domingo, junho 19, 2011

Aula 45 do Curso Intensivo de Rock: Black Sabbath


No início de 70, um então desconhecido quarteto da cidade inglesa de Birmingham chocaria a Europa ao gravar um álbum que ultrapassava todas as fronteiras da brutalidade sonora que eram conhecidas até então.

Muitas bandas já tocavam alto na época: The Who, Cream, Deep Purple, Led Zeppelin e o pré-punk de Detroit (The Stooges e MC5).

Enquanto o psicodelismo dos hippies ainda ecoava por todo o mundo e o rock progressivo passava por seu período mais promissor, o vocalista Ozzy Osbourne declarava: “Nossa música é uma reação a toda essa babaquice de paz, amor e felicidade. Os hippies ficam tentando te convencer de que o mundo é uma maravilha, mas é só olhar ao redor para ver em que merda nós estamos.”

Ozzy tinha todas as razões para reclamar da vida: teve uma infância pobre e passou boa parte de sua adolescência trancado nas cadeias de Aston, o bairro miserável de sua cidade natal.

Em 67 resolveu montar um grupo com o guitarrista Tony Iommi, o baixista Terry “Geezer” Butler e o baterista Bill Ward, começando a tocar no circuito de bares por cachês irrisórios.

Como resultado direto de suas frustrações e problemas financeiros, viram seu som se tomar mais sujo e agressivo a cada dia.

A banda se acostumara a usar altíssima amplificação na aparelhagem porque os inferninhos em que tocavam eram tão barulhentos que mal se podia ouvi-los.

Além desse pequeno detalhe (transposto para o disco de estréia), o heavy metal do Black Sabbath era completamente diferente de tudo que se fazia na época – mórbido, cruel, demoníaco.


“Black Sabbath”, o álbum de estréia do grupo – lançado numa sexta-feira, 13 de fevereiro –, foi a válvula de escape de toda essa revolta acumulada ao longo de três anos de estrada.

A violência condensada em vinil.

Da abertura da faixa-título, com o som de chuva e sinos, até o último acorde de “Warning”, tínhamos um festival de acordes tonitroantes, vocais ensandecidos e ritmo pulsante.

Os temas abordados – missas negras, encontros com Lúcifer e predições catastróficas – eram frutos, principalmente, da leitura exaustiva das obras do inglês Dennis Wheatley.

Três músicas deste LP, ao menos, ficariam marcadas para sempre na história do heavy: a já citada “Black Sabbath”, “The Wizard” e “N.I.B.”.

Junto a “Behind The Walls Of Sleep” (inspirada num livro de H.P. Lovecraft), “Evil Woman, Don’t Play Your Games With Me”, “Sleeping Village”, e, em algumas edições, a faixa-extra “Wicked World” (lançada no mês anterior como o primeiro compacto da banda), formam um álbum fundamental e precursor do que se viria a fazer em termos de rock pesado.

Com sua sonoridade única, o heavy do Black Sabbath não nasceu de nenhum desdobramento de outro gênero, mas surgiu num rompante de ousadia de quatro músicos moldados pelas dificuldades e pela revolta contra o establishment “bicho-grilo”.

Enquanto o rock progressivo promovia viagens por paisagens idílicas, o Black Sabbath oferecia uma passagem sem volta ao inferno.


Logo a gravadora Vertigo os chamou para gravar um segundo disco, “Paranoid”.

O LP traz hits a dar com pau: além da faixa-título, ainda há “Iron Man”, “War Pigs”, a macabra “Electric Funeral” e a instrumental “Rat Salad”.

Um álbum tão bom que chegou a incomodar a esnobe crítica musical da época – que definiu os riffs de Tony lommi como “aqueles que até um débil mental consegue tirar”.

Os pubs barulhentos e esfumaçados foram deixados de lado para a primeira grande turnê americana, com muito volume sonoro, cenários de cetim negro, letras bizarras e os berros de Ozzy endoidecendo o público.

Para chocar a platéia, o vocalista supostamente devorava morcegos vivos em cena e se dizia o emissário terrestre de Satã.

O LP seguinte “Masters Of Reality”, tinha “Children Of The Grave” e “Sweat Leaf”, mas era o mais fraco de todos.

