quinta-feira, março 22, 2012

Aula 6 do Curso Intensivo de Black Music: Sam Cooke


Segundo a bíblia do assunto, “The Gospel Sound – Good News and Bad Times”, de Anthony Heillbut, os Soul Stirrers foram “os verdadeiros criadores do som do quarteto vocal” – um dos modelos tradicionais da gospel music que, transplantado para o terreno do pop, daria o doo-wop.

Sam Cooke tinha 19 anos quando recebeu o convite para ingressar nos Stirrers, substituindo o solista R. H. Harris, em 1950.

Em pouco tempo, tornou-se uma das maiores estrelas do circuito gospel, com os mesmos ingredientes que impulsionaram sua meteórica carreira pop: carisma sofisticado e tranqüilo em uma voz capaz de rasgar, deslizar, sobrevoar, sempre sem o menor esforço.

Segundo Keith Richards, dos Rolling Stones, “Sam Cooke é alguém com quem todos os cantores têm de se medir, e a maioria acaba voltando para o emprego no posto de gasolina”.


Sam Cook (o “e” final seria acrescentado mais tarde) nasceu em Clarksdale, Mississipi, no dia 22 de janeiro de 1931, filho do reverendo batista Charles Cook e de Annie Cook.

Aos dois anos de idade, sua família se mudou para Chicago, seguindo a trilha de vários companheiros que emigravam do sul rural, racista e conservador, em busca de um ambiente mais propício para os membros da sua comunidade.

Aos seis anos já fazia parte do coro da igreja de seu pai e, aos nove, junto com seus irmãos (Charles, Mary e Hatie), formou seu primeiro grupo de gospel.

Aos quinze anos, quando se preparava para a formatura, no Instituto Wendell Phillips de Chicago, uniu-se ao The Highway Q.C’s, um grupo juvenil de gospel formado pelo reverendo Charles W. Copland para cantar durante os serviços religiosos da Highway Baptist Church.

No comando estava R. B. Robinson, do The Soul Stirrers, uma das mais legendárias bandas de gospel da história.


Em 1950, quando os The Soul Stirrers perderam o seu primeiro solista, o histórico R. H. Harris, decidiram contratar o vocalista com mais futuro na época e, de repente, Sam Cooke estava vivendo no centro do planeta Gospel.

Ele passou seis anos com o conjunto, para cujo repertório contribuiu com numerosas canções, como “Near To Thee”, “Be With Me Jesus” e “That’s Heaven To Me”, verdadeiros clássicos da música popular religiosa que ele converteu em fantásticos exercícios de sensualidade vocal.

Em 1956, no seu último ano à frente do quarteto, o cantor gravou um dos maiores sucessos dos Soul Stirrers, “Touch The Hem Of His Garment”, música que desvela a aspereza de um êxtase que só um genuíno cantor de gospel pode exibir, e que os Terence D’Arbys da vida tentam a todo custo simular.

Quando um ano depois gravou seu primeiro clássico pop, “You Send Me”, um estouro imediato em outubro de 57, a leveza e a contenção, o estado de graça transferido para canções de amor apontavam na direção oposta, sem perder uma gota de intensidade.

Ao longo de sua carreira, Sam chegaria a mesclar os dois sentimentos, às vezes num só compasso – caso de dois singles lançados no início da década de 60, “Bring It On Home To Me” e “A Change Is Gonna Come”, onde sua formação gospel aflora dilacerada. Talvez sejam suas duas maiores obras-primas, o equilíbrio e a perfeição maturados em seus últimos anos na RCA, sempre acompanhado pelas orquestrações de René Hall.


A canção “A Change Is Gonna Come” – um lamento esperançoso pelo fim do racismo e da miséria, composto sob a influência de Bob Dylan – tornou-se o epitáfio de Cooke, assassinado pela gerente de um motel vagabundo, em Los Angeles, no dia 11 de dezembro de 1964, numa história até hoje muito mal contada.

Na gravadora RCA, Sam conquistara total autonomia de trabalho e, paralelamente, acabou montando seu próprio selo (gravando os Soul Stirrers e lançando a família Womack, entre outros) e sua editora.

Pouco depois, Berry Gordy Jr. seguiria o exemplo e fundaria o império Motown, marcando uma nova era para a música negra americana.

Sam nunca foi perdoado pelo público de gospel por ter “vendido sua alma” à “música profana”, mas, para os cantores de blues e R&B acostumados a vender suas músicas por uma ninharia, sua atitude foi uma bênção.


Ele não tinha o menor pudor em capitalizar em cima de modismos descartados num piscar de olhos e eternizá-los com sua interpretação desumana, porque divina – caso de “Twistin’ The Night Away” e “Everybody’s Likes To Cha Cha Cha”.

Sam Cooke também foi responsável por algumas das canções mais comerciais e mais sublimes da história, como “Wonderful World”, “Only Sixteen” e “Chain Chang”.

Em dezembro de 1964, Sam Cooke se hospedou no motel Hacienda, em Sauth Figueroa, região metropolitana de Los Angeles, acompanhado de uma garota asiática chamada Elisa Boyer.

Horas mais tarde, de madrugada, Elisa sai aos berros desesperada do quarto onde o casal estava acomodado, pedindo a ajuda da gerente do estabelecimento, Bertha Franklin, dizendo a esta que havia sido estuprada por Sam.

O cantor desceu as escadas que davam até o lobby do hotel e começou a discutir com as duas mulheres.

No meio da confusão, Bertha Franklin acertou três tiros em Sam com um revólver calibre 22, matando o cantor que tinha 33 anos.

No julgamento, Franklin alegou auto-defesa e acabou inocentada da acusação de homicídio.


Poucos dias antes dessa tragédia Sam Cooke gravou uma canção chamada “‘A Change Is Gonna Come” (“Uma mudança está acontecendo”).

A gravadora do músico, a RCA resolveu lançar um compacto com esta última gravação e mais uma música chamada “Shake” para tentar abafar o fato que se tornou um escândalo.

Até hoje a morte de Sam Cooke é cercada de dúvidas e mistérios sobre o que realmente aconteceu naquele motel.

Os funerais do soulman reuniram mais de 200 mil pessoas na igreja batista Mount Sinai, de Los Angeles, e no A.R. Leak Funeral Home, de Chicago.

Da “jam session” que rolou durante o funeral participaram numerosas figuras do soul e do gospel, desde Bobby Bland e Lou Rawls até Ray Charles, que interpretou o hino gospel “Angels Keep Watching Over Me”.

Três meses depois da sua morte, o seu amigo Bobby Womack se casou com a viúva, Bárbara Cooke.

Doze anos mais tarde, a filha de Sam e de Bárbara, Linda Cooke, casou-se com o irmão menor de Bobby, Cecil Womack, completando assim, de maneira definitiva, a árvore genealógica de uma das mais fascinantes sagas da história da música negra.

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