10. Na metade dos anos 70, muito antes de
existirem leis de silêncio, grupos de WhatsApp de moradores indignados ou
vídeos viralizando no Instagram, havia um método bem mais simples para resolver
conflitos de vizinhança: reclamar para a polícia e torcer para ninguém morrer.
No Morro da
Liberdade, um grupo de boêmios ilustres – Bosco Saraiva, Jairo Beira-Mar,
Gilsinho Poeta, Nicéias Magalhães, Mestre Chocolate, Luizinho Sá, Ivan Oliveira
e outros especialistas em transformar qualquer fim de tarde em segunda-feira de
ressaca – se reunia diariamente na rua Dr. Martins Santana para uma inocente
roda de samba. “Inocente”, claro, dependendo do ponto de vista. Para os
sambistas, aquilo era cultura. Para os vizinhos, era poluição sonora. Para os
cachorros da rua, era tortura psicológica. Mas ninguém sofria mais do que dona
Sílvia.
Ela comandava a
Dança Regional Milho Verde, também instalada na mesma rua. Enquanto os
pagodeiros despejavam surdos, tamborins e atabaques sem piedade, dona Sílvia
tentava ensaiar um grupo embalado por sanfona, zabumba e pandeiro. Era
praticamente uma guerra civil musical. De um lado, o samba. Do outro, o
regional. No meio, os moradores tentando descobrir qual barulho era pior.
Depois de
semanas suportando aquele duelo sonoro digno de uma disputa entre dois carros
de som em época de eleição, dona Sílvia perdeu a paciência. E resolveu apelar
para uma instituição famosa por sua delicadeza e capacidade de diálogo: a
Polícia de Choque.
Naqueles tempos
de ditadura, os homens tinham um método de investigação extremamente
sofisticado. Primeiro vinham as bordoadas. As perguntas, se sobrasse alguém
consciente, vinham depois.
Dona Sílvia fez
a denúncia convencida de que os pagodeiros finalmente conheceriam o peso do
braço do Estado. Mas naquele dia o destino decidiu beber também.
Por alguma
razão misteriosa – talvez inspiração divina, talvez falta de dinheiro para mais
uma rodada de cachaça na rua – a turma do samba encerrou o pagode mais cedo e
foi transferir suas atividades etílicas para o Bar do Beto.
Quando o
caminhão da Polícia de Choque dobrou a esquina, os policiais ouviram música.
Não sabiam qual música. Não queriam saber. Nem perguntaram. Viram gente
tocando. Era o suficiente.
Desceram
distribuindo cacete com a precisão de um temporal de inverno amazônico:
atingindo todo mundo, menos quem devia. Os integrantes da Dança Regional Milho
Verde foram surpreendidos por uma intervenção cultural patrocinada pelo Estado.
Sanfoneiros
voaram para um lado. Pandeiros para outro. Teve gente que terminou o ensaio
sabendo mais sobre defesa pessoal do que sobre folclore. A confusão foi tão
grande que dona Sílvia, autora intelectual da operação, acabou desmaiando ao
assistir sua própria armadilha atropelando os alvos errados.
Entre os integrantes da dança estava Brau. Inocente, puro e besta, Brau era um sujeito baixinho, animado e dono de uma corcova tão respeitável que parecia carregar um pequeno dromedário nas costas.
Quando a pancadaria começou, ele fez o que
qualquer cidadão sensato faria diante da Polícia de Choque da década de 70:
correu. Correu como quem devia dinheiro para metade da cidade. Entrou por uma
viela e tentou se esconder atrás de um poste. A estratégia tinha um pequeno
problema. Brau ocupava mais espaço na profundidade do que na largura.
Mesmo assim,
tentou. Ficou de ladinho, na ponta dos pés, acreditando que talvez a física
estivesse ao seu favor. Não estava. Um policial o avistou. Sacou a arma e
berrou:
– Sai de trás
desse poste, porra! Senão vou dar um tiro bem no meio da tua bunda!
Brau percebeu
que aquele não era o momento ideal para discutir anatomia. Saiu devagar. Foi
então que o policial descobriu que a suposta bunda não era bunda. Era a
monumental corcova do rapaz.
O meganha ficou
alguns segundos tentando reorganizar as informações dentro da cabeça. Olhou
para Brau. Olhou para a corcova. Olhou novamente para Brau. E concluiu que já
tinha passado vergonha suficiente por um dia. Guardou a arma e decretou:
– Vai pra casa
e não te mistura mais com esse bando de arruaceiro!
Brau foi embora sem entender nada.
Dona Sílvia também aprendeu uma lição valiosa. Depois de ver
sua própria dança regional ser confundida com uma quadrilha de marginais e
tomar a surra destinada aos pagodeiros, ela decidiu que talvez o samba não
fosse um problema tão grande assim. Dizem que nunca mais chamou a polícia.
Afinal, quando a cura é pior que a doença, o melhor remédio é comprar um par de
tampões para os ouvidos.

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