O quarteto inglês aparentemente havia puxado o freio de mão

“Black Sabbath Volume 4”, entretanto, é um convite para fazer a festa no inferno com “Supernaut”, “Wheels Of Confusion” e – para os apaixonados – “Changes”, aquela com Rick Wakeman nos teclados (a participação secreta mais divulgada do mundo).

Os discos do Black Sabbath começaram a ser usados em celebrações demoníacas, orgias sexuais no meio da floresta e, dizem, até como trilha musical de sacrifícios humanos.

Círculos de bruxos ligados à magia negra faziam incensação pública do conjunto, decodificando as mensagens secretas diluídas nas letras.

Os músicos tiveram que prestar declarações à imprensa e à polícia, explicando que tudo aquilo não passava de “tiração de onda”, não eram satanistas e não tinham nada a ver com a doideira macabra dos tietes.

O nível de qualidade do grupo é mantido – com ligeiríssimas chuvas ou trovoadas – até o quinto disco, “ Bloody Sabbath”, de 1974.

É a época de ouro do quarteto, que deu ao mundo clássicos do rock como “Paranoid”, “War Pigs”, “Children Of The Grave”, “Changes”, “Sabbath Bloody Sabbath” e muitos outros.

O bicho começa a pegar no disco seguinte, “Sabotage”.

A exigência de muitas composições em pouco tempo e a vida junkie detonam a qualidade do trabalho, que jamais teria a mesma consistência.


Depois disso, o grupo entrou em parafuso: Ozzy exagerou na bebida e deixaram Geezer Butler se meter com o jazz.

A banda põe a cabeça fora d’água no último disco com Ozzy, “Never Say Die!”, de 1978, o melhor desde Sabbath Bloody Sabbath.

O vocalista partiu para uma brilhante carreira-solo enquanto o resto da banda continuou tentando segurar a peteca ao longo dos anos.

Tempos depois, Bill Ward e Geezer Butler também colocariam a viola no saco e partiriam para outros projetos, deixando Iommi sozinho.

Fãs mais radicais acham que a banda acabou com a saída do cantor, mas não é bem assim.

Ronnie James Dio entrou cheio de disposição e mostrou do que era capaz em “Heaven And Hell”, um álbum merecedor do nome Black Sabbath, com canções como “Neon Knights” e “Children Of The Sea”.

A bateria de Vinnie Appice é que, infelizmente, não chega aos pés do que fazia Bill Ward.

Segue-se o mediano “The Mob Rules” – uma tentativa de repetir “Heaven And Hell” – e o fraquíssimo ao vivo “Live Evil”.

James Dio se vai e entra a fera Ian Gillan para um sopro de vida, “Born Again”.

Depois disso, o grupo entrou em lento processo de decadência, movido por batalhas egocêntricas.

No entanto, apesar de ter feito tantas obras-primas do rock pesado, o Black Sababath permanece como um dos mais subestimados de todos os tempos.

É bem verdade que o heavy tem uma incrível facilidade em gerar mediocridades, dando farta munição para os detratores do gênero.

Mas é inadmissível que a importância do Black Sabbath ainda seja posta em dúvida a despeito de algumas das mais conceituadas bandas dos anos 80 – como o Faith No More e o Soundgarden – se declararem tão influenciadas por seu som.


Em 1998, entretanto, o Black Sabbath juntou-se ao Kiss na seleta lista dos veteranos que voltaram do limbo para a parada de sucessos.

“Reunion”, o primeiro álbum da formação original em 20 anos, debutou em 11º lugar, colocação que o grupo inglês não alcançava desde o lançamento do clássico “Sabbath Bloody Sabbath”, de 1974.

Gravado ao vivo na cidade natal da banda, o álbum é motivo de orgulho para o guitarrista Tony Iommi, único integrante que passou por todas as formações dos 33 anos de Black Sabbath.

“Esse show me deixou arrepiado”, garantiu. “Quando voltei a tocar com os outros três e senti a química funcionando, o som certo, depois de tanto tempo, foi como se nunca nos tivéssemos separado”.

Não foram apenas os velhos amigos ou os vizinhos de infância que apareceram para o reencontro.

“Veio gente de muitos países, até da Ásia, o que nos deu a dimensão histórica daquele momento”, Iommi avalia.

