quinta-feira, março 22, 2012

Aula 5 do Curso Intensivo de Black Music: As duas correntes do Soul


O tipo de música que entrou pelos microfones da Stax nasceu no meio da miséria e da luta sangrenta pelos direitos civis dos negros norte-americanos.

Para se ter uma idéia de qual era a temperatura do racismo na cidade em que a gravadora se instalou, basta lembrar que foi em Memphis, no dia 4 de abril de 1968, que o líder negro Martin Luther King foi assassinado.

Para cicatrizar as feridas que a situação ia abrindo, os músicos da região começaram a produzir um tipo de música baseada no gospel e profundamente emotiva.

Assim como a atmosfera social da época, esses músicos não tinham nenhum controle sobre o material que produziam.

Eles queriam passar uma mensagem honesta, crítica, verdadeira, enfim, “algo que seria impossível de escrever no papel”, nas palavras de Jerry Wexler, produtor e vice-presidente da Atlantic.

Mas como – você pode estar perguntando – esses caras eram críticos sociais se boa parte das letras era recheada de “I love you”?

Explico: eles inventaram outro jeito de cantar o amor.

Mais do que pop feito para vender, os intérpretes da Stax/Atlantic permeavam as canções com uma boa dose de generosidade romântica e solidariedade negra.

Essas características estão dispersas de maneira desigual nos discos de Sam Cooke, Otis Redding, Aretha Franklin e Ray Charles, principais representantes do soul sulista.


No norte dos EUA, a situação era bem diferente.

Antes de virar a Meca da indústria automobilística norte-americana, Detroit entrou para a história como um posto de passagem para os negros que fugiam da escravidão.

Livres da segregação mais violenta, os músicos que escolheram a Motown como casa aproveitaram a herança musical que vinha do sul e se preocuparam muito mais com questões como acabamento e produção.

Capitaneada com mão de ferro por Berry Gordy Jr., a Motown criou um padrão de produção que garantia resultados nas vendas, mas que, de certa forma, acabou uniformizando os resultados.

Aquilo que a gravadora chamava de “o som negro da América jovem”, e que ficou conhecido como “black beat”, “batida negra”, era uma combinação de bateria frenética, baixo pulsante, muitos metais, orquestra de cordas e percussão variada.

Infalível, a receita trouxe à luz os talentos de Diana Ross, Marvin Gaye, Stevie Wonder, The Temptations e Jackson Five.

Até hoje, quando pensam em Motown, muitos se perguntam se aquilo é soul.

Respondo: é, sim, mas em traje de gala.


A principal proposta do movimento soul era a “salvação” das almas, a elevação dos espíritos e a redenção de seus adeptos, através da conscientização implícita (e explícita) nas letras.

Foi esse o tipo de música que entrou para a história com o rótulo de soul, na década de 60.

Ele era a diretriz evolucionária lógica e natural do rhythm & blues crioulo dos anos 50, impulsionado pelas mais recentes conquistas da tecnologia sonora, disponíveis nos estúdios de gravação e nos palcos.

A temática de suas composições, porém, buscava inspiração nos gêneros seminais da música negra americana: o gospel e os spirituals, de orientação assumidamente eclesiástica e doutrinária.

Se os brancos misturaram o rhythm& blues com o hillbilly, gerando o rockabilly que deu origem à linhagem rock, os negros misturam o rhythm & blues com o gospel, gerando o soul que deu origem à linhagem funk.


A maioria dos grandes intérpretes e as figuras centrais do movimento soul eram oriundos de backgrounds religiosos e permaneceram fiéis aos seus credos durante seus períodos de popstars.

Outros tantos, depois de encharcarem suas almas de soul music, converteram-se fervorosamente a alguma seita ou religião estabelecida.

Só para citar alguns exemplos bem ilustrativos, Salomon Burke – o famoso King Salomon –, um agente funerário licenciado, era ministro da pequena igreja mantida por sua própria família, a House of God for All People, desde os doze anos de idade, e continuou a pregar a “sagrada palavra” à maneira dos bispos pentecostais, abençoando as platéias de todos os seus shows.

