9. O samba brasileiro deve muito a Noel Rosa. Já os motoristas de táxi da década de 1930 talvez tenham uma opinião mais dividida. Frequentador assíduo da boemia carioca, Noel passava mais tempo em mesas de bar do que muito vereador passa em gabinete.
Foi numa dessas
intermináveis madrugadas do centro do Rio que conheceu um chofer conhecido pelo
apelido de Malhado. Além de conduzir passageiros, o sujeito cultivava uma
segunda profissão que ninguém havia solicitado: cantor lírico.
Malhado era daqueles artistas que confundiam profundidade com dicionário. Adorava entoar versos empolados, recheados de palavras difíceis e expressões que nem ele próprio compreendia. Quanto menos sentido fazia a letra, mais convencido ficava de sua genialidade.
Depois de incontáveis corridas ouvindo árias improvisadas e
dós de peito capazes de assustar cavalos e derrubar pombos dos postes, Noel
decidiu que era hora de retribuir tanta arte com uma homenagem à altura.
Disse ao amigo que havia composto uma canção refinadíssima, perfeita para impressionar duas belas moças, filhas de um respeitável coronel de Vila Isabel. Malhado, naturalmente, acreditou na história. Afinal, a autoconfiança costuma ser a última coisa a abandonar um cantor ruim.
Na noite marcada, os dois seguiram
para a serenata. Noel posicionou-se estrategicamente do outro lado da rua,
alegando que a distância valorizaria ainda mais a potência vocal do intérprete.
Traduzindo: queria estar longe o suficiente para escapar correndo.
Ao som do
violão, Malhado abriu o papel e começou a declamar os versos escritos por Noel:
“Saí da tua alcova com o prepúcio dolorido / Deixando seu clitóris gotejante /
De volúpia emurchecido / Porém, o gonococos da paixão / Aumentou o meu
tesão...”
À medida que a
letra avançava por territórios cada vez mais impróprios para uma janela de
família, o desastre aproximava-se em velocidade recorde.
O coronel não
demorou a aparecer. Surgiu na janela armado e possuído por um entusiasmo
homicida raramente visto em apreciadores de serenatas.
Malhado saiu
correndo como se tivesse acabado de descobrir que o diabo cobrava ingresso.
Depois de algumas quadras, encontrou Noel, escondido e seguro, observando os
acontecimentos à distância regulamentar.
Ofegante, quase
sem conseguir falar, o cantor lamentou:
– Não entendi
nada! O coronel saiu atirando!
Noel, com a
cara mais séria que conseguiu improvisar, respondeu:
– Isso só prova
a absoluta falta de sensibilidade artística dessa gente...
E assim
terminou uma das mais refinadas críticas musicais da história brasileira: um
homem correndo para salvar a pele e outro defendendo a liberdade de expressão –
desde que fosse atrás de uma esquina.

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