Depois do lançamento do disco, o reformado Black Sabbath iniciou sua primeira turnê desde a fatídica excursão de 1978, que terminou com Ozzy Osbourne em carreira-solo.

“Nossa briga ocorreu há tanto tempo que os motivos já foram esquecidos”, explicou o guitarrista. “Acho que o Black Sabbath não poderia acabar sem que as pazes fossem feitas sobre um palco”.

As pazes foram seladas em 1992, quando Iommi tocou na suposta despedida de Ozzy Osbourne do rock – desde então, o cantor já gravou dois novos álbuns e consagrou o formato da turnê-festival Ozzfest.

O reencontro entre os dois velhos antagonistas não agradou a Ronnie James Dio, o segundo vocalista do Sabbath, que voltara a cantar com a banda.

Furioso, Dio largou o grupo atirando pra todo lado.

Foi a deixa que Iommi e Osbourne esperavam para a reaproximação definitiva.


Em 1997, três quartos da banda (menos o baterista Bill Ward) reuniram-se na turnê Ozzfest.

Ward, que havia sofrido um ataque cardíaco, juntou-se aos outros três apenas no show que virou o CD “Reunion”.

“Bill está inteiro”, contou Iommi. “Recuperou-se bem do problema cardíaco, acho até que está melhor que nos dias de pauleira da banda”.

Além das faixas ao vivo, “Reunion” traz duas gravações de estúdio inéditas.

“A idéia surgiu entre mim e Ozzy”, o guitarrista conta. “Estávamos no estúdio, mixando o álbum, quando percebemos que tínhamos um bom pretexto para voltar a gravar. Compusemos as músicas, chamamos os outros e chegamos ao mix definitivo em apenas quatro dias”.

Apesar desse clima cordial e inspirado, Iommi revelou que não havia planos para um novo álbum da formação original nem turnês além da planejada em 1999 nos EUA, com abertura de Pantera e Deftones, que comemorava 30 anos do grupo.

“Adoraria levar os shows para a Europa e a América do Sul”, disse. “Mas nosso ritmo atual não permite planejamento a longo prazo, porque Ozzy tem sua carreira-solo e os outros têm os próprios problemas. Cumprimos uma etapa por vez.”


Ele confessa que um disco novo com Ozzy, Butler e Ward o deixaria muito feliz.

“O que não falta são candidatos para produzir esse álbum”, brinca.

Mas isso é fato. O Black Sabbath influenciou praticamente todas as bandas de rock que surgiram após 1974, seu auge criativo e comercial.

De Metallica a Cardigans, o que não falta são covers e homenagens aos velhos ídolos.

“A primeira vez que ouvi os Cardigans interpretando Sabbath foi quando um locutor de rádio colocou a faixa pra eu escutar durante uma entrevista, na Suécia”, o guitarrista lembra. “A princípio, achei que era piada – uma versão lounge, meio bossa nova –, mas, depois, fui gostando da coisa. É um dos meus covers favoritos do Sabbath pela ousadia”.

Ciente do apelo comercial do grupo, Iommi conta que existem planos para o lançamento de brinquedos inspirados nos músicos do Black Sabbath, que serão confeccionados pelo mesmo criador da linha de action figures do Kiss, o desenhista de quadrinhos Todd McFarlane (criador de Spawn).

“Mal posso esperar para ver o meu boneco de plástico”, ele ri.

O que os conservadores terão a dizer sobre crianças brincando com “soldadinhos” do Sabbath?

“As crianças adoram filmes de terror, adoram Spawn, por exemplo, que é uma criatura do inferno. Só os fanáticos vêem esse tipo de entretenimento como um sinal do anticristo. Ninguém aqui adora ou adorou o demônio e se outras bandas dizem que levam isso a sério, problema delas”, afirma. “Achar que o rock é a música do diabo é muito anos 50”. No caso do Sabbath, anos 70.


O vocalista Ronnie James Dio foi (entre 1978 e 1982 e 1991 e 1993) a voz mais inteligível do Black Sabbath.

Pequeno e desengonçado, ele pode ser definido como uma espécie de duende do metal, mistura de um gremlin de Joe Dante com o cantor Steve Tyler, do Aerosmith.

