Na última segunda feira do mês passado (29 de julho),
participei de uma nova sessão musical no Clube dos Discófilos Fanáticos (CDF),
na aprazível cobertura do médico Arnaldo Russo, para presenciar, ao vivo e a
cores, à quebra de duas cláusulas pétreas do engessado estatuto da entidade.
Pela primeira vez, a reunião aconteceria na última segunda feira do mês e não na
última terça feira, como vem rolando há 18 anos.
Motivo? O Lucio Menezes viajaria para o Rio de Janeiro na
terça feira, 30, para comemorar seu aniversário, na quarta, 31, assistindo a
uma nova vitória do seu Fluminense, no Maracanã, e não queria perder de jeito
nenhum a apresentação de julho, já antecipadamente reputada como um marco
inaugural nas novas atividades do CDF.
A segunda cláusula pétrea a ser quebrada era mais
interessante: pela primeira vez, Arnaldo Russo, o caseiro do clube, iria fazer
uma incursão pela MPB, sublimando sua alma roqueira sabe-se lá com quanto
sacrifício, para pilotar uma apresentação intitulada “Boteco do Caseiro”.
Segundo Lucio Menezes, Arnaldo Russo vinha reclamando da
mesmice das últimas apresentações.
“Pô, esse pessoal não está pesquisando, está só embromando.
Se for apenas para escutar uma trilha sonora escolhida aleatoriamente, a gente
nem precisa mais se reunir aqui em casa...”, vociferou o caseiro. “Precisamos
reativar o espírito de curiosidade que norteou a criação do CDF! A gente tem
que sair de uma audição aprendendo alguma coisa nova.”
Coisa nova, no caso do médico, era deixar de lado seus
clipes antológicos de música negra (tipo James Brown cantando num clube fuleiro
aos 13 anos de idade) ou de rock (com Stones cantando músicas dos Beatles e
vice versa, em edições piratas encontradas somente com suspeitíssimos
comerciantes do baixo clero de Cingapura, Malásia ou Tailândia) e se aventurar
pelo terreno minado da MPB.
Para criar o clima apropriado, Arnaldo transformou o espaço
externo da cobertura em um autêntico boteco, com garçom (Antônio), barman
(Jêbson Bahia, vulgo JB, filho mais velho do Waldemir Bahia, o “Mimi”, meu
amigo de infância, vascaíno histórico e parceiro de birita no Bar do Manuel, em
São Francisco), mesas e cadeiras.
Só faltou serragem no chão.
No entorno da piscina, um barril de chope na pressão, uma
mesa com destilados (vodka, cachaça mineira, uísque, tequila, campari, rum e
pisco), frutas (kiwi, morangos, tangerina, lima-da-pérsia, limão-caboclo) e
vinhos franceses, uma geleira com refrigerantes, cervejas em lata, isotônicos e
energéticos e outra mesa com uma quantidade inenarrável de petiscos dignos de
um “pé sujo” com pedigree: pastéis de carne, croquetes, “punhetas”, filé
palito, “escondidinho”, pernil, fígado à lisboeta, lombo com feijão-manteiga,
moela, torresmo, carne seca com farofa, linguiça, salaminho, queijos variados e
um indescritível acarajé com recheio de pimenta malagueta, pra tirar qualquer
um do sério.
Além dos titulares do clube (Acram Isper, Salomito Benchimol, Expedito Teodoro, Waldir Menezes, Roberto Benigno,
Humberto Amorim, Oswaldo Frota e Edson Gil.), a patuleia, capitaneada por
Joaquim Marinho, Jeferson Garrafa e Coronel Barroso, participou com sua força
máxima, lotando completamente o Boteco do Caseiro.
Devia ter umas 40 pessoas porque, como diz o filósofo,
compositor e sambista Chico da Silva, “pênalti e boca livre só perde quem é
otário!”