Joe Tex, o ancestral em linha direta de boa parte dos rappers atuais, ordenou-se ministro muçulmano pouco depois de sua popularidade como artista começar a declinar.

Poderíamos falar ainda do messianismo escancarado dos “reverendos” James Brown e Otis Redding, dois pilares e fundadores do gênero, e da conduta estritamente puritana e impecável de astros como Sam Cooke e o “irmão” Ray Charles, mas este seria um enfoque parcial e muito tendencioso do fenômeno soul.

Outro aspecto relevante do movimento soul era sua preocupação com certa conscientização social e seu engajamento político.

A década de 60 foi pródiga em movimentações culturais e grandes mudanças comportamentais, sendo que a música popular foi o veículo ideal para a propagação de novas idéias e ideais.

Foi nesse período que o pacifismo branco, via hippies, freaks e beatniks, mostrou a sua cara, abrindo caminho para o Women’s Lib, o Gay’s Lib, os protestos contra a Guerra do Vietnã e dezenas de outros movimentos de contestação social e afirmação política.


No clima aparentemente receptivo e liberal que caracterizava o período, os negros americanos também se organizaram e resolveram exigir seus direitos de cidadãos, o que incluía o reconhecimento de sua cultura por parte dos brancos.

A postura dos diversos grupos organizados que surgiram – alguns abertamente belicosos, como os Black Panthers (“Panteras Negras”), liderados por Eldrige Cleaver, Stokeley Carmichael e Huey Newton, e os negros muçulmanos liderados por Malcom X – era de cooptação da sociedade branca para a causa dos negros, quase à maneira de uma conversão religiosa, e sua arma mais poderosa, viu-se depois, era a música.

O apelo irresistível do soul “tomou a alma” de vários músicos brancos.

Alguns, como Steve Cropper e Donald ‘Duck’ Dunn, integrantes das bandas The Mar-Keys e Booker T. and The MG’s (eles também integrariam, posteriormente, a banda The Blues Brothers, no filme homônimo, que no Brasil se chamou “Os Irmãos Cara-de-Pau”), eram alguns dos grupos pioneiros da nova música, que alcançaram o status estelar graças à sua “devoção” ao ritmo.

Com a evolução da soul music, o movimento pela conquista dos direitos civis dos negros ganhou uma poderosa aliada, mas a reação violenta dos brancos às reivindicações dos negros fez com que a música perdesse um pouco da sua característica doçura.


Se a morte do líder negro Malcom X, em 1965, suscitou uma comoção praticamente restrita aos seus correligionários – segundo a mídia da época fazia questão de afirmar, tentando desvincular o atentado de qualquer conotação política –, o assassinato de Martin Luther King, que recebera o prêmio Nobel da Paz por sua atuação em prol da obtenção dos direitos dos negros por meios não violentos, conferiu um caráter marcadamente segregacionista à música e às outras manifestações culturais dos negros, e radicalizou a postura de diversos artistas.

James Brown, o “soul brother number one”, incitava as platéias a dizerem “say it loud, I’m black and I’m proud” (“digam alto, sou negro e me orgulho disso”).

A música “Respect”, de Otis Redding, passou a ser um hino à exigência dos negros por respeito dentro da sociedade wasp (“white, anglo-saxonic and protestant”, ou seja, branca, anglo-saxônica e protestante).

Interpretada por Aretha Franklin – a Lady Soul –, a canção “Think” virou uma exortação pungente à conscientização do povo negro sobre seus direitos.

Nessa mesma época, o pianista Ray Charles ocupou páginas e páginas da revista Time para protestar contra a tentativa da indústria do disco de mascarar as verdadeiras intenções de sua música em “What Have They Done To My Song, Ma!”.

A quizomba estava apenas começando.

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