Nesse período com o Sabbath, Dio – além de ser injustiçado pelas comparações com outros dois vocalistas da banda, Ozzy Osbourne e Ian Gillan – colaborou para imprimir certa consistência teórica à banda.

Inteligente, bem articulado, foi ele que, em entrevistas, deu a dimensão ficcional devida ao mito de que a banda servia a cultos demoníacos.

Aos 50 anos, James Dio diz não saber até quando vai figurar no hall of fame do rock.

“Enquanto os fãs quiserem, eu canto, mas o rock’n’roll é sempre jovem e eu não”, brincou.


Sua nova turnê mundial tem como base o disco da sua banda, “Magica”, lançado em 2001.

A banda, que leva seu nome, foi criada por ele e pelo guitarrista Tony Iommi, no período em que o Sabbath ficou no limbo criogênico.

O James Dio Group já gravou oito discos, nos intervalos das participações de seu líder e vocalista no Black Sabbath e no Rainbow (outro grupo ancestral, fundado por Ritchie Blackmore, quando saiu do Deep Purple, e já desaparecido).

Atualmente, a banda conta com o guitarrista Tracy G., o baixista Larry Dunce e o baterista Vinnie Apice.

Capaz de introduzir no universo temático restrito do heavy metal assuntos como o divórcio e as injustiças sociais, Dio comenta que não tem ouvido muita coisa interessante no rock.

No show, ele diz que fala principalmente dos problemas do mundo sob a ótica dos jovens. “É essa a nossa abordagem, com um toque de fantasia e onirismo”.


O disco “Magica” marcou a volta de Dio ao estúdio após quatro anos sem gravar canções inéditas.

Seguindo a tradição do metal da velha-guarda, “Magica” evoca feiticeiros, climão medieval e outras características, por assim dizer, básicas do gênero.

“Heavy metal é o modo de expressão com o qual eu me identifico e o disco Magica é a reafirmação desse sentimento”.

Nessa toada, o compositor de “Holy Diver” manda um recado aos detratores do heavy metal clássico.

Para ele, o ato de balançar a cabeça ao som do rock pesado com instrumental bem trabalhado não tem prazo de validade. É eterno.

“Eu ouço essa história de que o heavy metal está morto há anos, o que não é verdade”, continua. “Os Backstreet Boys é que serão um grupo fora de moda daqui a bem pouco tempo”, ironiza.

O veterano metaleiro de dotes vocais exuberantes também não se mostra muito empolgado com a atual produção pesada.

“Infelizmente não tenho ouvido bons cantores de rock, essa geração é melhor servida de instrumentistas, principalmente baixistas e bateristas, adoro o Flea do Red Hot Chili Peppers”.

Quem são, então, os melhores vocalistas do rock pesado?

“Rob Halford (ex-Judas Priest), Bruce Dickinson (Iron Maiden) e Ian Gillan (Deep Purple) são os meus prediletos”, diz ele.

Ou seja, todos dinossauros carimbados da era jurássica do rock. O vocalista sabe das coisas.

Dio ajudou a criar uma das maiores tradições do heavy metal.

No documentário “Metal – a headbangers journey” ele é citado como um dos inventores do “chifrinho” feito com as mãos, imitado por fãs do gênero no mundo inteiro.

Segundo ele, o símbolo era usado por sua avó italiana, e servia para afastar (ou provocar) o “mau olhado”.

O vocalista morreu de câncer no estômago, aos 67 anos, em maio de 2010.

Um comentário:

Liliana Miranda Ferreira disse...

Adorei a matéria. Parabéns. Sempre aprendo mais com esta adorável máquina, chamada Internet. Pesquisando sobre a morte de Arturo Vega, achei uma matéria sobre o Bar Nova Iorquino CBGB, também muito interessante.
Adoro Metal. O Black Sabbath foi a banda que me iniciou. Depois vieram muitas outras. No começo ouvia somente as músicas mais leves, mais o heavy metal é contagiante e não conseguimos ouvir só os sons "maneros". Hoje ouço o Rotting Christ, por exemplo...rs . Infelizmente hoje em dia o metal não é valorizado e concordo com o mestre Dio: os "dinossauros carimbados da era jurássica do rock" são e serão eternos. Uma forma de os manter vivos é que no mínimo ensinemos aos nossos filhos gostar de Heavy Metal! Eu consegui isso. Um abraço