18. Todo desfile de escola de samba possui
seus momentos de tensão. Há fantasias rasgando, destaques passando mal,
ritmistas desaparecendo, alegorias pegando chuva e presidentes fazendo
promessas aos santos em tempo real. Mas poucas crises carnavalescas alcançaram
o nível de confusão produzido por um simples centauro quebrado.
Naquela noite,
o GRES Vitória Régia organizava os últimos detalhes da concentração quando o
carro abre-alas resolveu exercer seu direito constitucional de apresentar
defeito mecânico. A alegoria trazia um majestoso centauro, símbolo de força,
imponência e outras virtudes mitológicas que desaparecem imediatamente quando
uma roda quebra. O desfile estava prestes a começar. O relógio corria. O
público aguardava. E o centauro permanecia imóvel, tão útil quanto um submarino
atolado no deserto.
Enquanto a
equipe de manutenção tentava ressuscitar a alegoria na base da reza, martelo e
improviso, as demais alas seguiram ocupando suas posições. Quinze minutos
depois, o milagre aconteceu. O carro voltou à vida. Ou quase. Uma multidão
começou a empurrá-lo em velocidade máxima para colocá-lo na frente da escola
antes que alguém percebesse o atraso. Na dianteira vinham os diretores de
harmonia, já em estado de pré-infarto.
– Abram alas,
que o centauro vem aí! Abram alas, que o centauro vai passar!
A ordem era
clara. Objetiva. Impossível de ser mal interpretada. Ou pelo menos parecia. Foi
então que entrou em cena Boca de Bilha.
Toda escola de
samba possui uma figura que transforma pequenos problemas em grandes
espetáculos. Boca de Bilha era essa pessoa. Integrante da bateria e sempre
disposto a colaborar, percebeu a dificuldade dos diretores e resolveu ajudar. O
problema é que sua audição, sua interpretação de texto ou sua compreensão da
mitologia grega talvez não estivessem funcionando perfeitamente naquele
momento. Sem pedir autorização a ninguém, disparou na frente da alegoria
empurrando brincantes para os lados como um guarda de trânsito possuído. E
começou a berrar:
– Abram alas
que o seu Dauro vem aí! Abram alas que o seu Dauro vem aí!
A situação
mudou instantaneamente. Porque uma coisa é um centauro. Outra completamente
diferente é Dauro Braga. Em poucos segundos, a informação se espalhou pela
concentração como fofoca em grupo de família.
– O seu Dauro
tá vindo!
– Sai da
frente!
– Abre espaço!
– Corre!
Ninguém sabia
exatamente o que estava acontecendo. Mas, quando dezenas de pessoas começam a
correr e alguém grita o nome de um empresário importante, a reação natural do
brasileiro é correr também e perguntar depois. As alas começaram a se deformar.
Os brincantes se empurravam. As baianas procuravam abrigo. Os componentes se
espalhavam em todas as direções. Parecia uma evacuação de emergência. E no meio
daquele pandemônio vinha o pobre centauro, inocente, sendo empurrado por
dezenas de pessoas que não entendiam por que a multidão estava fugindo dele.
O mais
engraçado é que o próprio Dauro Braga (foto), pai do presidente da escola Darlan
Braga, sequer estava envolvido na confusão. Provavelmente encontrava-se em
algum ponto da concentração resolvendo problemas infinitamente mais
importantes. Mas, por alguns minutos gloriosos, tornou-se involuntariamente uma
espécie de força da natureza. Uma entidade tão poderosa que bastava anunciarem
sua chegada para multidões abrirem passagem em pânico. Nem Moisés abriu o Mar
Vermelho com tanta eficiência. Nem carro de bombeiro. Nem ambulância. Nem
procissão.
A simples
hipótese de que “seu Dauro vinha aí” produziu resultados muito mais rápidos do
que qualquer planejamento de harmonia. No fim, o desfile aconteceu, o centauro
ocupou seu lugar e a escola seguiu seu caminho. Mas a verdadeira lenda daquela
noite não foi a alegoria mitológica. Foi a descoberta de que, na cabeça de Boca
de Bilha, centauro e seu Dauro eram praticamente a mesma coisa. E, pelo
comportamento da multidão, talvez o empresário fosse até mais assustador.

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