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segunda-feira, agosto 10, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 10

 


10. Na metade dos anos 70, muito antes de existirem leis de silêncio, grupos de WhatsApp de moradores indignados ou vídeos viralizando no Instagram, havia um método bem mais simples para resolver conflitos de vizinhança: reclamar para a polícia e torcer para ninguém morrer.

No Morro da Liberdade, um grupo de boêmios ilustres – Bosco Saraiva, Jairo Beira-Mar, Gilsinho Poeta, Nicéias Magalhães, Mestre Chocolate, Luizinho Sá, Ivan Oliveira e outros especialistas em transformar qualquer fim de tarde em segunda-feira de ressaca – se reunia diariamente na rua Dr. Martins Santana para uma inocente roda de samba. “Inocente”, claro, dependendo do ponto de vista. Para os sambistas, aquilo era cultura. Para os vizinhos, era poluição sonora. Para os cachorros da rua, era tortura psicológica. Mas ninguém sofria mais do que dona Sílvia.

Ela comandava a Dança Regional Milho Verde, também instalada na mesma rua. Enquanto os pagodeiros despejavam surdos, tamborins e atabaques sem piedade, dona Sílvia tentava ensaiar um grupo embalado por sanfona, zabumba e pandeiro. Era praticamente uma guerra civil musical. De um lado, o samba. Do outro, o regional. No meio, os moradores tentando descobrir qual barulho era pior.

Depois de semanas suportando aquele duelo sonoro digno de uma disputa entre dois carros de som em época de eleição, dona Sílvia perdeu a paciência. E resolveu apelar para uma instituição famosa por sua delicadeza e capacidade de diálogo: a Polícia de Choque.

Naqueles tempos de ditadura, os homens tinham um método de investigação extremamente sofisticado. Primeiro vinham as bordoadas. As perguntas, se sobrasse alguém consciente, vinham depois.

Dona Sílvia fez a denúncia convencida de que os pagodeiros finalmente conheceriam o peso do braço do Estado. Mas naquele dia o destino decidiu beber também.

Por alguma razão misteriosa – talvez inspiração divina, talvez falta de dinheiro para mais uma rodada de cachaça na rua – a turma do samba encerrou o pagode mais cedo e foi transferir suas atividades etílicas para o Bar do Beto.

Quando o caminhão da Polícia de Choque dobrou a esquina, os policiais ouviram música. Não sabiam qual música. Não queriam saber. Nem perguntaram. Viram gente tocando. Era o suficiente.

Desceram distribuindo cacete com a precisão de um temporal de inverno amazônico: atingindo todo mundo, menos quem devia. Os integrantes da Dança Regional Milho Verde foram surpreendidos por uma intervenção cultural patrocinada pelo Estado.

Sanfoneiros voaram para um lado. Pandeiros para outro. Teve gente que terminou o ensaio sabendo mais sobre defesa pessoal do que sobre folclore. A confusão foi tão grande que dona Sílvia, autora intelectual da operação, acabou desmaiando ao assistir sua própria armadilha atropelando os alvos errados.

Entre os integrantes da dança estava Brau. Inocente, puro e besta, Brau era um sujeito baixinho, animado e dono de uma corcova tão respeitável que parecia carregar um pequeno dromedário nas costas. 

Quando a pancadaria começou, ele fez o que qualquer cidadão sensato faria diante da Polícia de Choque da década de 70: correu. Correu como quem devia dinheiro para metade da cidade. Entrou por uma viela e tentou se esconder atrás de um poste. A estratégia tinha um pequeno problema. Brau ocupava mais espaço na profundidade do que na largura.

Mesmo assim, tentou. Ficou de ladinho, na ponta dos pés, acreditando que talvez a física estivesse ao seu favor. Não estava. Um policial o avistou. Sacou a arma e berrou:

– Sai de trás desse poste, porra! Senão vou dar um tiro bem no meio da tua bunda!

Brau percebeu que aquele não era o momento ideal para discutir anatomia. Saiu devagar. Foi então que o policial descobriu que a suposta bunda não era bunda. Era a monumental corcova do rapaz.

O meganha ficou alguns segundos tentando reorganizar as informações dentro da cabeça. Olhou para Brau. Olhou para a corcova. Olhou novamente para Brau. E concluiu que já tinha passado vergonha suficiente por um dia. Guardou a arma e decretou:

– Vai pra casa e não te mistura mais com esse bando de arruaceiro!

Brau foi embora sem entender nada. 

Dona Sílvia também aprendeu uma lição valiosa. Depois de ver sua própria dança regional ser confundida com uma quadrilha de marginais e tomar a surra destinada aos pagodeiros, ela decidiu que talvez o samba não fosse um problema tão grande assim. Dizem que nunca mais chamou a polícia. Afinal, quando a cura é pior que a doença, o melhor remédio é comprar um par de tampões para os ouvidos.

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