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quarta-feira, agosto 12, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 15

 


15. Fevereiro de 2002. O sambista Gera de Vila Isabel desembarcou em Manaus investido de uma responsabilidade que poucos homens receberam ao longo da história. Não era uma missão diplomática. Não era uma missão militar. Não era sequer uma missão artística. Era pior. Tratava-se de uma encomenda pessoal de Martinho da Vila. E quem conhece Martinho sabe que ignorar uma encomenda sua equivale a desafiar uma entidade da natureza. É mais seguro contrariar uma tempestade amazônica.

O pedido era simples: levar para o Rio de Janeiro uma boa manta de pirarucu seco. Meses antes, Martinho havia provado um pirarucu de casaca em Manaus e sofrido aquilo que os cientistas chamam de “impacto gastronômico irreversível”. Voltou para casa convencido de que sua esposa Russa ou a filha Martinália conseguiriam reproduzir a iguaria. Faltava apenas um detalhe. O peixe. E para isso entrou em cena Gera, transformado involuntariamente em transportador internacional de pescado.

No domingo pela manhã, ele foi ao Mercado Adolpho Lisboa e escolheu uma manta digna de representar o Amazonas perante a nação. O vendedor fez o procedimento técnico tradicional: enrolou o produto em algumas folhas de jornal que provavelmente já tinham noticiado três mudanças de moeda e duas crises políticas, colocou tudo numa sacola plástica e desejou boa sorte. Era o equivalente amazônico de um certificado de qualidade.

Qualquer morador local saberia imediatamente o que fazer: providenciar uma caixa de isopor, vedação reforçada e rezar para Nossa Senhora dos Transportes Perecíveis. Mas Gera estava confiante. Confiante demais. Decidiu acomodar a manta na bagagem de mão, junto dos ternos, camisas, cuecas e demais itens que, até então, possuíam um futuro promissor.

O voo até Brasília transcorreu normalmente. O pirarucu permaneceu em silêncio. Aparentemente morto. Aparentemente. Após a escala, porém, alguma combinação entre altitude, pressão atmosférica, temperatura, química orgânica e forças malignas ancestrais resolveu entrar em ação.

Gera acordou com um cheiro estranho. Primeiro investigou os sovacos. Nada. Depois examinou as meias. Nada. Por um instante cogitou que o problema fosse algum passageiro transportando um cadáver clandestino. Mas o odor continuava crescendo. Não era um cheiro. Era uma presença. Uma entidade gasosa. Uma força da natureza. Um atentado biológico.

Incomodado, chamou uma aeromoça. Ela aspirou o ar. Arrependeu-se imediatamente. Os olhos lacrimejaram. A alma tentou abandonar o corpo. A profissional recuou como quem acabara de encontrar Satanás escondido no compartimento de bagagens. Em poucos minutos, toda a tripulação estava mobilizada. Começou uma operação de busca digna da Polícia Federal.

Revistaram compartimentos. Inspecionaram sanitários. Procuraram ratos mortos. Procuraram vazamentos. Procuraram passageiros suspeitos. Procuraram até explicações sobrenaturais. Enquanto isso, o cheiro avançava pela aeronave como um exército invasor. Passageiros tossiam. Outros tapavam o nariz com jornais. Alguns começaram a considerar seriamente a possibilidade de saltar sem paraquedas.

A situação ficou tão dramática que a classe executiva praticamente declarou independência. A porta divisória foi fechada como se estivessem isolando uma zona contaminada durante uma epidemia medieval. De um lado, os ricos. Do outro, o apocalipse.

Sem encontrar a origem do problema, a tripulação iniciou uma inspeção bagagem por bagagem. Todos foram obrigados a abrir suas malas. A essa altura, Gera já estava em estado de decomposição emocional avançada. Sentia o vômito subir até a garganta, bater continência e voltar.

Quando chegou sua vez, ele apenas apontou para a pequena valise aos seus pés. As comissárias abriram. E encontraram o horror. O belo pirarucu avermelhado havia deixado de existir. No seu lugar havia uma substância escura, viscosa e ameaçadora que parecia ter sido coletada diretamente do fundo de um aterro sanitário durante uma enchente. Aquilo já não era peixe. Era um conceito. Uma experiência química. Uma arma não convencional. Uma criatura.

Por sorte, a descoberta ocorreu quando o avião já estava pousando no Galeão. Caso contrário, existia a possibilidade real de a aeronave ter sido desviada para investigação por crime ambiental. Desembarcando, Gera carregou a sacola como quem transporta material radioativo. Evitava contato visual. Evitava aproximações. Evitava movimentos bruscos. Na primeira oportunidade, encontrou um terreno baldio ao longo da Linha Vermelha e realizou o funeral sumário da encomenda. Sem velório. Sem flores. Sem homenagens.

Quando Martinho da Vila soube da tragédia, ficou devastado. O pirarucu dos seus sonhos havia se transformado numa catástrofe aeronáutica. Dizem que o sambista passou seis meses sem falar com Gera. Seis meses. O que, em linguagem diplomática, equivale ao rompimento temporário das relações entre duas nações. E tudo porque um homem acreditou que uma manta de pirarucu seco podia viajar milhares de quilômetros dentro de uma sacola plástica ao lado de cuecas e ternos sem que nada de ruim acontecesse. Uma demonstração de otimismo que deveria ser estudada pela Nasa.

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