21. Quando eu era
criança, por volta dos nove anos de idade, meu grande ídolo no futebol era meu
primo José Alberto Régis Batista, o Cazuza, seis anos mais velho do que eu, com
quem dividia um quarto na casa da tia Maria, irmã do meu pai, ali na Rua
Parintins, entre a Rua Waupés e a General Glicério, na divisa com a Praça 14.
No campinho de várzea ao lado de nossa casa, cujas partidas eu acompanhava da
janela, o Cazuza costumava infernizar as zagas adversárias com dribles
desconcertantes, cabeçadas fulminantes e chutes indefensáveis. Quando eu
crescesse, queria ser como ele. O campinho hoje pertence ao Edson da Rivera.
Em 1965,
faltando duas semanas para o início do campeonato amazonense juvenil, o técnico
Rubem Correia foi chamado para montar e dirigir a equipe juvenil do Olímpico.
No jogo de estreia, o Olímpico perdeu do Nacional de 3 a 1. No jogo seguinte,
nova derrota para o América por 1 a 0. Os dirigentes do Clube dos Cinco Aros
ficaram cabreiros. Rubem Correia, que antes já havia treinado o Botafogo e o
Ypiranga, da Cachoeirinha, resolveu garimpar novos talentos entre os peladeiros
da cidade para reforçar seu elenco. No campo do Oratório Domingos Sávio
descobriu Wandi, Mário Bacuri e Cazuza. No campo do Labor descobriu Orlando e Bioca.
No campo do Peñarol descobriu Pompeia e Zequinha. Montou um timaço.
Aos 16 anos,
Cazuza começou a jogar de centroavante no juvenil do Olímpico Clube. Foi
tricampeão (1965, 1966 e 1967) e três vezes artilheiro do campeonato
amazonense, jogando ao lado dos moleques já citados e de outros grandes craques
como o goleiro Iraúna Jacob (hoje um conceituado médico cirurgião), o lateral
direito Calderaro (hoje professor de Educação Física) e o armador Mário Simões
(hoje engenheiro civil). Tenho absoluta certeza de que Cazuza seria um dos
melhores jogadores profissionais do Amazonas se não tivesse tido sua brilhante
carreira interrompida abruptamente aos 21 anos, quando um estúpido zagueiro,
após um drible desconcertante, arrebentou maldosamente sua perna direita. A
história se passou mais ou menos assim.
Em 1971, Cazuza
e Mário Bacuri aceitaram um convite do time profissional misto do São Raimundo
para participarem de dois amistosos contra times de Santarém (PA). Como eram
apenas aspirantes do Olímpico Clube, não viram nenhum inconveniente em aceitar
o convite e se mandaram para a Princesinha do Tapajós. O São Raimundo venceu as
duas partidas graças ao quatro gols de Cazuza e um de Mário Bacuri. Na volta,
os dois aspirantes foram cortados do time juvenil do Olímpico e proibidos de
participar de qualquer competição profissional ou amadora.
Os dirigentes
do São Raimundo compraram a briga, apelaram pra Justiça Desportiva, fizeram o diabo
a quatro. Mário Bacuri e Cazuza foram contratados pelo São Raimundo e
conquistaram o direito de disputar o campeonato profissional. Como o
centroavante titular do “Tufão da Colina” era o famoso artilheiro Santarém,
Cazuza aceitou jogar na ponta direita.
Sua estreia
profissional, por coincidência, ocorreu contra o Olímpico Clube. O
quarto-zagueiro Dirley ficou encarregado de marcá-lo. Lá pelas tantas, Mário
Bacuri tocou para Augusto e este lançou uma bola pro Cazuza, meio na dividida.
O zagueiro do Olímpico correu pra disputa. Cazuza chegou primeiro, de costas
para o zagueiro, e deu um leve “tapa” na bola, para aplicar o conhecido drible
“rabo de vaca”, uma de suas especialidades.
Quando girou o
corpo pra pegar a bola do outro lado, sentiu uma dor paralisante da cintura pra
baixo. O zagueiro Dirley havia entrado de joelho na parte posterior de sua coxa
direita e seu pé ficara preso na grama sob a chuteira do adversário. O
ponta-direita caiu no chão, gritando de dor. O massagista do São Raimundo
entrou em campo e Cazuza saiu de maca.
Cinco minutos
depois, aparentemente recomposto, Cazuza entrou em campo para recomeçar a
partida. Não deu nem cinco passos. A dor paralisante voltou e ele desabou no
chão pela segunda vez. Saiu de campo direto para o hospital. Diagnóstico:
rompimento dos meniscos internos e externos.
Como estávamos
na pré-história do futebol amazonense e não havia nenhum cirurgião
especializado em medicina esportiva disponível para operá-lo, sua perna foi
apenas imobilizada com gesso e tratada a banhos de luz. Nunca mais o atleta
recuperou sua mobilidade. Sua carreira profissional foi interrompida por aquele
acidente de percurso.


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