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quarta-feira, agosto 12, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 14

 


14. Sempre que vinha a Manaus, a cantora Leci Brandão tratava a Zona Franca com a mesma devoção que muitos turistas reservam para Paris ou Nova York: aqui era a sua verdadeira meca de consumo. Simples assim. 

Numa dessas viagens, ela chegou dois dias antes do show para fazer compras e movimentar a economia local. Enquanto isso, seu parceiro de banda, Zé Maurício – banjista, cavaquinhista, boêmio profissional e candidato permanente ao Prêmio Nobel da Manguaça – resolveu aproveitar a folga participando de uma roda de pagode no lendário boteco Sovaco de Cobra, na Cidade Nova.

Os enormes óculos fundo de garrafa davam a ele a aparência de um professor de física prestes a explicar mecânica quântica. Era pura propaganda enganosa. Por trás das lentes habitava um pagodeiro feroz, especializado em cordas, cervejas e decisões questionáveis. A roda de samba começou ao meio-dia. Às seis da tarde, quando qualquer cidadão sensato já estaria voltando para casa, os pagodeiros concluíram que a única solução racional era continuar bebendo em outro bar. Migraram para o Rasga Velha, no Zumbi dos Palmares, numa espécie de romaria etílica.

Zé Maurício já estava tão bêbado que parecia transmitir o sinal da Rádio Relógio em código Morse. Preocupados com o abatimento do companheiro, os “manos” decidiram aplicar a tradicional medicina alternativa dos botequins amazônicos. Primeiro ofereceram uma carreirinha de brilho. O músico ficou elétrico. Como a situação piorou, resolveram acalmá-lo com um monumental baseado de mesclado. A lógica científica da operação era impecável: apagar um incêndio jogando gasolina.

O resultado foi imediato. Zé Maurício ultrapassou os limites da embriaguez convencional, atravessou a estratosfera da consciência e estacionou em alguma dimensão paralela onde os relógios andam para trás e os postes contam piadas. Enquanto isso, Leci Brandão começou a notar um detalhe inconveniente: o músico havia evaporado.

Desesperada, foi até a Rádio Difusora pedir ajuda ao radialista Ormando Barbosa, apresentador do Clube do Samba. Entrou ao vivo e fez um apelo emocionante:

– Olha, gente, aqui quem fala é a Leci Brandão. Se vocês encontrarem um sujeito alto, branco, de óculos de grau, com um banjo amarrado nas costas, por favor, peguem ele do jeito que estiver e levem ao Hotel Imperial. Eu pago a corrida...

Foi provavelmente o primeiro caso da história de Manaus em que uma artista utilizou a rádio para anunciar o desaparecimento de um músico adulto que havia sido visto pela última vez seguindo espontaneamente um grupo de pagodeiros.

O anúncio fracassou miseravelmente. Zé Maurício só reapareceu às seis da tarde do dia seguinte, devolvido pelos amigos como quem entrega um eletrodoméstico usado após um fim de semana de testes extremos. Ainda estava muito doido. Seus olhos tinham a expressão de quem acabara de conversar pessoalmente com três santos, dois extraterrestres e um boto cor-de-rosa.

Leci estava furiosa. Mas o show precisava acontecer. Levaram o músico para o Clube da Caixa, onde ele foi depositado num sofá do camarim para uma hibernação emergencial. Quando a apresentação começou, Leci percebeu que o cavaquinhista havia sumido de novo. Pegou o microfone e resolveu brincar:

– Zé Maurício... Zé Maurício... cadê tu, rapá? A gente tá sentindo tua falta...

Lá no camarim, ainda operando com aproximadamente 12% da capacidade cerebral original, Zé Maurício ouviu seu nome. Sentiu o chamado. Atendeu ao chamado. E saiu correndo em direção ao palco. Infelizmente, havia uma porta de vidro temperado entre ele e seu destino. O encontro foi rápido, intenso e definitivo.

A plateia assistiu a uma demonstração prática das propriedades físicas do vidro temperado. Houve estilhaços para todos os lados. Os óculos do músico explodiram em fragmentos microscópicos. O rosto virou um mapa topográfico de pequenos cortes. O show foi interrompido para socorrer o herói.

Leci Brandão, que até então estava apenas irritada, atingiu um estado emocional em que vulcões costumam pedir moderação. Mesmo assim, manteve o profissionalismo e anunciou ao público:

– Tem alguém aí que saiba tocar cavaquinho? Ou banjo? Porque o meu músico resolveu disputar o campeonato mundial de manguaça e está temporariamente fora de operação...

A plateia ficou muda. Talvez por solidariedade. Talvez por medo. Talvez porque todos ainda estivessem processando a cena do homem que tentou atravessar uma porta de vidro usando apenas a força da vontade. Foi então que Caio do Cavaco e Edu do Banjo surgiram para salvar a noite. Assumiram os instrumentos, garantiram o espetáculo e viveram seus quinze minutos de fama.

Já Zé Maurício entrou para a história como talvez o único músico capaz de desaparecer por trinta horas, mobilizar uma emissora de rádio inteira, sobreviver a uma expedição química de alto risco e, no momento mais importante da carreira, ser derrotado por uma porta.

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