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quarta-feira, outubro 07, 2009

Futebol de tucumã: uma paixão eterna!


Via e-mail, o sempre atento advogado trabalhista Luiz Alberto Gonçalves, leitor diário desse mocó, questiona por que não falei sobre o futebol de botão de tucumã, que ele sabe ter sido uma das minhas grandes paixões de adolescência, ao fazer um relato saudosista sobre os meus outros jogos futebolísticos favoritos.

Catzo, Albertão, mas sem querer você acabou me lembrando daquela história do “subversivo” Miguelito, que a gente costumava contar no Bar Berval sempre que estava sem assunto, tá ligado? Vou recordá-la:

Durante uma tourada na Plaza Del Toros, em Madrid, Miguelito se levanta no meio do público, provavelmente aborrecido com os intermináveis floreios do toureiro e a exasperante demora pra ver o touro ser logo liquidado, e dá um berro:

– Me cago en la cabeza del toro e en la cabeza del torero!

A multidão vai à loucura, tendo em vista que a tourada é um esporte sagrado na Espanha:

– Cala-te, perro, yo chingo tu madre en el asno todas las noches! Usted estas muy bombacho, maricón! Hijo de uma putana! Pelotudo di mierda!

Miguelito retrucou:

– Me cago en la cabeza del toro, en la cabeza del torero e en la cabeza de todos ustedes, menos en la cabeza del señor de blanco que está sentado acá en mi frente!

Diante de tamanho desaforo, a polícia foi chamada.

Miguelito não deu a mínima:

– Me cago en la cabeza del toro, en la cabeza del torero, en la cabeza de todos ustedes, en la cabeza de la policia, menos en la cabeza del señor de blanco que está sentado acá en mi frente!

Um delegado que estava sentado próximo saiu em defesa dos policias. Miguelito bateu de três dedos:

– Me cago en la cabeza del toro, en la cabeza del torero, en la cabeza de todos ustedes, en la cabeza de la policia, en la cabeza del jefe de policia, del juez de la torada, del director del estádio, menos en la cabeza del señor de blanco que está sentado acá en mi frente!

Revoltado o delegado deu voz de prisão ao cidadão, suspeitando tratar-se de um perigoso subversivo, mas, por via das dúvidas, levou também o tal senhor vestido de branco.

Na delegacia, Miguelito não deixou barato:

– Me cago en la cabeza del toro, en la cabeza del torero, en la cabeza de todos ustedes, en la cabeza de la policia, en la cabeza del jefe de policia, del juez de la torada, del director del estádio, del señor deputado, de su dignissima esposa, me cago en su cabeza señor comissário, em cabeza de su digníssima esposa, em cabeza de sus hijos, menos en la cabeza del señor de blanco que está sentado acá en mi frente!

Curioso o delegado pergunta:

– E por que o senhor está livrando a cara deste cidadão vestido de branco?

Miguelito, de bate pronto, como se estivesse explicando a Terceira Lei de Newton para a audiência:

– Arrá!... Porque este señor de blanco yo hé reservado para limpiarme el culo!...

Então é isso, Albertão. O jogo de botões de caroço de tucumã merecia um post exclusivo. Eu estava guardando ele, sei lá... Para uma ocasião especial, digamos assim...

Bem, mas muito diferente das molezas encontradas pelo meu eterno brother Anibal Beça, neto do primeiro grande cervejeiro da cidade, nunca custa relembrar que a nossa turma da Cachoeirinha era formada basicamente pela classe média baixa (quase todos filhos de operários, barnabés, domésticas, microempresários, etc).


Para sair em busca de tucumãs nas áreas de ocorrência natural, a gente montava verdadeiras expedições de guerra, com 15, 16 moleques dispostos a matar ou morrer. Os deslocamentos eram feitos a pé. Às vezes, essas expedições duravam um dia inteiro, o que deixava nossas mães à beira de um ataque de nervos. Havia perigos de todos os tipos nos rondando, de picadas de cobras a afogamentos acidentais nos inúmeros igarapés que tínhamos de atravessar (e eu nunca aprendi a nadar).

Para se ter uma idéia, basta lembrar que no final dos anos 60 a zona urbana da cidade terminava na Cohab-Am da Raiz, tendo como marco final o igarapé do Crespo. Dali em diante, na direção do Japiim e Distrito Industrial, era terra de ninguém – leia-se floresta fechada. E a gente se embrenhava naquela selva inóspita, seguindo uma pequena picada de terra chamada pomposamente de “Estrada da Refinaria”, com a determinação dos homens-bomba do Hezbollah.

A Rua Paraíba, por exemplo, terminava na Rua Salvador, e de lá seguia pra esquerda até a Rua Recife, de onde continuava até o bairro de Flores. Descendo a ladeira, em direção ao atual Manauara Shopping, era uma floresta praticamente intransponível. Pra direita, na direção do Aleixo, o marco final era a chamada “Furna das Onças”, mais ou menos onde hoje está localizado a sede da Sepror. O caminho também era feito em pequenas picadas abertas no meio da selva.

