14. Sempre que vinha a Manaus, a cantora Leci Brandão tratava a Zona Franca com a mesma devoção que muitos turistas reservam para Paris ou Nova York: aqui era a sua verdadeira meca de consumo. Simples assim.
Numa dessas viagens, ela chegou dois dias antes do show para
fazer compras e movimentar a economia local. Enquanto isso, seu parceiro de
banda, Zé Maurício – banjista, cavaquinhista, boêmio profissional e candidato
permanente ao Prêmio Nobel da Manguaça – resolveu aproveitar a folga
participando de uma roda de pagode no lendário boteco Sovaco de Cobra, na
Cidade Nova.
Os enormes
óculos fundo de garrafa davam a ele a aparência de um professor de física
prestes a explicar mecânica quântica. Era pura propaganda enganosa. Por trás
das lentes habitava um pagodeiro feroz, especializado em cordas, cervejas e
decisões questionáveis. A roda de samba começou ao meio-dia. Às seis da tarde,
quando qualquer cidadão sensato já estaria voltando para casa, os pagodeiros
concluíram que a única solução racional era continuar bebendo em outro bar.
Migraram para o Rasga Velha, no Zumbi dos Palmares, numa espécie de romaria
etílica.
Zé Maurício já
estava tão bêbado que parecia transmitir o sinal da Rádio Relógio em código
Morse. Preocupados com o abatimento do companheiro, os “manos” decidiram
aplicar a tradicional medicina alternativa dos botequins amazônicos. Primeiro
ofereceram uma carreirinha de brilho. O músico ficou elétrico. Como a situação
piorou, resolveram acalmá-lo com um monumental baseado de mesclado. A lógica
científica da operação era impecável: apagar um incêndio jogando gasolina.
O resultado foi
imediato. Zé Maurício ultrapassou os limites da embriaguez convencional,
atravessou a estratosfera da consciência e estacionou em alguma dimensão
paralela onde os relógios andam para trás e os postes contam piadas. Enquanto
isso, Leci Brandão começou a notar um detalhe inconveniente: o músico havia
evaporado.
Desesperada,
foi até a Rádio Difusora pedir ajuda ao radialista Ormando Barbosa,
apresentador do Clube do Samba. Entrou ao vivo e fez um apelo emocionante:
– Olha, gente,
aqui quem fala é a Leci Brandão. Se vocês encontrarem um sujeito alto, branco,
de óculos de grau, com um banjo amarrado nas costas, por favor, peguem ele do
jeito que estiver e levem ao Hotel Imperial. Eu pago a corrida...
Foi
provavelmente o primeiro caso da história de Manaus em que uma artista utilizou
a rádio para anunciar o desaparecimento de um músico adulto que havia sido
visto pela última vez seguindo espontaneamente um grupo de pagodeiros.
O anúncio
fracassou miseravelmente. Zé Maurício só reapareceu às seis da tarde do dia
seguinte, devolvido pelos amigos como quem entrega um eletrodoméstico usado
após um fim de semana de testes extremos. Ainda estava muito doido. Seus olhos
tinham a expressão de quem acabara de conversar pessoalmente com três santos,
dois extraterrestres e um boto cor-de-rosa.
Leci estava
furiosa. Mas o show precisava acontecer. Levaram o músico para o Clube da
Caixa, onde ele foi depositado num sofá do camarim para uma hibernação
emergencial. Quando a apresentação começou, Leci percebeu que o cavaquinhista
havia sumido de novo. Pegou o microfone e resolveu brincar:
– Zé
Maurício... Zé Maurício... cadê tu, rapá? A gente tá sentindo tua falta...
Lá no camarim,
ainda operando com aproximadamente 12% da capacidade cerebral original, Zé
Maurício ouviu seu nome. Sentiu o chamado. Atendeu ao chamado. E saiu correndo
em direção ao palco. Infelizmente, havia uma porta de vidro temperado entre ele
e seu destino. O encontro foi rápido, intenso e definitivo.
A plateia
assistiu a uma demonstração prática das propriedades físicas do vidro
temperado. Houve estilhaços para todos os lados. Os óculos do músico explodiram
em fragmentos microscópicos. O rosto virou um mapa topográfico de pequenos
cortes. O show foi interrompido para socorrer o herói.
Leci Brandão,
que até então estava apenas irritada, atingiu um estado emocional em que
vulcões costumam pedir moderação. Mesmo assim, manteve o profissionalismo e
anunciou ao público:
– Tem alguém aí
que saiba tocar cavaquinho? Ou banjo? Porque o meu músico resolveu disputar o
campeonato mundial de manguaça e está temporariamente fora de operação...
A plateia ficou
muda. Talvez por solidariedade. Talvez por medo. Talvez porque todos ainda
estivessem processando a cena do homem que tentou atravessar uma porta de vidro
usando apenas a força da vontade. Foi então que Caio do Cavaco e Edu do Banjo
surgiram para salvar a noite. Assumiram os instrumentos, garantiram o
espetáculo e viveram seus quinze minutos de fama.
Já Zé Maurício
entrou para a história como talvez o único músico capaz de desaparecer por
trinta horas, mobilizar uma emissora de rádio inteira, sobreviver a uma
expedição química de alto risco e, no momento mais importante da carreira, ser
derrotado por uma porta.

Nenhum comentário:
Postar um comentário