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terça-feira, agosto 18, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 21

 

Meu irmão Simas Pessoa e meu primo Cazuza

21. Quando eu era criança, por volta dos nove anos de idade, meu grande ídolo no futebol era meu primo José Alberto Régis Batista, o Cazuza, seis anos mais velho do que eu, com quem dividia um quarto na casa da tia Maria, irmã do meu pai, ali na Rua Parintins, entre a Rua Waupés e a General Glicério, na divisa com a Praça 14. No campinho de várzea ao lado de nossa casa, cujas partidas eu acompanhava da janela, o Cazuza costumava infernizar as zagas adversárias com dribles desconcertantes, cabeçadas fulminantes e chutes indefensáveis. Quando eu crescesse, queria ser como ele. O campinho hoje pertence ao Edson da Rivera.

Em 1965, faltando duas semanas para o início do campeonato amazonense juvenil, o técnico Rubem Correia foi chamado para montar e dirigir a equipe juvenil do Olímpico. No jogo de estreia, o Olímpico perdeu do Nacional de 3 a 1. No jogo seguinte, nova derrota para o América por 1 a 0. Os dirigentes do Clube dos Cinco Aros ficaram cabreiros. Rubem Correia, que antes já havia treinado o Botafogo e o Ypiranga, da Cachoeirinha, resolveu garimpar novos talentos entre os peladeiros da cidade para reforçar seu elenco. No campo do Oratório Domingos Sávio descobriu Wandi, Mário Bacuri e Cazuza. No campo do Labor descobriu Orlando e Bioca. No campo do Peñarol descobriu Pompeia e Zequinha. Montou um timaço.

Aos 16 anos, Cazuza começou a jogar de centroavante no juvenil do Olímpico Clube. Foi tricampeão (1965, 1966 e 1967) e três vezes artilheiro do campeonato amazonense, jogando ao lado dos moleques já citados e de outros grandes craques como o goleiro Iraúna Jacob (hoje um conceituado médico cirurgião), o lateral direito Calderaro (hoje professor de Educação Física) e o armador Mário Simões (hoje engenheiro civil). Tenho absoluta certeza de que Cazuza seria um dos melhores jogadores profissionais do Amazonas se não tivesse tido sua brilhante carreira interrompida abruptamente aos 21 anos, quando um estúpido zagueiro, após um drible desconcertante, arrebentou maldosamente sua perna direita. A história se passou mais ou menos assim.

Em 1971, Cazuza e Mário Bacuri aceitaram um convite do time profissional misto do São Raimundo para participarem de dois amistosos contra times de Santarém (PA). Como eram apenas aspirantes do Olímpico Clube, não viram nenhum inconveniente em aceitar o convite e se mandaram para a Princesinha do Tapajós. O São Raimundo venceu as duas partidas graças ao quatro gols de Cazuza e um de Mário Bacuri. Na volta, os dois aspirantes foram cortados do time juvenil do Olímpico e proibidos de participar de qualquer competição profissional ou amadora.

Os dirigentes do São Raimundo compraram a briga, apelaram pra Justiça Desportiva, fizeram o diabo a quatro. Mário Bacuri e Cazuza foram contratados pelo São Raimundo e conquistaram o direito de disputar o campeonato profissional. Como o centroavante titular do “Tufão da Colina” era o famoso artilheiro Santarém, Cazuza aceitou jogar na ponta direita.

Sua estreia profissional, por coincidência, ocorreu contra o Olímpico Clube. O quarto-zagueiro Dirley ficou encarregado de marcá-lo. Lá pelas tantas, Mário Bacuri tocou para Augusto e este lançou uma bola pro Cazuza, meio na dividida. O zagueiro do Olímpico correu pra disputa. Cazuza chegou primeiro, de costas para o zagueiro, e deu um leve “tapa” na bola, para aplicar o conhecido drible “rabo de vaca”, uma de suas especialidades.

Quando girou o corpo pra pegar a bola do outro lado, sentiu uma dor paralisante da cintura pra baixo. O zagueiro Dirley havia entrado de joelho na parte posterior de sua coxa direita e seu pé ficara preso na grama sob a chuteira do adversário. O ponta-direita caiu no chão, gritando de dor. O massagista do São Raimundo entrou em campo e Cazuza saiu de maca.

Cinco minutos depois, aparentemente recomposto, Cazuza entrou em campo para recomeçar a partida. Não deu nem cinco passos. A dor paralisante voltou e ele desabou no chão pela segunda vez. Saiu de campo direto para o hospital. Diagnóstico: rompimento dos meniscos internos e externos.

Como estávamos na pré-história do futebol amazonense e não havia nenhum cirurgião especializado em medicina esportiva disponível para operá-lo, sua perna foi apenas imobilizada com gesso e tratada a banhos de luz. Nunca mais o atleta recuperou sua mobilidade. Sua carreira profissional foi interrompida por aquele acidente de percurso.

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