sábado, janeiro 30, 2010

Reino Unido promove feijoada no Fellice, neste sábado


A Harmonia do GRES Reino Unido da Liberdade estará realizando neste sábado, a partir das 11h, a sua tradicional feijoada carnavalesca, que vai acontecer na Cervejaria Fellice, Studio 5.

O evento tem como objetivo reforçar o caixa da escola para garantir os investimentos nos preparativos do desfile deste ano.

A exemplo do ano passado, o grande encontro terá como trilha sonora o legítimo samba de raiz, sob a responsabilidade do Grupo Resistência do Samba, Bateria Show da Escola e Andrezinho do Molejo, filho do saudoso Mestre André da Padre Miguel do Rio de Janeiro.

As camisas, que darão direito ao evento, estão sendo vendidas na quadra da agremiação no valor promocional de 40 reais.

Só terá acesso à feijoada quem estiver com a camisa oficial e restam pouquíssimas unidades.

De acordo com os coordenadores da Harmonia, Mauro Souza, Clemilton Pinto e Fabio, todos os detalhes foram observados para que os participantes da feijoada tenham uma tarde de muita animação, além de obterem informações detalhadas sobre o desfile da Reino Unido, que acontecerá a partir de meia-noite do dia 13 de fevereiro.

A Harmonia comunica também que o ensaio deste domingo, 31, sairá uma vez mais da pracinha de Santa Luzia, pelo Prosamim.

Concentração às 16h e inicio às 17h com destino a quadra da Escola, no Morro da Liberdade, onde acontecerá, a partir das 21h, o famoso esquenta da Banda Bagaço da Laranja.

A festa oficial da banda será no dia 7 de fevereiro, logo após o ensaio geral da Reino Unido.

Contato: Ivan e Oliveira (Dir. de Comunicação da Escola)
Tel. 9966.9758

Império da Cidade Nova aborda Lábrea para subir ao Grupo Especial


Na busca pelo título de campeã do Grupo de Acesso do carnaval amazonense, o Grêmio Recreativo Escola de Samba (GRES) Império da Cidade Nova traz o enredo “Lábrea: Um Eldorado nordestino nas Águas do Purus”, uma homenagem aos nordestinos que deixaram suas terras em busca do “ouro negro” no coração da Amazônia, especificamente no Rio Purus, segundo informou o presidente da agremiação, Leocádio Lopes.

Conforme Lopes, a história do apogeu da borracha no Amazonas será contada na passarela do samba por meio de 14 alas, dois carros alegóricos, 100 ritmistas de bateria, 100 baianas, dois casais de mestre-sala e porta-bandeira, integrando 1.500 figurantes.

Ele informou ainda que durante o desfile será feita uma homenagem póstuma ao ex-governador e senador amazonense Gilberto Mestrinho e ao escritor Euclides da Cunha.

“A história vai girar em torno de Lábrea, um município que tem uma história bonita e que nunca foi homenageado anteriormente. Conhecida como ‘Princesinha do Purus’, a cidade no século XIX era como se fosse a segunda capital amazonense, porque concentrava riquezas e uma rede de comércio grande naquela época”, explicou o presidente.


Lopes salientou ainda que a o apoio do deputado estadual Adjuto Afonso (PP), representante do Purus, está sendo fundamental para o andamento dos preparativos da escola, que vai desfilar no dia 12 de fevereiro.

“O apoio deste parlamentar está sendo muito importante, uma vez que ele nasceu em Pauini, uma cidade que foi decisiva para consolidação do ciclo da borracha no Amazonas”, destacou.

O desfile do Império da Cidade Nova acontecerá no dia 11 de fevereiro, às 20h30, no Centro de Convenções (Sambódromo).

As fantasias ainda podem ser adquiridas ao preço de R$ 10, na quadra da escola, que funciona na Praça de Alimentação da Cidade Nova, Zona Norte, a partir das 20h, próximo ao Marcelus Bar.

Mais informações podem ser adquiridas pelo 9975-2270 (Michele).

O ensaio geral da escola acontece no dia 9 de fevereiro.

Contato do presidente: Leocádio Lopes: 8199-7311

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Escolha de escritores-delegados vai rolar amanhã, no Espaço Valer


O escritor Zemaria Pinto vai representar o Sindicato dos Escritores no evento

Recebi dos amigos da Editora Valer o convite abaixo, que passo para os interessados.

Como amanhã de manhã estarei me mandando para Itacoatiara, para participar da inauguração do passeio público jornalista Aguinelo Oliveira, um de meus inúmeros brothers que fez a grande travessia no ano passado, vou fazer forfait.

Mas o recado está dado. Participem.

A Câmara Amazonense do Livro e Leitura (CALL), o Conselho Municipal de Cultura, a Associação Amazonense de Leitura (Amaler) e o Comitê Gestor do FliFloresta (Festival Literário Internacional da Floresta) têm a satisfação de convidá-lo para a Assembleia Estadual Setorial do Livro, Leitura e Literatura, em que se discutirá as estratégias para o estado do Amazonas e a escolha de delegados para a Pré-Conferência do Setor.

A assembleia acontecerá neste sábado, dia 30 de janeiro, de 8 às 11h30, no auditório do Espaço Cultural da Livraria Valer, na Rua Ramos Ferreira, 1195 – Centro.

Seguindo a orientação da Diretoria de Livro, Leitura e Literatura, do Ministério da Cultura, o encontro reunirá os segmentos ligados ao Livro, à Leitura e à Literatura, que atuam em âmbito estadual, com o objetivo de discutir os temas que têm norteado os debates sobre essa problemática, bem como as ações para dinamizar e fortalecer o setor.

A assembelia é o fórum adequado para refletir caminhos para aprofundar e ampliar o debate sobre a necessidade premente de uma política de governo consistente para o Livro, a Leitura e a Literatura no Brasil, oportunizando dessa forma o acesso da sociedade ao conhecimento, à beleza e ao patrimônio literário nacional.

As entidades, os intelectuais, escritores, mediadores de leitura, bibliotecários, livreiros e editores convidados terão a oportunidade de contribuir com esse importante debate e, ao mesmo tempo, propor sugestões para dinamizar, fortalecer e ampliar os serviços e ações que favoreçam a cultura do Livro, a prática da Leitura e a expressão literária no Estado do Amazonas e no País.

Isso vai se dar mediante o incentivo à produção literária, o fortalecimento do mercado editorial, a acessibilidade ao livro, a promoção de iniciativas de leitura, a criação de espaços para o cultivo de práticas que favoreçam o acesso da sociedade a esses bens culturais (como bibliotecas, salas de leitura e centros culturais).

Durante o evento, será feita a avaliação do Plano Nacional de Livro e Leitura – PNLL, do Governo Federal, e a proposição de uma estratégia para o setor, considerando os eixos temáticos da II Conferência Nacional de Cultura.

E com ênfase no que estabelece o PNLL (Plano Nacional de Livro e Leitura):

“Essa Política de Estado deverá traduzir-se em amplos programas do governo, com coordenações interministeriais, devidamente articuladas com Estados, Municípios, empresas e instituições do Terceiro Setor, para alcançar sinergia, objetividade e resultados de fôlego quanto às metas que venham a ser estabelecidas. Quatro eixos principais orientam a organização do Plano:

Democratização do Acesso

Fomento à Leitura e à Formação de Mediadores

Valorização do Livro e Comunicação

Desenvolvimento da Economia do Livro”.

Evento: ASSEMBLEIA ESTADUAL SETORIAL DO LIVRO, LEITURA E LITERATURA

Data: 30 de janeiro 2010 (sábado)

Horário: 8 às 11h30

Local: Auditório do Espaço Cultural da Livraria Valer – Av. Ramos Ferreira, 1195 – Centro

Contatos: 3635-1324 (Editora Valer); 8124-6478 (Tenório Telles); 9160-4541 (Thiago de Mello); (61) 2024-2628/ 2024-2630 (Ticiane Nascimento – Minc)

Ecologistas, vão pra casa! A casa de vocês é o Amazonas!


Meu primo Carlos Alberto Batista, o Cazuza, eu, Sergio Bastos, Simas e Ms. Paulistinha, ex-laranja da terra do empresário Ronaldo Tiradentes, durante os 80 anos do velho no Dulcila's, da Ponta Negra

Novembro de 1991. Em uma manhã de sexta-feira, fui chamado ao setor de Pessoal e demitido da Philco da Amazônia sem qualquer explicação. Eu tinha onze anos de empresa.

Não reclamei, não discuti, não chorei, não me desesperei, não arranquei os cabelos.

Simplesmente assinei a documentação, esvaziei minhas gavetas e fui pra casa lamber as feridas.

Eu sabia que alguma coisa estava acontecendo na empresa, mas não sabia bem o quê.

Só fiquei sabendo da verdadeira história uma semana depois, quando telefonei para o meu ex-chefe em São Paulo, o inesquecível engenheiro Roque Petroni, para agradecer pelo período em que havíamos trabalhado juntos.

O engenheiro Roque Petroni, diretor de Engenharia de Qualidade da Philco do Brasil, não era um cara comum.

Neto de italianos, ele tinha sido o melhor estudante de engenharia eletrônica do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA) em todos os tempos. Seu avô, Roque Petroni Jr., é nome de uma grande avenida em São Paulo.

Falava fluentemente inglês, francês, espanhol e italiano. Se defendia razoavelmente bem em alemão, japonês e mandarim. Além disso, era culto, versátil, inteligente, bem humorado e um leitor compulsivo de literatura de alto nível. Muitos dos bons livros que li foram indicados por ele.

Não era só isso. O cara era extremamente espiritualizado. Fazia parte da maçonaria, da ordem rosa-cruz, da eubiose e do círculo esotérico de comunhão do pensamento. Já havia freqüentado ashram na Índia e mosteiros budistas no Nepal.


Derviches turcos se apresentando para turistas em Ankara

No dia em que falei pra ele que estava me iniciando na tradição sufi, durante uma viagem que fizemos juntos de São Paulo pra Manaus, ele tomou um susto:

– Já li muito a respeito, mas ainda não tive coragem de entrar. Isso aí equivale a fazer pós-doutorado em espiritualismo. Eu ainda estou na graduação. Não tenho estrutura emocional, mental ou espiritual para agüentar a experiência. Me disseram que os exercícios dos derviches são uma verdadeira pedreira! Tome cuidado...

Quando relatei essa história pra Jane Jatobá, ela quase se acabou de rir. Mas trilhar o quarto caminho, estando no mundo, mas não sendo do mundo, não é tarefa pra qualquer um. Sei disso porque abandonei a Tradição (apesar de ela jamais ter me abandonado).

De qualquer forma, desconfio que o Roque Petroni e o José Renato Santiago, na época diretor residente da Philco da Amazônia, foram os chefes mais legais que já tive em toda a minha vida. Mas voltando à vaca fria.


O engenheiro eletrônico José Renato Santiago, autor do livro Capital Intelectual, escrito em parceria com seu filho, o tambem engenheiro Zé Renato Junior, lançado pela editora Novatec, em 2007

O fato é que alguns especialistas da Fundação Getulio Vargas foram contratados a peso de ouro para fazer uma reengenharia na empresa.

