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quinta-feira, agosto 13, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 18

 


18. Todo desfile de escola de samba possui seus momentos de tensão. Há fantasias rasgando, destaques passando mal, ritmistas desaparecendo, alegorias pegando chuva e presidentes fazendo promessas aos santos em tempo real. Mas poucas crises carnavalescas alcançaram o nível de confusão produzido por um simples centauro quebrado.

Naquela noite, o GRES Vitória Régia organizava os últimos detalhes da concentração quando o carro abre-alas resolveu exercer seu direito constitucional de apresentar defeito mecânico. A alegoria trazia um majestoso centauro, símbolo de força, imponência e outras virtudes mitológicas que desaparecem imediatamente quando uma roda quebra. O desfile estava prestes a começar. O relógio corria. O público aguardava. E o centauro permanecia imóvel, tão útil quanto um submarino atolado no deserto.

Enquanto a equipe de manutenção tentava ressuscitar a alegoria na base da reza, martelo e improviso, as demais alas seguiram ocupando suas posições. Quinze minutos depois, o milagre aconteceu. O carro voltou à vida. Ou quase. Uma multidão começou a empurrá-lo em velocidade máxima para colocá-lo na frente da escola antes que alguém percebesse o atraso. Na dianteira vinham os diretores de harmonia, já em estado de pré-infarto.

– Abram alas, que o centauro vem aí! Abram alas, que o centauro vai passar!

A ordem era clara. Objetiva. Impossível de ser mal interpretada. Ou pelo menos parecia. Foi então que entrou em cena Boca de Bilha.

Toda escola de samba possui uma figura que transforma pequenos problemas em grandes espetáculos. Boca de Bilha era essa pessoa. Integrante da bateria e sempre disposto a colaborar, percebeu a dificuldade dos diretores e resolveu ajudar. O problema é que sua audição, sua interpretação de texto ou sua compreensão da mitologia grega talvez não estivessem funcionando perfeitamente naquele momento. Sem pedir autorização a ninguém, disparou na frente da alegoria empurrando brincantes para os lados como um guarda de trânsito possuído. E começou a berrar:

– Abram alas que o seu Dauro vem aí! Abram alas que o seu Dauro vem aí!

A situação mudou instantaneamente. Porque uma coisa é um centauro. Outra completamente diferente é Dauro Braga. Em poucos segundos, a informação se espalhou pela concentração como fofoca em grupo de família.

– O seu Dauro tá vindo!

– Sai da frente!

– Abre espaço!

– Corre!

Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo. Mas, quando dezenas de pessoas começam a correr e alguém grita o nome de um empresário importante, a reação natural do brasileiro é correr também e perguntar depois. As alas começaram a se deformar. Os brincantes se empurravam. As baianas procuravam abrigo. Os componentes se espalhavam em todas as direções. Parecia uma evacuação de emergência. E no meio daquele pandemônio vinha o pobre centauro, inocente, sendo empurrado por dezenas de pessoas que não entendiam por que a multidão estava fugindo dele.

O mais engraçado é que o próprio Dauro Braga (foto), pai do presidente da escola Darlan Braga, sequer estava envolvido na confusão. Provavelmente encontrava-se em algum ponto da concentração resolvendo problemas infinitamente mais importantes. Mas, por alguns minutos gloriosos, tornou-se involuntariamente uma espécie de força da natureza. Uma entidade tão poderosa que bastava anunciarem sua chegada para multidões abrirem passagem em pânico. Nem Moisés abriu o Mar Vermelho com tanta eficiência. Nem carro de bombeiro. Nem ambulância. Nem procissão.

A simples hipótese de que “seu Dauro vinha aí” produziu resultados muito mais rápidos do que qualquer planejamento de harmonia. No fim, o desfile aconteceu, o centauro ocupou seu lugar e a escola seguiu seu caminho. Mas a verdadeira lenda daquela noite não foi a alegoria mitológica. Foi a descoberta de que, na cabeça de Boca de Bilha, centauro e seu Dauro eram praticamente a mesma coisa. E, pelo comportamento da multidão, talvez o empresário fosse até mais assustador.

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