Irmão do ex-deputado federal José Dutra, o empresário
Otaviano Dutra me falou rapidamente sobre o trabalho social que vem realizando
na periferia da cidade há vários anos: atualmente, ele está pagando a faculdade
de três namoradinhas e a pós-graduação de uma quarta, todas muy jovenzitas, muy
hermosas e muy pobrezitas...
O papa Francisco I, com certeza, iria abençoar o empresário,
porque a causa é justa e os fins justificam os meios.
O boteco foi aberto às 19h30 e, como era de se esperar, uma
hora mais tarde já tinha um monte de gente pra lá de depois.
Isso talvez explique o susto tomado pelo Jeferson Garrafa ao
escutar o Coronel Barroso cochichando para o Tito Magnani o final de uma frase
emblemática: “mas tem que tomar cuidado senão escorrega pro cu da bichinha...”
Barroso estava explicando ao Tito os cuidados necessários
para retirar o fel de uma tartaruga, depois que a membrana foi furada
acidentalmente.
Com a cabeça cheia de truaca, Jeferson já pensou bobagem e
ficou assustadíssimo com a conversa. Pode?
Às 22h, Arnaldo Russo convocou a cachorrada para ocupar seus
lugares marcados na sala de audições, que ele iria iniciar sua apresentação.
Didaticamente, o caseiro explicou que deixara de frequentar
botecos com música ao vivo, há quase duas décadas, porque não aguentava mais
ouvir as mesmas xaropadas de sempre: “Ronda”, “Sampa”, “Canteiros” e abobrinhas
semelhantes.
Avisou que havia feito uma seleção musical para o seu boteco
com hits conhecidos, mas não tão rebarbativos quanto os citados anteriormente.
Ele acionou o play e entrou Alcione cantando “Ronda”.
Arnaldo ficou desnorteado:
– Essa porra eu não selecionei!
Aí, adiantou a faixa do DVD.
Entrou Emílio Santiago cantando “Sampa”.
– Que porra é essa?! Eu não selecionei essa merda...
Aí, adiantou de novo a faixa do DVD.
Entrou Fagner cantando “Canteiros”.
Só então Arnaldo Russo caiu na real: algum espírito de porco
havia trocado o seu DVD original por um genérico de quinta categoria.
Injuriado, ele retirou o DVD genérico do aparelho com violência,
quebrou em mil pedaços, colocou o DVD Boteco do Caseiro e acionou o play.
Primeira música: MPB4 e Cauby Peixoto cantando “Última
Forma”.
Segunda música: Miltinho e Ed Motta cantando “Meu Nome é
Ninguém”.
Terceira música: Ana Carolina e Ângela Rô Rô cantando
“Homens e Mulheres”.
Quarta música: Marcos Valle, Stacey Kent e Jim Tomlinson
cantando “Samba do Verão (So Nice)”.
Quinta música: Ney Matogrosso cantando “Disritmia”.
Daí em diante, foi uma sequência de biscoitos finos pra deixar
qualquer audiência eletrizada.
No total, 24 clipes magistrais, com uma qualidade sonora e
visual de arrebentar os olhos e os tímpanos.
Simplesmente perfeitos.
Entre os melhores momentos, Paula Toller cantando “1800
colinas”, Gilberto Gil e Marjorie Estiano cantando “Chiclete com Banana”,
Marisa Monte cantando “Lenda das Sereias, Rainha do Mar”, Demônios da Garoa
cantando “Saudosa Maloca” e Clara Nunes cantando “Nação”.
É um DVD tão bom que periga cair na mão dos “piratões” e
eles venderem 100 mil cópias em uma semana – façanha que eu próprio pretendo
realizar, se arranjar tempo...
As palmas entusiasmadas da plateia, ao final da audição,
foram os melhores testemunhos dessa noitada histórica.
Edson Gil, Salomito Benchimol, Humberto Amorim e Lucio Menezes
teceram loas ao apresentador, o que significa dizer que as futuras
apresentações vão ser mesmo do balacobaco.
Valeu, comandante Arnaldo!
NOTA DO EDITOR DO
MOCÓ:
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