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quarta-feira, agosto 12, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 16

 


16. Após uma daquelas discussões civilizadas em bailes de carnaval na cidade de São Paulo que terminam com trocas de argumentos à base de punhos, o ator Paulo César Pereio saiu da contenda com alguns dentes em estado de reflexão profunda sobre sua permanência na boca. Os mais abalados eram justamente os da linha de frente, que haviam recebido o impacto inicial da diplomacia.

Com a fome rugindo mais alto que o orgulho e a carteira exibindo o tradicional vazio artístico, Pereio foi atrás de um restaurante compatível com sua situação financeira e odontológica. Encontrou o lendário Salada Paulista, um desses estabelecimentos onde a comida tinha duas qualidades inquestionáveis: era barata e conseguia fazer a saudade da merenda escolar parecer alta gastronomia.

Temendo que sua recém-adquirida condição de quase-banguela comprometesse a reputação de galã marginal que cultivava com tanto empenho, aproximou-se do caixa e cochichou, cobrindo a boca como quem transmitia segredo de Estado:

– Me vê um prato-feito aí, companheiro. Capricha no molho e pega leve na carne. Tô com uns dentes meio frouxos...

O caixa, homem pouco afeito às sutilezas da comunicação humana, resolveu compartilhar a informação com todo o recinto. Ergueu a voz num volume capaz de alcançar a Marginal Tietê:

– Ô, Bixiga! Manda um PF pro artista aqui!

A casa silenciou. O caixa prosseguiu, impiedoso:

– Afoga no molho! O arroz com feijão pode vir em versão líquida, que o sujeito tá mastigando apenas na fé!

Achando pouco, completou:

– E vê se corta a carne em pedacinho pra recém-nascido, porque o companheiro aqui tá quase só gengiva!

Dizem que Pereio perdeu a fome na mesma hora. Não por causa dos dentes, mas porque descobriu que, naquele restaurante, a humilhação já vinha incluída no preço do prato-feito.

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