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quinta-feira, março 15, 2012

Bruno Tolentino versus Antônio Paulo Graça


No dia 27 de junho de 2007, o colunista Reinaldo Azevedo, da revista Veja, publicou em seu blog o texto abaixo:

Morreu hoje de manhã, aos 66 anos, no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, o poeta Bruno Tolentino. Pior para todos nós. Pior para o Brasil. Anteontem, lembrei aqui uma das muitas falsetas que a impostura lhe aprontou: em 1994, ele desancou uma tradução de um poema de Hart Crane feita por Augusto de Campos. Em resposta, fizeram um abaixo-assinado. Até a Gal Costa e a Marilena Chaui assinaram. Não convidaram o Chacrinha porque ele já havia morrido. Falarei mais de Bruno ao longo do dia e da importância de sua obra. Havia muito, desde a morte de Mário Faustino (1962), de quem era amigo, era um poeta solitário, vivendo de e em muitos exílios, sem ninguém que pudesse com ele emular, nem mesmo ombrear.

Há exatamente um ano, num 27 de junho como este, Bruno lançou aquela que é, no que respeita à produção poética, a sua maior obra: A Imitação do Amanhecer, um conjunto de 537 sonetos alexandrinos, que podem ser lidos individualmente. No conjunto, formam uma narrativa, um romance. Bruno me convidou para um bate-papo na livraria Fnac: também em prosa, era douto, divertido, original. Posso estar enganado, mas acho que os jornais não registraram uma linha. Ou o fizeram com tal discrição, que é impossível lembrar. Ele fora banido também da academia. Bruno podia ser um pouco humilhante – e até intimidador às vezes – em várias línguas. Menos para quem era capaz de ser generoso consigo mesmo para aprender. E então ele era de uma gentileza extrema.

Eu era seu amigo. Trabalhamos juntos. Ele sempre teve comigo uma lhaneza que talvez eu nem merecesse. Num tom entre amistoso e galhofeiro, chamava-me, às vezes, como a outros mais jovens do que ele, “filhinho”. Vivi dias felizes tendo-o como colega de redação nas revistas Bravo! e República. Em tudo, um homem invulgar. Era a única pessoa que eu permitia postar-se ao lado do micro enquanto eu escrevia um texto. Com olhos de uma agilidade infantil, antecipava-se, às vezes, às palavras. E lá vinha: “Filhinho, por que a gente (sic) não escreve tal coisa?”. A gente? Bruno vivia dentro de muitos textos. Eles eram de todos e de ninguém.

Estou triste, devastado por sua morte, com a sensação, comum nesses casos, mas incomum quando se trata de Bruno Tolentino, de que eu poderia ter aprendido ainda mais, de que talvez eu tenha falado demais e ouvido de menos. Bruno era genial, contraditório, fabuloso, no sentido mesmo da palavra. Sou, como sabem, aborrecidamente lógico, o que vale para os amigos, que acatam o defeito, e para os inimigos, que, às vezes, se enfurecem. Muitas vezes, eu o flagrei no que, para mim, era uma contradição inelutável. Apontava-a, como é do meu temperamento: “Não, não, filhinho, você não entendeu”. E a sua resposta saía então da literatura, da sua cultura imensa, de uma certa realidade mágica onde vivia o poeta Bruno Tolentino. Eu, terreno demais, dava-me então por vencido.

Bruno fez um bem enorme à literatura e a seus amigos e, no pouco de mal que pode ter praticado, não atingiu ninguém, a não ser a si mesmo. E até isso era parte de sua obra. Foi, a meu ver, o último representante de um país que poderia ter sido. E que não foi e não será porque a política – também as políticas culturais – se amesquinha no populismo rasteiro, na apologia da ignorância, da pequenez. Bruno, ao lado de Faustino, morto tantos anos antes, tinha sede do épico. O velório está sendo realizado no Cemitério Santíssimo Sacramento – av. Dr. Arnaldo, 1.200, em São Paulo. Seu corpo será enterrado amanhã, às 9h. Os que vão morrer o saúdam, Bruno Tolentino.


Em 1996, quando estive visitando a editora Topbooks, no Rio de Janeiro, o editor Zemário Pereira telefonou para o poeta Bruno Tolentino e me colocou na linha:

– Simão Pessoa? Olha, eu gostei muito do teu manual de canalhices e gostaria imensamente de te conhecer pessoalmente porque o escritor Antônio Paulo Graça me falou só coisas boas a teu respeito! – disse uma voz amistosa, do outro lado da linha. “O problema é que estou muito adoentado, aqui em Niterói, sem nenhuma condição de ir ao Rio de Janeiro, mas não vai faltar oportunidade.”

