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quarta-feira, novembro 03, 2010

Carmem, doida pra viver - Jornalismo verdade nos anos de chumbo


Texto: Plinio Valério

Foto: Antonio Menezes

A vida de Carmem era perambular pelas ruas da cidade. Sua ocupação preferida: fazer carretos para algumas pessoas que compravam no mercado Adolpho Lisboa e correr atrás dos meninos que mexiam quando ela passava. Tudo que pedia e tudo que ganhava era para levar ao Hospício Eduardo Ribeiro e repartir com suas colegas. Juntava tudo e diariamente ia ao hospício dividir o apanhado. Todos que aqui vivem, pelo menos na faixa de vinte e dois anos em diante, se lembram de “Carmem Doida”. As crianças se divertiam com ela e os adultos dela gostavam pois sempre foi uma pessoa prestativa e solidária.

De repente Carmem sumiu. Dela não se ouviu mais falar. Morreu – pensaram todos. Mas Carmem vive, só que paralítica. Está nesta situação desde 74, vítima de um guarda que a colocou para fora de um ônibus. Ela caiu, bateu a cabeça e o joelho e dali por diante começou a ter problemas até ficar paralítica. Reclama, mas se conforma com seu destino. Agora, que o Natal se aproxima, ela fica indócil, pois para ela o Natal era e continua sendo a mais bela festa de todas. Carmem vive o Natal. Ela até já fez seu pedido a Papai Noel: quer ganhar dois cadernos e um lápis com borracha, de cores preto e vermelho. Um pedido simples para quem vive como ela vive.

Descobrindo Carmem

A primeira surpresa: “Carmem Doida” está viva. Mora com uma senhora numa rua perto da prefeitura. Fomos até lá.

Dona Zizi, a dona da casa, nos recebe bem e fala um pouco a respeito de Carmemao mesmo tempo que nos conduz ao seu quarto.

– Carmem. Esses dois rapazes são de um jornal. Vieram conversar contigo.

– Eu vou sair no jornal, é? Minha cara vai aparecer?

– Vai sim, é só você concordar...

Ela concordou e começou a falar. O jeito, o modo de falar e as palavras que usa são as mesmas, só não os gestos. As pernas imóveis cobertas por um lençol e as mãos também imóveis colocadas por sobre o peito. Só os olhos se movimentam. Enormes e espertos, como esperto é o seu modo de falar.

Segunda surpresa: Carmem sempre teve um lar. Desde os três anos de idade vive com a mãe de Dona Zizi, com quem foi criada e que depois de doente chama de mãe. Passava o dia inteiro na rua, mas dormia em casa. Não precisava de nada, pois dispunha de tudo. Se deixavam ela perambular pelas ruas era porque o médico pedia para não impedi-la. Esteve internada algumas vezes, mas sempre soube o que fazia. Adorava correr atrás dos meninos pelas ruas e conversar com as donas de casa quando fazia a faxina nas casas. Ganhava dinheiro, comida, roupas e outras coisas mais, juntava tudo num saco e rumava para o hospício, lá dividia com a turma. Ela adquiriu este hábito desde a primeira vez que esteve por lá. Levava até tabaco escondido debaixo da roupa pra distribuir. Tem uma queixa: ninguém a visita.

– Na rua era Carmem, Carmem, Carmem... Todo mundo gostava de mim. Mas hoje ninguém vem aqui me ver...

Terceira surpresa: Carmem tem 59 anos e Anjos como sobrenome. É natural do Cacau Pirera e nasceu no dia 18 de abril de 1918. Jamais esqueceu a data de seu aniversário e sempre fez questão de ganhar presente. Tem um calendário na grade de sua cama com duas datas assinaladas: 25 de dezembro e 18 de abril. Ela está indócil.

– Já fez minha carta, sobrinha?

– Ora, Carmem, você já está muito grande para ganhar presente de Papai Noel.

– Mas eu quero...

– O que você quer ganhar?

– Eu quero ganhar (pausa) dois cadernos grandes e dois lápis com borracha. Vermelho e preto!

Dona Zizi diz que ela ainda tem o hábito de anotar tudo que faz. Só que não escreve. Risca uns números e chama isso de tarefa. Qualquer coisa que faça ou diga, pega o caderno e anota (risca).

– Você só quer isso de Papai Noel?

– Só. Só quero isso... Será que ele me dá?

– Pode ficar tranquila, ele vai dar sim.

Diariamente Carmem ia ao Mercado Adolfo Lisboa a fim de fazer carretos. Num dia – ela não lembra qual – do ano de 1974, foi chamada por uma senhora. Pegou a encomenda e rumou para a Estação de Ônibus. Como sempre fazia, entrou pela porta da frente. Nunca pagou ônibus na vida. Um guarda viu ela entrando e botou-a pra fora dizendo:

– Sai daqui. Lugar de doido é no hospício!

E a empurrou. Ela caiu. Bateu a cabeça e joelho. Chegou em casa e não contou nada. Escondeu. Com o passar do tempo foi sentindo uma dor esquisita no joelho. Levada ao médico foi receitada, mas não havia tempo. Acabou ficando paralítica. Vive recolhida a um quarto desde 1974 e até para tomar banho tem que ser carregada, trabalho que é feito diariamente pelas empregadas de Dona Zizi.

Lucidez

Apesar de tudo ela ainda é lúcida:

– Sou doida, mas tenho juízo – diz ela.

A verdade é que Carmem sempre soube o que fazia. Nunca fez nada que não soubesse explicar. A uma brincadeira, responde com outra:

– O Bombalá mandou lembranças pra você...

– Êta! Aquele doido?! (risos)

Dona Zizi diz que os médicos nunca souberam explicar ao certo qual o problema de Carmem, já que ela sempre agiu direito. Gostava de correr atrás de meninos, fazer carreto, faxina e andar de ônibus.

– Seu negócio era perambular pelas ruas e nós não podíamos impedi-la – conta Dona Zizi.

Mas todas as noites, por volta de seis e meia, o mais tardar sete horas, ela voltava.

Natal e aniversário

Duas datas tem significado especial para Carmem: Natal e seu aniversário. No tempo que podia andar, dia de seu aniversário ia às rádios colocar melodia para ela mesma e exigia presente das pessoas conhecidas. Não sabe explicar porquê, mas ainda gosta.

O Natal para ela é a data máxima da humanidade. Faz festa, vive, adora a comida de Natal. Aqui, um lamento:

– Ah, meu Deus! Que saudade de andar. Que saudade das minhas colegas. Das vitrines, dos meninos, das festas, das ruas... Saudade de tudo.

O assunto é desviado. Poupamos este sofrimento a Carmem.

– Você nunca quis casar não?

– Êta! Pra lá. Sou doida, mas tenho juízo.

Doida, tendo juízo ou não, Carmem ainda vive. Sente prazer em falar das coisas que fez. Conta coisas incríveis e ri, tal qual uma criança traquina. Fica feliz da vida quando recebe uma visita e lamenta não ter sido visitada ultimamente. Se perde em pensamentos quando alguém cita o nome de Bebel, um motorista de ônibus que ficava lá pela estação:

– Você gostava do Bebel?

Ela responde com um sorriso malicioso. E quando nos despedimos, ela diz:

– Já vão, queridos?



(publicado no jornal A Crítica, em 21 de novembro de 1977)

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