua tiragem mundial será de 3 500 000 exemplares, dos quais 1,1 milhões somente na França. O album será lançado simultaneamente em 19 países, incluindo o Brasil.

Tudo começou em agosto de 1959 em um edifício de Bobigny, subúrbio do leste de Paris. René Goscinny e Albert Uderzo trocavam ideias sobre novos personagens para uma revista de quadrinhos que seria lançada em outubro.

E a ideia finalmente surgiu: dois gauleses, um baixinho e outro gordo. Em duas horas, Uderzo desenhou os primeiros esboços dos principais personagens: Abracurcix, o chefe da aldeia, Panoramix, o druida, Chatotorix, o bardo, e Ideiafix, o cão. Dois meses depois, Asterix e Obelix apareciam pela primeira vez no número um da revista Pilote.

Passados dois anos, chegou às lojas o primeiro livros de Asterix, com uma tiragem de 6.000 exemplares. O sucesso foi imediato. Asterix e seus gauleses passaram a fazer parte da vida dos franceses. Em setembro de 1966, a revista L'Express estampou em sua capa o que chamou de "o fenômeno Asterix".

Goscinny, filho de uma família judia de origem polonesa, e Uderzo, filho de imigrantes italianos, criaram uma mitologia francesa.

Na França dos anos 60, Asterix se transformou em um símbolo do orgulho recuperado, do pequeno que se recusa a capitular e resiste ao poder dos maiores.

Na época, eram publicados um ou dois livros por ano. Rapidamente, a série se popularizou para além do universo infantil, criando uma legião de fãs entre jovens e adultos. Foi a época dos primeiros desenhos animados. A partir de 1967, a primeira edição de cada livro começou a ultrapassar um milhão de exemplares.

O mais surpreendente, no entanto, foi que a história fez tanto sucesso na França quanto fora dela: em 50 anos, foram vendidos em todo o mundo mais de 325 milhões de exemplares das aventuras de Asterix, e a série já foi traduzida para 107 idiomas.

Este êxito fenomenal quase terminou em novembro de 1977, quando René Goscinny, o genial roteirista que encarnava o "espírito" de Asterix faleceu subitamente.



Albert Uderzo, no entanto, decidiu continuar a série sozinho e lançou mais dez títulos em 30 anos.

No final dos anos 90, o cinema fez reviver a célebre dupla de gauleses com três longa-metragens, que juntos tiveram mais de 60 milhões de espectadores.

O sucesso de Asterix desperta ambições, e houve muitas propostas para retomar a série. No fim de 2008, Uderzo decidiu vender à Hachette Livres a editora Albert René, criada por ele em 1979.

Asterix, então, passou dos quadrinhos aos tribunais, quando o desenhista foi acionado por sua única filha, Sylvie Uderzo, que reclamou das condições da venda.

Ao vender sua editora à Hachette, Albert Uderzo, hoje com 82 anos de idade, aceitou que as aventuras de Asterix continuem depois de sua morte. Para isso, encarregou oficialmente os desenhistas Fréderic e Thierry Mébarki, que trabalham com ele há anos. Resta encontrar um roteirista que aceite o desafio de criar novas histórias para os irredutíveis gauleses.

Resistência


É impossível deixar de associar o sucesso da criação de Goscinny e Uderzo ao sentimento de antiamericanismo que se seguiu à expansão, em escala planetária, do poder americano depois da 2ª Guerra Mundial.

A situação básica da série é uma evidente alegoria do sentimento dos franceses a essa expansão: o Império Romano ocupa toda a Gália, governa usando a força bruta ou estratégias desonestas, uniformiza seus hábitos, reduz seus habitantes à condição de criaturas de modos contidos, conversas superficiais, vidas monótonas.

Na costa norte da Gália, onde fica atualmente a região da Normandia, contudo, uma aldeia gaulesa resiste. Seus moradores são turbulentos, briguentos e tagarelas.

Qualquer coisa para eles é motivo para um banquete ou um debate. E, acima de tudo, se divertem bem mais que seus vizinhos, dão exemplo do que pode ser uma vida voltada para o prazer e a paz – referência nítida à maneira como os franceses gostam de se enxergar, um povo independente que se nega a seguir modos estrangeiros de viver e se orgulha de ser uma referência da sofisticação, do prazer para os sentidos e da cultura.

Fácil ver que nesse contexto há lugar para muito humor. Asterix, o gaulês foi criado antes que a ideia de “politicamente correto” se tornasse um dogma. Abre espaço, então, para uma visão até mesmo cruel dos mais diversos povos.

Os alemães, por exemplo, são identificados com os godos, um povo militarista e agressivo. Os helvéticos (suíços) estão tão preocupados com a ordem das coisas que não têm muito tempo para viver de verdade.

O humor politicamente incorreto não se limita aos estrangeiros: também as diversas comunidades francesas são satirizadas nas histórias, sempre com ironia depreciativa: os normandos são incapazes de comer qualquer coisa sem creme, os arvernos ciciam escandalosamente, o queijo dos corsos é a coisa mais fedorenta do mundo.

A maneira como cada povo fala brinca com as particularidades de sua língua, das ordens inversas das perguntas em certos idiomas até algumas sonoridades que são peculiares a determinada população ou do alfabeto.


Outra estratégia que Goscinny usou desde o primeiro volume e Uderzo manteve foi o uso humorístico de citações.

Quando criou Asterix e Cleópatra em 1965, por exemplo, tinha em mente que muitos de seus leitores haviam assistido ao filme Cleópatra, distribuído poucos anos antes. Não hesitou em dar a Cleópatra um rosto semelhante ao da atriz Elizabeth Taylor, estrela da película.

Em visita à Bretanha (Inglaterra), os heróis gauleses encontram quatro bardos (músicos) que são a cara dos Beatles.

Essas referências satíricas frequentemente ganhavam conotação política: o ex-presidente francês Jacques Chirac, por exemplo, é representado como um burocrata em Obelix & Cia.

Além disso, é comum o leitor se encontrar com piadas referentes ao noticiário da época em que cada história foi escrita, anedotas e bordões recorrentes, que ganham novas formas a cada volume e, com isso, remetem o público à própria série.

Mas as histórias dos divertidos gauleses não sobrevivem apenas pela qualidade de seu humor. Os enredos de Goscinny e, mesmo se em grau menor, os de Uderzo conquistam os leitores por seu tom humanista e libertário.

E os desenhos de Uderzo, sempre cheios de detalhes, são daquelas criações que praticamente convidam o leitor a vê-los novamente, para descobrir as sutilezas de que não havia tomado conhecimento na primeira leitura.

Do conjunto, salta uma espécie de crônica do ser humano na contemporaneidade, cheio de contradições, mas apto a superá-las – retrato estranho, já que representado por signos que, frequentemente, têm mais de 2 mil anos de idade, ou remetem àquela antiguidade.

O truque, como em toda boa obra, é a contemporaneidade do jeito como são juntados.

Um comentário:

esojs disse...

Tambem sou fã do Asterix e Obelix e tenho a coleção até o número 33. Como faço para este novo exemplar em Manaus?