Transcorridos uns cinco minutos de conversa, Bruno Tolentino, que havia se transformado involuntariamente em desafeto do Antônio Paulo Graça depois de terem sido unha e carne durante vários anos, me confidenciou com humildade:

– Olha, filhinho, o Paulinho é o único cara do mundo com quem eu nunca queria ter brigado, porque gosto muito dele. Pede a ele pra me perdoar! Eu sei que ele não vai negar um pedido desses pra você!

Quando retornei a Manaus, transmiti o apelo do poeta ao escritor, durante um de nossos porres no Bar do Armando.

Birrento, o Paulinho morreu sem dar o braço a torcer e não fez as pazes com o Bruno Tolentino, um poeta polêmico e respeitado no país inteiro.


A briga entre os dois foi uma pequena bobagem.

Desde que haviam se conhecido, Bruno e Paulinho pareciam duas almas gêmeas.

O poeta visitava a casa do Paulinho todo fim de semana e ia pra cozinha preparar pratos sofisticadíssimos que deixavam a pequena Érika, única filha do Paulinho, verdadeiramente encantada.

Bruno Tolentino era um poço de erudição, cultura e cavalheirismo.

Quando eu conversava com o Paulinho por telefone, ele não se cansava de elogiar seu novo amigo.

Chegou mesmo a me enviar de presente o livro As Horas de Katarina, que Bruno Tolentino autografara para ele.

O exemplar hoje faz parte do acervo da minha filha Maíra.

No início de 1995, Bruno Tolentino pediu a Antônio Paulo Graça que fizesse a apresentação de seu novo livro, Os Deuses de Hoje, que seria publicado pela editora Record naquele ano.

Antônio Paulo Graça fez um ensaio magistral mostrando o que diferenciava a poética de Bruno Tolentino da dos outros poetas da tribo.

Amiga do Paulinho, a jornalista Luciana Villas-Boa, diretora editorial do Grupo Record, enviou o texto de apresentação para que ele corrigisse.

Paulinho ficou puto com determinados elogios feitos ao Bruno Tolentino por Giuseppe Ungaretti, Samuel Beckett, Hart Crane e Carlos Levy, que ele não havia escrito no texto original.

Na mesma hora, Antônio Paulo Graça pediu a Luciana Villas-Boas que publicasse apenas o texto original que ele estava reenviando e mandou uma carta abusada pra Bruno Tolentino, falando que aquilo tinha sido uma palhaçada. “Não se mexe em texto alheio!”, avisou.

A presepada vazou em uma pequena notinha na coluna do Ricardo Boechat, insinuando que Bruno Tolentino gostava de se auto-elogiar, inclusive cometendo a indelicadeza de alterar o prefácio dos outros a seu bel-prazer apenas para inflar ainda mais o próprio ego.

Sentindo-se agredido, Bruno Tolentino revidou com um texto em que dizia ter apenas “auxiliado seu prefaciador, o crítico amazonense Antônio Paulo Graça, a perceber que outros luminares da cultura europeia já haviam enaltecido sua poesia da mesma forma”.

Paulinho entendeu aquele epíteto de “crítico amazonense” como se fosse uma incapacidade inata de estar no nível dos luminares europeus.

Aí, resolveu descer a lenha por meio de um artigo publicado no suplemento “Ideias”, do Jornal do Brasil.

Começou desconstruindo o primeiro livro do Bruno Tolentino, As Horas de Katarina, explicando que o livro trazia embutido uma temática gay.

Não satisfeito, começou a demonstrar que todos os grandes mestres de Bruno Tolentino eram escritores ou poetas gays.

Dali em diante, o pau cantava.

Era tudo o que os poetas concretistas precisavam para sacanear com o poeta carioca e se vingarem do livro Os Sapos de Ontem, do próprio Bruno Tolentino, que desancava o concretismo.

No frigir dos ovos, Luciana Villas-Boas publicou o livro Os Deuses de Hoje com o prefácio original do Antônio Paulo Graça, mas nunca mais Paulinho quis papo com Bruno Tolentino.

Também tem dessas coisas.


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