15. Fevereiro de 2002. O sambista Gera de
Vila Isabel desembarcou em Manaus investido de uma responsabilidade que poucos
homens receberam ao longo da história. Não era uma missão diplomática. Não era
uma missão militar. Não era sequer uma missão artística. Era pior. Tratava-se
de uma encomenda pessoal de Martinho da Vila. E quem conhece Martinho sabe que
ignorar uma encomenda sua equivale a desafiar uma entidade da natureza. É mais
seguro contrariar uma tempestade amazônica.
O pedido era
simples: levar para o Rio de Janeiro uma boa manta de pirarucu seco. Meses
antes, Martinho havia provado um pirarucu de casaca em Manaus e sofrido aquilo
que os cientistas chamam de “impacto gastronômico irreversível”. Voltou para
casa convencido de que sua esposa Russa ou a filha Martinália conseguiriam
reproduzir a iguaria. Faltava apenas um detalhe. O peixe. E para isso entrou em
cena Gera, transformado involuntariamente em transportador internacional de
pescado.
No domingo pela
manhã, ele foi ao Mercado Adolpho Lisboa e escolheu uma manta digna de
representar o Amazonas perante a nação. O vendedor fez o procedimento técnico
tradicional: enrolou o produto em algumas folhas de jornal que provavelmente já
tinham noticiado três mudanças de moeda e duas crises políticas, colocou tudo
numa sacola plástica e desejou boa sorte. Era o equivalente amazônico de um
certificado de qualidade.
Qualquer
morador local saberia imediatamente o que fazer: providenciar uma caixa de
isopor, vedação reforçada e rezar para Nossa Senhora dos Transportes
Perecíveis. Mas Gera estava confiante. Confiante demais. Decidiu acomodar a
manta na bagagem de mão, junto dos ternos, camisas, cuecas e demais itens que,
até então, possuíam um futuro promissor.
O voo até
Brasília transcorreu normalmente. O pirarucu permaneceu em silêncio.
Aparentemente morto. Aparentemente. Após a escala, porém, alguma combinação
entre altitude, pressão atmosférica, temperatura, química orgânica e forças
malignas ancestrais resolveu entrar em ação.
Gera acordou
com um cheiro estranho. Primeiro investigou os sovacos. Nada. Depois examinou
as meias. Nada. Por um instante cogitou que o problema fosse algum passageiro
transportando um cadáver clandestino. Mas o odor continuava crescendo. Não era
um cheiro. Era uma presença. Uma entidade gasosa. Uma força da natureza. Um
atentado biológico.
Incomodado,
chamou uma aeromoça. Ela aspirou o ar. Arrependeu-se imediatamente. Os olhos
lacrimejaram. A alma tentou abandonar o corpo. A profissional recuou como quem
acabara de encontrar Satanás escondido no compartimento de bagagens. Em poucos
minutos, toda a tripulação estava mobilizada. Começou uma operação de busca
digna da Polícia Federal.
Revistaram
compartimentos. Inspecionaram sanitários. Procuraram ratos mortos. Procuraram
vazamentos. Procuraram passageiros suspeitos. Procuraram até explicações
sobrenaturais. Enquanto isso, o cheiro avançava pela aeronave como um exército
invasor. Passageiros tossiam. Outros tapavam o nariz com jornais. Alguns
começaram a considerar seriamente a possibilidade de saltar sem paraquedas.
A situação
ficou tão dramática que a classe executiva praticamente declarou independência.
A porta divisória foi fechada como se estivessem isolando uma zona contaminada
durante uma epidemia medieval. De um lado, os ricos. Do outro, o apocalipse.
Sem encontrar a
origem do problema, a tripulação iniciou uma inspeção bagagem por bagagem.
Todos foram obrigados a abrir suas malas. A essa altura, Gera já estava em
estado de decomposição emocional avançada. Sentia o vômito subir até a
garganta, bater continência e voltar.
Quando chegou
sua vez, ele apenas apontou para a pequena valise aos seus pés. As comissárias
abriram. E encontraram o horror. O belo pirarucu avermelhado havia deixado de
existir. No seu lugar havia uma substância escura, viscosa e ameaçadora que
parecia ter sido coletada diretamente do fundo de um aterro sanitário durante
uma enchente. Aquilo já não era peixe. Era um conceito. Uma experiência
química. Uma arma não convencional. Uma criatura.
Por sorte, a
descoberta ocorreu quando o avião já estava pousando no Galeão. Caso contrário,
existia a possibilidade real de a aeronave ter sido desviada para investigação
por crime ambiental. Desembarcando, Gera carregou a sacola como quem transporta
material radioativo. Evitava contato visual. Evitava aproximações. Evitava
movimentos bruscos. Na primeira oportunidade, encontrou um terreno baldio ao
longo da Linha Vermelha e realizou o funeral sumário da encomenda. Sem velório.
Sem flores. Sem homenagens.
Quando Martinho
da Vila soube da tragédia, ficou devastado. O pirarucu dos seus sonhos havia se
transformado numa catástrofe aeronáutica. Dizem que o sambista passou seis
meses sem falar com Gera. Seis meses. O que, em linguagem diplomática, equivale
ao rompimento temporário das relações entre duas nações. E tudo porque um homem
acreditou que uma manta de pirarucu seco podia viajar milhares de quilômetros
dentro de uma sacola plástica ao lado de cuecas e ternos sem que nada de ruim
acontecesse. Uma demonstração de otimismo que deveria ser estudada pela Nasa.

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