12. O jogador Dirran era a grande sensação
do campeonato potiguar. Vestia a camisa do Alecrim e colecionava elogios dos
cronistas esportivos. Não era exatamente o que a ciência classificaria como um
protótipo de atleta olímpico: era baixinho, entroncadinho, meio “agalegado” e
tinha pernas tão curtas que parecia correr sempre dentro de um raio de três
metros. Mas o danado fazia gol. E, no futebol, quem faz gol ganha até licença
para desafiar as leis da anatomia.
Num clássico
pegando fogo contra o ABC, em 1971, o narrador Tertuliano Pinheiro, da Rádio
Poti, parecia ter sido contratado pelo fã-clube oficial do atacante.
– Dirran é um
craque da bola!
Cinco minutos
depois:
– Dirran é a
maior revelação do futebol norte-rio-grandense!
Mais alguns
minutos:
– Que jogador
extraordinário é Dirran!
Era Dirran pra
cá, Dirran pra lá, Dirran pra cima, Dirran pra baixo. Se alguém ligasse o rádio
no meio da transmissão, pensaria que o Alecrim tinha escalado onze Dirrans.
E o pior é que
o narrador tinha razão. O baixinho infernizou a defesa adversária e marcou os
cinco gols da vitória por 5 a 2. Cinco! E, para humilhar ainda mais os
zagueiros do ABC, dois foram de cabeça. Até hoje ninguém sabe se os defensores
perderam o tempo da bola ou se a gravidade resolveu tirar folga naquele
domingo.
Ao final da
partida, com o estádio ainda tentando entender o que havia acontecido, o
repórter Djalma Correia foi atrás do herói do jogo para esclarecer uma dúvida
que já atormentava os ouvintes.
– Então,
Dirran, seu nome é de origem francesa? Você tem algum parente francês?
O atacante
olhou para o repórter com a mesma expressão de quem descobre que alguém
confundiu farinha d’água com caviar.
– Não, sinhô!
– Não?
– Não, sinhô! É
que eu sou baixim. Meu apelido é Cu de Rã. Como não podia falar palavrão na
rádio, eles abreviaram!
Naquele
instante, caiu por terra toda a teoria da ascendência europeia, da sofisticação
francesa e da genealogia aristocrática. O grande craque potiguar não era fruto
de nenhuma linhagem de nobres da Provence. Era apenas um apelido de
arquibancada promovido à categoria de nome artístico pelo departamento de
censura da rádio.

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