De cara, eles acabaram logo com a Diretoria de Engenharia de Qualidade, responsável até então por nos manter entre as três empresas mais competitivas do mercado eletroeletrônico. Acharam aquilo desnecessário.

A qualidade tinha que ser feita e controlada pelos próprios operários, não por um agente externo, ainda mais sendo uma dispendiosa diretoria.

O competente Roque Petroni, com mais de 25 anos de empresa, foi mandado embora. Como eu era gerente da Engenharia de Qualidade de Manaus, subordinado a tal diretoria, também dancei.

Eu conhecia aquela história de outros carnavais. Para ser mais preciso, desde a época da Sharp do Brasil.

Toda vez que especialistas egressos das academias se metiam a introduzir conceitos teóricos no mundo real, as coisas desandavam.

Já havia acontecido com a Sharp, mais cedo ou mais tarde iria acontecer com a Philco. Não deu outra. Menos de 20 anos depois, as duas empresas haviam sido rifadas do mercado.

Parece ironia. As duas únicas fábricas que me demitiram, abriram falência. A única em que pedi pra sair (Electra Industrial) continua firme e forte no mercado. Não sei se meu pai Ogum tem alguma coisa a ver com isso. Tomara que não.


O guerreiro Ogum, senhor das demandas, que me protege 24 horas por dia. Mexer comigo é sinônimo de encrencas, papo sério

Desempregado, eu tomei uma decisão radical: nunca mais voltaria a trabalhar em uma fábrica. Poderia até mendigar, passar fome ou vender algum órgão físico para sobreviver, mas voltar para o Distrito Industrial era coisa que eu nunca mais faria de novo.

Consultei minha lista de poucos amigos que não trabalhavam em indústrias. O primeiro nome que encontrei foi do ex-deputado federal João Thomé. No ano anterior, seu pai, Gilberto Mestrinho, tinha sido eleito governador e tomado posse naquele ano.

Eu era militante do MDB desde os anos de chumbo, havia saído para fundar o PDT, em 1983, mas retornara para a legenda depois de cinco anos, para trabalhar como tarefeiro na campanha do boto navegador pra prefeito.

O Artur Neto foi eleito, mas havia ficado muito puto com a minha defecção das hostes oposicionistas.

No primeiro dia de governo, ele demitiu da prefeitura as minhas duas irmãs, Simone e Silene, que haviam feito campanha pra ele. As meninas queriam comer o meu fígado.


Eu, João Thomé e Gilberto Mestrinho se preparando para a eleição de 1990

Em 1990, por causa de uma lambança do Mário Adolfo durante uma entrevista que fizemos com Gilberto Mestrinho, eu tinha sido candidato a deputado estadual pelo PMDB.

Sem poder me desligar da Philco, onde exercia um cargo de confiança, fiz campanha só na própria fábrica e obtive pouco mais de 900 votos. Uma vergonha!

Pelo meu nível de conhecimento e pela minha dedicação partidária, eu acreditava que poderia ser aproveitado em um dos cerca de 35 mil cargos de aspones que o boto navegador teria que, forçosamente, preencher.

Meu amigo Bosco Saraiva, também ex-candidato como eu, também derrotado como eu (se bem que ele obteve quase 3 mil votos), não já havia sido nomeado diretor-presidente do Ipasea? Então...

Não era possível que um sujeito boa praça como eu, formado há 14 anos, pós-graduado em Administração pela FGV, de São Paulo, com quase 20 anos de experiência em chefia e liderança, não arrumasse um cargo qualquer na inchadíssima máquina governamental.

Se o Bosco Saraiva, sem ter curso superior, tinha sido nomeado diretor-presidente do Ipasea porque eu não poderia ser nomeado assessor de qualquer coisa da Prodam, já que era um engenheiro eletrônico com razoável experiência em computação?


O médico Francisco Deodato, atual titular da Semsa, e o deputado estadual Bosco Saraiva, ex-diretor do IMTU

Aliás, quando o engenheiro eletricista Eduardo Braga se elegeu governador pela primeira vez, ele nomeou o seu motorista particular, o amável Bira, para conselheiro da Prodam, com salário de R$ 17 mil...

A conversa que tive com o João Thomé, na época Secretário Estadual de Produção Rural, foi uma das mais sem-graça que já tive na vida.

Ele examinou o meu currículo, elogiou meu desempenho nas urnas (eu havia feito dobradinha com ele, que era candidato a deputado federal) e falou dos desafios que estava tendo para tocar uma secretaria daquele porte com um orçamento apertadoo.

Meio constrangido, explicou que sua secretaria já estava com todos os cargos de confiança preenchidos e que o governador, seu pai, havia proibido novas contratações.

Caraco! Em menos de um ano de governo, o boto já havia preenchido 35 mil cargos de confiança? Aquilo, pra mim, era simplesmente inimaginável.

Mas não reclamei, não discuti, não chorei, não me desesperei, não arranquei os cabelos. Simplesmente peguei meu currículo de volta e fui pra casa lamber as feridas. A vida é assim, fazer o que?

Resolvi não procurar nenhum amigo meu que estivesse exercendo cargo político.


Meu brother Carlos Lacerda durante um agito da Força Sindical, em Brasília

Nesse meio tempo, o sindicalista Carlos Lacerda falou com o Marcílio Junqueira, diretor residente da CCE da Amazônia e meu amigo particular.

O grande Marcílio Junqueira, também um gentleman na plena acepção da palavra, concordou em me contratar para dar uma turbinada no controle de qualidade da empresa.

Recusei a oferta polidamente, me sentindo um mal agradecido de marca maior. Mesmo porque o Marcílio tinha sido o único empresário a colocar dinheiro na minha campanha (ele bancou a impressão do meu material impresso e ainda me deu, em valores de hoje, uns R$ 10 mil, para que eu pagasse meus cabos eleitorais).

Uma dívida simplesmente impagável, nos dois sentidos.

Em março de 1992, cansado de passar o dia em casa sem fazer nada e sobrevivendo às custas da querida Jane Jatobá, na época uma humilde professora primária da Prefeitura, telefonei para o empresário Valdo Garcia, dono da agência G&F Comunicações, oferecendo meus serviços.

Eu fazia “frilas” pra ele desde o final dos anos 80, quando trabalhava na Philco, não custava nada tentar alguma coisa fixa.

Dei sorte. O Valdo estava mesmo precisando de um redator para concluir um documentário que o ex-redator da agência, Aldisio Filgueiras, havia deixado pela metade para assumir a subsecretaria de Cultura do município.

Fui contratado no mesmo dia, ganhando um terço do que ganhava na Philco. Mas era melhor do que nada.

Funcionário do Valdo Garcia, o atual empresário Warly Jr., dono da VT-4 Comunicações, era o cinegrafista responsável pelas imagens.

Sempre polido e educado, ele me explicou a sua idéia para o trabalho. Nós passamos umas quatro horas vendo o que ele já havia produzido.

Eu li o pequeno esboço do documentário que o Aldisio havia deixado e completei o resto do texto, acrescentando umas quinze laudas. Aí, passei para o Warly uma relação de outras imagens que a gente ia precisar e ele foi à luta.

O documentário era um produto para ser vendido na 1ª Conferência Mundial do Meio Ambiente, a famosa Eco-92, que seria realizada no Rio de Janeiro, em junho daquele ano.

Graças à competência do Warli Jr. e do Paulinho Teixeira durante a edição, ficou um trabalho primoroso. Desconfio, inclusive, que foi o melhor documentário sobre o Amazonas já produzido até hoje.

Nos créditos finais, aparecia o meu nome e o do Aldisio Filgueiras como responsáveis pelo texto, que era recitado em off, na bonita voz do locutor global Marcos Hummel.


Eu e o atual senador Artur Neto, em mais um desses encontros inesperados, dessa vez no saguão do aeroporto Eduardo Gomes

Valdo ficou tão empolgado que me solicitou a criação de um outdoor para ser bancado pela Prefeitura de Manaus e exibido nos principais pontos de afluxo de pessoas do Rio de Janeiro.

A idéia seria aproveitar a presença de milhares de turistas estrangeiros no evento e convidá-los para visitar o Amazonas.

Dessa vez, meu parceiro de criação seria um diretor de arte carioca chamado Sergio Bastos. Valdo Garcia deu logo o toque:

– O Serjão é um cara temperamental, de pavio curto, que se emburra com tudo e fica puto sem qualquer motivo. Se ele não gostar de alguma coisa, fodeu geral, porque ele não vai fazer a menor questão de desenvolver a peça. Só que ele é muito talentoso e tem idéias fantásticas. Nenhum redator, até hoje, conseguiu suportar ele mais de três semanas. Mas se souber levar, você vai descobrir que ele é um cara do caralho.

Valdo me levou a uma sala, onde Serjão e um jovem designer paulista chamado Marcelo Passotti (atualmente trabalhando na DPZ, em São Paulo) estavam desenvolvendo algumas peças em moderníssimos computadores Macintosh.

Fomos apresentados, conversamos um pouco, e depois voltei para a minha sala. Escrevi meia dúzia de frases de impacto, com sugestões de desenvolvimento da arte final, e entreguei pro Serjão.

Uma delas, em inglês, era um sarro bem tirado sobre a frase “Yankees, go home!”, que os militantes de esquerda gostavam de pichar nos muros da cidade para protestar contra a visita frequente e indesejável dos economistas do FMI.

Ele bateu o olho no texto rapidamente e foi peremptório:

– A melhor é essa aqui. Deixa o resto comigo!

Por volta das 18h, quando eu já me preparava para ir embora, ele foi me mostrar o resultado. Achei genial.

Em um fundo verde, com letras brancas, vinha a primeira fase, em tipos garrafais:

“Ecologists, go home!”.

Sustentando a afirmação, em letras pequenas, o complemento:

“Amazonia, home of ecologists.”

A peça era assinada pela Prefeitura de Manaus.

Quando Valdo Garcia viu aquilo, não me deixou ir embora. Ele ligou pro prefeito Artur Neto, que chegou à agência em quinze minutos. Artur aprovou a peça, mas se encrespou com o nome “Amazônia”.

– Porra, poeta, desse jeito os paraenses vão pegar carona da gente. Falando Amazônia, a gente vai colocar no mesmo saco de gato os nossos vizinhos. Tem que ser uma peça só nossa, do Amazonas. No lugar de Amazônia, coloca aí “State of Amazon”.

Argumentei que, para não poluir a peça, Amazônia era um nome melhor. E que, como a peça era da prefeitura, seria uma temeridade colocar o nome “Estado do Amazonas” sem consultar o governador do estado. Fui voto vencido.

– Eu falo com o Mestrinho! – avisou Artur Neto. “E já que é a Prefeitura que vai bancar, podem colocar o nome do governo do estado assinando a peça junto com a gente.”

O próprio Artur Neto reescreveu a frase de sustentação e entregou para o Sergio Bastos.

Ele fez a modificação, tirou uma cópia colorida, colocou na mesa, todo mundo viu e achou genial. O Artur Neto aprovou e foi embora.

Saí de lá por volta das 10h da noite. A Jane ficou cabreira com a história, achou que eu estava num motel com alguma mulher. Mas ainda assim esquentou o meu jantar.

