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sábado, março 03, 2012

Eu gosto mesmo é de mulher!


Minha tia Maria Pessoa, irmã do papai, morava na rua Parintins, entre as ruas Waupés e General Glicério, região pra mim tão distante e inacessível quanto o território do Novo México, habitado pelos perigosos comanches.

A partir de 1963, entretanto, quando eu já estava com sete anos de idade, fui morar com ela.

Sua casa era imensa – sala de visitas, quatro ou cinco quartos, corredor, sala de jantar, cozinha e banheiro.

Parecia uma estância particular.

É que além de ter uma família grande (meus primos Cazuza, Raquel, Rossicler, Rosinete e Socorro), tia Maria sempre estava abrigando vários parentes oriundos de Santarém (meus primos Francisco, Raimundinho, Ronaldo, Macário, Manuel e Querubim eram hóspedes constantes do lugar).

Eu dividia um quarto com o Cazuza, que acabou, sem querer, me transformando em um voraz consumidor de histórias em quadrinhos – vício pelo qual lhe serei eternamente grato.

A casa tinha um quintal imenso, cheio de fruteiras, plantas de todos os tipos e flores a dar de pau (tia Maria gostava de cultivar flores).

No fundo do quintal, havia outra casa onde morava a Elaine, uma menina de quatro anos.

Seus pais saíam para trabalhar e ela ficava sozinha em casa, porque ainda não estudava.

Durante vários anos, Elaine acabou sendo minha parceira favorita nas brincadeiras de “patrão e empregada”, “médico e enfermeira” e “engenheiro e estagiária”, mas sem a conotação sexual que estas expressões adquiriram nos últimos anos, bando de tarados!

Como éramos as duas únicas crianças do pedaço, era natural que acabássemos bons amigos.

Sim, a gente se bolinou algumas vezes por mera curiosidade, mas nunca tentei colocar o meu “pipi” na sua “florzinha”, apesar de ela ter quase me implorado de joelhos pela iniciativa.

Naquela época, eu tinha juízo – depois de adulto foi que perdi.


Minha tia Maria era muito bonita, meiga e carinhosa.

Comecei a gostar de mulher mais do que de qualquer outra coisa porque um dia queria ter uma esposa igual a ela.

Era uma questão de tempo - o que não significa porra nenhuma quando você tem apenas dez anos.

Do lado esquerdo da casa da tia Maria morava o quituteiro Bolota, homossexual assumido, figura simpaticíssima e, também, afetadíssima, cozinheiro de mão cheia (os ingressos para suas feijoadas no restaurante do aeroporto da Ponta Pelada eram disputados a tapa), que vivia me pedindo pequenos favores (comprar um quilo de sal ou uma lata de azeite de oliva na taberna da esquina) e me recompensando regiamente pelas gentilezas.

Eu guardava os trocados recebidos em uma caixa de sapatos e quando conferia a féria no final da semana tinha grana suficiente para ir ao cine Ypiranga, comprar meia dúzia de gibis e ainda pagar os ingressos para vários amigos.

Aquele Bolota era um sujeito pai-d’égua, mas foi responsável indireto pela minha primeira desilusão amorosa.

Explico melhor.

Apesar de morar na casa da Tia Maria, eu costumava passar os fins de semana na casa dos meus pais para entregar às minhas irmãs os gibis surrupiados do Cazuza.


Um dia, retornando pra casa dos velhos, depois de uma sessão matinal no cine Ypiranga, uma garota me chamou pra conversar.

Ela perguntou como eu me chamava, onde morava, quem eram meus pais, aquelas coisas.

No começo, eu fiquei meio cabreiro, mas depois que ela me convidou pra entrar na sua casa e me serviu um copo de ki-suco de cereja, minhas desconfianças cessaram.

Eu estava com nove anos de idade e era bem mirradinho.

Ela devia ter uns 19 e possuía um corpo de potranca.

De repente, ela falou:

– Mas você é um menino muito lindo! Posso te colocar no colo?

Concordei, meio sem jeito.

A garota começou a me ninar.

Aí, sem mais nem menos, ela levantou a blusa e colocou uma de suas mamonas assassinas em minha boca.

Não me fiz de rogado e comecei a sugar avidamente aquele bico intumescido.

Depois de alguns minutos que me pareceram horas, ela, sem parar de cantar velhas músicas infantis (“Eu fui no Tororó” era uma delas), retirou a primeira e colocou a segunda mamona assassina na minha boca.

Fiquei alucinado.

Alguns minutos depois, ela baixou a blusa e me tirou do colo.

– Pronto. Agora que você está bem alimentado, já pode ir embora. Eu é que vou ficar mais um dia com fome porque não tenho nada pra comer em casa...


Ela falou aquilo com tamanha tristeza nos olhos, que quase comecei a chorar na mesma hora.

Lembrei-me que ainda tinha alguns caraminguás no bolso, do troco do ingresso do cinema.

Em valores de hoje, uns R$ 3.

Peguei as cédulas amarfalhadas, estendi a ela e falei, sem muita convicção:

– Eu acho que isso dá pra comprar pelo menos um ovo!

Seu rosto se iluminou.

Aquela grana dava pra comprar uma dúzia de ovos!

– Muito obrigado, meu príncipe, muito obrigado! – ela repetia, enquanto me cobria de beijos. “Eu vou ficar aqui em casa te esperando todo domingo! Você é muito lindo, você é muito lindo!”

Deixei a casa da garota mais agoniado do que menino novo com frieira nos pés.

Que porra era aquela?

Eu não fazia a menor ideia, mas as lembranças daqueles bicos rosados em minha boca me perturbaram o juízo durante a semana inteira.


No domingo seguinte, nem esperei para ver o segundo filme (“Hercules, Sansão, Maciste e Ursus”), abandonei o cinema no meio da sessão matinal e fui direto pra casa da minha deusa.

Depois do ki-suco de cereja e de uma nova mamada, eu lhe passava parte dos caraminguás recebidos do Bolota e ia pra casa feliz da vida.

Nessa época, o papai fazia um “rancho” mensal na cooperativa da Copam, que resultava em uma quantidade indescritível de enlatados (conservas de todos os tipos, salsichas, almôndegas, feijoada, etc.) amontoados em três caixotes de madeira na cozinha de casa.

Inocente, puro e besta, eu comecei a roubar alguns produtos para mitigar a fome crônica de minha amada.

Uma lata de corned beef aqui, uma lata de salsicha acolá, um pacote de arroz numa semana, uma lata de óleo Salada na outra.

A minha deusa ficava tão feliz que já me recebia em casa só de camisola transparente e calcinha.

Eu ficava alucinado.


Aquela mulher ia ser minha esposa, eu não tinha a menor dúvida.

Ocorre que a mamãe começou a perceber o sumiço dos mantimentos e resolveu me marcar de perto, durante minhas visitas semanais.

Uns três meses depois, ela deu o “flagra”, quando eu tentava escapulir pelo quintal com uma lata de aveia Quaker.

Na hora em que o papai chegou da refinaria, ela contou a presepada pro velho.

Depois de me dar uma surra de “sola” para eu deixar de ser ladrão, ele me levou até a casa da minha amada onde armou um acampamento de barracos.

Foi uma desmoralização federal.

Fiquei tão envergonhado e traumatizado que passei uns seis meses sem colocar os pés no cine Ypiranga.

E nunca mais tive coragem de passar em frente da casa da minha deusa.

Um comentário:

Anônimo disse...

Mãe sempre atrapalha. Freud explica.