8. Quando se fala em carnaval de rua de verdade – aquele que não precisa de camarote, pulseirinha VIP nem influencer ensinando a sambar – o primeiro nome que surge é a Banda de Ipanema, a matriarca respeitável de praticamente todas as bandas carnavalescas do Brasil.
E tudo começou em 1959, quando um grupo de boêmios cariocas foi parar em Ubá, Minas Gerais, para inaugurar um clube em pleno carnaval. Lá conheceram uma curiosa tradição local: a Banda Philarmônica Embocadura. Na frente, desfilavam sujeitos vestidos de branco e chapéu de palha que não tocavam absolutamente nada. Atrás, vinha uma banda de verdade fazendo todo o trabalho. A genialidade da ideia impressionou os visitantes. Afinal, parecia uma perfeita metáfora de muita coisa na vida pública brasileira.
De volta ao Rio, Ferdy Carneiro, Albino Pinheiro, Paulo César Saraceni, J. Rui e outros companheiros de botequim resolveram importar a brincadeira. Nascia a semente da Banda de Ipanema. Ferdy era um personagem que parecia ter sido inventado por um cronista bêbado e talentoso. Designer, jornalista, artista plástico, diretor de arte, homem de cinema, frequentador profissional de botequins e colaborador do Pasquim, definia-se como “um biscateiro qualificado”. Mineiro de nascimento e carioca por insistência, colecionava frases espirituosas e amizades com a mesma dedicação que reservava aos copos e às rodas de samba.
Em 1965, ano do
quarto centenário do Rio e primeiro carnaval após o golpe militar, Ferdy,
Albino Pinheiro, Jaguar e outros conspiradores da alegria fundaram oficialmente
a Banda de Ipanema. O regime proibia aglomerações de mais de cinquenta pessoas.
A banda respondeu reunindo cerca de dez mil. Era uma época em que até a
felicidade precisava de autorização prévia.
Desde o
primeiro desfile, a Banda exibe a misteriosa faixa “Yolhesman Crisbeles”. O
antigo SNI passou anos tentando decifrar o enigma, convencido de que se tratava
de alguma senha revolucionária. Não encontrou nada. Pela primeira vez na
história, um órgão de inteligência foi derrotado por uma piada. A expressão
enigmática, segundo um cordelista da Estação Pedro II da Central do Brasil,
seria o grito do anjo exterminador no dia do Juízo Final.
Misturando a
irreverência dos intelectuais boêmios com a alma dos blocos suburbanos, a Banda
transformou-se rapidamente num fenômeno. Desfilava quinze dias antes do
carnaval e arrastava multidões. Seus padrinhos e madrinhas formavam uma
verdadeira seleção da cultura brasileira: de Clementina de Jesus a Cartola, de
Oscar Niemeyer a Clara Nunes, de Nássara a Eneida de Morais, de Bibi Ferreira a
Lúcio Rangel, de João de Barro a Leila Diniz, de Aracy de Almeida a João
Nogueira, de Grande Otelo a Martinho da Vila.
As histórias
acumuladas pela Banda são quase tão famosas quanto ela própria. Houve agentes
do SNI infiltradas entre os foliões em busca de mensagens subversivas. Houve o
escrivão juramentado Hugo Bidê desfilando de general montado num cavalo branco
e tomando chope sem desmontar. Houve Tom Jobim surgindo com um tênis novinho e
explicando: “Pedi a Deus um tênis novo para desfilar. Pelo menos foi isso que
Ele entendeu”.
Casos
interessantes se passaram durante o desfile da banda, como o da reaproximação
de João Saldanha e sua mulher Teresa, refazendo um casamento desfeito havia
alguns meses. João Saldanha ia sempre de fraque e bermuda e um rodo que
empunhava como se fosse estandarte. Uma das alas mais interessantes foi a Ala
das Escrotas da Banda, machões vestidos de mulher, composta, dentre outros
boêmios e intelectuais, pelo crítico Alex Viany e o também crítico e letrista
Sérgio Cabral, que depois abandonou a ala para sair com a sua camisa do Vasco.
O músico Rildo
Hora, em parceria com Sérgio Cabral, compôs “Banda de Ipanema”, onde ressaltam
o espírito do bloco genuinamente carioca: “Vem a Banda de Ipanema / Espalhando
alegria / Quero a minha voz / Dentro do coral / Viva a vida e morra a morte / E
a moçada de Ipanema / Botou na rua seu carnaval”.
Mas o maior
legado da Banda talvez tenha sido outro. No primeiro desfile, uma faixa trazia
os dizeres: “Uma banda em cada bairro”. Parecia uma utopia de botequim. Não
era. A ideia se espalhou pelo Rio, depois pelo Brasil. Em pouco tempo surgiram
dezenas de bandas inspiradas no exemplo de Ipanema.
A Banda não
apenas ressuscitou o carnaval de rua. Provou que a alegria organizada podia ser
mais poderosa que a burocracia, mais persistente que a repressão e muito mais
divertida que qualquer autoridade de plantão. Afinal, enquanto os governos
passavam, os foliões continuavam desfilando.

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