Quando os outdoors foram veiculados no Rio de Janeiro, a ema gemeu no tronco de jurema.

Artur Neto não havia avisado o governador. Ele achou que era provocação de seus inimigos políticos e mandou o chefe da Casa Militar, Orleilson Guimarães, embarcar imediatamente para o Rio e investigar o assunto.

Os dois principais jornais cariocas (O Globo e Jornal do Brasil) deitaram e rolaram sobre a presepada.


O jornalista Marcos Santos, na época secretário de Comunicação da Prefeitura, teve que suar sangue para desfazer o mal entendido.

Como era de se esperar, a polêmica veio bater na província.


Deputados indignados assumiam a tribuna da ALE para nos anarquizar, colunistas emburrados (editor da coluna “Açular”, do jornal A Crítica, o hoje professor universitário Gilson Monteiro passou uma semana nos sacaneando) achavam que aquilo era o início do fim do mundo, vereadores alfabetizados pelo Projeto Minerva queriam instalar uma CPI para “impichar” o prefeito, essas coisas.

Ninguém entendeu o enredo do nosso samba.

Ninguém, vírgula. O consagrado publicitário Lula Vieira, da agência VS Escala, não deixou por menos: “A peça chama tanta atenção que é difícil não sorrir diante do texto inteligente e bem humorado. Com um mínimo de verba, o Amazonas vai aparecer muito mais do que muita gente sem imaginação.”.

A peça também foi considerada brilhante pelo jornalista e publicitário Ricardo Noblat, da agência Propeg, que a considerou ousada, inteligente e muito criativa.

O cartunista Ziraldo abordou o outdoor numa historinha do personagem “O bicho-da-maçã”, publicada no jornal Folha de São Paulo.


Em sua coluna no jornal o Globo, em um texto intitulado “O grito dos povos do asfalto”, a sempre irônica jornalista Cora Rónai meteu o dedo na ferida: “O outdoor da Prefeitura de Manaus (Ecologists, go home!) só fez o sucesso que fez porque, na verdade, isso é o que todos desejamos, do fundo do coração: vão embora, chatos. Não só do Rio, e agora, mas das nossas vidas, e para sempre. Sumam! Não é com bobagens feito a pajelança farofeira de um Planeta Fêmea (!) que se vai criar, de uma hora para outra, uma consciência conservacionista.”

Em Manaus, o publicitário Reginaldo Lima, da WR Setores, com diversos trabalhos premiados no Norte-Nordeste, confirmou a opinião anterior: “O trabalho foi ousado e de alto nível profissional, funcionando como suporte de marketing agressivo. A dupla de criação está de parabéns!”.

Um dos publicitários mais respeitados do Amazonas, com vários trabalhos publicitários premiados no Sudeste brasileiro, Abrahim Aleme garantiu que a peça era candidata a prêmio nacional.

“Ela é espetacular porque consegue criar um paradoxo, captando o clima da Conferência Mundial do Meio Ambiente e se colocando como alvo certo dos olhares mundiais dos turistas, que certamente vão desembarcar também no berço natural deles que é o estado do Amazonas”, exagerou Aleme.


O jornalista Joaquim Marinho, que na época assinava a coluna “Zona Franca”, no jornal A Crítica, também foi um dos poucos que saiu em nosso favor: “Toda peça publicitária ou é feita pra vender um produto ou para expor uma idéia, e se gerar discussões e polêmicas a respeito então, minha gente, é sopa no mel. E bota polêmica nisso. Os outdoors mandados fazer pelo prefeito Artur Neto, aprovando uma bolação dos publicitários Sérgio Bastos e Simão Pessoa, deu uma boa dose de pontos de vista de jornais do Rio, São Paulo e até mesmo do exterior, uns achando que a Prefeitura e o Governo estavam expulsando os ditos cujos ecologistas, outros enaltecendo a bombástica frase, e até acirrados ânimos políticos vibraram na pacata Assembléia Legislativa. Valeu a idéia, mesmo com um erro simplório de concordância da língua shakesperiana, e muito mais valeu o resultado que se pretendia, fazendo alarde do que Prefeito e Governador estão brigando a favor: badalar o Amazonas. E que venham ecologistas, enologistas, etnólogos, ou seja lá que diabo for, mas que venham.”

O certo é que desde aquele remoto dia de março de 1992, o Serjão tem sido meu parceiro preferencial em termos de criação publicitária e um de meus amigos mais queridos.

O fato de que, ao longo desses 18 anos de permanente parceria profissional, jamais tenhamos sequer discutido diz muito do caráter dele e do meu.

Meus próximos três livros a serem lançados esse ano (“Barbárie na Selva - O Caso Delmo”, “Sanatório Geral” e “Batelão dos Presepeiros”) já estão sendo diagramados por ele. Aguardem.

A estatística não mente!


O deputado federal Francisco Praciano (PT), ex-executivo da Philips da Amazônia nos anos 80

Março de 1984. O engenheiro Engels Medeiros estava em Manaus para auditar uma nova linha de áudio da Philips da Amazônia, quando foi convidado por uns colegas de fábrica para uma sessão de birita na Praça do Caranguejo, no Conjunto Eldorado, após o expediente.

Era uma sexta-feira. Nas duas mesas, uma 15 pessoas, incluindo Sebastião Peixoto, Geraldo Nogueira, Francisco Praciano, Stones Machado, Paulo Garrafa, Eduardo Pimentel e Paulo Medeiros.

Como Engels estava morando em São Paulo há dois anos, trabalhando na Philips de Piracicaba, ele era o alvo das atenções. Todo mundo queria saber como ele estava se adaptando junto aos bugres paulistanos.

Lá pelas tantas, a conversa da mesa mudou para o assunto favorito de uma turma de machos reunidos em um botequim: conquistas sexuais. A rodada foi aberta pelo Paulo Medeiros.

– Vocês conhecem aquela montadora do primeiro posto de qualidade da linha de três em um, chamada Aparecida? – questionou.

E ante a confirmação de todos, arrematou:

– Estou comendo ela há três semanas. E a sacana é casada.

Aí, um por um, foram revelando o nome de suas novas cabritinhas. O curioso era que todas as meninas que estavam sendo comidas pelos garanhões da Philips eram casadas.

Engels, que não estava comendo nenhuma mulher casada em São Paulo, começou a pensar em uma história qualquer para não fazer feio diante da turma.

Enquanto isso, a conversa seguia na mesma nota de um acorde só:

– Vocês conhecem aquela nova estagiária do setor de Pessoal chamada Elisângela? Estou comendo. Também é casada!– afirmou Paulo Garrafa.

Quando chegou a vez de o Engels contar a sua bacaba, ele sequer teve tempo de abrir a boca. Ao seu lado, Paulo Medeiros, que havia iniciado a presepada, fez uma nova revelação:

– Vocês conhecem aquela calibradora do último posto da linha de rádiogravadores chamada Dorinha? Também estou comendo. E é casada...

Depois de mais algumas lambanças do pessoal da mesa, a palavra, finalmente, foi assegurda ao Engels para que ele pudesse se manifestar.

Ele resolveu fugir um pouco do script original.

– Olha, pessoal, por força do meu próprio trabalho de auditor técnico eu tenho me especializado, nos últimos dois anos, em técnicas estatísticas. Isso quer dizer que analisando uma pequena amostragem eu posso chegar ao universo que contém aquela amostragem.

As conversas paralelas cessaram. Todo mundo estava prestando atenção no papo do Engels querendo saber aonde ele queria chegar.

Engels retomou a palavra:

– Pelo que pude observar a partir dos relatos de vocês, todo mundo está comendo uma ou duas mulheres casadas. Como vocês todos são casados, eu posso afirmar com certeza absoluta de que aqui, nessa mesa, existem pelo menos 8 cornos, com uma margem de tolerância de mais ou menos dois. Isso não é invenção minha, gente, isso é técnica estatística...

Eduardo Pimentel fez um aparte:

– Eu não entendi direito, Engels. Cumequié esse negócio de corno?

Engels, com a maior paciência do mundo, explicou de novo.

– Nós, essas quinze pessoas aqui reunidas, somos uma amostra do universo de homens casados de Manaus. Como todo mundo aqui, com a minha honrosa exceção, está comendo pelo menos uma mulher casada, eu posso garantir que nessa mesa tem no mínimo seis cornos e no máximo dez cornos. Mas quem diz isso não sou eu, quem diz isso é uma fórmula estatística que eu não vou perder tempo explicando, entendeu?...

O ambiente na mesa ficou igual ao de um velório.

Um a um, com desculpas esfarrapadas de que precisavam chegar cedo em casa, os garanhões da Philips foram deixando as mesas. Sobraram apenas Engels e Sebastião Peixoto.

Engels insistiu:

– Provavelmente nós pertencemos à tolerância de mais ou menos dois, Peixoto. A minha mulher está sozinha em São Paulo e pode ou não estar me corneando. A tua, eu não sei...

Peixoto bebeu apressadamente uma tulipa de cerveja e se despediu do amigo.

Engels ficou bebendo sozinho no bar.

Os anos seguintes mostrariam que seus cálculos estatísticos estavam inapelavelmente corretos.

Meu ovo esquerdo!


A professora universitária Jane Jatobá, durante o lançamento de seu Jornalivro, no ano passado

Abril de 1991. Eu estava casado com a Jane Jatobá há dois anos. Pra evitar engravidar, ela tomava pílulas anticoncepcionais, mas aquilo estava lhe trazendo uma série de problemas, incluindo uma tendência para engordar além da conta.

Como a gente não queria ter novos filhos, me escalei para fazer vasectomia. Era uma cirurgia extremamente simples, com anestesia local.

Conversei com a enfermeira Josenira Almeida, esposa do compositor Davi Almeida, que trabalhava no Hospital Adriano Jorge.

A Jô conversou com o médico e deputado estadual Risonildo Almeida, casado com a Nádia, sobrinha do Thiago de Mello e minha ex-contemporânea do colégio Ida Nelson, e ele resolveu me operar. Marcou a cirurgia para um sábado de manhã.

No dia combinado, me apresentei pro sacrifício. Depois de uma meia-hora de espera, a Jô veio me avisar que o Risonildo havia adoecido e que não poderia vir me operar.

Mas que eu ficasse tranqüilo, porque ela já havia explicado a situação para o cirurgião Celso Aguiar e ele, que já estava de saída, concordara em me operar.

O Dr. Aguiar tinha um currículo de 10 mil cirurgias de vasectomias já realizadas, o que significava que eu estava em boas mãos.

Fui me preparar no vestiário do hospital e saí de lá de touca e com aquela ridícula bata que só cobre a frente do corpo, deixando a bunda do lado de fora.

A Jane me desejou boa sorte e foi esperar na sala da Jô Almeida.

As enfermeiras me deitaram em uma cama, colocaram um anteparo de metal a uns cinco centímetros de altura do meu peito, de forma que eu não pudesse ver o procedimento, e começaram a me barbear os pentelhos.

Dali a cinco minutos, chegou o cirurgião. Conversou comigo, explicou que a intervenção cirúrgica não ia demorar dez minutos e me pediu pra ficar tranqüilo. O anestesista aplicou a injeção em um dos ovos. Só senti a picada.

