16. Após uma daquelas discussões civilizadas em bailes de carnaval na cidade de São Paulo que terminam com trocas de argumentos à base de punhos, o ator Paulo César Pereio saiu da contenda com alguns dentes em estado de reflexão profunda sobre sua permanência na boca. Os mais abalados eram justamente os da linha de frente, que haviam recebido o impacto inicial da diplomacia.
Com a fome
rugindo mais alto que o orgulho e a carteira exibindo o tradicional vazio
artístico, Pereio foi atrás de um restaurante compatível com sua situação
financeira e odontológica. Encontrou o lendário Salada Paulista, um desses
estabelecimentos onde a comida tinha duas qualidades inquestionáveis: era
barata e conseguia fazer a saudade da merenda escolar parecer alta gastronomia.
Temendo que sua
recém-adquirida condição de quase-banguela comprometesse a reputação de galã
marginal que cultivava com tanto empenho, aproximou-se do caixa e cochichou,
cobrindo a boca como quem transmitia segredo de Estado:
– Me vê um
prato-feito aí, companheiro. Capricha no molho e pega leve na carne. Tô com uns
dentes meio frouxos...
O caixa, homem
pouco afeito às sutilezas da comunicação humana, resolveu compartilhar a
informação com todo o recinto. Ergueu a voz num volume capaz de alcançar a
Marginal Tietê:
– Ô, Bixiga!
Manda um PF pro artista aqui!
A casa
silenciou. O caixa prosseguiu, impiedoso:
– Afoga no
molho! O arroz com feijão pode vir em versão líquida, que o sujeito tá
mastigando apenas na fé!
Achando pouco,
completou:
– E vê se corta
a carne em pedacinho pra recém-nascido, porque o companheiro aqui tá quase só
gengiva!
Dizem que
Pereio perdeu a fome na mesma hora. Não por causa dos dentes, mas porque
descobriu que, naquele restaurante, a humilhação já vinha incluída no preço do
prato-feito.

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