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segunda-feira, agosto 10, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 9

 


9. O samba brasileiro deve muito a Noel Rosa. Já os motoristas de táxi da década de 1930 talvez tenham uma opinião mais dividida. Frequentador assíduo da boemia carioca, Noel passava mais tempo em mesas de bar do que muito vereador passa em gabinete. 

Foi numa dessas intermináveis madrugadas do centro do Rio que conheceu um chofer conhecido pelo apelido de Malhado. Além de conduzir passageiros, o sujeito cultivava uma segunda profissão que ninguém havia solicitado: cantor lírico.

Malhado era daqueles artistas que confundiam profundidade com dicionário. Adorava entoar versos empolados, recheados de palavras difíceis e expressões que nem ele próprio compreendia. Quanto menos sentido fazia a letra, mais convencido ficava de sua genialidade. 

Depois de incontáveis corridas ouvindo árias improvisadas e dós de peito capazes de assustar cavalos e derrubar pombos dos postes, Noel decidiu que era hora de retribuir tanta arte com uma homenagem à altura.

Disse ao amigo que havia composto uma canção refinadíssima, perfeita para impressionar duas belas moças, filhas de um respeitável coronel de Vila Isabel. Malhado, naturalmente, acreditou na história. Afinal, a autoconfiança costuma ser a última coisa a abandonar um cantor ruim. 

Na noite marcada, os dois seguiram para a serenata. Noel posicionou-se estrategicamente do outro lado da rua, alegando que a distância valorizaria ainda mais a potência vocal do intérprete. Traduzindo: queria estar longe o suficiente para escapar correndo.

Ao som do violão, Malhado abriu o papel e começou a declamar os versos escritos por Noel: “Saí da tua alcova com o prepúcio dolorido / Deixando seu clitóris gotejante / De volúpia emurchecido / Porém, o gonococos da paixão / Aumentou o meu tesão...”

À medida que a letra avançava por territórios cada vez mais impróprios para uma janela de família, o desastre aproximava-se em velocidade recorde.

O coronel não demorou a aparecer. Surgiu na janela armado e possuído por um entusiasmo homicida raramente visto em apreciadores de serenatas.

Malhado saiu correndo como se tivesse acabado de descobrir que o diabo cobrava ingresso. Depois de algumas quadras, encontrou Noel, escondido e seguro, observando os acontecimentos à distância regulamentar.

Ofegante, quase sem conseguir falar, o cantor lamentou:

– Não entendi nada! O coronel saiu atirando!

Noel, com a cara mais séria que conseguiu improvisar, respondeu:

– Isso só prova a absoluta falta de sensibilidade artística dessa gente...

E assim terminou uma das mais refinadas críticas musicais da história brasileira: um homem correndo para salvar a pele e outro defendendo a liberdade de expressão – desde que fosse atrás de uma esquina.

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