O médico iniciou a cirurgia. Com cinco minutos, ele anunciou:

– Já cortei o canal deferente do lado direito. Vamos agora fazer o procedimento do lado esquerdo...

Deu dez minutos, nada. Deu quinze minutos, nada. Deu vinte minutos, nada. Percebi que o médico havia ficado nervoso.

– Puta que pariu, já era pra eu estar participando de um almoço na casa do meu compadre e eu ainda estou aqui nessa merda de hospital. Caralho! Em vez de estar enchendo a cara de cerveja, fui arranjar essa sarna pra me coçar. Puta que pariu, mas eu sou mesmo um babaca! E onde é que o caralho desse canal esquerdo se escondeu?... - ele questionava, exasperado.

As enfermeiras não diziam nada.

Ocorre que a anestesia local só funciona 20 minutos. O efeito havia passado e a dor que eu estava sentindo era de quem leva dez boladas de futebol de salão no meio do saco. Uma atrás da outra.

O médico percebeu o que estava acontecendo e pediu para as enfermeiras segurarem meus pulsos. Como já haviam feito uma incisão no meu saco, não havia qualquer hipótese de aplicarem uma nova anestesia.

O Dr. Aguiar saiu do centro cirúrgico e, depois de alguns minutos, retornou para a cirurgia com mais três médicos cirurgiões. Comecei a achar que o problema era maior do que eu imaginava.

Eles discutiram um pouco, aí resolveram aumentar o tamanho da incisão no saco. Cutucaram daqui, cutucaram dali, e nada. A dor estava quase insuportável.

Comecei a reclamar:

– Doutor Aguiar, meu querido, vamos parar por aí! Eu só vou ficar com 50% de chance de engravidar alguém, já está de bom tamanho. Costure o meu saco e me libere, pelo amor de Deus!

Ele não deu nem confiança.

Um dos médicos recém-chegados saiu da sala e retornou alguns minutos depois em companhia de uma médica-cirurgiã, que trazia nas mãos um imenso livro de capa dura. Não lembro direito, mas quero crer que o livro era escrito em inglês.

Puta que pariu, eu havia virado estudo de caso.

Suado, nervoso, com a bata branca empapada de sangue (meu, evidentemente), o Dr. Aguiar estava cada vez mais puto:

– Consulta aí nesse vade mécum de merda se existe algum caso de sujeito que nasceu tendo apenas um canal deferente, em vez de dois!

Os dois médicos ficaram consultando o livro, que devia ter umas 3 mil páginas, e depois de alguns minutos anunciaram a descoberta. Não, não havia, pelo menos até aquela data.

Preocupada com a demora, a Jô Almeida entrou no centro cirúrgico para saber o que estava acontecendo. O Dr. Aguiar já estava à beira de surtar.

– Jô, minha filha, eu não consigo encontrar o canal deferente do lado esquerdo desse filho da puta. Eu já fiz mais de 10 mil cirurgias iguais a essa e é a primeira vez que vejo uma porra dessas. Eu praticamente já virei o saco dele pelo avesso, mas não encontro o filho da puta do canal esquerdo. Não quero aumentar o tamanho da incisão porque há muitos nervos no local. Se ocorrer qualquer vacilo e eu seccionar um nervo errado, ele vai ficar com problemas de ereção....

Puta que pariu, era só o que me faltava: ficar impotente aos 35 anos de idade.

E aquela dor no baixo ventre se irradiando para o resto do corpo e ficando verdadeiramente insuportável.

A dor era tanta que as minhas duas pernas ficavam paralisadas.

De vez em quando, minha vista escurecia.

Caceta, mas eu não ia desmaiar e deixar meus colhões ao sabor dos humores daquele médico maluco nem fodendo.

Reuni minhas últimas forças e implorei:

– Jô, agradece ao doutor Aguiar pelo seu trabalho, mas pede para ele encerrar essa cirurgia, senão eu vou me levantar desse jeito e ir embora...

Duas novas enfermeiras voaram sobre meus pulsos. Agora, havia duas de cada lado, tentando me imobilizar. A Jô deixou o centro cirúrgico com uma cara tão assustada, que nunca mais vou esquecer. Eu estava mesmo fodido e mal pago.

Já haviam transcorrido 50 minutos desde aquela picada de agulha inicial, quando o Dr. Aguiar deu um berro:

– Achei o filho da puta!

Dali a um minuto, ele bateu no meu peito com uma tesoura e falou:

– Taqui esse leproso desgraçado!

Na ponta da tesoura, um minúsculo pedaço de carne.

Sem esconder que continuava puto, ele gritou para uma das enfermeiras:

– Façam a assepsia do local, costurem essa porra direito e liberem o paciente. Eu estou indo pra casa do meu compadre e só volto pra esse centro cirúrgico de bosta no meio da próxima semana.

Aí já foi tirando as luvas, a bata ensopada de sangue, a touca, jogou tudo numa mesa e deixou o centro cirúrgico apressadamente.

Saí do centro cirúrgico e fui me encontrar com a Jane, que também estava assustadíssima. Expliquei pra ela que contaria os detalhes daquela experiência radical quando a gente chegasse em casa.

Me despedi da Jô e do Davi Almeida, que também havia chegado ao local, e fui embora no carro da Jane. Estava tão traumatizado que não conseguia urinar.

No dia seguinte, viajei pra São Paulo, para participar das reuniões mensais de qualidade da empresa, tarefa que me prendia na cidade durante uma semana. Sozinho, no hotel, resolvi examinar o tamanho do estrago.

Meu pau parecia um picolé de assaí, de tão roxo. Resolvi urinar: a urina também estava negra como as asas da graúna. Será que meu bilau estava gangrenando?

Era só o que me faltava: eu usar prótese peniana aos 35 anos de idade. E todo esse sacrifício pra que? Pra não deixar uma mulher engordar por causa da ingestão de pílulas anticoncepcionais. Aquilo não era vida.

Felizmente, uma semana depois, meu bilau retornou à sua cor original de fábrica. Três dias depois, a Jô Almeida foi à nossa casa e retirou os pontos. Haviam cicatrizado que era uma maravilha.

De lá pra cá, nunca tive problema nenhum. É uma cirurgia que, apesar dos pesares, recomendo aos amigos. Sem ironia.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Uma história nada exemplar


A Zona Franca de Manaus (ZFM) foi idealizada como projeto geopolítico no começo da década de 50, depois que o deputado federal Francisco Pereira da Silva idealizou a criação do Porto Franco de Manaus e encaminhou à Câmara Federal o projeto nº. 1.310 que, após receber emendas, foi aprovado em 23 de outubro de 1951.

Como o Brasil até hoje funciona na base da punheta, somente em 6 de junho de 1957 (seis anos depois!) o presidente Juscelino Kubitschek sancionou a Lei nº. 3.173 que criava, em lugar do Porto Franco, a Zona Franca de Manaus, regulamentada posteriormente pelo Decreto nº. 47.757, de 2 de fevereiro de 1960.

Naquela época, as atividades econômicas da região amazônica se concentravam em Belém, capital do Pará, até então a mais importante cidade da Amazônia.


Abrigando mais gente e conseqüente maior mercado, melhor infra-estrutura econômica, com um porto praticamente no oceano Atlântico, e tendo ligação terrestre com o restante do País através da rodovia Belém-Brasília, a capital paraense constituía o principal centro de atração para os investimentos regionais.

A força centrípeta exercida pela capital do Pará esvaziava o lado ocidental da Amazônia, onde a cidade de Manaus ocupa o centro geográfico.

Com uma população inferior a 150 mil pessoas, a capital amazonense definhava em termos urbanos, econômicos e sociais.

Possuindo um ensino superior incipiente, sofrendo escassez de energia elétrica, com um mercado reduzido e de baixo poder aquisitivo, sistemas de transporte e comunicação precários, Manaus oferecia um cenário de fragilidade econômica e sem a menor perspectiva de mudanças.

Para mostrar o grau de hegemonia da economia do Pará, basta citar que em 1964, segundo dados da extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), 97,6% dos investimentos por meio de seus incentivos fiscais na região amazônica eram feitos no estado vizinho. O Amazonas ficou, naquele ano, com apenas 2,4% dos investimentos.

Enquanto os incentivos do governo federal permanecessem iguais para toda a Amazônia, a preferência pelo Pará seria, evidentemente, natural e racional.


Manaus era um mero entreposto comercial que ligava a economia extrativista praticada no interior do estado com o resto do mundo, que consumia produtos exóticos coletados da floresta como madeira em tora, borracha, sorva, castanha, pau rosa, cumaru, breu, resinas, sementes oleaginosas, essências aromáticas, além de animais como quelônios, peixes e seus subprodutos (couros e peles silvestres, por exemplo).

Comerciantes e mascates de Manaus procuravam o interior do estado em embarcações, os chamados regatões, para suprir as necessidades das populações. Dispersas nas terras ao longo dos rios, essas pessoas se dedicavam a atividades extrativistas.

Os comerciantes itinerantes forneciam alimentos, tecidos, roupas, remédios e ferramentas, e, em troca, adquiriam os produtos coletados da floresta, em uma típica operação de escambo, sem a presença de moeda - uma relação econômica de característica feudal que mantinha o produtor no nível de subsistência, escravizado aos interesses de intermediários e donos de seringais.

Por conta disso, a Amazônia Ocidental constituía uma imensa área de baixíssima densidade demográfica e econômica, muitas vezes, sem ter a presença física de brasileiros, abrigando enormes e pouco explorados recursos naturais.


Com tais características, a região estaria, segundo a versão dos militares pós-golpe de 64, despertando a cobiça internacional.

Esse era o discurso, por exemplo, do historiador Arthur César Ferreira Reis, o primeiro governador amazonense do período militar.

Esta hipótese era reforçada com a chegada dos movimentos ambientalistas, que se desenvolveriam no mundo de forma generalizada - principalmente nos países mais ricos.

O Exército tinha vários estudos e ensaios estratégicos citando a problemática amazônica, enfatizando principalmente a parte ocidental da região até as linhas de fronteira internacional. Estes fatos levaram o governo federal a iniciar a elaboração de um projeto de inspiração geopolítica para mudar o quadro existente.

No início do ciclo militar de 64, o projeto atinge maturação e a Zona Franca de Manaus é criada pelo decreto-lei 288/67, em 28 de fevereiro de 1967. Este foi um dos últimos importantes atos da administração Castello Branco - inspirador e defensor da idéia.

Para colocar o projeto em prática, houve um pacto tripartite celebrado entre o governo federal, o governo do Amazonas e a Prefeitura de Manaus, em que cada participante ofereceu uma parcela de contribuição ao conjunto dos incentivos aos projetos que se instalassem na ZFM.

Para atrair investimentos, foram criados incentivos no âmbito dos impostos indiretos que impactavam os custos das empresas como redução de Imposto de Importação (II), isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), restituição de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e isenção de Imposto sobre Serviço (ISS).

A novidade em relação aos incentivos feitos anteriormente na região é que não havia nenhum subsídio ou empréstimo de capital pelos bancos oficiais, como ocorria na Sudam e na Sudene. Mesmo assim, os novos incentivos compensavam as desvantagens de localização da ZFM e a ausência de mercado local.


