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sexta-feira, setembro 11, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 64

 


64. O cantor e compositor João Nogueira estava em Manaus para uma série de apresentações no recém-inaugurado Nostalgia, novo clube de pagode de Vilson Benayon e Aloísio Jackmont, localizado na Cachoeirinha, quando resolveu fazer turismo medicinal no Mercado Adolpho Lisboa, aquele lugar onde, se procurar com jeito, você encontra desde pirarucu seco até remédio para dor de cotovelo, inveja de vizinho e azar no jogo.

A ideia partiu do sobrinho e empresário, Didu Nogueira, que sugeriu uma visita ao famoso corredor das ervas. Hipocondríaco com doutorado e sempre convencido de que carregava umas quinze doenças diferentes, João estacionou diante de uma barraca de plantas, raízes, cascas, garrafadas e promessas de cura.

O vendedor reconheceu o sambista na mesma hora.

– Ô, patrão! O senhor é o João Nogueira! Que honra! Diga aí, no que posso salvar sua vida?

João entrou no espírito da consulta.

– Meu camaradinha, o que é bom pra diabetes?

– Pata-de-vaca.

– E pra circulação?

– Jambolão. Mas também tem unha-de-gato, porangaba e stevia. Essa daí substitui o açúcar, desentope as veias, espanta o colesterol e, se bobear, ainda faz o Flamengo ganhar campeonato sem ajuda do juiz.

João gostou da conversa e resolveu fazer um check-up completo.

– E pra estômago, esôfago, azia de depois da esbórnia... O camaradinha tem alguma coisa?

O caboclo abriu um sorriso de quem tinha encontrado o cliente dos sonhos.

– Aí o senhor caiu na barraca certa! Leva mururé com quebra-pedra. Se não resolver, entra com barbatimão em jejum. Tem carapiá também. É tiro e queda. Mais alguma enfermidade?

João já estava se divertindo.

– E essa folhinha aqui?

– Espinheira-santa. Serve pra espinhela caída, inflamação, cansaço, enxaqueca, joanete... e ainda limpa a voz. Pro senhor, que vive cantando, é melhor que professor de canto.

Animado, o sambista resolveu aproveitar a promoção. Pediu um preparado para os rins, outro para o fígado, uma mistura para o estômago, duas garrafadas “preventivas”, meia dúzia de cipós e mais um punhado de folhas e raízes cujos nomes ele jamais conseguiria pronunciar: copaíba, andiroba, mirantã, uxi amarelo, açaí-branco, marapuama, amapá, quássia e pião-roxo

A pilha de pacotes já parecia enxoval de casamento. Enquanto embrulhava a compra, o erveiro olhou discretamente para Didu e comentou, em voz baixa, com a sinceridade brutal típica dos caboclos amazônicos:

– Arre, égua, patrão... esse nó-na-madeira aí tá bem avariado, num tá não? Pela compra dele, pensei que já tava encomendando a alta de São Pedro...

João ouviu a sentença, virou para o vendedor e caiu numa gargalhada tão grande que, por alguns segundos, o caboclo achou que ia precisar indicar mais uma erva: alguma que fosse boa para excesso de riso.

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