64. O cantor e compositor João Nogueira
estava em Manaus para uma série de apresentações no recém-inaugurado Nostalgia,
novo clube de pagode de Vilson Benayon e Aloísio Jackmont, localizado na
Cachoeirinha, quando resolveu fazer turismo medicinal no Mercado Adolpho
Lisboa, aquele lugar onde, se procurar com jeito, você encontra desde pirarucu
seco até remédio para dor de cotovelo, inveja de vizinho e azar no jogo.
A ideia partiu
do sobrinho e empresário, Didu Nogueira, que sugeriu uma visita ao famoso
corredor das ervas. Hipocondríaco com doutorado e sempre convencido de que
carregava umas quinze doenças diferentes, João estacionou diante de uma barraca
de plantas, raízes, cascas, garrafadas e promessas de cura.
O vendedor
reconheceu o sambista na mesma hora.
– Ô, patrão! O
senhor é o João Nogueira! Que honra! Diga aí, no que posso salvar sua vida?
João entrou no
espírito da consulta.
– Meu
camaradinha, o que é bom pra diabetes?
– Pata-de-vaca.
– E pra
circulação?
– Jambolão. Mas
também tem unha-de-gato, porangaba e stevia. Essa daí substitui o açúcar,
desentope as veias, espanta o colesterol e, se bobear, ainda faz o Flamengo
ganhar campeonato sem ajuda do juiz.
João gostou da
conversa e resolveu fazer um check-up completo.
– E pra
estômago, esôfago, azia de depois da esbórnia... O camaradinha tem alguma
coisa?
O caboclo abriu
um sorriso de quem tinha encontrado o cliente dos sonhos.
– Aí o senhor
caiu na barraca certa! Leva mururé com quebra-pedra. Se não resolver, entra com
barbatimão em jejum. Tem carapiá também. É tiro e queda. Mais alguma
enfermidade?
João já estava
se divertindo.
– E essa
folhinha aqui?
–
Espinheira-santa. Serve pra espinhela caída, inflamação, cansaço, enxaqueca,
joanete... e ainda limpa a voz. Pro senhor, que vive cantando, é melhor que
professor de canto.
Animado, o
sambista resolveu aproveitar a promoção. Pediu um preparado para os rins, outro
para o fígado, uma mistura para o estômago, duas garrafadas “preventivas”, meia
dúzia de cipós e mais um punhado de folhas e raízes cujos nomes ele jamais
conseguiria pronunciar: copaíba, andiroba, mirantã, uxi amarelo, açaí-branco,
marapuama, amapá, quássia e pião-roxo
A pilha de
pacotes já parecia enxoval de casamento. Enquanto embrulhava a compra, o
erveiro olhou discretamente para Didu e comentou, em voz baixa, com a
sinceridade brutal típica dos caboclos amazônicos:
– Arre, égua,
patrão... esse nó-na-madeira aí tá bem avariado, num tá não? Pela compra dele,
pensei que já tava encomendando a alta de São Pedro...
João ouviu a
sentença, virou para o vendedor e caiu numa gargalhada tão grande que, por
alguns segundos, o caboclo achou que ia precisar indicar mais uma erva: alguma
que fosse boa para excesso de riso.
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