Visando implementar o Distrito Industrial, a Lei-Estadual n° 63.105, de 15.08.1968, declarou de utilidade pública, para fins de desapropriação, uma extensão de terras que seriam destinadas à implantação do Distrito Industrial, abrangendo uma área de 16 km² destinada à construção de indústrias que se encaminhavam para Manaus.

A escolha da área ao leste da cidade obedeceu às circunstâncias da chamada “ocupação consciente do sítio urbano de Manaus”, combinando-se, entre outros fatores, ampla área contínua desabitada, contigüidade com a periferia urbana, indústrias sem chaminé – pois os ventos sopram no sentido leste-oeste, do Distrito Industrial para a área urbana –, possibilidade futura de um porto na Ceasa e proximidade do aeroporto de Ponta Pelada (atual Base Aérea de Manaus).

A primeira indústria eletroeletrônica a se instalar no Distrito Industrial foi a Electra Industrial, do empresário carioca Antonio Velásquez, fato ocorrido em 1972.

Na época, a Sharp do Brasil (do paulista Mathias Machline) tinha uma pequena fábrica de calculadoras, que funcionava na Constantino Nery, próxima do conjunto Beverly Hills, a léguas de distância do novo distrito industrial.

Na seqüência, foram implantadas no Distrito Industrial as fábricas da Sharp do Brasil, Pliacel-Sanyo (do paulista Ernesto Pereira Lopes), CCE da Amazônia (do paulista Isaac Sverner), Evadin (do paulista Leo Kryss), Gradiente (do paulista Eugênio Staub) e Semp (do paulista Afonso Hennel). Como se vê, o carioca Antonio Velásquez era um estranho no ninho.


Diferente das outras empresas mais voltadas para o perfil de consumo da classe média (televisores, aparelhos de som e calculadoras), a Electra Industrial fabricava produtos eletrônicos voltados exclusivamente para as classes C e D: pequenos rádios portáteis AM/FM, buzinas eletrônicas para bicicletas, rádios relógios digitais, abridores elétricos de lata, vitrolas a pilha e outros produtos importados no regime SKD (conjuntos semi-desmontados) de obscuros fabricantes asiáticos.

Em 1974, a Electra Industrial tinha pouco mais de 300 empregados – na mesma época, a Sharp tinha 5 mil, a CCE, 3 mil, a Pliacel-Sanyo, 2 mil, a Evadin, 2 mil, a Gradiente, 1.500, e a Semp, 1.500. Quer dizer, a empresa não representava ameaça pra ninguém – ainda mais que todas as indústrias da ZFM praticavam a importação em regime SKD.

Ocorre que, a partir de 1973, a “crise do petróleo” trouxe um grande desequilíbrio à balança comercial brasileira, registrando-se em 1974 um déficit de 4,69 bilhões de dólares, apesar de a ZFM ser responsável, naquele ano, pela importação de apenas 120 milhões de dólares (ou cerca de 3% do déficit total).


O II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), ao prever a retomada do Processo de Substituição de Importações, principalmente nos setores de bens de capital, eletrônica e insumos básicos, alterou a condução da política governamental em relação à ZFM.

Em virtude de ser uma economia pequena e fortemente dependente de suas relações comerciais com o exterior e com o resto do país (modelo importador-exportador), a ZFM não pôde impedir seu envolvimento na onda de insegurança e dificuldades econômicas experimentadas pelo Brasil, após a crise do petróleo, naquela famosa “conversa pra boi dormir”.

Os responsáveis pelo déficit, todo mundo com mais de um neurônio na cachola sabia, eram as grandes montadoras de veículos baseadas no ABC paulista, que praticamente importavam de tudo de suas matrizes estrangeiras.

A liberdade de importações comerciais da ZFM passou a ser encarada como um privilégio indevido, quase imoral.

Paralelamente, as aquisições de partes e componentes industriais para as empresas situadas em Manaus começaram a experimentar uma série de controles antes inexistentes em decorrência do novo ciclo de substituição de importações iniciado a partir de 1974. Assim vieram as cotas de importação e os índices de nacionalização.

Nomeado pelo ministro do Interior Rangel Reis, o paulista Aloísio Campelo assumiu a superintendência da Suframa em janeiro de 1975.


Em março do ano seguinte, por meio da Resolução nº 24, do Conselho de Administração da Suframa, ele estabeleceu os índices mínimos de nacionalização a serem cumpridos, até 31 de dezembro de 1977, pelas indústrias do setor eletroeletrônico. Os rádios portáteis AM/FM, por exemplo, teriam que atingir nessa data o índice de 90% de nacionalização.

Aloísio Campelo também estabeleceu o regime de cotas de importação, privilegiando as empresas com o maior número de empregados, no caso das indústrias, e quem tivesse padrinho mais forte, no caso do comércio.

Da noite pro dia, a Suframa se transformou em um ruidoso balcão de negócios, já que quem tivesse direito à cota de importação podia livremente passar adiante pra quem se interessasse. Foi a oficialização do “laranjal”.

Inúmeros espertalhões ficaram ricos da noite para o dia vendendo suas cotas de importação (já que ainda saía mais barato usar as cotas de importação da Suframa do que importar produtos pagando os impostos devidos) para terceiros.

Foi nesse caldo de cultura que o empresário paulista Gilberto Miranda se criou.

Com a mudança nas regras do jogo, quem tinha padrinho forte se deu bem. Pequenas lojas comerciais importadoras de bugigangas eletroeletrônicas foram agraciadas com cotas de 20, 30 e 50 mil dólares.

Muitos comerciantes vendiam as cotas para as indústrias pelo melhor preço obtido no mercado negro e embolsavam a grana, sem o menor escrúpulo. Fortunas foram feitas assim, da noite pro dia.


Penalizado duplamente (seu principal produto, os rádios portáteis AM/FM, já em 1976 precisavam ter 50% de nacionalização e seu baixo número de empregados o colocaram no final da fila dos cotistas industriais, com direito a importar algo em torno de 100 mil dólares), o empresário Antonio Velásquez foi bater no STJ.

Ele queria saber se uma resolução da Suframa tinha mais valor do que o decreto presidencial que instituíra a ZFM e ditara as regras do jogo (como não havia nenhum subsídio ou empréstimo de capital dos bancos oficiais, a importação era totalmente liberada pra quem tivesse a grana, a cota correspondente e o fornecedor no exterior).

Até então, a Electra Industrial importava cerca de 800 mil dólares por ano (a Sharp, na mesma época, importava 20 milhões de dólares).

Antonio Velásquez também queria um prazo maior para se adaptar ao novo sistema CKD, em que as peças e partes são importadas totalmente separadas umas das outras, para que se processe o sistema de substituição e nacionalização dos componentes.

Argumentava que precisava desenvolver os novos produtos, encontrar fornecedores locais e nacionais, investir em mão de obra qualificada, implantar laboratórios de engenharia, adaptar as linhas de montagem etc.

Sua proposta era começar com um índice de nacionalização de 25% e, anualmente, ir dobrando esse índice até atingir a meta imposta pela Suframa.

Aloísio Campelo nem pensou duas vezes. Em retaliação à iniciativa do empresário de procurar seus direitos na justiça, simplesmente cancelou a mísera cota de importação a que a empresa tinha direito.

A Electra Industrial foi obrigada a demitir 270 funcionários. Os outros 30 ficaram na empresa apenas para a mesma não fechar as portas de vez, enquanto o processo se arrastava na justiça.

Dois anos depois, em julho de 1978, Antonio Velásquez obteve a primeira vitória na justiça: uma liminar concedida pelo STJ obrigava a Suframa a lhe restituir a cota de US$ 100 mil cancelada estupidamente.

De posse da cota, Velásquez viajou para os Estados Unidos e fechou um contrato de produção com a Coca Cola, para produzir 100 mil rádios AM/FM no formato das famosas latinhas de refrigerantes. Os radinhos seriam dados de brindes aos consumidores brasileiros durante a campanha natalina da empresa naquele ano.


Desempregado desde agosto por conta de uma greve mal conduzida na Sharp do Brasil, aceitei de bom grado o convite de Tomzé Areosa, diretor financeiro da Sharp e amigo pessoal do empresário Antonio Velásquez, para participar do projeto em uma espécie de contrato de risco. Se a empresa se desse bem, eu cresceria junto com ela. Se não, não. Simples assim.

Tecnicamente eu continuava desempregado, mas pelo menos já tinha um norte que só dependia do meu próprio esforço. Convidei o Engels Medeiros, também desempregado como eu, para me ajudar na tarefa e expliquei o acordo. Ele topou. O sacana sempre foi irresponsável.

No dia 1° de dezembro de 1978, entramos na Electra Industrial pela primeira vez. Eu conhecia a empresa porque ela ficava situada quase defronte da Sharp, na mesma Rua Acará, e havia estranhado quando ela começara a demitir funcionários em 1974 (a maioria deles eu contratei pra Sharp porque eram realmente competentes).

Nós dois (eu e Engels) fomos recebidos como “salvadores da pátria” pelo empresário Antonio Velásquez, pelo gerente financeiro Geilson Matos, pelo supervisor de produção Josino Silva e pelo diretor residente Waldir Brito, na época também presidente da Cosama.

Minha tarefa era fazer uma guia de importação no sistema CKD de um produto que eu só conhecia de ouvir falar (a Sharp nunca produziu rádio portátil). A do Engels, verificar se era possível implantar um sistema CKD em uma planta industrial concebida inicialmente para operar no sistema SKD.

Logo de cara, ele notou a ausência de uma máquina de solda. Era impossível montar uma placa de circuito impresso com mais de 20 componentes e soldar com ferro de solda manual. Velásquez o autorizou a solucionar o problema da melhor maneira possível.

Por meio de um amigo do Distrito Industrial (Mário Gerson? João Carlos D’Antona? Stones Machado?), Engels soube que a Justiça do Trabalho estava leiloando um tanque de solda da Dismac para pagar dívidas trabalhistas.

Era um tanque pequeno, de 1 m², que funcionava por imersão manual – ou seja, você colocava a placa montada sobre a superfície de solda derretida e retirava rapidamente, para evitar que o calor danificasse os semicondutores. Engels arrematou a engenhoca e levou pra Electra.

O próximo passo foi adaptar as esteiras para um processo de montagem manual das placas de circuito impresso e implantar os postos finais de linha (revisão, calibragem, controle de qualidade, acabamento, etc). Em uma semana, Engels havia dado cabo da tarefa. Agora era esperar pra iniciar a produção.

A guia de importação que fiz, na maior cara dura e praticamente relacionando os componentes de cabeça, foi liberada pela Suframa, sem nenhum questionamento.

Em dois dias, os primeiros 10 mil kits do rádio-latinha estavam sendo descarregados na Electra Industrial.


A primeira surpresa: o obscuro fornecedor coreano não enviou um mísero manual técnico dando as características do produto. As placas também não possuíam impressão em silk screen mostrando a posição dos componentes.

Para nossa sorte, eles enviaram um único produto acabado. Foi a partir dele que o Engels levantou o circuito elétrico, fez as medições necessárias para fazer o treinamento dos consertadores e desenvolveu as jigas de teste (tudo dinâmico, evidentemente).