Pra complicar, os grandes tucumanzais nativos mais próximos estavam no Morro da Liberdade (conhecido inicialmente como Morro dos Tucumãs), mas a mão de obra que dava para atravessar o igarapé da Cachoeirinha por meio de catraias, ali no final da Rua Maués, desestimulava qualquer Jim das Selvas. Sem contar que os moleques de Santa Luzia costumavam receber os forasteiros na base da baladeira e tinham uma pontaria infernal.


Na minha época, o tucumã-arara era, mais ou menos, do tamanho de uma mexirica. Hoje, não passa do tamanho de um limão. Eles eram selecionados para serem atacantes. O tucumã-açu tinha o diâmetro de um pequeno ouriço de castanha. Eram selecionados para serem zagueiros (os famosos “beques”). O tucumã-piririca era pequeno, mas dava os melhores pontas e armadores.

O tucumã-purupuru era a escolha certa para a linha de médios, principalmente para o volante, vulgo “cabeça de área”. O tucumã-do-mato ou tucumã-babão era escolhido apenas pela sua beleza física – fornecia bons jogadores albinos.

A fabricação dos jogadores era feita em série. Normalmente, a molecada possuía alguém que fosse bom no manejo do terçado (na nossa turma, os irmãos Popó, Zezinho e Vico, todos eles halterofilistas militantes). A gente entregava o caroço de tucumã e avisava: atacante! O sujeito posicionava o caroço em um cepo e dava uma terçadada acima da metade do coquinho. Ou então: linha média! O sujeito dava uma terçada abaixo da metade do coquinho. Ou ainda: beque! A terçadada era dada a um dedo da extremidade do coquinho.

Partíamos então pra fase de ralação. A escolha recaía nas ruas de asfalto mais recente, onde o atrito era maior. Pra retificar a base dos jogadores era mais simples: bastava calçar uma sandália japonesa, pisar em cima do botão, e sair arrastando por uns duzentos metros.

Pra raspar as fibras da superfície dos caroços, não tinha jeito: era na base da ralação manual, também no asfalto. Nessa fase, era comum alguém se entreter na tarefa e acabar ralando o dedo, que, dependendo da força aplicada nos caroços, podia expor o osso das juntas. Presenciei vários acidentes desse tipo.

Somente nessa fase é que a gente descobria as imperfeições do jogador, traduzida em buracos abertos por brocas e outros inimigos naturais. Dependendo do grau de imperfeição (até três buracos eram admitidos), a gente ia em frente – os buracos seriam corrigidos, posteriormente, com a adição de cera proveniente de velas derretidas. Caso contrário, eles seriam sumariamente descartados.

Após a ralação, começava a fase do polimento. No início, com lixa grossa. Depois, com lixa d’água. Finalmente, com lixa fina. Quando os jogadores estivessem perfeitamente lisos, eram pintados com tinta de sapateiro e ficavam alguns dias ao sol. Mais tarde, ficavam submersos n’água – para liberar a amêndoa e absorver umidade. Só então eram engraxados, com graça de sapateiro, e depois recebiam uma camada de carnaúba. Estavam prontos pros embates.


Com os beques, o buraco era mais embaixo. Depois que o miolo do coquinho era retirado, eles eram enterrados na terra. Em uma lata, derretíamos chumbo e depois derramávamos o chumbo quente no interior dos beques, jogando em seguida água fria para que o choque térmico solidificasse o chumbo. Algumas vezes, o beque não agüentava a parada e se quebrava. O jeito era começar tudo de novo.

Pra fabricar os goleiros, havia uma espécie de molde escavado no barro, semelhante a uma caixa de fósforos. Era só derramar o chumbo derretido ali dentro e jogar água fria. Depois de retirar o molde de chumbo do buraco, era só retificá-lo para caber dentro de uma caixa de fósforos, e depois enfeitá-lo com as cores do clube.

As traves eram de madeira com redes de pano (normalmente voal transparente ou rendinha), tendo, nas suas dimensões, o dobro do goleiro de altura e cinco vezes o tamanho dele de largura.

A bola era feita de cortiça ou de lã. Os jogadores eram acionados por pentes (o pente Flamengo era o favorito, mas havia pentes artesanais feitos de osso que tiravam qualquer um do sério, em termos de potência, funcionalidade e direção).

Os times eram dispostos em campo quase sempre do mesmo jeito. Os dois beques chumbados embaixo da trave, ao lado do goleiro, um volante grandão na cabeça da área, dois médios se passando por laterais, e cinco atacantes. A regra adotada era a baiana (um toque). O resto, igual ao celotex.