Engels selecionou 30 novos funcionários – entre eles, Paulo Ricardo Furtado, filho do saudoso João de Mendonça Furtado, e uma exuberante garota de 16 anos e expressivos olhos verdes, chamada Marilene Marques, que me flechou o coração.

Em menos de uma semana, Engels fez o treinamento da turma e colocou o trem pra andar. Quando o primeiro produto acabado foi testado em condições reais de uso, na área externa da fábrica, e funcionou admiravelmente bem, sintonizando a Difusora (AM) e a Tropical (FM), houve muita emoção, parabenização e comemoração. A gente (leia-se Engels) tinha chegado lá.

Aí, ocorreu o primeiro problema. Para os produtos serem “internados”, isto é, vendidos pra fora da ZFM, eles precisavam ter um índice de nacionalização de 90% (calculado pelo valor das peças agregadas no produto).

Eu e Engels fomos conversar com o Jones Cunha, meu amigo de adolescência e supervisor de produção da Icel, uma fábrica de multitestes que possuía um setor de extrusão plástica.

Ele concordou em fabricar o gabinete plástico, desde que recebesse o molde. Depois de penosas negociações, os coreanos concordaram em enviar dois moldes. A Icel começou a produzir os gabinetes.

Por meio de seus contatos, Engels encontrou fornecedores para as embalagens de papelão e os adesivos simulando as latinhas, que seriam aplicados nos gabinetes. Resolvemos nacionalizar os capacitores, diodos e resistores, mas seu preço era ínfimo em termos de agregação de valor.

O nosso calcanhar-de-aquiles estava nos transistores. Eles, sozinhos, representavam cerca de 40% do valor agregado. Explicamos a situação pro Antonio Velásquez e falamos categoricamente que íamos blefar (informando para a Suframa que havíamos nacionalizado os transistores, mas usando os transistores importados). Ele concordou em correr o risco.

Preparei a documentação demonstrando os índices de nacionalização do produto e enviei para a Suframa, superfaturando, evidentemente, todos os componentes locais, a única maneira possível de atingirmos aquele absurdo índice de nacionalização. A contabilidade da Electra que se virasse depois pra consertar o estrago.

Foi quando o cu da cotia assobiou. O eterno gentleman Antonio Velásquez ficou tão empolgado em ver sua fábrica funcionando de verdade, que resolveu presentear o superintendente da Suframa, Aloísio Campelo, com um dos primeiros radinhos produzidos na fábrica.


Na mesma época, havia chegado a Manaus um paulista recém formado em Engenharia Eletrotécnica, chamado Manuel Rodrigues, que era o encarregado de conferir as guias de importação e os índices de nacionalização. Devia ser um engenheiro de quinta categoria pra deixar uma cidade cosmopolita como São Paulo e vir tentar a vida na província, em um cargo de nomeação política.

Querendo mostrar serviço pro chefe, o filho da puta pediu emprestado o rádio-latinha dado pelo Velásquez ao Aloísio Campelo e foi confrontar os componentes físicos do produto com os que eu havia descrito na guia de nacionalização.

Numa manhã de sexta-feira, Manuel Rodrigues me telefonou, se identificou e encostou a empresa na parede. O diálogo foi mais ou menos esse:

– Olha, eu estive dando uma olhada nesse radinho da Coca Cola que você estão fabricando e fiquei com algumas dúvidas... É que eu só encontrei transistores japoneses das famílias 2SA e 2SC, mas vocês informaram que eles haviam sido nacionalizados... – explicou ele.

Como eu ainda não sabia da lambança do Velásquez, devolvi a bola chutando na altura da cintura:

– Escuta aqui, ô bonitão, quem foi o baitola que te deu a porra desse radinho? Eles estão proibidos de sair da fábrica! Que merda é essa?...

– Quem me deu foi o Dr. Aloísio Campelo... Ele recebeu de presente do Dr. Antonio Velásquez... – devolveu Manuel Rodrigues.

Percebi de cara a encrenca, mas não passei recibo:

– Então o Velásquez trocou as bolas, porra!... Esse rádio aí é um modelo importado pra gente comparar com o produto final feito no Brasil... Ele deve ter pego essa merda na Engenharia de Produto, sem consultar ninguém... Mas qual é mesmo a tua dúvida? – questionei de novo, sem esconder a irritação.

– É sobre a nacionalização dos transistores... – insistiu Manuel Rodrigues.

– Bicho, eles foram nacionalizados sim! Não está escrito na guia que a gente enviou pra vocês? Pois então?... A gente está usando transistores da família PC e PA da Ibrape... Se você quiser, eu vou lá na linha, pego um rádio recém-produzido e levo aí pra você...

– Não, não... Vamos fazer o seguinte. Eu passo aí na terça-feira de manhã, confiro o uso dos transistores na linha de montagem e assino o laudo técnico liberando a internação, tudo bem? – devolveu Manuel Rodrigues, se preparando para dar o xeque-mate.

– Tudo bem, você é que sabe... – devolvi, com displicência, deixando o filho da puta desnorteado, sem saber que era um novo blefe.

– Outra coisa! – insisti, dessa vez simulando um gambito da dama para melar seu cheque-mate. “Por determinação do Dr. Antonio Velásquez, qualquer funcionário da Suframa pode vir aqui a qualquer hora do dia ou da noite, sem precisar marcar horário! Eu vou te esperar na terça de manhã, de tarde ou de noite, na hora em que você achar melhor, falou?”

Ele se despediu amavelmente e desligou o telefone.

Assim que encerrei aquela conversa de bêbado pra delegado, chamei o Engels e o Josino para contar a boa nova. Foi um autêntico barata voa. Em cinco anos de Sharp, a Suframa nunca tinha auditado um único produto da gente. Que porra era aquela?...

Procuramos pelo Waldir Brito. Ele havia tomado chá de sumiço. Tentamos falar com o Velásquez. Ele estava na Coréia do Sul, em local incerto e não sabido. Localizamos o Geilson, no escritório do Rio de Janeiro, e explicamos a situação. Ele quase teve um troço.

Só havia uma solução. Alguém viajar naquela mesma noite pra São Paulo e, no dia seguinte, ir bater perna na Rua Santa Ifigênia, a meca dos componentes eletrônicos na Paulicéia, pra tentar “nacionalizar” o radinho na marra.

Como era o único “fodão” da turma, Engels topou encarar a presepada. Geilson combinou de se encontrar com ele na capital paulista.

Naquela mesma noite, Josino foi deixar o Engels no aeroporto e eu fui pra casa estudar uma nova maneira de burlar as regras da Suframa.

Uma explicação possível era fazer uma nova guia de nacionalização triplicando o preço do gabinete plástico feito pela Icel (e o Jones Cunha que se virasse depois pra consertar o estrago).


Na segunda-feira, Engels estava de volta a Manaus, trazendo na bagagem 7 mil transistores (mil de cada tipo), comprados em São Paulo. Ele não só havia nacionalizado o radinho, mas aproveitara para modificar a polarização do misturador e o radinho agora estava melhor do que o original coreano. Sintonizava até pensamento, com uma qualidade de som espetacular. Uma festa!

Passamos o dia “maquiando” a linha de montagem, sem que os funcionários soubessem o que estava acontecendo. Foi um novo parto treinar as montadoras para a inserção dos novos transistores (os japoneses tinham o coletor à esquerda, os nacionais, à direita, portanto a peça teria de ser inserida ao contrário da original). No final, deu tudo certo.

Quando Manuel Rodrigues entrou na fábrica, na terça-feira, ficou visivelmente impressionado com a pequena linha de montagem (60 funcionários, numa fábrica com espaço físico para 6 mil operários) trabalhando a todo vapor.

O operador da máquina de solda (João Paulo? Juarez? Julinho?) era quase um gênio. Com uma torquês, ele prendia o circuito impresso, enfiava a placa numa bambona plástica cheia de verniz, tirava, enfiava no tanque de solda, tirava, conferia se não havia nenhum curto de solda e colocava na mesa da primeira revisora. E fazia essa lambança toda em menos de um minuto.

Manuel Rodrigues verificou pessoalmente que estávamos usando transistores da Ibrape, das famílias PC e PA, testou alguns produtos acabados, ficou satisfeito com o resultado de sua auditoria e assinou o laudo técnico liberando a internação dos primeiros 10 mil produtos. Foi outra festa.

No dia seguinte, eu, Engels e Josino modificamos a linha de montagem para o processo original – utilizando os transistores japoneses, evidentemente – e começamos a despachar os produtos acabados para a sede da empresa, no Rio de Janeiro.

Pelos cálculos do Engels, a gente zerava o estoque de matéria-prima em duas semanas, em virtude de estarmos produzindo cerca de 500 radinhos por dia.

Autorizado pelo Velásquez, que ficou “babando” quando soube da façanha do Engels, dei entrada na Suframa de uma nova guia de importação para fazer a importação dos 90 mil kits restantes. A guia era exatamente igual à anterior.


Desta vez, Manuel Rodrigues criou caso. Ele devolveu a guia, pedindo pra eu refazer a mesma, porque a Suframa não autorizaria a importação de transistores japoneses em virtude de a gente já estar utilizando transistores nacionais da Ibrape.

Fiz um novo documento, explicando que aqueles transistores japoneses eram para um novo produto em desenvolvimento (um aparelho três em um) e que a gente apresentaria o descritivo dos índices de nacionalização quando ele estivesse em linha.

O filho da puta continuou irredutível (nessa mesma época, Gilberto Miranda já estava embolsando o seu primeiro 1 milhão de dólares sem gerar um único emprego na ZFM) e convenceu Aloísio Campelo a brecar a importação.

Como o transistor nacional custava dez vezes o valor do transistor importado (apesar de ser da Philips, a Ibrape era uma fábrica de fundo de quintal que acabou fechando quando o presidente Fernando Collor liberou as importações), não havia nenhuma hipótese de “nacionalizarmos” o produto sem arcarmos com um prejuízo inimaginável.

Pra gente estava bem claro que assim que a empresa se capitalizasse de novo, a gente partiria para a nacionalização exigida pela Suframa. Mas a empresa precisava pelo menos respirar economicamente, já que estava sem faturar há três anos.

De mais a mais, tratava-se de apenas uma cota anual de 100 mil dólares (na minha época de Sharp, eu já havia contrabandeado pra São Paulo mais de 800 mil dólares em peças de reposição). Ninguém era santo.

Pra nosso azar, o engenheirozinho paulista tinha a última palavra sobre o assunto e ele resolveu inviabilizar a produção da Electra, sabe-se lá por quais motivos. Manuel Rodrigues brecou a importação dos novos kits.

Antonio Velásquez foi bater de novo nas portas da justiça.

O mais grave é que, empolgada com a qualidade dos primeiros aparelhos fornecidos, a Coca Cola já havia encomendado mais 100 mil unidades. A gente ia começar a contratar 150 novos funcionários, quando o aspone da Suframa isolou a bola na arquibancada.

Manuel Rodrigues fez um laudo técnico explicando os motivos para brecar a importação, Aloísio Campelo foi na onda e ficou por isso mesmo. Pra mim, sinceramente, foi uma ducha de água fria.

Em janeiro de 1979, eu e Engels pedimos o boné. Antonio Velásquez só faltou nos implorar de joelhos para a gente continuar na empresa. Explicou que aquilo era uma questão de tempo, o Aloísio Campelo já ia deixar o órgão, as importações seriam liberadas, etc. Resolvemos aguardar até março, quando entraria o novo superintendente Ruy Lins.

Com o coração partido, demitimos cerca de 20 funcionários (a minha Marilene sobreviveu à degola, marrelógico!) e a Electra Industrial voltou à mesma e velha modorra de sempre.


Eu, Marilene, nossos dois filhos Marcus Vinicius (designer gráfico) e Maíra (jornalista), e nosso neto Mathews, filho da Maíra

Pra garantir o salário dos que ficaram, resolvemos “canibalizar” o estoque de produtos defeituosos existentes na empresa desde épocas imemoriais – que ocupavam uma área considerável da AVA Industrial, a outra empresa do Velásquez localizada ao lado da Electra e que jamais havia funcionado. A Electra Industrial se transformou em uma filial do Sukatão.

Na base de pegar três aparelhos com defeitos e transformar em um em condições de uso, a gente (leia-se Engels) deve ter produzido umas 100 mil unidades do mais diferentes produtos (radinhos, vitrolas, rádios-relógios, abridores de lata, amoladores de faca, etc).

Como não havia mercado local para os produtos e nem eles podiam ser “internados” (eram 100% importados), resolvemos tentar vender em Parintins.

Em agosto de 1979, pedimos o boné mais uma vez. Velásquez nos convenceu a ficar até dezembro, com a promessa futura de nos dar uma pequena sociedade na empresa (1% pros dois, ou 0.5% pra cada um). Além de ser um gentleman, Antonio Velásquez confiava muito em nosso taco.

O certo é que dezembro chegou, as coisas continuaram como antes (nada de a cota dos 90 mil kits ser liberada nem de o processo inicial, de 1976, ter seu mérito julgado no STJ) e aí não teve jeito. Eu e Engels montamos em nossos alazões e ganhamos a linha do horizonte.

Ele foi trabalhar no Laboratório da Philips e eu, na Engenharia de Fábrica da Philco. Nosso amigo Josino Silva, que continuou administrando a empresa depois de nossa saída, morreu de ataque cardíaco alguns anos depois, quando já trabalhava como supervisor de produção da CCE da Amazônia.

Em meados dos anos 90, soube que Antonio Velásquez recebeu uma grande bolada de indenização na justiça por conta da sacanagem feita pela Suframa e que hoje suas empresas estão funcionando a todo vapor (a Electra Industrial produz televisores e a AVA Industrial produz motocicletas Kawasaki).


Eu e Engels continuamos a nos ver nos finais de semana para encher a cara de birita e contar anedotas do Bocage. Engels é o atual presidente do sindicato patronal das indústrias de confecções e diretor da FIEAM.

Podre de rico, Manuel Rodrigues hoje é reitor da UniNilton Lins, em Miami (USA), depois de ter exercido o cargo de superintendente da Suframa de agosto de 1992 a maio de 1996.

Pela sua meteórica carreira de executivo bem-sucedido dá pra perceber que puxar-saco e não ter escrúpulos morais continua sendo o grande portal de ascensão social dos emergentes, dos novos-ricos e dos arrivistas de ocasião desse nosso Brasilzão cada vez mais cafona, roceiro e jerico.

Taqui pra vocês, chupins desmemoriados!

Dois sujeitos da pesada


Arnaldo Botelho, eu, Rogelio Casado, Orlando Carioca e Afonso Toscano, durante um agito do jornal Candiru, no Bar do Armando

Empresário do ramo de perfuração de poços artesianos, Arnaldo Botelho instalou seu escritório no edifício Cidade de Manaus, no centro da cidade, mas quase não parava lá.

Diariamente, depois de conferir o saldo bancário da empresa por telefone, ele abria as janelas do escritório para que o sol entrasse e espantasse o bolor, e então se mandava. Suas preocupações existenciais eram outras.

Adepto do ditado “amigos, amigos, negócios à parte”, Arnaldo passava a maior parte do tempo nos canteiros de obra vigiando os passos do encarregado técnico das perfurações de poços, Orlando Carioca, um de seus melhores amigos.

Ele nunca demonstrou claramente, mas tinha um medo inexplicável de que, um dia, Orlando lhe passasse a perna.

Talvez pelo fato de Orlando fazer o trabalho pesado e Arnaldo simplesmente colher os louros da vitória.

De qualquer forma, era uma parceria afinada.

Um dia, o empresário começou a perceber que sua sala, volta e meia, amanhecia cheia de pêlos. Ele comentou o fato com Orlando Carioca, que foi direto ao xis da questão:

– Ora, porra, se tu não estás deixando cair os teus pêlos por causa de alguma doença de pele, é porque algum bicho está fazendo isso no teu lugar...

Eles resolveram dar uma incerta no escritório para descobrir o que estava acontecendo.

Por volta das 4h da tarde, os dois abriram sorrateiramente a sala do escritório e perceberam um vistoso gato angorá dormindo placidamente na mesa do Arnaldo, enquanto era banhado por um cálido raio de sol que atravessava uma das janelas.

Sem fazer barulho, eles fecharam todas as janelas do escritório, descalçaram os sapatos, colocaram nas mãos e resolveram dar um corretivo no intruso.

A primeira sapatada do Arnaldo pegou no meio do saco do gato.

Ele deu um miado aterrorizante e se atirou em direção à janela, tentando fugir.

Bateu com a cabeça no vidro fechado e, quando estava caindo, foi aparado no ar por um chute de direita do Orlando, que o arremessou a uns cinco metros.

O gato tentou dar um salto mortal de costas, mas foi atingido por uma nova sapatada do Arnaldo.

Miando desesperadamente, o gato avançou em direção ao Orlando, mas recebeu um novo chute na cara.

O angorá ainda estava meio grogue, quando Arnaldo se aproximou para dar o chute de misericórdia.

De repente, o felino deu um salto mortal carpado com dupla cambalhota, o pé do Arnaldo passou no vazio e acertou na quina da mesa do escritório. A unha do dedão do pé foi pro espaço.

Urrando de dor, Arnaldo pegou um taco de beisebol e partiu pra cima do gato. Acabar com as sete vidas dele tinha virado uma questão de honra.

O gato fez um twist simples pra se livrar de uma sapatada do Orlando, mas assim que tocou no solo executou um inesperado salto mortal triplo carpado de costas e desapareceu.

Levanta um estofado daqui, arrasta uma cadeira dali, e nada de o bichano aparecer. Depois de uns dez minutos, Orlando resolveu ir urinar.

Assim que ele abriu a porta do banheiro, o gato apareceu no meio da sala, surgido não se sabe de onde.

Como se fosse uma bala tracejante, o bichano embicou na direção do banheiro, fez um duplo twist com reversão e se atirou pela clarabóia do banheiro, que dava para o lado externo do edifício.

O apartamento ficava no 8º andar. Pra cair daquela altura e sobreviver, era preciso ter 77 vidas.

No dia seguinte, na hora em que o Arnaldo estava consultando o saldo bancário da empresa por telefone, alguém começou a bater violentamente na porta. Ele abriu a porta.

Era a locatária do escritório, que morava em um apartamento ao lado.

De olhos inchados de chorar a noite inteira, nervosíssima, a mulher foi logo questionando:

– Seu Arnaldo, o senhor, por acaso, não viu o Narayana?...

– Narayana? – espantou-se o empresário.

– É, o Narayana, o meu gatinho angorá de estimação. Ele costumava sair de casa pra vir brincar aqui no seu escritório, mas desde ontem ele não aparece... Estou achando que aconteceu alguma coisa muito ruim com ele...

Arnaldo deu uma desculpa qualquer e se livrou da vizinha.

Uma semana depois, os dois estavam abrindo a porta do escritório quando perceberam que vinha andando pelo corredor um gato todo maltrapilho. Era o Narayana.

Ao ver os dois inimigos mortais, ele ficou imóvel.

Calhou de nesse momento a vizinha deles estar saindo do apartamento. Quando ela viu o gatinho angorá, saiu correndo em direção dele:

– Narayana, meu filhinho, o que foi que aconteceu com você?...

O gato começou a dar uns miados langorosos, tristes, fúnebres.

A dona do gato colocou o bichano no colo e, enquanto o acariciava, insistia:

– Mas quem foi que fez essa malvadeza toda com você? Me conta, me fala, não me esconde nada. Quem foi que fez essa malvadeza toda com você?...

E o gato continuava com seus miados longos, entristecidos, chorosos, pungentes, de cortar a alma.

Totalmente hipnotizado pela cena, Arnaldo não conseguia girar a chave na fechadura da porta.

Orlando foi de uma sinceridade cruel:

– Abre logo essa porra e vamos entrar, porque esse angorá filho da puta vai contar tudinho praquela vagabunda...

Lá no fundo do corredor, sem parar de beijar e acariciar o gato, a mulher não dava tréguas:

– Mas por que foi que eles dois fizeram isso contigo? Me conta, por que foi que eles dois fizeram isso contigo?...

E o gato continuava miando desesperadamente, abrindo o coração, colocando os pingos nos is, chutando o pau da barraca.

No outro dia, Arnaldo Botelho se mudou para um novo escritório.

2.

Lá na turma do fundão, Arnaldo Botelho e os irmãos Nildo e Orlando Carioca

De tanto ouvir o antenado Orlando Carioca falar sobre os benefícios da Linfa Sen, uma técnica de massagem japonesa para perder peso, reduzir estômago e eliminar celulite, que combina drenagem linfática com shiatsu, o empresário Arnaldo Botelho, do alto de seus 150 kg, resolveu experimentar a novidade.

Aceitando uma sugestão de Orlando Carioca, ele procurou a clínica de estética da massagista japonesa Togawa Kikuchi, considerada a melhor da cidade.

A massagista era uma anciã de quase 70 anos, que ficou vivamente impressionada com o tamanho da pança do empresário.

Para deixar Arnaldo Botelho mais tranquilo, uma assistente da massagista explicou em que consistia a Linfa Sen:

– A massagem segue o caminho da linfa, o líquido do corpo composto de proteínas e lipídios que circula nos vasos linfáticos, e, ao mesmo tempo, estimula os pontos energéticos congestionados. A técnica consiste em trabalhar os caminhos dos meridianos ligados ao rim e à bexiga. Ao libertá-los, há melhoria na eliminação de toxinas e de gordura.

A anciã explicou que ele teria de ficar só de cuecas, deitar-se de costa em uma espécie de cama de hospital, encolher as pernas em direção à barriga e relaxar. O resto era com ela. Arnaldo seguiu as instruções ao pé da letra.

Posicionada entre as duas pernas vergadas do empresário, Togawa Kikuchi segurou nos seus tornozelos e começou a sacudi-los bem devagarzinho enquanto recitava uma espécie de mantra:

– Relaxa, sam... Relaxa, sam... Relaxa, sam...

Arnaldo ficou tão relaxado, que já estava a ponto de dormir.

De repente, a massagista empurrou violentamente os dois tornozelos em direção à pança do empresário.

Foi mais ou menos como usar um fole para atiçar as brasas de uma fogueira.