Por exemplo, rebatida do goleiro pertence ao time que está atacando. Aí, um dos inventores de ocasião (Heraldo Cacau ou Airton Caju, não lembro) conseguiu introduzir vários alfinetes no peito do goleiro com o chumbo ainda derretido. O goleiro ficou parecido um porco-espinho, mas encaixava qualquer bola – e quanto mais forte o chute, melhor. Tivemos que proibir a presepada.

Pra servir de campo, qualquer espaço servia. Os melhores em que joguei, pela ordem de importância, eram o corredor do Top Bar, do nosso querido “seo” Aristides, que a gente chamava de Morumbi.

O campo era perfeito, mas tinha o inconveniente de ficar exatamente em frente ao quarto de sua esposa, a saudosa dona Lindalva, pouco afeita a ouvir aqueles palavrões proferidos por moleques com os hormônios à flor da pele.

No segundo “puta que pariu, vai te foder, leproso!”, “seo” Aristides saía do bar, dizia “Opa, maninho, assim não dá...” e a partida era encerrada, normalmente com uma ácida troca de ofensas sobre qual jogador havia começado a baixaria.

Na casa do “seo” Moacir, pai do Marcos Pombão, ali na ladeira da Rua Parintins, o campo era no segundo quarto e, apesar de o piso ser de madeira com brechas de um cm entre as taboas, era tão bem encerado que compensava as dificuldades iniciais. O velho Moacir não dava a mínima para os palavrões, daí que jogar ali era mais ou menos como estar no Maracanã.

Outro campo excelente era na sala de estar do “seo” Vandinho, pai do Carlinhos e do Renato Doido, localizado na rua Parintins, entre as ruas Urucará e Maués. Disputei partidas memoráveis contra o dono da casa, aliás, um dos melhores jogadores de futebol de caroço que já conheci.

Outro bom campo era na casa do velho Zé Costa, pai de Fábio, Fernando e Chico, uma espécie de estádio do Pacaembu. O pátio na casa dele era de cimento polido, tratado com vermelhão. Uma beleza! O problema era que dona Otília, esposa do velho Zé, também não suportava palavrões.

De repente, no meio de um “vai tomar no cu, caralho... Chupa aqui!... Eu mandei tu preparar a porra desse teu goleiro antes de chutar... Não valeu o gol é meu ovo!”, surgia a Maria da Glória, nossa querida Gói, filha caçula do velho Zé, e jogava um balde de água com sabão no pátio, argumentando que precisava lavar o mesmo.

Puto da vida, a gente retirava os times de campo, sacaneava com os técnicos “bocas sujas” e ia discutir o que fazer no Top Bar, ali ao lado. Invariavelmente, acabávamos enchendo a cara de cachaça com leite moça. Pra virarmos biriteiros profissionais, foi conta de multiplicar.

Jogar no pátio da casa do Afrânio, filho do ex-presidente da CMM, Corrêa Lima, também era muito divertido porque, apesar de ser um jogador medíocre, Afrânio agia como se fosse o melhor técnico do mundo.

Quando seu time, o Benfica, entrava em campo, ele soltava vários rojões. Quando conseguia fazer um gol, além de soltar uma nova série de rojões, passava o resto do dia irradiando a jogada que originou o gol (mesmo que tivesse tomado uma surra de 5 a 1). Sua principal estrela era o atacante Eusébio, que vivia sendo polido com carnaúba a cada três minutos para “evitar cãibras”.


No quesito inovação, coube ao Arizinho, filho do “seo” Aristides, introduzir os jogadores de baquelite vermelha, que eram utilizados como tampas do perfume Bond Street. Em termos de funcionalidade (velocidade de deslocamento e potência de chute), eles deixavam qualquer botão de caroço no chinelo.

De repente, esse novo tipo de jogador virou objeto de desejo de dez em cada dez técnicos de futebol de caroço. Foi o começo do fim. Era muito mais prático adquirir os vidros de perfume para utilizar as tampas como jogadores do que se embrenhar nos tucumanzais nativos cada vez mais distantes – por causa do crescimento desordenado da cidade.

E nada mais foi como antes. A exemplo da camélia, o futebol de tucumã deu dois suspiros e depois morreu. Ficaram as lembranças.

Um comentário:

Aurea Fatima Silva Santos disse...

meu marido enlouqueceu quando li seu depoimento para ele,Sabino e filho de seu antonio e d. nazareth,eles sao de la da cachoeirinha, e seus irmaos sao saul, sadi, saide,san sebastian e seldon,a minha cunhada esteve ai a pouco tempo e trouxe tucuma e ele esta fazendo,um futebol de botao para o nosso neto,tudo o q ele me contou vc descreveu igualzinho!!sera q vc conheceu eles?meu email e afss63@bol.com.br,aguardamos contato.