Arnaldo soltou um peido tão arrojado, sonoro e fedorento, que quase nocauteou a massagista.

A massa quente atingiu o rosto de Togawa Kikuchi com a força de uma bofetada.

Quase colocando os bofes pra fora, a massagista entoou um novo mantra:

– Sai, sai, sai, imundo... Muito nojento... Muito nojento... Eu não cuida muito nojento... Sai, sai, sai, imundo...

Por muito pouco, Arnaldo não foi expulso da clínica só de cueca.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Acima do Mundo


por Alexandre Matias

Experimente ficar um pouco sem a influência dos Beatles. Não conseguiu? Fácil entender por quê.

A cultura contemporânea está tão enraizada no estrago que os quatro cabeleiras do pós-calipso fizeram em nossa forma de compreendê-la e consumi-la que se torna realmente difícil enxergar até que ponto o legado do grupo de Liverpool interfere na vida cotidiana de qualquer um que vive do lado ocidental do planeta.

Os 20 milhões de cópias vendidas em apenas três meses pela coletânea “1”, que caminha para se tornar o disco mais vendido de todos os tempos, são apenas uma das provas da importância do grupo em nosso tempo.

Segundo a revista Rolling Stone, a coletânea “1” dos Beatles foi o álbum mais vendido dos últimos 10 anos e, além disso, o “fab four” conseguiu emplacar o primeiro lugar entre as bandas que mais venderam discos em 2009.

O catálogo remasterizado lançado no ano passado foi um dos grandes motivos para o grupo se manter no topo das paradas mundiais.

Em setembro de 2009, o site Amazon.com anunciou que 11 dos seus 25 CDs mais vendidos eram dos Beatles. Além disso, o grupo quebrou a barreira do universo musical e virou game com “Beatles Rock Band”, onde o jogador pode acompanhar toda a carreira da banda além de tocar boa parte da discografia.

Foi tudo arquitetado para acontecer assim. Cotado para os anos 80, mas abortado em razão do marketing natural que o assassinato de John Lennon deu à carreira dos Beatles, o projeto Anthology foi acionado durante a década de 90 como a cartada definitiva da importância da banda na história da música pop.

Devidamente ladeado por um disco duplo de faixas gravadas pela rádio estatal inglesa BBC (Live At The BBC, de 1994) e pelos relançamentos dos filmes Submarino Amarelo (Yellow Submarine, em 1999) e Os Reis do Iê-Iê-Iê (A Hard Day’s Night, em 2001), a ambiciosa historiografia beatle resultou em uma série de TV em cinco capítulos, uma coleção de oito fitas de vídeo, um luxuoso livro de mesa e três discos duplos contendo quase oito horas de registros não-oficiais dos Fab Four em sua fase de ouro.

Nesse meio tempo, Yoko Ono lançou a sua versão para a parte B da história, com a caixa John Lennon Anthology, Paul McCartney fez dois discos de reverência ao passado (Flaming Pie, de 1998, e Run Devil Run, de 1999), George Harrison relançou seu primeiro solo (All Things Must Pass, de 1970, reeditado em 2001) com pompa e até Ringo Starr gravou um álbum legal (Vertical Man, de 1999) com a participação de Alanis Morrissette, Steven Tyler e Ozzy Osbourne.

Tudo, claro, vendeu muito e garantiu páginas e horas de mídia para o grupo - e a consagração final veio na compilação de capa vermelha, o único formato em que os Beatles não haviam se aventurado oficialmente (a coletânea de hits em um CD simples).


O fato de Anthology ter sido lançado nos anos 90 também foi fundamental. Afinal, a década assistiu à maior onda de retornos na história do rock, à medida que este, aos poucos, entrava na casa dos cinqüentões.

Motivados também pelo espírito revisionista da última década do século, artistas e bandas do passado voltaram exigindo seu lugar na história - e a história se abriu para eles.

Em acústicos MTV, no Rock And Roll Hall Of Fame e em caixas e mais caixas de CD, seja em carne e osso ou em mono ou estéreo. Os próprios Beatles, os Sex Pistols, Stones, Bob Marley, James Brown, Velvet Underground, Big Star, Aretha Franklin, Lee Perry, Doors, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Who, Black Sabbath, Ramones, Led Zeppelin, David Bowie, Monkees...

Todo o rock foi revisitado na última década e, fora os mortos, quase todos esses grupos retornaram aos palcos para desfilar sua carreira.

Talvez só os Stooges, o Clash e os Mutantes não voltaram - e não foi por falta de negociações -, mas tiveram horas de gravações inéditas empacotadas em edições de luxo (Fun House Sessions, Clash On Broadway e Tecnicolor, respectivamente).

Enquanto o rock descortinava seu passado na última década, os Beatles pingavam, no conta-gotas, o bumbo marcante do compasso da história, pontuando sua importância em doses homeopáticas e rígida qualidade. E cada gota trazia um álbum duplo cheio de músicas inéditas - e boas.

A excelência do grupo estava até em ensaios embalados por maconha. A química perfeita mantinha-se intacta 30 anos depois do acontecido.

Mas não é o mercado nem a estratégia de marketing póstuma que faz o grupo ter o nome que tem. Por trás da máquina de direitos autorais e da caixa registradora em forma de banda, os Beatles estão no centro da história do rock.


Dá para dizer que são o marco inicial dessa história, se pensarmos que os anos 50 (a época do rock’n’roll) foram tão marcantes para aquela música que começou a crescer demais por volta de 1964 quanto o blues dos anos 20, a canção do rádio dos anos 30 e o country e o rhythm’n’ blues dos anos 40.

Até os tempos de Elvis, os artistas eram poderosos, inatingíveis, super-heróis. Com os Beatles, ser artista parecia divertido, como a maioria das atividades em grupo quando se tem menos de 20 anos.

A forma como os quatro se comportavam era similar à de qualquer turma adolescente do planeta. De repente, qualquer um poderia formar uma banda.

A história ri, mas o pobre executivo da gravadora Decca que dispensou o grupo tinha razão: bandas com guitarras não estavam na moda. Foram os Beatles que inventaram isso.

E mais: foram eles que encorajaram o exército de bandas de rock que passou a brotar na maioria dos países do planeta.

Não parou por aí. Como irmãos mais velhos de uma geração, os Beatles guiaram todas aquelas bandas para além do que rezava a cartilha inicial do rock’n’ roll.

Se a onomatopéia pop reúne personagens tão diferentes quanto soul, country, jazz, Burt Bacharach e Carole King, é porque os Beatles quiseram desse jeito - desde o primeiro disco, vá ouvir.

Antes deles, era cada um na sua: música negra em um lado, música para adultos em outro, música caipira mais para lá, e assim por diante.

Os Beatles realizaram o movimento que veio unificar toda a produção feita para o rádio e criou, na prática, o universo que hoje chamamos de música pop.

Como se isso não bastasse, o grupo mostrou que o pop não precisava ficar restrito às referências musicais.


Agregando influências que iam do satanista Aleister Crowley a Gandhi, passando por Marlon Brando e Karlheinz Stockhausen (todos na capa original de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band), os Beatles convidavam os ouvintes para visitar um País das Maravilhas de culturas estrangeiras, manifestações artísticas diversas, diferentes tipos de drogas, paz e amor.

A música pop em um instante poderia acondicionar qualquer assunto e transcendia as futilidades de seus temas de poucos anos antes, além de realizar experimentos com letras e música, com instrumentos exóticos e com o próprio estúdio.

Foram os Beatles que cavocaram a pequena fresta que derrubou a barragem da criatividade artística e da própria consciência dessa manifestação cultural como arte.

Com isso, a influência do grupo ultrapassava o âmbito do entretenimento e logo os quatro estavam dando entrevistas sobre política, drogas, amor livre, arte de vanguarda, comunicação de massa, maturidade e negócios.

Além disso, tiveram suas vidas particulares abertas ao público, fazendo com que este os acompanhasse e se identificasse com os quatro em um nível muito mais complexo que o musical.

Unindo isso a músicas que pareciam se encaixar com perfeição em certos momentos históricos - seja na trajetória da banda ou na do século 20 -, os Beatles criaram um vínculo entre artista e fã inédito na música pop. E perpetuado desde então.

O grupo ainda deu à história do disco uma enorme contribuição ao institucionalizar o álbum como unidade básica de indústria do disco.

Frank Sinatra pode ter iniciado a prática (em Hello Young Lovers) e Frank Zappa pode tê-la elevado à noção “conceitual” antes que qualquer outro artista pop (em Freak Out!), mas os Beatles é que popularizaram o formato, deixando o compacto como uma outra divisão do mercado, com músicas diferentes das que entrariam nos álbuns.

Outra gigantesca contribuição do grupo se deu no campo do merchandising artístico: o quarteto foi o primeiro a ter de lidar com termos como franquia, licenciamento e marca registrada fora do universo estritamente musical e são famosos os milhões de dólares que perderam no auge da Beatlemania, fazendo pequenas fortunas alheias graças ao uso de seu nome.

Ademais, alimentavam os fã-clubes com material inédito, criando o seu próprio fã-clube oficial. Sem contar o fato de que foram os primeiros artistas a precisarem de palcos maiores que as casas de shows da época, abrindo portas de ginásios e estádios para as guitarras do rock’n’roll.


Some tudo isso ao fato de ser um grupo muito preocupado com a reputação, que pensava a própria carreira a partir de um controle de qualidade rigoroso.

Foi o que fez a banda lapidar a sua imagem próxima da perfeição, tomando o cuidado para que cada álbum tivesse uma identidade e que cada um deles funcionasse como um capítulo específico em sua trajetória.

Assim, toda uma mitologia ajuda a elevar sua carreira ao patamar de lenda: a “morte” de Paul McCartney nas músicas de John e nas capas de disco; as históricas criações coletivas em estúdio, muitas delas baseadas no acaso; toda a pré-história oficial (da igreja em Woolton ao Cavern Club, de Hamburgo à saída de Pete Best); a figura do “quinto beatle”; as aventuras como homens de negócios; a separação tensa; “o sonho acabou” e a morte de John Lennon. Aliados ao tema central do grupo - o amor -, a imagem dos Beatles é um dos signos mais fortes da recente história ocidental.

Não é exagero dizer que o grupo é o movimento artístico mais importante do século 20 (uma vez que o modernismo tem raízes no 19). As provas irrefutáveis estão acima e sua larga influência no cotidiano é pouco percebida.

Como nomes cruciais cujas argumentações acabaram se diluindo no próprio fluxo histórico, tendo seus rostos cristalizados como figuras-chave de certas formas de pensamento (como Einstein, Guevara, Welles, Freud, Picasso, Newton, Van Gogh, Marx ou Chaplin), os Beatles são muito mais do que o conjunto de rock mais importante de todos os tempos.

Um caso à parte, uma nota máxima e um ponto de partida, o grupo formado por John, Paul, George e Ringo dá a seus descendentes motivos para continuarem tentando. Era a vontade de se tornarem os melhores que os fazia conseguir ser.

John, Paul, George e Ringo planejavam sua carreira e tomavam o cuidado para que cada álbum tivesse uma identidade e funcionasse como um capítulo específico na trajetória da banda.